Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O QUERER E O DESEJAR - OU ISTO OU AQUILO

30 de novembro de 2017



O final dos novembros nos lembra, a nós ocidentais, a proximidade da festividade do Natal e do Ano Novo. Este  período  que os cristãos chamam de Advento   nos convida a nos repensar e a nos reinventar, inspirados no significado mais profundo da convivência humana. 

É uma busca, no entanto, que não atinge apenas os que se dizem cristãos, mas todo ser humano que, na convivência com a sua própria transitoriedade, percebe este momento como se fosse a festa do próprio renascimento. 

Também é um período de grandes crises na conjuntura mundial  e da nossa própria crise no Brasil  fazendo-nos perceber uma cruel deformação do sentido da política e da sua missão de promover o bem-comum. Trata-se de uma deformação da compreensão social e ética do fazer político como um "serviço", no Legislativo, no Judiciário e no Governo Executivo.

Cada vez mais se percebe o quanto estamos distanciados da possibilidade de estabelecer um efetivo diálogo das representações sociais com aqueles cujo mister é o de defender os interesses do bem comum. 
É assim que as crises pessoais do desemprego, das incertezas e da insegurança estão cada vez mais se aprofundando.  E os mais atingidos são aqueles que mais dependem de proteção social, e que hoje vivem destituídos do direito à Esperança. 

O horizonte do nosso país se apresenta extremamente preocupante. Em lugar do cuidado pela promoção do desenvolvimento humano, promove-se o bem-estar daqueles que utilizam a política para defender seus interesses escusos e pessoais.

Mesmo assim, ricos e pobres  que exercem uma profissão ou têm outras fontes de renda  aumentam a circulação nos shoppings centers, dando-nos a impressão de que muitos não perceberam a crise que passamos.


O comércio é muito fiel em se organizar para explorar as oportunidades de venda no dia das crianças, do professor, dos namorados, das mães, dos pais, e dos avós. E na previsão da chegada do 13º salário estimula o consumo, na ânsia do ter mais e de trocar objetos, ainda úteis, para o último modelo. 
Somos reféns de uma cultura arraigada  e muito equivocada  de que a o afeto e o bem-estar se expressam nas coisas da moda, de última geração, ou que tenham maior valor monetário. O que leva as pessoas a gastar o que podem e o que não podem para comprar pinheiros e enfeites luminosos, acessórios e roupas novas, além de fabulosos presentes para amigos e familiares.


A figura central de toda a festa é um velhinho importado das terras do Norte do planeta,  hoje o ícone natalino das nossas terras tropicais,  buscando manter acesos o querer sempre mais e mais e a lenda de que a felicidade é ter alguma coisa que está ali, e que é possível comprá-la.  

Nas locas enfeitadas de  casinhas floridas e animais,  você só encontra a figura do bonzinho “Papai Noel”. Branco e gorducho, com sua longa barba de algodão, usando luvas e um roupão vermelho  que aqui nos trópicos o fazem explodir de calor  ele fica sentado e sorridente numa bonita poltrona,  pago para abraçar criancinhas inocentes que lhe confidenciam seus anseios de ter e de adquirir mais do que já têm ou que não podem ter.

Dezenas de pessoas são vistas nos balcões das lojas em busca de substituir o celular que ainda funciona, o telão do televisor que ainda não tem defeito, ou o computador, a fim de usufruir dos últimos recursos tecnológicos que, logo  em seguida, serão substituídos por outros. Assim, também no âmbito pessoal, deixa-se de considerar as muitas necessidades ao redor  até mesmo entre os membros da família, e das pessoas mais pobres com quem se convive  e a memória da pobreza e das necessidades humanas é jogada no recôndito do não considerado. 
Pode-se até encontrar decorações mais atualizadas, trocando o velho nórdico pela imagem do Mickey, do Pinóquio ou de outras figuras infantis de programas de TV. É evidente que não há qualquer conveniência de lembrar,  nos suntuosos ambientes comerciais  a mensagem do menino de Nazaré, que nasceu há séculos atrás, e que não condiz com os festejos e a abundância de uma festa que hoje chamamos "Natal". 

