Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

OS OUTROS - COMO ENTENDÊ-LOS?

25 de agosto de 2015

                                                                                                                                                                                                     

Sempre que o fazer político dos governos de um país nos leva a falar e  a lutar pela democracia, é oportuno lembrar a importância não só de cuidarmos do cultivo de uma saudável gestão democrática do país, mas também do processo de nosso próprio agir democrático.  

Cidadania significa buscar aplicar no nosso trabalho e no nosso fazer cotidiano, uma convivência democrática e respeitosa entre nós. Para isto será preciso assumir uma boa dose de civilização nas relações públicas e pessoais. 


Entendemos que não é possível exercitar a democracia sem exercer a tolerância, como defendia o colombiano Maturana. Mas, não se trata de apenas sermos tolerantes com o que o outro pensa. Paulo Freire, renomado educador brasileiro, recomendava que a nossa não seja "uma tolerância que funcione como um favor a ser feito - na tentativa de deixar de lado aquilo que penso com o meu sentimento de superioridade - para acolher o que pensa o outro".    


O que se vê hoje no Brasil, - e que está levando alguns políticos retrógrados a querer assumir decisões perigosamente antidemocráticas - é uma prática não disfarçada de intolerância política: ou o outro pensa igual a mim, e faz o que eu quero, ou devo demovê-lo do lugar que democraticamente foi alcançado. 


É o que acontece com a atual oposição à presidência da república, assumida por uma cidadã eleita democraticamente com o voto da maioria, ainda que mínima. A demonstração democrática das diferenças políticas seriam sempre bem-vindas, não fosse a vontade intolerante de alguns políticos que buscam mecanismos de apagamento da democracia, de um lugar conquistado por meio do voto popular. Mais de uma vez vivenciei, ao longo da minha profissão, a experiência da  intolerância e da mesquinhez por parte de outros. Por motivos insondáveis, alguém utilizou processos injustos da mentira e do engodo, a fim de minar o conceito que eu havia conquistado em determinadas instituições. Nesses casos são usados subornos, fatos mentirosos por questões meramente pessoais, de mau caráter.

João Batista Freire  - um especialista em pedagogia do jogo dentro e fora da escola - nos faz entender que há lados positivos e pessoas elevadas que nos fazem esquecer a mesquinhez dos outros. 

"Certo - diz ele - que tolerar  é uma virtude  mas, quem  sabe,  uma virtude provisória, até  que  o convívio seja resolvido por algo mais despojado e humilde, tal como a compaixão ou o amor. Na tolerância eu aceito o que não é meu; no amor eu me alegro com o que é do outro (2). Bem sabemos que alegrar-se com o que é do outro - especialmente quando esse outro partilha comigo o trabalho ou a vida - é uma virtude que exige o profundo respeito pelo que esse outro é, e sabe conquistar, construindo o seu espaço nesse mundo das diferenças.   



Há um modo brincante de entender essa questão,  sugerido num texto que circulou na internet a tempos atrás - de autoria desconhecida. Poderá servir para iniciar uma boa conversa quando estivermos com os amigos num momento de lazer. Trata-se da busca de resposta a uma simples questão que busca revelar qual seria o comportamento das pessoas de acordo com o seu signo. 

Assim, na brincadeira se percebe como somos diferentes, até mesmo quando se trata de simplesmente mudar uma lâmpada. 



Quantas pessoas de um determinado signo seriam necessárias para trocar uma lâmpada?  

As respostas são muito precisas. Vejamos: Se for um ariano, bastará uma só pessoa. No entanto... Seriam necessárias inúmeras lâmpadas! Se taurino, não precisará ninguém. Taurinos não gostam de mudar coisa alguma!

                                               

                             E se geminiano, é claro que precisaremos pelo menos de duas pessoas. E a tarefa duraria o fim de semana inteiro! Mas, quando o serviço for terminado a lâmpada vai iluminar toda a casa, terá um intenso brilho, e você poderá vê-la da cor que desejar!  

Sendo um canceriano, não se preocupe: bastará uma só pessoa. Ela levará anos!... E ainda precisará ser orientada por um terapeuta para ajudá-la a passar por esse processo.

E um leonino? Um leonino não troca lâmpadas - a não ser que ele fique a segurar a lâmpada e o mundo siga a girar em torno dele! 

