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BRASIL - 13 DE AGOSTO - O TSUNAMI DA SOCIEDADE ORGANIZADA

12 de agosto de 2019


      FOTO: LULA MARQUES   

Só um tsunami da educação 
pode destruir o 
atual cenário de ataques


Opinião – CARTA CAPITAL


A onda gigante de defensores da educação pública, gratuita, democrática e de qualidade é uma 
força da natureza que não se pode conter


Por: José de Ribamar Virgolino Barroso

Os geógrafos explicam as tsunamis como ondas descomunais, com grande volume de energia, que ocorrem nos oceanos pela movimentação das placas tectônicas. Tal qual um terremoto, o maremoto tem seu epicentro — isto é, o ponto da superfície terrestre, nesse caso sob o oceano, a partir do qual se irradia — atingido em primeiro lugar e com maior intensidade pelo abalo sísmico.
Não é em vão que o 13 de agosto foi batizado como tsunami da educação. Neste momento de estremecimento — das políticas públicas, dos direitos sociais fundamentais e do próprio Estado Democrático de Direito —, a educação tem sido, de fato, um ponto fulcral a absorver os primeiros impactos que prenunciam a catástrofe. A onda gigantesca de estudantes, professores, técnicos administrativos e defensores da educação pública, gratuita, democrática e de qualidade socialmente referenciada é, portanto, consequência. Mais: é uma força da natureza, que não se pode conter.
No Congresso Extraordinário da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), realizado no fim de julho em São Paulo, apontamos a participação na mobilização do dia 13 como uma das prioridades de nosso plano de lutas. Se mantivéssemos a metáfora das ondas do mar e seu potencial cataclísmico, poderíamos dizer que, nesse volume de reação popular que se levanta, os professores e auxiliares de administração escolar das instituições privadas, que compõem a base da Contee, adensam tanto a base da onda que inundará as ruas quanto fazem crescer sua crista.
Por um lado, o da base, porque fazem parte da ampla parcela da sociedade civil organizada, sobretudo nas entidades educacionais, que defende a educação pública como basilar para um projeto soberano de nação, o qual está sendo fendido pelos tremores — e terrores — postos em prática pelo atual governo. Por outro, o da crista, porque é justamente uma antiga bandeira da Contee que precisa estar no auge das mobilizações para enfrentar os atuais ataques: a luta contra a mercantilização, financeirização, oligopolização e desnacionalização do ensino, visando a atender os interesses privatistas — que, não por acaso, estão dentro do próprio Ministério da Educação.
Faz-se imprescindível, como se vê, que inundemos as ruas, a exemplo das grandes mobilizações que realizamos nos dias 15 de maio (na greve nacional da educação), 30 de maio (com os atos convocados pelo movimento estudantil em defesa da educação pública) e 14 de junho (na greve geral da classe trabalhadora contra a reforma da Previdência).
Que seja, sim, uma tsunami a destruir o atual cenário de ataques e que, depois dela, um outro projeto de educação (pública, gratuita, laica, inclusiva, crítica, de qualidade, acompanhada da regulamentação do ensino privado) se construa.
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*José de Ribamar Virgolino Barroso é coordenador da Secretaria de Finanças da Contee

Fonte do artigo:

LIDERANÇAS POLÍTICAS REAGEM À ARBITRARIEDADE CONTRA O EX-PRESIDENTE LULA

8 de agosto de 2019



Deputados representantes de 11 partidos foram ao STF protestar, após  o  anúncio da transferência do ex-presidente Lula para Tremembé, no interior de São Paulo. Foto de Kelli Kadanus /Gazeta do Povo


Lideranças políticas de diferentes partidos se mobilizaram tempestivamente para uma reunião com o presidente do STF, Dias Toffoli, após receberem a informação de que a juíza Carolina Lebbos determinara a transferência do ex-presidente Lula para uma penitenciária coletiva na cidade de Tremembé, no interior de São Paulo. O foco da comitiva parlamentar foi evitar que fosse feita a transferência do ex-presidente Lula, uma vez que ainda seria discutido, no STF, um pedido de Habeas Corpus impetrado por seus advogados.

