Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O BRASIL HOJE - A GRAVIDADE DA FOME NO PAÍS

21 de outubro de 2020

   Foto: Brasil de Fato/Leonardo de França


Há dias atrás (12/10/2020) os Movimentos Populares “do campo e da cidade, das águas e das florestas” reuniram-se para celebrar a abertura da Semana Nacional da Alimentação. A grande jornada “buscava expor a volta à Fome no Brasil, o aumento nos preços dos alimentos e os vetos do Governo Federal ao Projeto de Lei 735”. Os Movimentos também visam realizar “uma série de ações para denunciar o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e apontar saídas para a insegurança alimentar” no Brasil.

Segue abaixo uma reportagem do Brasil de Fato sobre o assunto, ilustrada com dados recentes do IBGE sobre a situação da Fome no nosso país, com base em levantamento realizado em 2017/2018 e publicado em setembro/2020. 

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Brasil de Fato - Ao abrir as falas da jornada, Adília Nogueira, do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), destacou que o modelo atual de produção e distribuição de alimentos só serve às grandes corporações, e não ao povo.

“A gente está querendo questionar o modelo, esse sistema da insegurança alimentar que estamos vivendo. A alimentação que nos chega nas cidades, pela lógica do mercado, vem trazendo para gente muitas doenças, e não a saúde, que é o que a gente busca”, disse.

Ela ressaltou que a luta pela segurança alimentar tem que ser de toda a população, fomentada por movimentos populares. “A luta pelo direito à alimentação não pode ser uma luta pontual ou corporativa. A luta pelo direito à alimentação adequada é uma luta anti-imperialista. Não é só uma disputa econômica, mas também uma disputa ideológica”.

 A alimentação que nos chega nas cidades - afirmou - pela lógica do mercado, vem trazendo para gente muitas doenças. 

Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas -Conaq, culpou Bolsonaro pela ampliação da fome no país nos últimos anos. “As pessoas estão com fome. É uma situação que a gente não imaginava que voltaria com tanta rapidez”, lamentou.

Ela exaltou o papel da solidariedade na luta contra a desnutrição. “Na ponta, as famílias continuam passando necessidade, mas, na ponta, é a solidariedade que está salvando e que está levando comida e conforto a muitas famílias”.

Para Célia Xákriabá, do Movimento Indígena Brasileiro, a solução para a fome no Brasil passa, antes, pela manutenção de territórios. “Não existe soberania alimentar se não existir a liberdade dos nossos territórios. Não existe democracia se não tiver território indígena demarcado. Não existe autonomia alimentar se não existir a redemocratização do uso da terra”, afirmou.

João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, lembrou que, além da fome, há uma grande desnutrição entre os brasileiros, gerada principalmente pelos interesses do lucro. “Tem muita gente que come, porém não se alimenta com os nutrientes necessários para ter uma saúde, uma vida boa. Temos que romper com a opressão dos alimentos ultraprocessados, que não são alimentos, são apenas mercadorias”.

Stedile defende políticas voltadas aos trabalhadores para superar a insegurança alimentar. “A política necessária para o povo acessar comida, em primeiro lugar, é ter emprego e renda. É o emprego e renda para os trabalhadores que moram na cidade que lhe dá segurança para não passar fome e lhe dá dignidade de escolher o que ele quer comer”.

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Para se entender melhor a realidade que estimula a manifestação dos Movimento Populares, trazemos aqui o que nos informa recente boletim do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, sobre a Insegurança Alimentar Grave no Brasil.

 

Mais da metade dos domicílios com insegurança alimentar grave eram chefiados por mulheres - Foto: Tony Winston/Agência Brasília

POF 2017-2018

10,3 milhões de pessoas moram em domicílios com insegurança alimentar grave

Editoria: Estatísticas Sociais | Umberlândia Cabral | Arte: Brisa Gil

Resumo:

·   10,3 milhões de pessoas viviam em domicílios em que houve privação severa de alimentos ao menos em alguns momentos em 2017-2018.

