Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

COMPRE DO PEQUENO NEGÓCIO!

28 de agosto de 2015

Aparentemente não se percebe o quanto estamos inseridos como partícipes ativos do panorama econômico do nosso país. Alguns até participam das manifestações dos movimentos sociais, dos partidos políticos, dos grupos profissionais que lhes dizem respeito. Mas, o que se poderá fazer mais, de forma a promover uma resposta humanizada a questões que atingem a nossa economia doméstica, nas quais se pode interferir de fato e de imediato?
Parto do princípio que nos interessa que a economia do país deixe a cama do hospital, chegue à nossa casa com saúde e nos proporcione o bem-estar pelo qual lutamos na vida, de modo especial quando esse bem-estar pode ser alargado cada vez mais às pessoas não favorecidas com um trabalho formal, e que estão e continuam a inventar - com enorme criatividade - uma porção de coisas para a melhoria de suas vidas e daqueles que deles estão a depender.
Há poucos dias me deparei com uma informação que me apontou uma nova visão de quanto fazemos parte, e de quanto podemos corroborar – no sentido de provocar, dar uma colaboração efetiva - empurrar o nosso país a retomar os caminhos do crescimento econômico, pelo viez dos pequenos negócios que vendem no nosso bairro os produtos de que mais necessitamos no dia-a-dia.
A informação vem do SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – uma organização que tem prestado importantes serviços no âmbito dos pequenos negócios no Brasil. O SEBRAE está iniciando um diálogo com a população brasileira a fim de lançar – em 5 de outubro próximo – uma grande campanha – o "Movimento Compre do Pequeno Negócio". A ideia inicial é que as frutas e verduras que você comprar na barraca da esquina, o lanche que você fizer na padaria mais próxima à sua casa, ou o almoço de quinze ou vinte reais que você escolher num dos botecos do seu bairro, “tem um valor que vai além de apenas suprir as suas necessidades”.

É o que garante o presidente do SEBRAE Luiz Barretto - "O negócio fica perto da sua casa, o dinheiro fica no seu bairro e gera empregos. É o motor da economia e, quando analisado, o conjunto demonstra uma uma  amplitude econômica importantíssima". Para ele, a concepção do pequeno negócio ainda é muito vaga na sociedade brasileira. E afirma: "A ideia é juntar um ato de cidadania com um ato de mercado, de modo a fazer o consumidor entender por que é importante comprar de uma pequena empresa".


A revista Carta Capital (1) – da qual registro esta informação – apresenta a dimensão do setor das pequenas e médias empresas, no país: mais de 17 milhões de brasileiros vivem com carteira assinada por uma pequena empresa, e o setor responde a 27% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em São Paulo - por exemplo - já são mais de 2,7 milhões de micro e pequenas empresas.

O autor da reportagem, jornalista Felipe Campos Mello, registra o que diz Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, que está apoiando o movimento. Ao falar do momento econômico do país, ele enfatiza: “Evidentemente a crise existe. Em alguns segmentos e localidades ela é muito intensa, mas quando você olha o Brasil como um todo, ela não tem a expressão que os jornais falam. A grande maioria do nosso setor - os pequenos estabelecimentos – estão crescendo até 15 %.”

O setor de “franchising” - um sistema de franquia que consiste em replicar, em diversos locais, um mesmo tipo de negócio ou serviço - apresenta resultados igualmente positivos. A presidenta da Associação Brasileira de Franchising, Maria Cristina Franco, afirmou à Carta Capital que o setor de franchising - presente em 37% dos municípios brasileiros - fechará o ano de 2015 com um crescimento entre 7,5% a 9%.
O jornalista Fellipe Mello, da Carta Capital afirma que, para o presidente do Sebrae o momento é de crise, mas é também de oportunidade: “Nós vivemos um ano de ajuste, de dificuldade, mas a pequena empresa continua gerando emprego. O saldo do primeiro semestre de 2015 é positivo, entre janeiro e 31 de junho foram geradas 116 mil vagas, muito mais do que as médias de grandes empresas. Estas, por sua vez, apresentaram um saldo negativo em torno de 450 mil vagas", afirma Luiz Barretto.