Se for chamado um virginiano para trocar uma lâmpada, vamos ver: precisa-se de uma pessoa para girar a lâmpada, outra para anotar quando a lâmpada foi comprada, um outro para verificar quando a lâmpada queimou, outro ainda para averiguar de quem foi a culpa e, quiçá, uma reunião deles para decidirem como remodelar a casa enquanto a lâmpada é trocada. 

Não se sabe quantos librinianos seriam necessários. Tudo vai depender de quando a lâmpada queimou. Talvez bastarão dois deles se for uma lâmpada comum, mas... Onde e como encontrar uma lâmpada? 

Tratando-se de escorpianos... Quem quer saber? Por que "você" está interessado nisso? É um policial, por acaso?   

Pegunte a um sagitariano. Mas espere: ainda é cedo, o sol acaba de nascer, temos a vida inteira pela frente para resolver isso! E você aí preocupado em trocar uma lâmpada estúpida!?  


Veja que não seja necessário um capricorniano. Capricornianos não trocam lâmpadas - a não ser que isto se torne um negócio lucrativo!

Se a questão for posta a um aquariano... Vão aparecer centenas deles, todos competindo, a ver quem será o primeiro a trazer a luz ao mundo! 

Os piscianos? Quantos seriam necessários para trocar uma lâmpada? 




É bom lembrar que assumir atitudes de respeito pelo outro e cidadania não é caretice. É claro que não se pode deixar de lado nossos valores, principalmente aqueles que na vida elegemos assumir em nossa vida privada e pública. 

Superamos a desarmonia nas relações pessoais com atitudes recíprocas de compreensão e de perdão. E na vida profissional, com  a troca de talentos, métodos de trabalho, e de conhecimentos a fim de tornar a convivência mais leve, o fardo da vida menos pesado, o prazer de viver uma condição possível de ser feliz. No acolhimento das recíprocas diferenças todos sairemos enriquecidos.


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Créditos Imagens:

 1. La libertè - Museu do Louvre
 2. Um gesto de amor - Usininos
 Imagens de 3 a 5 são da www.canstockphoto.com.br

- O quê? A luz está apagada!!!?


Diante desse quadro de tão diferentes reações, não fosse uma atitude amorosa de suportação do outro, - como fazem os bons amigos que se riem dos próprios limites e implicâncias - como se poderia conviver em fraterna harmonia?


LISBOA DE ENCANTO E BELEZA

9 de agosto de 2015


Quase sempre acontece, como hoje, encontrar-me diante de uma página em branco, em busca de inspiração para postar neste espaço. Por vezes consulto os assuntos que listei, a fim de pesquisar mais... ou vou em busca das informações do dia, a ver se devo escrever sobre. 

Não sei por que razão ou sem razão alguma, hoje lancei o olhar na minha pequena biblioteca  uma só parede com requadros em madeira, que me ajudam a diferenciar os assuntos  e peguei, casualmente, um dos meus cadernos de viagens com anotações de uma das minhas idas a Lisboa! Decidi, então, passear por aquela cidade tão linda, e tão cheia de prazerosas surpresas. Toda ela é um sem número de convites ao deleite do visitante. É, em síntese, uma cidade muito aconchegante!






Será necessário fazer aqui uma confissão, para que se entenda o quanto amo Lisboa - qualquer que seja o porquê e o para onde estou indo à Europa  e, no decorrer da vida estive lá algumas vezes, e sempre volto ao desejo de retornar... -  a viagem inicia ou é concluída com uma estada em Lisboa. Trata-se de uma relação de afeto com a cidade e o seu povo, como se minhas raízes chegassem até lá (ou de lá viessem) fincadas no meu coração. Vamos às anotações.




Dessa vez resolvi fazer um programa sem citytour e sem guia... Sai de ônibus, digo - de autocar - cuja fila de espera ainda não era tão grande (uma "bicha" pequena, pois!) Desci na Praça Marquês do Pombal. De lá peguei o metrô (ops! a metropolinata?) até a estação São Sebastião, póximo à Av. Berna, onde fica a Fundação Calouste Gulbenkian, para visitar o museu local. Uma contemplação 
prazerosa e rica de surpresas!    





