Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

AS MULHERES POR TRÁS DAS VACINAS CONTRA O COVID

29 de janeiro de 2021





As grandes mulheres por trás das vacinas contra o Covid

 

 Por trás de cada vacina Covid existe uma grande mulher”, afirma-se, numa reportagem sobre a efetiva participação de grandes cientistas mulheres que estão por trás das vacinas contra o Covid-19.

 A reportagem é de Elena Dusi, publicada pelo jornal italiano Repubblica, em 14-01-2021, publicada no Brasil pelo IHU, com tradução de Luisa Rabolini.

Sarah Gilbert, diretora do grupo de Oxford, convenceu seus trigêmeos a participar do experimento no verão. Algum crédito, se pararmos o Covid, também vai para seu marido, que quando jovem abandonou sua carreira de cientista para permitir que ela seguisse em frente. E Sara Gilbert realmente foi em frente, estudando vetores virais por décadas para combater - entre outras coisas - a MERS: o coronavírus do Oriente Médio a partir do qual a Oxford partiu para desenvolver tão rapidamente a vacina usada hoje contra o Covid.


 

      Sarah Gilbert, diretora do grupo de Oxford (Foto: Reppublica)

 

Outra mulher dirige a  ReiThera, a empresa de  Castel Romano que produz a vacina italiana. Mas Antonella Folgori, bióloga e pesquisadora, com estudos em Roma e Estrasburgo, não está sozinha. Apenas 30% dos cerca de cem cientistas que trabalham nos laboratórios da ReiThera são homens. “Devo muito ao meu marido e aos meus dois filhos, que entenderam as minhas muitas ausências, me apoiaram nos momentos felizes e principalmente nas dificuldades e me ajudaram nas minhas escolhas”, ela afirmou, ao final da primeira fase de testes.

 

 

  Antonella Folgori Bióloga, pesquisadora e empresária da ReiThera - reprodução.

Completando a informação acima, a Economyup.it informa que a empresa de Antonella Folgori – diretora da Reithera fornecerá à Itália as vacinas anti-Covid produzidas pela sociedade de Castel Romano. Ela e, naturalmente, toda a sua equipe. Sobre esta missão, ela comenta: “Guiar a produção e a distribuição da primeira vacina italiana contra o SARS-COV2 é um desafio complexo, que pode ser vencido, mas requer o envolvimento de nossas competências para enfrentar cada fase com o máximo rigor e a máxima eficiência” - disse Folgori. (*)

A vacina BioNTech - disponibilizada na Italia dez meses depois do aparecimento do coronavírus -  é também porque Katalin Karikò há trinta ainda anos não desistiu de seu trabalho, apesar dos golpes. Nascida em uma impronunciável cidade húngara - Kisújszállás – com bolsa de estudo na Universidade de Szegen - ela saiu da Hungria para os EUA em 1985, com seu marido, uma filha de dois anos (agora campeã olímpica de remo pela Equipe norte-americana) e mil dólares costurados na barriga do ursinho, resultado da venda do carro da família no mercado negro.


 

     Katilin Karicò - vice-diretora da BioNTech (Foto: Reppublica).

Embora do sonho americano Karikò tenha recebido apenas amargos despertares. Ninguém jamais acreditou em seus estudos sobre o RNA e possíveis aplicações no campo das vacinas. Sem vaga na Penn University, e coincidindo com um diagnóstico de câncer em 1995, só em 2013 conseguiu levar suas patentes para a empresa alemã BioNTech, da qual atualmente é vice-diretora (depois de ter recebido uma oferta trabalho da Moderna). Cada frasco da vacina injetado hoje, tem atrás de si a história pessoal, os fracassos e também a capacidade de dezenas de pesquisadores que se superaram.

“Normalmente, nesse ponto, as pessoas simplesmente se despedem e vão embora, porque é horrível”, disse Karikò à revista americana Stat, sobre seu annus horribilis de 1995. “Eu pensei que não era capaz, que não era inteligente. Pensei em ir a outro lugar fazer outra coisa". Hoje seu nome foi sugerido para o Prêmio Nobel.

 

Kathrin Jansen, diretora de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da Pfizer (Foto: Reppublica)


Do outro lado do  Atlântico, Kathrin Jansen trabalha na multinacional Pfizer, parceira da BioNTech – é a mulher que a  Nature  incluiu entre os dez cientistas de 2020: diretora de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da empresa, e criadora da vacina contra  papilomavírus. Conectada em smartworking em seu apartamento em Manhattan – e contando com 650 membros de sua equipe  ela coordenou em tempo recorde os testes da vacina de RNA desenvolvida pela BioNTech, de abril a novembro de 2020.


  

      Nita Patel, diretora de desenvolvimento da vacina da Science (Foto: Reppublica)

 Na Novavax, outra empresa estadunidense que está prestes a desenvolver uma vacina contra a Covid, encontramos  Nita Patel, diretora de desenvolvimento da vacina. Ela também mostra o quão longe a ciência pode ir, quando você se empenha com tenacidade. Nascida na aldeia de Sojitra, no estado indiano de Gujarat, Patel vem de uma infância de miséria, com seu pai incapacitado por tuberculose, quando ela tinha 4 anos. E é justamente com uma vacina contra essa doença que Patel começou a trabalhar, antes de se jogar no turbilhão do Covid.


