Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ENVELHECER


 ENVELHECER

Esta é uma página muito especial no Espaço Poese. 

Tão especial que é tida à parte, para ajuntar os textos sobre o ato de envelhecer, sobre o qual o meu olhar ficou mais atento quando, aos setenta anos, comecei a diminuir o ritmo do trabalho e a cuidar mais de mim.

É muito importante que nos preparemos para vivenciar essa etapa da vida - que todos esperamos alcançar - com muita alegria no coração, para o nosso bem-estar e daqueles que nos amam. 

Desejamos contribuir para a descoberta de novos significados da vida longeva, tão cheia de elementos preciosos sobre a vivência do agora, sobre a prática das boas lembranças da vida e, ainda, sobre o nosso caminho para o "renascimento" no inefável ventre da eternidade.

Este não é, portanto, um espaço para ajudar a nos tornar mais joviais. É um espaço para trocar experiências sobre o processo do envelhecimento, especialmente para os que o estão vivenciando. Não será, pois, um espaço para receitas do bem viver, mas para pensar sobre a vida, aprendendo a seguir adiante e a conhecer experiências que nos animem a encontrar motivações para viver melhor.

Os textos aqui apresentados são assinados por figuras de quem sou aprendiz, que nos trazem um testemunho de vida ativa, engajada ao seu tempo, como, por exemplo, o Papa Francisco e Leonardo Boff.   

Os novos textos serão adicionados de forma crescente, os mais recentes estarão no final desta página.

Traremos o testemunho de figuras de figuras que em alguma parte expuseram  suas reflexões sobre o viver na velhice.  Pessoas respeitáveis, cuja vida seja um testemunho exemplar,  em diferentes linhas de pensamento, do seu singular viver, enfim, da sua espiritualidade. Outros textos serão artigos filosóficos ou científicos, de apoio às questões da vida longeva. E alguns serão artigos desta que vos escreve. 

Os passos acelerados do tempo me ajudam a assumir novas atitudes em busca do essencial, da simplicidade de vida e da necessidade de compreender, em profundidade, o sentido do afeto. Desse aprendizado com as inúmeras diferenças de pensar a vida, percebi que esse aprendizado requeria que eu desse passos novos para abraçar uma visão de mundo que comungue com a humanidade dos tempos atuais.

No caminhar desse tempo percebi, sobre o afeto, como faz bem à vida quando chegam sentimentos tão bonitos e diversos, na convivência de uns e de outros, com uns e com outros, considerando as suas diferentes maneiras de expressar as próprias escolhas e os singulares afetos.

Sabe-se que, quando duas ou mais pessoas se encontram e compartilham expressões sinceras e desinteressadas de bem-querer, algo é acrescido à sua humanidade, pois o bem-querer promove novas motivações para viver. São experiências de amizade, de fraternidade, de reciprocidade no amor ou de um novo amor nascente, que se aprofunda como um novo elo de comunhão.

Queremos registrar aqui diferentes experiências, ligando-as como se faz no bordado do fuxico, que é entremeado de uma grande diversidade de tecidos,  compondo um maravilhoso mosaico de cores e de tramas que nos completam reciprocamente.

Nosso intuito é estimular as pessoas longevas - ou aquelas que estão no limiar de entrada desse tempo da vida - a dar novos passos para o bem viver. E não só: os ainda jovens poderão descobrir nesta página, alguma coisas sobre o que os mais velhos têm a dizer, com suas histórias singulares e a sua escrita experiente. 

Sabe-se que a importância do nosso viver crescerá à medida que aprendemos a viver o tempo presente, esse momento único que na escrita de Graciliano Ramos, Eduardo Galeano, Marcel Proust. Importantes figuras, no âmbito da espiritualidade também marcaram a importância de se viver o tempo presente. Uma delas foi Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares,  que via o "momento presente" como uma chave para a fidelidade ao amor fraterno. Também a conhecida espiritualidade Ubuntu, de algumas regiões da África Subsaariana, marcou a vida de Nelson Mandela, grande líder político da África do Sul. A noção Ubuntu ficou ligada à história do Apartheid, inspirando Mandela a promover uma política de reconciliação nacional.



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Iniciamos com um texto de  Amparo Caridade, uma amiga muito especial. Amparo era psicóloga e  professora de Antropologia no mestrado da Universidade  Católica do Recife. Ela nos deixou muito cedo, mas continua presente a me inspirar, e a me fazer lembrar que a vida é hoje, e agora é o momento para torná-la mais saudável e mais alegre.  

