Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

LITERATURA - CLARISSA PINKOLA ESTÉS

16 de outubro de 2014




Apresento aqui um livro entre aqueles que mais me tocaram, por sua profunda análise do sentimento humano vivido, de forma metafórica, por um pequeno abete, encantado porque um dia pode sair do espaço físico da vida das plantas, para ir conviver com uma família de classe média, em tempos de Natal... 



Clarissa é uma antropóloga e psicanalista reconhecida, e famosa como escritora, especialmente por seu livro de grande sucesso traduzido em diversos países, inclusive no Brasil: Mulheres que correm com os lobosÉ também uma grande contadora de histórias, por herança familiar, como se apresenta quando escreveu o seu livro: O Jardineiro da Alma.  Prefiro a versão apresentada em italiano, pois a versão do livro, em português, infelizmente perde em sensibilidade, poesia e profundidade. 

A história é do seu tio Zavar, mas Clarissa conta também a história do pequeno abeto que nos interessa neste momento. Fiz uma versão livre da história publicada em italiano, mantendo alguns trechos da versão feita pela editora brasileira.

...”Havia um jovem abeto, que embora fosse pequeno de estatura era grande de espírito. Vivia na profundidade de uma floresta e era circundado de árvores muito grandes”. Todo inverno o abeto desejava que o levassem para enfeitar uma casa em tempos de Natal, como acontecia com muitos outros. O abeto vivia sonhando com isso.

Um dia ouviu alguém que passava dizer aos familiares: – “Oh, olhem como são vigorosos os seus ramos”... “Como essa árvore está verde  e fresca”. Assim, ao cair da noite, o trenó com a família e  atrás  o abeto parou diante de uma casa coberta de neve. Um velho e uma velha saíram na neve  e  chegaram junto ao trenó exclamando: “Mas, que belo, que belo este abeto tão alto e frondoso! Ele tem a medida certa. É perfeito”.


“Oh, pensou o abeto, como é bom ser acolhido tão bem”. E quando apagaram as lâmpadas o abeto – que amava a profundidade e a escuridão da floresta – começou a amar também a escuridão da casa. Mesmo estando habituado a contemplar todo o céu noturno cheio de estrelas – e agora só pudesse ver apenas um naco do céu através do pequeno vidro da janela – havia uma estrela que brilhava mais do que as outras. E vendo-a o abeto sentiu que muitas outras coisas bonitas poderiam acontecer. (i)

A cada dia percebemos como é delicada a nossa sensibilidade. E, no entanto, quase sempre não se trata de mudar o nosso mundo ao redor, o lugar onde habitamos, nem o céu a que estamos acostumados a contemplar... A nós nos basta uma simples palavra, uma entonação de voz diferente, um olhar que demonstre que o outro não nos tenha entendido como esperávamos... E escorregamos nos mal entendidos de todos os tons; enfastiamo-nos até mesmo quando o outro não teve a intenção de ferir a nossa sensibilidade.

Não se vê que os fatos não foram intencionais; os sentimentos mudam a depender se alguém acorda com o olhar obscuro sem sequer perceber se está neblinando ou se o sol explode de luz... E não se é capaz de olhar uma bela estrela pela esquadria da janela – como fez o abeto quando o tiraram do campo para ficar na obscuridade de uma casa – ele “que estava habituado a contemplar todo o céu noturno carregado de estrelas”. 

A história conta como o abeto ficou feliz porque, deixando o campo, ia embelezar uma casa. Mas após as festividades em família chegou o momento de levá-lo ao sótão mais alto... E, chegando ali, a árvore se perguntou:

“O que significa toda essa escuridão? ”

O sábio Tio Zovár – que conta essa história à escritora Clarissa Pinkola Estés – “suspirou, o coto do cigarro entre aqueles seus dentes escurecidos: “Ah”, disse, “na história dessa pequena existência, chegamos ao ponto em que a única mudança segura é a certeza de que haverá uma mudança. Entendes o que quero dizer?”  

“Então me lembrei e, abaixando a voz, respondi: “Significa, caro tio, que mesmo quando achamos que estamos seguindo corretamente o mapa...”.  O tio esboçou um sorriso:

“... Se Deus, inesperadamente decide mudar o caminho...”
“ E leva para outra parte nós e o caminho?”.

... “Ai de mim!”  Pensou a árvore...
“O que fiz para ser abandonado em um lugar tão frio e solitário?” (ii)
                                                                 
Após muitos reveses, o abeto termina sua história consumido como lenha e suas cinzas derramadas pelo campo que tanto amava.

–  Ah, de todas essas subidas e descidas e novas subidas é o amor da vida nova e é o seu amor somente que dura e dura. Agora estou em toda parte. Viu como fui longe?” (iii)

Não termina aqui essa maravilhosa história, que nos convida a refletir sobre a nossa adesão ao que a vida nos pede. Thomas Moore comenta: trata-se de uma história que “nasce de antigos ritos familiares e reconhece que a alma não está perdida, mas ficou por algum tempo adormecida...”.  É uma história que “está em total sintonia com o sofrimento da nossa sociedade, mexe com a imaginação e acorda a alma”. (iv)

Os leitores são convidados à leitura deste livro especial e profundo. Há uma razoável tradução brasileira com o título: O jardineiro fiel. Na sua aparente simplicidade, a história do abeto nos fala das coisas mais profundas da vida.

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i) Clarissa Pinkola Estes. Il Giardiniere dell´Anima. Edizione Frassinelli1996 - p.52-60  
ii)  Idem, p. 68/69
iii) Idem. p. 77
iv) In: Il Giardiniere dell´Anima. 2a. capa.



Créditos das imagens: 

1. Casa na neve -  www.canstockprhoto.com.br

2. Árvores e janela - Obra de Iman Malei - Galeria do pintor indiano contemporâneo:  www.imanmamleki.com
3. Árvore de Natal -  www.canstockphoto.com.br


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