Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

PAPA FRANCISCO - 2a. PARTE DA ENTREVISTA

31 de maio de 2017

Com este segunda parte, damos seguimento à reprodução da Entrevista ao Papa Francisco realizada pelo jesuíta – agora cardeal  Padre Antonio Spadaro. Aqui o para responde a  quatro questões com os seguintes temas: A escolha da ordem dos Jesuítas  O exercício do discernimento – Pedro Fabro:  um testemunho para Francisco – A experiência de Padre Jorge Mario Bergoglio na Argentina.  

Como foi dito na primeira parte, os subtítulos e as expressões eventualmente sublinhadas são ferramentas de edição utilizadas neste blog, que não correspondem ao texto original. No texto que segue a escrita cursiva corresponde às questões feitas ao papa e aos comentários do entrevistador, jesuíta Padre Antonio Spadaro. 

1.  A escolha da ordem dos Jesuítas

– Santo Padre, o que o fez escolher entrar na Companhia de Jesus? O que o impressionou na ordem dos Jesuítas?

“Eu queria algo mais. Mas não sabia o quê. Tinha entrado no seminário. Gostava dos dominicanos e tinha amigos dominicanos. Mas depois escolhi a Companhia, que conhecia bem, porque o seminário estava entregue aos jesuítas. Da Companhia impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito”.

“Uma coisa para mim verdadeiramente fundamental é a comunidade. Procurava sempre uma comunidade. Eu não me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. É mesmo isso que explica o fato de eu estar aqui na Residência Santa Marta. Quando fui eleito ocupava, por sorteio, o quarto 207. Este, onde estamos agora, era um quarto de hóspedes.

Escolhi ficar aqui, no quarto 201, porque quando tomei posse do apartamento pontifício (no Vaticano), dentro de mim senti claramente um “não”. O apartamento pontifício no Palácio Apostólico não é luxuoso. É antigo, arranjado com bom gosto e grande, não luxuoso. Mas acaba por ser como um funil ao contrário. É grande e espaçoso, mas a entrada é verdadeiramente estreita. Entra-se a conta-gotas e eu não, sem gente não posso viver. Preciso de viver a minha vida junto dos outros.

Enquanto o Papa fala de missão e de comunidade, vêm-me à mente os documentos da Companhia de Jesus onde se fala de «comunidade para a missão» e reencontro-os nas suas palavras. (...) 

2. O exercício do discernimento

Que ponto da espiritualidade inaciana o ajuda melhor a viver o seu ministério?

“O discernimento”, responde o Papa Francisco.
“O discernimento é uma das coisas que Santo Inácio mais trabalhou interiormente. Para ele, é um instrumento de luta para conhecer melhor o Senhor e segui-lo mais de perto. Impressionou-me sempre uma máxima com que se descreve a visão de Inácio: Non coerceri a maximo, sed contineri a minimo divinum est. Não estar constrangido pelo máximo e, no entanto, estar inteiramente contido no mínimo, isso é divino”.

“Refleti muito sobre esta frase a propósito do governo, de ser um superior: não estarmos restringidos pelo espaço maior, mas sermos capazes de estar no espaço mais restrito. Esta virtude do grande e do pequeno é a magnanimidade, que da posição em que estamos nos faz olhar sempre o horizonte. É fazer as coisas pequenas de cada dia com o coração grande, aberto a Deus e aos outros. É valorizar as coisas pequenas no interior de grandes horizontes, os do Reino de Deus.

“Esta máxima  continua Papa Francisco  oferece os parâmetros para assumir uma posição correta no discernimento, para escutar as coisas de Deus a partir do seu “ponto de vista”. Para Santo Inácio, os grandes princípios devem ser vivenciados nas circunstâncias de lugar, de tempo e de pessoas. A seu modo, João XXIII colocou-se nesta posição de governo quando escolheu a máxima: Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere. (Ver tudo, não dar importância a muito, corrigir pouco). Porque mesmo vendo tudo (omnia) – na dimensão máxima – preferia agir sobre “pauca”, sobre uma dimensão mínima. É possível ter grandes projetos e realizá-los agindo sobre poucas e pequenas coisas. Também podem-se usar meios fracos que se revelam mais eficazes do que os fortes, como afirma São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios”.

“Este discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento. E por vezes o discernimento, por seu lado, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. Foi isto o que também me aconteceu nestes meses. O discernimento realiza-se sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, ficar atento ao sentir das pessoas, especialmente dos pobres.”

“As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas à vida quotidiana – como usar um automóvel modesto – estão ligadas a um discernimento espiritual e responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governar”.