·    Dos 68,9 milhões de domicílios no Brasil, 36,7% estavam com algum grau de insegurança alimentar, atingindo 84,9 milhões de pessoas.

·   A prevalência nacional de segurança alimentar caiu para 63,3%, em 2017-2018, alcançando seu patamar mais baixo.

·     Metade das crianças menores de cinco anos do país (ou 6,5 milhões de crianças nessa faixa etária) viviam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.

·    Menos da metade dos domicílios do Norte (43,0%) e Nordeste (49,7%) tinham acesso pleno e regular aos alimentos.

·     Dos 3,1 milhões de domicílios com insegurança alimentar grave no Brasil, 1,3 milhão estava no Nordeste.

·    Mais da metade dos domicílios com insegurança alimentar grave eram chefiados por mulheres.

· Os domicílios com pessoa de referência autodeclarada parda representavam 36,9% dos domicílios com segurança alimentar, mas ficaram acima de 50% para todos os níveis de insegurança alimentar.

 

A insegurança alimentar grave esteve presente no lar de 10,3 milhões de pessoas ao menos em alguns momentos entre 2017 e 2018. Dos 68,9 milhões de domicílios do país, 36,7% estavam com algum nível de insegurança alimentar, atingindo, ao todo, 84,9 milhões de pessoas. É o que retrata a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada em 17/09/2020 pelo IBGE.

Na comparação com 2013, a última vez em que o tema foi investigado pelo IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a prevalência de insegurança quanto ao acesso aos alimentos aumentou 62,4% nos lares do Brasil. A insegurança vinha diminuindo ao longo dos anos, desde 2004, quando aparecia em 34,9% dos lares, 30,2% na PNAD 2009 e 22,6% na PNAD 2013. Mas em 2017-2018, houve uma piora, subindo para 36,7%, o equivalente a 25,3 milhões de domicílios. Com isso, a segurança alimentar atingiu seu patamar mais baixo (63,3%) desde a primeira vez em que os dados foram levantados. Já a insegurança alimentar leve atingiu seu ponto mais elevado.

“Em 2017-2018, a gente viu que esse grau de segurança alimentar diminuiu e, como é tudo proporcional, significa também que as inseguranças aumentaram. Há uma distribuição. Alguma coisa nesse intervalo de tempo fez com que as pessoas reavaliassem sua visão sobre o acesso aos alimentos, apontando uma maior restrição ou, pelo menos, a estratégia de selecionar ou administrar alimentos para que não falte quantidade para ninguém”, explica o gerente da pesquisa, André Martins.

 

A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), aplicada na POF, classifica os domicílios de acordo com seu nível de segurança quanto ao acesso aos alimentos em quantidade e qualidade.

Em 2017-2018, eram 43,6 milhões de domicílios brasileiros que tinham segurança alimentar. “São domicílios que têm acesso pleno e regular aos alimentos em quantidade suficiente sem comprometer o acesso de outras necessidades essenciais, ou seja, que não têm preocupação em relação ao acesso aos alimentos”, afirma André.

Em relação à insegurança alimentar, os domicílios podem ser classificados em três níveis: leve, moderado e grave. Um domicílio é classificado com insegurança leve quando aparece preocupação com acesso aos alimentos no futuro e a qualidade da alimentação já está comprometida. Nesse contexto, os moradores já assumem estratégias para manter uma quantidade mínima de alimentos disponíveis. Trocar um alimento por outro que esteja mais barato, por exemplo. No segundo nível, de insegurança moderada, os moradores já têm uma quantidade restrita de alimentos. A insegurança grave aparece quando os moradores passaram por privação severa no consumo de alimentos, podendo chegar à fome.