Creio que podemos concluir que será um bom negócio para o Brasil se nós, compradores, começarmos desde agora a comprar o que for possível no bairro em que vivemos. Será um modo de colaborar diretamente para o crescimento do pequeno empreendedor, ao invés de contribuir com o que já é grande. No setor público, por exemplo, isto se faz com a decisão de adquirir os itens necessários à preparação da merenda escolar, comprando diretamente do produtor rural do município em questão. A prática, por exemplo, de fazer a feira semanal de orgânicos do bairro, além de uma atitude saudável para a economia do pequeno produtor rural, é também uma medida importante para a nossa saúde, pois estaremos livres de alguns itens “venenosos” que os grandes produtores usam em seus produtos, sejam da área rural sejam do setor de industrializados.

Este gesto não tem lado político nem partidário. É um gesto concreto de cidadania que, se ampliado - como comenta um dos leitores da revista Carta Capital – “cria-se um círculo virtuoso com menos carros na rua, menos poluição, menos anonimato, mais humanização, mais vida nos bairros, mais interação com quem mora perto etc.". E enfatiza: Às vezes menos é mais, e pode valer a pena gastar um pouco mais, se economizarmos tempo e pensarmos em todos os benefícios envolvidos”.
Fica, então, o convite. Já podemos começar de hoje!

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(*) Reportagem de Felippe Mello: “Por que comprar no mercadinho da esquina”, in: www.cartacapital.com.br/economia - publicada em 7/08/2015. Comentário de Tamasoi – Citizen Quem – 7/08/2015.


Créditos imagens:

1.Pão, pitombas e alecrim - arquivo blog.
2.Reunião Sebrae - 07.08.2015 - www.agenciasebrae.com.br - Foto: de Luiz          Prado.
3.Simplesmente Saudável - www.agenciasebrae.com.br - Foto: Luiz Costa - La      Imagen 
4.Scholl Bus - www.canstockphoto.com.br
5.Horttifrutti - www.g1.globo.com
6.Mercado da Madalena - Recife-PE - arquvio blog
7.Apanã - Mercado de Orgânicos em São Paulo - foto guiamad.com.br
8.Crescimento dos mercados de bairro - www.abcconsultores.com.br


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OS OUTROS - COMO ENTENDÊ-LOS?

25 de agosto de 2015

                                                                                                                                                                                                     

Sempre que o fazer político dos governos de um país nos leva a falar e  a lutar pela democracia, é oportuno lembrar a importância não só de cuidarmos do cultivo de uma saudável gestão democrática do país, mas também do processo de nosso próprio agir democrático.  

Cidadania significa buscar aplicar no nosso trabalho e no nosso fazer cotidiano, uma convivência democrática e respeitosa entre nós. Para isto será preciso assumir uma boa dose de civilização nas relações públicas e pessoais. 


Entendemos que não é possível exercitar a democracia sem exercer a tolerância, como defendia o colombiano Maturana. Mas, não se trata de apenas sermos tolerantes com o que o outro pensa. Paulo Freire, renomado educador brasileiro, recomendava que a nossa não seja "uma tolerância que funcione como um favor a ser feito - na tentativa de deixar de lado aquilo que penso com o meu sentimento de superioridade - para acolher o que pensa o outro".    


O que se vê hoje no Brasil, - e que está levando alguns políticos retrógrados a querer assumir decisões perigosamente antidemocráticas - é uma prática não disfarçada de intolerância política: ou o outro pensa igual a mim, e faz o que eu quero, ou devo demovê-lo do lugar que democraticamente foi alcançado. 


É o que acontece com a atual oposição à presidência da república, assumida por uma cidadã eleita democraticamente com o voto da maioria, ainda que mínima. A demonstração democrática das diferenças políticas seriam sempre bem-vindas, não fosse a vontade intolerante de alguns políticos que buscam mecanismos de apagamento da democracia, de um lugar conquistado por meio do voto popular. Mais de uma vez vivenciei, ao longo da minha profissão, a experiência da  intolerância e da mesquinhez por parte de outros. Por motivos insondáveis, alguém utilizou processos injustos da mentira e do engodo, a fim de minar o conceito que eu havia conquistado em determinadas instituições. Nesses casos são usados subornos, fatos mentirosos por questões meramente pessoais, de mau caráter.

