Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O AMOR NÃO TEM GÊNERO

28 de maio de 2014

No início deste ano, surgiu uma séria polêmica a respeito da cena de um beijo entre homossexuais representados na novela Amor à Vida.  O blog Carta Maior publicou, em 11/02/2014, um artigo do Prof. Paulo Rená da Silva Santarém (*) que, a partir desse fato, faz uma excelente reflexão sobre as reações da sociedade e de pessoas que se dizem cristãs, diante das relações homossexuais.  O título original do artigo é: “Sem licença para odiar: o beijo gay e as religiões”.

Tendo em vista a importância do assunto e as oportunas considerações do autor, publico o artigo citado, permitindo-me de omitir o primeiro parágrafo que faz alusão ao que foi dito acima. 

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A Constituição Federal não protege o preconceito de nenhuma religião. A liberdade de crença não constitui salvo conduto para o desrespeito à diferença.


Diante da crescente demanda por respeito aos homossexuais, como fica o entendimento religioso de que ser homossexual é pecado? Se gays e lésbicas não querem ser discriminados, podemos condenar as religiões para as quais essa forma de vida não se amolda aos mandamentos divinos? Os católicos ou evangélicos têm o direito de receber da Rede Globo uma indenização por dano moral causado pela exibição da cena em que dois homens se beijam? A telenovela é uma chancela do reconhecimento da igualdade, uma realidade que virou ficção, ou se trata apenas de mais um espaço de luta para transformar o Brasil em que vivemos?   São questões complexas, e cada uma pode ser abordada por diversos pontos de vista: da investigação biológica da origem da sexualidade à discussão estética da obra audiovisual; da função social da arte à relação cultural única dos brasileiros com a teledramaturgia, etc. 

Talvez seja impossível ser objetivo, neutro, isento ou categórico quanto a o que é certo ou errado em relação ao direito, onde todas as palavras expressam subjetividade, uma visão de mundo, uma escolha de lados. Mas é possível buscar uma interpretação adequada a partir dos termos da legislação vigente.

Assim, uma análise da relação entre o beijo gay na TV e as religiões não pode ignorar os seguintes dispositivos da Constituição Federal de 1988: artigos 1º, III e parágrafo único; 3º, I e IV; 5º, V, VI, VIII, X, XLI, XXXV; e 21, XVI; bem como à Lei nº 7.717/1989, artigos 1º e 20. A partir de tais dispositivos, a reflexão jurídica sobre os limites das garantias da liberdade religiosa e da liberdade sexual se ancora no direito fundamental à igualdade, bem como no objetivo comum a todos os brasileiros de construir uma sociedade solidária.

O compromisso estatal de promover a solidariedade toma corpo com o objetivo fundamental de promover o bem de todos, sem preconceitos de qualquer forma. Nessa linha, no exercício de sua função democrática, cabe ao Poder Legislativo produzir leis que punam qualquer discriminação contra direitos e liberdades fundamentais; ao Poder Judiciário, apreciar as ameaças ou lesão a direitos; e ao Poder Executivo, implementar políticas públicas de igualdade.

Esses papéis não são meras promessas de um mundo futuro ideal. São deveres dos quais os entes públicos não podem se desviar. E se solidariedade é eliminar todos os preconceitos  para a questão do beijo gay e os limites da liberdade de crença, algumas respostas podem ser encontradas em termos de igualdade.

Certamente que dar um beijo na boca da pessoa amada se enquadra como parte da liberdade sexual de homens e mulheres adultos. Especificamente para os gays, se são dados tantos beijos entre mocinhos e mocinhas, mocinhos e mocinhos merecem tratamento em pé de igualdade. Mesmo que eventual discriminação venha travestida de um viés religioso.