  

      General chinesa Chen Wei recebe a vacina (Foto: Reppublica)


Entre as mulheres de ferro na luta contra o coronavírus está Chen Wei, general do Exército Vermelho Chinês, uma heroína nacional por seu trabalho na vacina contra o Ebola. Já em 29 de fevereiro de 2020 - um mês e meio após o sequenciamento do vírus - a vemos com a manga do uniforme arregaçada para receber a primeira injeção de uma vacina produzida em parceria com a farmacêutica CanSino.  Definí-la como experimental seria um eufemismo. Hoje é um dos pilares da luta da China contra o Covid.

 

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Fontes da informação:

http://www.ihu.unisinos.br/606185-as-grandes-mulheres-por-tras-das-vacinas-contra-o-covid

(*) https://www.economyup.it/innovazione/reithera-chi-e-lad-antonella-folgori-scienziata-imprenditrice-che-dara-un-vaccino-allitalia/

 

Crédito das imagens :

1. Foto título: Vacinação no Estado do Amazonas - Brasil: 

https://noticias.uol.com.br/album/2021/01/18/vacinacao-brasil.htm?mode=list&foto=21

2. Foto da cientista e empresária Antonella Folgori - reprodução imagem publicada em: 

https://www.economyup.it/innovazione/reithera-chi-e-lad-antonella-folgori-
scienziata-imprenditrice-che-dara-un-vaccino-allitalia/

3As demais fotos são da publicação do título, aqui reproduzida.


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"O BRASIL ESTÁ INDO PARA O BURACO" - ENTREVISTA DO CIENTISTA DR. MIGUEL NICOLELIS À TV 247

23 de janeiro de 2021

 

Fiquei impactada e indignada, ao ouvir uma importante entrevista concedida à TV 247 pelo cientista brasileiro Dr. Miguel Nicolelis reconhecido por sua atuação no âmbito internacional. O professor Nicolelis atualmente preside o Consórcio Nordeste comissão científica integrada por infectologistas e cientistas que acompanham a pandemia no país, oferecendo pesquisas e recomendações para subsidiar as decisões dos governadores do Nordeste e, atualmente, de outros estados do país. Suas palavras fazem mais impressão porque, ainda em 15/05/2020 ele dissera, numa entrevista à revista “Gauchazh”, de Porto Alegre: “Vamos viver algo que nunca imaginamos na história do Brasil”. (*)

Estamos no final de janeiro de 2021. O resultado desastroso das festas de fim de ano está aí: o vírus ampliou a sua circulação, apresenta-se com novas características, e continuam subindo as estatísticas de infectados e mortos no país. Os governos estaduais parecem não ouvir o clamor das famílias que perdem os seus entes queridos. Com raras exceções, não os vemos tomar as atitudes recomendadas pelos cientistas, que hoje sugerem a drástica medida de fechar tudo. Impor lockdown. É o que insistentemente a Comissão Cietífica vem sugerindo. Mas os governos não dão ouvidos aos cientistas. A quem estarão ouvindo? Que critérios teriam para escolher que a população continue sendo dizimada?  Uma situação como esta não é "culpa" dos irresponsáveis e delinquentes" que se esmeram em desobedecer os protocolos sugeridos pelas autoridades. Recordo ter ouvido - durante as comemorações do final de ano -  o secretário de saúde do Recife dizer, que não havia pessoal suficiente para inspecionar a implosão de festas e aglomerados. Mas, sabe-se que, havendo responsabilidade e empenho, esse tipo de dificuldade não é impedimento para agir adequadamente.   

Por outro lado, sabe-se de uma importante reunião, marcada no âmbito do governo federal – com os Secretários de Saúde, e os infectologistas e cientistas convidados – para discutir a questão da vacinação no Brasil. Infelizmente – e, direi, desastrosamente – a reunião foi suspensa, sem se prever outra data de realização. No entanto, o Dr. Nicolelis diz que já passamos da hora de se impor normas mais drásticas à sociedade. Esta seria a atitude mais correta, como poucos estados ou cidades estão fazendo.

A anunciada vacinação “que até agora surge apenas como um espetáculo midiático”está longe de atingir toda a população. O total de doses disponíveis é um número insignificante. Isto, num país que sempre foi reconhecido por sua tradição no uso da vacinação em momentos de epidemia.


“2021 está indo para o buraco." 

                 ”O otimismo que se podia ter está se esfumando."


Restam-nos muitas perguntas e perplexidades:

– Como explicar o fato de os governos estaduais não ouvirem as recomendações de infectologistas e cientistas renomados, que eles mesmos convidaram para orientá-los durante a pandemia? 

– Que motivo seria mais importante do que as vidas de cidadãos brasileiros, inclusive inúmeros jovens, para não se adotar a medida extrema e necessária de se fechar tudo? 

– Por que motivo não consideram os resultados exitosos dos países que adotam lockdown? 

– Mesmo que já se tenha fechado uma vez, por que não agora, que a situação entra em profundo colapso?

Essas são algumas das considerações preocupantes tiradas da entrevista com o cientista Dr. Miguel Nicolelis – registrada em vídeo pela TV-247, em 22.01,2021.

