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CARTA PARA O BRASIL DO AMANHÃ - LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

28 outubro, 2022


Com imensa alegria, reproduzo, aqui, a "CARTA PARA O BRASIL DE AMANHÃ" do  candidado à Presidência da República LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, dirigida a todos os brasileiros.
  O texto é claro, e está organizado em treze sessões que abordam os temas mais sensíveis do programa do governo Lula, de modo que todos possam entendê-lo.

Já foram feitos vários comentários nas redes sociais e na imprensa nacional sobre este gesto de respeito e atenção de Lula por seus eleitores e pelo povo deste país. O propósito da carta é entregar à população do Brasil um resumo das principais ações que o atual candidato à presidência prevê realizar, para responder e cuidar dos justos anseios de todos, sem exceção. É um documento que também nos  servirá para acompanhar as ações do seu provável governo. Assim, poderemos cobrar respostas efetivas ao que o candidato aqui propõe, pois trata-se de uma GRANDE ESPERANÇA da maioria dos brasileiros e brasileiras.   

Segue íntegra do documento. Os grifos são nossos.

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CARTA PARA O BRASIL 
DO AMANHÃ


Esta não é uma eleição qualquer. O que está em jogo é a escolha entre dois projetos completamente diferentes para o Brasil. 

Um é o país do ódio, da mentira, da intolerância, do desemprego, dos salários baixos, da fome, das armas e das mortes, da insensibilidade, do machismo, do racismo, da homofobia, da destruição da Amazônia e do meio ambiente, do isolamento internacional, da estagnação econômica, do apreço à ditadura e aos torturadores. Um Brasil de medo e insegurança com Bolsonaro. 

Outro é o país da esperança, do respeito, do emprego, dos salários decentes, da aposentadoria digna, dos direitos e oportunidades para todas e todos, da vida, da saúde, da educação, da preservação do meio ambiente, do respeito às mulheres, à população negra e à diversidade; da integração soberana com o mundo, da comida no prato e, sobretudo, do compromisso inabalável com a democracia. Um Brasil de esperança, um Brasil para todos

As primeiras medidas de nosso governo serão para resgatar da fome 33 milhões de pessoas e resgatar da pobreza mais de 100 milhões de brasileiros e brasileiras. A democracia só será verdadeira quando toda a população tiver acesso a uma vida digna, sem exclusões. 

Temos consciência da nossa responsabilidade histórica e, junto com amplas forças que apoiam a democracia brasileira, a partir de um permanente processo de diálogo e escuta da sociedade, apresentamos nossas principais propostas para a reconstrução do país. 

1| DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO COM INVESTIMENTOS 

Nossa primeira iniciativa será definir com os governadores dos 27 estados um planejamento para retomar obras paradas e definir obras prioritárias. Vamos buscar financiamento e a cooperação – nacional e internacional – para o investimento público e privado, para dinamizar e expandir o mercado interno de consumo, desenvolver o comércio, serviços, agricultura de alimentos e indústria. 

Vamos investir em serviços públicos e sociais, em infraestrutura econômica e em recursos naturais estratégicos. Os bancos públicos, especialmente o BNDES, e empresas indutoras do crescimento e inovação tecnológica, como a Petrobras, terão papel fundamental neste novo ciclo. Ao mesmo tempo, vamos impulsionar o cooperativismo e a economia solidária e popular. A roda da economia vai voltar a girar e o povo vai voltar e ser incluído no orçamento. 

Além disso, enfrentaremos o desemprego e a precarização do mundo do trabalho, com um amplo debate tripartite (governo, empresários e trabalhadores), para construir uma Nova Legislação Trabalhista que assegure direitos mínimos – tanto trabalhistas como previdenciários – e salários dignos, assegurando a competitividade e os investimentos das empresas. Vamos também criar o Empreende Brasil, com crédito a juros baixos para os batalhadores das micro, pequenas e médias empresas. Nosso Brasil será o país da inovação. 