Algumas peças me prenderam  mais a atenção. Se não estou equivocada, travava-se de iconografias extra coleção – "O Inverno", Millet   "Bolha de Sabão", de Edouard Manet e uma outra, parece-me que era "O arco-ires"...  Passeei o olhar - sem pressa - em algumas esculturas:"Flora" (Rodin); "Diana" (Houdon); além das esculturas de Carpeaux.
Mais adiante os auto-relevos chineses em marfim; e os vasos, objetos e tecidos maravilhosos da antiguidade chinesa e egípcia (Séc. XI a XVI), além dos tapetes flamencos do Séc. XVI, da ouriversaria francesa e dos móveis de Luís XV e XVI. Extraordinária a louça de jade das diferentes "famílias chinesas" (verde, rosa, etc.). Curiosas as coleções de pratarias e de moedas.























O contato com civilizações tão antigas promovem em nós, latino-americanos, um impacto cultural intenso. Lembrei-me das peças maravilhosas que eu já havia contemplado em outros museus ou exposições, especialmente da arte primitiva do México, da arte Inca, no Perú e dos povos indígenas do Brasil - os rústicos desenhos da Serra da Capivara, no Piaui, e as maravilhosas cerâmicas da região amazônica.  





Na região Nordeste do Brasil, onde vivo, conhecemos a riqueza da iconografia de barro dos nossos artesãos, entre esses o grande Mestre Vitalino, e os desenhos atuais de J.Borges - que expressam com imenso realismo a vida do povo do campo e da cidade. J.Borges foi convidado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, para ilustrar o seu livro intitulado: "As Palavras Andantes".  Assim, o encantamento da arte chinesa, em diferentes cores, e o impressionismo de Millet e Manet enriqueciam minha sensibilidade às diferentes expressões artísticas que sempre beliscam o que há de melhor em mim, e me estimulam à alegria da contemplação, presenteando-me de uma forma ou de outra com as diferentes dimensões da beleza e da arte. 






À saída do Gulbenkian, ainda consegui passear pelo seu magnífico parque lateral, com inúmeras nuanças de árvores e de águas, ora espelho, ora fontes e brancura. Almocei o 'menu turístico' do restaurante local onde conheci duas simpáticas portuguesas. 





Já havia passado na Praça da Figueira, bela por si mesma e por seu entorno, especialmente pela visão do Castelo de São Jorge que dali se contempla de longe e de baixo. Ao visitar o castelo, a  impressão que se tem é de um espaço grandioso de uma beleza rústica que se impõe, inserindo-se na paisagem e na história do seu povo. Um contraste de tijolo árido e luz, a luz exterior que inunda o nosso espírito de muitas emoções...


Mais tarde estive a contemplar o mar ao lado da Torre de Belém - e a me perguntar se talvez dali havia saído uma das embarcações que  se perderam do "caminho das Índias", chegando às praias das terras de Santa Cruz. Para repousar, fui ao café que serve os famosos pastéis de Belém - esses que aqui no Brasil se busca como uma preciosidade - pois é difícil encontrar um sabor que nos remeta, um pouco que seja, à delicada doçura e ao sabor único do "pastel de Belém lisbonense, lisboês ou "alfacinha", alcunha dos portugueses para os que nascem em Lisboa.


Visitei o Mosteiro dos Jerônimos - que apesar de ser visto a pouca luz nos permite contemplar sua maravilhosa parede de calacário e seus luminosos vitrais. Não consegui identificar alguma semelhança com o que já havia visto em outros países europeus. O teto da grande nave me fazia recordar igrejas visitadas na Toscana (Itália), que me disseram serem inspiradas ao gosto manuelino.  Ali ainda observei a beleza dos túmulos mais modernos da chamda "idade de ouro" portuguesa - Vasco da Gama e Luís de Camões, ambos ligados à história da descoberta do Brasil. 

À noite voltei à Torre de Belém para assistir um concerto de Mariza, com a "Sinfonietta de Lisboa". Para mim, um deslumbramento! Talvez o seu estilo chegue a falar um pouco do toque moçambicano de seu nascimento... O seu desempenho é muito pessoal, trazendo uma preciosa sonoridade ao fado.



