Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

FREI BETO: QUANDO DEUS SE CALA

20 de fevereiro de 2022

Um caro amigo me enviou um precioso texto de Frei Beto, muito atual para esses dias carregados de aflições. Fala de uma amiga que, como a maioria dos brasileiros, sente-se angustiada por tais aflições. Ela desabafa. Diz que não consegue mais suportar o silêncio de Deus diante de tudo isso.

No seu texto, Frei Beto chega a afirmar: “convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades.”

É sobre o silêncio de Deus diante das nossas aflições que Frei Beto nos fala, trazendo um sopro de conforto ao nosso coração tão angustiado.         

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Por: Frei Betto*


Chega a amiga sem o sorriso que lhe é peculiar. Recebo-a no parlatório do convento com o pressentimento de que algo lhe esmaga o coração. Então, desabafa. Fala do genocídio (mais de 630 mil mortos) promovido pelo governo federal ao minimizar a pandemia e negar a ciência; das invasões de terras indígenas; do feminicídio alarmante; dos múltiplos casos de racismo; dos sucessivos assassinatos de crianças, no Rio, por supostas “balas perdidas”. E antes de se calar, conclui: “Não suporto o silêncio de Deus”. 

Uma longa pausa se abre entre nós. Porque não me julgo portador de elixires capazes de consolar os aflitos. Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus “pronto socorro” que venha em resposta às minhas súplicas. Nem mesmo sei quem é Deus, digo a ela, por mais que os catecismos e as teologias se esforcem em defini-lo. Pura bravata!

"Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus 'pronto socorro' que venha em resposta às minhas súplicas.”

Admito que Deus extrapola todos os nossos conceitos e nossas palavras, ideias e fantasias. Não cabe na mente nem na alma dos humanos. É radicalmente o Outro! O Inominável, como o considera o centésimo nome da divindade na lista muçulmana.

Mesmo na Bíblia - com raras exceções, como no batismo de Jesus (Marcos 1,11) –, Deus se cala. Faz-se presente disfarçado de nuvem, de brisa suave, de sopro, de anjo etc. É o “Deus absconditus” (oculto) de Pascal. Fez silêncio inclusive na agonia do Filho pregado na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, clamou Jesus ao ecoar o Salmo 22 (Marcos 15,34). Aquele que Jesus tratava com tanta intimidade, a ponto de chamá-lo Abba – “meu pai querido”, em aramaico – agora estava tão distante que foi invocado pelo nome genérico. 

Deus também fez silêncio nos campos de concentração nazistas. Até o papa Bento XVI, ao visitar Auschwitz, em abril de 2010, exclamou: “Por que, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estavas nesses dias?” Da mesma forma, o salmista clamou: “Meus Deus, eu grito de dia e não me respondes!” (Salmo 22,2). E Javé adverte no livro dos Provérbios: "Vocês me chamarão, mas não responderei; procurarão por mim, e não me encontrarão.” (1,28). Deus é definitivamente um ser insondável, enigmático. É isso, na opinião de João da Cruz, que nos permite crer ou não crer. “Onde tu te escondes?”, indaga o místico espanhol, ao fazer eco ao profeta Isaías: “Tu és um Deus que se esconde.” (45,15).

Minha amiga diz que está em crise de fé. Como os amigos de Jó. Recordo o conselho de Alfred de Vigny: “Nunca fale e nunca escreva sobre Deus. Restitua-lhe o silêncio com o silêncio”. Esse silêncio significa a morte de Deus, como alertou Nietzsche? Óbvio que não. A religiosidade está em plena ascensão no mundo. Nos EUA é politicamente incorreto se declarar ateu… Figuras como o Papa Francisco e o Dalai Lama se destacam como as mais respeitáveis.

“Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria.”   

Mas convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades. “Graças a Deus”, roga uma família que, por pouco, não foi esmagada pela grande pedra que se desprendeu no canyon de Capitólio (MG). E o que dizer aos familiares das vítimas fatais? Dizer que não mereceram a bênção de serem agraciados pela mão salvadora de Deus?

Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria. De saúde psíquica. Não vale a pena falar se minhas palavras não forem melhores que o meu silêncio.

Temos medo do silêncio. Deus não, o que comprova a sua sapiência. Temos dificuldades frente a tudo que requer silêncio, como dormir, orar, meditar, ocupar-se com um livro… O silêncio nos atordoa. E tememos o mais definitivo dos silêncios – a morte.

Digo à minha amiga que não creio em Deus, creio em Jesus. E, por tabela, no Deus de Jesus. Mas não sei quem ele é e nem isso me preocupa. Apenas sei que, segundo Jesus, ele pode ser encontrado em todo e qualquer gesto de amor. A fé é um salto no vazio. Creio sem saber. O foco de minha fé não é Deus, é Jesus. E mais do que ter fé em Jesus, quero ter a fé de Jesus. Como escrevi no poema Domingo no circo: “Domingo redondo aberto picadeiro Ensolarado por tão forte ardor Me refunde, queima, alucina: Olhos vendados, sem rede sobre o chão, Atiro-me do trapézio em teu amor.” 

Após nossa conversa, minha amiga parecia menos angustiada. Fez-se prolongado e leve silêncio entre nós. Até que ela se levantou, deu-me um abraço apertado e partiu em silêncio. 

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Sobre este tema, confira, do mesmo autor:

https://www.freibetto.org/index.php/todos-os-artigos/214-o-

Imagem de abertura: Representação de Jesus como Bom Pastor nas catacumbas de Roma - afresco do século III.

Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Representa%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_na_arte

ÓDIO, UMA PATOLOGIA ESTÚPIDA

2 de fevereiro de 2022

                


Por:  Vitor Mancuso


Da crônica à política vivemos circundados deste “sentimento” que, na realidade, é uma doença, porque na natureza existe apenas o conflito.

 

O presente artigo foi originalmente publicado no jornal italiano Il Foglio. Embora datado de 2019, a preciosa análise de Vito Mancuso tem muito a dizer, hoje, a nós brasileiros, nesse tempo carregado de graves tensões, devaneios governamentais e primeiros rebuliços políticos pré-eleitorais.

Vito Mancuso é um reconhecido escritor italiano, doutor em teologia, que iniciou sua carreira como professor de Teologia Moderna e Contemporânea na Universidade San Raffaele de Milão, e, em seguida, foi professor de História das Doutrinas Teológicas na Universidade de Pádua. Logo tornou-se um dos escritores mais lidos na sua área de conhecimento, pela sua abordagem sobre o sentimento humano como o amor, o ódio e o desejo, com uma linguagem clara e contemporânea, e, certamente, por colocar-se contra a corrente teológica tradicional. Em 2014, a Editora Paulinas publicou o seu livro: “Eu e Deus: um guia para os perplexos”, em português. 

A tradução original do artigo é de Moisés Sbardelotto, para o portal IHU-Usininus. Para os leitores deste blog, tomamos a liberdade de fazer pequenos ajustes na tradução, a partir do texto original italiano.  Segue o artigo.

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Um prefeito de política aberta e solidária é esfaqueado até a morte na cidade do Movimento Solidarność (em Gdańsk, na Polônia). Um terrorista criminoso chega à Itália, e muitos rangem os dentes, e, se pudessem, se atracariam com ele até dilacerá-lo. Nas arquibancadas dos estádios, gritam-se inutilmente hinos racistas e antissemitas. Alguns garotos são capazes de pegar um cachorro para fazer explodir um rojão em sua boca.

