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45 POVOS INDÍGENAS LIDERADOS PELO CACIQUE RAONI LANÇAM UM MANIFESTO PELA VIDA

4 de fevereiro de 2020

Alegro-me de registrar aqui a memória de uma inspirada atitude do Cacique RAONI que, nos dias 14 a 17 de janeiro passado, reuniu mais de 600 pessoas representantes de 45 Povos Indígenas do Brasil e alguns colaboradores. Após quatro dias de diálogo e considerações, eles assinaram um manifesto pela vida denunciando o descuido e a perseguição que veem sofrendo do atual governo do Brasil.  

O Cacique Raoni Metuktire  é um líder indígena brasileiro da etnia caiapó originária de Mato Grosso. É conhecido internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas.

"O evento na Terra Indígena Capoto Jarina foi marcado de simbolismo. Além de um documento conciso, o encontro promoveu o diálogo entre os povos de todas as regiões do país" - escreve a jornalista Juliana Arini, da Agência Amazônia Real. No final da reportagem acesse a íntegra do manifesto
Segue o texto.


RAONI REÚNE 45 POVOS INDÍGENAS 

E JUNTOS LANÇAM  UM 

MANIFESTO PELA VIDA 

Vou continuar até quando meu corpo resistir. Estamos unidos para defender o povo e a terra”, declarou Raoni, em entrevista à Amazônia Real. Crédito da foto: Kamikia Kisedje/Cobertura Colaborativa.

Por: JULIANA ARINI  AGÊNCIA AMAZÔNIA REAL
Por quatro dias, a aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto Jarina (MT), tornou-se o centro do mundo para 45 povos indígenas. Cerca de 600 lideranças indígenas protagonizaram um evento inédito em todo o país, o Encontro dos Povos Mebengokrê. No final do encontro, após quatro dias e muitos debates, os povos indígenas deram um exemplo a todo Brasil durante a construção do documento “Manifesto do Piaraçu das lideranças indígenas e caciques do Brasil”.
O encontro foi idealizado pelo líder Kayapó Raoni, ou Raoni Metukire, em seu idioma materno, que mesmo com quase noventa anos, insiste em convencer os homens a repensarem a ocupação do planeta. “Não vou desistir, vou continuar até quando o meu corpo resistir. Se o homem branco insistir em cortar floresta, fazer barragem em rio, garimpo e destruir tudo, vou continuar aqui, lutando”, diz ele, durante entrevista exclusiva à agência Amazônia Real.


Cacique Raoni e o líder Megaron (ao centro), reunidos no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)

Raoni responde às indagações da reportagem com uma resolução que por trás de sua pintura tradicional camufla o peso da idade. Os olhos lacrimejam, não há mais a agilidade do guerreiro alto e esguio que começou a lutar pelo povo Kayapó nos anos de 1970, mas a sua determinação causa espanto. O líder permaneceu até o último momento da votação do documento, que envolveu discussões sobre os direitos das mulheres, o respeito aos jovens e, principalmente, como os povos indígenas vão enfrentar um grande desafio: as políticas anti-indígenas do atual governo brasileiro.
Os povos da floresta - representados pela filha do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Angela Mendes, que atua na coordenação do Comitê Chico Mendes - também participaram das discussões do documento.
“Desde o ano passado percebemos que precisávamos nos unir, pois os tempos atuais pedem que estejamos todos juntos. Temos um governo literalmente fascista”, afirmou Ângela, muito emocionada, após reencenar um momento protagonizado por seu o pai nos anos de 1980 ao se reunir com povos indígenas para firmar uma aliança dos Povos da Floresta.
O encontro na terra indígena Kayapó foi um sucesso. Eram esperadas 450 pessoas, mas o evento reuniu 600 participantes. Alguns convidados – e mais de 200 visitantes extras, bem recebidos -, viajaram por até cinco dias, dormiram em barracas, redes e em alojamentos improvisados para atender o chamado de Raoni. A grande maioria das pessoas era indígenas, somados a jornalistas nacionais e internacionais, e amigos de longa data do cacique.


  Encerramento do Encontro dos Povos Mebengokrê no Xingu - Foto de: 
  Todd Southgate/Cobertura Colaborativa.


O clima era de alegria, com os representantes de 45 povos vestidos nas cores de suas culturas originais
A reunião final, no centro da aldeia, com todas as lideranças e seus representantes que participaram da luta pela inclusão dos direitos indígenas na Constituição Federal de 1988, foi um dos momentos mais emocionantes.

As discussões do evento apontaram o governo do presidente Jair Bolsonaro como um dos principais inimigos dos povos indígenas hoje. “Queríamos que a Funai (Fundação Nacional do Índio) voltasse aos bons tempos. Estivesse fortalecida e com estrutura para ajudar os povos indígenas como nos tempos de Olímpio Serra, Sidney Possuelo, Claudio Romero e os outros presidentes que realmente pensavam nos povos indígenas”, conta Megaron Txucarramãe, tradutor, sobrinho e cotado para ser um dos possíveis sucessores de Raoni.


