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PAULO FREIRE - APRENDER A PENSAR POR CONTA PRÓPRIA

22 de fevereiro de 2019


Dando continuidade ao nosso intento de construção e de afirmação do pensamento democrático brasileiro, reproduzimos, aqui, um artigo que lembra uma figura expoente no âmbito da educação inclusiva e libertadora da contemporaneidade. A influência de Paulo Freire ainda é tão expressiva e incomodativa,  que nesses tempos sombrios e autoritários volta a sofrer perseguição de pessoas ignorantes e inexpressivas no âmbito cultural e político do país. Segue o artigo.

O DEMÔNIO USA BARBA
Por: Nirlando Beirão
Carta Capital 20/02/19

  
NO BRASIL DE 2019, O GRANDE VILÃO – DEPOIS DE LULA – 
É PAULO FREIRE


O educador e essa perniciosa ideia de que quem estuda deve aprender a pensar por conta própria

A educação pode reprimir ou libertar. Pode incentivar a busca da verdade ou impor um acervo de dogmas. Pode ensinar-lhe o respeito a opiniões diferentes da sua ou transformar você numa criatura autoritária e insensível. É, a educação inclui o risco de forjar cidadãos e de difundir o vírus da democracia. Por isso é que no Brasil 2019 o grande vilão, depois de Lula, é Paulo Freire. A barbárie tratou de retirar o educador cosmopolita e consagrado de seu nicho pedagógico para expô-lo à execração pública como subliminar porta-voz do comunismo ateu – agora, enfim, como prometem as autoridades, em vias de extinção em terras de Pindorama. 

Paulo Freire, morto em 1997, assombra bolsotários instrumentalizados pelos charlatães evangélicos (*) e  pelas pregações obscenas do astrólogo Olavo de Carvalho. A ironia é que, para Paulo Freire, educar é encaminhar o aluno em direção às múltiplas escolhas do livre-arbítrio. 

O pastor, o padre, o Sagrado Testamento que fiquem longe das salas de aula. Um dos livros de Paulo Freire é intitulado Educação como Prática da Liberdade (Editora Paz e Terra, 1967). Mas o tal comunismo supostamente professado por ele não é, como dizem os inimigos, a supressão da liberdade? Seria este mais um despiste dos vermelhos? Como formar disciplinados servidores do Partido incentivando neles o senso crítico e o apreço à divergência? Chamem Olavo de Carvalho para decifrar o enigma.

Era cristão, foi preso e exilado porque propunha
a liberdade em primeiro lugar

Vou entrar com um lança-chamas no MEC e tirar o Paulo Freire lá de dentro”, prometeu o candidato da extrema-direita na campanha eleitoral. Ele jamais leu uma linha que seja escrita pelo educador, tampouco o fizeram os que se apressam em imitar o incendiário, atiçando contra Paulo Freire a fogueira do auto de fé. Para eles, a Pedagogia do Oprimido – título da obra mais conhecida do professor pernambucano, nascido em 1921 – está no mesmo escaninho dos malditos imaginários, como o marxismo cultural, a evolução das espécies e Jean Wyllys.

O próprio Paulo Freire já vaticinava, em 1968, em seu exílio no Chile, que não seria fácil o embate contra os trogloditas aliterados – tais como os que assumiriam o poder no Brasil, meio século depois.

Nunca pensei ingenuamente”, escreveu, “que a defesa e a prática de uma educação que respeitasse no homem a sua ontológica vocação de ser sujeito pudesse ser aceita por aquelas forças cujo interesse básico estava na alienação do homem e da sociedade brasileira. Na manutenção desta alienação. Daí que coerentemente se arregimentassem – usando todas as armas contra qualquer tentativa de aclaramento das consciências, vista sempre como séria ameaça a seus privilégios.