A reunião fora agendada pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia, que enviou um seu representante – o deputado Marcos Pereira, do PRB, dado que se estava votando, na Câmara, a reforma da Previdência. Estiveram presentes líderes partidários da CIDADANIA e do MDB, Paulinho da Força (SD), Welligton Roberto (PL), Arthur Lira do (PP), e deputados do PCdoB, PSB, PSD, PRB, PSOL e Benedita da Silva (PT). Também participaram da comitiva a deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o professor Fernando Haddad (PT) e o presidente da comissão da reforma da Previdência, deputado Marcelo Ramos (PL).

A decisão da juíza Carolina Lebbos, de determinar a transferência de Lula foi anunciada na manhã de ontem (dia 7/08) e foi tema dominante nas discussões da Câmara. Com a notícia da transferência do ex-presidente Lula, os deputados abandonaram a votação dos destaques à reforma da Previdência, e às 15h15 seguiram em marcha para o STF.

Essa informação tomou conta dos diários impressos e da mídia digital, em diferentes portais e no YouTube. As informações acima foram dadas pela “Gazeta do Povo”. A seguir, publicamos uma reportagem do jornal El País do Brasil de hoje, 08.08.2019.

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Sob pressão, STF dá primeira
decisão favorável a Lula
e o mantém preso em Curitiba

 Plenário suspende transferência do ex-presidente Lula para São Paulo, autorizado na manhã desta quarta, 7/08, pela juíza federal Carolina Lebbos. A mobilização de apoio dos parlamentares ao ex-presidente congregou até parlamentares aliados de Rodrigo Maia.



El País - São Paulo


A novela envolvendo a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva teve mais um eletrizante capítulo em que nada aconteceu: terminou — mais uma vez — com o ex-presidente sendo mantido preso na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba, onde está desde 7 de abril de 2018. Na manhã desta quarta-feira, 7 de agosto, a juíza Carolina Lebbos determinara a transferência do petista para um presídio do Estado de São Paulo para que continuasse cumprindo sua condenação por corrupção pelo caso triplex, no âmbito da Operação Lava Jato. Acionado pela defesa, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu em plenário, já no fim da tarde, manter o petista em Curitiba. Entre as várias horas que separam uma decisão da outra pairou — mais uma vez — a incerteza sobre o destino do ex-presidente.

O juiz Paulo Eduardo de Almeida Sorci, de São Paulo, foi quem deu o segundo lance do dia, ao autorizar no início da tarde a transferência de Lula para a Penitenciária II de Tremembé, no interior do Estado. A decisão desagradou à defesa, que não queria que o petista ficasse em uma penitenciária comum. Viu-se obrigada — mais uma vez — a correr contra o tempo para tentar suspender a decisão no STF. Dessa vez deu certo: por dez votos a favor e um contra, a maioria dos ministros seguiu o voto do relator Edson Fachin e a orientação da procuradora-geral Raquel Dodge de congelar a transferência do ex-presidente até que a Corte analise um habeas corpus pedido pela defesa. Seu julgamento na segunda turma do Supremo foi suspenso antes do recesso de julho. A divergência veio do ministro Marco Aurélio. Ele argumentou que o recurso da defesa deveria tramitar pela segunda instância da Justiça. Lembrou ainda que era o mérito do habeas corpus em questão, que pede pela liberdade do ex-presidente, que deveria ser julgado.

Deputados vão ao Supremo Tribunal Federal para falar com Dias Toffoli sobre a transferência de Lula de:LULA MARQUES, no El País.


Foi também dessa vez que a pressão política sobre o STF ganhou novos atores e se mostrou evidente como nunca. A transferência de Lula acabou se tornando assunto constante na tribuna da Câmara dos Deputados, que votava os destaques da reforma da Previdência. Até mesmo deputados do Centrão e do PSDB consideraram a decisão da juíza uma "perseguição". O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também mostrou seu desacordo e se colocou à disposição da bancada do PT. “De fato, não é uma decisão simples, é uma decisão extemporânea. Aquilo que a presidência da Câmara puder acompanhar com a bancada do PT, estamos à disposição para que o direito do ex-presidente seja garantido”, afirmou.