No terceiro dia estive a visitar a região do Oceanário, que foi mantido na cidade após a Expô 2008, outra ocasião de uma minha visita a Lisboa. Não esqueço o deslumbramento daquele evento e o aprendizado que me trouxe, na ocasição. 







Depois sai a passear feito um caminhante sem destino, até alcançar a Ponte 25 de Abril de onde se tem uma espetacular vista da cidade. O meu desejo era ficar mais próxima do rio Tejo  pois nas cidades por onde passo, sempre saio em busca de contemplar as águas de seus rios, e saber deles a história das pessoas que contemplam suas passageiras águas, elas também passageiras... e quase sempre turistas. Quem mais, no correr da vida intensa das grandes cidades, lembra-se de parar um pouco a ver o correr das águas, que como a vida não voltam mais a ser o que são naquele momento?


Quanto ainda teria a dizer sobre a beleza, o sabor da comida e a graça de tantos recantos que se descobrem em Lisboa! Especialmente quando se pega o bondinho, ali mesmo próximo à Torre de Belém, e segue-se arriba até o bairro Alfama, em cujas ruelas um dia descobri um restaurante que ainda voltarei a visitar! E depois descer, descer, e apear-se nas proximidades de Rocio, a caminhar e a regalar-se de muitas surpresas observando o povo a passar... Imaginando o que terá inspirado o grande poeta Fernando Pessoa, ao escrever:



                                       Não tenho, não, já dúvida ou alegria;
                                       Mas nem regresso mais a essa dúvida
                                       Nem a essa alegria regressava,
                                       Se possível me fosse. enho o orgulho
                                       De ter chegado aqui, onde ninguém,
                                       Nem nas asas do doído pensamento
                                       Nem nas asas da louca fantasia,
                                       Chegou. E aqui me quedo. Consolado,
                                       Nesta perene desconsolação.

Deixo ao leitor o desejo de desvendar mais e mais da beleza de Lisboa - uma cidade que aprendi a amar como extensão dessa terra brasílica latino-americana. 

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Créditos imagens:    

1. Castelo de São Jorge - Lisboa - PT -  www.tripadivisor.com.br
2. Vista do Castelo e bondinho - Lisboa PT - www.pro2000.pt
3. Fundação Calouste Gulbenkianwww.jornalacores9.net 
4. "Bolhas de Sabão" - Edouard Manet - reprodução - pt.aliexpress.com  
5. Coleção chinesa (verde) - Foto casual - Arquivo do blog Espaço Poese.  
6. Serra da Capivara - Goiás-BR - Desenhos primitivos - www.cmfcps.artblog.com.br 
7. Obra do Mestre Vitalino - Pernambuco - BR - www.girafamania.com.br
8. Jardim Fundação Calouste Gulbenkian - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese.
9. Praça da Figueira - Lisboa-PT - www.flicker.com
10. Torre de Belém - Lisboa-PT - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese.
11. Aboboda Mosteiro dos Jerônimos Arquivo blog Espaço Poese. 
12. Expô 2008 - Lisboa - Foto casual - Arquivo blog Espaço Poese
13. Ponte 25 de  Abril - Lisboa-PT - www.pt.wikpedia.org   
14. Bairro Alfama - Lisboa-PT - www.blogrumbo.com
                  
*** Agradecimentos aos fotógrafos das imagens aqui creditadas, dado que nas fontes indicadas infelizmente não estão registrados os seus respectivos nomes.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com




LITERATURA — LYGIA FAGUNDES TELLES

6 de agosto de 2015

Para apresentar a grande escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, valho-me de um seu depoimento – p.135 do seu livro: Ombvemção e Memória - Ed. Companhia das Letras. O prazer inteiro da sua escrita – e das suas deliciosas “invenções” deixo-o para quando o livro estiver em suas mãos... Vamos ao depoimento.

"Comecei a escrever quando aprendi a escrever – tinha sete, oito anos? E se falo naquele tempo descabelado, selvagem, é porque acho importante o chão da infância. Nesse chão pisei descalça, ouvindo histórias das minhas pajens, as mocinhas perdidas que eram expulsas de casa e que minha mãe recolhia para os pequenos serviços. (...). 