Segue uma das suas crônicas do seu livro "Caminho e Caminhantes". 


Uma Paisagem de Afetos

Por: Amparo Caridade (*)

Múltiplas são as bonitas tarefas que a existência proporciona a quem vive atento às intensidades do seu próprio estar no mundo. Cada época da vida, cada estágio vivido anda sempre grávido de ações e emoções que, se forem percebidas e vivenciadas, fazem-nos emergir do fundo de nós mesmos. Mas, se ao contrário, elas passarem despercebidas em nosso cotidiano, a vida perde em intensidade e encantos.

Imagino, nesse devaneio, a paisagem de afetos que dormita no peito dos avós, quando aguardam a chegada dos primeiros netos. Um tempo novo, um novo ponto do ciclo da vida, outras tarefas descobertas e outras experiências. A gente está mais pronta para ser avó do que para ser mãe. Embora ninguém possa escrever a história do que poderia ter sido. Um neto, ao chegar, resgata a intensidade da vida: ressurge a alma infantil se libertam os olhos vagabundos daqueles que andavam esquecidos de brincar ou de 'comer as montanhas e beber os mares', como escreveu Pablo Neruda.

Há sentimentos em nós que não exigem explicações. Estão aí, precisam apenas ser liberados. Eles moram em nós como um fóssil de significação, aguardando o tempo de serem compreendidos e vividos. Ser avô ou avó é uma experiência e um sentimento que estão como um fóssil em nós, até que a vida se emprenhe de uma nova vida.

Os netos - como fosse por milagre - renovam a vida da família, tornando-a de novo intensa e brincante, de modo especial naqueles que mantêm acesa a chama do sonho e da liberdade, porque é isso que se pode partilhar com os netos: sonhos e liberdade. Por sua vez, os avós parecem viver a coisa que lhes é mais preciosa: a tarefa do amor, com a cumplicidade e a sabedoria de quem conhece a estrada e não teme a imaginação. Os pais vivem outras tarefas, a de cuidar, educar, dar limites, disciplinar a vida dos filhos. Mas os avós, estes sim, podem se misturar aos netos, falar-lhes a mesma linguagem, traçar com eles planos secretos, criar palcos para a encenação de mágicas fantasias.

Enganam-se os que pensarem que a tarefa dos avós é marginal. Seus corações são como um albergue aberto por dias e noites. Ao lado dos netos, arquivam reclamações costumeiras, inventam ramalhetes de sonhos, fantasias e palavras. E inscrevem na experiência infantil a ordem do amor pela vida.

Essa preciosa reciprocidade é quase desconhecida e pouco valorizada no âmbito social. Tudo o que marcha para um tempo mais avançado parece tender para a desconsideração pública. Contudo, é na algazarra dessas relações, na imaginação liberta de relógios e calendários, que avinidades se constroem, são trocadas e deixam marcas seladas na experiência de cada um.

Aos netos interessam as estórias que os avós têm para contar. Os avós, talvez só eles estejam disponíveis para a repetição incansável da compulsão infantil de ouvir de novo a mesma estória. Porque não é o seu conteúdo que interessa, mas a segurança e o conforto que ela promove. Só os netos riem de novo das velhas estórias, recontadas pela disponibilidade afetiva.

Talvez os avós e os netos não tenham toda a percepção do quanto trocam recíprocas sustentações. Talvez nem sequer expressem, entre eles, o tamanho de seus sonhos... Porque seriam maiores do que a realidade.

Talvez se poderia encontrar, na poesia de Fernando Pessoa, uma feliz expressão: "Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio. E a minha ambição era trazer o universo ao colo".

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(*) Caridade, Amparo. Caminhos e Caminhantes. Ed. Bagaço. Recife - 2004             p.84

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VELHICE  

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO


Uma curta mensagem de Papa Francisco, por ocasião do seu aniversário no dia 17 de novembro de 2016 – revela suas intenções pessoais para os anos que ainda terá pela frente. Seus desejos poderiam se tornar um programa de vida para 2017.  Eis o que ele falou:

"Há alguns dias me veio à mente uma palavra que me parecia feia: velhice. E que poderia assustar. Recordo o que me disseram: a velhice é a sede da sabedoria. Esperemos que assim seja também para mim. A velhice é vida tranquila, religiosa e fértil. Rezai por mim, para que minha velhice seja assim: tranquila, religiosa, fértil, e também divertida.