Dito e feito. Maia entrou em contato com o presidente do Supremo, Antonio Dias Toffoli, e conseguiu que o ministro se reunisse com deputados em uma audiência na Corte. Sentado em uma cadeira e rodeado por 70 parlamentares de 12 partidos, prometeu que o caso seria analisado com rapidez nesta mesma quarta.

"É significativo, porque não estou recebendo alguns parlamentares, estou recebendo lideranças de vários partidos. Não lembro de ter havido um momento assim, com tantos parlamentares com visões diferentes da política, da sociedade e do mundo", afirmou um Toffoli surpreso e pressionado. A imagem do presidente da Corte rodeado de parlamentares tornou-se emblemática.

Àquela altura o advogado Cristiano Zanin Martins já havia apresentando um recurso endereçado ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, no âmbito do pedido de habeas corpus 164493, que trata da suspeição do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro. O julgamento foi suspenso pela segunda turma do STF — que decidiu nada decidir — antes do recesso e deverá ser retomado em breve. Assim, Martins solicitou a Gilmar, em primeiro lugar, que a "liberdade plena" fosse concedida ao ex-presidente. Mas, caso não fosse possível, que ao menos fosse transferido para uma sala de Estado Maior, por entender que Lula goza de direitos e prerrogativas por ser um ex-presidente da República. Por fim, se nem isso fosse possível, a defesa pedia que a transferência fosse suspensa de vez até o julgamento final do pedido de suspeição do ex-juiz Sergio Moro — o que poderia anular a sentença.

Aliás, o pedido foi na linha do que o próprio Martins já havia solicitado no mês passado, após uma petição feita pela Superintendência da Polícia Federal de Curitiba para que Lula fosse transferido, sob o argumento de que o local não possui as condições adequadas para que petista continue cumprindo sua pena. Também citou os transtornos causados por grupos antagônicos para os moradores da região e alegou que suas estruturas só possuem instalações para presos provisórios. Assim, diante do risco iminente de que Lula fosse transferido durante o recesso do Supremo, a defesa pediu que se esperasse a decisão sobre o habeas corpus. Uma solicitação que a juíza Lebbos, afirmando também estar acolhendo um pedido de transferência anterior feito pelos próprios advogados do petista, decidiu ignorar.

Ela também ignorou os pedidos feitos para que Lula tivesse direito a uma sala de Estado Maior ou, na sua falta, a prisão domiciliar. Argumentou que não cabia prisão especial para Lula por se tratar de uma "prisão decorrente da execução provisória de pena". Isto é, apesar de já cumprir pena, após condenação em segunda instância, o caso triplex ainda precisa passar pelo Supremo Tribunal de Justiça para transitar em julgado. "Portanto, embora o ordenamento jurídico brasileiro contemple hipóteses de recolhimento em prisão especial ou Sala de Estado Maior, essas se restringem à prisão processual. Não há previsão em tal sentido concernente à prisão para cumprimento de pena, decorrente de condenação criminal confirmada em grau recursal", disse a juíza em sua decisão.

Por fim, o juiz corregedor Paulo Eduardo de Almeida Sorci, do departamento estadual de execução criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo — e também convidado por Sergio Moro para integrar o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária —, decidiu enviar o ex-presidente para o presídio de Tremembé. Com uma estrutura considerada exemplar, diferente das superlotadas prisões brasileiras, o lugar é conhecido por receber detentos famosos, como Alexandre Nardoni (condenado pelo assassinato da filha dele, Isabella); Gil Rugai (ex-seminarista condenado pelas mortes do pai e da madrasta); e Cristian Cravinhos (condenado por participar dos assassinatos dos pais de Suzane Von Ritchthofen), entre outros.

