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REFUGIADOS — ACOLHER, PROTEGER, PROMOVER, INTEGRAR

26 de janeiro de 2018

Após as duas postagens anteriores — sobre o amor fraterno e a amizade — parece-me significante retomar as palavras do Papa Francisco no Dia  Mundial da Paz. Na  sua  mensagem, ele nos convida a alargarmos o nosso olhar para além daqueles que amamos. E a  refletirmos    mais  em profundidade  na grave questão dos refugiados.

Adaptei a tradução original do site vatican.va para o português falado no Brasil. O trecho inicial das saudações às autoridades presentes  que não interfere na parte essencial da mensagem — foi omitido nesta reprodução. 

1. Votos de paz

A paz, anunciada aos pastores, na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre esses,  que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração,  quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. 

Esses refugiados, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz». Em busca desse lugar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa. Sujeitam-se a fadigas e sofrimentos, e enfrentam arames farpados e muros erguidos para os manter longe da sua meta.

Abertos à misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental. Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz, numa casa segura.

Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e benefícios, uma atenção vigilante e abrangente. E também a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar ao grande número de problemas já existentes, bem como recursos que são sempre limitados. 

Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar essas pessoas, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos ao bem da própria comunidade, retamente entendidos, a fim de  favorecer-lhes a integração». (Neste sentido,) os governantes têm uma responsabilidade precisa diante das suas próprias comunidades, e devem assegurar-lhes os justos direitos de um desenvolvimento harmônico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?


Na mensagem para idêntica ocorrência — no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, — São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, e “limpezas étnicas”», que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira mudança: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas.

As pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir». Elas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar desses direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato Si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».

A maioria das pessoas migram seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, quase sempre por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e quando todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.

Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos desejam respeitar o princípio da tutela de todos os seres humanos.

Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidades para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo

A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Essas palavras propõem-nos a imagem da Nova Jerusalém. 

O livro do profeta Isaías (cap.60) e Apocalipse (cap.21) descrevem a Nova Jerusalém  como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admiram e a enchem de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.

Precisamos lançar esse olhar contemplativo, também sobre a cidade onde vivemos. "Um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (...), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, e de justiça". Em outras palavras, realizando a promessa da Paz.

Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e desse modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Um olhar que também vislumbre a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive em países onde não sobram recursos.

Quem estiver animado por esse olhar será capaz de reconhecer os rebentos de paz que já estão a despontar e cuidará do seu crescimento. Transformará em canteiros de paz as nossas cidades, frequentemente divididas e polarizadas por conflitos que se referem precisamente à presença de migrantes e refugiados.

4. Quatro pedras miliárias (indispensáveis) para a ação


Oferecer àqueles que pedem asilo,  refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano — uma possibilidade de encontrar a paz de que estão à procura, exige uma estratégia que combine quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar.

«Acolher»  é uma atitude que faz apelo à exigência de ampliação das possibilidades de entrada legal, de não repelir refugiados e migrantes para lugares onde os aguardam perseguições e violências, e de equilibrar a preocupação pela segurança nacional com a tutela dos direitos humanos fundamentais. Recorda-nos a Sagrada Escritura: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos».

«Proteger»  Lembra o dever de reconhecer e tutelar a dignidade inviolável daqueles que fogem de um perigo real em busca de asilo e segurança, e de impedir a sua exploração. Penso de modo particular nas mulheres e nas crianças que se encontram em situações em que ficam mais expostas aos riscos e aos abusos que chegam até ao ponto de torná-las escravas. Deus não discrimina: «O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva».

«Promover»  Alude ao apoio para o desenvolvimento humano integral de migrantes e refugiados. Dentre os numerosos instrumentos que podem ajudar nesta tarefa, desejo sublinhar a importância de assegurar às crianças e aos jovens o acesso a todos os níveis de instrução. Deste modo, poderão não só cultivar e fazer frutificar as suas capacidades, mas encontrarão melhores condições para também ir ao encontro dos outros, cultivando um espírito de diálogo e não de fechamento ou de conflito. A Bíblia ensina que Deus «ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário». Daí a exortação: «Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito».

Por fim, «Integrar»  Significa permitir que refugiados e migrantes participem plenamente na vida da sociedade que os acolhe, numa dinâmica de mútuo enriquecimento e fecunda colaboração e na promoção do desenvolvimento humano integral das comunidades locais. «Portanto – como escreve São Paulo – já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus».