Fiquei a pensar qual o significado desse desejo do papa para a sua vida desse momento em diante, e o que também poderia significar para nós essa sua breve mensagem. Segue o que resultou das minhas reflexões sobre o que diz o Papa Francisco:


Uma vida tranquila – Plenificada,   sossegada, sem alvoroço  nem sobressaltos, com serenidade e segurança.

Bom seria que as situações que provocam desassossego e tumultuam o nosso bem-estar não fizessem parte do cardápio de nossa vida. Mas, como fazer – no rebuliço das relações engendradas na sociedade em que vivemos – para alcançar uma posição pessoal de tranquilidade? 

A experiência ensina que a melhor prática para chegar à tranquilidade é a pessoa se manter firmemente situada no momento tangente, no aqui e no agora. Mesmo que se viva uma situação de conflito, de doença, de perda, de desamparo. Dependerá, também, da nossa vida espiritual, que não significa necessariamente de práticas religiosas e cultos, mas da atenção pelo outro, colocando-nos mais na posição de quem ama do que de cobrança de amor e de cuidados. A meditação pessoal, uma boa leitura, a conversa aberta com amigos pode nos ajudar, e muito, nesse aprendizado, que é vital para o nosso bem- estar. 



Uma vida religiosa, espiritual  

Vida espiritual, não significa, necessariamente, uma vida de oração, de normas e de preceitos. A oração maior está em se adquirir uma visão transcendente que descobre um novo sentido para cada momento, por mais simples que seja. 

A transcendência significa dar uma dimensão espiritual aos momentos de grande significado da vida como aos momentos da vida cotidiana. A dimensão espiritual da vida também promove, em muitos, uma profunda comoção diante da dor do mundo e das necessidades dos irmãos mais pobres que conhecemos. 

O papa Francisco nos deu testemunho, desde o início, ao cuidar que os moradores de rua, próximos do Vaticano, tivessem acesso a banheiros e lavanderia, para levarem uma vida cidadã. Também se  sabe que foi ele quem chamou a atenção do mundo para a situação dos milhares de refugiados fugitivos de seus países em situação de conflito. 



Lembro as atitudes dos familiares e sobreviventes do desastre aéreo com os jogadores de Chapecó. Vários fatos nos falaram de de transcendência, na ocasião. Dona Alaíde, mãe de uma das vítimas - o goleiro Danilo - no momento em que foi abordada por um jornalista que a entrevistava, foi capaz de cuidar da dor e da comoção do seu entrevistador.


Uma vida fértil – requer, em primeiro lugar, o esforço e a participação de cada um para se desenvolver de forma cooperativa e produtiva, diferente das fúteis conquistas que brotam de um "jeitinho" ou do dinheiro que se tem para usufruir das coisas que se deseja.   

Uma vida fértil sugere a geração de frutos em comunhão com os outros, imersos na cooperação fraterna do serviço. E promove partilha de talentos, de saberes, de oportunidades e de experiência, a fim de se poder construir a solidariedade econômica, política e social que gera reciprocidade.

Uma vida fértil é, ainda, a vivência testemunhal das escolhas que cada um ou cada grupo faz com suas crenças e sua ideologia. Pois só o ministério do bem-comum contém a energia vital que fertiliza o solo das relações, e produz um novo jeito de ver o mundo e de se estar nele. Esta parece ser a vida fértil de que fala Francisco. 



Por fim, uma vida divertida – Muito simbólica essa lembrança de papa Francisco ao encerrar o seu discurso. A "fertilidade" carece de relação, de cuidado e de alegria em todas as suas fases de vida. 

Para se alcançar uma vida divertida não carece viver-se de espetáculo em espetáculo. É preciso, sim, construir pontes, fazer amizades, abrir-se para o outro, buscar aliados e aprendizes da vida, companheiros de caminhada. Pois seria muito duro estar a invernar no trabalho todo o tempo. É igualmente importante buscar as carícias da primavera e o calor do verão.

Aqui, vale lembrar um dito da espiritualidade africana conhecida como Ubuntu: “sou enquanto você é”. Para tudo na vida. Mas, de modo especial para se querer bem, se alegrar e se divertir.



Assim, ao completar oitenta anos, o papa Francisco nos revela por que o seu testemunho fala de sobriedade e tranquilidade, e de uma missão profundamente fértil. Mas, ele também não esconde o seu gosto por diferentes expressões artísticas e pelo cultivo de laços de amizade. 