É bem verdade que, ao fazerem isso, ontem, hoje e amanhã, ali ou em qualquer parte, essas forças distorcem sempre a realidade e insistem em aparecer como defensoras do Homem, de sua dignidade, de sua liberdade, apontando os esforços de verdadeira libertação como ‘perigosa subversão’, como ‘massificação’, como ‘lavagem cerebral’ – tudo isso produto de demônios, inimigos do homem e da civilização ocidental cristã.

Na verdade, elas é que massificam, na medida em que domesticam e, endemoniadamente, se ‘apoderam’ das camadas mais ingênuas da sociedade. Na medida em que deixam em cada homem a sombra da opressão que o esmaga. Expulsar esta sombra pela conscientização é uma das fundamentais tarefas de uma educação realmente liberadora.”

 
Realidade. Os milicianos da ignorância, hoje instalados no poder, denunciam que por trás desta cena está o comunismo. (Foto: FSP).

O pensamento crítico, em que a dúvida seja sempre mais ampla do que a certeza, é a antítese de todo e qualquer sectarismo. Paulo Freire era, sim, um homem de esquerda, na medida em que se ofendia com o capitalismo bárbaro e sonhava com um Estado de Bem-Estar Social próximo dos países avançados da Europa setentrional. Mas a paranoia persistente dos que confundem isso com o comunismo, que se agudizou durante a ditadura civil-militar, levou-o a um longo exílio, depois de ter sido preso pelos militares. Pode experimentar seus ensinamentos no Chile de Allende, na África Negra em momento fecundo de descolonização, e em dois países de “inclinação bolchevique”, a Suíça e os Estados Unidos. Só em 1988 é que ele teve a oportunidade de botar a teoria em prática como secretário da Educação da prefeita Luiza Erundina, em São Paulo.

Paulo Freire era um cristão que tinha um profundo compromisso ético com a defesa da vida do ser humano em sua plenitude”, defende seu biógrafo, Sérgio Haddad.Portanto, era contrário a qualquer regime que violava direitos fundamentais do ser humano, seja ele de qualquer natureza. Nos seus últimos escritos apontava sobre a crueldade de um capitalismo que desistia de melhorar a vida das pessoas para se transformar apenas em uma competição desregulamentada por mais lucro, assim como foi crítico dos regimes socialistas que haviam desistido da liberdade e da democracia. Todos, para ele, regimes violadores dos direitos humanos.
  
A brigada da "Escola sem Partido" promete botar fogo em Paulo Freire, mas a resistência já começou (Foto: Lula Marques)    


De Mordaça. Se fosse vivo, Freire estaria na trincheira oposta à do atual bloco do poder. Ter virado o bode expiatório da turma do mandamento e da tutela, disposta a patrulhar o comportamento dos professores em sala de aula em nome de uma determinada “Escola sem Partido”, não é exatamente o tratamento merecido por aquele que é uma referência capital, em todo o mundo, para trabalhos acadêmicos na área de humanidades.


Pedagogia do Oprimido é a terceira obra mais citada, segundo um levantamento feito no Google Scholar, ferramenta de pesquisa dedicada à literatura acadêmica. O professor associado da London School of Economics, Elliott Green, analisou as menções nos trabalhos disponíveis na ferramenta, criada em 2004. Segundo ela, Freire é citado 72.359 vezes, atrás do filósofo americano Thomas Kuhn (81.311) e do sociólogo, também americano, Everett Rogers (72.780). Bate pensadores radicais como Michel Foucault (60.700) e Karl Marx (40.237).

A pesquisa desconhece Olavo de Carvalho, o xamã do fascismo tropical. O Google Scholar, provavelmente, deve ser outra das muitas fachadas enganosas do tal “marxismo cultural”. 

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Notas deste blog : 

(*) Tomei a liberdade de editar a apresentação do artigo de Nirlando Beirão, na Carta Capital, utilizando negritos e trazendo novas imagens. Quanto ao comentário do autor sobre "bolsotários instrumentalizados pelos charlatães evangélicos", não vejo oportuno a generalização da questão,  por entender que há comunidades e pessoas de Igrejas "evangélicas" que não se deixam instrumentalizar, e  se mantêm fiéis aos princípios e valores revolucionários de Jesus Cristo.