A crescente grita de políticos, e não só de aliados óbvios, ao longo da tarde enquadrando a medida como uma espécie de retaliação da Operação Lava Jato e, mais especificamente, da Polícia Federal, subordinada ao ministro da Justiça Sergio Moro, só se acalmou quando veio a decisão do STF para deixar tudo como está. O ambiente, no entanto, segue com altas temperaturas que não devem arrefecer tão rápido. Os protagonistas da Lava Jato estão sob pressão desde que o portal The Intercept começou a divulgar em junho, em parceria com outros meios de comunicação, inclusive o EL PAÍS, mensagens privadas de Moro e procuradores. 

Em seu argumento para votar contra o congelamento da transferência de Lula, o ministro Marco Aurélio divergiu de seus colegas dizendo que o pedido da defesa do petista deveria tramitar pelas instâncias inferiores da Justiça, e não saltar de cara ao STF. Marco Aurélio lembrou que era o mérito do habeas corpus para Lula, congelado, que deveria ser julgado. É neste último ponto que os holofotes devem se concentrar agora: a pressão pela conclusão do julgamento.

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Fontes das publicações:

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/deputados-pt-marcha-stf-lula/
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BRASIL - DEMOCRACIA E VERTIGEM - O DOCUMENTÁRIO

13 de julho de 2019


Cada pedaço de 'Democracia em Vertigem' é um golpe no estômago,
que estremece o espectador. 

Várias obras já foram produzidas sobre o impeachment da ex-presidente Dilma e a Operação Lava Jato; no entanto, nenhuma delas tentou ir tão fundo na perfuração das camadas sobre as quais se construiu a trajetória recente do país.



O documentário “Democracia em Vertigem” não é para corações e mentes desavisados. Cada pedaço da narrativa é um golpe no estômago, flertando com a tessitura de uma tragédia shakespeariana.
Emociona e estremece o espectador como uma ficção do melhor cinema, mas sua matéria-prima e linguagem são forjados pela realidade mais bruta. O tempo voa, o ritmo é contagiante, levando a um estado de exaustão, dor e perplexidade frente à decomposição nacional.
Várias obras já foram produzidas sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato. Nenhuma delas, no entanto, tentou ir tão fundo na perfuração das camadas sobre as quais se construiu a trajetória recente do país.
                                                                                                Manifestação de apoio ao ex-presidente Lula, antes da sua prisão

Democracia em Vertigem” é um libelo contra o desmoronamento de um sonho de liberdade e justiça, mas nenhum dos personagens, incluindo as vítimas centrais desse terremoto político, foi poupado pela documentarista. Suas cenas revelam o composto de mesquinhez, mediocridade e cobiça dos sujeitos que tramaram a derrubada de uma presidente legítima, sequestraram o sistema judicial e viraram a mesa para voltarem a imperar. Expõem igualmente possíveis erros e fragilidades das lideranças petistas que simbolizavam um novo mundo possível.
Petra Costa conduz seu trabalho a partir de uma opção corajosa como narradora. Deixa claro que tem lado na história, ao melhor estilo do documentarista holandês Joris Ivens e do chileno Patricio Guzmán. Os fatos são costurados a partir de olhares pessoais e experiências familiares, expectativas e frustrações, com honestidade à flor da pele.
Pais de esquerda, avô empreiteiro, a diretora escancara antecedentes. Seu depoimento, intenso e direto, vai fundindo imagens, entrevistas e resgates factuais. Voz mineira, despida de arrogância, conquista naturalmente a empatia dos espectadores.
Bem editado, com inéditas cenas de bastidores assinadas por Ricardo Stuckert, o documentário tem momentos estonteantes. Alguns desses se referem à vulnerabilidade do petismo frente à revolta previsível das famílias que mandam no dinheiro grosso.
Destaca-se a entrevista de Gilberto Carvalho, um dos mais próximos assessores de Lula, reconhecendo que o PT deixou-se sequestrar pelo velho sistema político, sem força e vontade para rompê-lo, abandonando o veio original da organização e mobilização do povo.
Também interessante é ouvir o ex-presidente Lula se arrependendo de ter postergado a regulação dos meios de comunicação. Coube à cineasta, enfim, levar ao grande público algumas das clamadas autocríticas petistas.
Lula e Dilma não são idealizados. Ao contrário, recebem críticas ácidas por várias de suas decisões. Certos diálogos e recortes indicam incríveis ilusões, quase ingênuas, anti-históricas, com o comprometimento democrático das oligarquias. Pode-se questionar o tratamento superficial a determinadas passagens. Faz parte. Sua pegada é a de um registro autoral e sintético sobre uma nação que subitamente se perdeu, quando o partido da casa grande decidiu expulsar do poder os inquilinos migrados da senzala.
Tudo fica mais triste e chocante quando tamanha regressão é condensada em pouco menos de duas horas. Esse retrato de uma ferida em carne viva provoca sofrimento, raiva e vergonha. Oxalá ajude a alimentar algum sentimento de revolta, sem o qual jamais os povos dão a volta por cima.

