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AMANHÃ VAI SER MAIOR - Rosana Pinheiro Machado

29 de dezembro de 2020

 

“A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca”, diz Rosana Pinheiro-Machado no seu livro “Amanhã vai ser maior. 

Cientista social e antropóloga, Rosana Pinheiro-Machado pesquisa economia informal, pobreza e desenvolvimento na China e no Brasil. É colunista do jornal The Intercept e atualmente leciona no Departamento de Ciência Política e Sociais da Universidade de Bath, no Reino Unido. Escreve textos de opinião sobre a conjuntura social e política do Brasil. É uma acadêmica feminista e luta por um ensino superior livre de abusos, mais justo, horizontal e inclusivo. Publica textos de opinião em jornais e revistas, e tem uma incrível presença nas redes sociais. Ainda desenvolve projetos sociais nas periferias como, por exemplo, a fundação na Escola Comum, visando desenvolver capital humano entre jovens de baixa renda.

O texto abaixo é do último capítulo do livro lançado em 2019: “Amanhã vai ser maior”, Editora Planeta. Para manter o padrão do número de páginas das nossas postagens, em raros casos cortamos alguns trechos.

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 Amanhã vai ser maior

Por: Rosana Pinheiro-Machado

 

QUANDO NOAM CHOMSKY foi questionado se ainda era possível ser otimista sobre o futuro da humanidade, ele respondeu que podemos ser pessimistas, desistir e esperar que o pior aconteça. Outra opção – a dele – é aproveitar as oportunidades que de fato existem e ajudar a fazer o mundo um lugar melhor para se viver. Assim como a raiva e a agressão são expressões da natureza humana, a simpatia, a solidariedade, a gentileza e a preocupação com os outros também são. Há muita resistência contra a brutalidade humana e contra o autoritarismo. Tal resistência, segundo ele, precisa crescer e se tornar uma fonte de esperança para a nossa espécie.

No Brasil de hoje, o derrotismo tende a tomar conta de todas as esferas da vida social. Lamentamos a vitória da extrema-direita, não enxergamos saídas e deixamos que essa angústia nos imobilize. Uma alternativa – apontada no livro – é transmutar a dor em luta, e fazer da esperança uma opção política. A sensação de derrota é inevitável, porque é real e necessária, para a reflexão de como chegamos até aqui. O livro tenta fornecer algumas pistas sobre uma tragédia que já estava em curso. Todavia, o que ocorreu no Brasil não se deu em função de um surto coletivo, mas de um não rompimento com nosso passado autoritário e com as estruturas que perpetuam a desigualdade. Não fizemos o debate necessário sobre memória e justiça das atrocidades da ditadura e não diminuímos a brutal distância que separa pobres e ricos no país (apesar de termos avançado de maneira significativa na redução da pobreza e na mobilidade social).

A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca. Como colocou o filósofo Ernst Bloch - na abertura de sua obra “The Principles of Hope” (Os princípios da esperança) - a esperança é algo que precisa ser aprendido. Ao contrário do medo, ela é apaixonada pelo sucesso de uma causa, não pelo fracasso. É superior ao medo, pois não é passiva. A emoção da esperança, ao invés de confinar, amplia os sujeitos.

Um dos intelectuais que melhor falou sobre esse tema foi aquele cuja memória é hoje atacada, cujo legado gigante se tenta apagar e criminalizar. “Pedagogia da Esperança” é uma das últimas obras escritas “com raiva e com amor” por Paulo Freire, em 1992. No seu livro, ele se recusa a se acomodar aos discursos pragmáticos da economia e se adaptar aos fatos, especialmente diante daqueles que diziam que sonho e utopia eram inúteis e inoportunos. Quando perguntado como ter esperança num mundo que nos asfixia, ele respondeu que a democratização da sem-vergonhice - que tomava conta do país e que desrespeitava a coisa pública – produzia o efeito reverso: jovens começavam a protestar por todos os lados, tomando as praças públicas. Ele era capaz de ver esperança nas ruas, nos corpos e em cada um de nós.