Que nos sirva de aprendizado esses sábios desejos de uma pessoa tão querida, dentro e fora do ambiente das Igrejas Cristãs que nesses dias celebram o Natal. 

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Créditos Imagens

1. A pomba da paz e Papa Francisco - www.mensagenscomamor.com.br
2. Papa Francisco no refeitória da residência onde vive -                     www.taida.web.com.br - vaticano
3. Francisco com uma criança, em uma de suas viagens - www.clicrbs.com.br
4. Dona Alaíde e o jornalista Guido Nunes, seu entrevistador -www.youtube.com
5. Duas amigas comemoram o Ano Novo - foto exclusiva deste blog.
6. Uma boa dança pra relaxar - foto exclusiva deste blog.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


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A ÚLTIMA ETAPA 

DO 

CRESCIMENTO 

HUMANO

Por: Leonardo Boff

Apresentamos, aqui, um texto copiado de uma série de slides editados e divulgados por Leonardo Boff - em 2008 - quando ele completava setenta anos, e se incluía entre os velhos brasileiros nascidos no século passado. Para facilitar a leitura, tomei a liberdade de criar subtítulos no texto deste importante e denso depoimento:

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Ao completar 70 anos, pelas condições brasileira me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefutavelmente, o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. de fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas. Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano.


Nós nascemos inteiros, mas nunca estamos prontos. Temos que completar nossos nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida, até acabar de nascer.Então, entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e, finalmente, terminar de nascer. Neste contexto é iluminadora a palavra de Paulo: "Na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior" (Cor 4,16).



O QUE É O HOMEM INTERIOR?

A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face. Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades do Vaticano (1981), submetido ao "silêncio obsequioso" e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira palha. Então, deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afina, que sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos me habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério?

Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações, vem ao lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.

A PALAVRA ESSENCIAL QUE NOS DEFINE

Este é o desafio para a etapa da velhice. Então, nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos define. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente ainda não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida. Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice, como etapa final do crescimento e do nosso verdadeiro Natal.

PREPARAR O GRANDE ENCONTRO

Importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a ÚLTIMA REALIDADE, feita de amor e de misericórdia. Aí saberemos, finalmente, quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: "Contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade".


SONHOS DE UM JOVEM ANCIÃO

Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: "Eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver". Mas, como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo: "Mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida".

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Crédito imagens:


1. Um rosto envelhecido e um casal - www.canstockphoto.com.br

2. Leonardo Boff - foto divulgação na sua biografia (facebook).
3. Papa Francisco e José Mujica - G1.globo.com

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MEUS 77 ANOS

Por : Vanise Rezende*

Acabo de completar setenta e sete anos. A alegria de poder comemorar tantas décadas de contemplação da Mãe Terra, na sua dança permanente em torno de si mesma e ao redor do sol: uma contemplação de doces auroras e dos seus reluzentes ocasos...

Alegria também da presença carinhosa de familiares e amigos que vieram ou que estavam comigo nos sinais que me chegaram, fazendo-me perceber que o tempo não apaga o afeto cultivado em reciprocidade. Assim, é cada vez mais viva a minha crença de que a amizade é um sacramento que imanta de novidade cada fase do nosso caminhar.


Neste longo percurso passei por estações irisadas de matizes florais, outras carregadas de frutos verdes ou desabrochados na sua identidade exuberante, amadurecidos na singularidade inteira de seu pleno sabor. Aprendi que a vida está imbricada de estações mutantes de invernos com chuvas ensolaradas – feito no meu sertão – e outras avisadas por raios vibrantes e estrondosos trovões chegados de surpresa, quando carece fechar a porta e aguardar, na esperança que passem depressa. Experimentei também outonos suaves e fortes: as folhas coloridas de um cobre brilhante em múltiplas nuanças, revestindo devagar os caminhos do tempo que passa, até o inverno de uma paisagem fria de brancura infinda.


77 anos escritos assim, em caracteres repetidos, que dão a impressão de uma fase muito especial da vida, enriquecida do sentido profundo de tudo o que já foi – o viver no tempo ligeiro do dia-a-dia – e do sonho presente do que ainda está por vir.


No final do dia, lembrei-me de um poema - cujos versos traduzi, reescrevi e ampliei, inspirada em um manuscrito deixado pela mãe de uma amiga francesa, dos Pirineus, com o título: "Oferendas” – que parece cantiga de ninar a velhice, no regaço do cuidado e do afeto:

Não me ofereças casa...
Ofereça-me o aconchego, o bem-querer,
E um lugar iluminado de harmonia.