São apenas alguns exemplos de uma paixão destrutiva e assassina que permeia a nossa história: Caim mata Abel, Rômulo mata Remo, Estéocle e Polinices matam-se um ao outro, Sócrates é morto pelos democratas, Jesus é morto pelos teocratas e pelos imperialistas, os sicários de Antônio decepam as mãos e a cabeça de Cícero, e depois? Depois, as guerras sem fim, pulsões atávicas de vingança, execuções capitais que reúnem multidões aos gritos de um prazer sádico, e nem sequer vou abrir o capítulo da história do século XX, porque todos já sabemos quanto sangue e quanto ódio ela contém. Precisamente o ódio. Depois vem a sua versão fria, aquela que corresponde aos círculos infernais em que os condenados são aprisionados no gelo, e se expressa naquela voz maligna que diante de um navio de seres humanos com a pele de diferentes matizes apenas suplicam para desembarcar sussurra friamente: que morram todos afogados, ou de fome, de frio, que se lasquem!

Nas estrelas, nos quasares das galáxias, nas pulsar, nos buracos negros e nos seres viventes que lutam pela vida, e que se nutrem da vida de outros seres, não existe o ódio. A este ponto a questão que se põe é simples:

Que papel tem o ódio na estrutura do mundo? É algo congênito, estruturalmente presente e, portanto, natural? Ou é algo não congênito, inesperado e, portanto, inatural? O que tem a ver o ódio com a lógica da vida no mundo? A minha resposta vai contra a corrente, é inatual, é um desafio, porque defende que ódio não é natural, mas é uma patologia, e, portanto, a sua dissolução - que também podemos chamar de perdão é um retorno à fisiologia, ou melhor, a uma cura.

De que o ódio se constitui uma patologia? Daquela condição estrutural que Heráclito chamava polemosEmpédocles neîkos. Segundo Heráclito, “o conflito (polemos) é o pai de todas as coisas e de tudo é rei” [i] afirmação que concorre à consciência complementar da harmonia, segundo a qual: “O que contrasta favorece, e a partir de elementos que discordam alcança-se a mais bela harmonia”.[ii] Para Empédocles, o mundo físico e humano é regido por duas forças contrastantes, denominadas por ele de philòtes e neîkos, isto é, concórdia e discórdia, entendimento e desentendimento, amizade e rancor. Decorre, portanto, que tanto os elementos naturais quanto os seres humanos “às vezes contribuem, pela concórdia, com um único cosmos, às vezes, cada um segue arrastado por si próprio, pelo desafio do rancor” ("Poema físico", 22).  Empédocles e Heráclito foram os primeiros, no Ocidente, a trazer à consciência a condição antinômica e conflituosa que, estruturalmente, é inerente ao ser. Hoje a ciência confirma essa visão. Na natureza existe o conflito, a partir da condição própria da matéria. [...] Se, no entanto, voltarmos a nossa atenção para a história da vida, as coisas não mudam, ao contrário, tornam-se até mais perturbadoras, porque entra em cena o sangue, o elemento da vida e, ao mesmo tempo, da morte. [...]

Mas atenção: nas estrelas, nos quasares, nos pulsares, nos buracos negros, assim como nos seres vivos que lutam pela vida e que se nutrem da vida de outros, não há ódio. O leão não odeia a gazela, assim como a gazela não odeia a relva; as bactérias, os vírus, as células cancerígenas e qualquer outro ente natural também não são capazes de ódio. Não há ódio nem mesmo naqueles comportamentos animais que um professor de zoologia da Universidade de Pádua, Giuseppe Fusco, descreve em termos de escravismo em relação a certas formigas, de fratricídio para muitas aves de rapina, de matricídio para algumas aranhas, de uxoricídio para os louva-a-deus, até mesmo de violência sexual para certos insetos. O estudioso explica: “Esses comportamentos, sob nenhuma circunstância, devem ser classificados sob o rótulo de ‘comportamentos desviantes’, porque, para as espécies animais que os praticam, eles fazem parte do seu ciclo vital normal”.[iii]

No mundo natural não há ódio porque nele não existe a condição necessária para o ódio, ou melhor, a evolução da mente, sendo o ódio justamente uma patologia da mente, e, mais precisamente, uma patologia de um conflito que é estruturalmente inerente ao ser humano. De fato, uma coisa é ter um adversário, outra é odiá-lo. A primeira obra da literatura ocidental, a “Ilíada”, ensina que também se pode cantar a epopeia vitoriosa de uma guerra sem odiar o inimigo; o mesmo ocorre no ideal da cavalaria medieval. O adversário é, sim, objeto de aversão, mas não necessariamente de ódio; o inimigo é, sim, objeto de inimizade, mas não necessariamente de ódio. Onde estaria a diferença?  