Gostaria de anotar ainda que, em 14/12/2017, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado rejeitou uma sugestão legislativa (SUG 47/2017) para retirar de Paulo Freire o título de “Patrono da Educação Brasileira”. Os senadores consideraram a proposta fruto de ignorância sobre o legado do educador.  Lei 12.612, aprovada pelo Congresso e sancionada em 2012, declarou Paulo Freire “Patrono da Educação Brasileira”, em reconhecimento à vida e obra do educador. No site do Senado é lembrado que "Freire esteve à frente de políticas como o Programa Nacional de Alfabetização e a Educação de Jovens e Adultos e foi consultor de projetos internacionais de educação na África pós-colonial".


Crédito das Imagens:

1. Paulo Freire - www.escoladainteligencia.com.br
2. Paulo Freire - www.paulofreire.marceloauler.com.br
3. Realidade das escolas públicas no Brasil - foto da FSP.
4. Mordaça - Foto de Lula Marques
5. Paulo Freire é a segunda figura, da esq. para a dir., nesta escultura de 1976 de Nye Engström. A obra fica em Estocolmo, na Suécia. Foto: BBC NEWS BRASIL/bergnt oberger/ CC BY-SA 3.0/ PAULO FREIRE FINLAND



Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores, conforme créditos acima. Se  alguém possui direitos de uma delas e deseja removê-la deste espaço, por favor envie-nos um comentário.  

BRASIL - SE HAN ABIERTO LAS VENTANAS DEL INFIERNO

21 de fevereiro de 2019



El reconocido escritor y teologo Leonardo Boff  escribe  - con profundidad y sabiduría - sobre estos tiempos sombríos en el  Brasil, lleno de interrogantes e indignación. El mismo tendrá observado la  importancia de lo que apunta para los que lo síguen en su sítio, pues nos brinda la versión de  su texto también en español. 

Sigue la reprodución:


En Brasil se abrieron las ventanas del infierno





 *Leonardo Boff




En Brasil se constata algo innegable: se nota en muchos sectores la irrupción de odio, de ofensas, de palabras gruesas de todo tipo, de distorsiones, de prejuicios y de miles y miles de fake news que, en gran parte, dieron la victoria al presidente actual. Hay también youtubers que falsean la realidad, mezclando palabrotas con burlas y burdo moralismo, sujetos a un proceso judicial.

‘Comunista’ y ‘socialista’ se han vuelto palabras acusadoras. Ni  se  define su significado real, como si estuviésemos todavía en la Guerra Fría de hace treinta años. Cuantos, inclusive uno de los ministros de parcas luces, envían a sus críticos a Cuba, Corea del Norte o Venezuela. La mayoría no leyó una página de la Teología de la Liberación, tenida por marxista. Ignoran su propósito básico: la opción por los pobres y por su liberación, esto es, a favor de la mayoría de la humanidad que es pobre.


En fin, respiramos aires tóxicos. Muchos muestran completa falta de educación y degradación de las mentes. En la campaña electoral esta rabia encubierta salió del armario. Se ha reforzado la violencia preexistente, dando legitimación a una verdadera cultura de violencia contra indígenas, ‘quilombolas’, negros y negras, especialmente contra los LGBTI y los opositores.
Necesitamos comprender el porqué de este despropósito alucinante. Nos iluminan dos intérpretes de Brasil pertinentes aquí: Paulo Prado, Retrato de Brasil - Ensayo sobre la tristeza brasilera (1928) y Sérgio Buarque de HolandaRaíces de Brasil (1936) en su capítulo V: “El hombre cordial”.