Para compreendê-las melhor, e conhecer o quadro atual da pandemia no Brasil, recomendamos que não deixem de ouvir a entrevista.

Segue a indicação do vídeo: https://youtu.be/8HzMNpifXRQ

Sugirimos que o repassem aos seus contatos

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Miguel Angelo Laporta Nicolelis
- Referência mundial na área de neurociência, o médico brasileiro Miguel Nicolelis vive na Carolina do Norte (EUA), onde lidera um grupo de pesquisadores do campo de fisiologia de órgãos e sistemas do corpo humano na Universidade Duke. (Foi considerado um dos vinte maiores cientistas em sua área no começo da década passada pela revista de divulgação para leigos Scientific American. A Revista Época o colocou entre os 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009).  Mas não em tempos de pandemia. 

Desde que o novo coronavírus chegou, o Dr. Miguel Nicolelis -  que viera visitar sua mãe – restou em São Paulo, convidado a coordenar o Monitora Covid-19, um grande projeto no qual a própria população compartilha seu estado de saúde (por meio de um aplicativo no celular) e, no caso de haver sintomas da doença, recebe atendimento médico remoso e, se for o caso, presencial. 
O sistema começou a ser implantado nos nove Estados atendidos pelo Consórcio Nordeste – cuja comissão científica também é liderada por Nicolelis. Mas já está disponível em todo o país. E é, defende o neurocientista, uma ferramenta importante para conter o avanço do vírus. (*)

“Nas grandes nações, como Brasil, China e Estados Unidos, as coisas são mais incontroláveis. São esses países que precisariam ter comandos uniformes, presidentes engajados na luta contra o vírus. Se você não tem um comando central que diz claramente o que se deve fazer, baseado em dados científicos, fica muito difícil. Não tem como. É como ir para uma guerra sem um general. A derrota é só uma questão de tempo.” (*)

(*) https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2020/05/miguel-nicolelis - 15/05/2020.

Crédito das Imagens

1. Ano Novo - 2021- Cabo Frio RJ -  https://www.poder360.com.br/brasil/ano-novo-na-pandemia-tem-de-aglomeracoes-a-cidades-vazias-veja-fotos/

2. Imagem Miguel Nicolelis -  Reproduação/Divulgação


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BRASIL - DOIS ANOS DE DESGOVERNO

21 de janeiro de 2021

Reporto, aqui, uma excelente e oportuna análise publicada no site de Leonardo Boff, sobre a conjuntura do Brasil que – segundo ele – “assaltado por múltiplas crises, representa um desafio a qualquer analista.”  Na presente análise, o professora de Ciências Políticas da UFMG – JUAREZ  GUIMARÃES – “combina, de forma inteligente, a análise com a síntese, oferecendo-nos grelhas de interpretação que nos ajudam a entender o intrincado jogo de poderes que se escondem por trás do bolsonarismo", escreve Boff.

Dada a importância do assunto mantemos a íntegra do texto, em respeito ao autor e ao leitor deste espaço, a quem certamente interessa a questão em causa. Os grifos e sublinhados são nossos.

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Dois anos de desgoverno                                         – a crise de legitimidade

Por: JUAREZ GUIMARÃES*

Em: A Terra é Redonda

A defesa do impeachment de Bolsonaro deve organizar a política de resistência e construção de alternativas das esquerdas em 2021.

Após as eleições presidenciais de 2018, realizadas já em um ambiente de colapso democrático na sequência do golpe de 2016, houve um debate sobre como qualificar politicamente o novo governo, como avaliar a sua força e estabilidade e qual seria o caminho estratégico para enfrentá-lo. As divergências aí surgidas estão na base da dificuldade de unidade e de protagonismo nacional das esquerdas, que se manifestou durante estes dois últimos anos e nitidamente nas eleições municipais de 2020. Por isso, longe de ser apenas um exercício retrospectivo, um balanço de dois anos do governo Bolsonaro deve ser capaz de criar um campo de previsão, condicionado e prudencial, sobre sua dinâmica neste ano de 2021 capaz de orientar uma diretriz e um campo unitários de ação das esquerdas brasileiras.

O primeiro erro que se vê em muitos balanços é o de analisar o bolsonarismo e seu governo como um fato dissociado da coalizão neoliberal que o elegeu, que o apoiou num primeiro momento e que continua ainda protegendo o seu mandato criminoso. Isto equivale a lhe retirar o caráter de classe, de ser instrumental a um capital financeiro internacional predatório, de atribuir o bolsonarismo a uma mera perversão política que deveria ser bem compreendida em sua singularidade. Este erro organiza o juízo da mídia neoliberal sobre Bolsonaro, mas é muito frequente em analistas da esquerda.

O segundo erro é o de não compreender que o bolsonarismo é um americanismo, que formou a sua força política em linha direta com o trumpismo nos Estados Unidos, sendo de fato uma força orgânica a ele em seus valores, seu programa, sua linguagem, sua forma de fazer política, seu aparato tecnológico de comunicação, sua pragmática. Sem trumpismo não existiria o bolsonarismo tal como o conhecemos. E é evidente que a derrota eleitoral do trumpismo, o fato de ele não dirigir o Estado ainda mais poderoso do mundo, apesar de manter sua base social e sua potência eleitoral, afeta diretamente a força e a evolução do bolsonarismo.