As histórias eram sempre de terror (o medo era necessário) com caveiras de voz fanhosa e mulas sem cabeça (...). Eu só escutava, mas na noite em que também comecei a inventar, descobri que, enquanto ia falando, o medo ia diminuindo – não era eu que tremia, mas os outros, aqueles ouvintes amontoados na nossa escada de pedra, isso foi em Descalvado? (...) Algumas histórias tinham de ser repetidas, as crianças gostam das repetições, as crianças e os velhos. Mas no auge da emoção eu acabava por fundir enredos, trocar os nomes das personagens, mudar o fim da história. Então, algum ouvinte mais atento protestava, mas essa não acabava desse jeito!  

A solução foi começar a escrever as histórias assim que aprendi a escrever – mas onde conseguir papel? As últimas páginas do meu caderno de escola estavam sempre em branco e foi nesses cadernos que comecei com aquela letra bem redonda a embrulhar (ou desembrulhar) os enredos, ô Deus! E agora estou me lembrando, ah, que difícil contar a história do lenhador da floresta com a mulher e a criança, essa história fazia o maior sucesso e por isso resolvi escrevê-la, sim, contar até que era fácil, mas escrever?... (...)
   
Sou escritora e sou mulher – ofício e condição duplamente difíceis de contornar, principalmente quando me lembro como o País (a mentalidade brasileira) interferiu negativamente no meu processo de crescimento como profissional. Eu era reprimida, tímida em meio à imensa carga de convenções cristalizadas na época. Penso que minha libertação foi facilitada durante as extraordinárias alterações pelas quais passou o Brasil desde a minha adolescência até os dias atuais. A arrancada principal coincidiu com a estimulante ebulição notadamente a partir do suicídio do ditador Getúlio Vargas.


Nasci em São Paulo, estudei em São Paulo. Eu estava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (1944?), onde participava de passeatas, era uma jovenzinha de boina e lenço preto amarrado na boca, os estudantes podiam se agrupar, mas não falar, era a passeata do silêncio. E se não gosto do ruído de patas de cavalo nas pedras da rua é porque me lembro daquela tarde, quase noite: fugíamos da cavalaria que apareceu de repente, corríamos desatinados buscando um abrigo, o comércio fechando as portas...



Caiu, então, ao meu lado um colega borbulhando em sangue, tentei levantá-lo e ele morrendo ali nas pedras, não, Castro Alves, meu poeta, esse não era o “borbulhar do gênio”, mas o borbulhar do sangue. Se me libertei mais do que o próprio País é simplesmente porque a libertação individual é mais fácil. Estimulada pelo maior pensador do nosso tempo, Norberto Bobbio, considero a libertação da mulher a mais importante revolução do século.

(...) Em 1982, no meu livro A Disciplina do Amor, escrevi num fragmento que há três espécies em processo de extinção: a árvore, o índio e o escritor. Mas resistimos. Quando andei pela África, um dos homens da Unesco me disse: “Cada vez que morre um velho africano é assim como uma biblioteca que se incendeia”. Será que antes de chegarmos à solução do nosso problema indígena teremos tempo de captar um pouco da sua arte e da sua vida, nas quais o sagrado e a beleza se confundem para alimentar nossa cultura e nosso remorso?


 


 E resistimos, testemunhas e participantes deste tempo e desta sociedade com o que tem de bom. E de ruim. E tem ruim à beça, assunto e inspiração para os escritores é o que não falta. Falei agora numa palavra que saiu de moda e, no entanto, é insubstituível na terminologia da criação, inspiração. Algumas das minhas ficções se inspiraram na simples imagem de algo que vi e retive na memória, um objeto, uma casa, uma pessoa... Outros contos (ou romances) nasceram de uma simples frase que ouvi ou eu mesma disse e lá ficou registrada na minha natureza mais profunda. Um dia, sem razão aparente, essa memória (memória ou tenha isso o nome que tiver) me devolve a frase. Há ainda as ficções que nasceram do nevoeiro (ou da claridade) de um sonho, fluxo de símbolos nas cavernas do inconsciente que de repente escancara as portas, saiam todos! A evasão. Há que selecionar. Interpretar, e eis aí um trabalho que exige lucidez. Paciência. E paixão."


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Créditos imagens:


  • Capas de alguns livros de Lygia F. Teles - divulgação. 
  • Largo de São Francisco - Faculdade de Direito - São Paulo
  • Foto de Castro Alves quando jovem - 

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