Ambos tienen algo en común, al decir de Ronaldo Vainfas, pues «intentan descifrar el carácter brasilero a partir de sus emociones» (Intérpretes de Brasil, vol. II, 2002 p.16), pero en sentido contrario. Paulo Prado es profundamente pesimista caracterizando al brasilero por la lujuria, la codicia y la tristeza.
Sérgio Buarque de Holanda hace diferenciaciones en cuanto a la cordialidad.
«La contribución brasileña a la civilización será de cordialidad, daremos al mundo el “hombre cordial”. La llaneza en el trato, la hospitalidad, la generosidad, virtudes tan alabadas por los extranjeros que nos visitan, representan, en efecto, un rasgo definido del carácter brasileño» (p.106). Pero luego observa: “Sería engaño suponer que estas virtudes puedan significar buenas maneras, civismo” (p.107). Y continúa: La enemistad bien puede ser tan cordial como la amistad, ya que una y otra nacen del corazón” (p.107, nota 157).
Sabemos que del corazón emergen tanto el amor como el odio. La tradición psicoanalítica nos confirma que en él impera el reino de los sentimientos. Estimo que definiríamos mejor el carácter del brasileño si sostuviésemos que su diseño básico no es la razón sino el sentimiento. Y este es contradictorio: puede expresarse como amor y también como odio virulento.
Este lado, esta faceta dual de la “cordialidad”, mejor dicho, del “sentimiento” ambiguo del brasilero adquirió alas hoy y ha ocupado mentes y corazones. Domina la “falta de buenas maneras y de civismo”. Sólo tienes que abrir los sitios, los twitters, Facebook y YouTube para constatar que las ventanas del infierno se han abierto de par en par. De ahí salieron demonios, separando a personas, ofendiendo a figuras tan beneméritas como el medico Drauzio Varella y la figura mundialmente apreciada de Paulo Freire.
La palabra de un incivilizado ocupa el mismo espacio que la del Papa Francisco o la del Dalai Lama. Pero este es sólo el lado de sombra del sentimiento brasileño. Hay el lado de luz, enfatizado antes por Sérgio Buarque de Holanda y también por Cassiano Ricardo. Tenemos que rescatarlo para que no tengamos que vivir en una sociedad de bárbaros en la que nadie más consiga convivir humana y civilizadamente.
No hay por qué desesperarse. La condición del propio universo está  de  orden y desorden (caos y cosmos), las culturas poseen su lado sim-bólico y dia-bólico y cada persona humana está habitada por la pulsión de vida (eros) y la pulsión de muerte (thánatos). Tal hecho no es un defecto de la creación, es la condición natural de las cosas. Las religiones, las éticas y las civilizaciones nacieron para dar hegemonía a la luz sobre las sombras a fin de impedir que nos devoremos unos a otros. Termina pesimista Pablo Prado: «la confianza en el futuro no puede ser peor que el pasado» (p.98). Estamos de acuerdo.





Nos inspira este verso de Agustín Neto, líder de la liberación de Angola: «No basta que sea pura y justa nuestra causa. Es necesario que la pureza y la justicia existan dentro de nosotros» (Poemas de Angola, 1976, p.50).


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Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor – escribió: Reflexiones de un viejo teólogo pensador, a salir por: Trotta, 2019.
Traducción: Mª José Gavito Milano
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Fuente del texto:



Fuente de las imagens:
1. Imagin inicial – ombre y mar-ow4aaolum.jpg, reproducida de lo sitio: Leonardo Boff, en este artículo. 
2. La sequía - escultura de Abelardo da Hora.
3. La águia y el saque - YouTube.com
4. Retrato de lo angolano Agostinho Neto in: 
http://www.jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/o-discurso-ecletico-de-agostinho-neto/fotos.

BRASILE - SI SPALANCANO LE FINESTRE DELL'INFERNO


Il riconosciuto scrittore e teologo Leonardo Boff ci offre con arguzia e sapiente profondità una visione dei tempi oscuri che viviamo in Brasile, pieni di interrogazioni e di indegnazione. 


Lui stesso avrà percepito quanto era importante questa sua lettura congiunturale, giacché ci offre anche una versione del suo articolo in  italiano. Così, la riproduciamo qui.  

