Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

FILME — QUE HORAS ELA VOLTA?

21 de setembro de 2015



Tenho a convicção que a ética carece de um lastro de educação, não tanto aquela "ensinada" nas prescrições escolares ou na família, mas a educação do gesto cordial e do testemunho, em casa, na escola, no trabalho, nas instituições e nos serviços públicos e privados. 

Isto vem a propósito do lançamento do filme Que horas ela volta?’ da cineasta brasileira Anna Muylaert, de quem apresento trechos de uma entrevista aos jornalistas Claudia Rocha e Guilherme Weimann, reportada no site Brasil de Fato, em 18/09/2015.[1]

Fui verificar no telão esse filme que vem impactando críticos e cinófilos, quase todos de regozijo – entre alguns poucos desgostosos – pela exuberante sensibilidade da diretora de inserir-se na linha divisória do compromisso social, que atinge a inércia de muitos da classe alta brasileira.

É extremamente verdadeiro o comentário dos jornalistas, quando dizem que o filme "coloca o dedo na ferida das relações entre empregados e patrões".  Fiquei impressionada quando, no cinema do Plaza, em Recife, muitos espontaneamente bateram palmas de aprovação, ao terminar o filme. 

Fui assistir com a minha empregada – uma estudante do último ano do magistério – a quem tenho apoiado para que possa concluir o curso médio após muitos anos longe da escola, embora as aulas sejam pela manhã. 

Na minha decisão, não me pareceu haver diferença se os serviços da casa são feitos ao longo da manhã ou da tarde, especialmente se com este meu gesto o país ganha mais uma candidata à universidade e à profissão de educadora. Após o filme, ela me confirmou sua decisão de trazer sua única filha – que vive com a avó, no interior – para estudar no Recife. Há de se prever que ela entrará na faculdade.



O filme alcança um lugar especial ao lado de produções brasileiras como o “Central do Brasil” (Walter Salles – 1998) estrelado pela grande atriz Fernanda Montenegro. Considero que Regina Casé (a empregada Val, na história) por sua experiência artística, e também por ser uma nordestina enraizada, tenha contribuído para que a obra chegasse a um feliz resultado. Anna Muylaert conseguiu expressar a beleza e a força da cultura nordestina, e também os vícios do preconceito e da insensatez da classe alta encantada de si mesma.

Os comentários da mídia, por vezes enxerga em Jéssica – Camila Márdila, a filha de Val –  uma pessoa metida, que não sabe perceber o seu lugar... A diretora do filme fala sobre isto, em alguns trechos da entrevista citada:

“Brasil de Fato SP - Quando você teve a ideia do filme, o objetivo era ter o foco no retrato das relações humanas ou a ideia já era debater questões políticas?


Anna Muylaert - Eu não pensei em política enquanto estava construindo o roteiro. Queria dar um destino melhor para a filha da empregada. Na minha cabeça de dramaturga, eu queria tirar o clichê da maldição da repetição. 

Durante muitos anos o caminho era igual, a filha vinha para cá ser cabeleireira e acabava como doméstica, assim como a mãe. Eu me determinei a mudar isso. A partir do primeiro dia em que apresentei a ideia, a associação com o retrato do período pós-Lula foi imediata. O filme estava mais enraizado na realidade do que eu achava. Ganhador do Festival de Berlim e com premiação também em Sundance (Sundance Festival Films – USA), o filme é a representação brasileira na disputa pelo Oscar.

Brasil de Fato SP - Falando um pouco sobre essa nova realidade, que foi alterada devido aos diversos programas sociais implantados na última década, você acredita que houve uma mudança na autoestima do brasileiro?

Anna Muylaert - A partir do Lula, sem dúvida, houve um trabalho de melhoria da autoestima, tanto pelo Bolsa Família e pelas cotas raciais nas universidades, como também pela Copa do Mundo e Olimpíadas. Acho que se há algo que o Lula fez foi subir a autoestima das classes menos favorecidas. Mas isso é um pequeno começo, a questão da educação ainda está muito atrasada em relação aos países europeus, por exemplo, que são socialmente mais democráticos. Aqui (no Brasil) demos um pequeno passo para o direito à cidadania.

