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LITERATURA - CLARISSA PINKOLA ESTÉS

24 de julho de 2015

CLARISSA PINKOLA ESTÉS


Psicanalista junguiana e escritora inspirada, enraizada na pisque feminina e em histórias da mulher de diferentes latitudes  ela própria, uma mulher combativa, nascida de família mexicana, imigrantes e contadores de histórias do velho continente. No seu primeiro livro "Mulheres que correm com os lobos", Clarissa analisa histórias antigas, especialmente aquelas que se contavam às crianças e que têm a ver com as mulheres. Nessas histórias, a autora identifica o modelo (arquétipo) da "Mulher Selvagem"  a essência da alma feminina  na sua profundeza. No livro, Clarissa nos apresenta a significância inteira e profunda desse arquétipo, convocando-nos a dar os primeiros passos na conquista da nossa própria afirmação.

Especialmente para os que ainda não a conhecem, reproduzimos, aqui, alguns trechos do primeiro capítulo desse seu livro instigante e encantador, sobre 'A Ressurreição da Mulher Selvagem': (1)



Na história de La Loba, a velha no deserto é uma recolhedora de ossos. Na simbologia arquetípica, os ossos representam a força indestrutível. (...) Nos mitos e nas histórias, eles representam a alma/espírito indestrutível. Sabemos que a alma/espírito pode ser ferida, até mesmo mutilada, mas é quase impossível eliminá-la. 

Pode-se amassar a alma e dobrá-la. Pode-se feri-la e marcá-la com cicatrizes. Pode-se deixar nela os sinais da doença e as queimaduras do medo. Mas ela não morre, pois está protegida por La Loba no mundo subterrâneo. Ela é tanto quem descobre os ossos quanto quem os incuba. (...) Os ossos de lobo nessa história representam o aspecto indestrutível do Self selvagem  a natureza instintiva , a criatura dedicada à liberdade e ao que permanece incólume, que jamais aceitará os rigores e as exigências de uma civilização morta ou excessivamente civilizadora. 

As metáforas dessa história exemplificam o processo completo para devolver a mulher aos seus plenos sentidos selvagens institivos. Dentro de nós vive a velha que recolhe os ossos. Dentro de nós estão ossos espirituais da Mulher Selvagem. Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne como a criatura que um dia fomos. Dentro de nós estão os ossos para que nos modifiquemos, bem como ao nosso mundo. Dentro de nós estão nosso fôlego, nossas verdades e nossos anseios juntos, eles são a canção, o hino da criação que sempre desejamos entoar.



Isso não quer dizer que devamos sair por aí com o cabelo desgrenhado ou com garras enegrecidas no lugar das unhas. É, continuamos humanas, mas dentro da mulher humana está o Self animal instintivo. Não se trata de nenhuma personagem romântica de desenho animado. Ela tem dentes de verdade, um rosnado real, uma generosidade imensa, uma capacidade inigualável para ouvir, garras afiadas, seios generosos e peludos. 

(...) Esse Self/mulher-lobo deve ter liberdade para se movimentar, para ter raiva e para criar. Esse Self é duradouro, possui boa capacidade de recuperação e grande intuição. É um Self formado nas questões espirituais do nascimento e da morte. Hoje La Loba dentro de você está recolhendo ossos. O que ela está recriando? Ela é o Self da alma, a construtora do lar da alma. "Ella lo hace a mano", ela faz e refaz a alma à mão. 

O que ela está fazendo para você? 

(...) La Loba é a guardiã da alma. Sem ela perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constrói mais com suas própias mãos. (...) Algumas pessoas não apreciarão sua atitude de dar uma cheirada em tudo para ver o que é. E, pelo amor de Deus, nada de se deitar de costas no chão com as patas para cima. Menina feia. Lobo feio. Cachorro feio. Certo? Errado. Não ligue. Divirta-se.

As pessoas fazem meditação para conseguir um equilíbrio psíquico. É por isso que se faz psicoterapia e análise. É para isso que os seres humanos analisam seus sonhos e criam arte. É por isso que muitos consultam o tarô, o I Ching, dançam, batucam, fazem teatro, arrancam poemas das entranhas e criam a oração iluminada. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. Trata-se da tarefa de reunir todos os ossos. Em seguida, devemos nos sentar diante do fogo para decidir que canção usaremos para cantar sobre os ossos, que hino da criação. E as verdades que dissermos formarão a canção.

Existem  algumas boas perguntas a  fazer enquanto decidimos qual será a canção, que é o nosso verdadeiro canto. 

O que aconteceu com a  voz da minha alma? 