«Desconfio, pelo contrário, das decisões tomadas de modo repentino. Desconfio sempre da primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça fazer, se tenho de tomar uma decisão. Em geral, é a decisão errada. Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necessário. A sabedoria do discernimento resgata a necessária ambiguidade da vida e faz encontrar os meios mais oportunos, que nem sempre se identificam com aquilo que parece grande ou forte”.

O discernimento é, portanto, um pilar da espiritualidade do Papa. Nisto se exprime de modo peculiar a sua identidade jesuítica. Pergunto-lhe, pois, como pensa que a Companhia de Jesus poderá servir melhor a Igreja hoje, qual é a sua especificidade, mas também os eventuais riscos que corre.

Nota explicativa deste Espaço: Neste momento o papa discorre sobre a ordem dos Jesuítas, sua história e seus princípios. Na longa conversa sobre este assunto, o papa faz o seguinte comentário:

«Mas é difícil falar da Companhia. Quando se explicita demasiado, corremos o risco de nos enganarmos. A Companhia só se pode exprimir em forma narrativa. Somente na narração se pode fazer discernimento, não na explicação filosófica ou teológica, coisas que, pelo contrário, se pode discutir. O estilo da Companhia não é o da discussão, mas o do discernimento, que obviamente pressupõe a discussão no processo. A aura mística não define nunca os seus limites, não completa o pensamento. O jesuíta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto”.

E Papa Francisco finaliza: “Eu mesmo sou testemunha das incompreensões e problemas que a ordem dos Jesuíta viveu mesmo recentemente. Entre estes, contam-se os tempos difíceis de quando se tratou da questão de alargar a todos os jesuítas o ‘quarto voto’ de obediência ao Papa. Aquilo que me dava segurança no tempo do Padre Arrupe era o fato dele ser um homem de oração, um homem que passava muito tempo em oração. Recordo-o quando rezava sentado no chão, como fazem os japoneses. Por isso ele tinha a atitude certa e tomou as decisões corretas”.

3. Pedro Fabro: um testemunho para Francisco

Em seguida, Padre Antonio Spadaro apresenta-lhe uma questão:

Entre os jesuítas existem figuras, das origens da Companhia até hoje, que o tenham impressionado de modo particular?

O Papa começa a citar-me Inácio e Francisco Xavier, mas depois detém-se sobre uma figura que os jesuítas conhecem, mas que certamente não é muito notada em geral: O jesuíta Pedro Fabro da Sabóia (1506-1546) foi um dos primeiros companheiros de Santo Inácio, aliás o primeiro, com o qual partilhou o quarto quando os dois eram estudantes na Sorbonne. O terceiro, no mesmo quarto, era Francisco Xavier. Pio IX declarou Pedro Fabro beato em 1872, e está em curso o seu processo de canonização.(iii)

Porque ficou tão impressionado por Pedro Fabro, que traços da sua figura o impressionam?

“O diálogo com todos, mesmo os mais afastados e os adversários; a piedade simples, talvez uma certa ingenuidade, a disponibilidade imediata, o seu atento discernimento interior, o fato de ser um homem de grandes e fortes decisões e ao mesmo tempo capaz de ser assim doce, doce… Fábio era um místico”. (...)

4 - A experiência de Padre Bergoglio na Argentina

Fico a pensar que tipo de experiência de governo pode fazer amadurecer a formação que teve o padre Bergoglio, que foi superior e depois provincial na Companhia de Jesus (Argentina). O estilo de governo da ordem Jesuíta implica a decisão por parte do superior, mas também o atender ao parecer dos seus ‘consultores’. Assim, pergunto ao Papa:

–  Acha que a sua experiência de governo pode servir à sua atual ação na condução da Igreja Universal? 
                                                                                   
Depois de uma breve pausa de reflexão, o Papa Francisco torna-se sério e responde com serenidade:

“Durante a minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade nem sempre me comportei assim, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. O meu governo como jesuíta, no início, tinha muitos defeitos. Estávamos num tempo difícil (i) para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira geração de jesuítas. Por isto vi-me nomeado Provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura.

Era preciso enfrentar situações difíceis e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma tarefa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Terá que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em Córdova. Claro,  não sou certamente como a Beata Imelda (ii) mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”.

O Papa continua: “Digo estas coisas como uma experiência de vida e para ajudar a compreender quais são os perigos. Com o tempo aprendi muito. O Senhor permitiu esta pedagogia de governo, mesmo através dos meus defeitos e dos meus pecados. Depois, como arcebispo de Buenos Aires fazia, a cada quinze dias, uma reunião com os seis bispos auxiliares e várias vezes por ano com o Conselho Presbiteral. Tratava-se de várias questões e abria-se espaço para a discussão. O que muito me ajudou a tomar as melhores decisões."

