Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CANTIGAS E CANTORIAS

28 de maio de 2015

O meu prazer de versejar surgiu ainda na infância, quando me embebia da musicalidade das cantigas de minha mãe durante o seu dia a dia. Ela cantava sempre - cantigas de amor e de saudade, de alegria e devoção - enquanto enfrentava o cuidado com os sete filhos e os limites que a vida exigia das mulheres de então.  




Os que nascem em Custódia cultivam a inapagável memória dos dias lá vividos, marcados pela saudade da sua brisa e do seu calor, e acalentados pela lembrança do seu povo atencioso e criativo.


Meus versos têm suas raízes no chão teimoso da aridez da minha terra, e brota da escuta profunda da minha infância, alimentada pelos poetas cantadores que por ali passavam - especialistas em glosar versos e estrofes, com motes sertanejos de inigualável criatividade - na disputa e no gracejo da cantoria de improviso. 

Carrego a longínqua lembrança de cartas em versos, trocadas com o meu tio e poeta Hermes Pires de Brito, que me contava histórias memoráveis dos cantadores do Moxotó e do Pajeu. 


É assim que sigo a escrever livres cantares de paisagens e sentimentos - feito um lugar escurecido de onde se contempla o mais sentido e nunca dito, o tanto imaginado e ainda não vivido, e a beleza contemplada que se fincou na alma. Lembranças que têm raízes espraiadas  m pelo mundo afora. 

Resta sempre a tentativa de expressar a profunda saudade amorosa, dolorosa e prazerosa que se assenta - sem deixar mágoas - no chão poético de cada um de nós.

São cantigas de prazer e de alegria, de amor e bem-querer, de fé profunda num Deus que é Amor, mesmo quando a dor chega sem aviso, a doença aparece sem ser esperada, a compreensão do outro não é a que se precisa e - coisa estranha - a brandura da vida, a saúde, a alegria, parecem-nos quase incomodar, porque não é assim para todos.

Aqui, o meu convite à visitação da página POESIA ITINERANTE deste espaço,
que pode acordar os sentimentos, mas não vai doer... porque chegam feito poesia.


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Créditos das imagens:


Vista da Praça Padre Leão, de Custódia - fotografia de Paulo Peterson - 

www.custodiaterraquerida.com.br
Repentistas - www.blogs.diariodonordeste.com.br
Paisagem na Itália - arquivo do blog.

  
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RITRATTO DI DONNA

22 de maio de 2015

Un ritratto di una donna india e fiera mi ha fatto visitare i miei piensieri sulla vita delle donne di tutti i colori, credi e razze, negli hemisferi nord e sud. Sono andata ai miei archivi di ritratti di donne  -  delle espressioni di arte, poesia e bellezza - nel desiderio di fargli un omaggio.




Donna. Semplicemente donna: quella che ha bisogno di avere attenzione con i sentimenti e le parole, con il modo di vestirsi e di pensare, con la forma di guardare e di essere guardata. Attenzione alle cose che dicono quelli con chi vive: il marito, i genitori, i figli, la suocera, il genero e la nuora, gli amici ed amiche. 


Attenzione nell´esporsi, nel dire quel che pensa, nell´arrivare più a fondo nel pensare e - cosa certamente triste - attenzione a non riflettere sulla sua propria vita.  





Questa è l´attenzione  impaurita dei nostri tempi. Paura di conoscere che forse non si stia così tanto soddisfati con la vita che si stà a condurre, con i momenti piacevoli che neppure ci sono più, con il lavoro sempre uguale, chissà superficiale, con le relazioni reticenti, con la invidia, la sicurezza traballante, i sentimenti sospesi.


Paura di questo tempo difficile per gli affari e le istituzioni, impresari e gestori, collaboratori del governo e delle organizzazioni private. Un tempo che si pensa essere più addato ad ascoltare e non ad espressarsi, più conveniente di mostrarsi indiferente che di proporre e lottare.

Un tempo preso a caso, eppure tanto ambito! Non si ha  più tempo da leggere ne da visitare. Un tempo senza conversazioni profonde – lasciato sperdersi nei programmi novellistici della TV, nel Facebook incessante, nel non so cosa fare! Un tempo forse più difficile da viversi rispetto a prima.



La donna quando riflette più profondamente, quando si lascia immergersi, riesce a percepire quello che c´è sotto, nel suo più profondo e, così, il suo sepolto cosciente si presenti snudato e chiaro, così com´è.