João Batista Freire  - um especialista em pedagogia do jogo dentro e fora da escola - nos faz entender que há lados positivos e pessoas elevadas que nos fazem esquecer a mesquinhez dos outros. 

"Certo - diz ele - que tolerar  é uma virtude  mas, quem  sabe,  uma virtude provisória, até  que  o convívio seja resolvido por algo mais despojado e humilde, tal como a compaixão ou o amor. Na tolerância eu aceito o que não é meu; no amor eu me alegro com o que é do outro (2). Bem sabemos que alegrar-se com o que é do outro - especialmente quando esse outro partilha comigo o trabalho ou a vida - é uma virtude que exige o profundo respeito pelo que esse outro é, e sabe conquistar, construindo o seu espaço nesse mundo das diferenças.   



Há um modo brincante de entender essa questão,  sugerido num texto que circulou na internet a tempos atrás - de autoria desconhecida. Poderá servir para iniciar uma boa conversa quando estivermos com os amigos num momento de lazer. Trata-se da busca de resposta a uma simples questão que busca revelar qual seria o comportamento das pessoas de acordo com o seu signo. 

Assim, na brincadeira se percebe como somos diferentes, até mesmo quando se trata de simplesmente mudar uma lâmpada. 



Quantas pessoas de um determinado signo seriam necessárias para trocar uma lâmpada?  

As respostas são muito precisas. Vejamos: Se for um ariano, bastará uma só pessoa. No entanto... Seriam necessárias inúmeras lâmpadas! Se taurino, não precisará ninguém. Taurinos não gostam de mudar coisa alguma!

                                               

                             E se geminiano, é claro que precisaremos pelo menos de duas pessoas. E a tarefa duraria o fim de semana inteiro! Mas, quando o serviço for terminado a lâmpada vai iluminar toda a casa, terá um intenso brilho, e você poderá vê-la da cor que desejar!  

Sendo um canceriano, não se preocupe: bastará uma só pessoa. Ela levará anos!... E ainda precisará ser orientada por um terapeuta para ajudá-la a passar por esse processo.

E um leonino? Um leonino não troca lâmpadas - a não ser que ele fique a segurar a lâmpada e o mundo siga a girar em torno dele! 

Se for chamado um virginiano para trocar uma lâmpada, vamos ver: precisa-se de uma pessoa para girar a lâmpada, outra para anotar quando a lâmpada foi comprada, um outro para verificar quando a lâmpada queimou, outro ainda para averiguar de quem foi a culpa e, quiçá, uma reunião deles para decidirem como remodelar a casa enquanto a lâmpada é trocada. 

Não se sabe quantos librinianos seriam necessários. Tudo vai depender de quando a lâmpada queimou. Talvez bastarão dois deles se for uma lâmpada comum, mas... Onde e como encontrar uma lâmpada? 

Tratando-se de escorpianos... Quem quer saber? Por que "você" está interessado nisso? É um policial, por acaso?   

Pegunte a um sagitariano. Mas espere: ainda é cedo, o sol acaba de nascer, temos a vida inteira pela frente para resolver isso! E você aí preocupado em trocar uma lâmpada estúpida!?  


Veja que não seja necessário um capricorniano. Capricornianos não trocam lâmpadas - a não ser que isto se torne um negócio lucrativo!

Se a questão for posta a um aquariano... Vão aparecer centenas deles, todos competindo, a ver quem será o primeiro a trazer a luz ao mundo! 

Os piscianos? Quantos seriam necessários para trocar uma lâmpada? 




É bom lembrar que assumir atitudes de respeito pelo outro e cidadania não é caretice. É claro que não se pode deixar de lado nossos valores, principalmente aqueles que na vida elegemos assumir em nossa vida privada e pública. 

Superamos a desarmonia nas relações pessoais com atitudes recíprocas de compreensão e de perdão. E na vida profissional, com  a troca de talentos, métodos de trabalho, e de conhecimentos a fim de tornar a convivência mais leve, o fardo da vida menos pesado, o prazer de viver uma condição possível de ser feliz. No acolhimento das recíprocas diferenças todos sairemos enriquecidos.