2| DESENVOLVIMENTO SOCIAL COM TRABALHO E RENDA 

Nosso maior compromisso é construir um Brasil mais igualitário, sem fome, sem pobreza, com bons empregos e salários, priorizando as pessoas que mais precisam. Para isso propomos: um Salário-Mínimo Forte, com crescimento todo ano acima da inflação; um Novo Bolsa Família, que garantirá R$ 600,00 como valor permanente mais R$ 150,00 para cada criança de até 6 anos de idade; o programa Desenrola Brasil, para renegociar as dívidas de milhões famílias que estão inadimplentes, oferecendo grandes descontos e juros baixos; Imposto de Renda Zero para quem ganha até R$ 5 mil, que será acompanhado de uma reforma tributária; além da Igualdade Salarial para Homens e Mulheres que exerçam a mesma função.

3| DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E TRANSIÇÃO ECOLÓGICA 

Vamos construir um Brasil sustentável. O Brasil tem tudo para ser uma grande potência ambiental. Para isso, é preciso aproveitar a criatividade da bioeconomia e dos empreendimentos da sociobiodiversidade. Vamos iniciar a transição energética e ecológica para uma agropecuária e uma mineração sustentáveis, para uma agricultura familiar mais forte, para uma indústria mais verde. Nosso compromisso estratégico é buscar o desmatamento zero na Amazônia e emissão zero de gases do efeito estufa na matriz elétrica. Vamos apoiar a grande agricultura de baixo carbono e a agricultura familiar com crédito, garantias e assistência. Vamos criar o Ministério dos Povos Originários e revogar as medidas contrárias as populações indígenas e povos originários. Vamos reconstruir os órgãos de fiscalização e controle do desmatamento. Vamos acabar com o garimpo ilegal em terras indígenas. 

Em vez de líderes mundiais de desmatamento, queremos ser campeões mundiais do enfrentamento da crise climática e do desenvolvimento socioambiental. Assim, teremos comida saudável no prato, ar limpo para respirar, água boa para beber e muitos empregos de qualidade com os investimentos verdes. 

4| EDUCAÇÃO 

Para assegurar oportunidades para todas e todos, a Educação e a Ciência, hoje tão abandonadas e negligenciadas, serão tratadas como investimento e não como gasto. Vamos voltar a construir e apoiar as creches, aumentar os recursos para a merenda escolar, implantar o Ensino em Tempo Integral, com bolsa-estudante para quem completar o Ensino Médio. Vamos universalizar a banda larga nas escolas, com equipamentos adequados que atuarão como ponto de irradiação para a conectividade dos territórios. 

Também vamos investir em Mais Universidades, com o fortalecimento do ENEM, FIES, do PROUNI, da Bolsa Formação, e ampliaremos a Lei de Cotas, incluindo a pós-graduação. Voltaremos a expandir fortemente o Ensino Técnico Profissionalizante. Vamos valorizar a formação, a remuneração e as condições de trabalho dos professores, professoras e demais profissionais da Educação. A educação pública, universal e de qualidade voltará a ser prioridade estratégica do país. 

5| SAÚDE 

Para assegurar a saúde e a tranquilidade das famílias, vamos fortalecer o SUS, retomar o Farmácia Popular, implantar o Médicos Pelo Brasil para atender a população de todos os municípios brasileiros; promover mutirões emergenciais em todo o país para zerar as filas de consultas, exames e cirurgias que não foram realizados na pandemia, criar o Centro Nacional de Telemedicina e investir no atendimento integral à Saúde da Mulher. Vamos reconstruir o Programa Nacional de Vacinação. A vida é o nosso bem mais precioso.

6| HABITAÇÃO E INFRAESTRUTURA 

Vamos retomar o Minha Casa Minha Vida para garantir emprego e moradia para milhões de brasileiros. Também universalizaremos o acesso à luz e à água com a reconstrução de programas como o Luz para Todos e Cisternas. Vamos retomar obras paradas e estruturar um Novo PAC, para reativar a construção civil e a engenharia pesada – orientando o investimento para setores que atendam a demandas sociais como habitação, transporte e mobilidade urbana, energia, água e saneamento. É o caminho para iniciar um novo ciclo de crescimento econômico. 

7| SEGURANÇA 

Vamos criar o Ministério da Segurança Pública para implementar o Sistema Único de Segurança Pública, com polícias bem equipadas, treinadas e remuneradas. Vamos retomar o PRONASCI para investir na profissionalização e formação dos policiais. Vamos voltar a fortalecer e respeitar o importante trabalho da Polícia Federal e da Força Nacional. Vamos revogar decretos e portarias que permitiram o acesso irrestrito às armas, especialmente aqueles que estão armando o crime organizado. Enfrentaremos o aumento alarmante de casos de feminicídio e a violência contra a juventude negra, especialmente nas periferias. 