Perchè quano la donna si permette di entrare in contatto con il suo proffondo - con quello che è proprio di sè - è capace di rinoscere chi sia lei stessa, e di dare nome al sentimento che la invade, al compromesso  che un giorno ha assunto con sè. Così riuscirà ad assumere il timone della sua propria storia, senza più confabulare contro se stessa, senza più distorcere la sua singolarità. 


Nelle mie divagazioni di oggi ho scritto una canzone/omaggio a tutte le donne luminose, divertente, amate e gracile, che sanno servire e combattere, fedele ai suoi ideali più profondi.
                                                    





Donna... Belleza.
Mistero denso. Intenso.
Delicata forza. Altezza.
Sapore di vita e grazia. 
Incenso.        
Complicità ed interezza.
Segreto inchiudato. 
Grave. Inesplicabile. Immenso.
Desiderio, amore, ternura
Ineguagliabili.
Donna intensa, immensa!
Donna... Umana creattura!









Crediti delle immagine:
India dell´Amazonas - Divulgação Avaaz - 2015
Tre ritratti di donna  - Quadri di Roberto Ploeg, pittore olandese stabilito a Recife, Brasile.                                                              (www. robertoploeg.com.br).

Lavoro sull´immagine di donna - divulgazione senza identificazione di autore.

Donna di  Mozambico - Fulgurante quadro del pittore portoghese José António do Vale Soares, nato em Lourenço Marques (atual Maputo / Moçambique), em 25/07/1927. Faleceu em Porto, em 20/05/1996)
Nota: Le immagine pubblicate in questo blog appartengono ai suo rispettivi  autori. Si qualcuno possiede i diritti di una di queste immagine e desidera che non sia pubblicata  in questo spazio, per favore  facia contato con : vrblog@hotmail.com

RETRATO DE MULHER

21 de maio de 2015

Um retrato de mulher negra e altiva me fez visitar meus pensares sobre a vida das mulheres de todas as cores credos e raças, nos hemisférios norte e sul. Fui, então, aos meus arquivos de retratos de mulheres - expressões de arte, poesia e beleza - na vontade de fazer-lhe uma homenagem.  

Mulher. Simplesmente mulher: aquela que precisa ter cuidado com os sentimentos e a palavra, com o jeito de se vestir e de pensar, com o modo de olhar e de ser olhada. Cuidado com o que dizem os que com ela vivem: o companheiro ou a companheira, os pais, os filhos, a sogra, genros e noras, amigos e amigas. Cuidado de se expor, de dizer o que pensa, de ir mais fundo no pensar e - coisa mais triste - cuidado para não refletir sobre a sua própria vida. 



Este é o cuidado medroso dos nossos dias. Medo de conhecer que talvez não se esteja tão satisfeita com a vida que está levando, com o lazer que nem mais existe, com o trabalho sempre igual, superficial, de relações reticentes ou carregadas de inveja, a segurança abalada, os sentimentos em pane! 

Medo desse tempo difícil para negócios e instituições, gerentes e patrões, colaboradores do governo ou de organizações privadas. Um tempo que se pensa mais aconselhável para escutar do que para se expressar, mais conveniente de se mostrar indiferente, do que de propor e de lutar.  







Um tempo levado ao léu, e tão  cobiçado! Sem mais tempo de ler nem de fazer visitas. Um tempo sem conversas profundas - desperdiçado no ralo das novelas vibrantes, do Facebook incessante, do sei lá o que fazer! Um tempo, quiçá, também mais duro de se viver do que antes!












A mulher sabe que ao pensar na sua profundeza, ao se deixar mergulhar em si, talvez perceba o que submerge por dentro de suas entranhas, e o seu soterrado consciente possa se mostrar desnudo e claro, como é. 






Porque a mulher quando se deixa entrar em contato com o seu mundo - com a parte entranhada de si - é capaz de reconhecer quem ela é, de dar nome ao sentimento verdadeiro que a invade, ao compromisso de vida que um dia assumiu consigo mesma. Então, consegue assumir o leme da sua própria história, sem mais confabular contra si mesmo, nem desvirtuar a sua singular individualidade.