Nesses dias reli um artigo da psicanalista  Rita Almeida  sobre o significado do querer e do desejar, no qual ela afirma: 

“Ao contrário do querer – em que o sujeito quer tudo, até que sua prateleira fique completa – o desejo implica em escolhas, portanto, em perdas.” 

O desejo seria um antídoto para intervir numa sociedade baseada no querer consumista.

“Desejar implica no sujeito admitir sua própria divisão, aceitar sua incapacidade de ter tudo. Desejar não é produzir um acúmulo de coisas, mas sim, definir o que é mais fundamental e importante”. E explica:


“Desejar é cortar o excesso, é aceitar a perda de gozo, é escapar da mera sobreposição de bugigangas, a fim de produzir singularidade e estilo. Num mundo onde o imperativo categórico é que abarrotemos nossas prateleiras e que queiramos tudo todo o tempo, utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução." E conclui: “O desejo é uma tesoura, sendo assim desejar implica em fazer opções. 


Ou isto ou aquilo, diria Cecília Meireles”.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!

                                              
Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.

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Cecília Meireles - "Ou isto ou aquilo". Global Editora. São Paulo, 2012, p.63
Rita Almeida – psicanalista, blogueira e doutoranda em Educação (UFJF)


Créditos de imagens:

1. Suzana grávida - Roberto Ploeg, o.s.t.
2. Duas casas azuis e uma ciclista - imagem de Roberto Ploeg
3. Papai Noel - www.canstockphoto.com.br
4. O querer e o desejo - www.canstockphoto.com.br
5. 
Capa livro de Cecília Meirelles: "Ou isto ou aquilo" - reprodução.

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LEONARDO BOFF: APRENDER A ACOLHER A VIDA

25 de novembro de 2017


Este mês, no site de Leonardo Boff, foi publicada a sua entrevista dada à Revista Bodisatva.

É assim que Boff a apresenta no seu site: “De todos os caminhos que levam ao profundo de nós mesmos, e ao Coração da Realidade (outro nome para a divindade), temos muito que aprender”. 
Sua entrevista integra uma série de outras,  realizadas pela revista – no intuito de promover “diálogos inter-religiosos" e discutir "como  a prática cristã pode colaborar com a liberdade humana”.

Escute o coração e nunca serás defraudado
Entrevista com Leonardo Boff                    
Revisão: Moisés Costa
= Os grifos são nossos.

Na década de 80, ele foi condenado a um ano de silêncio pelo ex-Santo Ofício por suas teses defendidas no livro "Igreja: carisma e poder". É um dos iniciadores da Teologia da Libertação no Brasil, que defende a libertação dos oprimidos, dos pobres e dos injustiçados.
O decisivo é que o fato da libertação real ocorra. Mas sempre haverá espíritos atentos que ouvirão o grito do oprimido e da Terra devastada e que se perguntarão: com aquilo que aprendemos de Jesus, dos Apóstolos e da doutrina cristã de tantos séculos, como podemos dar a nossa contribuição ao processo de libertação?”, fala Leonardo Boff na nossa seção de conversas na Bodisatva, onde nos propomos a abrir espaço para o diálogo inter-religioso.

Boff, conhecido como professor e conferencista no país e no exterior, nas áreas de teologia, filosofia, ética, espiritualidade e ecologia moveu, no Brasil, a discussão sobre como a prática cristã gerada pelo potencial espiritual herdado de Jesus pode colaborar, junto com outros grupos humanitários, para a libertação necessária.
Autor de cerca de sessenta livros, ele participa atualmente do grupo de reforma da ONU, especialmente dedicado à Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade.
Conversamos com ele sobre economia, compaixão e sabedoria.
B - Quais seriam os caminhos para uma economia sustentável e uma boa relação com a natureza?

