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LITERATURA - JOSÉ PIRES DA SILVA

11 de setembro de 2015

SE EU PUDESSE


"Quem me dera ser um cais
Numa solitária paisagem,
Desconhecida dos homens,
Pronto apenas para 
ancorar-te!
Águas tranquilas, amarras firmes,
Descida a vela, correnteza amena...".(*)





Nesses dias banhei-me de poesia, afogada na leitura de um livro de memórias e poesias, cujo autor é um amigo muito especial. Sua poética me prendeu a atenção em meio ao espanto e à alegria de perceber tanta iluminação. Como eu, ele vem de longa estrada... E há anos nos encontramos e nos perdemos vida afora. Ligados um ao outro na infância, nos encantamos, quando estar junto a assar castanhas era tão emocionante quanto é hoje brincar com um transformer, uma boneca que anda e fala ou mesmo ter o próprio tablet. 


Passávamos as manhãs em torno a pedras fumegantes misturadas às castanhas entre brasas, no cuidado que não queimassem, mais do que atentos às nossas mãos ansiosas e traquinas. Era o nosso modo inocente de estar juntos, de nos alegrar. Tanta era a nossa interação afetiva, e tão espontâneos em demonstrá-la, que na família éramos conhecidos como amigos inseparáveis. 
A vida nos separou no giro do tempo, pois o tempo e as circunstâncias, inevitáveis, não consultam os que por ele passam, vai nos empurrando para os destinos que vamos escolhendo e construindo, muitas vezes sem aprofundar o porquê de nossas escolhas.   
Os desencontros nos distanciaram. A controlada vida de estudo em colégios com regime de internato, como era de uso nos anos cinquenta - em cidades distantes e circunstâncias muito diversas - foi marcada pelo bloqueio da nossa correspondência. Tantas cartas escrevemos, e não chegaram às nossas mãos!... As grotescas normas dos colégios diziam que não era tempo para isso, pensavam que o tempero do amor adolescente poderia levar a perder o alimento que nos davam, para crescermos numa vida regrada de impedimentos, mesquinhez e limites, destemperada dos nossos sentimentos de afeto de que tanto precisávamos. 
Decênios e decênios se foram e pouco nos encontramos. Vez ou outra, de tanta a saudade, tratamos de nos encontrar quando já era possível nos falar por telefone. Dia desses, ambos oitentões, tivemos uma longa conversa, para discutir questões referentes ao seu livro de poemas, agora na gráfica.  

Recebi os originais com um pedido de dar um parecer. Seus poemas me reconduziram às nossas tantas memórias. Ele me contou  e tenho apenas a lembrança emotiva daquele momento, há mais de cinquenta anos atrás  de quando viera num voo da Panair do Brasil, do Rio de Janeiro, onde estudava, para me visitar. Eu me encontrava de férias, com a família, numa cidade sertaneja do Nordeste do Brasil. Era julho de 1958. Eu completava vinte anos. 
Tínhamos apenas dois dias para nós. Tratava-se de um momento  definitivo. Tanto havia a nos dizer, que passamos a noite a conversar, sem interrupções. Foram momentos densos, delicados e muito difíceis para ambos. Entraram a fazer parte da nossa história e, de certo modo, a encerraram, se considerada a perspectiva de vivermos juntos. 

No entanto, entendo que o significado daquele momento não fora o de interromper um amor tão expressivo e sincero. Foi mais que isso: para mim, tinha a significância da entrega inteira daquele amor, por uma causa a que me sentia chamada no mais genuíno e profundo de mim. Decidira doar a minha vida ao compromisso e à difusão da fraternidade universal, respondendo ao impacto que tive ao ouvir a história de Chiara Lubich, ainda nos primeiros decênios do Movimento dos Focolares, hoje presente em todo o mundo. 
Um compromisso que exigia de nós o desapego, como tentávamos entender naquela noite de longa conversa. Sua intenção era pedir-me em casamento, e viera para isto, mas o sonho se desfizera. Não que o meu fosse um sonho maior  o amor é o amor, Deus é amor. Eu escolhera seguir o seu chamado. O nosso encontro, então, se transformou em despedida. 


O mundo girou e girou... Depois daquela noite, quantas noites e dias de entrega, aprendizado, novas experiências, e tantas outras decisões. Mais tarde, depois que tínhamos formado família, continuamos a viver em cidades  distantes. 

Hoje estamos apaziguados com a vida e com as escolhas que fizemos. A sua poesia me fez reencontrar-nos em muitos versos, nós, tão velhos agora, e tão os mesmos de sempre!






            "Se eu pudesse,
            Perdendo-me encontra-te!
            Se eu pudesse,
            Achando-me completar-te!
            Se eu pudesse,
            Alegrando-me realizar-te!
            Se eu pudesse
            Ver-te plenamente...
            Ah! se eu pudesse!" (*)

    

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(i) Prof. José Pires da Silva - Rio de Janeiro, Rj.
- com agradecimentos ao autor.




Créditos de Imagens:


  • Castanhas assadas - https://pixabay.com/pt/photos/caju/
  • Todas as outras imagens são de: www.canstockphoto.com.br

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