Lembro que todos os credos têm suas diferenças internas. A hermenêutica jurídica como escola de pensamento tem raiz direta nos questionamentos filosóficos sobre como interpretar corretamente a Bíblia. Todavia, extrapola a discussão jurídica querer investigar a história ou as bases doutrinárias para o pecado, para a proibição da relação homoafetiva ou para o próprio tabu em relação ao sexo, condenado como prática prazerosa entre pessoas, e valorizado de forma exclusiva como meio para a procriação. Condutas como as dos deputados citados no início, portanto, são inconstitucionais, pois efetivamente induzem à discriminação e ao preconceito, jamais à promoção da solidariedade.

Professar uma religião não confere “licença para odiar”. É garantido que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta. Em outras palavras, a pessoa que invoca sua crença como razão para descumprir uma obrigação prevista em lei pode, sim, ser privada de direitos. O respeito à sexualidade alheia é uma imposição constitucional, a qual deve ser observada inclusive para fins religiosos.

Nem seria suficiente se o Estado coibisse somente as ações de violência física (coisa que já não faz). Também as violências verbais são inconstitucionais. Mesmo antes de uma prática de discriminação, o preconceito em si também é crime, previsto em lei. Homossexuais, mais que “tolerados”, “aceitos” e “admitidos”, devem ser respeitados de verdade em sua diferença, em sua característica de identidade como ser humano. Assim, fere a dignidade de alguém lhe dizer que sua identidade é uma passagem para o inferno, que o exercício de sua liberdade sexual é pecado.

Proponho uma analogia. Se uma religião milenar classificasse “ser negro” como um pecado, você acha que esse aspecto teria amparo na nossa Constituição Federal e mereceria proteção jurídica como parte da liberdade religiosa? Ora, se religiões não podem ser racistas, tampouco podem ser homofóbicas. Não em um país regulado pelo respeito à liberdade, à igualdade e à solidariedade.

Nenhuma fé afasta o dever de respeitar as demais pessoas, inclusive quanto às opiniões sobre a homossexualidade. A tradição religiosa que mal julgue a homossexualidade, nesse aspecto, não conta com a proteção jurídica da liberdade de crença. Afinal, se ter preconceito é crime, respeitar é um dever legal.

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 (*) Paulo Rená da Silva Santarém é Mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília, integra o grupo de pesquisa Cultura Digital e Democracia e dirige o Instituto Beta Para Internet e Democracia. É fundador do Partido Pirata do Brasil e foi gestor do projeto de elaboração do Marco Civil da Internet no Ministério da Justiça.


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A DESCOBERTA DO AMOR TEMIDO

25 de maio de 2014


Alguns meses se passaram e ela ainda saberia dizer o dia e a hora, descrever aquele olhar emocionado, a sensação das mãos a se tocarem, a sonoridade envolvente de suas palavras no momento da despedida: o que eu mais desejo, de coração, é partir agora com você! Falara com a ansiedade do tempo que urgia. Ela, emocionada, partira com a certeza doída da distância necessária.  

Naquela viagem, o encontrara com a sua presença inteira e alegre, embora, como sempre, de forma contida. 

Conversaram sobre arte, viagens, os sonhos da idade madura, visitaram novas lugares e subiram de automóvel até o planalto da montanha que eles tanto amavam. Contidos, nem um nem outro falava do que, então, os surpreendia - um afeto inusitado a esconder-se em cada gesto, um sentimento nascente no regaço das grandes impossibilidades.  


Quando chegara de volta ao seu país, a distância e o tempo parecia ampliar a evidência de tudo o que quiseram silenciar, e a saudade a faz imaginá-lo a surpreendê-la, como a primavera que irrompe num chão coberto de neve. 

Agora, resta-lhe a sensação de que haverá, quiçá, um dia e uma hora em que eles ainda poderão expressar o que lhes ficara encerrado na memória do afeto.  


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Imagem - www.canstockphoto.com.br





DAS COISAS QUE GOSTO

21 de maio de 2014


Procuro manter o bom aprendizado de buscar - em dias especiais e nos momentos de lazer - as coisas que me dão prazer: conversar com o meu neto de três anos, trocar ideias com as minhas filhas, ouvir música, ir ao teatro, revisitar museus, ver um bom filme, ler, escrever, caminhar, refletir...  Também gosto de receber  amigos em minha casa - coisa que acontece muito raramente, porque quase todos estão cheios de tarefas e cuidados,  o que dificulta os bons encontros sem compromissos preestabelecidos. 