Não me ofereças flores...
Ofereça-me a comunhão com os pobres
E uma vida de simplicidade.

Não me ofereças roupas...
Ofereça-me uma aparência
Saudável e atraente.

Não me ofereças sapatos...
Ofereça-me comodidade aos meus pés
E o prazer de caminhar.

Não me ofereças livros...
Ofereça-me um recanto assombreado
Para ler poetas e escribas.

Não me ofereças ferramentas...
Ofereça-me o benefício e o prazer
De realizar coisas bonitas.

Não me ofereças dinheiro...
Ofereça-me o carinho de enxergar
O que eu preciso para sobreviver.

Não me ofereças status...
Ofereça-me a presença dos amigos
E a partilha da sua emoção.

Não me ofereças coisas...
Ofereça-me ideias de partilha
E o testemunho da solidariedade.

Não me ofereças discursos...
Ofereça-me a atenção da escuta
E o dom de aprender o que ainda não sei.

* Escrito em abril de 2015

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MEUS 78 ANOS

Há diferentes momentos de se comemorar o aniversário dos quinze anos, que quase sempre jamais esquecemos. Refiro-me, por exemplo, aos aniversários de 69 ou de 78 anos, cuja soma de seus algarismos resulta em 15. Um bom motivo para celebrar, de forma brincante, a chamada "boa idade".

É assim que hoje – 13 de abril de 2016 – estou completando mais uma vez meus quinze anos! Há quem não goste da expressão “boa idade” para esse momento da vida. Mas, acredito que há muito que se comemorar. De minha parte, tenho razões para pensar assim, aos 78 anos!



No percurso da maturidade – que maduro você só está quando é naturalmente chamado ao seio da terra ou, como gosto de pensar, ao coração de Deus  a gente percebe que as lembranças do passado são vivas, intensas, cada vez mais presentes; e que as emoções afetivas não desaparecem (como tanta gente insiste em pensar), mas se apresentam de outro modo no seu coração e no corpo, às vezes até com alguns sintomas da euforia, da ousadia e do romantismo dos tempos adolescentes. 

Outro grande dom no processo do envelhecimento, é quando a pessoa se sente na liberdade de ainda ser aprendiz, aprendendo a aprender no exercício do diálogo com os talentos do outro, o diferente de si, buscando interagir com outras visões de mundo, de saberes, e de jeitos de bem-querer.

Yung afirma, em suas Memórias: ”Há tantas coisas que me preenchem: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”. (i)



Assim me vejo hoje. Uma pessoa integrada com o mundo que me cerca, preenchida dos presentes da natureza, ao contemplar as diferentes belezas do alvorecer e do anoitecer, da chuva e dos trovões, dos pássaros que ainda cantam à minha janela – embora assombrados entre um arranha-céu e outro  e do dom das filhas, do genro, da nora, e de um neto vivaz de cinco anos, a me alegrar o viver.  
Ainda sou uma aprendiz do diálogo, na contradição exuberante das ideias que carecem de ser as, iluminadas e abraçadas, a nos convidar ao recomeço, sempre.

Cultivo a alegria de manter aberta uma janela para o mundo  com este blog, por exemplo  embora seja um sentimento abastecido de teimosia, na vida que nos surpreende a cada momento.  

Como Guimarães Rosa, estou cada vez mais convicta de que: 

"O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão". (ii)

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 (i)  Yung, Carlos Gustavo - Memórias, Sonhos e Reflexões, p. 233
(ii) Guimarães Rosa, João  – Grande Sertão Veredas, Ed. Nova Fronteira                  (Biblioteca do Estudante), p. 23.


Crédito das Imagens : 

1. Foto de Vanise Rezende, realizada no Museu Picasso, em Barcelona (ES), em fevereiro de 2016. Ao visitar o museu, em 2016, fui convidada a participar da homenagem do museu a Pablo Picasso. O visitante era fotografado em pose de imitação, na liberdade, da pose de "Margot" no quadro "L' espera", de Picasso. 
2. A espera - pintura de Picasso - Museu Picasso, em Barcelona, na Espanha.
3. Foto de Vanise Rezende em Lisboa - fevereiro de 2016.