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Sobre o filme da cineasta Petra Costa, a redação de Opera Mundi nos traz as primeira reações positivas também fora do Brasil.
'Democracia em Vertigem' entra na lista do New York Times dos melhores filmes de 2019

Com avaliações positivas de diversos críticos de cinema internacionalmente, o longa de Petra Costa vem sendo cotado com um dos filme favoritos para o Oscar. 
                                        

O  documentário Democracia  em  Vertigem”, da diretora Petra Costa, apareceu entre os melhores filmes de 2019 até agora em lista elaborada pela editora de cinema do jornal norte-americano New York Times, Stephanie Goodman, publicada em 27/06.

Democracia em Vertigem” aparece entre as oito produções escolhidas por Goodman. Ao lado do longa de Petra Costa estão grandes produções como o “Rolling Thunder Revue”, documentário de Martin Scorcesse sobre turnê de Bod Dylan, e “Fora de Série”, dirigido por Olivia Wilde.


Com avaliações positivas de diversos críticos de cinema internacionalmente, “Democracia em Vertigem” já vem sendo cotado com um dos favoritos para o Oscar de melhor documentário. Em avaliação de A. O. Scott para o jornal norte-americano, destacada por Goodman, o longa é “uma crônica de traição cívica e abuso de poder e, também, de mágoa” sob uma visão “incrédula, indignada e auto-questionadora”.


Com avaliações positivas de diversos críticos de cinema internacionalmente, longa de Petra Costa vem sendo cotado para o Oscar – Foto Reprodução

Lançado mundialmente em 19 de junho deste ano Democracia e Vertigem, o documentário, emocionou diversos espectadores e gerou revolta de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que atacaram a plataforma de streaming Netflix, onde o filme está hospedado. A trama narra os bastidores do golpe que derrubou a ex-presidente Dilma Rousseff, da prisão do ex-presidente Lula e da ascensão de Sérgio Moro e Jair Bolsonaro ao Planalto.
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Fonte do artigo: Redação Opera Mundi - São Paulo - 27.07.2019

https://operamundi.uol.com.br/cultura/59204/democracia-em-vertigem-entra-na-lista-do-new-york-times-dos-melhores-filmes-de-2019

Foto da cineasta Petra Cosa - reprodução.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor fale conosco, enviando um comentário nesta postagem. 



CARTA DO 1º CONGRESSO IGREJAS E COMUNIDADE LGBTI+

7 de julho de 2019

                                   Documento denuncia exemplos de exclusão e silenciamento contra LGBTI+                                                                   Foto de: Júlio César Silva - Divulgação Koinonia


O 1º Congresso entre pessoas de Igrejas e Comunidades LGBTI+ e de outras expressões de gênero – que foi anunciado neste espaço – foi realizado nos dias 19 a 23 de junho, na cidade de São Paulo. Os participantes produziram e divulgaram um documento – denominado CARTA DE SÃO PAULO – que reivindica um olhar dialogal mais atentivo, inclusivo e fraterno para questões não só atinentes ao campo das diferentes expressões da sexualidade humana, mas ainda às políticas públicas do país e às questões normativas e "exemplares" das Igrejas Cristãs.