Sempre gostei de mudar a ambientação de alguns espaços da casa; as filhas me falam hoje de momentos que me fazem corar, quando as chamava de manhã cedinho para me ajudar a mover cadeiras e mesas de um lugar para outro. 

Quanto aos armários, gosto de mantê-los 'atualizados'. A chegada de roupa nova indica a hora de retirar o que não uso para oferecer a quem estaria precisando. Esse é um gesto que me mobiliza a estabelecer pontes com pessoas que não tiveram as oportunidades que tive – e que ainda tenho – de usar o que gosto e o que entendo ser mais adequado ao meu jeito de ser.

Não me permito criar o hábito de acumular poeiras, bolsas, sapatos nem cacarecos. Ter coisas guardadas e sem uso me dá a sensação de usurpar o que é do outro para esconder nos armários.  Acostumei-me, desde cedo, a não deixar escondidas em prateleiras louças nem baixelas só para os dias festivos, e coleções de copos e cálices para dias especiais. As peças que tenho eu as uso em todos os bons momentos que reunimos a família em casa.  Restam-me, no entanto, peças do vestuário de inverno para eventuais viagens, pois nesse Nordeste quase sempre ensolarado elas não carecem jamais.


Há prazeres especiais que tocam a minha sensibilidade e se inserem nas motivações da minha vida: acompanhar, com carinho e afeto, as conquistas pessoais e profissionais que minhas filhas vão fazendo; estar com minhas irmãs que já percorrem, como eu, os caminhos da longevidade; e comemorar as alegrias de pessoas que amo  –  uma nova exposição de quadros do meu amigo e pintor Roberto Ploeg,  o lançamento do CD do querido músico Carlos Sandroni  e suas canções tão especiais, e o  resultado de concursos dos filhos de amigos queridos. 

O exercício da partilha naquilo que promove alegria ao outro é muito gratificante, além de estimular a  criatividade e ampliar a capacidade do sonhar e do cuidar, para que vivamos bem cada momento que constrói a nossa caminhada.   

Quase sempre, ao lembrar uma ou outra pessoa querida, cuido de chamá-la ao telefone ou lhe enviar uma mensagem via Skype ou WatsApp.  

Há alguns dias visitei a loja do excelente artífice Edmílson Menezes e  - ao contemplar suas peças de joias em prata - joias que não se impõem por seu brilho, mas por serem uma expressão de arte - encontrei um pingente de design moderno e delicado, cujo valor era possível ao meu orçamento, e o enviei a uma cara amiga italiana. Minha emoção foi a de acompanhar, via internet, o caminho que o pingente fazia, pelos correios, para chegar às suas mãos e levar-lhe um sinal concreto do meu carinho e da minha saudade.


Mas, enquanto me enredo nas minhas  emoções pessoais, deparo-me com as notícias dos irmãos haitianos que mais uma vez aportam no Brasil em busca da sobrevivência. Aprendi que o amor ao próximo se estende a todos os povos, à acolhida de todas as cores de pele e de culturas, e à humana compreensão de todas as expressões do afeto entre as pessoas. 

Assim, a minha paz é invadida pelas notícias da diáspora dos haitianos no Brasil, da estiagem do meu sertão, da enxurrada em cidades do sudeste brasileiro, das atuais dificuldades econômicas e sociais do povo venezuelano, dos interesses políticos que mobilizam os litígios na Ucrânia, do grande número de meninas que deixam a escola, no México, por um matrimônio precoce...  

Voltando ao meu país,  lembro a luta sem fim das tribos indígenas, tão estigmatizadas e esquecidas, e as centenas de famílias cada vez mais empobrecidas, que sofrem  as consequências do desenvolvimento de um país ainda tão desigual. 