Nos meus devaneios de hoje surgiu uma cantiga/homenagem a todas a mulheres brilhantes, brincantes, amadas e amantes, galantes, frágeis, servidoras e lutadoras, fiéis aos seus ideais mais profundos:

                                                           
                                                       



Mulher... Beleza.
Mistério denso. Intenso.
Delicada força. Alteza.
Sabor de vida e graça. Incenso.
Cumplicidade e inteireza.
Segredo recluso. Grave. 
Inexplicável. Imenso.
Desejo, amor, ternura
Inigualável. 
Mulher intensa, imensa, 
Mulher... Humana criatura!





Crédito das imagens

1. Mulher de Moçambique - Fulgurante quadro do pintor português José António do Vale Soares, nascido em Lourenço Marques (atual Maputo / Moçambique), em 25/07/1927. Faleceu em Porto, em 20/05/1996).
2. Três retratos de mulher  - quadros de Roberto Ploeg, pintor holandês radicado no Recife (Roberto Ploeg - Galeria).
3. Margarida Alves - trabalhadora rural assassinada na porta de sua casa, por seu ativismo sindical.
4. Cabeça de Mulher - escultura de Abelardo da Hora, fotografada durante exposição no Recife.


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A POBREZA NO BRASIL

20 de maio de 2015


Brasil lidera, na América Latina, o índice de redução da pobreza extrema, segundo o Banco Mundial (*)

Indiscutivelmente, a pobreza um problema global. Quase um bilhão de pessoas (15% da população mundial) contam com menos de 1,25 dólar por dia para sobreviver. Se lançarmos um olhar especial na América Latina, teremos uma boa notícia a considerar: o último relatório do Banco Mundial sobre esta questão - que é intitulado 


"Prosperidade compartilhada e erradicação da pobreza na América Latina e Caribe" afirma que "o Brasil conseguiu praticamente eliminar a pobreza extrema e fez isso mais rápido do que os países vizinhos". 

Dados do relatório demonstram que  o número de brasileiros vivendo com menos de 2,5 dólares (cerca de 7,5 reais por dia)  caiu de 10% para 4% entre 2001 e 2013. E afirma que o Brasil é um dos exemplos mais brilhantes de redução de pobreza na última década, sublinhando que, entre 1990 e 2009,  a renda de 60% dos brasileiros cresceu. Embora este dado também signifique que 40% dos brasileiros - no mesmo período - passou o mesmo decênio com a sua renda estagnada. 

Um outro dado comparativo do relatório é que, até 1999, os índices de pobreza extrema no Brasil e na América Latina eram semelhantes e chegavam a 26%. A partir de 2012 foi observada uma maior redução dos índices de pobreza em território brasileiro: enquanto a América Latina apresentava uma taxa  de 12%, o índice de pobreza no Brasil havia caído para 9,6%.  
O documentos do Banco Mundial também registra as causas dos bons resultados do Brasil, mesmo considerando o momento em que o país batalha para não entrar em recessão. A primeira causa é o crescimento econômico a partir de 2001, iniciado durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso.


Em segundo lugar são elogiadas as atuais políticas públicas do país, que mantêm o seu objetivo de erradicação da pobreza. Os exemplos citados são o Programa Bolsa Família (que oferece uma modesta renda mensal às famílias carentes, em troca da escolarização dos seus filhos); e o Brasil sem Miséria (pensado para os mais empobrecidos). Com destaque para a evolução da política do salário mínimo e para o mercado de trabalho nacional: as taxas de emprego formal aumentaram 60%. 
Comentando esses dados o relatório afirma: “O crescimento (da economia do país), modesto mas contínuo, tornou-se mais inclusivo graças a políticas fortemente enfocadas na redução da pobreza e a favor de um mercado de trabalho forte”, e adverte que o desafio ainda não acabou: “Embora o país tenha eliminado quase por completo a pobreza extrema na última década, 18 milhões de brasileiros continuam vivendo na pobreza, um terço da população não conseguiu acessar a classe média e se mantém economicamente vulnerável”.
O documento também chama a atenção para a desigualdade social no Brasil, que está acima da média da América Latina.  E alerta: “O 0,1% dos mais ricos da população brasileira fica com 13% da renda, mais do que os 11% que chegam aos 40% mais pobres”. O fato do Brasil continuar mantendo essa enorme disparidade tem suas causas citadas no relatório: a) a má qualidade dos serviços públicos, (chamada de “estagnação da produtividade”); b) baixo nível de investimento; c) a pouca especialização dos trabalhadores; d) infraestrutura precária; e) um ambiente de negócios que não favorece o setor privado e a concorrência. 