Brasil de Fato SP - Uma jovem, que também se chama Jéssica, publicou um artigo no blog  “Nós da Periferia” relatando as semelhanças da sua história com a Jéssica do filme. Como está sendo a recepção do público?

Anna Muylaert - Está incrível. Estou recebendo uma mensagem a cada cinco minutos. Ontem, um menino me escreveu relatando um episódio que ocorreu após a publicação de uma crítica muito bonita que fez sobre o filme. A patroa da sua mãe, que é empregada, achou seu texto em um blog, se reconheceu lá, e afirmou que mudaria completamente a sua postura. Isso, pra mim, já é um Oscar. 
Além disso, um pessoal da periferia me convidou para participar de um debate e, no final da mensagem afirmou que ‘somos todas Val’. Enviei como resposta que também ‘somos todas Jéssica’. No geral, a periferia também quer ver o filme, mas ele ainda não chegou lá. 


No início, eu tinha a intenção de oferecer desconto para domésticas que apresentassem o cartão de trabalho. Mas, na primeira reunião, meu distribuidor descartou a ideia porque a patroa se sentiria mal em sentar ao lado da empregada. No mercado capitalista, Que horas ela volta? é um filme de arte. Apesar disso, estamos provando o contrário.
Brasil de Fato SP - Você afirmou em algumas entrevistas que o roteiro começou a ser elaborado logo após o nascimento do seu segundo filho. Como foi esse processo?
Anna Muylaert - O roteiro nasceu do amor pelo meu filho. Eu já tinha feito Castelo Rá-Tim-Bum e vários outros trabalhos, mas quando eu tive o bebê surgiu uma força que me fez decidir que não iria mais trabalhar por um tempo. Eu fiquei dois anos sem trabalhar, mas felizmente vieram os livros do Castelo Rá-Tim-Bum, que me renderam quatro ou cinco vezes mais do que o salário na TV Cultura, e me possibilitaram continuar trabalhando em casa. Eu senti que o processo da maternidade me faria crescer e me entreguei completamente. (...) Mas, por que a maternidade não é valorizada? Justamente porque a nossa sociedade exalta apenas o masculino. Muita mulher, e acho que eu não tive isso porque havia acabado de fazer sucesso, fica agoniada em casa enquanto o mundo lá fora está girando. Porque o sinônimo do mundo é sucesso, poder e riqueza, enquanto o da maternidade é amor, carinho e espiritualidade. Senti que isso é um tema muito forte, porque o mundo inteiro é regrado pelas leis masculinas, que são machistas”.

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Os jornalistas comentaram que os prêmios até agora conferidos à cineasta Anna Muylaert rompem a hegemonia, por trinta anos consecutivos, de indicações masculinas nos festivais cinematográficos, e abrem o debate sobre o machismo nesses eventos internacionais.
Considero  que  o  filme   não apenas aponta o rompimento de uma hegemonia machista no que tange prêmios cinematográficos. A expressiva aceitação do filme “A que horas ela volta?”  no Brasil e no âmbito internacional  parece-me ter sustentação na densidade e na delicadeza com que foi tratada a questão cruciante dos empregados domésticos aqui no Brasil.


A cineasta brasileira soube trabalhar com esse tema com apreciável solidariedade e profunda compreensão. Não só por ser mulher, mas por ter demonstrado profundeza, sensibilidade e sabedoria de enxergar os caminhos históricos e políticos que percorremos, no Brasil, um tempo em que os pobres estão podendo assumir suas escolhas - por eles próprios - e alcançar seus direitos antes negados. Assim, também eles estarão a contribuir - a partir de sua própria experiência - na construção da solidariedade e da fraternidade no mundo contemporâneo.

[1] www.brasildefato.com.br

Créditos imagens:

1. Foto de Anna Muylaert - Guilherme Weinmann


2. Fotos do filme - imagens de divulgação.





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PRECISO REGRESSAR-ME

17 de setembro de 2015


     
"Hoje, minha alma fugiu,
 Sem deixar rastro
Pela planície dos meus pensamentos,
Sem sequer avisar tão forte ausência!
Estou só e preciso regressar-me..." (i)



Feito uma sombra ao meio dia, não a vejo... Não a encontro. Foi-se o meu sentir; no meu olhar só vultos distantes em densa sombra. Não mais os reconheço. Já não fazem parte da minha vida. Nebulosas lembranças na minha história. Vultos que se foram, “sem sequer avisar tão forte ausência!”