O terceiro erro seria o de não compreender o que há de singularidade no processo de formação do bolsonarismo, sua capacidade e seus impasses na formação de sua potência de poder. Sua origem ali onde o Estado brasileiro mais estava destruído, no território do crime organizado do Rio de Janeiro, sua aliança com seitas evangélicas que fazem da religião um negócio sórdido de acumulação e fraude, sua ligação orgânica com a máquina de propaganda criminosa de Steve Bannon na campanha eleitoral, e sua ancoragem em setores de uma corporação militar que professa abertamente o orgulho de ter torturado prisioneiros políticos, só pôde caminhar ao centro do poder porque contou com a cobertura e omissão das instituições máximas do sistema de justiça brasileiro centralizada em uma dinâmica de Lawfare, em uma operação de guerra contra as esquerdas.

O bolsonarismo não forma uma coalizão estável de poder e provavelmente isto está fora de sua potência de poder: seu caráter de facção o torna permanentemente refém das crises que gera em suas relações políticas. O culto à violência e ao extermínio dos adversários não é, por isso, estranho à sua identidade: o bolsonarismo, na célebre metáfora de Maquiavel, trabalha com pouco consenso e o máximo de força. Isto estreita a sua base social e mina as mediações de uma coalizão política ampla e estável. Ao contrário de Trump, Bolsonaro não tem uma máquina de um Partido Republicano por detrás. E mesmo os “pastores” evangélicos, bem se sabe, são fiéis sobretudo a seus interesses: em uma situação de forte diminuição da popularidade do Bolsonarismo, eles podem desertar de apoiá-lo, assim como fizeram com outras lideranças políticas, inclusive por um momento, Lula.

Este artigo de balanço do governo Bolsonaro trabalha com uma hipótese central: a de que seu governo aprofundará em 2021 sua condição agônica de legitimidade política.

A evolução, o ritmo e o desdobramento político desta tendência central à crise de legitimidade do governo Bolsonaro dependerá, em larga medida, da resposta que as forças de esquerda fornecerem a ela.

Bolsonaro e a coalizão neoliberal

A relação entre a liderança política de Bolsonaro e a coalizão neoliberal passou até agora por seis fases.

A primeira delas, que cobre o período de desestabilização do governo Dilma e grande parte do governo Temer, é de convergência no trabalho de combate frontal ao PT e encaminhamento da agenda neoliberal. Esta fase corresponde a uma acumulação inicial de forças do bolsonarismo enquanto fenômeno político.

A segunda fase, durante o primeiro turno das eleições de 2018, é marcada pela disputa sobre quem se posicionaria melhor para derrotar a ameaça de um retorno das esquerdas ao governo do país. Neste período, houve já uma relação orgânica do bolsonarismo com o trumpismo e um primeiro acolhimento por parte de setores das Forças Armadas brasileiras de seu projeto político.

Uma terceira fase, de uma segunda convergência, ocorre já no segundo turno das eleições de 2018, quando todos os partidos da direita, inclusive o PSDB, o DEM e o PMDB, engajaram-se ativamente no apoio à eleição de Bolsonaro. A abstenção de Fernando Henrique Cardoso tinha aí um mero papel simbólico: os principais candidatos do seu partido aos governos estaduais, nas disputas do segundo turno, apoiaram abertamente Bolsonaro. Sem este apoio, Bolsonaro não teria sido eleito presidente.

Abriu-se, então, uma quarta fase, de uma convergência de agendas, na qual os partidos da coalizão neoliberal formaram um apoio midiático, parlamentar e político às reformas neoliberais prioritárias, centralizadas na destruição da Previdência pública. Guardando uma autonomia diante de pautas mais retrógradas, em particular no que diz respeito aos costumes, os partidos neoliberais concentraram-se no apoio à gestão Guedes. Os últimos meses de 2019 foram ainda marcados pela campanha, por exemplo, do grupo Globo e de toda mídia neoliberal em anunciar uma retomada do crescimento econômico do Brasil, inclusive com manipulação de dados, que seria brutalmente desmentida no início de 2020.

O primeiro semestre de 2020, já no contexto da pandemia e de um recrudescimento de uma dinâmica bolsonarista de ataque ao STF e de captura da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República, pode ser caracterizado como uma quinta fase, de um conflito autolimitado entre a coalizão neoliberal e o governo Bolsonaro. A saída de Moro, os conflitos envolvendo a direção do Ministério da Saúde e da Educação, as tomadas de posição do STF e da Câmara Federal, impondo limites aos movimentos mais explicitamente inconstitucionais do governo Bolsonaro, são episódios expressivos desta fase. Chamamos de um conflito autolimitado porque os partidos e a mídia neoliberal, ao mesmo tempo, bloquearam politicamente, na mídia, no STF e na Câmara Federal, um movimento potencialmente expansivo de uma campanha pelo impeachment ou impugnação judicial de Bolsonaro, devido aos seus flagrantes crimes de responsabilidade.