LBoff - O caminho mais factível para uma sustentabilidade que mereça este nome é seguir o biorregionalismo. Quer dizer, tomar a região como referência e ver como os bens e serviços ecológicos próprios da região podem atender as demandas da população, organizar pequenas cooperativas, incentivar a produção orgânica e integrar o lado cultural, os valores e tradições locais. Aí surge um sentimento de pertença e relações mais inclusivas.
B - Existe conciliação entre obsolescência programada e decrescimento econômico?

LBoff - A obsolescência programada é um recurso que o sistema imperante inventou para continuar a produzir e a vender e assim manter o sistema ativo. O decrescimento só tem sentido em sociedades que já alcançaram sua autonomia e não precisam mais organizar a infraestrutura já universalizada para todos. Nós, pobres, precisamos de desenvolvimento (mais escolas, infraestrutura, postos de trabalho, etc), aos ricos lhes basta a prosperidade que se expressa realizando valores humanitários, de arte, de cuidado para com a natureza, cultivo de intercâmbios, solidariedade para com os que menos têm em outras regiões.
B - Quais as origens do medo, como os seus aspectos são utilizados na nossa sociedade e como atravessá-los com lucidez?

LBoff - O medo pertence à vida, porque ela é sempre ameaçada por algum imprevisto. Superamos o medo incorporando-o para não depender dele e alimentamos a coragem de viver e de superar obstáculos.

B - O senhor declarou que os dois homens santos do nosso tempo são o Papa Francisco e o Dalai Lama. Quais as relações que o senhor poderia fazer entre um e outro?

LBoff - O Papa Francisco e o Dala Lama são homens do Espírito. Falam para o profundo humano ao falar do amor incondicional, de solidariedade e compaixão para com os que sofrem e de busca permanente da superação dos instintos de violência, cultivando uma cultura da paz. Ambos tornam real o mundo espiritual dentro de uma sociedade materializada e que perdeu o sentido da fraternidade universal e o fato de vivermos todos juntos na mesma Casa Comum que devemos cuidar e amar como cuidamos e amamos nossas mães.
B - O senhor poderia falar mais sobre a visão política do Papa Francisco, e como foi possível ele
transitar por dentro das regras do Vaticano?
LBoff - O Papa faz a política do óbvio, política como a convivência pacífica entre todos e a capacidade de se solidarizar com os que vivem invisíveis e à margem. Ele fez uma opção pelos mais pobres como eixo orientador de tudo. A própria Igreja como um hospital de campanha que se coloca a serviço de todos, especialmente dos mais vulneráveis. Ele sempre viveu assim na Argentina. E levou esse modo de ser e de pensar para dentro das estruturas seculares e rígidas do Vaticano. Com isso, ele escandalizou a muitos, mas ganhou o reconhecimento universal. Ambos, Francisco e o Dalai Lama, são hoje as figuras mais respeitáveis, seja no campo político, seja no campo religioso.


B - No budismo, fala-se em aliar compaixão e sabedoria para termos lucidez. Qual a importância da prática da compaixão e da sabedoria?

LBoff - A compaixão é a virtude pessoal de Buda. É a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Se ele está caído, ajudá-lo a levantar-se; se está triste, dizer-lhe palavras de consolo. Nunca permitir que quem sofre se sinta sozinho. Mas sempre estar do lado dele. O terrível do sofrimento não é o sofrimento, mas a solidão no sofrimento. A sabedoria vem da coerência na vida com tais atitudes.
Sábio é aquele que sempre está aberto a aprender e acolher a vida assim como ela nos chega a nós. Acolhê-la, e saber tirar as lições que ela nos dá.

B - Como caminhar com autonomia na nossa sociedade?

LBoff - Caminhamos com autonomia sendo autônomos. Quer dizer, não seguir as modas sejam filosóficas, sejam espirituais, sejam do consumo e do entretenimento. Seguir o chamado de seu coração. Se escutar o coração, nunca será defraudado.
B - Como recobrar nossa vida afetiva e as relações com os seres humanos e a natureza?