"Agora ouço algumas pessoas que me dizem: “Não consulte demasiado, decida”. Acredito, no entanto, que a consulta é muito importante. Os Consistórios e os Sínodos são, por exemplo, lugares importantes para tornar verdadeira e ativa esta consulta. O que é necessário seria torná-los menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais. A consulta dos oito cardeais, este grupo outsider, não é uma decisão simplesmente minha, mas é fruto da vontade dos cardeais, tal como foi expressa nas Congregações Gerais antes do Conclave. E quero que seja uma consulta real, não formal”.




i -  O papa Francisco se refere ao período da ditadura militar na Argentina - 1976/1983. 
ii - Imelda Lambertini (Bolonha, 1320 – Bolonha, 12 de maio de 1333) foi uma jovem religiosa italiana, que tornou-se noviça aos 9 anos de idade. Morreu aos 11 anos, durante a missa em que recebeu sua primeira comunhão. Foi beatificada em 1826 pelo papa Leão XII, que estendeu a toda a Igreja o culto que já lhe prestavam em Bolonha. Em 1908, o papa Pio X a proclamou padroeira das crianças que fazem a primeira comunhão. O corpo incorrupto de Imelda Lambertini jaz conservado na capela de São Sigismundo, em Bolonha (Itália).
(iii) Beato Pedro Fabro, sacerdote professo da Companhia de Jesus, nascido em Le Villaret (Alta Saboia, França) em 13 de abril de 1506 e falecido em Roma em 1º de agosto de 1546, foi inscrito no Catálogo dos Santos, no primeiro ano de pontificado de Papa Francisco (em 17/12/2013). 

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Créditos das Imagens:

1. O jovem sacerdote Jorge Mario Bergoglio na ordem dos Jesuítas. ACI Digital
2. Jovens da Ilha Norte (Nova Zelândia) participam de uma Mariapolis do Movimento dos Focolares. Focolares.org   
3. Papa João XIII e o então cardeal Bergoglio. ww.noticiascatolicas.com   
4. Santo Pedro Fabro - canonizado em 17/12/2013 por Papa Francisco.
www.rs21.com.br
5. Papa Benedeto VI e o então cardeal Bergoglio.  www.teinteresa.es
6. O novo papa -  Unità Pastorale di Cormóns - Parórquia di Borgnano-Brazana

Nota - As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 


PAPA FRANCISCO - ENTREVISTA

29 de maio de 2017


O Espaço Poese faz uma pausa na atenção às tramas políticas e aos embrulhos críticos inerentes à grave situação do país.  

O momento é de grandes expectativas, e precisamos nos permitir quiçá uma fresta de Esperança  porque ainda amamos o povo de que fazemos parte, porque continuaremos a defender a democracia, e porque as instituições responsáveis pelo julgamento dos fatos atuais podem crescer em estatura cidadã e responsabilidade – se os seus integrantes se permitirem – surpreendendo o país com intrepidez e grandeza ética.
   
Dito isto – os graves momentos históricos demandam paciência – trago aos leitores uma entrevista com o Papa Francisco, concedida ao jesuíta Pe. Antonio Spadaro (hoje cardeal), na Casa Santa Marta (Roma). Mais que uma entrevista, tem-se a cobertura temática do que pensa o papa sobre diferentes questões.  A entrevista foi dada cinco meses após a eleição de Francisco a Bispo de Roma. A sua leitura corrobora a fé de que, mesmo em tempos de tanta hipocrisia, há magnitude na humanidade.

A conversa se desenvolve de forma espontânea: é um longo diálogo entre dois amigos da mesma congregação, na residência de Papa Francisco  Casa de Santa Marta, fora do Vaticano – onde ele se hospeda com sacerdotes e bispos, alguns permanentes, outros de passagem.

Em tempo: Do corpo da entrevista – que no texto original tem 20 páginas – deixamos de apresentar tópicos ligados a questões específicas da Congregação dos Jesuítas, ao Sínodo dos Bispos, e alguns comentários do entrevistador.  

O texto nos faz compreender melhor quem é Francisco Bergoglio, e sua visão sobre a missão da Igreja e dos cristãos no mundo contemporâneo. Hoje, seus gestos de abertura ao diálogo conquistaram o respeito de muitos, inclusive dos não crentes e de pessoas de outras religiões.