De fato, houve em meados de 2020 uma pactuação de reposição da governabilidade de Bolsonaro, envolvendo diretamente o presidente do STF, a presidência da Câmara e do Senado, a direção dos partidos neoliberais e a mídia empresarial: este, de um lado, recuou em seus ataques direitos ao STF, em suas campanhas olavistas capitaneadas por seus filhos, recompôs uma base parlamentar de modo fisiológico no Congresso Nacional, aprofundou qualitativamente a inserção de quadros das Forças Armadas em seu centro estratégico, trocou o Ministro da Educação; de outro, os partidos neoliberais amorteceram suas críticas ao governo Bolsonaro, em busca de uma recomposição de agenda em torno de reformas neoliberais e novas privatizações.

Esta trégua, com a apropriação dos efeitos massivos e de profundo impacto social do Auxílio Emergencial, proposto pela oposição de esquerda e centro-esquerda, o governo Bolsonaro viu pelo menos uma suspensão de uma dinâmica de crescente impopularidade, muito forte e expressiva desde o início de seu governo, e até mesmo de uma recuperação na margem de popularidade.

Esta quinta fase de um conflito autolimitado, que cobre inclusive o período das eleições municipais de 2020, se expressou através de uma disputa nos primeiros turnos (em geral com resultados negativos para o bolsonarismo) e com uma recomposição de uma dinâmica eleitoral unitária entre bolsonarismo e neoliberais anti-esquerda nos segundos turnos. Em várias capitais, como Porto Alegre e São Paulo, onde a esquerda disputou o segundo turno, a votação final expressa quase que inteiramente a polarização do segundo turno das eleições de 2018, revelando a continuidade da convergência eleitoral da coalizão neoliberal e bolsonarismo.

Inicia-se, então, uma sexta fase em que prevalecerá a delimitação e a disputa da coalizão neoliberal com o bolsonarismo, acumulando forças para uma disputa em 2022, autolimitada na questão central do questionamento da legitimidade de seu mandato. Não se pode descartar uma ruptura da aliança entre a coalizão neoliberal e o bolsonarismo, mas ela não é ainda uma hipótese central e depende do agravamento de sua crise de legitimidade de governo incontrolada em uma dinâmica política aberta na qual outras forças e fatores joguem seu peso.Esta dinâmica só pode ser melhor pensada se aprofunda-se uma avaliação da relação do bolsonarismo com o programa histórico do neoliberalismo de refundação do Estado brasileiro.

Neoliberalismo, unidade e conflito

Já em sua formação histórica, como documentam Philip Mirowski e Dieter Plehwe em The Making of the Neoliberal thought colletive (Harvard University Press, 2009), o neoliberalismo é uma convergência de uma série de tradições intelectuais e políticas críticas ao socialismo, aos fundamentos republicanos da democracia e ao chamado “liberalismo social” ou “igualitário” ou keynesiano. No mundo contemporâneo, em sua extensão e complexidade, o neoliberalismo converge em coalizões de poder através de várias linguagens políticas diferentes.

A identificação da liberdade com uma ontologia mercantil, que está no centro da identidade neoliberal, pode conviver com desde uma ditadura militar como a de Pinochet até uma democracia liberal na qual os fundamentos da soberania popular estão severamente neutralizados. Já nos anos setenta, analisando o fenômeno da adesão de massas do thatcherismo, inclusive no interior das classes trabalhadoras inglesas, Stuart Hall chamava a atenção para a fusão entre estes valores de mercado e as culturas conservadoras no plano da moral.

Esta fusão já é, de fato, verificável no pensamento original de Hayek como insiste agora Wendy Brown, corrigindo certo unilateralismo de sua interpretação anterior do neoliberalismo. A feminista e marxista Nancy Fraser identificou um neoliberalismo “progressivista”, típico do Partido Democrata norte-americano, isto é, que conjugava a centralidade dos valores do mercado com certos valores anti-patriarcais e anti-racistas.

Esta compreensão histórica e conceitual básica do neoliberalismo serve para analisar a unidade e conflito entre a coalizão neoliberal no Brasil e o bolsonarismo.

Esta unidade é, em primeiro lugar, orgânica às classes dominantes, e tem como base a radicalização do programa neoliberal para o qual confluem não apenas o capital financeiro, internacional e nacional, o capital industrial e midiático, do agro-negócio e comercial. Esta unidade se expressa programaticamente na refundação neoliberal do Estado brasileiro, através de um rompimento com dimensões centrais das conquistas democráticas e republicanas presentes na Constituição de 1988.

Há unidade em cinco dimensões centrais desta refundação neoliberal do Estado brasileiro: uma redução substantiva do grau de soberania do Estado brasileiro frente aos EUA, aderindo a seus interesses geopolíticos internacionais e na América Latina, abrindo o Estado brasileiro a uma dinâmica profunda de relação orgânica e subordinada ao Estado norte-americano; a privatização, por dentro ou por fora, de toda a economia do setor público, incluindo a Petrobrás, os bancos públicos e o que resta das empresas públicas; a destruição dos direitos do trabalho, formada na tradição varguista e enriquecida ao longo de décadas de lutas das classes trabalhadoras, da negociação coletiva, da Justiça do Trabalho e das dinâmicas de representação sindical; a redução a um padrão minimalista de todas as políticas que, de forma parcial e desigual, constituem os núcleos das políticas do Estado do Bem-Estar Social, como o SUS, a educação pública, a Previdência Social e as políticas de assistência social; a quebra das dimensões participativas e de controle social do Estado brasileiro, a redução drástica do sentido democrático dos pleitos eleitorais e a plena mercantilização dos meios de comunicação.