5. Uma proposta para dois Pactos Internacionais

Almejo, do fundo do coração, que seja este espírito a animar o processo que, no decurso de 2018, levará à definição e aprovação, por parte das Nações Unidas, de dois pactos globais: um deles para as migrações seguras, ordenadas e regulares; um outro referido aos refugiados. 

Enquanto acordos partilhados no âmbito global, esses pactos representarão um quadro de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por isso, é importante que sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da Paz. 

Só assim, o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença. De fato, o diálogo e a coordenação constituem uma necessidade e um dever próprio da comunidade internacional. Mais além das fronteiras nacionais, — e se a cooperação internacional lhes disponibilizar os fundos necessários — será possível também que países menos ricos possam acolher um número maior de refugiados ou acolhê-los melhor.


6. Em prol da nossa casa comum

Inspiram-nos as palavras de São João Paulo II: «Se o "sonho" de um mundo em paz é partilhado por tantas pessoas, se se valoriza o contributo dos migrantes e dos refugiados, a humanidade pode tornar-se sempre mais família de todos e a nossa terra uma real “casa comum”». Ao longo da história, muitos acreditaram neste "sonho", e as suas realizações testemunham que não se trata de uma utopia irrealizável.

Franciscus



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AMIZADE - AMOR QUE VAI SEM ESPERAR A VOLTA

17 de janeiro de 2018

Chegou ao meu celular um agradecimento aos amigos, lembrados como "pessoas que deixam um pouquinho de si e carregam um bocadinho de nós". 

Já escrevi muito, neste espaço, sobre a amizade. E gosto de ver a amizade como um novo sacramento que nos ampara no enfrentamento da vida, do jeito que ela se apresentar.  

A amizade nos permite dividir, com outros, os momentos mais difíceis de suportar sozinhos. E nos a multiplicar, de forma prazerosa, a alegria dos dias de regozijo, e o bem-estar do afeto profundo por pessoas que antes não conhecíamos. 

Você já notou como  nos momentos de tristeza  só temos vontade de ficar a  sós, e só nos abrimos à companhia dos amigos?


O amigo pode ser  o pai ou a mãe, um filho ou uma filha, um irmão ou irmã, um colega de trabalho... alguém que conheci no elevador do condomínio, numa viagem, na universidade, na fila do ônibus, ou na festa de outro amigo. E assim se tornam  pessoas especiais, a quem o  o tempo oferece — e a nós também — a liberdade e o direito de partilhar a vida. 

Manifestar a gratidão pela amizade é reconhecê-la dom maior, é agradecer à vida por nos fazer experimentá-la e sermos dignos dela. 

Mas, é imprescindível  reconhecer que a amizade é uma das faces do amor. Portanto, é verdadeira quando somos estimulados tendo recebido, ou não, a atenção de afeto do outro — a lhe oferecer a nossa atenção, o nosso afeto, o dom que transborda, sem jamais fazer medições de nenhuma espécie.

O amigo é alguém de quem se reconhece a presença fraterna, atenciosa, cuidadosa — e, ao mesmo tempo, com o mesmo dinâmico movimento também nos leva a fazer gestos concretos de comunhão com a sua dor, e de partilha das alegrias e dos bens da vida.  

Nas minhas lembranças da exuberante época da música popular brasileira, Gilberto Gil produziu "Grão", Milton nos deliciou com "Maria" e cantou: "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves"... Muitos outros emprestaram o dom da música para cantar essa dádiva rara da vida, que é o amor configurado em troca comum do bem-querer. 


Leonardo Boof se referiu à dádiva do amor fraterno e amigo, chamando-a "carícia do afeto". E quando Jesus de Nazaré falava desse movimento amoroso pelo outro, dizia que deveria ser igual ao amor que se tem por si mesmo.

Há que se aprender a não ficar à espera que alguém cuide de mim, do meu bem-estar, da minha saúde, das minhas decepções. O amor requer que eu tenha, como prioridade, o cuidado comigo mesmo.

O que acontece, então? Eu cuido de mim para continuar a ser capaz de ensejar uma existência agradável ao outro. O que está longe de ser um ato egoísta de exclusão, mas de cuidado comigo, em o benefício daqueles que amo. 

Desse modo a amizade se torna uma atitude de amor que vai, sem esperar a volta. E não só. Como ensinava Jesus, o Nazareno  fazendo de modo que a  a mão direita não veja o que a esquerda realiza. 