A pesquisa aponta que pelo menos metade das crianças menores de cinco anos viviam em lares com algum grau de insegurança alimentar. São 6,5 milhões de crianças vivendo sob essas condições. Em 2017-2018, 5,1% das crianças com menos de 5 anos e 7,3% das pessoas com idade entre 5 e 17 anos viviam em domicílios com insegurança alimentar grave. Há a indicação, portanto, de maior vulnerabilidade à restrição alimentar nas casas em que há crianças ou adolescentes.

“Quando um domicílio tem insegurança alimentar grave, há uma restrição maior de acesso aos alimentos, com uma redução da quantidade consumida para todos os moradores, inclusive crianças, quando presentes. E nesses lares pode ter ocorrido a fome, situação em que pelo menos alguém ficou o dia inteiro sem comer um alimento”, diz o pesquisador.

O nível de maior restrição no acesso a esses alimentos também aparece com mais frequência nos domicílios localizados na área rural do Brasil. A proporção de insegurança alimentar grave foi de 7,1% nessas localidades, três pontos percentuais acima do observado na área urbana (4,1%).

“Isso está muito associado às condições de trabalho. Ou seja, as pessoas que estão nos meios urbanos conseguem mais alternativas. Essas diferenças surgem por facilidade no acesso tanto a alimentos quanto às oportunidades. No meio urbano você consegue adotar estratégias de um jeito mais fácil que no meio rural”, explica o pesquisador.

Insegurança alimentar grave continua mais presente no Norte e Nordeste

A insegurança alimentar aparece de forma desigual entre as regiões. O Norte e o Nordeste ficaram abaixo da média nacional: menos da metade de seus domicílios tinham segurança alimentar. Essa desigualdade já havia aparecido nas pesquisas de 2004, 2009 e 2013.

O cenário da insegurança alimentar é mais frequente nas duas regiões. Dos 3,1 milhões de domicílios com insegurança grave no país, 1,3 milhão estava no Nordeste, o que equivale a 7,1% dos lares. A forma mais restrita de acesso aos alimentos atingiu 10,2% dos domicílios no Norte (508 mil).

Assim como aconteceu no cenário nacional, a segurança alimentar dessas regiões vinha aumentando desde 2004, mas regrediu em 2017-2018. Em 2004, a segurança alimentar estava presente em 53,4% dos domicílios do Norte e chegou ao seu ponto mais elevado em 2013 (63,9%), mas caiu para 43% na última pesquisa. Em 2004, 46,4% dos domicílios do Nordeste estavam em situação de segurança alimentar, atingindo 61,9% em 2013 e caindo para 49,7% em 2017-2018.

As demais regiões superaram a média nacional: Centro-Oeste (64,8%), Sudeste (68,8%) e Sul (79,3%). Apesar disso, elas também atingiram o menor percentual de segurança alimentar desde que os dados começaram a ser levantados.

Alimentos básicos têm maior peso no orçamento dos domicílios com insegurança alimentar

À medida que aumentam os níveis de severidade da insegurança alimentar, a participação percentual das despesas com alimentação também vai crescendo. Nos lares em que há segurança alimentar, o percentual mensal das despesas com alimentos foi de 16,3% em relação ao resto das despesas de consumo. Já nos domicílios com insegurança grave, esse percentual era de 23,4%.

As despesas com alimentação, representavam 14,2% da despesa total e 17,5% das despesas de consumo das famílias do país. A pesquisa agora aponta que a maioria dos gastos entre os grupos de alimentos diminui à medida que aumentam os níveis de insegurança alimentar. Ou seja, pessoas que têm maior restrição no acesso ao consumo de alimentos gastam menos com determinados produtos, como frutas, carnes e laticínios.

O gasto médio mensal familiar com carnes, vísceras e pescados em domicílios em situação de segurança alimentar, por exemplo, foi de R$94,98, ao passo que essa despesa foi de R$65,12 entre as famílias em que há privação mais severa de consumo de alimentos. Por outro lado, o gasto com alimentos mais básicos, como arroz, feijão, aves e ovos é maior entre o grupo de insegurança alimentar grave. A maior diferença foi observada em relação ao arroz: o gasto médio mensal dos domicílios em segurança alimentar foi de R$11,32, enquanto nos de insegurança alimentar grave foi de R$15,01.