Quais são os ossos enterrados na minha vida? Em que condições está o meu relacinamento com o Self instintivo? Quando foi a última vez que corri livremente? Como posso fazer com que a vida volte a ter vida? Para onde foi La Loba?

Na história, a velha canta sobre os ossos e, enquanto ela canta, a carne começa a recobrí-los. Nós também 'nos tornamos' à medida que derramamos a alma sobre os ossos que encontramos. Enquanto vertemos nossos anseios e nossas mágoas sobre os ossos do que costumávamos ser quando jovens, do que tínhamos conhecimento há séculos, e sobre a aceleração que pressentimos no futuro, ficamos de quatro, inabaláveis. À medida que derramamos a alma, somos revitalizadas. Não somos mais uma solução fraca, algo frágil que se dissolve. Não. Estamos no estágio da transformação em que estamos 'nos tornando'. 





Como La Loba, nós quase sempre começamos num deserto. Temos uma sensação de perda de direitos, de alienação, de não estarmos vinculadas nem mesmo a uma moita de cactos. Os antigos chamavam o deserto de lugar da revelação divina. Para as mulheres, porém, ele oferece muito mais do que isso. O deserto é um lugar em que a vida se apresenta muito condensada. As raízes das plantas se agarram à última gota d´água, e as flores armazenam umidade abrindo apenas de manhã cedo e ao final da tarde. A vida no deserto é pequena, mas brilhante, e quase tudo que acontece tem lugar no subsolo. 

Essa descrição é semelhante à vida de muitas mulheres. O deserto não é exuberante como a floresta ou a selva. Ele é  muito  intenso  e misterioso nas suas formas de vida. Muitas de nós vivem vidas desérticas: ínfimas na superfície e imensas por baixo. La Loba nos revela as belas consequências que podem advir desse tipo de distribuição psíquica. 

A psique de uma mulher pode ter chegado ao deserto em virtude da ressonância de crueldades passadas ou por não lhe ter sido permitida uma vida mais ampla a céu aberto. Por isso, muitas vezes uma mulher tem a sensação de estar vivendo num local vazio, onde talvez haja apenas um cacto com uma flor de um vermelho vivo, e em todas as direções 500 quilômetros de nada. No entanto, para aquela que se dispuser a andar 501 quilômetros, existe mais alguma coisa. Uma casa pequena e admirável. Uma velha. Ela está à sua espera.

Algumas mulheres não querem estar no deserto psíquico. Elas detestam a fragilidade, a escassez. Não param de tentar fazer com que um calhambeque enferrujado funcione para que possam descer aos solavancos pela estrada, na direção a uma refulgente cidade que fantasiam na pisque. Decepcionam-se, porém, pois a exuberância e a vida selvagem não se encontram ali. Elas estão no mundo do espírito, no mundo entre os mundos, Río Abajo Río, no rio por baixo do rio. 


Não seja tola. Volte para debaixo daquela única flor vermelha e siga em frente, percorrendo aquele último e árduo quilômetro. Aproxime-se e bata à porta castigada pelas intempéries. Suba até a caverna. Atravesse engatinhando a janela de um sonho. Peneire o deserto e veja o que encontra. Essa é a única tarefa que temos a cumprir

Está querendo ajuda psicanalítica? Vá recolher ossos.

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(1)  Estés, Clarissa Pinkola

In: Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1995 - Tradução de Waldéa Barcellos. p. 52 a 56.



       


Crédito Imagens


1.Rosto de mulher amazônica - My.Mother.Garden.Rossi - www.rabbitdowload.ga
2.Mulher de cocá com lobo - www.widmothers-pan-kajtrivedi1
3.Mulher-de-cabeça-p-baixo - iconografia de Roberto Ploeg -                              www.robertoploeg.com.br
4. Mulher idosa com chapéu e brincos - www.e-stanged.com
5.Mulheres retirantes - iconografia de Abelardo da Hora, foto em exposição        no Recife-PE- Arquivo blog Espaço Poese - www.vaniserezende.com.br
6.Casa com janela iluminada - www.canstockphoto.com.br
7.Flores no deserto - www.canstockphoto.com.br
8.Fotografia de Clarissa Pinkola Estés - www.riverbankofruth.com



Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com









LITERATURA — CLARISSA PINKOLA ESTÉS

18 de julho de 2015

CLARISSA PINKOLA ESTÉS


Psicanalista junguiana e escritora inspirada, enraizada na pisque feminina e em histórias da mulher de diferentes latitudes  ela própria uma mulher combativa, nascida de família mexicana, imigrantes e contadores de histórias do velho continente. No seu primeiro livro "Mulheres que correm com os lobos", Clarissa analisa histórias antigas, especialmente aquelas que se contavam às crianças e que têm a ver com as mulheres. Nessas histórias, a autora identifica o modelo (arquétipo) da "Mulher Selvagem"  a essência da alma feminina na sua profundeza. No livro, Clarissa nos apresenta a significância inteira e profunda desse arquétipo, convocando-nos a dar os primeiros passos na conquista da nossa própria afirmação.