Assim, ser amigo não é, simplesmente, esforçar-se para retribuir o favor ou o benefício que alguém me fez — este é um digno gesto de "civilidade", e chama-se gratidão. Ser amigo, é me colocar na vida como um dom para o outro, assim como ele é, seja lá o que me fez ou deixou de fazer. E em qualquer circunstância da vida. 

Ao experimentar a amizade,  aprofundamos, em nós, o necessário aprendizado do amor fraterno, alargado a todos, e os gestos pessoais e sociais da compaixão.  

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*Texto de Vanise Rezende

As imagens são exclusivas do "Espaço Poese".

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APRENDER UM NOVO JEITO DE VIVER

7 de janeiro de 2018


Volto a falar de Ano Novo, enquanto 2018 escorrega ligeiro pelas horas dos dias que talvez já voltaram a ser como o viver das horas comuns.

Pode ser que a casa tenha sido revestida de novas cores, como se costuma fazer ou é possível para alguns. Talvez foi renovado o guarda-roupa com novas peças, além de  bolsas e sapatos. E, nas varandas e terraços, terão chegado lindas plantas para alegrar a vida e colorir o ambiente.  



Mas, resta uma questão: 

O que fizemos de novo por nós, e pelos que estão ao nosso redor?


O costume de tornar a casa mais limpa e bonita, no Ano Novo, poderia também nos atiçar o desejo de fazer algo para renovar a nós mesmos. O empenho para revestir a casa de novidades, não seria o nosso desejo de abrigar gente nova?

Como primeiro passo eu poderia me liberar dos acúmulos inúteis no meu guarda roupa, na minha sapateira, nas gavetas e caixas dos meus armários.

Todos estamos de acordo que não serve acumular papéis. E há muitos que já aprenderam a rasgá-los e separá-los para serem aproveitados no lixo dos reciclados. Mas, que tal se também pudéssemos aprender a revisar as próprias roupas, bolsas e sapatos? Roupas que não se veste mais, que foram usadas por muito tempo e que são esquecidas e restam acumuladas nos armários.  

Nos dias de hoje, - com tantas pessoas empobrecidas e desempregadas em nosso país - seria uma ato de justiça promover a repartição daquilo que nos sobra, que não nos serve mais. 

Para que me serve o acúmulo de peças – como se fosse um velho museu de nós mesmos – enquanto outras pessoas, que não têm o que tenho, estão precisando delas como coisas indispensáveis? 

Esta é uma reflexão a ser feita, pensando-se no gesto necessário de construir leveza ao nosso redor, em busca de nos aprofundar no essencial, naquilo “que as traças não roem”.

Ao nos esforçar para manter a casa agradável,  sentiremos nos renovar com atitudes mais justas e fraternas, com gestos de amorosa  atenção pelo outro. Assim, tornamos a nossa "casa" interior mais leve e acolhedora.

   
    
  
  Também os armários da cozinha podem estar socados de utensílios que não servem para o próprio uso, mas estão faltando a outros.

c  O “quarto de despejo” que muitos usam em casa, talvez seja um modo indevido de acumular, e de não se desfazer das coisas que lhes sobram. Coisas que ficam ajuntadas, pedindo socorro em nome daqueles que precisariam recebê-las. 

Tudo isso nos instiga a recordar que há sempre alguém à espera do meu dom.

Há pessoas simples que passam diante do nosso edifício ou casa, com uma carroça cheia de quinquilharias... Vão carregando as sobras, pelas ruas da cidade, e as levam para revender. O resultado é um pouco mais de bem-estar para os seus, com o dinheiro que arrecadam. E outras pessoas têm a possibilidade de adquirir coisas mais baratas, com a revenda do que foi doado. Os porteiros sabem muito bem o dia em que o carroceiro passa em busca das nossas sobras. 

Se não for o carroceiro, há organizações que pegam, em nossas casas, móveis e objetos ainda usáveis – mesmo em condição de reforma ou conserto  como fazem os Trapeiros de Emaus. E tudo é repassado para o uso dos que precisam.

Feito isto, restam outras questões para os primeiros dias do ano.

 Como fazer para olhar a minha vida, a partir de hoje, com um olhar  energizado de esperança?
 O que devo aprender para superar os meus limites e tomar decisões que me levem a aprender a viver melhor? 
 Que fazer para não desistir do curso que ainda não fiz e para tomar atitudes concretas em benefício da paz comigo mesmo e com os outros? 
 Como posso iniciar a colaborar com outras pessoa, que não receberam o que recebi da vida, e que teriam o direito de alcançar a sua dignidade e de realizar o seu sonho?