8| CULTURA E ESPORTES 

Vamos recriar o Ministério da Cultura e implantar um Sistema Nacional de Cultura para articular comitês estaduais de cultura. Vamos retomar o programa Cultura Viva, responsável pelos Pontos de Cultura, ampliar a presença da cultura nas redes sociais, incorporando tecnologias digitais. Vamos apoiar os esportes, aumentando o investimento no Bolsa Atleta e estimulando a prática esportiva de crianças e jovens nas escolas. Vamos retomar o conjunto de programas para a cultura, as artes, o esporte e o lazer, que foram atacados e destruídos pelo atual governo. 

9| DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA 

Vamos enfrentar as discriminações e preconceitos estruturais da sociedade brasileira, como o machismo, o racismo, a LGBTfobia, o capacitismo com as pessoas com deficiência, os preconceitos geracionais com idosos e a juventude. Vamos recriar o Ministério da Mulher para combater a violência e assegurar direitos, inclusive o de receber mesmo salário dos homens para as mesmas funções. Vamos recriar o Ministério da Igualdade Racial, com o fortalecimento de políticas de ações afirmativas para garantir direitos, promover a inclusão, a participação, o reconhecimento e as novas oportunidades. Vamos recuperar o programa Viver Sem Limites, especialmente o desenvolvimento e acesso às tecnologias assistivas para as pessoas com deficiência. Garantiremos o cumprimento integral da Lei que promulgamos para assegurar a mais ampla liberdade de religião e culto no Brasil. O futuro deve assegurar o respeito aos outros, a pluralidade e a diversidade, essenciais à democracia. 

10| REINDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL 

Vamos construir uma estratégia nacional para avançar em direção à economia do conhecimento. O Brasil não precisa depender da importação de respiradores, fertilizantes nem diesel e gasolina. Não precisamos depender da importação de microprocessadores, satélites, aeronaves e plataformas. Nosso país tem potenciais que devem ser impulsionados nas indústrias de software, defesa, telecomunicações e outros setores de novas tecnologias. Nosso país tem vantagens competitivas que devem ser ativadas, especialmente nos complexos econômico-industriais da saúde, do agronegócio e do petróleo e gás. Vamos iniciar a transição digital e trazer a indústria brasileira para o século XXI, com uma política industrial que apoia a inovação, estimula a cooperação público-privada, fortalece a ciência e a tecnologia e garante acesso a financiamentos com custos adequados. Os segmentos das micro, pequenas e médias empresas, bem como das startups, receberão atenção especial. O futuro pertence a quem implantar a sociedade do conhecimento.

11| AGRICULTURA SUSTENTÁVEL 

O Brasil é um dos mais importantes produtores e exportadores de alimentos do mundo. Para garantir e ampliar essa vantagem competitiva do país, vamos compatibilizar a produção com a preservação de recursos naturais, porque isso é necessário num mundo que enfrenta a crise climática e exige cada vez mais o consumo de alimentos saudáveis. Investiremos fortemente na Embrapa e no financiamento ao agronegócio, aos pequenos e médios produtores e à agricultura familiar e aos assentamentos. Para aumentar a produção sem desmatamento, implantaremos o Plano de Recuperação de Pastagens Degradadas, que somam cerca de 30 milhões de hectares. As taxas de juros serão reduzidas no Plano Safra, no Pronamp e no Pronaf para produtores comprometidos com critérios ambientais e sociais. Vamos reconstruir a Conab e estabelecer uma política de preços mínimos para estabilizar os preços dos alimentos e garantir comida na mesa das famílias. Vamos fortalecer o cooperativismo e a assistência técnica aos pequenos e médios produtores. 