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Leonardo Boff*

In Brasile si sono spalancate le finestre dell’inferno

C’è una costatazione innegabile riguardo al Brasile: in molti settori è in corso un’alluvione di odio, di offese, di parolacce di ogni specie, di distorsioni, di pregiudizi e di migliaia e migliaia di fake news, che in gran parte hanno contribuito alla vittoria elettorale dell’attuale presidente. Ci sono ancora utenti di YouTube che falsificano la realtà, mescolano parolacce a burle di cattivo gusto e spregevole moralismo, materiale da processo giudiziario.
‘Comunista’ e ‘socialista’ sono diventati epitesi accusatori. Nemmeno si definisce  loro reale significato come se stessimo ancora in piena Guerra Fredda di cinquanta fa. Contando anche uno dei ministri di mentalità ristretta, tanti inviano i loro oppositori a Cuba, nella Corea del Nord o in Venezuela. La maggioranza non ha letto nemmeno qualche pagina della Teologia della Liberazione, fatta da un marxista. Ignorano il loro proposito basilare: la opzione per i poveri e per la loro liberazione, cioè a favore della maggioranza dell’umanità che è povera.
Insomma, respiriamo un’aria avvelenata. Molti mostrano una completa mancanza di educazione e di degrado dell’intelligenza. In campagna elettorale questa rabbia rispolverata è uscita dall’armadio. E’ stata rinforzata la violenza preesistente, legittimando la violenza contro i nativi, contro gli abitanti dei ‘Quilombos’, contro i negri e le negre, specialmente per LGBTI e loro oppositori.
Abbiamo bisogno di capire il perché di questi spropositi che fanno ammattire. Ci illuminano due interpreti del Brasile con discorso pertinente, Paolo PradoRetrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira (1928) - Ritratto del Brasile: Saggio sulla tristezza brasiliana - e Sérgio Buarque de Holanda: Raízes do Brasil (1936) - Radici del Brasile, nel suo capitolo V, a proposito dell’uomo cordiale.
Ambedue hanno qualcosa in comune come osserva Ronaldo Vainfas, perché “tentano di decifrare il carattere brasiliano a partire dalle loro emozioni” (Intérpretes do Brasil - Interpreti del Brasile - Vol.II, 2002, p.16). Ma nel senso contrario. Paolo Prado è profondamente pessimista analizzando il brasiliano riguardo la lussuria, l’avidità e la tristezza. Sérgio Buarque de Holanda fa delle differenze per quel che riguarda la cordialità.
Il contributo brasiliano alla civiltà sarà la cordialità. Daremo al mondo “l’uomo cordiale, l’eleganza nel tratto, l’ospitalità, la generosità, virtù tanto elogiate dagli stranieri che vengono a visitarci e che rappresentano di fatto una traccia definita del carattere brasiliano” (p.106). Ma subito osserva: “Sarebbe un inganno immaginare che queste virtù possano significare buone maniere, civiltà” (p.107). E continua: “L’inimicizia può essere altrettanto cordiale come l’amicizia, visto che l’una e l’altra nascono dal cuore” (p.107- Nota 157).
Sappiamo che dal cuore emergono sia l’amore che l’odio. La tradizione psicanalitica ci conferma che lì impera il regno dei sentimenti. Penso che definiremmo meglio il carattere del brasiliano se sostenessimo che il suo progetto fondamentale non è la ragione, ma il sentimento. Questo è contraddittorio: si può esprimere come amore e anche come odio virulento.
Poiché questo lato duale della ‘cordialità’, detto più chiaramente del ‘sentimento’ ambiguo del brasiliano, oggi ha messo le ali e ha occupato menti e cuori. Ha dominato “la mancanza di buone maniere e civiltà”.
Basta aprire i sites, il Twitter, il Facebook e YouTube, per constatare che le finestre dell’inferno si sono aperte in concomitanza. Da lì sono usciti i demoni, dividendo le persone, offendendo personaggi benemeriti come il medico Drauzio Varella e il riconosciuto e mondialmente apprezzato educatore Paulo Freire. La parola di uno screanzato occupa lo stesso spazio riservato al Papa Francesco o al Dalai Lama.
Ma questo è soltanto il lato oscuro del sentimento brasiliano. C’è il lato luminoso, enfatizzato come detto sopra da Sérgio Buarque de Holanda e anche da Cassiano Ricardo. Dobbiamo riscattarlo per non essere obbligati a vivere in una società di barbari in cui nessuno riesce a convivere umanamente e in modo civile.