A diferença está no fato de que se quer ganhar, vencer, derrotar o inimigo, o adversário, até mesmo de forma grosseira, mas não o queremos extingui-lo ou aniquilá-lo. Não só. No entanto, se refletirmos com ponderação, entenderemos que, sem o adversário ou seja, sem o adversus que representa o polo oposto em relação ao nosso versus –, a nossa própria identidade seria completamente diferente ou até não existiria: como a esquerda sem a direita, os ateus sem os crentes, ou a Inter sem a Juventus (no futebol italiano). O ódio, ao contrário, quer aniquilar. E, no furor cego torna-se ignorante, não compreende que a exterminação do inimigo significaria a aniquilação de si mesmo, da sua própria identidade que, sem o inimigo, não teria mais o polo de referência para se fortalecer e se motivar.

Quem é capaz de ódio? Só o espírito pode odiar, isto é, a liberdade. O termo “espírito” em latim (spiritus), em grego (pneuma) e em hebraico (ruah) significa, exatamente, “vento”, “ar que se move”, e foi escolhido pelas civilizações com base na nossa tradição, para indicar precisamente a nossa capacidade de ser livre. A liberdade não nos chega pelo fato de sermos corpo, nem de sermos psique. Todavia, se a admitirmos (entendendo por liberdade a possibilidade de se ter consciência, criatividade e responsabilidade), é preciso individuar qual a condição que nos permite ser livres. Portanto, se não é o corpo e se não é a psique, ela requer outro nome. A tradição nos entrega o termo “espírito”.

Pois bem, o ódio é uma doença do espírito: não por acaso a tradição cristã, e, também, a judaica e a islâmica, consideram que Satanás (que o Alcorão chama de Iblis) seja um anjo decaído, e o anjo é precisamente puro espírito. Quando a liberdade adoece, põe a consciência e a criatividade não mais a serviço da responsabilidade, mas do seu contrário, isto é, da negação, da aversão, da destruição. Assim, tem-se a malignidade, que é a lúcida vontade do mal.

Essa vontade maligna pode ser dirigida contra uma pessoa, um grupo, um povo, uma instituição, ou pode ser endereçada contra o mundo, de uma forma genérica e conduzida pelo mero prazer do mal, pelo gosto sádico e pernicioso de infligir sofrimento, destruição e morte. A personificação dessa força é o chamado Demônio, cuja essência é exatamente a divisão, a dilaceração, o esquartejamento do ser: o contrário da harmonia.

Normalmente, não se pensa que o ódio seja uma patologia, ao contrário, o ódio se contrapõe ao amor como uma força de igual e contraposta potência. Não só, chega-se a considerar que o ódio ajude a compreender bem melhor o amor, e que tenha uma sua invejável lucidez, uma penetração inteligente e aguda. É verdade que se diz “ódio cego”, mas essa é mais uma referência à raiva, enquanto o ódio, no seu gélido distanciamento, é visto como frio, lúcido, penetrante. Sami Modiano, um sobrevivente de Auschwitz, afirmou: “Não é verdade que o ódio é cego. Ele tem a visão muito aguda, a de um atirador de elite, e, se adormece, o seu sono nunca é eterno, retorna”.