Ao longo da entrevista é possível acompanhar o que pensa Francisco sobre questões atinentes à sociedade contemporânea: ecumenismo, diálogo com as diferenças, divórcio, homossexualidade e outros. Para facilitar a leitura criamos subtítulos e dividimos a entrevista em postagens sequenciais a serem publicadas neste Espaço a partir de agora.  
Iniciamos hoje com a brilhante introdução do Pe. Antonio Spadaro (o entrevistador) e, em seguida, a fundamental questão da entrevista:  Quem é Jorge Bergoglio?
Introdução

É segunda-feira, 19 de agosto. O Papa Francisco marcou encontro para as 10:00h na Casa de Santa Marta. Eu, no entanto, herdei do meu pai a necessidade de chegar sempre mais cedo. As pessoas que me acolhem instalam-me numa pequena sala. A espera dura pouco, e, depois de uns breves minutos, acompanham-me ao elevador. Nesses dois minutos tive tempo de recordar como em Lisboa, numa reunião de diretores de algumas revistas da Companhia de Jesus, surgiu a proposta de publicar conjuntamente uma entrevista ao Papa. Tinha conversado com os outros diretores, ensaiando algumas perguntas que exprimissem os interesses de todos. Saio do elevador e vejo o Papa já à porta, à minha espera. Na verdade, tive a agradável impressão de não ter atravessado portas.

Entro no seu quarto e o Papa convida-me a sentar numa poltrona. Ele senta-se numa cadeira mais alta e rígida, por causa dos seus problemas de coluna. O ambiente é simples, austero. O espaço de trabalho da escrivaninha é pequeno. Toca-me a essencialidade não apenas dos móveis, mas também das coisas. Veem-se poucos livros, poucos papéis, poucos objetos. Entre estes, um ícone de São Francisco, uma estátua de Nossa Senhora de Luján (padroeira da Argentina), um crucifixo e uma estátua de São José adormecido, muito semelhante àquela que tinha visto no seu quarto de reitor e superior provincial, no Colégio Máximo de San Miguel. A espiritualidade de Bergoglio não é feita de «energias harmonizadas», como ele lhe chamaria, mas de rostos humanos: Cristo, São Francisco, São José, Maria.

 O Papa acolhe-me com o mesmo sorriso que já deu várias vezes a volta ao mundo e que abre os corações. Começamos a falar sobre muitas coisas, sobretudo da sua viagem ao Brasil. O Papa considera-a uma verdadeira graça. Pergunto-lhe se descansou. Ele diz-me que sim, que está bem, mas, sobretudo, que a Jornada Mundial da Juventude foi para ele um “mistério”. Diz-me que nunca foi habituado a falar para tanta gente:
 
– “Consigo olhar para as pessoas, uma de cada vez, e entrar em contato de modo pessoal com quem tenho na minha frente. Não estou habituado às massas”, comenta

Digo-lhe que é verdade e que se vê, e que isto impressiona toda a gente. Observa-se que quando está no meio das pessoas os seus olhos, de fato, pousam sobre cada um. Depois as câmaras televisivas difundem as imagens e todos podem vê-lo, mas assim ele pode sentir-se livre para ficar em contato direto, pelo menos visual, com quem tem diante de si. Parece-me contente com isso, por poder ser aquilo que é, por não ter de alterar o seu modo habitual de comunicar com as pessoas, mesmo quando tem diante de si milhões de pessoas, como aconteceu na praia de Copacabana. Antes de eu ligar o gravador, falamos de outras coisas. Comentando uma minha publicação, disse-me quais os pensadores franceses contemporâneos que lhe são prediletos: Henri de Lubac e Michel Certeau. (i)  Digo-lhe ainda algumas coisas mais pessoais.

 Em seguida ele me fala de si e particularmente da sua eleição pontifícia. Diz-me que quando começou a dar-se conta de que corria o risco de ser eleito na quarta-feira, dia 13 de março (2013) à hora do almoço sentiu descer sobre ele uma profunda e inexplicável paz e consolação interior, e, ao mesmo tempo uma escuridão total e uma obscuridade profunda sobre tudo o mais. E que estes sentimentos o acompanharam até à eleição. Na verdade, teria continuado a falar assim, familiarmente, por mais algum tempo, mas abro as questões anotadas e ligo o gravador.

Antes de mais, agradeço-lhe em nome de todos os diretores das revistas dos jesuítas que publicarão esta entrevista. Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da Civiltà Cattolica, o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta:

"Não me reconheci a mim mesmo quando no voo de regresso do Rio de Janeiro respondi aos jornalistas que me faziam perguntas”, diz-me. 