Além da razão intelectual, importante para organizar as práticas da vida, precisamos resgatar e viver a razão cordial, a capacidade de sentir profundamente o outro e as mensagens que nos vem de todos os lados. No coração reside a ética, os valores que dão orientação na vida, o amor e a espiritualidade. Não basta conhecer, temos que sentir o outro, fazer do sofrimento da natureza o nosso próprio sofrimento e alimentar laços de inclusão de todos, sem excluir ninguém.
B - O senhor poderia nos enviar uma mensagem sobre bondade amorosa, amor e alegria?

LBoff - Vivemos uma única vez neste mundo. Por isso, importa viver com aqueles valores, projetos e sonhos que nos fazem mais humanos. Tornamo-nos mais humanos quando amamos sem medo, nos solidarizamos com as causas que têm a ver com a justiça dos pobres e oferecemos o ombro a todos os que sentem necessidade de serem reforçados em suas dificuldades.
Viver a liberdade de espírito, a qual é o maior dom que podemos elaborar em nossa vida. A liberdade de espírito supera os superegos que nos limitam, os medos que nos freiam e nos abre o espaço para exercer nossa criatividade, nossa capacidade de nos relacionar com as mais diferentes pessoas e situações, sempre abertos a aprender, a se corrigir e a tornar a vida melhor e mais leve, para si e para os outros.


Fonte do Texto: “Escute o coração e nunca serás defraudado”.
Site LBoff- 9/11/2017




A Bodisatva é uma plataforma de comunicação voltada para a produção e divulgação de conteúdo de transformação de mundo, inspirada na visão budista de Terra Pura. Tem como propósito celebrar iniciativas baseadas em compaixão e lucidez.




Créditos das Imagens:
1. Criança meditando - Bodisatva no Instagran - imagens
2. Foto Leonardo Boff - reprodução.
3. Dalai Lama - www.budavirtual.com.br/category/dalai-lama
4. Papa Francisco - https://www.fatosdesconhecidos.com.br/biografia-tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-papa-francisco/
5. Bardo da Realidade - www.bodisatva no Instagran - imagens

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NATAL: A PRESENÇA E OS PRESENTES - AMPARO CARIDADE

18 de novembro de 2017

Desde 2010, a cada mês de novembro, dia 16, quando se celebra o aniversário de Amparo Caridademais se aprofunda  a  minha  alegria de termos construído, por longo tempo, um laço profundo de amizade. 

Conhecida por suas palestras e entrevistas sobre questões da sexualidade humana, era antropóloga e escritora, professora e incentivadora do Mestrado de Psicologia da Unicap e, para mim, amiga e irmã, cuja morte foi dolorosamente antecipada. Ao vê-la viver  em momentos brincantes, viajando juntas, cooperando na produção de seus dois últimos livros e, mais tarde, com a sua intensa presença, quando se preparava à anunciada morte   fui uma aprendiz do seu amor à vida, da sua verdade, e da altivez como enfrentou,  junto à família e aos amigos, o que a vida lhe pediu.

Hoje estive folheando o seu livro “Caminhos e Caminhantes”, e encontrei uma crônica que, na proximidade com as festividades deste fim de ano  pode nos ajudar a refletir sobre o sentido das nossas escolhas, nos dias em que vivemos.  Segue a crônica.

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Nós e o Natal
Por: Amparo Caridade

"Aprendemos sobre o Natal que é celebração do amor, que é desejo de paz e de amizade. Em torno disso, inventaram-se rituais. O homem é um ser de rituais. Isso é antropológico. Há ritos para o nascimento, para os diversos momentos da vida e para a morte. O Natal é um desses momentos em que ritualisticamente nos (re)unimos em família, em torno da mesa para o jantar, para os abraços, para os perdões e para a troca de presentes.

O aniversário do menino de Belém torna-se o motivo em torno do qual as pessoas exercitam maior aproximação, maior democracia de gestos e de emoções. O ritual encenado, o jantar, as preces, as luzes, os presentes, podem servir a esse fim. Unir, juntar, reunir as pessoas que se querem mais próximas. Um livro muito especial de Tereza Haliday, “Celebrações”, contém ritos preciosos para diversos momentos da vida.