Eu não subestimo a força do ódio, mas não creio que ele seja realmente inteligente. Pelo contrário, penso que o ódio, na realidade, saiba ver apenas a si mesmo, e não o outro na sua efetiva realidade; mesmo quando vê o outro, na verdade está vendo apenas o que ele prejulga, que o impede de reconhecer o bem e o belo do outro, e lhe confirmará infalivelmente que o outro é tão só o mal e a deformidade. O ódio enxerga, mas não vê com um olhar reto, relaxado, que faz com que os olhos pousem no outro para captar aquilo que ele realmente é.  Não, seus olhos veem com um olhar flectido, deformado pela energia negativa que o anima, pelo desejo de destruição que emana do seu olhar.

De que coisa o ódio se constitui uma patologia? Daquela condição estrutural que Eraclito chamava polemos e Empedocle neîcos. O ódio não enxerga com o olhar reto. A “reta visão” gera abertura mental e abertura do coração, ou melhor, empatia. Pois a verdadeira compreensão requer retidão, antes de tudo no sentido de um olhar reto, de “reta visão”, como diz a primeira disposição do nobre caminho óctuplo ensinado por Buda.[iv]  Daí gera-se a abertura mental e a abertura do coração, ou empatia –, “a capacidade de sentir as emoções alheias, de compreender aquilo que o outro está pensando ou sentindo”, condição que só é possível quando uma pessoa é capaz de “compartilhar o estado afetivo de outro indivíduo”,[v] isto, obviamente, quando não odeia.

O ódio, portanto, não é inteligente, mas estupidamente circunscrito. Resta uma última questão: o ódio é forte? É claro, o ódio é forte, às vezes fortíssimo. Mas o câncer também o é, as células cancerígenas podem ser muito mais vitais do que as células sadias; são esfaimadas, violentas, agressivas. Porém, o que resulta? A morte do organismo e, portanto, também das células, o que significa a máxima impotência.

Isso se explica pelo fato de que o ser é regido pela lógica do sistema, ou melhor, pela relação harmoniosa; o que é regido por tal lógica promove o florescer da vida. Assim, o que não se rege por essa lógica faz a vida desvanecer, introduzindo a morte. Platão escreve que até mesmo “um bando de delinquentes e de ladrões ou qualquer outra força que se forme no intento de delinquir,” não poderia fazer nada “se se comportasse internamente fora de todos os princípios de justiça”.[vi]

Assim, não se trata de sermos necessariamente bons, ao escolher de combater o ódio. Trata-se, mais simplesmente, de ser inteligentes, de entender a lógica que nos trouxe à existência e nos mantém nela, e de nos conformar a ela (como um capitão de um barco à vela que entende o jogo dos ventos e das correntes e dispõe o seu barco em prumo). Portanto, combater o ódio no seu interior mantendo o conflito, mas não odiando, significa permanecer saudáveis, rejeitar o mal fora de si. E, antes de tudo, por um ato de benevolência para com o outro, não deixar que as células cancerígenas do ódio criem raízes é um grande gesto de cuidado para consigo mesmo.

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Fonte do artigo:

https://www.ilfoglio.it/cultura/2019/01/20/news/lodio-una-stupida-patologia-233228/

A imagem é integrada ao texto original de Il Foglio.

Tradução original, em português:

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586166-odio-uma-patologia-estupida-artigo-de-vito-mancuso

Notas de rodapé:

[i] Fr. 14, ed. Diano.

[ii] Fr. 24

[iii] Competizione e cooperazione, em L’altruismo, Udine: Forum, 2018, p. 37.

[iv] Nota da presente tradução: O Nobre Caminho Óctuplo é, nos ensinamentos do Buda, um conjunto de oito práticas que correspondem à quarta nobre verdade do budismo. Seria um treinamento para erradicar a ganância, o ódio e a ilusão, vistos como as raízes do sofrimento.

[v] Franco Fabbro, Eric Pascoli, L’empatia e l’altruismo alla luce delle neuroscienze, in: L’altruismo, cit, pp. 119-120),

[vi] "República", I, 351 D [trad. portuguesa: Maria Helena da Rocha Pereira, ed. Fundação Calouste Gulbenkian].

 










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