Para Paulo Freire, é preciso reconhecer a desesperança como algo concreto, bem como entender as razões históricas, econômicas e sociais que a produzem: os abusos de poder, extorsões, os ganhos ilícitos, os tráficos de influências, o uso do cargo para satisfação de interesses pessoais. Mas Freire segue lembrando que a esperança é uma necessidade vital. A existência humana e a luta por uma sociedade melhor não podem ocorrer sem esperança e sem sonho. A desesperança é esperança que perdeu o rumo. Como programa, a desesperança imobiliza e faz sucumbir no fatalismo, impossibilitando de juntar as forças indispensáveis ao embate político.

Paulo Freire falava da juventude nas ruas como um sinal de uma nova geração mais comprometida. Como ele escreveu em 1992, é possível supor que se referia às manifestações pelo impeachment de Fernando Collor. A conclusão mais óbvia que podemos tirar disso é que uma juventude progressista por si só não é suficiente para mudar o conservadorismo. Ou seja, os jovens crescem e muitas vezes se ajustam às estruturas dominantes do país. Isso não é uma inverdade. Estamos aqui, quase três décadas depois, vivenciando as consequências de um golpe que depôs a primeira presidenta a governar o país, culminando em um dos governos mais reacionários de nossa história.

Eu comecei a ir às ruas sem a presença de meus pais em 1992. Penso que a geração pós-junho de 2013 é muito mais politizada e radical do que a que marchou comigo em minha adolescência. Se antes tínhamos um grêmio estudantil por escola e um Diretório Central dos Estudantes (DCE) por universidade, hoje temos uma quantidade infindável de coletivos em cada instituição de ensino. Via organização on-line e off-line, os jovens de hoje são mais sensíveis e mobilizados nas questões de raça, gênero e sexualidade. Eles também são mais radicalmente afetivos, contestando as estruturas de opressão que se reproduzem entre os próprios aliados, colegas e companheiros. Contudo, como já comentei, a pura fé na próxima geração não se sustenta. De um lado, grupos organizados como o MBL disputam espaço de maneira feroz nos grêmios estudantis do Brasil. De outro lado, o próprio processo de ajustamento à vida adulta – o trabalho e a família – é alienante. Por isso é tão importante que todos lutemos em todas as frentes para garantir o futuro desses jovens em uma democracia. (...)

Minha forma de traduzir o pensamento sobre esperança para o Brasil de hoje é fincando o pé na terra firme, e em tudo o que já existe em forma de luta e de arte. Fortalecendo e articulando os antigos movimentos e os novos coletivos, e, também, criando novos espaços para reforçar o cordão de resistência democrática. Não é preciso reinventar a roda, mas é crucial rever nossas vanguardas.

Frequentemente, eu escuto que o povo brasileiro já deveria ter tomado as ruas, que estamos imobilizados. Eu não concordo com essa afirmação. Grandes marchas, ainda que fundamentais, não são a única forma de resistir. Professores, estudantes, artistas, movimentos camponeses, quilombolas, indígenas, coletivos de favelas, funcionários públicos…

Por todos os lados, encontramos atos, protestos, indignação, reação e renovação. Em plena aliança de Bolsonaro com os grandes proprietários rurais, a Marcha das Margaridas de 2019 reuniu 100 mil mulheres camponesas em Brasília. Quando a prefeitura do Rio de Janeiro censurou os livros de temática LGBT na Bienal do Livro de 2019, uma multidão de jovens reagiu e – com a ajuda do youtuber Felipe Neto, que comprou 14 mil exemplares – transmutou um ato de censura em um ato de protesto, afeto e amor aos livros. A iniciativa #TinderDosLivros, de Winnie Bueno, já doou cerca de 1000 livros a estudantes negros em uma rede descentralizada e autogestada, movida exclusivamente pela solidariedade. Os programas educacionais Rede Emancipa e o Emancipa Mulher atraem milhares de alunos que buscam formação pré-vestibular ou feminista e antirracista. Há slams surgindo em todas as quebradas. (...)

Não se cria um mundo novo sem reverter a pane de imaginação que o neoliberalismo e o autoritarismo provocam.