“Além de o alimento ter uma importância maior dentro dos gastos, essas famílias têm um padrão de consumo diferente. Nele você vê que a importância de cereais e leguminosas é grande nas famílias com insegurança alimentar, tanto em termos de gastos quanto em termos de quantidade”, destaca José Mauro de Freitas, técnico da equipe da POF.

Mais da metade dos domicílios com insegurança alimentar grave são chefiados por mulheres

O homem é a pessoa de referência em 61,4% dos domicílios em situação de segurança alimentar. Já nos domicílios em condição de insegurança alimentar grave predominam as mulheres (51,9%).

“Há vários estudos que tratam dessa situação. Fatores como a condição de acesso ao trabalho acabam gerando menos renda e mais dificuldade no orçamento doméstico, fazendo com que os domicílios fiquem mais propensos à insegurança alimentar”, explica André.

Na análise por cor ou raça, os domicílios em que a pessoa de referência era autodeclarada parda representavam 36,9% daqueles com segurança alimentar, mas ficaram acima de 50% para todos os níveis de insegurança alimentar (50,7% para leve, 56,6% para moderada e 58,1% para grave). Já em 15,8% do total de domicílios com insegurança alimentar grave, a pessoa de referência era autodeclarada preta. Nos domicílios com segurança alimentar, esse percentual é 10%.

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Fonte artigo Brasil 247

https://www.brasil247.com/brasil/movimentos-sociais-se-unem-contra-fome-na-abertura-da-semana-nacional-da-alimentacao?utm_ campaign=os destaques_

Publicado em 13/08/2020

 

Fonte artigo IBGE sobre a Segurança Alimentar

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/28903-10-3-milhoes-de-pessoas-moram-em-domicilios-com-inseguranca-alimentar-grave

Publicado em 17/09/2020


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POVOS INDÍGENAS - PERSEGUIÇÃO E DESPREZO PELOS CUIDADORES DA MÃE TERRA

9 de outubro de 2020

 


Crescem os ataques a territórios indígenas

 

Por: José Ambrósio dos Santos*

 

As declarações do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) apontando índios e caboclos como responsáveis por parte das queimadas que fazem a Amazônia arder, no dia 22 de setembro, não denotam ignorância. Pelo contrário, explicitam ‘a atenção’ que o governo dá à região e aos ‘guardiões’ das florestas, vistos pelo mandatário como predadores.

Artigo publicado em O Globo assinado por Lucia Helena Rangel, que é antropóloga, professora da PUC/SP e assessora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e Roberto Antonio Liebgott, coordenador do Cimi Regional Sul, no qual analisam o recém-lançado relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil”, do Cimi, destaca que o ano de 2019, o primeiro sob a presidência de Bolsonaro, registrou um crescimento inédito das invasões e danos ao patrimônio indígena: foram 256 casos, 135% a mais do que no ano anterior.

Afirmam que a violência e as violações contra os povos indígenas no Brasil são práticas sistemáticas. “Elas formam a base sobre a qual, desde 1964, projetos desenvolvimentistas avançaram, ao custo de expropriações forçadas, redução ou eliminação de territórios, epidemias induzidas e assassinatos de lideranças. Nos últimos anos, porém, temos assistido a uma escalada sem precedentes nos ataques aos territórios, inclusive com a venda de lotes de terra em áreas demarcadas.”

Os representantes do Cimi destacam que em 2019 e até setembro de 2020 não só nenhuma demarcação foi concluída, como, ao contrário, processos em estágio avançado retrocederam. Esta situação, observam, intensifica os conflitos em locais como o Mato Grosso do Sul, onde comunidades “vivem em verdadeiros campos de concentração, em acampamentos de beira de estrada ou em áreas degradadas.” Segundo eles, tanto a morosidade nas demarcações quanto a omissão frente aos ataques são produto de ações governamentais explícitas — como o desmonte dos órgãos de fiscalização. “Refletem, ainda, as posições expressas pelo presidente da República, que desde a campanha eleitoral afirma que não demarcará um centímetro de terra indígena.”