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Créditos Imagens:

 1. La libertè - Museu do Louvre
 2. Um gesto de amor - Usininos
 Imagens de 3 a 5 são da www.canstockphoto.com.br

- O quê? A luz está apagada!!!?


Diante desse quadro de tão diferentes reações, não fosse uma atitude amorosa de suportação do outro, - como fazem os bons amigos que se riem dos próprios limites e implicâncias - como se poderia conviver em fraterna harmonia?


CUIDAR DE SI MESMO

19 de agosto de 2015


Pareceu-me mais que oportuno divulgar este artigo de Leonardo Boff – reconhecido pensador e teólogo, inspirador de uma profunda inovação de ideias sobre a cidadania e a eficácia de atitudes para  nossos dias. A mensagem que apresentamos abaixo tem o impacto de um chamamento inspirado na encíclica Laudato Sì de Papa Francisco.

O texto fala de "desafio", com a força inteira que esta palavra carrega – um convite incisivo à superação de nós mesmos e à tomada de atitudes pessoais de cuidados consigo mesmo. Os destaques realizados no texto são nossos.


Um Desafio Permanente: Cuidar De Si Mesmo
Leonardo Boff (*)




Ao assumir a categoria do “cuidado” na relação para com a Mãe Terra e para com todos os seres, o Papa Francisco reforçou não só uma virtude mas, um verdadeiro paradigma que representa uma alternativa ao paradigma da modernidade – a da vontade de poder/dominação que tantos prejuízos trouxe. Devemos cuidar de tudo, também de nós mesmos, pois somos o mais próximo dos próximos e, ao mesmo tempo, o mais complexo e o mais indecifrável dos seres.
Sabemos quem somos? Para que existimos? Para onde vamos? Refletindo estas perguntas inadiáveis vale lembrar a ponderação de Blaise Pascal (+1662), talvez a mais verdadeira. Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai (Pensées § 72).

Na verdade, não sabemos quem somos. Apenas desconfiamos como diria Guimarães Rosa. Na medida em que vamos vivendo e sofrendo lentamente desvendamos quem somos. Em último termo: expressões daquela energia de fundo (Deus?) que tudo sustenta e tudo dirige.

Junto com aquilo que de fato somos, existe também aquilo que potencialmente podemos ser. O potencial pertence também ao real, quem sabe, a nossa melhor parte. A partir deste transfundo, cabe elaborarmos chaves de leitura que nos orientam na busca daquilo que queremos e podemos ser.


É nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma função decisiva. Não se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o próprio eu, o que leva geralmente a não conhecer-se a si mesmo, mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, falsa e alienante.

Foi Michel Foucauld – com sua minuciosa investigação: Hermenêutica do sujeito (2004) – que tentou resgatar a tradição ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos sábios dos séculos II/III como Sêneca, Marco Aurélio, Epicteto e outros. O grande mote era o famoso ghôti seautónconhece-te a ti mesmo. Esse conhecimento não era algo abstrato mas muito concreto como: reconhece-te naquilo que és, procura aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tenta realizar aquilo que de fato podes.

Neste contexto se abordavam as várias virtudes, tão bem discutidas por Sócrates. Ele advertia evitar o pior dos vícios que para nós se tornou comum: a hybris. Hybris é o ultrapassar os limites e colocar-se acima dos outros. Talvez o maior impasse da cultura ocidental, da cultura cristã, especialmente da cultura estadunidense – com o seu imaginado Destino Manifesto (o sentir-se o novo povo eleito por Deus) - é a hybris: o sentimento de superioridade e de excepcionalidade, impondo aos outros os próprios valores.


A primeira coisa que importa afirmar é que o ser humano é um sujeito e não uma coisa. Não é uma substância constituída uma vez por todas, mas um nó de relações sempre ativo que, mediante a cadeia das relações está continuamente se construindo, como faz o universo.