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Crédito Imagens:  

1. Leitura de histórias com Artur (a tela da foto é de Roberto Ploeg)    

2. Pintura de Roberto Ploeg   -  http://www.robertoploeg.blogspot.com.br 
3. Mapa : www.geocities.ws/terrabrasileira 


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato comvrblog@hotmail.com 

INFORMAÇÕES SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS

16 de maio de 2014

Embora este espaço não se inclua entre aqueles especializados em informações sobre variações climáticas, trago aqui um texto sucinto e acessível ao entendimento dos não especialistas, no intuito de oferecer informações mais robustas e confiáveis que têm referência com as questões levantadas nas duas postagens últimas deste espaço.  As informações que seguem comentam o recente relatório de avaliação do IPCC (Grupo de Trabalho II) referente às mudanças climáticas previstas para os próximos anos. O documento foi escrito originalmente em italiano, cuja tradução foi realizada especialmente para os leitores deste blog. São artigos de dois especialistas do CMCC – Centro Euro-Mediterrâneo sobre Comunicações Climáticas. O CMCC é um organismo internacional de pesquisa sem fins lucrativos, com sede na Itália, em atuação desde 2006. Seu objetivo é gerenciar e promover atividades científicas e aplicadas no campo da investigação internacional sobre mudanças climáticas. É uma organização que representa, em  escala nacional e  internacional, um ponto de referência para os tomadores de decisão e para instituições públicas, bem como para empresas públicas e privadas em busca de apoio técnico-científico. No final do artigo você pode encontrar as referências sobre os autores – Sergio Castelare e Mauro Buonocore.


IPCC AR5 - 5º Relatório de Avaliação sobre as Mudanças Climáticas
Grupo de Trabalho II - Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade[i]
Mudanças Climáticas – 2014 - Síntese para Gestores de Políticas.
Yokohama (Japão), 31 de março de 2014.



Os 195  países membros do Comitê Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCCPainel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) concluíram a sessão plenária do Segundo Grupo de Trabalho, e chegaram a um consenso sobre o texto do segundo volume do relatório AR5 (Quinto Relatório de Avaliação) que contém uma ampla resenha do atual conhecimento científico sobre temas do impacto das mudanças climáticas, da sua adaptação e vulnerabilidade.


A Síntese para Gestores de Políticas (Summary for Policy-Makers -SPM) – é um documento que sistematiza os conteúdos essenciais do inteiro volume e procura comunicá-los de forma sintética, com uma linguagem acessível, mas sem perder o seu rigor científico. Esse segundo volume está focado, essencialmente, sobre o modo como os riscos e os potenciais benefícios para os sistemas ambientais e humanos estão se modificando e estão se deslocando por causa das mudanças climáticas, e como esses riscos podem ser reduzidos. É um relatório que pode desenvolver uma consciência científica bem mais ampla em relação aos relatórios do passado; a disponibilidade de uma literatura científica mais rica, em diversas partes do mundo, permite, por outro lado, propor uma avaliação completa e exaustiva, capaz de levar em consideração um vasto conjunto de argumentos e setores.

O documento da Síntese para Gestores de Políticas está subdividido em três grandes seções:

A primeira  considera os impactos observados nas mudanças climáticas que estão atualmente em curso, e também  a vulnerabilidade, os graus de exposição e as soluções que podem ser observadas e analisadas em nossos dias.
A segunda seção  é dedicada, por sua vez, aos futuros riscos e aos potenciais benefícios. Nela, são introduzidos alguns fatores úteis que oferecem um quadro para que sejam compreendidos e reconsiderados os riscos chaves que interessam às áreas geográficas e aos diversos setores dos sistemas humanos e naturais. Introduzidos pela primeira vez no terceiro relatório do IPCC, esses fatores têm o nome de “reasons for concern”- RFCs, ou seja, referem-se aos  motivos de preocupação  e ilustram as implicações do rescaldamento e os limites de adaptação para as pessoas, para as economias e para os ecossistemas.