Especialmente para os que ainda não a conhecem, reproduzimos, aqui, alguns trechos do primeiro capítulo desse livro instigante e encantador, sobre 'A Ressurreição da Mulher Selvagem': (1)



Na história de La Loba, a velha no deserto é uma recolhedora de ossos. Na simbologia arquetípica, os ossos representam a força indestrutível. (...) Nos mitos e nas histórias, eles representam a alma/espírito indestrutível. Sabemos que a alma/espírito pode ser ferida, até mesmo mutilada, mas é quase impossível eliminá-la. 

Pode-se amassar a alma e dobrá-la. Pode-se feri-la e marcá-la com cicatrizes. Pode-se deixar nela os sinais da doença e as queimaduras do medo. Mas ela não morre, pois está protegida por La Loba no mundo subterrâneo. Ela é tanto quem descobre os ossos quanto quem os incuba. (...) Os ossos de lobo nessa história representam o aspecto indestrutível do Self selvagem  a natureza instintiva , a criatura dedicada à liberdade e ao que permanece incólume, que jamais aceitará os rigores e as exigências de uma civilização morta ou excessivamente civilizadora. 

As metáforas dessa história exemplificam o processo completo para devolver a mulher aos seus plenos sentidos selvagens instintivos. Dentro de nós vive a velha que recolhe os ossos. Dentro de nós estão ossos espirituais da Mulher Selvagem. Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne como a criatura que um dia fomos. Dentro de nós estão os ossos para que nos modifiquemos, bem como ao nosso mundo. Dentro de nós estão nosso fôlego, nossas verdades e nossos anseios juntos, eles são a canção, o hino da criação que sempre desejamos entoar.



Isso não quer dizer que devamos sair por aí com o cabelo desgrenhado ou com garras enegrecidas no lugar das unhas. É, continuamos humanas, mas dentro da mulher humana está o Self animal instnitivo. Não se trata de nenhuma personagem romântica de desenho animado. Ela tem dentes de verdade, um rosnado real, uma generosidade imensa, uma capacidade inigualável para ouvir, garras afiadas, seios generosos e peludos. 

(...) Esse Self/mulher-lobo deve ter liberdade para se movimentar, para ter raiva e para criar. Esse Self é duradouro, possui boa capacidade de recuperação e grande intuição. É um Self formado nas questões espirituais do nascimento e da morte. Hoje La Loba dentro de você está recolhendo ossos. O que ela está recriando? Ela é o Self da alma, a construtora do lar da alma. Ella lo hace a mano, ela faz e refaz a alma à mão. 

O que ela está fazendo para você? 

(...) La Loba é a guardiã da alma. Sem ela perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constrói mais com suas próprias mãos. (...) Algumas pessoas não apreciarão sua atitude de dar uma cheirada em tudo para ver o que é. E, pelo amor de Deus, nada de se deitar de costas no chão com as patas para cima. Menina feia. Lobo feio. Cachorro feio. Certo? Errado. Não ligue. Divirta-se.

As pessoas fazem meditação para conseguir um equilíbrio psíquico. É por isso que se faz psicoterapia e análise. É para isso que os seres humanos analisam seus sonhos e criam arte. É por isso que muitos consultam o tarô, o I Ching, dançam, batucam, fazem teatro, arrancam poemas das entranhas e criam a oração iluminada. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. Trata-se da tarefa de reunir todos os ossos. Em seguida, devemos nos sentar diante do fogo para decidir que canção usaremos para cantar sobre os ossos, que hino da criação. E as verdades que dissermos formarão a canção.

Existem  algumas boas perguntas a  fazer enquanto decidimos qual será a canção, qual é o nosso verdadeiro canto. O que aconteceu com a  voz da minha alma? Quais são os ossos enterrados na minha vida? Em que condições está o meu relacionamento com o Self instintivo? Quando foi a última vez que corri livremente? Como posso fazer com que a vida volte a ter vida? Para onde foi La Loba?