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A Pedra da Juventude (*)


Recebi – de um casal de queridos amigos italianos, como sinal de presença no meu aniversário – um texto poético do qual ainda não consegui identificar a autoria. Assim, publico-o à espera de conhecer o seu autor mais tarde, enquanto imagino que se trate de alguém que teria mais de setenta anos quando escreveu esse poema, ao mesmo tempo tão sábio e tão belo. Eis o texto. 

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"Não se envelhece pelo simples fato de se ter vivido muitos anos, mas só quando se perde o próprio sentido da vida. 

Se o passar dos anos deixa suas marcas no corpo, a renúncia ao entusiasmo deixa sulcos na alma.
O desinteresse, a dúvida, a falta de confiança,
O temor e o descrédito
Representam longos e longos anos
Que fazem encurvar o corpo
E conduzem o espírito à morte.


Ser jovem significa conservar, aos sessenta
ou setenta anos,
O amor pelo maravilhoso,
O entusiasmo pelas coisas inebriantes  
E pelas ideias luminosas;
O desafio intrépido diante dos acontecimentos;
O insaciável desejo da criança por tudo o que é novo;
A significância agradável e feliz da existência.






Sereis jovens até quando o coração souber receber
As mensagens da beleza, da audácia, da coragem,
Da grandeza e da força que chegam da Terra,
Ou de Alguém, ou do Infinito.


Quando todas as fibras do coração forem dilaceradas
E sobre elas se acumular a neve do pessimismo
E o gelo da desfaçatez,
É então, somente então,
Que a velhice chegará".




(*) Autor desconhecido

 Crédito das Imagens:

1. The grand mother - Pintura de Morteza Katouzian, o.s.t. 80x60cm/2009.
Publicada in: www.mestresdapintura.blogspot.com.br
2. Arborismo - Comemoração dos meus 70 anos. Arquivo pessoal.
3. Foto no Marco Zero - Recife-PE (Brasil) - Arquivo pessoal.

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O Tempo da Esperança

Por: Vanise Rezende

Vivencio um momento esvaziado das pequenas alegrias que o mundo ou as relações podem nos trazer, como se habitasse um poço profundo sem ar e sem luz... 

A paisagem triste que o mundo revela à humanidade, em muitos rincões, chega a anuviar a minha fé na força da vida e nos valores humanos. E quer aniquilar a minha confiança na fraternização das relações, na costura do diálogo e da sincera palavra. 

Até o sacramento da amizade me se apresenta afastado da carícia da singeleza e do dom. Percebo-me um elo de uma corrente da qual não sou parte necessária. Caí no fundo do poço...

A velhice prega dessas peças, eu sei. Preciso lembrar o que aprendi nas andanças mundo a fora: que não se deve dar tanta importância ao sentir, mas esforçar-se para dar vez e sentido ao viver.

Então, com esforço imenso, tento imitar os pobres e sábios dos antigos tempos, e canto o meu salmo pessoal, a fazer eco nesse vazio sem nome. Canto o canto da Esperança arrancada do mais profundo, como um fio d´água infiltrado nessa aridez tamanha.


Mais uma vez aprendo que a minha vida pessoal é um pequeno cisco integrado à grandeza e à beleza de todos os seres vivos.

Cada um segue aonde a vida o chama, indispensável que é à sinfonia universal dos vivos e dos mortos. Ora a lutar entre os que sofrem, ora a cantar com os  que se rejubilam. Mais uma vez descubro, na Esperança, a graça e o dom do viver.


Viver porque estou viva. 
Viver porque ainda posso escolher a vida, neste momento. 
Viver porque a vida tem sido – como a vida é – momentos de sim e de não, com suas perdas, seus vexames, e algumas suaves alegrias. 

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Créditos da imagens: 

1The grand mother - Pintura de Morteza Katouzian, o.s.t. 80x60cm/2009.
Publicada in: www.mestresdapintura.blogspot.com.br
2. "A Esperança". Acrílico sobre tela de Maria Lúcia Sandri
     In: www.artedionisio.blogspot.com

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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A velhice,
já sinto!


  


A velhice ganhou poesia e uma linda melodia na composição “Jacintho” de Gilberto Gil que aos 76 anos lança disco com canções inéditas e condizentes com seu momento atual. Gil nos diz que está pronto para viver a velhice.