O Cimi começou a registrar regularmente as violências cometidas contra os povos originários na década de 1980. Desde então, utiliza estas informações em defesa dessas comunidades, fazendo denúncias a organismos nacionais e internacionais. Os representantes do Cimi registram que a cada publicação, percebe-se que as violências têm sido uma constante invariável, “praticadas por agentes ávidos pela destruição e apropriação dos recursos naturais em nome do lucro e de uma racionalidade econômica desenvolvimentista, que considera um atraso o desejo de trabalhar a terra em consonância com as necessidades familiares e com a transcendência que une matéria, espírito e cosmos.”

Eles reforçam que as violências contra os indígenas se caracterizam pela desqualificação destes povos como sujeitos de direitos, pela desvalorização das suas formas de produção — reativando os estereótipos de improdutivos, indolentes e obsoletos — e pela desumanização da pessoa indígena, historicamente considerada um “estorvo” para o progresso. “Essa compreensão resulta em variadas formas de agressão, passando por racismo, negligência, ameaças e assassinatos.

Lucia Helena Rangel e Roberto Antonio Liebgot dizem ainda que com a Constituição Federal de 1988 esperava-se que fossem implementadas políticas de respeito aos povos originários e seus territórios, já que os artigos 231 e 232 preveem a demarcação, proteção e fiscalização das terras indígenas e reconhecem esses povos como sujeitos de direitos em suas culturas, crenças e tradições. E advertem que a recente intensificação das violências “precisa ser entendida a partir dessa lógica estatal que remete à ditadura militar, quando se propagava a integração ou o extermínio dos povos indígenas do país.”

Essa devastação desenfreada já era denunciada por Vital Farias na década de 1980 em sua composição Saga da Amazônia.  A devastação é alertada já no início:

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
No fundo d’água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
E os rios puxando as águas

Mas aí veio caipora de fora para a mata definhar. (…)

O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
E o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
Depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
Igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar

A Amazônia e o Pantanal pedem socorro. Não há tempo a perder.

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*José Ambrósio dos Santos é jornalista e membro da Academia Cabense de letras.

Fonte do artigo: 

https://falouedisse.blog.br/?p=4203

Publicado em 6/10/2020

Foto destaque: Denisa Sterbova/Cimi – A comunidade Huni Kuī do Centro Huwá Karu Yuxibu, em Rio Branco, no Acre, teve 100 de seus 200 hectares queimados em 2019

O POTENCIAL DA NÃO VIOLÊNCIA ATIVA - ENTREVISTA COM A FILÓSOFA JUDITH BUTLER

3 de outubro de 2020

Hoje convido os leitores do Espaço Poese a fazerem uma pausa para refletirmos sobre a não violência. E nem será necessário que eu diga o porquê. Nada mais presente e impactante no mundo de hoje do que a violência - aqui veremos em quantas faces e disfarces ela se veste nos atos de muitos governantes e legislativos pelo mundo afora. Infelizmente, tudo indica que nós brasileiros ainda não perdemos a primazia dos melhores neste campo.   

 

Judith Butler reivindica

a não violência ativa

 

Filósofa vê o ato violento – irrealista e impraticável como caminho para a transformação contemporânea – como um produto do ego e o individualismo. E reafirma: é preciso driblar a “realidade” imposta pelo Estado e suas instituições


 CRISE CIVILIZATÓRIA

Por: L’Espresso (Itália) - Traduzido por: Moisés Sbardelotto/IHU

 

Judith Butler é uma das filósofas mais conhecidas do panorama contemporâneo. Ela inaugurou o debate sobre a identidade de gênero. Também se devem a ela importantes contribuições éticas e políticas centradas particularmente nos temas do poder e da violência. O seu livro mais recente, lançado na tália em setembro, pela editora Nottetempo: “La forza della nonviolenza. Un vincolo etico-político.” [A força da não violência. Um vínculo ético-político].

