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JOSÉ MARIA PIRES - ZUMBI, OLORUM, OXALÁ !

29 de agosto de 2017

Passei alguns dias pensando que estava mais que na hora de ir fazer uma visita a Dom José Maria Pires, em Belo Horizonte – um bispo irmão e amigo, que era chamado, carinhosamente Dom Zumbi, o arcebispo negro das Minas Gerais. 

Agora, não precisa que eu viaje mais, porque dia 27 passado – após uma longeva vida pastoral e profética de instigante dedicação – ele foi chamado a mudar-se para outra morada, aos 98 anos. Imagino Dom Hélder (o Dom) abrindo a porta para recebê-lo:  Axé, Zumbi! Pode entrar companheiro e amigo de todas as horas! E nós, aqui, felizes por tê-los agora em companhia, a cuidar de nossa caminhada. 

Dom José, além de ter sido uma pessoa de inteligência aguçada e ativa, era pessoalmente comprometido com as comunidades empobrecidas, como escolha primeira.  

A sua interação dialogal de gestos e propósitos com o seu irmão arcebispo Dom Hélder Câmara era evidente, como eram evidentes as suas diferenças individuais.  Havia entre os dois uma extrema confiança fraterna, pois enfrentaram juntos a ditadura que vigorava então. 

Uma características muito especial de Dom Zumbi era saber escutar, que, na verdade era também característica de Dom Helder. Ambos eram exímios ouvintes. Eu, que por muitos anos participei das reuniões dos bispos da região, admirava vivamente essa fraterna capacidade de escuta, que ainda hoje me estimula a exercitá-la. 





Da minha janela de observação, Dom José Maria Pires também estava muito atento que a presença da mulher na Igreja fosse respeitada e acolhida, e a estimulava no povo que seguia,  nas atividades das Cebs, na comunicação com as religiosas e nas disposições pastorais da CNBB do Nordeste II.  

Conservo a memória do seu testemunho concreto de fraterna convivência também no trabalho. Encontrava-o com frequência, pois passei dez anos como secretária da presidência da CNBB-NE II. Lembro vivamente uma ocasião em que uma pessoa fez uma denúncia equivocada contra mim, aproveitando-se de uma reunião de assuntos financeiros - da qual eu não participei - na qual se havia estabelecido um acordo de que todos manteriam total reserva sobre os assuntos tratados. Após a reunião Dom José me ligou e me comunicou o que fora referido sobre mim, dizendo-me que tratasse de levar testemunhas na próxima reunião, e que eu podia informar a todos que ele me havia contado o ocorrido. A questão foi esclarecida com a confissão do delator de que inventara a denúncia no desejo de me prejudicar. 


Depois que Dom José voltou para Minas o reencontrei uma vez na Itália, não recordo a data, mas certamente a ocasião. Sei que se preparava para fazer o caminho de Santiago de Compostela. Por coincidência ambos tínhamos ido visitar os pais de Dario Vaona, em Verona, um jovem sacerdote italiano que colaborara com ele na arquidiocese da Paraíba. Ali, percebi melhor a sua capacidade de celebrar a vida a amizade e a fraternidade. Francesco, o pai de Dario, era um cultivador de vinhas e tinha uma excelente adega. Naquela noite, convidou Dom José para ir com ele ao sótão da casa, para escolher o vinho do jantar. Francesco apresentou a Dom José os vinhos mais preciosos que maturavam em sua adega, e fez questão de lhe entregar o melhor que havia, para comemorar a sua presença em sua casa, e a do padre Dario, seu filho. Dom José aceitou a oferta, tomou a garrafa em suas mãos levando-a solenemente, e subiu as escadas cantando como fosse uma grande celebração.  

É assim que o vejo agora. Celebrando. Comemorando a sua chegada lá onde a Graça e a Vida agora o acolhe. De minha parte, nesse momento de emoção, agradeço à Vida por ter encontrado um amigo tão precioso, que testemunhava a carícia do afeto de que fala o teólogo e escritor Leonardo Boff.

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Para que se possa conhecer melhor a travessia de  
Dom José Maria Pires,  reproduzo a entrevista que foi dada a Leoni Alves Garcia e publicada no jornal online O Povo, em 22/06/2015, tendo sido republicada na página da Cebs do Brasil. Segue a entrevista. Os negritos do texto são nossos.