Entre as recomendações do Banco Mundial para que o Brasil continue a erradicar a pobreza(apesar da atual queda do crescimento econômico) estão:  a) não aumentar os impostos (a arrecadação do Brasil é considerada uma das mais altas do mundo); b) realizar ajustes fiscais para promover um gasto público eficaz; c) incentivar a competitividade; d) melhorar a infraestrutura e os serviços públicos; por fim: e) não abandonar os programas sociais.
Especialistas comentam que uma reforma tributária no Brasil poderia favorecer os mais pobres, já que muitos impostos são cobrados na compra de produtos necessários à camada da população de menor renda.  
Outro fato importante, ao lado do relatório do Banco Mundial, foi o anúncio de um documento da CNBB intitulado: "A Desigualdade Social no Brasil", que certamente irá corroborar o aprofundamento da reflexão dos brasileiros sobre o assunto.  

(*) Os dados citados na presente informação foram colhidos no site do jornal "El País", em língua portuguesa, no dia 22 de abril de 2015.

Crédito Imagens:

1. Incra reassenta famílias em Santarém (PA) - Imagem de um texto de Luís Gustavo/Ascon - INCRA/Oeste Pará in: www.brasil.gov.br
2. Crianças do Bolsa Família em Sete Lagoas (MG) - Maicol, Alex e Yasmin, filhos de Marcia Adriane de Paula. Foto de Bruno Spada/MDS.
3. Pobreza em Alto Alegre (MA) - 60% das família vivem na pobreza. Foto de Alex Almeida in: www.brasil.espais/Brasil/2015/04/23.
4. Crianças do Bolsa Família em Varjão - DF - Fernando de Souza e Daniel Lopes - Foto de Bruno Spada/MDS.

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O SORRISO DA GRANDE MÃE

14 de maio de 2015



Conservo em meus arquivos um registro poético e deslumbrante de um texto de uma das minhas filhas - Carla Rezende de Araújo - que costuma cultivar a escuta e a escrita amorosa das coisas de dentro. Ela faz transbordar do coração o dom sensível da palavra, cantiga de ninar para homens e mulheres que amam viver. 

Aqui vai o registro da invenção de um sonho estupendo, todo seu. Quando, certo dia, ela se percebeu feito um toco de árvore seco e quebrado, sem folhas nem flores. Então, fechou os olhos e parecia-lhe penetrar  numa luminosa energia vibrante,que se movimentava em direção à terra.












Em sua silenciosa e doce visão, a energia cósmica começou a fluir para cima e para baixo, com muito mais força para baixo, em direção à terra. E foi banhando o mundo de luz, iluminando e transformando em vida velhas raízes que jaziam intactas e esquecidas debaixo da terra. 




À medida que a luz as tocava, as raízes cresciam para baixo e para os lados, atravessando as águas dos lençóis freáticos e encontrando outras raízes de árvores velhas, robustas e sábias com que se entrelaçavam. E a luz não parava de fluir... Cada vez mais forte, cada vez mais luzente e intensa.  



De mãos dadas embaixo da terra, as árvores velhas começavam a dançar entrelaçadas de luz, fazendo movimentos circulares pra lá e pra cá... Sorriam e dançavam e partilhavam energia. Houve então um ajuste, um movimento harmônico no fluxo de luz, pois algumas raízes entrelaçadas deram sinais de querer subir. E o fluxo de luz brilhou igualmente intenso, para cima e para baixo.



De repente, feito um doce milagre da vida, as raízes começaram a surgir do toco seco. Nele surgiam, tímidos, vários brotos verdinhos e brilhantes, que novamente foram inundando a terra de beleza, de cor, de esperança e de vida.

Foi quando a Grande-Mãe sorriu satisfeita e em paz, vislumbrando contente os frutos do seu trabalho...

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* Texto inspirado num sonho da minha filha, Carla Rezende de Araújo.


Crédito de Imagens - www.canstockphoto.com.br

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A INVEJA NOSSA DE TODO DIA

8 de maio de 2015


O jornalista Renato Queiroz, do jornal "O Popular", (*)  fez uma entrevista ao professor Leandro Karnal - historiador e filósofo da vida contemporânea . 