Butler conversou com Donatella Di Cesare, filósofa e professora da Universidade “La Sapienza” de Roma, em entrevista publicada por L’Espresso, em 27-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota deste blog - Pensando em facilitar a leitura desta excelente entrevista, indicamos, com os respectivos nomes, os trechos da professora entrevistadora e da filósofa entrevistada. Os negritos são nossos.

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Di Cesare - Em seu novo livro, você escreve que “vivemos em um tempo de grandes atrocidades e de mortes insensatas”. Essa correta constatação vem acompanhada da denúncia da violência perpetrada pelo Estado, que exerce seu próprio poder discriminando as “pessoas não brancas” e, em geral, criminalizando a dissidência. Como responder? De uma forma muito corajosa, você desconstrói o preconceito da esquerda em relação à não violência. E mostra como a autodefesa é ilusória: porque se pressupõe que haja um eu íntegro transparente, idêntico a si mesmo, embora saibamos muito bem que o “eu” está sempre implicado nas vidas alheias – e as vidas alheias no eu. Portanto, a alavanca do seu discurso sobre a não violência é a crítica à ética egolátrica.  Pode nos falar sobre isso?

Butler - Em muitos debates, a não violência é tratada como uma questão de moral individual ou como uma posição política irrealista e impraticável. Se considerarmos tanto a base ética quanto política da não violência, deveremos reconhecer que ela requer uma crítica do individualismo e uma rejeição da versão da realidade imposta pela “realpolitik”. Quando alguns de nós agem de modo violento, isso não vai apenas contra os objetos em si, os outros, as instituições e a natureza, mas também despedaça os laços sociais que nos sustentam.

É claro que existem instituições pelas quais somos explorados e prejudicados, além daquelas que realmente devem ser desmanteladas. A não violência pode envolver todos os tipos de estratégias de “desmantelamento”, incluindo a greve, o boicote ou o “deplatforming” (desmanche programático de uma plataforma). Porém, até mesmo uma violência considerada instrumental traz mais violência para o mundo, tornando-o um lugar ainda mais violento.

Além disso, a violência que ataca as nossas relações sociais acaba sendo um ataque contra nós mesmos, pois prejudica as condições de uma vida vivível. Ser não violento não significa demonstrar a nossa virtude como indivíduos, mas sim reconhecer que somos definidos pelas nossas relações sociais com outros seres vivos. Ou seja, significa compreender que somos seres relacionais e não egolátricos.

Di Cesare - O mito do Palácio de Inverno já ruiu há muito tempo. A violência na verdade acaba servindo-se de quem pretende usá-la como um simples instrumento. “Um ato violento contribui para a construção de um mundo mais violento”, você escreve. A não violência portanto, não é uma postura moral. Em vez disso, é uma política que deveria frear a destruição sistêmica. Muitas vezes, você também fala de “resistência”. É um sinônimo? Quem resiste não se resigna, aumenta a vigilância, abre caminhos transversais… Porém, isso me parece redutivo em comparação com aquilo que você quer dizer.

Butler - Se pensarmos na não violência de uma forma nova, não mais apenas como uma reação física, então poderemos começar a ver que instituições inteiras são violentas e que devemos lutar para modificá-las ou aboli-las. O movimento pela abolição das prisões, por exemplo, denuncia a sua violência. As prisões operam como se fossem legitimadas para punir quem está dentro. Mas a violência que elas exercem não difere daquela que pretendem punir ou conter. Isso vale ainda mais para os centros de detenção nos quais os migrantes são detidos em condições indescritíveis.