Sua mãe tinha sangue africano e cigano. O pai veio de família portuguesa. Na trajetória em defesa dos negros e oprimidos, dom José Maria Pires também ficou conhecido como dom Pelé e dom Zumbi. Aos 96 anos, o arcebispo emérito da Paraíba viaja pelo País para falar do Concílio Vaticano II, encerrado em 1965. É dos poucos padres conciliares vivos no Brasil. Nascido em Minas Gerais, uniu a calma do mineiro à franqueza do nordestino para defender os mais pobres durante a ditadura militar. Teve no cearense dom Helder Câmara um amigo pessoal e aliado na luta pelos direitos humanos. Em entrevista ao O POVO, relembra o pacto firmado pela Igreja em alcançar os mais fracos e perseguir a simplicidade. Depois de 50 anos da última conferência, vê que é preciso uma conversão à mensagem do concílio.
  – De onde vêm os apelidos de dom Pelé e dom Zumbi?
Dom José Maria Pires –
 Quando fui ordenado bispo, em 1957, eu era o único bispo negro no episcopado brasileiro. Foi a época em que Pelé estava no auge, jovenzinho. Numa das nossas reuniões, entrei um pouquinho atrasado com outro bispo. Quando entrei, eles disseram: “Feola (Vicente Feola, ex-jogador da seleção brasileira), que era um gorducho, e Pelé”. Então começaram a me chamar de Pelé.
– E o Zumbi veio como?
Dom José –
 Zumbi foi na Serra da Barriga (Alagoas), no centenário da abolição
 da escravatura. Nós fizemos uma romaria até a serra, que era a sede do Quilombo dos Palmares. Aí dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito de São Félix do Araguaia) diz: “Olha, Zé Maria. Pelé não faz nada pelos negros. Você vive lutando pela negritude. Então vamos mudar seu nome de Pelé para Zumbi porque ele também deu a vida pela negritude”. A partir daí me chamaram de dom Zumbi.
– E estes apelidos agradam?
Dom José –
 Não, para mim é indiferente. Uns me chamam de José, outros de Zé Maria. Eu respondo por tudo isso (risos).
– O senhor entrou para o seminário ainda novo?
Dom José – Eu fiz 12 anos já no seminário. Naquele tempo, a gente terminava a escola primária e entrava logo no seminário. Toda a parte do ginasial a gente já fazia lá.
– Neste início dos estudos, como um menino negro e de origem humilde, o senhor enfrentou dificuldades ou discriminação?
Dom José – 
A gente nem achava que era discriminação. Minas Gerais tem uma população de negros muito alta. Por ter sido terra de mineração, sobretudo de diamante, então foram multidões de escravos para lá trabalhar na terra. E o negro lá é coisa normal. Agora, realmente os brancos fazem a sua acepção e sua distinção. Por exemplo, no meu primeiro ano de seminário, com 12 anos, tive um desentendimento com um colega meu. Nós brigamos, veio o responsável, nos separou e nos colocou de castigo. Ficamos de joelhos no corredor. Aí passou o diretor da casa, nos viu ali e chamou o responsável. “O que esses meninos fizeram?”. Disse: “Eles brigaram”. Aí o diretor: “Esse aqui é um menino muito bom, de boa família. Esse negro que não presta” (risos). A visão era essa e nós aceitávamos. A gente achava que negro era inferior. Só depois é que a gente veio ver que não era bem assim. Negro é diferente. Ele não é nem superior nem inferior, é diferente.
– Em 1965 você foi transferido para João Pessoa. Entrar em contato com as pessoas, na Paraíba, trouxe mais a visão de uma Igreja voltada para os pobres? Ou isso já fazia parte do seu trabalho em Minas Gerais?
Dom José – Fazia em parte. Porque naquele período havia uma distinção social muito forte entre Minas Gerais, que estava no Sul, e o Nordeste. Mineiro é muito calmo, retraído. É uma diferença marcante. Já o nordestino, é tudo amplo… Você chega e conversa com ele meia hora e você já sabe a vida toda dele. E houve um problema na Igreja no Nordeste porque, ainda durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), houve uma divisão muito grande em algumas dioceses. Uma delas foi a da Paraíba. O clero estava dividido, quase na metade. O arcebispo tinha 62 anos, mas estava sem condições de trabalhar. Então era necessário providenciar alguém que fosse novo e tivesse condições de enfrentar aquela situação.
– Que divisão era essa? Eram duas visões distintas de igreja?
Dom José – O Concílio Vaticano II projetou uma nova imagem de igreja e uma nova imagem do padre. Antes, o padre andava de batina, celebrava a missa e fazia batizado em latim. Devia ser um sujeito bem afastado, celebrava de costas para o povo. O Concílio projeta uma imagem diferente. É aquele que é social, conversa com todo mundo, se aproxima. Então um grupo de padres mais velhos fica nesse rito antigo, os padres mais novos não. Então dá uma confusão tremenda. No Nordeste, tinha isso. O que a Santa Sé faz? Pega um que nem conhecia o Nordeste. Então me tiram de Araçuaí (Minas Gerais) e me mandam para lá. Então pelo fato de ser mineiro e de não conhecer nada lá, eu entro assim sem preocupação nenhuma. Eu não tomava providência nenhuma e deixava que os padres fizessem isso. Realmente foi interessante para eles, mas dava para unir. Porque o bispo não era nem de um lado nem de outro. A gente conseguiu trabalhar. Não era mérito meu, é a mineirice. Ser um pouco diferente deles mudou a situação. E eu fui virando paraibano.
 – É na Paraíba que o senhor passa a conhecer dom Helder Câmara?
Dom José – 
Eu já o conhecia desde que fui eleito bispo. Mas era um
 conhecimento assim muito genérico, naquela multidão de bispos. Quando eu vim pra Paraíba, aí foi diferente. Eu era o vizinho mais próximo dele.
– O processo de beatificação de dom Helder já iniciou, já existe a comissão colhendo depoimentos sobre ele…
Dom José – (interrompendo) Eu fui o primeiro a dar o depoimento.
 Este depoimento é sigiloso, mas o que o senhor pode falar de dom Helder às pessoas?
Dom José – Posso falar tudo (risos). Era um grande padre, grande bispo. Uma capacidade de entender as pessoas, de conviver. Era autoridade, mas nunca exerceu autoridade. Ele nunca presidiu uma sessão do Regional 2 (divisão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Ele que era presidente. Quem presidia era o auxiliar dele, dom José Lamartine. Ele ficava lá atrás como um dos outros bispos. De vez em quando, se levantava e dizia: “Mas, meus irmãos…”. E aí vinha com a visão dele, que era magistral. Tinha um bom relacionamento com o povo. Onde já se viu um arcebispo de uma cidade como Recife não ter carro? Não ter secretário, comida em casa? Realmente era um testemunho maravilhoso. Pelo fato de eu ser o vizinho mais próximo dele, tínhamos muito contato pra poder ver como as coisas podiam caminhar. Tive uma amizade profunda com dom Helder.



– Pela atuação em defesa do povo durante a ditadura militar, as pessoas ainda se referem a vocês como "arcebispos vermelhos". A que se deve este título e a ideia de que vocês estavam numa ala progressista na Igreja?

Dom José – Tudo dependia muito da região do Brasil. Lá no Sul, eles não tinham os problemas que tínhamos no Nordeste. Os bispos do Sul eram muito mais acomodados. E não acreditavam em muita coisa que agente dizia. Recife, por exemplo, era um caldeirão. Era aquela ebulição constante. Essa foi a primeira razão. A segunda é que o fato de a gente viver no Nordeste, vendo a situação do povo, mexia muito com a gente. Por quê? Pobre tinha lá no Sul também. Só que no Nordeste não era pobre, era o empobrecido. Tinha que dar condições pra pessoa se desenvolverem. Lá no Sul não: o sujeito quer trabalhar, tem uma terra pra ele trabalhar. No Nordeste, se quer trabalhar, não tem terra nem nada, é uma espécie de escravidão. Isso muda completamente a visão da gente. Você está acostumado a uma região onde se tem uma boa convivência. Você vem pra uma que é guerra, não é? Isso obriga muito a gente a tomar posição. Com dom Helder foi a mesma coisa. Ele foi bispo do Rio de Janeiro. Durante o Congresso Eucarístico Internacional (1955), ele estava no Rio animando. Aí, depois, é transferido pro Nordeste. Muda a linguagem dele, muda a atuação. Por quê? Somos arcebispos do povo. Então, se o povo está em sofrimento, tem que mudar a cabeça da gente.