12| POLÍTICA EXTERNA 

Superar o isolamento internacional e reposicionar o Brasil como protagonista no mundo é nosso compromisso. Retomaremos a política externa soberana, altiva e ativa, promovendo o diálogo democrático e respeitando a autodeterminação dos povos. Investiremos novamente na integração regional, no Mercosul e outras iniciativas latino-americanas, bem como no diálogo com os BRICS, com os países da África, União Europeia e Estados Unidos

Romper o isolamento e retomar política externa exitosa é fundamental para ampliar o comércio exterior e a cooperação tecnológica, além promover relações mais justas e democráticas entre os países. Reafirmaremos e fortaleceremos nossos pactos internacionais relativos ao desenvolvimento sustentável, em especial no marco da Convenção do Clima. Cultivaremos relações de mútuo respeito com todos os países. 

13| DEMOCRACIA E LIBERDADE 

O Brasil passa por um momento histórico em que os direitos, as instituições e as liberdades democráticas estão fortemente ameaçadas. 

Por isso, reafirmamos nosso total compromisso com a democracia, pois somente a democracia pode garantir os direitos da cidadania, condições de vida com dignidade para a população e as conquistas da sociedade. O Brasil não pode mais ficar nas mãos de quem admira a ditadura militar e idolatra monstruosos torturadores. O Brasil não pode ficar entregue a pessoas que questionam nosso processo eleitoral, procurando criar condições para golpes e aventuras totalitárias. O Brasil não pode estar submetido a um governante que agride sistematicamente o STF e o TSE e já ameaçou fechar o Congresso. Um governo que nega a transparência, o acesso público à informação e desestruturou os mecanismos de controle e combate à corrupção. Nossa democracia é fruto de décadas de luta, de mulheres e homens, pela nossa liberdade e pelos nossos direitos. 

A reconstrução do Brasil exige uma gestão pública competente, responsável, aberta ao diálogo e com a mais ampla participação da sociedade. Exige uma gestão da economia com credibilidade, responsabilidade e previsibilidade. Já governamos este país. Com responsabilidade fiscal, reduzimos a dívida pública, controlamos a inflação e acumulamos um expressivo volume de reservas cambiais que até hoje são fundamentais para a estabilidade da economia. Essas condições foram essenciais para o Brasil crescer o dobro da média internacional em nosso governo e enfrentar a maior crise financeira mundial da história recente. A política fiscal responsável deve seguir regras claras e realistas, com compromissos plurianuais, compatíveis com o enfrentamento da emergência social que vivemos e com a necessidade de reativar o investimento público e privado para arrancar o país da estagnação. O sistema tributário não deve colocar o investimento, a produção e a exportação industrial em situação desfavorável, nem deve penalizar trabalhadores, consumidores e camadas de mais baixa renda. É possível combinar responsabilidade fiscal, responsabilidade social e desenvolvimento sustentável – e é isso que vamos fazer, seguindo as tendências das principais economias do mundo. 

Ao longo dessa campanha, vi a esperança brilhando nos olhos do nosso povo. A esperança de uma vida melhor num país mais justo. O Brasil precisa de um governo que volte a cuidar da nossa gente, especialmente de quem mais necessita. Precisa de paz, democracia e diálogo. É com a força do nosso legado e os olhos voltados para o futuro que dirijo esta carta ao povo brasileiro. Que Deus nos ilumine nessa caminhada. 

VAMOS JUNTOS PELO BRASIL! 
Luiz Inácio LULA da Silva
São Paulo, 27 de outubro de 2022.

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Imagem de: Ricardo Stuckert

É PRECISO DESARMAR A RAZÃO ARMADA - ADOLFO PÉREZ ESQUIVEL

17 maio, 2022


Não seria necessária uma apresentação do autor deste artigo, pois se trata de um dos latino-americanos mais queridos e respeitados da atualidade - escultor argentino, ativista dos Direitos Humanos e Prêmio Nobel da Paz nos nebulosos anos de 1980. Com a sua abrangente visão da realidade mundial, Adolfo Pérez Esquivel comenta sobre guerras e violência com fundamentos éticos e grande sensibilidade. E aponta a espantosa cegueira e insensibilidade para com o sofrimento humano, não só nos países em guerra, mas com a violência da fome, a extrema pobreza e a dor dos refugiados espalhados em todo o mundo.
 

PAPA FRANCISCO EM ENTREVISTA A BIANCHETTI: AS MULHERES SÃO A RESERVA DA HUMANIDADE. ESTOU CONVENCIDO DISSO.