Assim me percebo hoje, sem me reconhecer... O que se foi perdeu-se no tempo. O tempo é irmão do vento e se esvai feito um clarão, ou feito as águas do rio, que não voltam jamais! O futuro enreda os seus laços com o passado  um novelo cuja ponta final é ligada ao fio errante da vida a passar, a passar, a passar...

Fugiu sem deixar rastro, minha alma errante... Nem as marcas do ingênuo sonhar, e do tanto querer, e do tanto esperar! 

Acasos, ousadia, afinco, receio, dor, quanta dor, e alegrias tantas! Quiçá, por que caminhos se foram, caladas no imensurável poço brumoso da noite... Ou na expansiva folia do contentamento?!   





As brumas do tempo podem ocultar a profundeza sincera do sentir humano, no seu todo querer. Mas a ausência, ah, a ausência deixa a sua marca inteira e funda, feito um abismo imenso que entontece a razão das coisas, até mesmo as coisas do amor...  

"Estou só e preciso regressar-me!".







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(i) Estrofe de um poema do Prof. José Pires da Silva - Rio de Janeiro - RJ

Crédito das Imagenas:


1.   Retrato de Mulher - www.canstockphoto.com.br

2.   Rio Capibaribe - Foto de Beto Figueira - www.g1.globo/pernambuco/notícia
3. e 4 - Paisagens - www.canstockphoto.com.br

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LITERATURA - JOSÉ PIRES DA SILVA

11 de setembro de 2015

SE EU PUDESSE


"Quem me dera ser um cais
Numa solitária paisagem,
Desconhecida dos homens,
Pronto apenas para 
ancorar-te!
Águas tranquilas, amarras firmes,
Descida a vela, correnteza amena...".(i)






Nesses dias banhei-me de poesia, afogada na leitura de um livro memórias e poesias, cujo autor é um amigo muito especial. Sua poética me prendeu a atenção em meio ao espanto e à alegria de perceber tanta iluminação. Como eu, ele vem de longa estrada... E há anos nos encontramos e nos perdemos vida afora. Ligados um ao outro na infância, nos encantamos, quando estar junto a assar castanhas era tão emocionante quanto é hoje brincar com um transformer, uma boneca que anda e fala ou mesmo um tablet, come hoje preferem algumas crianças.


Passávamos as manhãs em torno a pedras fumegantes misturadas às castanhas entre brasas, no cuidado que não queimassem, mais do que atentos às nossas mãos ansiosas e traquinas. Era o nosso modo inocente de estar juntos, de nos alegrar. Tanta era a nossa interação afetiva, e tão espontâneos em demonstrá-la, que na família éramos conhecidos como amigos inseparáveis. 
A vida nos separou no giro do tempo, pois o tempo e as circunstâncias, inevitáveis, não consultam os que por ele passam, vai nos empurrando para os destinos que vamos escolhendo e construindo, muitas vezes sem aprofundar o porquê de nossas escolhas.   
Os desencontros nos distanciaram. A controlada vida de estudo em colégios com regime de internato, como era de uso nos anos cinquenta, - em cidades distantes e circunstâncias tão diversas - foi marcada pelo bloqueio da nossa correspondência. Tantas cartas escrevemos, e não chegaram às nossas mãos!... As grotescas normas dos colégios diziam que não era tempo para isso, pensavam que o tempero do amor adolescente poderia levar a perder o alimento que nos davam, para crescermos numa vida regrada de impedimentos, mesquinhez e limites, e destemperada dos sentimentos de afeto que nos uniam. 
Decênios e decênios se foram e pouco nos encontramos. Vez ou outra, de tanta a saudade, tratamos de nos encontrar pelos filamentos da comunicação telefônica. Dia desses tivemos uma longa conversa, para discutir questões referentes ao seu livro, agora na gráfica.  

Seus poemas me reconduziram às nossas tantas memórias. Ele me contou  e tenho apenas a lembrança emotiva daquele momento, há mais de cinquenta anos atrás  de quando viera num voo da Panair do Brasil, do Rio de Janeiro, onde estudava, para me visitar. Eu me encontrava de férias, com a família, numa cidade sertaneja do Nordeste do Brasil. Era julho de 1958. Eu completara vinte anos. 
Tínhamos apenas um dia para nós. Tratava-se de um momento  definitivo. Tanto havia a nos dizer, que passamos a noite a conversar, sem interrupções. Foram momentos densos, delicados e muito difíceis para ambos. Entraram a fazer parte da nossa história e, de certo modo, a encerraram, se considerada a perspectiva de vivermos juntos. 