Estas cinco dimensões centrais de unidade convergem para um padrão violento de reprodução das desigualdades patriarcais e racialistas no Brasil. As mulheres e os negros têm não apenas as suas políticas históricas de reparação bloqueadas, mas sofrem brutal regressão neste programa neoliberal de refundação do Estado brasileiro.

Em todas estas cinco dimensões, com suas resultantes patriarcais e racialistas, não se observou até agora nenhuma diferença fundamental entre a coalizão neoliberal e o bolsonarismo. Pelo contrário, convergência profunda. No plano estadual, governos do PSDB, do PMDB ou do DEM praticam, de fato, estas diretrizes programáticas fundamentais.

O acordo fundamental sobre este vasto programa de destruição do que se acumulou de democrático e republicano no estado brasileiro cessa quando se disputa o que colocar no lugar: há decerto – e ignorá-lo seria um erro político importante – uma diferença de regime político entre o proposto pelo bolsonarismo e aquele proposto pela coalizão neoliberal. Ou seja, entre um regime político protofascista militarizado e extremado em suas dimensões coercitivas, e um regime constitucional neoliberal, no qual as forças democráticas e populares aparecem excluídas do pacto de dominação e submetidas a um sistema de desestruturação política e de forte coerção.

Esta unidade programática, orgânica às classes dominantes, e este conflito político central explicam a narrativa complexa das seis fases antes referidas; submetidas às circunstâncias e às indeterminações próprias da política.

Mas um balanço do governo Bolsonaro e de sua dinâmica exigem um esforço central, não aditivo ou complementar, de suas relações internacionais. Como fenômeno de um país da semi-periferia, no qual a adesão aos valores do mercado extrema a subordinação e a perda de soberania, o bolsonarismo tem agora de acertar as contas com o Estado ainda mais poderoso do mundo, que lhe foi uma fonte fundamental de apoio nos dois anos de seu mandato.

Trump, Biden e o futuro do bolsonarismo

Devemos à consciência histórica de Celso Furtado, a compreensão de que a soberania nacional depende fundamentalmente do grau de democratização real do Estado brasileiro, observado que as classes dominantes brasileiras tendiam historicamente a uma consciência liberal cosmopolita e sem um projeto de nação. Ora, esta compreensão histórica é também uma chave analítica: a desestruturação da democracia brasileira, mesmo em seus limites pós 1988, expõe o Estado brasileiro a um forte recrudescimento da perda de sua soberania, em particular frente aos EUA.

Toda análise da conjuntura brasileira desde o processo de desestabilização da democracia brasileira iniciado de fato desde as eleições presidenciais de 2014 deve incorporar – não como externalidade – a presença forte dos interesses do Estado norte-americano. De fato, Armínio Fraga, indicado para ser o Ministro da Fazenda do presumido governo Aécio Neves, é um homem mais de Wall Street do que da Avenida Paulista. Esta forte presença do Estado norte-americano e de sua rede de poder econômico-financeiro, já está fartamente documentada nas relações da Operação Lava- Jato com o Departamento de Estado norte-americano pela tradição democrática jurídica brasileira.

Um determinado entendimento da política trabalha esta participação dos EUA nestes acontecimentos relevantes da história brasileira a partir de teorias conspirativas ou como mera expressão de interesses econômicos corporativos. Mas se a política é arte das mediações e, também, das indeterminações, seria preciso entender melhor conceitualmente estas relações entre as classes dominantes brasileiras e os centros de poder político e econômico do neoliberalismo no plano mundial.

O método de Gramsci de estabelecer graus de organicidade entre direção e força política é aqui fundamental. Este método permite “internalizar” a influência do Estado norte-americano na política brasileira sem simplificar ou saltar mediações nacionais dos fenômenos e, principalmente, sem perder a complexidade e indeterminação dos acontecimentos políticos. O PSDB, centrado em São Paulo, em seu poder financeiro, industrial e suas relações com o agronegócio, sempre manteve relações históricas com o Partido Democrata norte-americano, bem como com a sua intelectualidade e suas redes de poder. O bolsonarismo, por sua vez, como já se anotou extensivamente é orgânico ao trumpismo e suas redes de poder. Se estamos certos nesta consideração, o Partido Democrata, então no governo do Estado norte-americano quando da desestabilização do governo Dilma, e Donald Trump, então no governo do Estado norte-americano quando da ascensão do bolsonarismo, através de suas mediações e redes de poder, fizeram parte orgânica da direção do Estado brasileiro desde o governo Temer.

Se o neoliberalismo se revela programaticamente de forma mais nítida pela centralidade conferida à ocupação dos centros de poder econômico do Estado, Meirelles (com sua carreira formada no Bank of Boston), Ministro da Fazenda de Temer, e Ilan Goldfajn (ex-economista chefe do Banco Itaú), presidente do Banco Central de Temer, e Paulo Guedes, Ministro da Fazenda de Bolsonaro, (especulador financeiro e fundador do Banco Pactual, um vero “Chicago boy”) e Roberto de Oliveira Campos Neto (da linhagem de Roberto Campos e vindo do Banco Santander), presidente do Banco Central de Bolsonaro, evidenciam esta organicidade destes governos com os poderes da finança internacional e nacional. Não deixa de ser notável que, frente ao desastre econômico do governo Bolsonaro, o presidente de seu Banco Central foi escolhido em 2020 o melhor Presidente do Banco Central do ano pela revista britânica The Banker, vinculada ao Financial Times.