Há algo muito potente – e inspirador – na rejeição dessas mulheres à figura do presidente. Intelectuais como Patrícia Hill Collins e Angela Davis, entre muitas outras, vêm chamando atenção para a importância da articulação com as mulheres negras, por exemplo, porque são elas as mais vulneráveis e oprimidas pelo sistema dominante. Na mesma direção, a pesquisadora e ativista Winnie Bueno defende que os processos de resistência constituídos por essas mulheres são fundamentais para a construção de mudanças sociais eficazes para a transformação social. Portanto, é junto a elas que precisamos resistir em tempos de profunda crise.

O mesmo pode ser dito sobre os indígenas – que hoje são os grupos tidos como inimigo número um de Bolsonaro. A ex-candidata a vice-presidente da república pelo PSOL, Sônia Guajajara, ao mesmo tempo em que tem alertado para o crescente extermínio dos povos indígenas no atual governo, reforça sempre a importância de renovar estratégias de lutas, como articular apoio internacional e incentivar boicote à produtos do agronegócio.

Diante de todos esses exemplos, penso que a esquerda institucional precisa de um horizonte para sonhar e, consequentemente, construir. Talvez falte à essa esquerda investir na potencialidade das minas dos slams, nas novas lideranças eleitas, nos frutos de Marielle. Talvez falte ceder lugar a novas práticas políticas e figuras da política que estejam conectadas com as formas de luta emergentes do século 21. Talvez falte simplesmente deixar que o novo assuma o seu lugar.

A deputada federal Áurea Carolina, do PSOL de Minas Gerais, em uma coluna para o Nexo, em agosto de 2019, escreveu que o movimento vira-voto nas eleições de 2018 foi um exercício de cura da pulsão bolsonarista. Com humildade, saímos às ruas para uma conversa desarmada com as pessoas. Rompemos com a lamentação e assumimos nossa responsabilidade de ação. Não foi suficiente para reverter a vitória de Jair Bolsonaro, mas algo se criou na própria disposição ao diálogo. Áurea Carolina reflete sobre a importância de sair da lamúria e do adoecimento a partir de um comprometimento prático e propositivo, que deve ter o espírito do “vira-voto” que rompeu com a ordem individualista e competitiva e restabeleceu o princípio democrático de amor e convivência na diversidade.

A esquerda institucional precisa de um horizonte para sonhar e, consequentemente, construir.

Mataram Marielle, é verdade. E nada pode ser, simultaneamente, tão concreto e simbólico da mais opaca e brutal realidade de nossos tempos. Mas sua irmã, Anielle Franco, e sua família estão incansavelmente, todos os dias, resistindo em plena dor para resgatar e dar continuidade ao seu legado de lutas. Quais razões temos para não fazer o mesmo?

As acadêmicas feministas e ativistas Lola Aronovich e Debora Diniz são todos os dias perseguidas e ameaçadas de morte da forma mais vil que se pode imaginar por grupos masculinistas de extrema-direita. Elas seguem na luta mais do que nunca. Quais razões temos para não fazer o mesmo?

Em tempos sombrios de avanço conservador, de alienação, de medo do autoritarismo e de individualismo atroz que causa uma crise de autovalor e de sentido nos indivíduos, estar no coletivo é uma forma de resistir, de lembrar que, apesar de tudo, somos animais sociais. Juntos nos fazemos vivos e lutamos contra a vontade de morte, arma e tortura. Estamos respirando, com nossos sentidos e senso de justiça aguçados.

Do colapso, reconstroem-se mundos e modos de vida. Enquanto estivermos em pé, nossa utopia se chamará esperança, a esperança se transformará em luta e a luta será o próprio amanhã maior e melhor.

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Fonte do texto: https://theintercept.com/2019/11/26/esperanca-antidoto-extrema-direita-amanha-vai-ser-maior/?utm_source=

Curso Etnografia: https://www.borasaber.art.br/multidisciplinar-rosana-pinheiro-machado-metodologia-etnografica-via-zoom? fbclid=IwAR0z_SaA5W0QvA63bXBLfGoNGKjT1tsaaqqkQ4HuwmQn9j9UR5B6gBOIsrY

Crédito das Imagens:
1. Foto da autora - www.brasil.elpais.com
2. Imagem manifestação de mulheres - Carta Capital - 08.03.2019

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NATAL - EM BUSCA DO QUE NOS É COMUM

23 de dezembro de 2020

            

Antes da passagem para o Ano Novo, os cristãos celebram o aniversário de Jesus, o Nazareno,   filho de Maria e do marceneiro José. Desde sempre se fala e se reproduz a sua mensagem, com inúmeros testemunhos de seus seguidores. Há séculos ele tem sido uma resposta aos anseios espirituais de grande parte da humanidade. 