Após quatro dias de diálogos, debates e apresentação de experiência foi emitido um expressivo documento que expõe “um sistema que tem produzido exclusões, apagamentos, sofrimentos, violências e mortes,” e afirma que as mortes de pessoas LGBTI+ e de outras expressões de gênero “no Brasil e na América Latina, estão atravessadas pela teologia cristã hegemônica.

Entre as graves denúncias da Carta, afirma-se que “muitas comunidades de fé, sobretudo entre as cristãs, tenham se tornado espaços de silenciamento, opressão, humilhação, exclusão e abuso espiritual, psíquico, econômico e sexual. Máximas como “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado” e “macho e fêmea os criou” são frequentemente utilizadas para produzir medo, vergonha, culpa e silenciamento.” 

A Carta ainda chama a atenção para o fato de que as Comunidades LGBTI+ e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, “têm direito a ser respeitadas, acolhidas, reconhecidas, e a participar plenamente da vida de fé de suas comunidades religiosas assumindo, inclusive, lugares de tomada de decisão e posições de ministérios, pastorais, liderança e protagonismo. Esse direito não é exclusivo de homens cisgênero [pessoa que se identifica com a sua constituição hormonal e genital de nascença] e de pessoas heterossexuais e brancas.

O documento é assinado por pessoas ligadas a 57 instituições religiosas, “não igrejeiras”, ateístas e participantes de organizações tais como o Movimento Negro, a CPT - Comissão Pastoral da Terra, a Pastoral da Juventude Rural, a Koinonia e outras. Veja abaixo a reportagem da CPT Nacional sobre o evento. 

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1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ publica carta aberta à sociedade



Por: Mário Manzi - Assessoria de Comunicação da CPT Nacional
Realizado entre os dias 19 e 23 de junho na cidade de São Paulo, o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ divulgou na quarta-feira, 26 de Junho, carta aberta à sociedade. O documento político traz como proposta a afirmação de “pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero” frente às religiosidades e comunidades de fé, além de denunciar experiências de exclusão contra essas pessoas. A carta foi elaborada durante o Congresso e minuciosamente avaliada coletivamente durante plenária, ao fim das mesas e oficinas. Leia abaixo a Carta na íntegra:
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                         CARTA DE SÃO PAULO
         1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+
Diálogos Ecumênicos para o Respeito à Diversidade