29 abril, 2022





Na entrevista concedida por Papa Francisco à jornalista Lorena Bianchetti, para a Raiuno, vários temas foram abordados: o drama da guerra, não só na Ucrânia, o importante papel das mulheres na construção da paz, a questão dos refugiados e dos sem pátria, o mundanismo no âmbito da Igreja e fora dela e o cainismo. O papa sublinhou a importância do perdão, do silêncio diante da dor e da força da esperança para se ir adiante. A entrevista é longa, mas lhes garanto que o diálogo é solto, espontâneo, atual e muito humano. Tem a característica de uma conversa, com excelentes questões colocadas a Francisco, e suas respostas coerentes e muito profundas.

CUBA RESISTE - AO SEU POVO, A NOSSA SOLIDARIEDADE!

25 julho, 2021

 

Há duas semanas ficamos sabendo dos manifestos havidos contra as medidas socialistas em Cuba. Muitos, na grande imprensa do Brasil, aproveitaram para apontar as dificuldades por que passa a população de Cuba, como se não soubéssemos do forte bloqueio econômico norte-americano, seguido por todos os países aliados, contra Cuba. Não esqueçamos que o Brasil deixou de contar com os excelentes serviços dos médicos cubanos, em nosso território, pelas mesmas razões. Foi uma forma de apoio do atual governo brasileiro ao bloqueio econômico ao povo cubano. Ninguém melhor do que o escritor Frei Beto para  trazer-nos informações confiáveis sobre o que está acontecendo por lá. Reproduzo, aqui, o seu artigo sobre o assunto. 

CUBA RESISTE

Artigo de: Frei Betto*

Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros “Fidel e a religião” (Fontanar/Companhia das Letras) e “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.

Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamento à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leitos cubanos avessos ao socialismo.

Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistas sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital?

Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.

Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.

Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.

Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos... O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?

Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas.

Democracia, no meu conceito, significa o “Pai nosso” - a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o “pão nosso” - a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.

Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de "prostíbulo do Caribe". A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular...

Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje.

Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do “sonho americano”, promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a “solidária” ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile.

Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Miguel-Diaz Canel: “Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar “missões humanitárias” que se traduzem em invasões e interferências militares.”

“Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia.  Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção “humanitária”, que terminaria em intervenções militares”.

“Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro.  Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração.”

"Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos.”                                                                          

"Também tem limitações de combustíveis e de peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano.”

“O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos.  Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto, tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação, segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado.”

“Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz).”

“Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha.”

É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.

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* Frei Betto é escritor, autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org – Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

Copyright 2021 – Frei Betto-Mhgpal - Agência Literária - mhgpal@gmail.com

http://www.freibetto.org/>  

Twitter:@freibetto.

https://youtu.be/HnR2EsH9dac

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Crédito das imagens:

1. A imagem panorâmica, foto da Catedral de Havana e do centro da capital são        reproduções de imagens de agências de viagem.

2. Miguel-Diaz Canel, presidente de Cuba - pt.wikipedia,org.jpg

3. Miguel-Diaz Canel em Havana - O globo. www.globo.com.br.jpg

4. Frei Beto - reprodução.


Nota As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.








BILIONÁRIOS COMEÇAM A PERCEBER QUE A DESIGUALDADE É UM ATRASO PARA A SAÚDE DE SUAS RIQUEZAS

03 julho, 2021


Assim é a nova elite de bilionários 

que querem acabar com a desigualdade

 

Há cerca de um ano atrás, uma reportagem publicada por Oxfam, em 13.07.2020, e reproduzida em português pelo portal IHU-Unisinos, nos informava sobre uma carta assinada por 80 milionários de diferentes países, os quais solicitavam aos governos que “aumentassem os impostos sobre milionários e bilionários  para ajudar na recuperação global pós-pandemia. Segundo a reportagem, traduzida por Moisés Sbardelotto, “a carta elogia os trabalhadores essenciais que estiveram na linha de frente da crise, e destaca o papel que as pessoas mais ricas da sociedade podem desempenhar para ajudar a reequilibrar a economia mundial.” Entre os principais signatários da carta, “estavam o fundador do Warehouse Group, o neozelandês Sir Stephen Tindall, o roteirista e diretor britânico Richard Curtis, a produtora e herdeira estadunidense Abigail Disney, o empresário dinamarquês-iraniano Djaffar Shalchi, o cofundador estadunidense da Ben e Jerry’sJerry Greenfield, a investidora em startups e filantropa alemã Dra. Mariana Bozesan e o ex-diretor administrativo estadunidense da BlackrockMorris Pearl. O grupo divulgara seu apelo antes da reunião de ministros da Economia e dos governadores centrais do  G20  e da reunião do  Conselho Europeu Especial em Bruxelas, que discutiram sobre o esforço global para reconstruir as economias e enfrentar a desigualdade global em um mundo pós-Covid-19."