Há um ponto em comum da sua mensagem com todas as grandes espiritualidades do planeta: Sejam da filosofia Ubutum na África, dos Mulçumanos, Budistas e  Israelitas - com suas comunidades em todo o mundo - sejam de Cristãos Romanos, Ortodoxos e Anglicanos, Pentecostais, Luteranos e Evangélicos fiéis à mensagem do Nazareno.  

O ponto em comum é que, na espiritualidade de todas essas culturas, todos se encontram encontram no mandamento síntese do amor fraterno - do fazer pelo outro aquilo que gostaríamos que fizessem a nós, amando-nos uns aos outros. 

São muitas e diversas as situações que hoje vivemos, no planeta Terra, como as  perseguições de países que desejam dominar ou arrasar um outro, e o seu povo, ou que lutam entre si, no mesmo país, por questões de etnias e crenças, ou  por guerras infindáveis apoiadas pelas potências interessadas nos recursos naturais do país que sofre o domínio do outro. Há, também, comunidades étnicas que são perseguidas e expulsadas de suas terras em nome da dominação do mais forte, do que não reconhecem o chão a ser repartido com os que ali estão. 

Inomináveis são as tiranias, guerras, dominações e invasões que os povos  sofrem dentro e fora de seus países. Mas, há também muitas culturas humanitárias que almejam estabelecer a fraternidade e a solidariedade, o respeito e a tolerância entre povos e etnias. Sem esquecer os povos nativos, ou indígenas, assolados por inúmeras perseguições e ainda inúmeras pessoas e comunidades negras que não são reconhecidas com os mesmos direitos de seus conterrâneos, em razão de um racismo doentio que muitas vezes resulta em gravíssimas violências. 

O Natal cristão nos lembra que aqui estamos de passagem, com a missão de nos aceitar como irmãos do jeito que cada um é, trabalhando juntos para cuidar da Mãe Terra, hoje tão devastada e maltratada. Este é o espírito do Natal, embora outros interesses nos querem ocupados em trocar presentes.  

Para a comunidade dos que nos seguem neste espaço, brinquei de fazer uns versinhos para nos ajudar e rever os nossos valores e nos preparar para entrar cheios de vigor e esperança no ano novo que está à nossa porta.


 

UM NATAL COMO UNIÃO,
PRESENÇA, OUSADIA E PAZ!


Faz de conta que esta mensagem

Chegou à tua porta pelo correio.

Faz de conta que o Natal é hoje

E todos os dias. O espírito do

Natal é uma mensagem do todo dia. 

Não passará.

Que no Ano Novo de 2021 nos traga

BOAS NOVAS para todos nós, 

Especialmente para os que precisam

De alguma nova alegria e força

Para ainda ser capaz de Esperançar!

 

Faz de conta que nos encontraremos

Em breve, para nos abraçar outra vez,

E preencher o tempo e a distância

Que nos separou uns dos outros

No percurso doloroso de 2020.

 

Que 2021 nos traga os anticorpos

Para o vírus da pandemia,

E contra muitos outros vírus

Da maldade que assola o mundo.

Para que continuemos aprendizes

Da cordialidade.


Assim, serenos e leves,

Seremos capazes de perdoar

Setenta vezes sete...

E de multiplicar e repartir os bens,

Como as águas dos rios, que fluem

E se perdem, naturalmente,

Nas águas do Mar!

 

Que o grito dos descartados

Da sociedade, e a tirania

Das injustiças sociais

Encontre em nós

Um rebate de indignação,

E um testemunho de união e luta,

Sem jamais perdermos

A alegria e a Paz!

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Crédito das imagens:

1. Presépio nordestino - Brasil - arquivo do blog

2.  Foto de lideranças religiosas do mundo, presentes num encontro realizado em 2017.

3. Jesus  - pintura de Rembrand

Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.   