– E qual era a forma da Igreja chegar perto dos menos favorecidos e atuar na defesa delas?
Dom José – Foi o que ela fez a partir do Concílio Vaticano II. Houve fatos muito sérios naquele período, de 1964 e 1965. O primeiro para nós foi a ditadura militar. E para a Igreja, o encerramento do Concílio Vaticano II. Então a gente sai do Concílio com aquele entusiasmo, querendo que a Igreja seja dos pobres. Aí um grupo de 42 bispos vai celebrar nas catacumbas de Roma e assina um compromisso de ser a Igreja dos pobres. Isso era dizer: “Nós, bispos, não vamos morar mais em palácio, não vamos ter nenhum objeto de ouro. Quem tiver cruz de ouro vai vender, vai doar”. Simplicidade, não é? Dar uma atenção especial às famílias mais simples. Ao invés de ficar com as mais importantes. Muda não só a cabeça, muda também o estilo de vida. Isso, para os que estão no poder, é comunismo (risos). Mas a gente não se incomodava com isso. Chamavam dom Helder de bispo vermelho, escreviam no muro da casa dele. Isso não incomodava.

– E fazia com que vocês parassem de agir pelo povo?
Dom José –
 Não. Dom Helder fazia coisas inacreditáveis para um arcebispo de
 Olinda e de Recife. Nós estávamos lá em assembleia do Regional Nordeste 2, do qual ele era presidente. Chegam as pessoas do interior e avisam que os proprietários daquela área tinha mandado abrir a cerca perto de onde moravam os mais simples, onde havia as plantações deles, para soltar o gado ali. Dom Helder procurou se informar se aquilo era verdade. E era. Aí disse: “E nós vamos continuar aqui na nossa reunião? Deixando o povo sofrer desse jeito? Temos que fazer alguma coisa”. Dom Helder nunca decidia o que fazer, ele jogava o problema, e a gente discutia. Daí é que saía a solução. Saía do encontro das opiniões. O resultado foi: “Tem que alguém ir lá e dar apoio ao povo”. Então fomos quatro bispos. Eu dirigindo um Fusca, dom Helder ao meu lado. Quando chegamos lá, estava montada aquela coisa, tinha mais de cem soldados. Logo veio um dos comandantes cumprimentar dom Helder. Quando viram os bispos entrando, as pessoas se animaram. Estava todo mundo acuado nas suas casas, e o gado comendo tudo. O pessoal sai das casas, e dom Helder começa a recitar com eles os mandamentos da não-violência. 
Dom Helder gritava: ‘Primeiro”. O pessoal dizia: “Nunca matar”. “Segundo”. “Nunca ferir” e por aí vai. Depois que terminaram os mandamentos, dom Helder disse: “Agora vamos tirar o gado”. Chega um militar e diz: “Isso o senhor não pode fazer”. Ele diz: “Então vai deixar o gado comendo a plantação do povo?”. O militar diz: “Mas isso é o proprietário que tem de fazer”. Mas foi o proprietário que mandou abrir a cerca e mandou a polícia para garantir aquilo. Dom Helder não discutiu mais. Pegou uma maniva, aquela barrinha da mandioca, e disse: “Nós vamos tocar o gado é devagarzinho. Porque o gado comeu muita mandioca e pode se sentir mal se correr. Vamos devagarzinho, não é?”. Pronto, fomos nós quatro tangendo o gado. Era uma coisa muito simbólica.

– E com a sua atuação na arquidiocese da Paraíba, o senhor sofreu alguma perseguição na ditadura militar?
Dom José – 
Perseguição não. Dom Helder e eu tivemos restrições. Por exemplo, dom Helder fazia muitas viagens ao exterior. E seguravam o passaporte dele. Naquela época, o passaporte era só para aquela viagem. O passaporte ficava com a Polícia Federal. Quando era quase na hora da viagem, chegava alguém lá com o passaporte dele. Era uma pressão que se fazia sobre ele. Faziam uma pressão também sobre nós violando nossa correspondência. Você via claramente. Havia esse tipo de perseguição, depois intimidação. Eu marquei uma visita à Nação Potiguara, que são uns índios que têm todo um município lá na Paraíba. Chegou um funcionário da polícia e disse: “O senhor tem autorização para entrar lá na área indígena?”. Eu disse: “Não, não preciso de autorização”. Ele disse: “Ah, precisa”. Eu disse: “Mas eu não vou lá fazer visita qualquer, vou fazer visita pastoral. Sou o arcebispo, então vou visitar”. O policial disse: “Ah, mas se o senhor não tiver autorização do Exército, o senhor não entra lá”. Eu disse: “Tá bom”. Chegamos lá com uma freira e outro rapaz, estava a polícia. Pediram meus documentos. Entreguei, eles viram e abriram a cancela. O que eles faziam muito era intimidar a gente. Se você cedesse, era vitória deles. Mas se você insistisse, eles não tinham coragem de enfrentar. Foi um tempo muito interessante (risos).


Nesse período foi fundado o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em 1971. Essa instituição era ligada à arquidiocese? Em que ela ajudava as pessoas?
Dom José
– Nosso centro de defesa foi o primeiro que surgiu na América. O Concílio insistiu muito sobre a questão dos direitos humanos, nos direitos da pessoa, os valores da pessoa, inclusive na Igreja. E como a gente vai ajudar a pessoa, se sobretudo os pobres é que estão sendo mais atingidos? Então você recorria a um advogado para defender fulano de tal que foi preso. Mas não dava porque precisaria de gente que tomasse isso a sério. Então a diocese da Paraíba resolveu contratar um advogado pra ficar só por essa conta. Aí começou o Centro de Direitos Humanos. Tínhamos agora advogado, um daqueles que não fica esperando a coisa aparecer. O problema é de terra naquele lugar, ele vai lá para conhecer, passa bastante tempo ali e tem os dados todos para poder tomar defesa. Foi uma bênção para aquele pessoal pobre saber que tinha um advogado. E alguns casos não davam para o advogado resolver, tinha de ser coisa do Exército. Ele dava uma carta ao fulano para ir ao Grupamento de Engenharia. Então o cidadão chegava e dizia: “Olha, essa é uma carta pro comandante”. O comandante lia a carta, era do advogado. Rasgava a carta e dizia: “Quando você tiver problema, não precisa ir lá naquele comunista não”.