No final junho passado, há quase um ano do manifesto dos milionários, o jornalista espanhol Enrique Zamorano escreveu um artigo que retoma a mesma questão, no  El Confidencial - um jornal diário digital, com sede em Madrid, na Espanha. De acordo com dados elaborados pela Alexa, sua página oficial é uma das quarenta mais acessadas por toda a Espanha.   Segue o artigo:

  • Por: Enrique Zamorano
  • El Confidencial - 29/06/2021
  • Em: Revista IHU On-line - 2 de julho de 2021
  • Tradução: Cepap

"As organizações não governamentais seguem insistindo em que os governos garantam uma redistribuição da riqueza justa e mais equitativa para garantir o acesso da população aos serviços públicos e suas infraestruturas, caso contrário, chegará um momento em que a distância entre ricos e pobres será tão grande que o sistema se tornará insustentável”, escreve Enrique Zamorano, jornalista, em artigo publicado por El Confidencial, em Madrid.

Um dos efeitos mais paradoxais do capitalismo contemporâneo é que tende a produzir crises econômicas que diminuem os recursos e a qualidade de vida da população em geral, para depois se adaptar às circunstâncias e ver oportunidades de negócio e investimento por todas as partes. Ao final, esta ‘serpente ouroboros’, que morde sua própria cauda, busca transformar o existente para gerar mais situações de vantagens e que os atores mais relevantes adquiram mais poder. Não em vão, os países que mais cresceram economicamente, nos últimos anos, também foram aqueles em que a curva da desigualdade socioeconômica mais se ampliou.

Além disso, a pandemia serviu para aumentar essa lacuna. Os últimos relatórios da  Oxfam Intermón  preveem que a  pobreza  e, por conseguinte, a desigualdade, irão se agravar assim que a crise sanitária passar. Esta, apesar de não ter sido produzida pelo colapso de uma grande bolha imobiliária, como aconteceu em 2008, também servirá para reestruturar a ordem de poderes globais e engrossar ainda mais a lista de lucros e patrimônios daqueles que estão na parte de cima da pirâmide social.

Essa tendência poderá ser revertida?

Os mortais comuns gostariam de pensar que sim, mas o certo é que, ao final, como em todos esses anos, as elites econômicas continuarão  a corrida para acumular o máximo de capital ou taxa de lucro, em uma escalada da concorrência que voltará a abrir novas vias de negócio e de investimento.

Nas últimas semanas foram publicados dois livros nos Estados Unidos, o país que mais hasteia a bandeira do capitalismo global e que conta com um sistema tributário mais frouxo para aqueles que mais possuem renda. Tal situação traça um novo horizonte na percepção dos bilionários sobre sua própria riqueza. Mas, em alguns deles surge a vontade de alcançar uma redistribuição do dinheiro de uma forma mais justa e equitativa. Ou, o que dá no mesmo, de atuarem contra o seu próprio benefício pelo bem da sociedade como um todo.

Um tal projeto, mais do que utópico seria contraditório, a julgar pela insensibilidade que parece estar presente nas altas esferas, em relação a temas tributários, por conta da elevada ascensão do liberalismo radical que defende (entre outras coisas) o estado mínimo: a nula intervenção estatal na economia e, assim, impostos mais baixos.

O mal-estar psicológico dos ricos

Em primeiro lugar, o artigo do jornalista e escritor Michael Mechanic, intitulado Jackpot: How the Super-Rich Really Live and How Their Wealth Harms Us All, que analisa em profundidade a realidade cotidiana dos bilionários, chegando à conclusão de que seus altos níveis de riqueza não prejudicam apenas o resto da pirâmide social, mas também a eles próprios, na relação com sua família e amigos e, consequentemente, o seu bem-estar psicológico.