Nós, pessoas reunidas no 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+, realizado na cidade de São Paulo, na Paróquia da Santíssima Trindade da Diocese Anglicana de São Paulo/IEAB, entre os dias 20 a 22 de junho de 2019, e coorganizado por Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, produzimos a seguinte Carta de São Paulo:
Afirmamos que pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa têm direito de buscar a Deus, o sagrado, a espiritualidade, a fé, a verdade, o amor em qualquer espaço religioso, principalmente em suas tradições de origem. Esse direito não é exclusivo das pessoas cisgênero, heterossexuais e brancas.
Afirmamos que as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, têm direito a ler, estudar, interpretar a Bíblia e outros textos sagrados e produzir teologia, em diálogo com suas comunidades, com sua história, com suas leituras de realidade, suas experiências de vida, fé, sofrimento, alegria e esperança. Esse direito não é exclusivo de homens cisgênero e de pessoas heterossexuais e brancas.
Afirmamos que as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, têm direito a ser respeitadas, acolhidas, reconhecidas, e a participar plenamente da vida de fé de suas comunidades religiosas assumindo, inclusive, lugares de tomada de decisão e posições de ministérios, pastorais, liderança e protagonismo. Esse direito não é exclusivo de homens cisgênero e de pessoas heterossexuais e brancas.
Constatamos e lamentamos que muitas instituições têm sido cúmplices e que a linguagem religiosa tem sido apropriada para constituir, reproduzir e perpetuar o sistema cis-heteronormativo de controle dos corpos e subjetividades. Um sistema que tem produzido exclusões, apagamentos, sofrimentos, violências e mortes. As mortes de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, mas sobretudo de travestis, transexuais, pessoas não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, no Brasil e na América Latina, estão atravessadas pela teologia cristã hegemônica.
Lamentamos e denunciamos que muitas comunidades de fé, sobretudo entre as cristãs, tenham se tornado espaços de silenciamento, opressão, humilhação, exclusão e abuso espiritual, psíquico, econômico e sexual. Máximas como “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado” e “macho e fêmea os criou” são frequentemente utilizadas para produzir medo, vergonha, culpa e silenciamento. Discursos e práticas como essas têm contribuído para produzir relações familiares violentas, sofrimento psíquico e, no limite, muitos casos de depressão e suicídio entre pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e de outras expressões de gênero, especialmente negras, pobres e de territórios vulnerabilizados.
Lamentamos e denunciamos que, como estratégia para alcançar representatividade, muitas lideranças políticas e midiáticas do campo religioso, sobretudo entre cristãos, estejam se apropriando e instrumentalizando o imaginário e a linguagem religiosa e teológica para produzir e disseminar pânico moral, ressentimento, medo e ódio a partir de expressões como “ideologia de gênero” e reforço da “hombridade”. Esse modelo de atuação política, além de trair os próprios princípios éticos cristãos e de diversas religiões, tem produzido a fragmentação e a destruição de relações em muitas famílias e comunidades de fé. Também tem produzido um efeito perverso de negação de direitos fundamentais de proteção e de cidadania de diversas populações vulnerabilizadas e estigmatizadas. 
Uma das faces mais perversas desse problema tem sido a negligência diante de questões de saúde pública, tais como a prevenção e tratamento do HIV/aids e mortes evitáveis por abortamento inseguro, além de incentivo à busca por reorientação sexual e de reversão de cirurgias de redesignação sexual. Outro grave efeito tem sido a desarticulação de políticas públicas de educação voltadas para o combate à violência e à discriminação relacionadas a gênero e orientação sexual.
Lamentamos e denunciamos que a linguagem religiosa e teológica venha sendo instrumentalizada, especialmente entre cristãos, para justificar e promover o racismo religioso e a desumanização de populações negras, povos e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas, moradores de periferias urbanas, camponeses, imigrantes, refugiados, mulheres, LGBTQIA+ e outros grupos vulnerabilizados. Essa desumanização tem sido a base para a necropolítica, materializada em processos de exclusão, invisibilização, miserabilização, violência e extermínio dessas populações. Uma das faces mais perversas desse problema tem sido os ataques violentos a comunidades tradicionais de matriz africana e indígena, igrejas inclusivas e outros templos e espaços religiosos não cristãos.
Lamentamos que muitas vezes lideranças religiosas que têm assumido compromissos com o acolhimento, o apoio pastoral e a defesa dos direitos das populações LGBTQIA+ e outras comunidades vulneráveis estejam sendo perseguidas, excluídas e/ou silenciadas em suas comunidades de fé e denominações religiosas de origem.