É a partir desta organicidade entre a coalizão neoliberal brasileira e o Partido Democrata norte-americano e entre o bolsonarismo e o trumpismo, que se deve incorporar a dimensão contingencial da política. Pois a ascensão de Temer, a partir da campanha de desestabilização liderada pelo PSDB, coincidiu com a eleição de Trump nos EUA e o governo de Bolsonaro coincide com a derrocada de Trump da direção do Estado norte-americano. Houve, então, aí, pelas contingências da política, duas disjunções.

O que nos interessa aqui é pensar como a disjunção Biden-Bolsonaro afeta o governo deste último. A hipótese central deste artigo é que esta disjunção afeta fortemente a legitimidade do governo Bolsonaro: ele deixa de ser parte orgânica e subordinada ao Estado norte-americano e perde a sua âncora geopolítica. Seu destino passa a ser puramente objeto de um cálculo político por parte da coalizão neoliberal e até mesmo por parte das Forças Armadas brasileiras, a esta altura muito subordinadas à direção do Estado norte-americano.

Se isto for verdade, a autolimitação da coalizão neoliberal em proteger o mandato inteiro de Bolsonaro, como revela o artigo de Fernando Henrique Cardoso neste início de 2021, pode ser revista diante de uma agudização da crise de legitimidade do governo Bolsonaro e de alguma hipótese de controle político, “por cima”, sobre sua substituição. Mas esta hipótese está, decerto, na indeterminação da política.

De fato, a posição da coalizão neoliberal brasileira em relação ao bolsonarismo tem sido mais ambígua do que a posição do próprio Partido Democrata em relação ao trumpismo. Lá o Partido Democrata confrontou Donald Trump com um pedido de impeachment, majoritário na Câmara Federal, e desde o início delimitou-se de suas políticas. Aqui, como vimos, o PSDB e DEM mantiveram relações de forte convergência com o bolsonarismo e ainda protegem o seu mandato do impeachment.

 Bolsonarismo, facção e popularidade

Ao definir o bolsonarismo como expressão de uma facção – não faltam elementos para caracterizá-la inclusive como uma facção criminosa, – estamos identificando a sua identidade de oposição a um interesse público democraticamente constituído ou a uma vontade geral majoritária livremente expressa. Mas isto não quer dizer que ele não possa conquistar, em certas situações de crise e instabilidade, uma condição de massas e, contingencialmente, majoritária.

Apesar de ser orgânico, não se pode por um sinal de identidade entre trumpismo e bolsonarismo. O primeiro é expressão de um poder imperialista, o segundo é um fenômeno de atualização da colonialidade do poder. O primeiro construiu-se por dentro do sistema político, adonando-se do Partido Republicano; o segundo mantém uma relação fluída com o sistema político partidário brasileiro; o primeiro vem das margens dos capitalistas sem lei e o segundo do crime organizado no Rio de Janeiro. De fato, a resiliência política do bolsonarismo parece mais frágil do que o do trumpismo.

Uma facção pode ganhar adesão massiva se expressar certos valores que respondem a incertezas, sentimentos e esperanças típicas de uma época de crise. Pode ser inclusive majoritária se, em determinados momentos críticos, parece expressar possíveis saídas de uma crise política aguda em relação a uma crise de valores de civilização. Pode formar um bloco de poder duradouro, como Hitler e Mussolini, se consegue cimentar interesses políticos de classe variados em uma coalizão de poder, valendo-se da utilização massiva da força e de algum grau de consentimento passivo.

Trabalha-se aqui com a noção de que o bolsonarismo tem uma vocação massiva (responde a certos valores racialistas e patriarcais, reacionários) ainda de expressão minoritária, mas ampla na longa história de continuidades políticas do Brasil, tem dificuldades fortes de ser majoritário (o segundo turno das eleições de 2018 sendo um momento excepcional de convergências) e carece de um plano para formar um bloco histórico duradouro de poder (isto estaria no plano do possível se Trump continuasse à frente do Estado norte-americano).

Em relação ao importante campo de indagações posto por André Singer – a possibilidade do governo Bolsonaro estabilizar uma base de massas a partir do impacto do Auxílio emergencial, – a resposta está muito focada nos estreitos limites colocados pela sua dura gestão neoliberal macroeconômica. Estes conflitos de gestão fiscal entre Bolsonaro e Guedes, muito presentes no ano de 2020, tendem a se reproduzir neste ano de aprofundamento da crise social.