Non c’è motivo di perdere la speranza. Perfino la condizione dell’universo stesso è fatta di ordine e disordine (caos e cosmos), le culture possiedono il loro lato sim-bolico e dia-bolico e ogni persona umana è abitata da una pulsione di vita (eros) e dalla pulsione di morte (thanatos). Questo fatto non è un difetto di creazione. E’ la condizione naturale delle cose. Le religioni, le etiche e le civiltà sono nate per dare egemonia alla luce sulle tenebre, al fine di impedire che ci divorassimo uno all’altro. Conclude il pessimista Paulo Prado: “La fiducia nel futuro non può essere peggiore che quella nel passato” (p.98). Siamo d’accordo.


Ci ispira un verso di Agostinho Neto, leader della liberazione di Angola: Non basta che sia pura e giusta la nostra causa. Sarà necessario che la purezza e la giustizia esistano dentro di noi”. (Poemas de Angola,1966, 50).



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Fonte del testo: https://leonardoboff.wordpress.com/2019/02/08/in-brasile-si-sono-spalancate-le-finestre-dell'inferno/
Versione italiana: Romano Baraglia e Lidia Arato.
* Leonardo Boff ha scritto “Riflessioni di un vecchio teologo e pensatore",
 Vozes, 2019. Da pubblicare in Italia.

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Crediti delle immagine:
1. Immagine  iniziale - uomo-e-mare-ow4aaolum.jpg, reprodotta dal site Leonardo Boff, in questo articolo. 
2. La seca - escultura di Abelardo da Hora.5. L'aquila e la sua preda - Youtube.com
3. L'aquila e sua preda - YouTube.com

4. Ritratto dell'angolano Agostinho Neto in: 
http://www.jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/o-discurso-ecletico-de-agostinho-neto/fotos.




BRASIL: ABREM-SE JANELAS DO INFERNO

16 de fevereiro de 2019



O reconhecido escritor e teólogo Leonardo Boff nos oferece - com a argúcia e a profundidade da sua sabedoria - uma leitura possível para esses tempos obscuros, carregados de de interrogações e indignação. 

Ele mesmo deve ter percebido quanto era importante essa leitura, para os que o seguem em seu blog, e nos presenteia com a tradução do seu artigo em espanhol e italiano.  

Assim, o Espaço Poese também oferecerá as traduções, após a presente postagem. Boa leitura!    


No Brasil abriram-se janelas do inferno
Por: Leonardo Boff


Há uma constatação inegável no Brasil: em muitos setores se nota a irrupção do ódio, da ofensa, dos palavrões de todo tipo, da distorção, do preconceito e de milhares e milhares de fake news que, em grande parte, deram a vitória ao atual presidente. Há ainda youtubers que falseiam a realidade, misturando palavrões com zombarias e reles moralismo, sujeitos a um processo judicial.


Comunista e socialista viraram palavras de acusação. Sequer se define o seu real significado, como se estivéssemos ainda na Guerra Fria de há trinta anos. Quantos, inclusive um dos ministros de parcas luzes, enviam seus críticos para Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela. A maioria sequer leu alguma página da Teologia da Libertação, tida por marxista. Ignora seu propósito básico: a opção pelos pobres e por sua libertação, isto é, em favor da maioria da humanidade que é pobre.

Enfim, respiramos ares tóxicos. Muitos mostram completa falta de educação e degradação das mentes. Na campanha eleitoral essa raiva enrustida saiu do armário. Foi reforçada a violência preexistente, dando legitimação a uma verdadeira cultura da violência contra indígenas, quilombolas, negros e negras, especialmente os LGBTI e os opositores.