Vemos com alegria e esperança a existência e o surgimento de novas comunidades de fé que têm assumido a responsabilidade de acolher e de tornar-se espaços seguros para a celebração, a partilha e a vivência da fé de pessoas LGBTQIA+ e assumido compromissos no combate ao sexismo, às desigualdades de classe e ao racismo. Afirmamos a importância de valorizar, visibilizar e fortalecer a atuação dessas comunidades, bem como celebrar as gerações que nos antecederam na luta pelos direitos de LGBTQIA+ e abriram caminhos para que novas formas de luta e de acolhimento pudessem se tornar realidade.
Enfatizamos, todavia, que não é suficiente o mero acolhimento formal das pessoas LGBTQIA+. É necessário desenvolver comunidades seguras, que não reproduzam modelos de exclusão, invisibilização, silenciamento, abuso e violência espiritual, simbólica, psicológica, sexual, econômica e física e que criem condições para a cura e a reconciliação diante desses processos.
A luta pela inclusão e reconhecimento das pessoas LGBTQIA+ contra o modelo religioso cis-heteronormativo, classista, racista e misógino não é uma necessidade e um tema que diz respeito somente às pessoas LGBTQIA+ e de populações vulneráveis. É uma luta que diz respeito a todas as pessoas de fé e é um elemento central da mensagem cristã e diversas outras religiões: a reconciliação das pessoas com Deus/sagrado, consigo mesmas, com seus corpos, com as outras pessoas e com a realidade. A homolesbifobia é um problema das pessoas heterossexuais; a transfobia é um problema das pessoas cisgênero; o sexismo é um problema dos homens; a injustiça social é um problema dos ricos e o racismo é problema das pessoas brancas.
É necessário, especialmente entre as pessoas cristãs, recuperar a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo do amor radical e transformador; confrontar os modelos religiosos do legalismo e da exploração da culpa, do ressentimento, do medo e do ódio. O caminho a ser seguido passa necessariamente pelo desafio de desenvolver novos modelos de vivência comunitária da fé, baseados na esperança, na amizade, na criatividade, na beleza e na busca pela construção de uma nova realidade a partir do horizonte do amor, paz, solidariedade e justiça.
Oramos para que o sopro renovador do Espírito Santo e a força da fé inspirem e restaurem o nosso tempo. Convidamos todas as pessoas que partilham desse sonho a participar da construção dessa realidade!
Esta carta foi construída por pessoas presentes ao Congresso e que se identificaram a partir das seguintes tradições, denominações e afiliações religiosas e não religiosas, que não necessariamente representam o pensamento oficial de cada uma das instituições:
Aids Healthcare Foundation – AHF Brasil
Aliança de Batistas do Brasil
Anglicanxs – Catedral Anglicana da Santíssima Trindade – PoA/RS
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Associação Hikari
Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)
Caminho da Graça
Catedral Anglicana do Bom Samaritano-Diocese Anglicana do Recife
Católicas pelo Direitos de Decidir-CDD
Centro de Estudos Bíblicos- CEBI
Centro de Estudos Anglicanos- CEA
Centro Espírita Kardecista
Comissão LGBT do MST
Comissão Pastoral da Terra- CPT
Comunidade Anglicana Redenção – Diocese Anglicana no Brasil
Comunidade Cristã Nova Esperança- CCNE da Vila Mariana
Comunidade de Vida Cristã do Brasil – CVX Brasil
Comunidades Tradicionais de Religião de Matriz Africana - Ilê Axé Omó Nanã; Ilê Asé Iyalode Oyó; RENAFRO-SP
Diversidade Católica – Rio de Janeiro; Campinas; São Paulo
Evangélicas pela Igualdade de Gênero – EIG
Evangelicxs pela Diversidade
Fé, Família, Igualdade – A Mesa-Redonda Latinx
Féministas
Força Tarefa Jovens Lideranças
Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito
Grupo de Ação Pastoral da Diversidade (GAPD)
Igreja Adventista do Sétimo Dia
Igreja Batista
Igreja Batista do Caminho
Igreja Betesda
Igreja Católica Apostólica Romana-ICAR
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil- IEAB
Igreja Evangélica
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil-IECLB
Igreja Metodista do Brasil-IMB
Igreja Metodista Unida
Igreja Pentecostal
Igreja Presbiteriana do Brasil-IPB
Igrejas da Comunidade Metropolitana – ICM Brasil
Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT)
Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço
Mães pela Diversidade
Missão One Heart for Healing
Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST
Movimento Negro Evangélico de Pernambuco
Movimento Pastoral LGBT “Marielle Franco” – MOPA
Paróquia da Santíssima Trindade-Diocese Anglicana de São Paulo
Pastoral da Juventude Rural
Pessoas “desigrejadas”
Pessoas sem religião
Raiwbow Sangha
Rede Ecumênica da Juventude – REJU
Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT
Scottish Episcopal Church
The Episcopal Church - USA
UMForward
We Are Church – São Paulo

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Imagem de: Julio Cesar Silva - divulgada na publicação original.

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