No entanto, entendo que o significado daquele momento não fora o de interromper um amor tão expressivo e sincero. Foi mais que isso: para mim, tinha a significância da entrega inteira daquele amor, por uma causa a que me sentia chamada no mais genuino e profundo de mim. Decidira doar a minha vida ao compromisso e à difusão da fraternidade universal, respondendo ao impacto que tive ao ouvir a história de Chiara Lubich, ainda nos primeiros decênios do Movimento dos Focolares, hoje presente em todo o mundo. 
Um compromisso que exigia de nós o desapego, como tentávamos entender naquela noite de longa conversa. Sua intenção era pedir-me em casamento, e viera para isto, mas este sonho se desfizera. Não que o meu fosse um sonho maior  o amor é o amor, Deus é amor. Eu escolhera seguir o seu chamado. O nosso encontro, então, se transformou em despedida. 


O mundo girou e girou... Depois daquela noite, quantas noites e dias de entrega, aprendizado, novas experiências, e tantas outras decisões. Mais tarde, ambos se casaram, tivemos nossos filhos e continuamos a viver em cidades  distantes. 

Hoje estamos apaziguados com a vida e com as escolhas que pudemos fazer. A sua poesia  que agora me chega, com o pedido de dizer-lhe a impressão da minha leitura  me fez reencontrar-nos em muitos versos, nós, tão velhos agora, e tão os mesmos de sempre!






               "Se eu pudesse,
            Perdendo-me encontra-te!
            Se eu pudesse,
            Achando-me completar-te!
            Se eu pudesse,
            Alegrando-me realizar-te!
            Se eu pudesse
            Ver-te plenamente...
            Ah! se eu pudesse!" (ii)

    

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(i) Prof. José Pires da Silva - Rio de Janeiro, Rj.
- com agradecimentos ao autor.
(ii) Idem.



Créditos de Imagens:


  • Castanhas assadas - https://pixabay.com/pt/photos/caju/
  • Todas as outras imagens são de: www.canstockphoto.com.br

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LITERATURA — EDUARDO GALEANO

6 de setembro de 2015

Aqui, no Espaço Poese, expresso apenas uma brisa da força e da leveza das ventanias que carregam as palavras deixadas pelo inesquecível escritor uruguaio Eduardo Galeano, ele que aparentemente não mais está entre nós, mas continua estando. Uma presença mais forte que a centelha das "fogueirinhas" que ele inventou. No coração, sempre - e na coleção de seus livros que me convidam a novos aprendizados - permanece a grande mensagem que ele nos deixou de sua vida, da sua escrita poética, histórica, engajada, contestadora, plena de suas memórias, e carregadas de amor por Helena.  
Seguem alguns trechos, para degustá-lo.                                                             
                                                                                     
                                                                           LADRÕES DE PALAVRAS


De acordo com o dicionário contemporâneo, uma boa ação já não é o nobre gesto do coração, e sim a ação bem-cotada na Bolsa, e a Bolsa é o cenário onde acontecem as crises de "valores". 

O  mercado já não é aquele cálido local onde a gente compra frutas e verduras no bairro. Agora se chama Mercado um senhor terrível que não tem rosto, que diz ser eterno e nos vigia e nos castiga. Seus intérpretes avisam: O Mercado está nervoso, e avisam: Não se deve irritar o Mercado. Comunidade internacional é o nome dos grande banqueiros e dos chefes guerreiros. Seus planos de ajuda vendem salva-vidas de chumbo aos países que eles próprios afogam, e suas missões de paz pacificam os mortos.


Nos Estados Unidos, o Ministério de Ataques se chama Secretaria da Defesa, e são chamados de bombardeios humanitários seus dilúvios de mísseis contra o mundo. Num muro escrito por alguém, escrito por todos, leio: "Estou com dor até na voz." (i)

             

Na minha biblioteca, há um recanto especial para os livros desse expressivo escritor uruguaio - que nos deixou em abril passado, aos 75 anos. Sua escrita, carregada de intensa poesia e vida, apresenta-nos pequenas e incisivas histórias da grande história do povo latino-americano.