Todos os seres, consoante a nova cosmologia são portadores de certa subjetividade, porque têm história, vivem em interação e interdependência de todos com todos, aprendem trocando e acumulando informações. Esse é um princípio cosmológico universal. Mas o ser humano realiza uma modalidade própria deste princípio que é o fato de ser um sujeito consciente e reflexo. Ele sabe que sabe e sabe que não sabe e, para sermos completos, não sabe que não sabe.

Este nó de relações se articula a partir de um centro ao redor do qual organiza as relações com todos os demais. Esse eu profundo nunca está só. Sua solidão é para a comunhão. Ele reclama um tu. Melhor, segundo Martin Buber, é a partir do tu que o eu desperta e se forma. Do eu e do tu nasce o nós.
O cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se é com suas aptidões e seus limites. Não com amargura como quem quer modificar a sua situação existencial. Mas com jovialidade. Acolher o próprio rosto, cabelos, pernas, seios, sua aparência e modo de estar no mundo, enfim, seu corpo (Veja Corbin e outros, O corpo, 3º vol. 2008). Quanto mais nos aceitamos menos clínicas de cirurgias plásticas existirão. Com as características físicas que temos devemos elaborar nosso jeito de ser no mundo. Nada mais ridículo que a construção artificial de uma beleza moldada em dissonância com a beleza interior. É a tentativa vã de fazer um “photoshop” da própria imagem.

O cuidado de si exige saber combinar as aptidões com as motivações. Não basta termos aptidão para a música se não sentimos motivação para ser músico. Da mesma forma, não nos ajudam as motivações para sermos músico se não tivermos a aptidão para isso. Desperdiçamos energias e colhemos frustrações. Ficamos medíocres, o que não nos engrandece.


Outro componente do cuidado para consigo mesmo é saber e aprender a conviver com a dimensão de sombra que acompanha a dimensão de luz. Amamos e odiamos.

Somos feitos com essas contradições. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de inteligência e junto a isso gente de rudeza. Somos o encontro das oposições. Cuidar de si mesmo é poder criar uma síntese onde as contradições não se anulam, mas o lado luminoso predomina.




Cuidar de si mesmo é amar-se, acolher-se, reconhecer sua própria vulnerabilidade, poder chorar, saber perdoar-se e perdoar...  E, ainda, desenvolver a resiliência, que é a capacidade de dar a volta por cima e de aprender dos próprios erros e contradições. Então, escrevemos direito apesar das linhas tortas.


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(*) Postado em 01/08/2015 - www.Leonardo Boff.wordpress.com




Créditos das Imagens

1. Jovem com chapéu - www.canstockphoto.com.br
2. Mulher + interrogações - www.canstockphoto.com.br
3. NuMulher - www.lupaulafono.blogspot.com - 2012 
4. Ubumtu - divulgação da filosofia de alguns países africanos sobre o valor do     outro, na relação humana.
5. O Espelho - pintura de Roberto Ploeg - o.s.t.,80x60cm - 2012 -                      robertoploeg.blogspot.com
6. Retrato Embrulhado -  pintura de Roberto Ploeg - o.s.t.,50x40cm - 2012
7. Less-More - www.canstockphoto.com.br


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LISBOA DE ENCANTO E BELEZA

9 de agosto de 2015


Quase sempre acontece, como hoje, encontrar-me diante de uma página em branco, em busca de inspiração para postar neste espaço. Por vezes consulto os assuntos que listei, a fim de pesquisar mais... ou vou em busca das informações do dia, a ver se devo escrever sobre. 

Não sei por que razão ou sem razão alguma, hoje lancei o olhar na minha pequena biblioteca  uma só parede com requadros em madeira, que me ajudam a diferenciar os assuntos  e peguei, casualmente, um dos meus cadernos de viagens com anotações de uma das minhas idas a Lisboa! Decidi, então, passear por aquela cidade tão linda, e tão cheia de prazerosas surpresas. Toda ela é um sem número de convites ao deleite do visitante. É, em síntese, uma cidade muito aconchegante!






Será necessário fazer aqui uma confissão, para que se entenda o quanto amo Lisboa - qualquer que seja o porquê e o para onde estou indo à Europa  e, no decorrer da vida estive lá algumas vezes, e sempre volto ao desejo de retornar... -  a viagem inicia ou é concluída com uma estada em Lisboa. Trata-se de uma relação de afeto com a cidade e o seu povo, como se minhas raízes chegassem até lá (ou de lá viessem) fincadas no meu coração. Vamos às anotações.