– Até hoje o senhor é chamado nos encontros para falar sobre
 o Concílio Vaticano II. Além de mudanças na imagem de um padre e na proximidade com as pessoas, que mudança o senhor destaca na atuação da Igreja?
Dom José – Não é questão de mudar. Toda aquela doutrina de antes continua válida. Você agora vai colocar o foco nessas coisas que estão sendo importantes para o povo. Antes, a imagem da Igreja era como se fosse uma pirâmide. Lá em cima está o papa, depois vêm os bispos, os padres, os religiosos e lá na base está o povo. Vaticano II projetou uma outra imagem. Igreja é povo. Tá tudo aqui, não tem ninguém lá em cima. Aqui tá o papa, os bispos. Cada um com a sua função. É como numa sociedade: as pessoas têm autoridade exatamente para exercer aquela função. Na Igreja, tem alguns que são destacados para ser autoridade em benefício da caminhada. Igreja é povo de Deus a caminho. Não é estática, não é uma instituição que está aí parada. Nessa caminhada, tem mudanças constantes. A Igreja está pronta para estas mudanças. Nessa caminhada, você precisa de alimento para a estrada. Grande alimento é oração e eucaristia. E a eucaristia não é prêmio para as pessoas piedosas, é alimento pra quem está viajando. Então muda completamente. Não nega as coisas antigas, mas projeta pra hoje uma imagem diferente de Igreja.
– Esta teoria e esta imagem pensada durante o Concílio foi aplicada?
Dom José
– Ela não foi pensada durante o Concílio. Essa é a imagem original da Igreja. As comunidades apostólicas começaram desse jeito. O que a gente está fazendo depois do Concílio é aquilo que São João XXIII chamou de refontização. Voltar às fontes. Como era a Igreja no começo? Como ela nasceu? Vamos voltar às fontes. Agora, a teoria fala das fontes. Mas acontece que, com o passar dos séculos, as coisas mudam. Hoje as mulheres não se vestem mais como se vestiam naquele período. Então temos que atualizar. A Igreja então tem que ser fiel àquele começo, mas atualizada. Você vai conservar o ardor, mas vai usar as possibilidades de atualização daquilo.
– E como ficou o diálogo da Igreja com outras denominações cristãs? O Concílio abordou o ecumenismo. Foi importante falar sobre isso?
Dom José –
 Olha, antes ecumenismo era uma coisa um tanto teórica. Com o Vaticano II, vem a coisa prática. A gente vai se encontrar porque tem alguma coisa em comum entre nós. Por exemplo, todo ano temos um encontro de bispos e pastores evangélicos. O que é comum entre nós? A Bíblia. Se é a Bíblia, de manhã a gente tem que ter uma celebração da palavra. E quem preside é um protestante. De tarde, tem uma celebração da eucaristia. Quem preside é um bispo. E todos assistem. E durante o dia nós vamos discutir assuntos que dizem respeito à sociedade. Por exemplo, a gente falava da violência. Interessa ao protestante e ao católico que as pessoas se entendam e se aproximem.




– Você tem da mãe a descendência africana. No diálogo com outras religiões, como você vê a espiritualidade de milhões de negros no Brasil que têm herança do catolicismo e da cultura africana, mesclando devoção aos santos e aos orixás?
Dom José – 
No começo, a Igreja condenou tudo isso. Porque ela entrou no Brasil e na América através dos que vieram da Europa. Eles eram católicos, todos. Eles achavam que religião era aquilo, tinha que ser desse modo. Quem não praticasse daquele jeito, naquele estilo, estava fora. As coisas de índio eram consideradas como superstição. As coisas de negro eram superstição. Então joga fora o candomblé. 


Vai passando o tempo, e a gente então vai descobrindo que realmente Deus está presente nessas culturas todas. Você tinha que respeitar a cultura diferente. Não foi fácil. Em 1992, a gente ainda teve uma discussão forte sobre isso em Santo Domingo, na Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. A gente viu que o que a Igreja crê é na inculturação da fé, do evangelho. Eu não posso viver a minha fé do mesmo modo que vive um sujeito lá da Europa, que tem um estilo de vida completamente diferente. A fé é a mesma, a maneira de viver é diferente. Para o europeu rezar, quanto mais calmo tiver, melhor. Para o negro, não. Quanto mais dançar, mais ele acha que está louvando a Deus com suas danças e batuques. Até 1992, não se aceitava esse processo de inculturação. Em Santo Domingo, foi aprovado que era necessário inculturar o evangelho na América. Isso exigiu uma adaptação e mostrou que as culturas não são ruins. O que é fundamental na cultura afro? Os orixás. Se tivessem entendido isso desde o começo, os negros teriam adorado. O orixá é como se fosse meu anjo da guarda. Todo mundo ao nascer tem o seu orixá. Na doutrina católica, todo mundo tem o seu anjo da guarda. Então é só porque mudou de nome? Todo mundo da Igreja Católica adora a Deus. Na cultura africana, eu adoro Olorum. Só mudei de nome, não é? O fato de o Vaticano II ter dado atenção a estas culturas fez com que muita coisa que antes era impossível se tornasse fácil. Esse diálogo entre diversas culturas religiosas também ficou.

– O Concílio também trouxe a mensagem de uma Igreja mais misericórdia e menos condenação. Vemos muito esta ideia no discurso do papa Francisco, de ir às periferias e alcançar as pessoas. Na sua opinião, do que a Igreja precisa para seguir este caminho e ter mais visão de misericórdia?