Foi na segunda metade do século passado que Eduardo Galeano tornou-se mais conhecido no mundo literário, com "As Veias Abertas da América Latina, um livro ainda hoje atual, com um expressivo registro da história latino-americana. Trata-se de uma densa obra que "propõe um rigoroso inventário da história de um continente que deu ouro e prata, açúcar e diamantes, café, minerais estratégicos e vidas humanas aos colonizadores de plantão, recebendo em troca pouco mais que um subdesenvolvimento crônico e controlado", como escreveu Jorge Escorteguy, na revista "Veja", por ocasião do lançamento do livro, no Brasil. Em 1978, a editora Paz e Terra apresentava a sua 5ª edição. Naquele ano publicou, do mesmo autor, o romance: A Canção de Nossa Gente, em cuja abertura o autor cita um dizer de Van Gogh: "O moinho já não existe; o vento continua, todavia". 


Vieram muitos outros livros, todos de histórias miúdas, entrechadas entre si em delicada poesia de contemplação do cotidiano, com dizeres de mulheres e homens de múltiplas culturas, em seus jeitos diferentes de pensar, de escrever e de viver. A trilogia Memórias do Fogo: Nacimentos; As Caras e as Máscaras e O Século do Vento - são livros que falam da "geologia da alma americana", na opinião de Jorge Enrique Adoum, em "Nueva", Equador. (ii)

É assim que a editora Nova Fronteira apresenta o livro As Caras e as Máscaras:

"Em lugar  de uma exposição metódica, o autor vai traçando pequenas vinhetas em que descreve episódios e situações curiosas, valendo-se para isso da consulta a uma enorme bibliografia de 361 títulos, entre os quais estão autores como Machado de Assis, Antônio Vieira, Euclides da Cunha, Bolívar, Lautréamont, José Martí, Marx e Engels, entre muitos outros. As lutas pela libertação, o desbravamento do território, a escravidão, a dívida externa dos países sul-americanos, são alguns do muitos temas focalizados nessa deliciosa crônica das Américas".(iii)



E é assim que o próprio Galeano, no "Livro dos Abraços", fala da escrita dessa trilogia: 

"Eu já estava há um bom tempo escrevendo Memórias de Fogo, e quanto mais escrevia mais fundo ia nas hitórias que contava. Começava a ser cada vez mais difícil distinguir o passado do presente: o que tinha sido estava sendo, e estava sendo à minha volta, e escrever é a minha maneira de bater e abraçar. Supõe-se, porém, que os livros de histórias não são subjetivos.

Comentei isso tudo com José Coronel Urtecho: neste livro que estou escrevendo, pelo avesso e pelo direito, na luz ou na contraluz, olhando do jeito que for, surgem à primeira vista minhas raivas e meus amores. E nas margens do rio San Juan, o velho poeta me disse que não se deve dar a menor importância aos fanáticos da objetividade: - Não se preocupe - me disse. É assim que deve ser. Os que fazem da objetividade uma religião, mentem. Eles não querem ser objetivos, mentira: querem ser objetos, para salvar-se da dor humana".(iv)



Seu livro "As Palavras Andantes" - publicado no Brasil pela LP&M, em 1994, traz ilustrações do excelente gravurista brasileiro J.Borges (de Bezerros, Nordeste do Brasil). Nas primeiras páginas há uma citação contundente de Caetano Veloso: "Visto de perto ninguém é normal".





O ar e o vento

"Pelo caminho vou, como o burrico de São Fernando, um pouquinho a pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores de beleza e demais vadios e malcuidados que andam por aí e que por aí continuarão, como continuarão as estrelas da noite e as ondas do mar. Então, quando me reconheço neles, eu sou ar aprendendo a saber-me continuado no vento. Acho que foi Vallejo, César Vallejo, que disse que às vezes o vento muda o ar."