Ao apresentar a entrevista o jornalista faz um excelente comentário introdutório:

"Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, os invejosos não vão para o inferno, vão para o purgatório. O castigo: pálpebras costuradas por fios de arame. Para o historiador Leandro Karnal o castigo faz sentido, já que toda a inveja vem do olhar. Invejamos o que está próximo da gente. “A inveja é um tipo de cegueira, ela é a dor pelo sucesso alheio” (...) Único pecado do qual ninguém se orgulha, a inveja, que segundo o professor não deve ser confundida com a cobiça, atravessa a realidade das pessoas. Para Karnal, conviver com pessoas que possuem mais bens, são mais bonitas, mais inteligentes ou com mais carisma do que nós, constitui a prática dura da sociabilidade. A maioria das pessoas se considera invejada, mas não invejosa porque o pecado é quase inconfessável. “A inveja é dolorosa porque é uma homenagem indireta a quem eu invejo”, explica. Segue a entrevista:

Renato Queiroz - Zuenir Ventura escreveu no seu livro “O Mal Secreto” que a inveja é inconfessável, mas ninguém se livra dela, por mais que disfarce. Por que a inveja é um pecado tão envergonhado?

Na tradição dos pecados capitais as pessoas se orgulham deles. Elas se orgulham de comer demais, da luxúria, do sexo, da ira e até mesmo da avareza, dizendo que são “contidas”. Mas a inveja é um sinal de impotência, de desejar algo do outro. O resultado é um pecado envergonhado porque as pessoas têm de reconhecer que o outro é mais do que elas. Por isso é o único pecado do qual ninguém se orgulha. Ninguém sai por aí dizendo “eu sou invejoso”.
Renato Queiroz - Muita gente confunde inveja com cobiça, mas o senhor faz questão de diferenciá-los. A cobiça seria um pecadinho “mais leve” do que a inveja?
A cobiça nem precisa ser pecado porque ela pode ser positiva. Eu cobiço o seu carro e compro um igual. Mas ela também pode ser negativa, como o caso do ladrão que cobiça seu carro e o rouba. A inveja não. Ela é sempre negativa, destruidora. Como define São Tomás de Aquino, a inveja é a tristeza pela felicidade dos outros, a exultação pela sua adversidade e a aflição pela sua prosperidade. É uma vontade de que o outro não seja feliz.
Renato Queiroz - O senhor acredita que suas ideias podem ajudar as pessoas a  compreenderem melhor o mecanismo da inveja?
Acho que invejamos o tempo todo, mas os dias da comemoração do o Natal e do Ano Novo, – que a gente é obrigada a ser feliz por calendário ou seja, felicidade com data marcada – é uma época mais dramática para as pessoas. Ter que passar essas festas em família não significa gostar de passar em família. Obviamente a festa da empresa é o pior programa possível porque é uma festa de exame, de análise dos candidatos, de quem vai continuar no ano seguinte…
Renato Queiroz - O que o senhor acha de gente que diz ter “inveja branca”?
Essa expressão já teria que ter sido proibida desde a Lei Afonso Arinos, que proibiu a discriminação racial no Brasil. Não dá para imaginar que por ser branca é uma coisa positiva. Na verdade, toda inveja é negativa: a branca, a azul, a parda, a mulata… Porque a inveja não significa exatamente eu querer o seu carro, mas significa não tolerar a alegria que você sente ao dirigi-lo. Como somos animais gregários, que vivem em bandos, e cada vez mais há pessoas que têm mais dinheiro, um corpo mais bonito ou são mais felizes do que eu, preciso ser muito bem resolvido para não ceder à tentação da inveja. Como quase ninguém é bem resolvido, a começar por mim, o resultado é que estamos imersos em um mar de inveja. Mas a gente disfarça.
Renato Queiroz - A inveja jamais se refere a alguém distante. Invejamos o próximo. Porém, vivemos em uma era de relações virtuais com a profusão de redes sociais como o Instagram e o Facebook, onde todos parecem tão felizes e bem-sucedidos. Como essas novas ferramentas de comunicação ampliaram nossa capacidade de invejar?