Os Motivos de Preocupação (RFCs) são cinco, e remetem especialmente a:

v  sistemas únicos e ameaçados –  trata-se de sistemas –  economias e culturas – que estão sujeitos a riscos pelo aumento das mudanças climáticas e podem sofrer consequências por causa de um ulterior aumento das mudanças de temperatura;
v  eventos meteorológicos extremos – ondas de calor, precipitações extremas, aluviões, estiagens; 
v  distribuição dos impactos – referem-se ao fato de que os riscos conexos às mudanças climáticas se distribuem de forma iníqua entre áreas geográficas e faixas sociais;
v  impactos globais agregados – referem-se aos riscos que têm a ver com a economia e a biodiversidade, em escala global;
v  eventos singulares em larga escala – são os eventos que podem causar mudanças irreversíveis, situações que não podem voltar atrás. 



A terceira parte da Síntese para Gestores de Políticas está voltada aos princípios de uma adaptação que seja eficaz e que promova uma interação entre adaptação, mitigação e desenvolvimento sustentável.  

As avaliações contidas na AR5 foram efetuadas com a aplicação de quatro novos cenários  ([ii]) que compreendem um cenário de forte mitigação (RCP2.6), dois cenários de estabilização de emissões de gás serra (RCP4.5 e RCP6), e um cenário com altas emissões (RCP8.5).  Assim, os cenários RCP usados na AR5 incluem a realização de possíveis políticas climáticas em nível global.

Uma importante novidade do Grupo de Trabalho II da AR5, comparada aos relatórios precedentes, se refere à sua dimensão regional: os autores, de fato, realizaram esforços para demonstrar como os riscos ligados às mudanças climáticas – e, de consequência, também à eficácia de possíveis soluções – variam de acordo com as latitudes, as áreas geográficas, as populações, os sistemas ambientais e as condições socioeconômicas. Assim, os riscos e as perspectivas são observados considerando-se nove diferentes áreas geográficas: África, Europa, Ásia, Australásia, América do Norte, América Central, América do Sul, Regiões Polares, Pequenas Ilhas e Oceania.

Mensagens Chave – Abaixo, se reporta alguns resultados sobre os quais os especialistas do IPCC encontraram os mais altos níveis de confiança, isto é, são afirmações sobre as quais implicam uma maior disponibilidade de evidências científicas e o mais alto nível de referências na literatura e na comunidade científica.

OS IMPACTOS OBSERVADOS NAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SÃO DIFUSOS E RELEVANTES

v  A amplitude dos impactos - Nos últimos decênios, as mudanças climáticas causaram impactos sobre sistemas naturais e humanos em todos os continentes e nos oceanos.
v  Modificações nos ecossistemas - Muitas espécies terrestres e marinhas sofreram modificações para responder às mudanças climáticas em ato. No passado, durante  milhões de anos, as mudanças climáticas provocaram  significativas mudanças nos ecossistemas, como também a extinção de espécies. No entanto, essas mudanças se davam num ritmo bem mais lento do que o das atuais, cujas mudanças são produzidas em grande parte pelo concurso da atividade humana.
v  O preço da comida - Os impactos negativos das mudanças climáticas sobre as colheitas e sobre a produção alimentar são maiores do que os impactos positivos. O que torna os mercados e o custo da produção alimentar disponível mais sensível aos extremos climáticos.
v  Clima e saúde – A saúde das pessoas é particularmente sensível às mudanças climáticas.  Mudanças da temperatura e das chuvas, em algumas áreas, modificaram a distribuição de vetores de doenças transmitidas através da água.