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Seguem as URL de duas entrevistas com o escritor. Há muitas outras, com seus comentários vibrantes, sinceros, cheios de palavras que caminham em busca de nós mesmos.


https://youtu.be/w8OUoc_xKc

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(i) Ladrões de Palavras, Eduardo Galeano in: Bocas do Tempo, Coleção LP&M Pocket, vol. 841, Tradução de Eric Nepomuceno -  Porto Alegre, 2010, p.254
(ii) Comentários copiados da segunda capa do livro: As Veias Abertas da América Latina, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978. 
(iiiComentário, na segunda capa do livro: As Caras e as Máscaras - Ed. Nova Fronteira, 1985.
(iv) Celebração da subjetividade, Eduardo Galeano in: O Livro dos Abraços, Coleção LP&M Pocket, vol.465, Tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, 2005 (reimpressão em 2015), p.118.
(v) Janela sobre a memória (II) - Eduardo Galeano, in: As Palavras Andantes, tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, LP&M, 1994, p.96
(vi) O ar e o Vento - Eduardo Galeano in: O Livro dos Abraços, Coleção LP&M Pocket, vol. 465, Tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, 2005 (reimpressão em 2015), p.269.

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Créditos Imagens:

1. Eduardo Galeano ao microfone - www.aviagemdosargonautas.net
2. Eduardo Galeano - www.celebridades.uol.com.br
3. Fotos da capa de quatro livros - www.lp&m.com.br - divulgação
4. Eduardo Galeano - www.revistaforum.com.br
5. Velório Eduardo Galeano no Uruguay - Helena, sua mulher, com José Mujica - www.entretenemento.uol.com.br



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DOM HÉLDER CÂMARA - E QUEM É O MEU PRÓXIMO?

1 de setembro de 2015

Há pessoas que conheci, no correr da minha caminhada, que deixaram marcas muito significantes em minha vida, e não se perderam no vácuo da memória envelhecida. Vez por outra lembro um fato, algum momento especial, um registro que me torna mais desejosa de continuar a aventura iniciada há tantos anos – dias de sim e de não: ora brilhantes e cheios de esperança, ora acabrunhados de escuridão.

Em 1974 Dom Hélder Câmara, então Arcebispo de Olinda e Recife, me convidou para trabalhar como secretária da sub-região Nordeste II da CNBB - Conferência dos Bispos do Brasil, quando então ele era o presidente. Foi ali que pude usufruir da sua convivência. O escritório ficava no Recife e eu trabalhava na sua sala. Ele estipulara uma tarde por semana para vir receber algumas pessoas e despachar comigo os assuntos em pauta. 

Certa vez, chegou de surpresa e eu já atendia as pessoas, como de costume. Notei a sua presença na antessala, quando fui ao encontro da próxima pessoa a ser atendida. Encontrei-o sentado ao lado dos que esperavam para falar comigo. Surpreendi-me, e lhe disse ansiosa: – Dom Hélder, não vai entrar? Ele respondeu, tranquilo: – Ainda não é a minha vez... Estas senhoras chegaram antes de mim. Entendi que aquela era a sua vontade: queria respeitar o lugar de quem chegara primeiro, embora ele fosse o presidente da instituição. 

Aos poucos me acostumei a vê-lo junto a todos nós na fila das refeições, à espera da sua vez, durante as assembleias pastorais com operários, trabalhadores rurais, empregados domésticos e outros.


Recordo um fato denso de grande significado. Durante uma das reuniões periódicas dos bispos da região com os responsáveis dos movimentos pastorais, Frei Alfredo, um franciscano alemão que residia no Recife, apresentou-se para falar das atividades que iniciara com pescadores da beira-mar de Goiana e Olinda – o que significava uma grande novidade. 


Os pescadores artesanais são pessoas que têm um trabalho bem diferente dos que acontece nos grande navios pesqueiros. Reunir pescadores praieiros em atividades pastorais podia ser considerada uma feliz ousadia! Naquela ocasião, um dos bispos presentes tentou impedir que o franciscano se apresentasse com o seu grupo de pescadores, pois insistia que era gente que não sabia se organizar, não convinha perder tempo com eles. A pesca – enfatizava – é uma atividade solitária. E sinalizou que saíssem.