Acho que neste momento as pessoas já notaram que o Facebook é um “Fakebook”, que representa a vida que eu gostaria de ter e não a que eu tenho. Elas já estão cansando dessa felicidade plena de quem comunica a banalidade de seu cotidiano o tempo todo. Este mundo líquido, a que o Zygmunt Bauman alude, essa sociabilidade social começa a tocar nos seus limites. Neste momento, até as ofensas começam a ser reguladas pelo Poder Judiciário. Na internet, as pessoas estão expostas, mas a inveja só pode ocorrer genuinamente por alguém próximo. Não tenho inveja do dinheiro que tinha Salomão, do poder de Júlio Cesar, mas sinto inveja do cunhado, do irmão e do vizinho. A inveja é essencialmente comparativa. Não importa que eu ganhe X ou Y, o que importa é que eu ganhe mais do que as pessoas que me cercam. Somos todos invejosos, especialmente aquelas pessoas perigosas que dizem que não têm inveja de ninguém. Essas são as que a gente precisa ter mais cuidado.
Renato Queiroz - São nos momentos bons ou ruins que conhecemos nossos verdadeiros amigos?
Amigos a gente só conhece nos momentos de sucesso. O fracasso, em uma  sociedade predominantemente cristã como a brasileira, provoca pelo menos expressões de consternação e solidariedade. “Perdi minha mãe”, “estou com câncer”, “meu carro bateu” ou “minha casa queimou” são situações que despertam a solidariedade alheia. Agora experimente dizer no trabalho ou na família que comprou um “carro maravilhoso”, que “a vida é ótima” ou que “o corpo está melhor do que nunca”. Os rostos vão se virar. É o sucesso que incomoda. O fracasso, pelo contrário, nos alegra. Há uma onda de júbilo na internet pela queda do empresário Eike Batista. Não se perdoava que alguém fosse tão rico, poderoso e influente. O êxito dele incomodava muito as pessoas.
Renato Queiroz - Tom Jobim disse uma frase que ficou célebre: “fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal”. Somos mesmo um país de invejosos?
A inveja é universal, mas em cada lugar ela aparece de uma forma. Como no Brasil temos uma rede de solidariedade – que em outras palavras significa que cuidamos muito da vida alheia – isso faz com que a inveja aqui seja mais declarada. Em sociedades mais isolacionistas, como no norte da Europa, a inveja existe, mas se consome dentro do lar. A inveja é universal porque ela é uma maneira de dizer que o problema é o outro que tem demais e não admitir que fui eu que não tive competência para conquistar as coisas.
Renato Queiroz - A maioria das pessoas se considera invejada, mas não invejosa. Como reconhecer o objeto da nossa inveja pode nos ajudar no autoconhecimento?
Do ponto de vista psicanalítico ou socrático, afirmar-se pecador é fundamental. Sempre estamos supondo que o problema está no outro. Uma das coisas mais notáveis é que por mais falida, feia e ruim que uma pessoa seja, ela ainda assim acredita que é invejada. É quase exótico. As pessoas se acham alvo de inveja até porque ela também é uma forma de homenagem. Sentir-se invejado é uma forma de louvar o que se tem. É a frase clássica picareta da cartomante: você é muito invejado. Neste momento, a pessoa sorri e entende. Isso funciona sempre.
Renato Queiroz - Do que o senhor tem inveja?
Nossa, de muitas coisas (risos). De gente que trabalha menos que eu e é feliz. De pessoas que comem o que querem e não engordam. Tenho muita, mas muita raiva de quem não se esforça e tem corpo ótimo. De pessoas que têm habilidades naturais e não por esforço. Quer dizer, de dezenas de coisas. Fico doido de inveja quando vejo pessoas com tais habilidades que luto tanto para ter.
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(*) Leandro Karnal é historiador graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor da  Unicamp. Em São Paulo foi curador de exposições como A Escrita da Memória e colaborou na elaboração curatorial do Museu da Língua Portuguesa, também na capital.
 (*) Entrevista dada por telefone ao jornalista e blogueiro Renato Queiroz   (www.opopular.com.br) em 2013.

Fonte do texto:

Créditos de Imagens:
1. Iconografia de mulher com frutas - Anita Mafalti (Galeria)
2. Fotografia de Leandro Karnal - www.culturajudaica.org.br
3. As imagens : Cartaz do verbete "Vaidade" em vários idiomas; Desenho sobre     a Inveja; Foto de pássaros voando, e escultura de anjos -                                 www.canstockphoto.com.br           

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OS ARTiFÍCIOS DA CORRUPÇÃO

6 de maio de 2015

O jornalista e escritor Otávio Sitônio Pinto, não é um desconhecido: cidadão sertanejo, desses que não têm medo de por o dedo na ferida e nem de dar nome aos bois, foi um grande crítico do ex-presidente Collor e escreve, três vezes por semana - com calor e tino forte - no site: www.auniao.net.jpa.combr

