Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O QUERER E O DESEJAR - OU ISTO OU AQUILO

30 de novembro de 2017



O final dos novembros nos lembra, a nós ocidentais, a proximidade da festividade do Natal e do Ano Novo. Este  período  que os cristãos chamam de Advento   nos convida a nos repensar e a nos reinventar, inspirados no significado mais profundo da convivência humana. 

É uma busca, no entanto, que não atinge apenas os que se dizem cristãos, mas todo ser humano que, na convivência com a sua própria transitoriedade, percebe este momento como se fosse a festa do próprio renascimento. 

Também é um período de grandes crises na conjuntura mundial  e da nossa própria crise no Brasil  fazendo-nos perceber uma cruel deformação do sentido da política e da sua missão de promover o bem-comum. Trata-se de uma deformação da compreensão social e ética do fazer político como um "serviço", no Legislativo, no Judiciário e no Governo Executivo.

Cada vez mais se percebe o quanto estamos distanciados da possibilidade de estabelecer um efetivo diálogo das representações sociais com aqueles cujo mister é o de defender os interesses do bem comum. 

É assim que as crises pessoais do desemprego, das incertezas e da insegurança estão cada vez mais se aprofundando.  E os mais atingidos são aqueles que mais dependem de proteção social, e que hoje vivem destituídos do direito à Esperança. 

O horizonte do nosso país se apresenta extremamente preocupante. Em lugar do cuidado pela promoção do desenvolvimento humano, promove-se o bem-estar daqueles que utilizam a política para defender seus interesses escusos e pessoais.

Mesmo assim, ricos e pobres  que exercem uma profissão ou têm outras fontes de renda  aumentam a circulação nos shoppings centers, dando-nos a impressão de que muitos não perceberam a crise que passamos.


O comércio é muito fiel em se organizar para explorar as oportunidades de venda no dia das crianças, do professor, dos namorados, das mães, dos pais, e dos avós. E na previsão da chegada do 13º salário estimula o consumo, na ânsia do ter mais e de trocar objetos, ainda úteis, para o último modelo. 
Somos reféns de uma cultura arraigada  e muito equivocada  de que a o afeto e o bem-estar se expressam nas coisas da moda, de última geração, ou que tenham maior valor monetário. O que leva as pessoas a gastar o que podem e o que não podem para comprar pinheiros e enfeites luminosos, acessórios e roupas novas, além de fabulosos presentes para amigos e familiares.


A figura central de toda a festa é um velhinho importado das terras do Norte do planeta,  hoje o ícone natalino das nossas terras tropicais,  buscando manter acesos o querer sempre mais e mais e a lenda de que a felicidade é ter alguma coisa que está ali, e que é possível comprá-la.  

Nas locas enfeitadas de  casinhas floridas e animais,  você só encontra a figura do bonzinho “Papai Noel”. Branco e gorducho, com sua longa barba de algodão, usando luvas e um roupão vermelho  que aqui nos trópicos o fazem explodir de calor  ele fica sentado e sorridente numa bonita poltrona,  pago para abraçar criancinhas inocentes que lhe confidenciam seus anseios de ter e de adquirir mais do que já têm ou que não podem ter.

Dezenas de pessoas são vistas nos balcões das lojas em busca de substituir o celular que ainda funciona, o telão do televisor que ainda não tem defeito, ou o computador, a fim de usufruir dos últimos recursos tecnológicos que, logo  em seguida, serão substituídos por outros. Assim, também no âmbito pessoal, deixa-se de considerar as muitas necessidades ao redor  até mesmo entre os membros da família, e das pessoas mais pobres com quem se convive  e a memória da pobreza e das necessidades humanas é jogada no recôndito do não considerado. 
Pode-se até encontrar decorações mais atualizadas, trocando o velho nórdico pela imagem do Mickey, do Pinóquio ou de outras figuras infantis de programas de TV. É evidente que não há qualquer conveniência de lembrar,  nos suntuosos ambientes comerciais  a mensagem do menino de Nazaré, que nasceu há séculos atrás, e que não condiz com os festejos e a abundância de uma festa que hoje chamamos "Natal". 

Nesses dias reli um artigo da psicanalista  Rita Almeida  sobre o significado do querer e do desejar, no qual ela afirma: “Ao contrário do querer – em que o sujeito quer tudo, até que sua prateleira fique completa – o desejo implica em escolhas, portanto, em perdas.” 

O desejo seria um antídoto para intervir numa sociedade baseada no querer consumista. E explica:

“Desejar implica no sujeito admitir sua própria divisão, aceitar sua incapacidade de ter tudo. Desejar não é produzir um acúmulo de coisas, mas sim, definir o que é mais fundamental e importante”.


“Desejar é cortar o excesso, é aceitar a perda de gozo, é escapar da mera sobreposição de bugigangas, a fim de produzir singularidade e estilo. Num mundo onde o imperativo categórico é que abarrotemos nossas prateleiras e que queiramos tudo todo o tempo, utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução." E conclui: “O desejo é uma tesoura, sendo assim desejar implica em fazer opções. Ou isto ou aquilo, diria Cecília Meireles”.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!

                                              
Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.

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Rita Almeida – psicanalista, blogueira e doutoranda em Educação (UFJF).
Cecília Meireles - "Ou isto ou aquilo". Global Editora. São Paulo, 2012, p.63

Créditos de imagens:


1. Suzana grávida - Roberto Ploeg, o.s.t.
2. Duas casas azuis e uma ciclista - imagem de Roberto Ploeg
3. Papai Noel - www.canstockphoto.com.br
4. O querer e o desejo - www.canstockphoto.com.br
5. 
Capa livro de Cecília Meirelles: "Ou isto ou aquilo" - reprodução.

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