Aquele gesto provocou um impacto entre nós, e esperava-se que os bispos decidissem o que fazer. O padre Renè Servat – líder de um grupo de sacerdotes operários  que colaboravam com Dom Hélder levantou-se, dirigiu-se ao bispo opositor, pôs as mãos sobre sua cabeça – como se fosse abençoá-lo – e lhe disse, enfático: “Irmão, deixa que o Espírito Santo abra o teu coração!” O bispo manteve-se em silêncio, impactado. Dom Hélder disse: Deixem os pescadores falarem. Nós precisamos ouvi-los! O gesto do padre Servat e a intervenção de Dom Hélder criaram o fato inaugural da "Pastoral dos Pescadores" na CNBB do Nordeste. 



Um dos pescadores presentes, na ocasião, era o conhecido João Ambrósio, um líder sindicalista e homem político que assumiu a missão de - como pescador – trabalhar para que muitos outros pescadores participassem da atividade pastoral em que cooperou, até o final da sua vida.  

Na mesma época conheci Padre Maurício Parrant – jesuíta, nascido em Malta. Ele se empenhara em oferecer apoio às mulheres prostitutas que então viviam na Rua do Bom Jesus, bairro de Santo Antônio, no Recife. Buscava oferecer-lhes orientações sobre cuidados com a saúde e com os riscos a que estavam sujeitas naquela atividade. Não se incomodava de ir até às suas casas, com a sua equipe, em horários mais oportunos. Tratavam, especialmente, de criar oportunidades de trabalho para as que quisessem sair da cilada em que se viam envolvidas. 




Fatos como esses, muito contribuiram para o meu aprendizado sobre a realidade em que viviam os pobres daquela época. Hoje há uma nova legislação e diversos programas de proteççao à pesca artesanal, - responsável por mais da metade do pescado, no país. E há, igualmente, muito a fazer ainda, no que tange o nosso compromisso político com essas e outras questões sociais. 


Ainda há os que tentam barganhar e até negligenciar os direitos legítimos dos empregados domésticos e dos trabalhadores e trabalhadoras manuais ainda não profissionalizados. Este espaço se propõe a realizar uma maior divulgação do que se faz na sociedade civil e no âmbito das políticas governamentais, em muitas dessas situações. Como, por exemplo, em relação aos povos indígenas, para a superação da situação injusta em que vivem, eles que há anos se veem em disputa por suas terras e pela manutenção de sua cultura ancestral. 


Quiçá, as organizações sociais e os políticos se mobilizassem, com ações públicas significantes de apoio àqueles que hoje são os modernos “leprosos” de tempos idos – pessoas que se queria ver distanciadas. Cruzamos, na rua com meninos e adolescentes que nos fazem fechar os vidros do carro... Não estaria na hora de começarmos a buscar conhecer mais a fundo as reais causas desse medo medonho?!



No Brasil, a CNBB ainda mantém as atividades do CIMI - Conselho Indigenista Missionário - e em várias regiões há Sindicatos de Empregados Domésticos. A Pastoral dos Pescadores se mantém em plena atividade em todo o país. Há inúmeras organizações que atuam nos cuidados de apoio às Crianças e Adolescentes. 

Recentemente fiquei sabendo que a ANPECOM – Associação Nacional por uma Economia de Comunhão – um movimento de economia civil conhecido como EdC, em vários países – está promovendo, no Brasil, a criação de um Fundo de Reciprocidade, a fim de apoiar iniciativas produtivas de pessoas e com pessoas que vivem em desvantagem social. A notícia foi um sopro revigorante que recebi, nesses dias de tamanha escassez de boas novas na grande mídia. 

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Informações:

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - www.cnbb.org.br

CIMI - Conselho Indigenista Missionário -  www.cimi.org.br/site/pt-br - Criado em 1972, é um organismo vinculado à CNBB que confere um novo sentido ao trabalho da igreja católica junto aos povos indígenas.
EdC - Economia de Comunhão -  www.edc.comwww.anpecom.com.br


Créditos Imagens:

1.  Exposição Itinerante Pesca Artesanal - www.portaldecaragua.blogspot.com/2011 
2.  Dom Helder Câmara - www.arquidiocesedeolindaerecife.org
3. Pesca Artesanal - www.pt.org.br - Diario do Nordeste - Foto de Honório Barbosa
4. Pastoral dos Pescadores - www.cnbb.org.br 
5. João Ambrósio - foto cedida por seus familiares.
6. Pesca Artesanal - www.rj.gov.br 
7. Menino de Rua - www.diariodonordeste.verdesmares.bom.br 


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