Dom José – Precisaria só de uma coisa. Que, nos seminários, se estudasse mais o Vaticano II. Tudo isso está no Concílio Vaticano II. Uma igreja que não está no centro, está na margem, na periferia. Ela tem que ir pra periferia porque é lá realmente que está a missão dela. Precisaria que a gente se convertesse ao Vaticano II e quisesse colocar em prática. Porque não é fácil.
– Então seria uma conversão?
Dom José –
 Seria. E essa conversão não é só no povo. Começa dos bispos. Seria voltar à tradição original, a gente foi perdendo com o tempo. O importante é voltar às comunidades evangélicas primitivas. O pessoal vivia mesmo como irmão. Não tinha “isso é meu”. Isso aqui é nosso. Realmente as comunidades viviam a fraternidade. Elas não estavam preocupadas em defender isso ou aquilo. Estavam preocupadas em viver o evangelho. Precisamos o quanto possível voltar àquele espírito de fraternidade.
– Por que a visão da Igreja para os mais pobres precisa começar na formação dos sacerdotes?
Dom José –
 Pelo evangelho, a Igreja tem que ser dos pobres. O Cristo, ao fazer-se gente como nós, fez a opção pelos pobres. Ele podia ter nascido numa cidade grande,  nasceu em Belém. Podia ter nascido num palácio, nasceu numa gruta. Nem casa tinha. Primeiro sono dele, dormiu num cocho. O presépio é o cocho onde se colocava comida para os animais. Ele fez essa opção pelos pobres. Não excluiu os ricos, mas a opção preferencial foi para os pobres. Então se a Igreja quer ser fiel a ele, ela tem que ver onde é que está havendo mais pobreza. Não é só a pobreza material, às vezes é a pobreza intelectual, pessoas que não são aceitas, que fizeram um crime. Todo esse pessoal que está vivendo uma pobreza física, material, intelectual ou espiritual é o objetivo principal da Igreja.
– Como deveria então ser aplicada esta formação convertida ao Vaticano II?
Dom José – O modelo está no Evangelho. Cristo não foi um mestre como os outros. Os outros tinham sua sala, os seus discípulos vinham e sentavam-se, aí ele dava suas lições. Cristo é diferente. Ele saía com as pessoas e ia realizando a vida. E eles iam aprendendo: como é que eu trato as pessoas, como eu devo atender fulano, sicrano. A formação hoje deveria dar muito mais espaço para a realidade. Não ser só uma formação intelectual, ver só estudo de filosofia, teologia. Isso faz parte também. Mas é indispensável o contato com a realidade. A formação sacerdotal hoje deveria ser muito mais integrada à vida do povo. Depois do Vaticano II, houve tentativas neste sentido. Algumas vingaram, outras não. Por exemplo, o tempo da Teologia da Enxada. Jovens que entravam no meio rural, iam para uma propriedade que fosse da Igreja para trabalhar e estudar. Os professores iam lá periodicamente, eles estudavam nas horas vagas. O professor voltava depois e queria ver como é que eles discutiram aquilo. Não vingou, mas aqueles que se ordenaram nesse tempo são padres excelentes. Inclusive, bispos também e alguns são arcebispos. Precisaríamos que isso fosse mais assumido pela Igreja de tal maneira que a gente pudesse ter ao lado dos doutores e professores com formação intelectual os pastores com uma convivência com o povo durante todo o tempo de formação.

Como é vista a Teologia da Libertação no Vaticano? Há uma divisão dentro do catolicismo?

Dom José – A resposta não é fácil. Para nós, que vivemos numa região onde o povo é muito escravo ainda… Tem muita gente que passa fome num País como o nosso, que poderia alimentar o dobro da população que tem. Para estas pessoas, a teologia que serve é a da libertação. Elas têm que se libertar da fome. Em outros lugares, as pessoas têm que se libertar é do vício. Não adianta para eles uma teologia que seja teoria. Não, tem que ser a coisa prática. Isso vai exigir que os pastores conheçam melhor a realidade. Estejam mais em contato com a situação do povo, podendo refletir em cima disso. Como é que o povo está sendo conduzido? É isso que Deus quer? Se não é exatamente isso, o que devemos fazer para que o povo entre no caminho da vontade de Deus? Teologia da libertação é algo que, em um País como o nosso, é indispensável. Antigamente, a teologia era a teoria. Você aprendia aquelas teses todas. Libertação é ver como está o povo, perguntar se é o que Deus quer e fazer alguma coisa.
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Segue, também, um texto de Padre José Beozo, publicado na página de Leonardo Boff, em 27/08/2017. 


“Dom José Maria Pires era voz escutada com respeito por todo o episcopado, temida pelos poderosos e acolhida com alegria e conforto pelos pequenos, de cujas causas nunca se apartou. Por mais de 50 anos foi assíduo frequentador, a cada ano, do Encontro Latino-americano de Estudos – Curso dos Bispos, instância de encontro, reflexão, oração e iniciativas corajosas que continuou congregando os bispos latino-americanos do grupo Igreja dos Pobres do Concílio Vaticano II e aqueles que decidiram, em seguida, trilhar o mesmo caminho em seu ministério episcopal.

Dom José Maria Pires era o patriarca do grupo – que frequentou até 2015 – tendo faltado ao encontro de 2016 por razões de saúde.

Quando o Iter – Instituto Teológico do Recife foi fechado pelo sucessor de Dom Helder, Dom José Maria acolheu em João Pessoa professores e alunos do Instituto, para dar continuidade a uma formação teológica comprometida com a causa dos pobres e de sua libertação, enraizada na cultura nordestina.

Por duas vezes fez a pé, durante um mês, o caminho de Santiago de Compostela partindo da fronteira da França com a Espanha. Na segunda vez, já havia completado 90 anos. Esse rijo camponês, depois de bispo emérito continuou atendendo em Belo Horizonte uma paróquia da periferia, na simplicidade e humildade e num incansável espírito de serviço.

Por delegação da CNBB acompanhou com carinho e compreensão o movimento dos padres casados com suas famílias, tomando partido pela retomada do ministério por parte daqueles que o desejassem. Batalhou para que a Igreja abrisse suas portas para o ministério ordenado de homens casados.

Foi também o grande animador da Pastoral afro-brasileira e do movimento dos padres e bispos negros que ganhou espaço e amplitude na vida da Igreja do Brasil, e também da América Latina e do Caribe, através do CELAM.

Foi para mim um privilégio ter desfrutado de sua fiel amizade. A cada Natal e Páscoa, Dom José não deixava de enviar uma palavra carinhosa e sempre antenada nas questões mais urgentes do país e da Igreja.

Foi um dos sócios fundadores do CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular) e membro de sua Assembleia que, por 33 anos (1982-2015) acompanhou, incentivando os trabalhos em curso e propondo sempre sábias orientações.

A Igreja e a sociedade brasileira perdem uma grande figura, cuja maior glória é ter sido um fiel seguidor do evangelho e de Jesus Cristo a serviço dos mais pobres, de suas causas e libertação.

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Fonte da entrevista: www.cebsdobrasil.com.br/2017/08/27-jose-maria-pires-98-anos-fez-sua-pascoa



Orixá Oxalá 

Na umbanda, Oxalá é o orixá mais alto da escala hierárquica e tem como exemplo o próprio divino mestre Jesus . Pai Oxalá é a própria Umbanda e nos pontos riscados e é representado por uma estrela de cinco pontas.Ele é a luz que equilibra a todos nós e atua no Ritual de Umbanda como o maior dos orixás, pois está em tudo e em todas as outras divindades, com sua propriedade magnetizadora e desmagnetizados. Seu poder não tem lugar para se manifestar, pois todos os lugares são seus . Pai Oxalá é o regente do Infinito, e do nosso planeta e comanda a força que congrega as pessoas em um único ideal.