O bem-estar da minha vida, a minha saúde emocional, é proporcional ao que sou capaz de fazer para o bem-estar dos que me estão próximos. 

Não me refiro a grandes projetos sociais, mas a atitudes de mudança  pessoal que ajudarão a vitalizar, as  minhas relações em casa, na família e no trabalho.





Ajudaria, também, iniciar fazendo um exame sincero do que há por fazer, e dar os primeiros novos passos. E realizar o que sou capaz agora. O que é possível agora. O que me ocorre agora, mesmo que seja uma pequena ação em favor de alguém. 
Por exemplo: de um dos meus dependentes, no trabalho, de uma pessoa amiga, da minha empregada doméstica, do  motorista que está a meu serviço, do meu colega de profissão, de um dos meus filhos, do meu pai ou da minha mãe.  

Não falo de sermos bonzinhos, de cuidar "dos pobrezinhos, coitados"... Não se trata de ter pena, mas doar, partilhar, cooperar. E tratar o outro com justiça, atenção e cuidado. O cuidado que vai além do dever, sem enganação, e que é sugerido pela consciência dos direitos de cada um e da fraterna convivência. E, por que não dizer: do amor que me leva a dar, sem esperar retorno. 


Refiro-me às relações sinceras, às atitudes carregadas da convicção de que somos todos irmãos. Qualquer que seja a nossa crença. 

Não é justo, viver achando que uns têm têm sorte na vida ou se esforçaram para conseguir o que queriam, e que os outros foram jogados na vida para servirem e serem submissos.

O que há na sociedade atual é uma imensa desigualdade. Uma uma injusta distribuição de bens. É a grade escassez de solidariedade, de um olhar fraterno sobre o outro, sem os julgamentos que aprendemos e que não gostaríamos que fizessem de nós. Há uma urgente necessidade de se reconstruir os laços fraternos entre as pessoas, e não apenas entre os iguais e os que julgo merecedores.  

Um novo passo  aquele que agora posso dar  me levará a conseguir coisas impensadas, como, por exemplo, aprender a sair da minha tristeza, e dos dias que me deixam depressivo, pois estarei aprendendo a amar. O gesto do amor reconstrói o tecido da paz e da fraternização entre as pessoas. E não é um amor de sentimentos, mas um amor de fato. 

Sem esquecer que, para poder ter, preciso aprender a dar, para que eu seja ouvido preciso aprender a escutar, para que eu seja perdoado também preciso perdoar, para aliviar a minha dor preciso buscar, com sinceridade – dentro e fora de mim – o que posso fazer agora pela dor dos outros, que talvez precisem mais do que eu.

O Ano Novo é uma excelente ocasião para que eu comece a me sentir alegre, um pouco que seja... Mesmo quando o entorno é triste, o país segue em derrocada, e seja necessário lutar para reconstruir tudo de novo. Pois o tecido da Paz é feito de atos sinceros de amor.  Aprendendo, no dia a dia, um novo jeito de viver! 

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Texto de: Vanise Rezende

Crédito das Imagens:  www. canstockphoto.com.br

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FELIZ ANO NOVO!!!

2 de janeiro de 2018

Já começamos a ver esvair-se, no dia a dia, a contagem regressiva do tempo de 2018. Voltamos aos dias comuns da vida, embora a nossa expectativa ainda é de Esperança.

Tivemos as comemorações do Natal e do Réveillon, cada um com as possibilidades que  teve de celebrar. É para esses que escrevo. Porque bem sei que as maiorias esquecidas, empobrecidas, vivendo à margem do que nos parece ser a normalidade do viver, não terão acesso a essas páginas.


Natal e Ano Novo são comemorações das minorias das cidades e das populações ocidentais. Entre esses, alguns tiveram alegres momentos com aqueles que amam: os familiares, os amigos ou os colegas de trabalho. Outros, por escolha, preferiram comemorar sozinhos. Todos, assim espero, se perguntando o que virá no futuro. E o que será importante realizar para torná-lo melhor.

As horas desses primeiros dias pareceram saídas de um relógio novinho, disposto a registrar horas abençoadas, ricas de humanidade. 

E, quiçá, um sentimento de humanidade que exige um verdadeiro empenho, para ver  nascer e educar pessoas que possam construir algo mais sensato e mais belo do que fomos capazes de fazer, até agora.  