Ultimamente é ela quem dá as cartas aqui em casa e eu tenho acatado com muito carinho a necessidade que ela tem de estar acompanhada. E se a velhice é uma construção de afetos, ela soube como ninguém envelhecer e conquistar meu coração que percebe, nos dias atuais, uma possibilidade de devolver, pelo menos um pouco de todo amor que ela sempre me entregou ao longo da sua vida.
Faz 10 anos que trabalho com velhos. Velhos cujas velhices necessitam de uma atenção extra. Dona Clô é assim. Sente-se aflita sempre que seu marido se afasta e mesmo ele estando na sala ao lado sua agonia é refletida no vazio do seu olhar. Perdeu-se numa velhice sem histórias e sem significado deixando apenas o afeto se manter intacto. No seu nada dizer ela implora por companhia. Dona Clô também soube ao longo da vida cultivar as relações e agora, na sua velhice, continua sendo amada por filhos cuja rotina engole o tempo que não resulta em capital algum e que obriga o amor a dar uma trégua.
Seguimos então vivendo nossas vidas enquanto deixamos, muitas vezes, nossos velhos para trás já que seus passos lentos não acompanham nossa urgência de conquistas.
O marido de Dona Clô é seu principal cuidador e a amorosidade é sua marca registrada.
Em casa vejo minha rotina ser desenhada de acordo com as necessidades dela, que vive uma velhice plena e exerce seu total direito de nos lembrar que o que ela quer é companhia. A solidão a assusta e o seu mal enxergar só é suprido pelo toque, pelo cheiro e pelo afeto que ela parece sentir com facilidade.
Mudo meus horários sempre que posso e muitas vezes deixo de estar presente em lugares pois, por livre opção, prefiro estar com ela.
Alguns não compreendem e afirmam que exagero no cuidado e se olharmos sob a ótica individualista, realmente, o que faço é demais. Acontece que existem outros meios de olhar a vida e, neste caso, o olhar amoroso prevalece numa rotina onde a sua velhice insiste em dar os sinais.
Jacintho
Já sinto aqui na barriga
Mais preguiçosa bexiga
Mais ociosos os rins
Jacintho
Já sinto aqui no meu peito
Alguns sinais de defeito
Coração, pulmões e afins

Essa fase da vida ganhou poesia e uma linda melodia na composição “Jacintho” de Gilberto Gil que aos 76 anos lança disco com canções inéditas e condizentes com seu momento atual. A velhice, para Gil, não tem sido tão generosa assim já que alguns problemas de saúde exigiram certa cautela com o corpo já velho.
Seu novo disco "OK OK Ok", lançado em agosto deste ano, é pura poesia e um olhar genial à velhice e aos fatos ocorridos como a biopsia do coração que o cantor foi submetido, ganha melodia.
Para Gil, esta é uma fase da vida onde as dores, ocultas na juventude, se fazem presente e dificultam o percurso. Mas o caminho deve ser seguido.
A doença passa a ser companhia e nós nos solidarizamos com ele que nos mostra de maneira sensível o que todos nós, velhos de hoje ou de amanhã, certamente vivemos ou viveremos.
Olho para a velhinha aqui de casa e percebo o que ela me diz com o olhar:
– Que bom ter você comigo!
Olhos nos olhos e nosso pacto foi feito há 17 anos quando ela, filhote, veio tornar-se parte da família.
Enquanto existir, a carrego comigo. Passeios no parque e voltinhas até a esquina de casa fazem parte do meu dia. Nestes momentos, sou obrigada a guardar a pressa pela busca de todos meus desejos que parecem nunca chegar, para acompanhá-la entre um tropeço e outro.
Minha doce Nina vive a plenitude de sua velhice sem temer o que talvez esteja por vir. Temo por ela. Que pena!
Há quem ache que somos superiores aos animais! Coitados, não sabem de nada! Vivem suas velhices temendo o final já anunciado. Olham para suas rugas e acreditam poder disfarçá-las com tintura no cabelo, como se assim enganássemos o tempo.
Gil nos diz que, após o tratamento que foi submetido, está pronto para viver a velhice. Doença controlada ou finitude elaborada?
Minha Nina vive seus dias regados com algumas dores e incômodos da idade que ela demonstra entre latidos e gemidos que mais parecem um apito. Mas, instintivamente tudo está sob controle e ela apenas deseja companhia e afetos. O resto é resto.
Resolvo comprar um carrinho de cachorro para ajudá-la na locomoção, afinal a vida segue e a Nina precisa viver a vida que é dela. Até o fim.
Percebo quanta sabedoria existe numa vida cercada de velhices e como seria importante se enxergássemos, desde sempre, que o viver pode ser engrandecido pelos velhos caso assim desejarmos.
Entre um teclar e outro aqui do computador escuto um apitar que clama por companhia.
É ela me chamando. Melhor terminar o texto, afinal, por hora tudo foi dito e agora com licença. A velhice precisa de colo.
Velhice, cálculos, calos, calvície
Hora de chamar o vice
Para assumir o poder
Seu caso
Vaso com mais de 100 anos
Vaso sem quebras, sem danos
Meus parabéns pra você
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Fonte do texto:
Autora: Cristiane T. Pomeranz
Entusiasta da vida e da arte, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa, que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. 
Pomeranz é Arteterapeuta e mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Idealizadora do Projeto Faça Memórias que trabalha a Arte e o afeto como estímulo de pensamento aos idosos com problemas de esquecimento e do Atelier Arte&Inclusão que faz uso da Arteterapia a favor das pessoas com deficiência. Entusiasta da Vida, aposta na Arte como meio de explicar e resignificar velhices. Clarificar a Gerontologia sob a ótica da Arte é a proposta deste blog.
www.facamemoriasemcasa.com.br 
E-mail: crispomeranz@gmail.com.