Na história, a velha canta sobre os ossos e, enquanto ela canta, a carne começa a recobri-los. Nós também 'nos tornamos' à medida que derramamos a alma sobre os ossos que encontramos. Enquanto vertemos nossos anseios e nossas mágoas sobre os ossos do que costumávamos ser quando jovens, do que tínhamos conhecimento há séculos, e sobre a aceleração que pressentimos no futuro, ficamos de quatro, inabaláveis. À medida que derramamos a alma, somos revitalizadas. Não somos mais uma solução fraca, algo frágil que se dissolve. Não. Estamos no estágio da transformação em que estamos 'nos tornando'. 





Como La Loba, nós quase sempre começamos num deserto. Temos uma sensação de perda de direitos, de alienação, de não estarmos vinculadas nem mesmo a uma moita de cactos. Os antigos chamavam o deserto de lugar da revelação divina. Para as mulheres, porém, ele oferece muito mais do que isso. O deserto é um lugar em que a vida se apresenta muito condensada. As raízes das plantas se agarram à última gota d´água, e as flores armazenam umidade abrindo apenas de manhã cedo e ao final da tarde. A vida no deserto é pequena, mas brilhante, e quase tudo que acontece tem lugar no subsolo. 
Essa descrição é semelhante à vida de muitas mulheres. O deserto não é exuberante como a floresta ou a selva. Ele é  muito  intenso  e misterioso nas suas formas de vida. Muitas de nós vivem vidas desérticas: ínfimas na superfície e imensas por baixo. La Loba nos revela as belas consequências que podem advir desse tipo de distribuição psíquica. 

A psique de uma mulher pode ter chegado ao deserto em virtude da ressonância de crueldades passadas ou por não lhe ter sido permitida uma vida mais ampla a céu aberto. Por isso, muitas vezes uma mulher tem a sensação de estar vivendo num local vazio, onde talvez haja apenas um cacto com uma flor de um vermelho vivo, e em todas as direções 500 quilômetros de nada. No entanto, para aquela que se dispuser a andar 501 quilômetros, existe mais alguma coisa. Uma casa pequena e admirável. Uma velha. Ela está à sua espera.

Algumas mulheres não querem estar no deserto psíquico. Elas detestam a fragilidade, a escassez. Não param de tentar fazer com que um calhambeque enferrujado funcione para que possam descer aos solavancos pela estrada, na direção a uma refulgente cidade que fantasiam na pisque. Decepcionam-se, porém, pois a exuberância e a vida selvagem não se encontram ali. Elas estão no mundo do espírito, no mundo entre os mundos, Río Abajo Río, no rio por baixo do rio. 


Não seja tola. Volte para debaixo daquela única flor vermelha e siga em frente, percorrendo aquele último e árduo quilômetro. Aproxime-se e bata à porta castigada pelas intempéries. Suba até a caverna. Atravesse engatinhando a janela de um sonho. Peneire o deserto e veja o que encontra. Essa é a única tarefa que temos a cumprir

Está querendo ajuda psicanalítica? Vá recolher ossos.

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(1)  Estés, Clarissa Pinkola


In: Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1995 - Tradução de Waldéa Barcellos. p. 52 a 56.



    

Crédito Imagens:


1.Rosto de mulher amazônica - My.Mother.Garden.Rossi - www.rabbitdowload.ga
2.Mulher de cocá com lobo - www.widmothers-pan-kajtrivedi1
3.Mulher-de-cabeça-p-baixo - iconografia de Roberto Ploeg -  www.robertoploeg.com.br
4. Mulher idosa com chapéu e brincos - www.e-stanged.com
5.Mulheres retirantes - iconografia de Abelardo da Hora, foto em exposição no Recife-PE- Arquivo do Espaço Poese - 
6.Casa com janela iluminada - www.canstockphoto.com.br
7.Flores no deserto - www.canstockphoto.com.br
8.Fotografia de Clarissa Pinkola Estés - www.riverbankofruth.com



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LITERATURA — JOSÉ SARAMAGO

14 de julho de 2015


 JOSÉ SARAMAGO

O escritor José Saramago (*) — um dos nomes que atingiram o vértice da literatura portuguesa na modernidade — não carece de apresentação, nem mesmo no Brasil, um país de leitores de rasas estatísticas.