Dessa vez resolvi fazer um programa sem citytour e sem guia... Sai de ônibus, digo - de autocar - cuja fila de espera ainda não era tão grande (uma "bicha" pequena, pois!) Desci na Praça Marquês do Pombal. De lá peguei o metrô (ops! a metropolinata?) até a estação São Sebastião, póximo à Av. Berna, onde fica a Fundação Calouste Gulbenkian, para visitar o museu local. Uma contemplação 
prazerosa e rica de surpresas!    





Algumas peças me prenderam  mais a atenção. Se não estou equivocada, travava-se de iconografias extra coleção – "O Inverno", Millet   "Bolha de Sabão", de Edouard Manet e uma outra, parece-me que era "O arco-ires"...  Passeei o olhar - sem pressa - em algumas esculturas:"Flora" (Rodin); "Diana" (Houdon); além das esculturas de Carpeaux.
Mais adiante os auto-relevos chineses em marfim; e os vasos, objetos e tecidos maravilhosos da antiguidade chinesa e egípcia (Séc. XI a XVI), além dos tapetes flamencos do Séc. XVI, da ouriversaria francesa e dos móveis de Luís XV e XVI. Extraordinária a louça de jade das diferentes "famílias chinesas" (verde, rosa, etc.). Curiosas as coleções de pratarias e de moedas.























O contato com civilizações tão antigas promovem em nós, latino-americanos, um impacto cultural intenso. Lembrei-me das peças maravilhosas que eu já havia contemplado em outros museus ou exposições, especialmente da arte primitiva do México, da arte Inca, no Perú e dos povos indígenas do Brasil - os rústicos desenhos da Serra da Capivara, no Piaui, e as maravilhosas cerâmicas da região amazônica.  





Na região Nordeste do Brasil, onde vivo, conhecemos a riqueza da iconografia de barro dos nossos artesãos, entre esses o grande Mestre Vitalino, e os desenhos atuais de J.Borges - que expressam com imenso realismo a vida do povo do campo e da cidade. J.Borges foi convidado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, para ilustrar o seu livro intitulado: "As Palavras Andantes".  Assim, o encantamento da arte chinesa, em diferentes cores, e o impressionismo de Millet e Manet enriqueciam minha sensibilidade às diferentes expressões artísticas que sempre beliscam o que há de melhor em mim, e me estimulam à alegria da contemplação, presenteando-me de uma forma ou de outra com as diferentes dimensões da beleza e da arte. 






À saída do Gulbenkian, ainda consegui passear pelo seu magnífico parque lateral, com inúmeras nuanças de árvores e de águas, ora espelho, ora fontes e brancura. Almocei o 'menu turístico' do restaurante local onde conheci duas simpáticas portuguesas. 





Já havia passado na Praça da Figueira, bela por si mesma e por seu entorno, especialmente pela visão do Castelo de São Jorge que dali se contempla de longe e de baixo. Ao visitar o castelo, a  impressão que se tem é de um espaço grandioso de uma beleza rústica que se impõe, inserindo-se na paisagem e na história do seu povo. Um contraste de tijolo árido e luz, a luz exterior que inunda o nosso espírito de muitas emoções...


Mais tarde estive a contemplar o mar ao lado da Torre de Belém - e a me perguntar se talvez dali havia saído uma das embarcações que  se perderam do "caminho das Índias", chegando às praias das terras de Santa Cruz. Para repousar, fui ao café que serve os famosos pastéis de Belém - esses que aqui no Brasil se busca como uma preciosidade - pois é difícil encontrar um sabor que nos remeta, um pouco que seja, à delicada doçura e ao sabor único do "pastel de Belém lisbonense, lisboês ou "alfacinha", alcunha dos portugueses para os que nascem em Lisboa.