Na verdade, nesta entrevista, várias vezes o Papa sentiu-se livre para interromper aquilo que estava a dizer, respondendo a uma pergunta, para acrescentar algo sobre a precedente. Falar com o Papa Francisco é, realmente, uma espécie de fluxo vulcânico de ideias que se atam entre si. Mesmo o tomar apontamentos traz a desagradável sensação de interromper um diálogo nascente. É claro que o Papa Francisco está mais habituado a conversas do que a lições. Tenho as questões prontas, mas decido não seguir o esquema que fixara e pergunto um pouco à queima-roupa:
    
Quem é Jorge Mario Bergoglio?
    
 O Papa fixa-me em silêncio. Pergunto se é uma questão lícita para lhe colocar… Ele faz sinal de aceitar a pergunta e me diz: 

– “Não sei qual seria a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador”.
Continua a refletir como se não esperasse aquela pergunta, como se fosse obrigado a uma reflexão ulterior.

 – “Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei me mover, mas é verdade que sou também um pouco ingênuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou”.
E repete: “Sou alguém que é olhado pelo Senhor. O meu mote: Miserando atque elegendo, sempre o senti como muito verdadeiro para mim”.
    
O mote do Papa Francisco foi tirado das Homilias de São Beda, o Venerável, o qual, comentando o episódio evangélico da vocação de São Mateus, o evangelista, escreve: Viu Jesus um publicano e o olhou com um sentimento de amorescolheu-o e disse-lhe: Segue-me».
     
Em seguida o papa acrescentou:
 
“– O gerúndio latino ‘miserando parece-me intraduzível, seja em italiano seja em espanhol. Gosto de o traduzir com um outro gerúndio que não existe: misericordiando”.
   
Papa Francisco continua a sua reflexão e diz-me, fazendo um salto cujo sentido não compreendo no momento:

– “Eu não conheço Roma. Conheço poucas coisas. Entre estas, Santa Maria Maior, São Pedro. Mas, vindo a Roma sempre vivi na Via della Scrofa (uma rua no centro de Roma). Dali visitava frequentemente a igreja de São Luís dos Franceses e ali ia contemplar o quadro da vocação de São Mateus, de Caravaggio. Aquele dedo de Jesus assim… dirigido a Mateus. Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus

Começo a intuir o que o ele quer dizer. Torna-se, então, mais decidido, como tivesse encontrado a imagem de si próprio de que estava à procura:
 
 – "É o gesto de Mateus que me toca: agarra-se ao seu dinheiro, como que a dizer: Não, não eu! Não, este dinheiro é meu! Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar. E isto é aquilo que disse quando me perguntaram se aceitava a minha eleição para Pontífice”.
   
Então sussurra:

"Peccator sum, sed super misericordia et infinita patientia Domini nostri Jesu Christi, confusus et in spiritu penitentiae, accepto”.
 "Sou pecador, mas confiando na misericórdia e paciência infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em espírito de penitência, aceito”.

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* O texto integral da entrevista ao Papa Francisco pode ser acessado - em português, italiano, francês, espanhol, alemão e inglês - no seguinte link:
w2,vatican.va/content/francesco/speeches/2013/september/documents/papa-francesco_20130921_intervista-spadaro.html
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i)  Henri-Marie de Lubac  (20 de fevereiro,1896 -Cambrai /4 de setembro.1991/Paris) foi um cardeal francês da Companhia de Jesus. Contribuiu para aprofundar o entendimento do fim sobrenatural do homem e sua relação com a graça. Participou do Concílio Vaticano II como perito. O Papa João Paulo II o fez cardeal em 1983.
Michel de Certeau (Chambéry-França), 1925 / Paris, 9 de janeiro de 1986. Foi um historiador e erudito francês que se dedicou ao estudo da psicanálise, filosofia, e ciências sociais. Intelectual jesuíta, é autor de inúmeras obras fundamentais sobre a religião, a história e o misticismo dos séculos XVI e XVII.

Crédito Imagens:

1. "A Misericordia", quadro oferecido ao Papa Francisco por ocasião de uma audiência concedida ao Movimento "Economia de Comunhão", em fevereiro de 2017.  
2. Cardeal Antonio Spadaro - publikum
3. Papa Francesco e o então Padre Antonio Spadaro, jesuíta - no dia e local da entrevista. www.ihu.usininos.br
4. Durante a entrevista: Papa Francisco e o jesuíta Antonio Spadaro - www.ihu.usininos.br.
5. Papa Francisco - www.controversia.com.br
6. Vocação de São Mateus ou Invocação de São Mateus - pintura do pintor barroco italiano Caravaggio concluída em 1599-1600 para a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, onde ainda pode ser vista, em Roma.

Nota - As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com






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