Receio que tenhamos deslizado do ritual para o consumo, do antropológico para o comercial. A vida pós-moderna parece conspirar para isso. Há uma sedução generalizada do comércio que objetiva vender, lucrar, em meio a gentis e sofisticadas promessas de alegria, prazer e felicidade. Uma maresia do nosso espírito crítico nos impede de perceber a manipulação que subjaz aos encantos do mercado.

O que significa esse afã natalino do comprar, consumir, e doar presentes? Estaremos dando, doando de fato? 


O dicionário Aurélio diz que doar é ceder gratuitamente, consagrar-se, devotar-se, dedicar-se. O léxico indica, portanto, que há uma porção nossa em jogo nesse dar: é o doar-se. O sentido do presente que ofertamos é que ele leva até ao outro um pouco de nós mesmos. O presente é uma linguagem. Por isso ele se apresenta coberto de signos: o objeto escolhido (algo para alguém), a embalagem (enseja o belo), a dedicatória (que leva parte da alma), tudo significa, tudo veicula esse pedaço de mim que quero ofertar. É assim que a “coisa escolhida” precisa transportar, simbolizar o afeto, a apreciação que tenho pelo outro.

Há uma pulsão do dar e do receber no Natal. Mas será que nos damos, ao dar presentes? O outro a quem damos é importante ao ponto que eu me ofereça a ele na metáfora de um presente? 

Receio que o troca-troca tenha desvirtuado esse sentido. Há na contemporaneidade uma mística de autossuficiência, uma vontade de que a dependência dos outros seja cada vez menor, de que o outro não importa ao bem-estar. Isso tem sérias consequências, pois, se o outro deixa de ser importante para minha felicidade, decerto sua felicidade também deixa de ser importante para mim. Corre-se o risco do exercício de uma grande indiferença, da economia das emoções, de dificuldade afetiva entre as pessoas. O saldo pode ser o incremento da solidão, a perda dos vínculos e, até a violência."


No ato de dar presentes às pessoas idosas desamparadas ou às crianças de alguma creche — sugere Amparo, referindo-se a fatos de anos atrás — a mensagem, mesmo que provisória, é de que alguém se importe com alguém. Por isso vale não só oferecer um presente, mas ligar, falar com o idoso ou a criança presenteada, ouvir-lhe a voz, e fazê-la ouvir que é bom saber que ela existe. A gente não esquece as palavras (bem)ditas que ouve na infância, e se conforta com um alento pessoal, quando a vida já fez o seu caminho.  

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Fonte do texto:
Caminhos e Caminhantes/ Crônicas Brasileiras
Amparo Caridade – Recife: Bagaço, 2004, p.138

Capa de Livros:




Crédito das Imagens:

1. Foto de Amparo Caridade – www.revistazena.com.br
2. Imagem: milano_sflgiandoilnatale.jpg
3. Imagem de: www.canstockphoto.com.br
4. Imagem: www.youtube.com.br
5.  Fotos de capas de livros - www.vaniserezende.com

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MERCADO DE TRABALHO X MULHERES NEGRAS

12 de novembro de 2017

Diretora do Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades, a Psicóloga Social, Dra. Cida Bento, ao analisar os desafios para ampliar a presença das mulheres negras no mercado de trabalho, afirma que “Os programas de pró-equidade de gênero conseguiram acelerar a inclusão das mulheres brancas, mas não das negras”. Comemorando o Mês da Consciência Negra, a Revista Carta Capital publica a entrevista que Cida Bento concedeu à jornalista Tory Oliveira. Segue a íntegra do texto.

O abismo racial no ambiente corporativo brasileiro continua profundo, apesar dos recentes esforços de algumas empresas de deixarem de ser apenas brancas. Segundo dados de pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2016, pessoas negras só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% do quadro de executivos nas empresas analisadas pelo estudo. A situação é ainda mais desigual para as mulheres negras: 1,6% são gerentes e só 0,4% participam do quadro de executivos. São só duas, entre 548 diretores.
Após observar muitos casos de discriminação nos processos seletivos em empresas, a psicóloga social Cida Bento, então executiva na área de Recursos Humanos, resolveu enfrentar diretamente o tema da discriminação racial e das dificuldades de inclusão de homens e mulheres negras nas empresas. 