PESSOAS, LUGARES E ECOSSISTEMAS DE PAÍSES EM  DESENVOLVIMENTO SÃO VULNERÁVEIS E EXPOSTOS ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE FORMA DIVERSA.

v  A iniquidade dos impactos – Diferenças de vulnerabilidade e exposição às mudanças climáticas emergem das desigualdades multidimensionais produzidas por diferentes processos de desenvolvimento.  A partir dessas diferenças, as mudanças climáticas produzem riscos diversificados.
v  Os efeitos da falta de adaptação - Os impactos de recentes eventos extremos, tais como ondas de calor, estiagem, aluviões, ciclones e incêndios revelam uma significativa vulnerabilidade e uma significativa exposição à atual variação climática por parte de alguns ecossistemas e de muitos sistemas humanos. Os impactos desses eventos extremos compreendem: alterações dos ecossistemas, graves mudanças na produção alimentar e nos recursos hídricos, aumento da mortalidade, danos às infraestruturas e às ambiências habitacionais, aumento da mortalidade, consequências na saúde pública.
v  A pobreza é mais atingida – Os perigos derivados das calamidades naturais ligadas às mudanças climáticas,  atingem  especialmente as populações que vivem em particulares condições de pobreza, como amplificadores de ameaças que exasperam outros fatores de esgotamento, nos sistemas sociais e ambientais, com resultados negativos nas fontes de sustentação.
v  Adaptação e Planificação – A adaptação está começando a aparecer nos processos de planejamento territorial, ainda que de um modo limitado.
v  Uma realidade crescente entre público e privado - As experiências referentes à adaptação, estão crescendo em diversas áreas geográficas e suscitam interesse no setor público e privado,  na sociedade civil e nas comunidades. Os governos estão começando a desenvolver planos e políticas de adaptação e a integrar considerações sobre as mudanças climáticas nos planos mais amplos de desenvolvimento.

PROMOVER AÇÕES DE REAÇÃO ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 
É UMA TAREFA QUE CABE À GESTÃO DO RISCO

v  Decidir hoje para colher os efeitos no longo prazo – As escolhas de mitigação e de adaptação que serão tomadas, nesse breve período, produzirão efeitos sobre os riscos relacionados às mudanças climáticas no curso de todo o século XXI.
v  Riscos e evidências científicas – A avaliação dos riscos, elaborada no âmbito dos trabalhos do Grupo II da AR5, fundamenta-se em diversas formas de evidências científicas.  A análise dos especialistas integra, de fato, as evidências científicas das avaliações de risco. Essas evidências incluem, por exemplo, observações, resultados experimentais, dados estatísticos e modelos. Os futuros riscos climáticos variam, substancialmente, em relação aos diferentes processos de desenvolvimento.
v  Um futuro incerto: o papel dos cenários - Quanto ao futuro, há amplas incertezas sobre a vulnerabilidade, a exposição e as reações por parte dos sistemas humanos e naturais.

OS RISCOS RELACIONADOS AO CLIMA SÃO MAIS ALTOS
POR CAUSA DA ELEVADA EMISSÃO DE GÁS SERRA

Quais os riscos para o futuro – Cada risco corresponde a uma ou mais dos Motivos de Preocupação  (Reasons for Concern).  Esses riscos-chave são os seguintes:

v  risco de mortes e feridos, doenças e falta de condições de sobrevivência e de fontes de renda, para as populações de áreas geográficas com baixa renda, e nas pequenas ilhas dos países em desenvolvimento, por causa de tempestades, aluviões nas áreas costeiras e aumento do nível dos mares;
v  risco de graves doenças e falta de condições de sobrevivência e de fontes de renda para grandes populações urbanas, por causa de aluviões nas proximidades dos territórios costeiros, em algumas regiões;
v  riscos sistêmicos devidos a eventos meteorológicos estremos, que causam graves danos às redes de infraestrutura e de serviços;
v  risco de incremento da mortalidade e da difusão de doenças (morbidade) em períodos de calor extremo, de modo particular para populações urbanas mais vulneráveis;
v  risco de insegurança alimentar devida ao rescaldamento, à estiagem, aos aluviões, à variação e aos extremos de precipitações, de modo particular para as populações pobres das áreas urbanas e rurais;
v  risco de perdas de renda e da produção rural, por causa de um acesso insuficiente à água potável e à irrigação, e por causa de uma reduzida produtividade agrícola, em particular para os agricultores e os criadores com escassa disponibilidade de capital em regiões semiáridas;
v  risco de perda de ecossistemas marinhos, biodiversidade, bens e serviços disponíveis para a atividade produtiva em áreas costeiras, especialmente para as comunidades de pescadores nos trópicos e na região ártica.