Créditos das Imagens

1. Dom José Mª Pires e Dom Helder - www.padrescasadosdoceara.com.br
2. Os dois bispos vestidos à sua imagem e semelhança - Reprodução.
3. Celebração e Comunhão nas Cebs - 
4. Dom José Mª Pires - Assembleia da Cnbb - www.paraibaemdebate.com.br
5. Dom José Mª Pires, acompanhado de Dom Geone Luís  e Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte-MG, na Assembleia da CNBB - 05/05/2017 - idem
6. Dom Zumbi e sua fraterna solidariedade, no encontro de padres casados do Ceará, realizado em 2015 - reprodução.
7. Dom José em 1969, já arcebispo da Paraíba. Reprodução.
8. Dom Hélder em escuta, no Recife - www.paolinos.com.br
9. Trabalhadores rurais da Paraíba homenageiam Dom José Maria em João Pessoa - www.jornaldaparaíba.com.br. Foto de André Resende.
10. Encontro Cebs Sul e Sudeste - reprodução de cartaz.   
11. Celebração das Cebs do Brasil - julho, 2017- www.cebsbrasil.com.br/noticias
12. Bispos do Concílio Vaticano II - Reprodução.
13. Celebração Cebs do Brasil - julho, 2017. Idem.
14. Pintura de Carybé - "Culture-se" - Página de Carybé
15. Olorum - www.imgrm.org.user/fabytiooya/
16. Papa Francisco na África - www.vatican.va/content/pt.html
17. Encontro das Águas - www.cebsbrasil.com.br/noticias
18. Sepultamento do corpo de Dom José Mª Pires na Basílica Nossa Senhora das Neves - João Pessoa-PB - 29.08.2017 - www.jornaldaparaíba.com.br. Foto de André Resende.
19. Orixá Oxalá - www.umbandauruguay41.com

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IVONE GEBARA — INCENTIVO AO FEMINISMO E À SOLIDARIEDADE À DOR DAS MULHERES

19 de agosto de 2017

Recentemente publicamos um texto divulgado via WhatsApp, de autoria de Ivone Gebara,  teóloga, filósofa e escritora feminista, reconhecida em vários países para além das fronteiras abaixo do Equador.

Foi uma das postagens mais lidas neste espaço este ano. Assim, para responder ao interesse demonstrado pelos leitores, de conhecer o que pensa esta insigne brasileira, reportamos uma entrevista que expressa aspectos importante da sua visão de mulher e teóloga. 


Para os que ainda não a conhecem, Ivone Gebara passou muitos anos convivendo com populações indigentes, quando era professora do Iter - Instituto de Teologia do Recife,  fundado com o apoio de Dom Hélder Câmara e com o suporte indispensável do sacerdote e sociólogo Humberto Plumen, coadjuvado pelos teólogos Sebastião Armando, Marcelo Augusto e Luís Carlos de Araújo. A entrevista foi realizada em março passado, por Amanda Massuela, da revista Cult, e publicada no portal de Carta Capital. Segue abaixo. Os grifos negritos são nossos.

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A filósofa e teóloga Ivone Gebara é uma voz dissonante na Igreja Católica. Aos 72 anos, 50 deles dedicados à vida eclesiástica, ela trabalha para que mulheres deixem de ser exploradas pela religião.

Ivone Gebara está acostumada a incomodar. Incomodou os pais quando se juntou a uma Congregação religiosa aos 22 anos. Incomodou o Vaticano quando se manifestou a favor do aborto em uma revista de circulação nacional e incomoda a Igreja todos os dias, há cinquenta anos, ao questionar as verdades absolutas do catolicismo. Aos 72 anos, a filósofa da religião e teóloga feminista quer plantar dúvidas na cabeça dos fiéis, especialmente das mulheres. Quer explicar para confundir, quer tirá-las da espiral de dominação masculina que ainda impera em muitas igrejas.

“Tento ajudá-las a se ligar de maneira horizontal com a religião. É uma tarefa árdua, mas necessária”, afirma. Autora de mais de trinta livros publicados – entre eles Teologia Ecofeminista: ensaio para repensar o conhecimento e a religião (1997) e Rompendo o Silêncio: uma fenomenologia feminista do mal (2000) –, Ivone é doutora em Filosofia pela PUC-SP e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Lovaine, na Bélgica.

De volta a São Paulo depois de trinta anos morando no Recife, ela usa seus dias para escrever, participar de conferências, palestras e conversas com grupos de periferia. Quando encontrou a reportagem da CULT, estava prestes a embarcar em uma viagem ao México, onde falou sobre a genealogia da violência contra a mulher em um simpósio. “Quem me convida é porque quer me escutar”, diz Ivone, com a consciência de que as tentativas de silenciá-la são maiores que os espaços concedidos de bom grado.

“Seria muito bom se me oferecessem um púlpito em que eu pudesse fazer uma pregação feminista todos os domingos, mas nós temos pouquíssimo espaço público”, afirma. Ivone sabe das ambiguidades de suas escolhas, e vive em constante conflito por isso, mas está certa de que seguiu o caminho mais livre e transgressor possível ao se decidir pela vida religiosa.

CULTPor que a vida dentro de um convento lhe pareceu mais livre do que fora?

Ivone Gebara – Porque de repente me vi acolhida em minha busca intelectual. Acho que sou marcada por um desejo de conhecimento, de me aproximar de mundos e histórias diferentes, e o convento me abriu para essas possibilidades. Me lembro que queria fazer um curso de especialização em Filosofia na USP, ainda no tempo da rua Maria Antônia, e não me fizeram objeção alguma. O curso era à noite, me deram as chaves e eu me senti como nunca havia me sentido na vida, andando pela rua com um monte de estudantes, conversando depois das aulas. Jamais teria feito isso se vivesse com meus pais.

Algumas das minhas professoras na faculdade de Filosofia – que depois seriam as freiras da minha Congregação – manifestavam uma liberdade de mulher que apareceu antes do feminismo para mim. Eu achava legal como elas se movimentavam no mundo universitário e também no mundo popular, já que mantinham muitos trabalhos nas periferias. Essa aliança entre pensamento e ação me impressionou.