Bem sabemos que o novo ano não surgiu do nada. Nasceu de muitas páginas viradas que deixaram marcas, lembranças, saudades, e histórias pessoais e políticas que ficarão em nossa memória. As últimas delas, aqui no Brasil, desaparecerão nas cinzas tenebrosas do passado. E serão lançadas no fundo do baú, deixadas no esquecimento do que já não é e não voltará a ser jamais.

Hoje, quando este primeiro dia comum de 2018 madrugou, trazendo os raios de sol ao chão da minha varanda, não vi apenas o fulgor do surgimento de um novo dia. Para além dos arranha-céus que me fecham a visão expandida do céu, senti que eram as primeiras horas de um novo tempo ao qual preciso me preparar.

Nós, viventes, – diferentemente dos satélites e dos astros que se movimentam em vaivém e sempre retornam, após o seu giro em volta do sol,  temos a necessidade de parar um pouco, mover o nosso olhar interior para dentro de nós e buscar, no profundo, a expressão maior do nosso brilho, e das nossas pequenas alegrias. 

É a incrível e necessária capacidade que temos de recomeçar, enquanto o sol é o sol, as estrelas são estrelas, a lua brilha como a única mulher celeste a nos encantar, e os satélites nos acenam no seu mistério de vidas que gostaríamos de conhecer.



Nesses momentos, percebo que a nossa paz pode assentar-se ao lado das sérias preocupações que nos chegam, dia após dia: nossos pequenos medos, as situações e as pessoas que nos fazem sofrer, a discriminação, o racismo e a violência.  E, olhando melhor, o afeto e o cuidado daqueles com quem convivemos. 

Resta, a alguns, a busca do perdão e da paz para a sua própria história, aquela que somente nós conhecemos. Parece-me que esta é uma sensação especial, apenas para os maiores de trinta anos. Os outros, que ainda não chegaram lá, têm a graça e o conforto de quem segue os seus sonhos e acredita poder alcançá-los todos, no correr da vida.




Assim, vamos tecendo e ligando os retalhos do tempo, nas horas que correm velozes, reconstruindo o delicado tecido do viver e do amar. 


Em cada encontro fortuito, buscamos reinventar a atenção do afeto, o cuidado do amor, e as relações que fazem parte da vida que escolhemos.




Para muitos, é a alegria de estar com os filhos e as pessoas que se ama. A  sensação exuberante de iniciar uma nova experiência de amor. A força de começar a viver de forma autônoma. A festa pelo trabalho encontrado. O encontro com um amigo que há muito não se via...

Entendi, por experiência, que não é novidade a mudança periódica dos anos, dos meses, das semanas, dos dias, das horas  e dos momentos que costuram a arte de viver. Na caminhada,  somos nós os únicos que podemos mudar e renovar o caminho e inventar as veredas que nos podem salvar. Esforçando-nos para suscitar o novo dentro de nós, e vislumbrando os bons frutos do nosso empenho cotidiano. Pois a vida é feita de instantes. De um só momento. Depois outro... Depois outro...

A energia do momento é tirada das raízes viçosas das relações que estabelecemos com as pessoas, aqueles que amamos, aqueles de que amorosamente cuidam de nós e aqueles que precisam da nosso atenção e cuidado.  

Bom seria, que nos perguntássemos dia após dia, escutando lá dentro, e ouvindo com maior atenção:

O que posso fazer para cooperar na construção da paz? 

Quando se consegue descobrir essa chama, e se toma uma atitude concreta, simples que seja, já é possível estar mais contente com a vida.  

E não esquecer que – se 2018 chegou novinho em folha – nós somos os mesmos. E seremos sempre os mesmos, embora, se quisermos, em ritmo permanente de mudança.




O importante é o aprendizado de ser dom para aqueles que amamos. Convictos de que o que recebi a mais ou melhor do que outros, me foi dado para ser doado. 

Se não me me esforço para me doar, risco de perder a energia que me move para a vida.

Enquanto me ocupo de fazer alguém mais feliz, me sentirei um ser realizado. E capaz de ouvir mais, dialogar mais, apoiar mais, com=viver mais, na simplicidade do amor.






Essa energia em movimento - que para alguns significa a presença do Inefável, da Vida que me gerou e me mantém vivo/viva - me ajudará a ser melhor do que fui e quero ser. 





Não seria este o sentido que queríamos dar quando dissemos e escrevemos, tantas vezes, há dias atrás:
                                          
                                            Feliz ano novo!                                                             
                                              
                                                  Feliz ano novo! 
                                                                                 
                                                                             Feliz ano novo!


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Texto de: Vanise Rezende

Crédito das imagens:


Imagem nº 7 - www.youtube.com
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