Em segundo lugar, o livro Tax The Rich!, de Erica Payne e Morris Pearl, ambos membros do clube de ultrarricos Patriotic Millionaires, defende uma redistribuição muito mais robusta e justa da riqueza, uma vez que, segundo a sua tese, se o sistema econômico quer sobreviver, e com ele todas as suas elites, aqueles com um alto padrão de vida precisarão se submeter a uma arrecadação tributária muito mais alta. Caso contrário, o aumento da desigualdade social tenderá a criar um clima de ira e descontentamento popular que produzirá uma explosão da insatisfação popular e atentará contra os privilégios ostentados por aqueles que atualmente estão na parte de cima. Um dos pontos mais polêmicos e interessantes do livro de Michael Mechanic é que tende a enxergar uma semelhança entre aqueles que têm um alto volume de capital e os que simplesmente não têm nada.

 A riqueza extrema - ele afirma, em um fragmento citado pela The New Republic - tem algo parecido com a pobreza, em relação ao mal-estar psicológico que inflige”.

A abordagem do jornalista é no mínimo curiosa, pois muitas pessoas que precisam trabalhar para ganhar a vida ou não têm acesso direto a uma fonte de renda digna, podem se sentir ofendidas com sua tese.

Mechanic se vale de um estudo de 2018 para argumentar que, uma vez superado um limite de riqueza ideal, a partir do qual o indivíduo já não precisa gerar mais dinheiro para viver, este tenderá a perceber a diminuição da sua qualidade de vida, bem como do seu bem-estar psicológico. Talvez aí esteja a explicação de porque os ricos querem seguir acumulando mais e mais dinheiro ou permanecer na carreira empresarial, apesar de terem o seu padrão de vida garantido.

Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, e o fato de se possuir tal volume de riqueza, isso só faz com que você invista mais dinheiro em bens e serviços que nem sequer precisa e que, além disso, geram mais gastos correntes. Também pode acontecer que o seu círculo mais próximo se distancie, por considerar você um egoísta que não se deixa mais atrair pelos mesmos ambientes sociais de antes, aqueles mais humildes e ricos. Sem falar do mal presente na inveja e o medo de que, em um determinado momento, alguém queira se aproveitar de seus ganhos por bem (mediante a chantagem ou de um pedido forçado) ou por mal (espalhando que você tem uma fortuna, tornando-se alvo de ladrões ou pessoas malvadas).

É preciso levar em consideração que é difícil extrapolar essa teoria para a Espanha, pois nos Estados Unidos a fronteira entre o rico e o pobre pode ser muito estreita. Afinal, é uma nação que se alimenta do mito de que “a escada da ascensão social é muito rápida”. Sendo assim, você pode acumular uma boa fortuna que o faça decolar a toda velocidade, ou possuir todo o ouro do mundo, e, em um curto período, perdê-lo. De fato, Mechanic e Payne falam daquelas pessoas que por um afortunado golpe do destino se tornaram podres de ricas: ganhadores de loteria, herdeiros de grandes quantidades de dinheiro ou proprietários de empresas privadas que o Estado absorveu e se tornaram públicas. Então “você começa a se tornar insensível ao luxo”, escreve Mechanic. “Na realidade, aqueles ativos de grande valor como mansões, iates, obras de arte, jatos privados ou cavalos puro-sangue precisam de empregados para serem administrados. Um cavalo, por exemplo, pode ser comprado por um preço relativamente barato, mas precisa de uma manutenção constante. Cada mansão exige ao menos uma pessoa para a limpeza, quando não cinco, entre zeladores, técnicos de piscinas e socorristas. Quanto maior é a casa, maior será o número de funcionários. Uma grande riqueza dá muito trabalho, não importa o que você faça com ela”. E ainda há a paranoia pelo fato de se tanto dinheiro e bens para proteger. “Muitos viajam com segurança particular”, ressalta o jornalista. “Também há um serviço que treina as babás com técnicas de combate e vigilância, e entre muitas outras coisas, os empregados são incentivados a não publicar nada em redes sociais sobre suas férias, por medo da divulgação”. E, é claro, você terá que contar com uma boa infraestrutura de segurança que torne a sua casa um bunker para evitar qualquer ameaça de roubo. Mais ainda se você vive em um país como os Estados Unidos, que possui uma cultura armamentista. “Algumas das armas que eu vi nas casas dessas pessoas eram muito semelhantes às que saem nos noticiários quando falam do Iraque”, ressalta o escritor.