Precisamos compreender o porquê deste despropósito tresloucado. Iluminam-nos dois intérpretes do Brasil, aqui pertinentes: Paulo Prado, Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (1928) e (Sérgio) Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936) no seu capítulo V - “O homem cordial”. Ambos têm algo em comum, no dizer de Ronaldo Vainfas, pois “tentam decifrar o caráter brasileiro a partir de suas emoções” (Intérpretes do Brasil, Vol.II, 2002 p.16). Mas, em sentido contrário. 

Paulo Prado é profundamente pessimista caracterizando o brasileiro pela luxúria, a cobiça e a tristeza. Buarque de Holanda faz diferenciações quanto à cordialidade. A contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o 'homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro” (p.106). Mas, logo observa: ”Seria engano supor que estas virtudes possam significar “boas maneiras, civilidade” (p.107). E continua: ”A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração” (p.110 - Nota 157).

Sabemos que do coração emerge tanto o amor quanto o ódio. A tradição psicanalítica nos confirma que aí impera o reino dos sentimentos. Estimo que definiríamos melhor o caráter do brasileiro se sustentássemos que o seu design básico não é a razão, mas o sentimento. Este é contraditório: pode se expressar como amor e também como ódio virulento.

Pois esse lado dual da “cordialidade”, melhor dito, do “sentimento” ambíguo do brasileiro, ganhou hoje asas e ocupa mentes e corações. Domina a “falta de boas maneiras e de civilidade”. Basta abrir os sites, os twitters, facebooks e youtubes para constatar que janelas do inferno se abriram de par em par. Daí saíram demônios, separando pessoas, ofendendo figuras tão beneméritas como Dráuzio Varela e como a mundialmente apreciada de Paulo Freire. A palavra de um incivilizado ocupa o mesmo espaço como aquela do Papa Francisco ou do Dalai Lama.

Mas esse é apenas o lado de sombra do sentimento brasileiro. Há o lado de luz, enfatizado acima por Sérgio Buarque de Holanda e também por Cassiano Ricardo. Temos que resgatá-lo, para que não tenhamos que viver numa sociedade de bárbaros na qual ninguém mais consegue conviver humana e civilizadamente.


Não há por que se desesperar. A condição do próprio universo é feita de ordem e desordem (caos e cosmos), as culturas possuem seu lado sim-bólico e dia-bólico e cada pessoa humana é habitada pela pulsão de vida (éros) e pela pulsão de morte (thánatos). Tal fato não é um defeito da criação. É a condição natural das coisas. As religiões, as éticas e as civilizações nasceram para conferir hegemonia da luz sobre as sombras, a fim de impedir que nos devorássemos uns aos outros. Termina o pessimista Paulo Prado: ”a confiança no futuro não pode ser pior do que o passado” (p.98). Concordamos.



Inspira-nos um verso de Agostinho Neto, líder da libertação de Angola: Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós (Poemas de Angola, 1976, 50).


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Fonte do artigo:


*Leonardo Boff escreveu: “Reflexões de um velho teólogo e pensador” - Vozes 2019.

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Crédito das imagens:

1. Imagem de abertura: homem-e-mar-ow4aaolum.jpg, reproduzida do site de Leonardo Boff, neste seu artigo. 

2. Mulheres na seca - particular de escultura de Abelardo da Hora.
3. Capa do livro: Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda em: www.estante.virtual.com.br
4. Capa do livro: Retratos do Brasil : ensaio sobre a tristeza brasileira de Paulo Prado, disponível na Livraria Saraiva.
5. Águia e sua presa - Youtube.com
6. Retrato do angolano Agostinho Neto em: 
http://www.jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/o-discurso-ecletico-de-agostinho-neto/fotos.

Nota: as imagens pertencem aos seus devidos autores. Se algum deles desejar que sejam retiradas deste espaço, por favor entre em comunicação por meio de um comentário.


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