Atual coordenadora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Cida Bento, que também é colunista do site de CartaCapital, dedica-se há 30 anos ao campo da promoção da diversidade no ambiente corporativo.

Assim como a sociedade brasileira como um todo, o ambiente empresarial tem imensas dificuldades em avançar no combate ao racismo, explica ela, que aponta, por exemplo, o fato de programas de equidade de gênero serem bem-sucedidas em promover a inclusão de mulheres brancas, mas não das mulheres negras. "Esse é o grande desafio. As mulheres brancas estão quatro, cinco vezes a mais do que as negras nesse processo de inserção dentro das empresas".


Carta Capital: Por que a senhora resolveu se dedicar à questão da desigualdade racial no mercado de trabalho?
Cida Bento: Eu era executiva da área de Recursos Humanos e resolvi sair para trabalhar com esse tema porque eu via muita discriminação nos processos seletivos. Meu mestrado e doutorado foram focados em processos de recursos humanos. 
A tese de doutorado, defendida na USP, chamou-se:Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresarias e no poder público.

CC: Segundo pesquisa do Instituto Ethos de 2016, pessoas negras só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% dos executivos. O quadro é ainda pior quando se olha para as mulheres negras e só se inverte quando se observam as vagas de início de carreira ou baixa exigência profissional, como aprendizes ou trainees. Muito tem sido falado sobre ações afirmativas ou de inclusão nas empresas, mas ainda não se atingiu o patamar adequado, tendo em vista que negros e pardos são mais da metade da população brasileira. O mundo empresarial ainda resiste em enxergar e enfrentar o racismo? O que já mudou nesse sentido?
CB: Como toda a sociedade brasileira, o mundo empresarial também tem dificuldade de avançar nesse tema. Em geral, há uma tendência a tentar identificar qual é o problema para localizar negros ou se comunicar com eles, mais do que perceber que há também uma perspectiva branca que dificulta a inclusão e a permanência de negros nas empresas. De perceber que se tratam de relações raciais, e não de um problema do negro no Brasil. O branco também está implicado nisso.

CC: Como assim?

CB: Em qualquer processo de recursos humanos, de seleção em geral, recrutamento, promoção e mentoria, é preciso buscar entender não só o que pode ser algum desafio envolvendo os negros, mas também um desafio envolvendo os brancos para lidar com essa questão da maior presença negra qualificada dentro das instituições. Não é só eu ter dificuldade nos processos de recrutamento para encontrar negros, mas é perceber que os processos precisam ser olhados para serem mais inclusivos e que as formas de comunicação e os ambientes do interior da instituição têm de se abrir para ser mais diversos. É pensar negros em cargos de liderança, de vanguarda, entender que eles têm de ter oportunidades de ser treinados e de encarreiramento mesmo. Enfim, isso tudo exige reconhecer que as empresas, assim como as grandes instituições brasileiras, não percebem o negro nesse lugar.

CC: É possível apontar a raiz desse problema?
CB: O racismo e o esforço na manutenção de privilégios. Eu sou uma das grandes estudiosas de branquitude no Brasil. Eu trato com o conceito de pactos narcísicos, a ideia do narcisismo, do fortalecer e escolher os iguais. Os recursos, as informações, os networkings são entre os iguais, que são os brancos.

CC: Você escreveu que profissionais que atuam no campo das políticas de diversidade em empresas destacam que a dimensão racial da diversidade é aquela que traz mais desafios para ser abordada e implementada. Quais os motivos dessa dificuldade maior?
CB: Em geral, as empresas têm mais um pacto de brancos entre brancos. Os programas de pró-equidade de gênero e raça conseguiram acelerar a inclusão das mulheres brancas, mas não das mulheres negras. Então, você tem mais um pacto entre brancos. As empresas têm dificuldade muitas vezes na relação com os próprios especialistas negros e com as organizações negras em geral.