A política migratória deveria ser repensada e concebida como uma rede de distribuição de alimentos. A partir daí, deveríamos nos perguntar, então, o que significa reestruturar essas instituições e essas economias de uma forma não violenta. A resistência continua sendo para mim um termo importante, porque um aspecto da não violência é se recusar a reproduzir a violência sofrida por um indivíduo ou por um grupo, naquela que se tornaria uma escalada. Eu vejo a não violência no seu traço agressivo e criativo, mas também a vejo como uma forma de resistência. No entanto, é verdade que, para mim, “resistência” não é o único nome para essa política…

Di Cesare - Você faz referência a Gandhi. Parece-me que hoje há uma grande novidade no espaço público, ou seja, aqueles que eu chamo de “novos desobedientes”. Penso em Mimmo Lucano, em Carola Rackete. Mas não se trata da desobediência civil tradicional que, no fundo, não rompe com o Estado de direito. Os “novos desobedientes” se movem no limite do espaço público, cruzam-no, sacodem a arquitetura política, desestabilizam a ordem Estado-cêntrica. Não é por acaso que eles ajudam os migrantes… Por isso, são criminalizados.

Butler - Parecem-me muito interessantes esses movimentos que já recorrem ao digital e tentam usar o espaço público para desmantelar as políticas que produzem precariedade, racismo, violência contra as mulheres e as pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais).

E é particularmente interessante ver agora as suas ações em tempos de pandemia, por exemplo, as manifestações do Black Lives Matter, que seguem os protocolos de segurança e são predominantemente não violentas. As novas ideias de igualdade, liberdade e justiça não são mais geradas na política eleitoral, mas nos movimentos de massa. Quando a lei se torna injusta – como no caso da Europa, que criminaliza quem tenta salvar as vidas dos migrantes, – então é justo se tornar criminoso. Ou talvez devêssemos dizer “criminoso” entre aspas, pois é a própria lei que é criminosa. Da mesma forma, a resistência, durante o fascismo, teve que lutar contra um regime legal, mas violento e racista.

Di Cesare – No seu novo livro você relança uma crítica, que já havia delineado em parte, anteriormente, ao conceito de “vida nua”. Eu concordo muito com a sua crítica. Se dissermos que os migrantes amontoados nos campos de concentração ao longo das fronteiras da Europa são “vida nua”, correremos o risco de os relegar a um abismo apolítico, a uma indigência existencial da qual seria difícil sair. Em suma, essa tendência interpretativa “essencializa” a vida nua que, isolada no seu mutismo, oprimida no seu destino trágico, não poderia opor nenhuma resistência. Para você, os excluídos, mesmo assim, continuam sempre em uma relação…

Butler -Acima de tudo, devemos nos interrogar sobre a perspectiva em que se considera a “vida nua”. Eu acredito que, do ponto de vista assumido por Agamben, o da soberania estatal, aqueles que são “vida nua” foram privados de todos os direitos legais, até mesmo da condição de sujeito. A lei que deveria protegê-los é retirada ou suspensa por decisão soberana. É inútil dizer que eu estou bem ciente dessas exclusões da proteção legal e, obviamente, eu as critico. Além disso, certamente não faz sentido depender de um poder soberano onde é possível se retirar e assim evitar que o ser humano continue sendo exposto à violência e à degradação. O problema é que toda a cena é desenhada como se houvesse a lei de um lado e a vida do outro. Contudo, aqueles que são privados do status jurídico por vários poderes soberanos interconectados podem, mesmo assim, fazer parte de redes de solidariedade, podem agir politicamente e encontrar formas para defender a sua própria mobilidade. Ser abandonado pelas formas soberanas do poder não significa que não existam outras formas de resposta. Assim, um grupo pode ser abandonado, e precisamente como tal pode se organizar. Não vejo contradição nisso.

Di Cesare – Nem uma Menos” significa perdas que não deveríamos ter aceitado, mulheres que não são dignas de luto. Como você deve saber, na Itália as mulheres – refiro-me realmente a todas elas – são marginalizadas no espaço público. Se aparecem, pagam o preço do insulto sexista. E não por acaso o feminicídio é um evento quase cotidiano, aliás narrado em termos sensacionalistas ou na forma do epílogo inelutável. Depois de décadas, não se consegue articular outra narrativa e não se consegue ter voz. Muitas estão esgotadas.