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Entrevista com Sérgio Bernardoni


O Sr. Sérgio Bernardoni, de Goiana (GO), aos seus oitenta e oito anos, deu uma entrevista preciosa ao site www.carnavideo.com.br

Entendemos que as suas opiniões, colocadas de uma forma muito clara e elegante, merecem ser divulgadas da forma mais ampla possível, especialmente nos espaços dedicados à longevidade. Segue a reprodução da entrevista:

·      O Sr. se percebe hoje como uma pessoa idosa?

Sérgio Bernardoni - Até os meus oitenta anos eu me sentia, não digo jovem, mas cheio de forças e de sonhos. Agora com oitenta e cinco anos e depois de algumas doenças graves me percebo como idoso, velho.  

·      O Sr. acha a velhice uma idade sem esperança?

Sérgio Bernardoni - Não. Não me sinto acabado, sem esperança, mas com um panorama de vida mais limitado, com uma preocupação principal que toma o tempo todo: a preocupação pela saúde, o cuidado físico. No médico quase todas as semanas, a mesa empilhada de caixinhas de remédios, as longas sessões de espera nos ambulatórios e uma fraqueza corporal que influencia também o espírito, tirando aquela vontade de construir novidades e melhorar o mundo.

·      Então, a velhice não seria a melhor idade?

Sérgio Bernardoni - Podemos dizer que sim: é uma idade mais calma, com uma visão do mundo mais realista, uma idade de reflexão e contemplação, de benevolência e misericórdia para com os outros, com um maior respeito por parte da sociedade (o idoso no Brasil, ao menos teoricamente, é sempre “preferencial”). Mas, isso tudo é mais complicado quando entra na vida o cansaço e, sobretudo, as doenças. Uma comparação não muito bonita é aquela de lidar com um carro velho: todo dia apresenta um defeito, se conserta uma peça e estraga a outra. Às vezes, a reação a esse cansaço pode gerar desesperança e depressão.

·      Em sua opinião, como se poderia evitar esse tipo de reação?

Sérgio Bernardoni - Eu não diria que é o único, mas para mim o principal caminho é o caminho da Fé. Gastar, com sabedoria, as poucas forças remanescentes em vista do bem comum torna cheia a consistência do viver o dia a dia. A consciência que o sofrimento é um chamado duro, mas precioso, de Deus, para completar a Redenção que vem de Jesus e que tem um valor ainda maior que o valor da ação e da oração. É claro que isso tudo é dom de Deus, dom do alto, que vem em socorro da nossa pequenez e da nossa fraqueza física e psicológica.

·      O que o Sr. gostaria de dizer, hoje, aos jovens?

Sérgio Bernardoni - A gente percebe que, no Brasil, há um número notável de idosos que aumenta a cada dia, o que traz problemas sociais e não somente individuais. É desejável que se viva longos anos e que isto aconteça com todo mundo, mas com isso algo muda na vida pessoal e na sociedade, inexoravelmente.  Vai aqui muito bem um conselho, uma advertência aos mais jovens, aos que estão com toda sua força integral e com saúde boa: que eles não percam o seu tempo agora, no momento que vivem hoje, e que não deem espaço à preguiça... Que tratem de fazer o bem agora, porque amanhã poderá ser tarde.

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Fonte da entrevista: sergiobernardoni@gmail.com



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