Às vezes, é mais fácil para uma empresa se relacionar com uma organização branca que começa a trabalhar com o tema racial do que com organizações negras que existem no Brasil inteiro e trabalham com isso há muito tempo. Eu tenho recebido seis, sete, oito pedidos por semana de consultorias brancas que nunca mexeram com esse tema e agora querem entender para começar a trabalhar. E, às vezes, elas têm muito mais sucesso do que outras organizações, negras, que estão espalhadas pelo Brasil.

CC: Os desafios parecem ser ainda maiores para as mulheres negras, que preenchem apenas 1,6% das posições na gerência e 0,4% no quadro executivo. Por outro lado, mulheres brancas avançaram nesse sentido. As oportunidades são diferentes para mulheres brancas e negras? De que forma?
CB: Eu tenho feito um censo de diversidade em bancos e o grande desafio que se encontra é ampliar a presença das mulheres negras no setor, assim como em outras empresas. Esse é o grande desafio, as mulheres brancas estão quatro, cinco vezes a mais do que as negras nesse processo de inserção dentro das empresas. Isso é o que eu tenho observado nos censos de diversidade e nos processos de formação que tenho desenvolvido no interior das empresas. Eu trabalho com grandes empresas e a presença das mulheres negras é quase nenhuma.


CC: Como explicar esse quadro?
CB: Acho que as mulheres em geral sofrem uma exigência de aparência para ocupar posições dentro das empresas. E as mulheres negras têm uma exigência maior, com relação aos cabelos lisos e a um perfil meio de "Barbie", magra, comprida e com o cabelo bem liso e claro, se possível.

CC: Você escreveu que uma mulher jovem, negra e qualificada ouviu de uma consultora de RH que sua roupa e cabelo não eram os mais adequados ao ambiente corporativo. Esse tipo de relato ainda é comum?
CB: Acho que não se ouve mais esse tipo de relato. As pessoas vão aprimorando os seus processos de exclusão. Elas não vão falar que é por isso. Nesse caso, o currículo dela estava sendo analisado por uma consultora de RH que era sua amiga. Isso em geral não é verbalizado. Agora, você também tem que ver que isso também tem mudado. Muitas empresas hoje falam que querem ampliar a equidade racial. Cresce o número de empresas que querem fugir dessa reputação de serem empresas brancas apenas. Isso é um indicativo de que a gente pode ter mudanças. As mudanças estão chegando, mas é necessário que a empresa tenha uma vontade política de mudar essa situação e invista mesmo nesses processos.

CC: Na sua opinião, como as empresas e o mercado de trabalho podem atuar para reduzir essa desigualdade?
CB: O censo é fundamental. Ele ajuda a identificar as diferenças de cargos, de salários, de inserção, promoções. E ajuda a identificar onde é que estão os problemas e ajuda a desenhar um plano de ação que envolve levar essa discussão para o interior das empresas e para as altas lideranças, para as áreas jurídicas e outras. É preciso uma decisão política da empresa. E isso é algo bem delicado e importante.

CC: Há bons exemplos?
CB: Algumas empresas que são líderes em seus ramos têm avançado bastante, procurando trazer mulheres negras para cargos de direção, procurando entender porque mulheres negras que estão lá há bastante tempo, e com escolaridade e experiência, não têm sido promovidas, procurando desenhar produtos para mulheres negras, procurando fazer um marketing que considere as famílias negras, contratar prestadores de serviço dentre as organizações de mulheres negras. Há algumas empresas fazendo esforços nessas direções.

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Observação - O nome de Cida Bento consta entre os 50 profissionais mais influentes do mundo - relação de 2016. Cf.: Portal Áfricas, do qual a psicóloga também é colunista: www.portalafricas.com.br/v1 

Fonte do Texto: 
www.cartacapital.com.br/sociedade/o-grande-desafio-e-ampliar-a-presença-de-mulhers-negras-nas-empresas.
Por: Tory Oliveira - Publicado em 12/11/2017.

Crédito das Imagens:

1. Foto de Cida Bento - www.portalafricas.com.br/v1
2. Outras imagens do texto - www.canstockphoto.com.br

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com  

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