Então entrei na Congregação e de certa forma traí as expectativas da minha família, que esperava que eu me casasse e tivesse filhos. Era um mal-estar que eu estava provocando neles, fugindo à regra dessa maneira. As pessoas se perguntavam como eu podia negar essa razão de ser do feminino, essa naturalidade da mulher. Pode não parecer, mas o caminho que escolhi foi transgressor no passado. E ele me marcou de maneira que todo pensamento que parecia transgredir alguma ordem me atraía. Mas sei que para outras pessoas essa escolha foi escravizante, foi um delírio. Paradoxalmente, eu tive uma experiência diferente.

CULT - Quando encontrou o feminismo?

Ivone Gebara - Na década de 1980. Muita coisa aconteceu. Eu nunca tinha prestado atenção na questão de gênero, mas algumas agulhadas me foram dadas. A primeira foi quando me interessei por literatura teológica feminista. Alguns textos me ajudaram a perceber como a figura do pai religioso, o “Deus Pai Todo-Poderoso”, é cúmplice de várias formas de totalitarismo e de opressão sobretudo de marginalizados e de mulheres. Quando li, me assustei, mas senti fome daquela literatura. Como se ela me abrisse para coisas absolutamente impressionantes.
Outra agulhada veio dos movimentos populares. Vivi por mais de trinta anos no Recife, e mensalmente ia até uma cidadezinha chamada Cabo [de Santo Agostinho], onde fazia estudo teológico bíblico com alguns operários na casa de um deles. Sempre me preocupou o fato de nenhuma esposa deles participar, nem mesmo a dona da casa que servia o cafezinho. 
Num dia de domingo resolvi visitá-la e, muito timidamente, ela me disse que não participava porque eu só falava sobre “assuntos de homem”: sindicato, política, partidos, salário mínimo. “Você sabe que eu trabalho, mas não tenho carteira assinada?”, ela me disse. “Sabe que vendo cheiro-verde e coentro na feira? Sabe o que uma operária sofre com o sexo?”. Eu caí das pernas. Comecei a perceber que eu estava focada em uma problemática geral, e que a problemática geral é masculina.

Outra veio quando feministas de São Paulo me perguntaram como eu trabalhava a questão da sexualidade dentro da Teologia – eu não trabalhava de forma alguma –, e mais tarde, quando decidi fazer psicanálise e, de repente, ao contar a minha história, me descobri também mulher.

Cult - O que mudou a partir daí?

O feminismo mudou a minha relação com o mundo da religião. Percebi que o monoteísmo, em especial o cristianismo e particularmente o catolicismo são muito marcados pela figura de Deus Pai, que eles dizem ser “puro espírito”, mas que na verdade é um espírito controlado pelo masculino. Afinal as autoridades que se julgam representantes de Deus e que falam em seu nome são homens. 

Então esse personagem, Deus, passa a me incomodar, passa a ser o reflexo, a imagem e semelhança do poder masculino que governa o mundo e as consciências, sobretudo as consciências femininas.

Cult - E por que “sobretudo” as femininas?

Elas pagam, dão esmola, são exploradas e não percebem, porque é doce essa exploração. Muito me espanta que depois de tantos anos de militância feminista no mundo da religião, eu ainda me depare com tamanha sujeição das mulheres a todos esses movimentos de padres cantores, essas curas, religiões de massa. 

Me entristece porque imaginei que o feminismo religioso, ou a filosofia e a teologia feministas tivessem surtido um pouco mais de efeito. É um tanto frustrante ver como as mulheres  se dobram, se apaixonam, imploram ajuda e perdão a essas figuras que também se dizem representantes de Deus.

Basta ligar a TV em qualquer transmissão dos cultos neopentecostais e mesmo católicos, para ver que mulheres de meios populares são grande maioria. Elas saem do mundo doméstico cansativo, vão à igreja, cantam, batem palmas, algumas até dançam, e de repente encontram um pastor que diz uma palavra delicada e depois saem tomar um lanche. 

As igrejas aparecem como uma espécie de consolo, e elas pedem tanta coisa: pelos filhos, por elas mesmas, todas sonham com algum milagre. Há também uma função catártica da religião e não podemos desprezar o fato de que o capitalismo e a corrupção, na forma atual, precisam das religiões de massa em que você é uma anônima, mas ao mesmo tempo é alguém.

Cult - Os movimentos feministas conseguem chegar a essas mulheres ou ainda falham em compreender o papel que a religião tem na vida delas?

Falham. Algumas vezes, em reuniões com feministas eu disse: Vocês são críticas da religião, eu também. Mas o mundo das periferias é um mundo religioso. Se não é o catolicismo é o neopentecostalismo, o protestantismo, o candomblé, a umbanda, o espiritismo.  A cultura nacional é uma cultura de religiões múltiplas. Mas o feminismo, - sobretudo um certo feminismo crítico que absorveu as ideias de Marx, Feuerbach e Nietzsche, - desconhece os fenômenos das massas e a força da religião. 

A gente vê na televisão: o pastor enxuga o rosto com toalhinhas e muitas  mulheres correm para pegar uma, guardam esse pano, se limpam com ele como se fosse uma relíquia. É uma coisa espantosa de se ver no século 21 e que não pode ser desprezada. Mas também não pode ser tratada só do ponto de vista sociológico: eu tenho que me aproximar daquela mulher que pega a toalhinha e enxuga a cara com ela. O que ela está vivendo? Que emoções essa toalhinha provoca nela? E para isso é preciso que haja pessoas, homens e mulheres, com uma sensibilidade quase artística, poética, que percebam como nesse transfundo religioso existe outro tipo de racionalidade.

Cult - Você encontra abertura para levar a teologia feminista até essas mulheres que estão nas igrejas e não atuando nos movimentos?

Nós não temos espaços institucionais. Enquanto fui teóloga da libertação até havia algum, já que a Teologia da Libertação – embora tenha sido combatida pelo papa da época, João Paulo II – teve uma aceitação significativa no seio das autoridades da Igreja por ser bastante clerical. Mas nessa história eu sempre me senti uma minoria porque os homens ocupavam todos ou quase todos os espaços, e nós [mulheres] éramos um pouco a plateia que aplaudia e dava uma opinião de vez em quando.