Visitei o Mosteiro dos Jerônimos - que apesar de ser visto a pouca luz nos permite contemplar sua maravilhosa parede de calacário e seus luminosos vitrais. Não consegui identificar alguma semelhança com o que já havia visto em outros países europeus. O teto da grande nave me fazia recordar igrejas visitadas na Toscana (Itália), que me disseram serem inspiradas ao gosto manuelino.  Ali ainda observei a beleza dos túmulos mais modernos da chamda "idade de ouro" portuguesa - Vasco da Gama e Luís de Camões, ambos ligados à história da descoberta do Brasil. 

À noite voltei à Torre de Belém para assistir um concerto de Mariza, com a "Sinfonietta de Lisboa". Para mim, um deslumbramento! Talvez o seu estilo chegue a falar um pouco do toque moçambicano de seu nascimento... O seu desempenho é muito pessoal, trazendo uma preciosa sonoridade ao fado.



No terceiro dia estive a visitar a região do Oceanário, que foi mantido na cidade após a Expô 2008, outra ocasião de uma minha visita a Lisboa. Não esqueço o deslumbramento daquele evento e o aprendizado que me trouxe, na ocasição. 







Depois sai a passear feito um caminhante sem destino, até alcançar a Ponte 25 de Abril de onde se tem uma espetacular vista da cidade. O meu desejo era ficar mais próxima do rio Tejo  pois nas cidades por onde passo, sempre saio em busca de contemplar as águas de seus rios, e saber deles a história das pessoas que contemplam suas passageiras águas, elas também passageiras... e quase sempre turistas. Quem mais, no correr da vida intensa das grandes cidades, lembra-se de parar um pouco a ver o correr das águas, que como a vida não voltam mais a ser o que são naquele momento?


Quanto ainda teria a dizer sobre a beleza, o sabor da comida e a graça de tantos recantos que se descobrem em Lisboa! Especialmente quando se pega o bondinho, ali mesmo próximo à Torre de Belém, e segue-se arriba até o bairro Alfama, em cujas ruelas um dia descobri um restaurante que ainda voltarei a visitar! E depois descer, descer, e apear-se nas proximidades de Rocio, a caminhar e a regalar-se de muitas surpresas observando o povo a passar... Imaginando o que terá inspirado o grande poeta Fernando Pessoa, ao escrever:



                                       Não tenho, não, já dúvida ou alegria;
                                       Mas nem regresso mais a essa dúvida
                                       Nem a essa alegria regressava,
                                       Se possível me fosse. enho o orgulho
                                       De ter chegado aqui, onde ninguém,
                                       Nem nas asas do doído pensamento
                                       Nem nas asas da louca fantasia,
                                       Chegou. E aqui me quedo. Consolado,
                                       Nesta perene desconsolação.

Deixo ao leitor o desejo de desvendar mais e mais da beleza de Lisboa - uma cidade que aprendi a amar como extensão dessa terra brasílica latino-americana. 

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Créditos imagens:    

1. Castelo de São Jorge - Lisboa - PT -  www.tripadivisor.com.br
2. Vista do Castelo e bondinho - Lisboa PT - www.pro2000.pt
3. Fundação Calouste Gulbenkianwww.jornalacores9.net 
4. "Bolhas de Sabão" - Edouard Manet - reprodução - pt.aliexpress.com  
5. Coleção chinesa (verde) - Foto casual - Arquivo do blog Espaço Poese.  
6. Serra da Capivara - Goiás-BR - Desenhos primitivos - www.cmfcps.artblog.com.br 
7. Obra do Mestre Vitalino - Pernambuco - BR - www.girafamania.com.br
8. Jardim Fundação Calouste Gulbenkian - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese.
9. Praça da Figueira - Lisboa-PT - www.flicker.com
10. Torre de Belém - Lisboa-PT - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese.
11. Aboboda Mosteiro dos Jerônimos Arquivo blog Espaço Poese. 
12. Expô 2008 - Lisboa - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese
13. Ponte 25 de  Abril - Lisboa-PT - www.pt.wikpedia.org   
14. Bairro Alfama - Lisboa-PT - www.blogrumbo.com
                  
*** Agradecimentos aos fotógrafos das imagens aqui creditadas, dado que nas fontes indicadas infelizmente não estão registrados os seus respectivos nomes.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com




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