 Como vem demonstrando William Nozaki, em uma série de artigos, a cúpula militar consolidou-se como o núcleo do governo Bolsonaro, ampliando a sua ocupação em cargos estratégicos, (8450 militares da reserva e 2930 militares da ativa) e, principalmente, estabelecendo nele uma ação estratégica de construção de poder. Esta militarização central do governo Bolsonaro é outra diferença importante em relação à experiência do governo Trump e certamente complica, no terreno democrático, a solução de uma eventual crise terminal do governo Bolsonaro. Pelo seu caráter de facção, pelos valores e interesses fortes que mobiliza, o bolsonarismo sofre certamente de uma dinâmica dialética forte entre popularidade e impopularidade. Isto é, a passagem de uma condição de popularidade para uma condição de impopularidade tende a ser rápida.

Isto foi anotado pelos analistas de pesquisa no primeiro semestre de 2019, observando que ele já constituía em poucos meses de governo um recorde de impopularidade. Esta dinâmica de impopularidade crescente sofreu certa suspensão no início do segundo semestre de 2019, com um forte apelo midiático em torno ao início da recuperação econômica do Brasil, foi retomada nos inícios de 2020 e sofreu uma suspensão e uma inversão na margem sobretudo devido ao massivo e historicamente inédito fluxo de renda do Auxílio emergencial para dezenas de milhões de brasileiros em processo de precarização e pauperização. Diante do volume e amplitude do benefício – mais de 250 bilhões a 68 milhões de brasileiros, – apropriado pelo governo, embora proposta pelas oposições, o que espanta, não é que a impopularidade de Bolsonaro não tenha crescido, mas que a sua popularidade tenha tão pouco se recuperado.

Diante da crise fiscal do estado brasileiro e das opções neoliberais que continuam a prevalecer no governo Bolsonaro, é possível e provável que se chegue a alguma solução compensatória do fim do Auxílio emergencial, embora em volume e amplitude qualitativamente diversos em 2021. A tendência provável é, pois, de uma forte retomada da impopularidade do governo Bolsonaro. Não se sabe ao certo o resultado das eleições para a presidência da Câmara dos Deputados e o grau de controle do governo Bolsonaro sobre ela. Mas pode-se dizer que elas terão forte influência sobre como este provável crescimento da impopularidade se relacionará com a institucionalidade em crise da democracia brasileira.

A política do impeachment e a unidade das esquerdas

A tese do “Fora Bolsonaro” foi minoritária no 7º. Congresso do PT e não centralizou a atividade política do PSOL nos dois primeiros anos de governo Bolsonaro, estando de fato muito distante das posições do PC do B, que centralizou a defesa de uma política de alianças das esquerdas que incluísse os principais partidos neoliberais brasileiros, que se opunham frontalmente a uma política de impeachment. No primeiro semestre de 2020, o diretório nacional do PT, o PSOL, o PDT e o PSB e mesmo o PC do B pareciam se mover na direção da tese do impeachment de Bolsonaro, mas uma campanha política nesta direção não foi organizada, tendo o tema praticamente desaparecido nas disputas eleitorais municipais de 2020.

Há, desde o início, razões de ordem civilizatória (o bolsonarismo apresenta publicamente um ataque frontal a todos os direitos humanos, que formam um piso de civilização), de ordem democrática (dezenas de crimes de responsabilidade foram cometidos a partir de um exame minimamente isento da Constituição de 1988), de ordem humanitária (o negacionismo radical no tratamento da pandemia do COVID-19) para indicar que o caminho não é de uma oposição normalizada a um governo democrático do qual fortemente se discorda.

As posições majoritárias do PT, da maioria da bancada federal e do Senado, da metade da bancada do PSOL, do PC do B, do PSB, do PDT em relação às eleições das presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, evidenciam toda a ambiguidade das esquerdas e centro-esquerdas em relação a uma política democrática absolutamente necessária de exigência do fim do mandato de Bolsonaro. O cálculo de ocupação de postos na mesa das duas casas do Congresso Nacional em detrimento do lançamento de uma candidatura unificada das esquerdas e centro-esquerdas no primeiro turno traduz bem a subordinação da necessária confrontação democrática do governo Bolsonaro, pública e de massas, a uma oposição que se orienta pelas possibilidades do terreno institucional minado e de alianças que contradizem profundamente o seu próprio programa de resistência ao neoliberalismo.

Este caminho desorganiza a própria identidade, o programa e a unidade necessária das esquerdas. Um programa alternativo ao bolsonarismo só pode se constituir se for alternativo ao da coalizão neoliberal e seu projeto de refundação neoliberal do Estado brasileiro. Se prevalecerem as dinâmicas eleitorais partidárias próprias e o cálculo centrado nas dinâmicas eleitoral e institucional, as esquerdas e centro-esquerdas novamente fatalmente se dividirão.

Sem uma campanha política unitária, ampla e de massas, que faça convergir toda a força potencial da consciência democrática brasileira, a crise de legitimidade agônica do bolsonarismo continuará a ser vivenciada morbidamente como um impasse de gestão do Estado pelas classes dominantes, mas como tragédia para os trabalhadores e o povo brasileiro, dramaticamente expostas na fome, à morte evitável da pandemia, no feminicídio e no recrudescimento da violência racista.

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Fonte do artigo: https://leonardoboff.org/2021/01/21/dois-anos-de-desgoverno-a-crise-de-legitimidade/


*Juarez Guimarães é professor de Ciência Política na UFMG. Autor, entre outros livros, de: Risco e futuro da democracia brasileira (Fundação Perseu Abramo).

 

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