RISCOS E OPORTUNIDADES PARA O FUTURO DA ADAPTAÇÃO

v  Risco de perda na atividade produtiva rural - de ecossistemas, biodiversidade, bens e serviços que esses ecossistemas fornecem para áreas terrestres e de água doce. 
v  Impactos e rescaldamento global - Um aumento da temperatura média (rescaldamento maior que 4°C em relação aos níveis pré-industriais) e o aumento da probabilidade de impactos graves e expansíveis, particularmente difíceis de enfrentar.
v  Mitigação e redução de riscos - Uma considerável e duradoura mitigação (redução das emissões de gás com efeito serra) pode reduzir os riscos das mudanças climáticas produzidas pela atividade humana na segunda metade do século XXI.
v  Recursos hídricos e mudanças climáticas – No curso do século XXI,  as mudanças climáticas reduzirão significativamente os recursos hídricos nas regiões tropicais mais secas.
v  Sistemas costeiros – Por causa do levantamento do nível dos mares em todo o século XXI, e mais além, os sistemas costeiros e as áreas mais baixas sofrerão impactos adversos, tais como aluviões e erosões costeiras.
v  Acidificação dos oceanos e dos ecossistemas marinhos – Em todos os cenários com emissão média e alta (RCP 4.5, 6.0 e 8.5) a acidificação dos oceanos trazem riscos concretos para os ecossistemas marinhos, especialmente para os ecossistemas polares e as barreiras de corais, associados a impactos sobre a fisiologia,  o comportamento e as dinâmicas das populações de espécies individuais, desde os fitoplancton aos animais.
v  Mudanças climáticas e segurança alimentar Considerados os efeitos negativos sobre as terras agrícolas, os impactos potencialmente negativos sobre elementos que não estavam ligados à produção de alimentos, e os aumentos da temperatura local de 4 graus ou mais sobre os níveis do final do século XX, combinados com a crescente demanda alimentar, as mudanças climáticas poderiam criar riscos graves e difusos para a segurança alimentar, seja em escala global que regional.
v  Áreas urbanas - Ondas de calor, precipitações extremas, aluviões nas áreas costeiras ou adjacentes,  estiagem e escassez de recursos hídricos, são todos elementos que criam riscos para as populações, para bens patrimoniais, para as economias e os ecossistemas das áreas urbanas.
v  Áreas Rurais – Os maiores impactos, nas áreas rurais, serão previstos no médio prazo, ou mais além, pelos efeitos de impactos sobre a disponibilidade de recursos hídricos, sobre as infraestruturas, sobre a segurança alimentar, os recursos agrícolas  e a renda agrícola, inclusive os deslizamentos territoriais de culturas destinadas à alimentação, e daquelas previstas para outros usos.
Setores e serviços econômicos – É difícil fazer uma estimativa dos impactos econômicos globais produzidos pelas mudanças climáticas.  
v  Impactos sobre a saúde humana – Até a metade do século em curso, as mudanças climáticas produzirão impactos sobre a saúde humana, principalmente levando à exasperação os problemas  já existentes de saúde pública. Se comparado aos cenários em que as mudanças climáticas são ausentes, no curso do século XXI as mudanças climáticas provocarão um aumento das doenças em muitas regiões da Terra, especialmente nos países de baixa e média renda.