Ricos pela redistribuição de... sua própria riqueza?

Ao longo de todo o livro de Mechanic, há depoimentos de pessoas com um grande volume de riqueza que vivem completamente paranoicas, considerando que algo ruim possa lhes acontecer. Talvez esse medo constante seja uma das razões pelas quais surgiram, nos últimos anos, ‘lobbies’ e associações de ultrarricos como  Patriotic Millionaires, cujo presidente é justamente Morris Pearl, coautor de Tax the Rich! com Erica Payne. No livro, eles defendem uma reforma tributária urgente para mitigar os efeitos da desigualdade social e parar de se sentirem constantemente ameaçados por pessoas anônimas que, seja por questão de inveja ou vingança, podem atacar suas propriedades. Assim, o debate sobre aumentar a arrecadação tributária dos mais ricos está mais quente do que nunca, sobretudo na Espanha. Sem ir muito longe, existe uma grande divisão entre os grupos de esquerda  PSOE  e  Unidas Podemos,  para aumentar o imposto às grandes fortunas.

Nos Estados Unidos, a associação Patriotic Millionaires tenta, desde 2010, convencer as elites políticas, tanto democratas como republicanas, de que é necessário efetivar uma reforma tributária muito mais robusta, visando aquelas pessoas que possuem grandes somas de capital.

Em seu livro, Payne relata como “um pequeno grupo de pessoas muito ricas gastou um enorme volume de dinheiro para influenciar em um sistema político que redigisse leis tributárias em benefício delas”. Assim, “mesmo que estejam no poder partidos de ideologias diferentes, ocorram recessões econômicas ou explodam bolhas imobiliárias, eles, os ricos, possam assegurar os seus lucros”. Para Payne, os impostos são “um encontro entre a economia, a política e a ética”.

O que isso quer dizer? “Os impostos não são uma ferramenta que só serve para arrecadar receitas para o Estado, e depois são revertidas para o gasto público, já que o governo pode gastar e gastar sem levar em consideração a arrecadação”, argumenta a integrante de Patriotic Millionaires. “Os impostos - eles dizem - servem para restringir receitas muito altas, bem como para estabelecer normas de comportamento, entre outras coisas. A forma como tributamos as diferentes atividades econômicas fala sobre as nossas prioridades como sociedade”.Embora a solução possa parecer muito simples, como apontar para uma redistribuição da riqueza melhor e mais real, na sociedade norte-americana é um assunto mais complexo. Em primeiro lugar, porque nenhum partido político se mostra a favor de uma reforma tributária significativa. “Tanto os republicanos como os democratas, ao menos desde a era Reagan, perverteram o código tributário e geraram mais renda para os ricos”, afirma Payne. Nenhuma das duas correntes quer falar sobre impostos. “Não é uma opção que os cidadãos, atualmente, possam escolher nas urnas”, embora reconheçam que Biden prometeu um aumento dos impostos para as elites “como nenhum outro, em quase 30 anos”.

A crise sanitária que vivemos terá alguns efeitos socioeconômicos bem palpáveis nos níveis de desigualdade, que continuarão disparando. As organizações não governamentais seguem insistindo em que os governos garantam uma redistribuição da riqueza justa e mais equitativa a fim de garantir o acesso da população aos serviços públicos e suas infraestruturas, caso contrário, chegará um momento em que a distância entre ricos e pobres será tão grande que o sistema se tornará insustentável.

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Fonte das matérias reportadas:

Conheça o teor da carta e a relação dos signatários em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601064-mais-de-80-milionarios-pedem-impostos-sobre-a-riqueza-para-ajudar-na-recuperacao-global-pos-pandemia

 Artigo do El Confidencial:

 http://www.ihu.unisinos.br/610736-assim-e-a-nova-elite-de-bilionarios-que-querem-acabar-com-a-desigualdade -

Crédito Imagem: 

Desigualdade Social - www.mundoeducação.uol.com.br

 

 

 

 

  

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