Butler - Eu partilho esse mesmo desconforto. E mal consigo ler as estatísticas dos feminicídios em diversos países, incluindo os Estados Unidos. Temos um presidente que ficaria feliz em negar a existência desse crime. A lição que aprendi com as feministas latino-americanas é que matar uma mulher, uma trans, uma gay ou uma lésbica deve ser considerado um crime em si. Para muitas pessoas, essas mortes são um mistério, ou o resultado de paixões e encontros privados – mas não são entendidas como formas sistemáticas de violência que devem ser impedidas em nível político, institucional e especialmente na prática dos movimentos. Grande parte disso depende de como a história do feminicídio é narrada. Certos jornais fornecem versões sensacionalistas, e, por isso, o tema é ignorado.

A narrativa da singular vida de uma mulher (e obviamente incluo a das mulheres trans) deveria ser apresentada juntamente com uma análise que, além de dar conta do feminicídio, levasse em consideração todos os álibis que o endossam. O movimento Nem uma Menos conseguiu reunir milhões de pessoas (em vários países) que não só se opõem à violência contra as mulheres, mas que também pedem paridade salarial, assistência à saúde e formas mais radicais de liberdade social e política. É um movimento baseado na raiva e na alegria, e a isso ele deve o poder extraordinário que tem na América Latina e na Europa.

Di Cesare – Na minha opinião, a pandemia é um evento de época. Até ontem, podíamos nos considerar onipotentes entre os escombros, os primeiros e os únicos também no primado da destruição. Esse primado nos foi tirado por um poder superior ao nosso, e mais destrutivo. Além disso, o fato de ser um vírus, uma ínfima porção da matéria organizada, torna o evento ainda mais traumático. Até mesmo a menor criatura pode nos destronar, nos destituir, nos descalçar. Em sua opinião, vai mudar o nosso modo de viver e de perceber a vulnerabilidade?

Butler - Por um lado, o vírus nos expõe, faz-nos sentir criaturas precárias. De certa forma, não faz diferença entre ricos e pobres, porque de qualquer maneira estamos sempre sujeitos ao seu efeito letal. Por outro lado, porém, vemos que os países que adotaram poucas medidas são aqueles cujos hospitais têm falta de pessoal e estão mal equipados. A diferença entre quem vive e quem morre, então, depende da desigualdade social, do modo como os serviços públicos foram demolidos pelo neoliberalismo, mas também pelos sistemas de discriminação racial. Nos Estados Unidos, as comunidades não brancas sofrem de doenças graves, em alguns casos mortais, precisamente porque as instituições de saúde há muito tempo estão subfinanciadas – e essa também é uma forma de discriminação. O vírus, portanto, é destrutivo e nos faz sentir vulneráveis. Mas também nos leva a olhar para as formas brutais de desigualdade social que tornaram tantas vidas supérfluas. Cada vida, no seu potencial de dor, tem significado aqui e agora. Ainda não aprendemos a perceber a ideia da igualdade radical de todas as vidas, do seu igual valor. Para fazer isso, deveríamos primeiro nos perguntar quem são aqueles cujas vidas não são consideradas importantes, quem são aqueles cujas vidas não foram consideradas dignas de serem preservadas.

Para muitas pessoas, especialmente para as excluídas, humilhadas, abandonadas por governos nacionalistas e racistas, infelizmente a tarefa de sobreviver é cotidiana, e elas a enfrentam sem a ajuda institucional que deveria ser garantido a todos.

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Fonte da entrevista: https://outraspalavras.net/outrasmidias/judith-butler-reivindica-a-nao-violencia-ativa/

 

Crédito das imagens:

1. Judith Butler - foto da matéria aqui reportada.

2. Capa do livro lançado na Itália - ainda não traduzido para o português.

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