Depois a coisa foi melhorando um pouco, nos abriram alguns espaços, mas, quando quisemos mais, houve conflito. Você não encontra, por exemplo, em nenhuma faculdade católica, um curso sobre teologia feminista. Há alguns anos fui convidada para encerrar um simpósio, e quatro dias antes, já com passagem comprada e texto publicado, suspenderam a minha fala por conta de forças conservadoras que atuam, sem a gente saber como – e há muitos grupos de católicos e protestantes ultraconservadores por aí. 

Seria muito bom se me oferecessem um púlpito em que eu pudesse fazer uma pregação feminista todos os domingos, mas nós temos pouquíssimo espaço público. Em geral, as mulheres do meio popular não sabem o que é teologia feminista e quem se interessa mais são mesmo os movimentos, são as filósofas.

Cult - Quais são as raízes dessas forças conservadoras que trabalham para silenciá-las? Elas são fruto de uma total ignorância em relação à produção das teólogas feministas ou são mesmo propositais?

Essa pergunta é muito importante. Não existe uma única causa, elas são múltiplas e há sempre exceções. Atribuo esse rechaço às formas históricas do monoteísmo, que têm cara masculina – dizer a palavra “Deus” já te joga para um universo de poder masculino. É possível que haja mudanças? Na estrutura atual da Igreja Católica, não. Não vão aceitar representatividade feminina. E quando digo feminina também coloco entre aspas, com a crítica de Judith Butler sobre o que é feminino e masculino. O divino que se fez na figura de Jesus era homem, macho, e qualquer tentativa de fazer outra leitura não terá efeito nenhum. Talvez em grupos específicos, mas aí não haverá uma incidência na cultura, que é o que precisaria existir.

Cult - Mesmo a Igreja tendo, nesse momento, um líder considerado progressista e até revolucionário por alguns?

Ele pode ser progressista do ponto de vista da justiça social, da crítica ao capitalismo, mas é conservador no que se refere à compreensão antropológica do ser humano, e à aceitação das reivindicações feministas na sociedade. É conservador também em assuntos de moral sexual, por mais que ele diga coisas como: “Quem sou eu para julgar um homossexual?”. Essa afirmação não prova abertura alguma, porque ele se retira do debate. 

A pergunta não é essa, a pergunta é qual tratamento vocês têm dado às mulheres que abortam, aos homossexuais, aos transexuais? 

O que vocês estão acolhendo daquilo que a sociedade humanista, se eu posso assim dizer, tem produzido? 

Eles não admitem Foucault, por exemplo, Deleuze, Zizek, Judith Butler. O papa diz que não existe uma teologia da mulher. Ele desconhece, por uma ignorância consentida, os estudos e movimentos teológicos feministas da Argentina, de onde ele mesmo veio. Ignora o feminismo como fenômeno sociocultural político e religioso, e é uma ignorância voluntária porque os jornais e revistas não escondem. 

Por que castigaram a mim e a tantas outras? 
Porque sabem que nós existimos. Então é preciso que haja pessoas que denunciem continuamente para não deixar esse poder absoluto ser absoluto. Por isso, cada vez que algum grupo de periferia me convida para falar, eu vou, porque quero ajudar a levantar alguma dúvida na cabeça das mulheres religiosas, pouco a pouco, a partir do lugar em que elas estão. 

Conheço senhoras, por exemplo, que lavam as roupas dos padres e pastores, a toalha, os paninhos, gastam sabão, energia elétrica, tempo, e não cobram nada por esse trabalho porque o abraço do padre, quando elas entregam a roupa passada, já é uma recompensa – possivelmente porque não recebem nenhum carinho em casa. Temos que continuar desconstruindo, ajudar as pessoas a pensar, ainda mais agora que tiraram filosofia do currículo escolar.

Eu tento desconstruir essa imagem de Deus e provocar as pessoas nesse sentido. É um processo dificílimo porque há séculos se repete a mesma coisa: se ele quiser, vai dar certo, se ele não quiser, não vai. Todo o meu trabalho ainda é uma espécie de beabá para ajudá-las a entender que não podemos tudo, mas que, se nos solidarizarmos uns com os outros, quem sabe não podemos alguma coisa? Tento ajudá-las a se ligar de maneira horizontal com a religião. A tarefa é árdua, mas necessária.

Cult - Você vive muitos conflitos sendo uma teóloga feminista, algo que aparentemente é tão paradoxal?

Muitos, mas esses conflitos têm me ajudado a refletir. Diante do sofrimento humano às vezes eu me calo. As inúmeras devoções das pessoas, imagens, velas, mesmo a toalhinha do pastor cheia de suor, me movem as entranhas. 

Eu gostaria de dizer, espera aí, talvez outras coisas te ajudem mais do que a toalhinha, ou do que gastar seus dez reais para comprar a imagem de um santo. Eu sinto esse conflito dentro de mim, mas percebo que o momento da dor não é concomitante ao momento da racionalidade. E então eu acolho aquilo que as pessoas dizem que precisam: um gole de água benta, deitar a cabeça sobre uma bíblia. A solidariedade àquela dor passa na frente da teoria, da análise crítica e política, mas isso não tira meus conflitos. 

Quando digo que sou católica, também estou dizendo que não sou de alguns tipos de catolicismos, mas sou de outros. Sou católica por uma tradição, mas também não sou, porque muitas vezes critico essa mesma tradição. Esse ser e não ser se misturam em mim.  

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Fonte do texto da Entrevista: https://revistacult.uol.com.br/home/uma-rebelde-no-rebanho

Créditos das Imagens:

1. Ivone Gebara no Jardim Suspenso do CCSP-São Paulo - foto de Marcus Steinmeyer para a revista Cult.
2. Capa de um Caderno de Estudos Bíblicos - reprodução.
3. Capa do livro: O que é Teologia - de Ivone Gebara - Ed. Brasiliense.
4. Capa do livro: O que é Teologia Feminista - de Ivone Gebara - idem.
5. Ivone Gebara - TV Cultura Dogitial - 2013 
6. Reprodução de imagem de campanha pelo fim da violência contra a mulher. In: Koinonia.fw2
7. Capa do livro: O que é a Saudade - Coleção Primeiros Passos - Ed. Brasiliense.
8. Capa do livro: Teologia Ecofeminista - Ed. Olho d´Água - 1997 in: https://livralivro.com.br/books/show/404133?recommender=I2I
9. Capa do livro: Rompendo o Silêncio
10. Registro fotográfico do dia do lançamento do livro: Teologia Feminista, na Fafire - 2017 - Recife-PE.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com vrblog@hotmail.com 

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