BRASIL - COMO "ELES" SE UNIRAM PARA DESTRUIR O BRASIL

6 de dezembro de 2020

O jornalista Kotscho, publicou em: www.balaiodokotscho.com.br/ um artigo que prima pela clareza de visão, capacidade de síntese, linguagem contudente e de fácil compreenção, chamando-nos a atentão de que tudo o que ele descreve se passou em apenas quatro anos. Como notificou o escritor e teólogo Leonardo Boff, - ao reproduzir o mesmo artigo no seu site - "Kotscho é um dos mais sérios e premiados jornalistas do Brasil. Publicamos sua coluna por ser esclarecedora do que está sucedendo em nosso país: seu desmonte." Segue o artigo.

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Bolsonaro & Moro: como eles se uniram para destruir o Brasil em quatro anos


Foto:  Sergio Moro e Jair Bolsonaro, agora de costas um para o outro, foram parceiros na obra de destruição de um país.  Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado; Fernando Frazão/Agência Brasil

 Por: Ricardo Kotscho  

                          5/12/2020


Apenas quatro anos atrás, os dois eram figuras menores no cenário político nacional. Em 2016, um era juiz de primeira instância no Paraná e dava início à Operação Lava Jato, mas ninguém lhe dava muita atenção. O outro era deputado folclórico do baixíssimo clero, um ex-tenente insubordinado, reformado como capitão, que resolveu se candidatar a presidente da República, mas ninguém o levava a sério.

Dois anos depois, o deputado virou presidente e o juiz se tornou seu ministro da justiça.        

Não foi nada combinado, ao que parece, mas aconteceu.

Para que isso se tornasse possível, derrubou-se um governo, “com o Supremo, com tudo”, quebrou-se o sistema político-partidário e grandes empresas, prendeu-se o candidato favorito nas eleições de 2018 e se instalou uma nova ordem em nome do combate à corrupção, com o apoio dos generais, do mercado e de grande parte da mídia.

E assim chegamos ao final de 2020, sem vacinas e sem governo, com a economia e as instituições em frangalhos, o Judiciário e o Congresso desmoralizados, a pandemia fora de controle, contaminando e matando milhares de brasileiros todos os dias, a tropa de choque do Centrão de volta ao poder e o meio ambiente em combustão.

Em conflito com a China, a União Europeia e o novo governo americano, viramos párias na política internacional e motivo de deboche na mídia do mundo inteiro.

Agora, cada qual segue em caminhos separados: um já está em campanha pela reeleição, para completar o serviço de não deixar pedra sobre pedra, enquanto o outro acaba de assinar contrato milionário com uma consultoria americana para salvar as empresas brasileiras que ajudou a destruir.

Nem o mais alucinado roteirista de Hollywood seria capaz de criar um enredo como esse, em que 212 milhões de habitantes assistem impavidamente à destruição do seu país, correndo risco de vida, diante da inépcia do governo, que anuncia o início da imunização só para março e adia a compra de vacinas e seringas. Negacionismo e fundamentalismo matam.

Até lá, mantida a média atual de 775 óbitos por dia registrados em 24 horas, morrerão mais 44.545 brasileiros, como alerta hoje meu velho amigo Ascânio Seleme, em sua coluna no Globo.

“Difícil dizer quantas exatamente, mas muitas das dezenas de milhares de mortes que vão ocorrer nos primeiros meses do ano que vem, devem ser atribuídas às estúpidas diretrizes políticas de Bolsonaro, obedecidas cegamente pelo imprevidente ministro Eduardo Pazuello”, escreve o colunista.

Em hospitais de São Paulo e do Rio, e em várias outras regiões do país, crescem as filas para quem aguarda uma vaga em UTI, e o sistema público de saúde já ameaça entrar em colapso. Em Washington, onde vai morar, o ex-juiz Sergio Moro talvez tenha mais sorte de ser vacinado, deixando para trás um cenário de terra arrasada.

Entramos no modo salve-se quem puder.

Vida que segue

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Fonte do artigo: https://leonardoboff.org/artigos/5.12.2020

Plublicado originalmente: https://www.balaiodokotscho.com.br/


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