O que me impressiona é o presente que ele oferece ao leitor, de degustar a originalidade e a liberdade da forma como ele escrevia, e o encanto poético do seu versejar ao longo do texto, fazendo-nos saborear a exuberante riqueza do idioma português. Dos seus inúmeros livros — cujos títulos em grande parte foram lançados no Brasil pela Editora Companhia das Letras — os que mais me impressionaram foram: "Ensaio sobre a Cegueira"; "Ensaio sobre a Lucidez"; "História do Cerco de Lisboa"; "O Homem Duplicado"; "A Bagagem do Viajante" "Cadernos de Lanzarotte"; "Todos os Nomes" e "As Intemitências da Morte"... Deste último, já lí e relí inúmeras vezes a parte final do romance, descobindo sempre mais a profunda densidade e beleza de como o autor descreve uma relação de amor.

Mas, Saramago foi também poeta e cronista. Aliás, antes de descobrir-se escritor, ele foi serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista. Aquele mesmo que, em 1998, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, tornando-se assim, ao lado de Fernando Pessoa - o poeta português universalmente conhecido - um grande representante da literatura lusitana.

Suas crônicas são daquelas que não se para de ler até o fim, levados na proeza encantadora do conto que frui, e atingidos por sua verve incisiva e direta, aliada a uma visão de mundo comprometido com a realidade cruel do viver humano. Deixo a vocês a leitura de uma dessas crônicas, aparentada com o verso eternizado do nosso grande Drumond.(*)

E AGORA JOSÉ?

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida.

Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: «E agora?» Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atônitas. «E agora, José?» Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tônico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém, um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente armar. Nesse momento veloz toca-se o fundo do poço.


Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: «E agora, José?»


Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente — «E agora, José?»

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota — matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta — e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. E agora José?"

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(*)  José Saramago, escritor português contemporâneo (1922/2010), recebeu o Pêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Camões da Literatura Portuguesa. 






 



(*)  A crônica "E Agora José?  foi publicada em: www.contioutra.com - 25.06.2015

Créditos imagens:

1. José Saramago - imagem do rosto em cortiça - www.mediasociais.com/2014/09/10 
2. Imagem em bronze de Carlos Drumond de Andrade - RJ - www.noticias.universia.com.br
3. Pintura rosto de Saramago - www.kinareads.com/2011/06/19
4Zona rural (Nordeste do Brasil) - Fotografia - JC-Imagens (Galeria).
5. Menino pescador - Roberto Ploeg - o.s.t. - 80x120cm - 2006
6. Menino chupando cana - Roberto Ploeg - o.s.eucatex - 60x80cm
7. Capas de Livros - fotos divulgação.


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CARTA DO CÉU

11 de julho de 2015

A prefeitura do Rio de Janeiro publicou em seu Diário Oficial que transexuais da rede pública de saúde poderão, a partir de agora, escolher o gênero com o qual se identificam no ambiente de trabalho. O pastor pentecostal Silas Lima Malafaia – conhecido conferencista (inclusive por ter sido indicado pela revista Forbes como um dos pastores mais ricos do Brasil) – publicou um vídeo a respeito da medida, e esbravejou ao prefeito Eduardo Paes (PMDB): "Acabe com essa pouca vergonha!" (1) 

Não é a primeira vez que o pastor expressa publicamente, e de forma grosseira, o seu mal-estar com os que pensam e agem diferentemente, especialmente sobre questões que atingem direitos humanos reconhecidos na atualidade.  




Gregório Duvivier  ator e colunista da Folha de São Paulo – recentemente escreveu uma carta ao citado pastor; um texto que merece ser refletido e divulgado. (2)





Querido pastor Malafaia,


Aqui quem fala é Jesus. Não costumo falar assim, diretamente – mas é que você não tem entendido minhas indiretas. Imagino que já tenha ouvido falar em mim - já que se intitula cristão. Durante um tempo achei que falasse de outro Jesus – talvez do DJ que namorava a Madonna - ou de outro Cristo – aquele que embrulha prédios pra presente – já que nunca recebi um centavo do dinheiro que você coleta em meu nome (nem quero receber, muito obrigado!). Às vezes parece que você não me conhece.

Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada. Se você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: ”spoiler”), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Analisando a sua conta bancária, percebo que o senhor talvez não esteja familiarizado com um camelo ou com o buraco de uma agulha. Vou esclarecer a metáfora. Um camelo é 3.000 vezes maior do que o buraco de uma agulha. Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin - esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixes - só depois é que ensino a pescar.




Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel. Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que eles também iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?

Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado - os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado. Peço, por favor, que preste mais atenção à sua volta. Uma dica: olha para baixo. Agora mesmo devo estar apanhando - de gente que segue o senhor. 

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(1) www.ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2015/07/06
(2) www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/06/carta

Créditos Imagens
Foto do colunista Gregório Duvalier - www.unione.art.br
Jesus - pintura de Rembrand - reprodução de vejabril.com.br

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