UMA ADAPTAÇÃO ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, QUE SEJA EFICAZ E INCLUSIVA, PODE AJUDAR A REALIZAR EM BREVE, E NO FUTURO, UM MUNDO MAIS RICO E MAIS RESILIENTE

Adaptação a ser avaliada caso a caso – A adaptação deve ser referida, de forma específica, a cada lugar e a cada contexto que se queira tomar em consideração - não existe um único ou singular contexto que seja capaz de reduzir os riscos e que seja válido em todas as situações.
Adaptação: proceder em vários níveis - O planejamento e a realização da adaptação podem ser potenciados através de ações complementares, capazes de envolver diversos níveis, desde aquele individual até às ações de governos.
Benefícios a muitos campos diferentes -  Um primeiro passo para a adaptação às futuras mudanças climáticas, poderia consistir na redução da vulnerabilidade e da exposição às atuais mudanças climáticas, com iniciativas que incluam as chamadas medidas “low-regrets”, isto é, aquelas medidas que aportariam benefícios que compreendessem outros objetivos, e não apenas aqueles relativos às mudanças climáticas.
Suportes aos processos de decisão – Suportes aos processos de decisão são mais eficazes quando esses levam em conta o contexto, a diversidade dos tipos de decisão que serão tomadas, os processos de decisão e o eleitorado.

GERENCIAR OS RISCOS FUTUROS E CONSTRUIR A RESILIÊNCIA

Limites para a adaptação – Existem limites que podem interagir para impedir o planejamento e a realização da adaptação (como, por ex.: insuficientes recursos financeiros ou humanos, pouca integração ou insuficiente coordenação de governança, incertezas sobre os impactos previstos, diferentes percepções dos riscos, etc).
Integração entre adaptação e mitigação – Entre a adaptação e a mitigação existem benefícios conjuntos significativos, sinergias e tradeoff. O mesmo acontece entre diversas soluções de adaptação com interações, que acontecem concomitantemente entre regiões diferentes e no interior da mesma área geográfica.
Desenvolvimento sustentável e resiliência – As perspectivas referentes à trajetória de resiliência para um desenvolvimento sustentável, estão  fundamentalmente ligados aos resultados que serão obtidos em termos de mitigação das mudanças climáticas.
Economia, política e sociedade – Transformações nos sistemas políticos, econômicos, sociais e tecnológicos podem facilitar a adaptação, a mitigação e o desenvolvimento sustentável. 

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Comunicação e materiais de:
Sergio Castellari – IPCC Focal Point para a Itália
Mauro Buonocore – Serviço de Imprensa – CMCC - Info: mauro.buonocore@cmcc.it
Versão brasileira do texto italiano de: Vanise Rezenderezende.vanise@gmail.com.br
Postado em português em 16 de maio de 2014 : vaniserezende.blogspot.com.br
Sobre os autores:


Sergio Castellari é laureado em Física pela Universidade de Bolonha e Doutor (Ph.D.) em Meteorologia e Oceanografia Física pela Universidade de Miami (USA).Trabalhou como oceanógrafo físico na Rosenstiel School of Marine and Atmospheric Science (RSMAS) da Universidade de Miami, e no Conselho Nacional de Pesquisas (CNR). Desde o ano 2000 atua no Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia  (INGV), com sede em Bolonha. Desde 2007 é Cientista Senior do CMCC (sede de Bolonha). É coautor de publicações científicas e de comunicações em congressos internacionais. É revisor de artigos para revistas científicas internacionais e projetos europeus para a Comissão Europeia. Desde 2007 é docente do curso “Mudanças Climáticas e Políticas Internacionais” no Doutorado de Ciências e Gestão de Mudanças Climáticas da Universidade Ca’ Foscari (Veneza-It).



Mauro Buonocore  trabalha no CMCC desde 2008 e atualmente coordena as atividades de comunicação para o desenvolvimento, realização de estratégias de comunicação online e offline, da gestão das relações com a mídia,  atividades de disseminação e editoriais da revista online Climate Science & Policy. Foi laureado com louvor em Jornalismo, Comunicação e Novas Mídias, na Università Roma Tre (2001).         



 Na tradução do texto foram omitidos alguns dados referentes a emissões radioativas, de difícil compreensão. Pedimos desculpas.


Nota: Todas as fotografias e imagens da presente postagem foram copiadas da página da CMCC, a fim de ilustrar o artigo. Os autores aqui citados são colaboradores da mesma instituição. 







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