Gostei de ver com que tranquilidade e conhecimento de causa ele desdenha da grande mídia buscando informar sobre como e por que o governo da presidente Dilma está ligado à divulgação do escândalo da Petrobrás. O título do seu artigo, em lugar de ser "Chave de Ouro", também poderia ser: 
OS  ARTIFÍCIOS 
   DA CORRUPÇÃO NO BRASIL

 Otávio Sitônio Pinto*

Dilma fechou com chave de ouro seu primeiro governo, e bem abriu o segundo com o desmonte do Escândalo da Petrobras. Há séculos que o País esperava uma iniciativa do executivo no sentido de sanear a administração brasileira. Era uma promessa de todos os candidatos à presidência. A campanha de Juarez Távora versus Juscelino Kubitschek trazia um cartaz de poste e parede - ilustrado com a cara de um homem atrás de grades - e a frase “os corruptos irão para a cadeia”. Jânio fez da vassoura o símbolo de sua campanha. Mas só Dilma materializou esse sonho, desmontando o cartel das empreiteiras no Escândalo do Petrolão.

Essa realidade passou despercebida na sua campanha, usada até contra ela. Mas   foi o ponto mais positivo de seu governo: a revelação do esquema de corrupção infiltrado na coisa pública nacional, tanto na administração quanto na política. O modus operandi dos carteis em conluio com os partidos de há muito era conhecido pela cidadania, mas ainda não tinha sido provado. O governo Dilma trouxe à tona os submarinos da máfia e botou os chefões na cadeia. Como o marechal Juarez prometia.

Entendo que Dilma não quis apresentar a Operação Lava Jato como obra de seu governo para não dar conotação política à ação da Polícia Federal, em plena campanha para presidente. Mas outra não pode ser a origem da Lava Jato, pois a Polícia Federal é um departamento do Estado brasileiro, subordinado ao Ministério da Justiça: portanto, um órgão da administração pública.

O governo Dilma pôs a nu o complô das empreiteiras, que patrocinam as eleições do legislativo e do executivo no Brasil, quando apostam nos candidatos com chance de vitória. Depois, esse investimento retorna às construtoras, na forma de licitações superfaturadas repartidas entre os membros do grupo. Outras empresas também participam desse esforço eleitoral, seguindo a mesma rotina, que tem por base a propina. Diz-se que o governo Collor caiu porque subiu demais o percentual cobrado às empresas.

A tão reclamada CPI das Empreiteiras, nunca realizada, enfim teve lugar – numa forma de plágio da Câmara dos Deputados, que reeditou a Lava Jato com roupagem parlamentar. Mas é difícil um processo isento por parte dessa CPI, pois a grande maioria das bancadas é bancada pelas empreiteiras investigadas, inclusive muitos dos membros da comissão.

Já foi dito que os governos do PT – Lula e Dilma – fizeram a maior inclusão social do planeta, resgatando a quase totalidade do proletariado para um lugar mais confortável na classe média. Essa realidade foi um dos cavalos de batalha de Dilma na sua recente campanha. Mas o saneamento promovido pela Operação Lava Jato ainda não foi explorado como ponto de venda de seu marketing político. A Lava Jato só foi possível com a promoção que a Polícia Federal ganhou desde o fim da ditadura militar. De polícia política do regime, a PF passou a ser a polícia do Poder Executivo, para os casos de maior monta e envergadura na paisagem do crime brasileiro.

A Lava Jato ainda não terminou. Falta-lhe apontar grandes nomes da corrupção, maiorais de megas empresas que transacionavam (ou transacionam) com a Petrobras. E com as outras empresas que constroem o Brasil, fazendo obras tão caras e que se desmancham nas primeiras chuvas. Falta, sobretudo, a presidente Dilma assumir o crédito da Operação Lava Jato, que só foi possível no seu governo saneador, dirigido pelo pulso forte da guerrilheira do Colina.





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*Otávio Sintônio Pinto escrevo terça, quinta e sábado no www.auniao.net.jpa.com.br

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Crédito Imagens:

Presidente Dilma - divulgação 

Fotos capa veja e desenho  - www.cartacapital.com.vr
Dilma jovem -  www.terrabrasilis.com.br
Foto Otávio Sitônio Pinto - www.auniao.net.jpa.com.br

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