   Encerramento do Encontro dos Povos Mebengokrê no Xingu (Foto: Mídia Ninja/                 Cobertura Colaborativa)
 O retorno ao Xingu

Em sua casa, Megaron explicou à reportagem da Amazônia Real como a trajetória de Raoni forjou o líder atual. “Crescemos no Xingu. O povo Kayapó fez parte da diáspora dos povos que perderam o seu território com a abertura das estradas que cortaram a Amazônia a partir da década de 1950. Fomos levados para lá e por lá ficamos um tempo, até que decidimos voltar aqui para às margens do Xingu”, diz.

Raoni nasceu na aldeia Krajmopyjakare, hoje chamada Kapôt – filho do líder Umoro, uma grande liderança de seu povo. Apesar de só conhecer o “homem branco” em 1954, seu povo já sofria há décadas com os ataques.
“Não gostei quando conheci o homem branco. Tive medo, minha avó, de quem herdei o meu nome, sempre contava das histórias de ataques e mortes. Eles (brancos) no encurralaram aqui. Antes nosso povo andava por tudo. Goiás, Tocantins, até beira do Rio de Janeiro era nosso território de andar e migrar. Agora só conseguimos mudar um pouco aqui em nossa terra”, conta Tuíra Kayapó, prima consanguínea, mas ao mesmo tempo neta de Raoni, segundo a estrutura de parentesco dos Kayapó.
O evento na Terra Indígena Capoto Jarina foi marcado de simbolismo. Além de um documento conciso*, o encontro promoveu o diálogo entre os povos de todas as regiões do país.
“Cresci com Raoni no Xingu, e vou estar sempre ao lado dele. Nossa luta é igual, pelo território e cultura do povo indígena”, explica Afukaka Kuikuro, um dos grandes líderes do Parque Nacional do Xingu, uma das maiores terras indígenas do país
“Precisamos nos unir não só para defender território, mas para cuidar que os jovens tenham orgulho de ser indígena e veja futuro dentro de nossa cultura”, conclui o líder xinguano.


Paulinho Paiakan, no Encontro dos Povos Mebengokrê - Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
O encontro também resgatou a visibilidade de lideranças Kaypó históricas. É o caso de Paulinho Paikan, voz atuante entre seu povo no contexto político. “Não vou me calar quando for para defender a natureza. Esse é o meu direito a vida, e as ameaças cresceram muito”, disse ele à Amazônia Real.

“Pensei muito sobre isso tudo que tem nos cercados – ele explicou. Cheguei à conclusão que a soja é a ilusão do dinheiro. A dependência do dinheiro é algo que não tem fim, não se esgota; se entrarmos nesse caminho vamos nos devorar, não terá fim”.
Ameaças vizinhas

Capoto Jarina é um exemplo dos novos tempos entre os Kayapó. A terra indígena é cortada por uma estrada por onde trafegam inúmeras carretas de soja e gado. A estrada é o marco físico de dois territórios indígenas, o mundo Kayapó e o Parque Nacional do Xingu, mas em ambos os lados é possível perceber o quanto a floresta já sucumbiu ao corte de madeira. Uma franja de floresta rala e cercada do “mato-bravo”, trepadeira espinhosa também conhecida como “juquira”, toma conta do horizonte em ambos os lados.
No passado, conforme lembra Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), os próprios Kayapó chegaram a se envolver com corte de madeira e com garimpo, atividade que causava divisão entre eles. Santilli é reconhecido por sua atuação no indigenismo brasileiro, e foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) de 1995 a 1996.
“Por um tempo, os Kayapó estiveram envolvidos com o corte de madeira e garimpo, ainda nos anos de 1990. Eu me desentendi com muitas lideranças daqui para tentar mudar o pensamento deles. Mas Raoni nunca apoiou essa conduta e sua postura foi fundamental para que passassem a evitar o assédio do homem branco sobre as suas riquezas”, disse Marcio Santilli, em declaração à Amazônia Real.


Encerramento do Encontro dos Povos Mebengokrê no Xingu.
Foto: Todd Southgate/CoberturaColaborativa).

No Encontro na aldeia Piaraçu, Márcio Santilli contribuiu repassando informações aos indígenas sobre as atuais propostas do governo federal que envolvem o arrendamento de terras indígenas para não-indígenas e a regulamentação da mineração, na qual um dos pontos mais controversos é a proposta do governo de não dar poder de veto aos povos indígenas.

A formação de jovens lideranças também se mostrou um tema crucial para o futuro. As filhas de Paulinho Paiakan são exemplos desse novo modo de vida indígena
“Meu pai lutou muito para estudarmos, chegou a se desentender com os familiares, mas nós conseguimos. Minhas irmãs são enfermeiras, eu sou advogada e todas nós estudamos inglês. Sempre participamos do movimento indígena”, explica Paiakan Kayapó, que é vista como uma liderança pelo próprio Raoni.
“Precisamos dos jovens para manter a nossa luta. Eles são fundamentais”, afirma Aritana Yalapiti, um dos caciques xinguano presente na reunião. “Raoni desde muito cedo sempre foi esse líder, os jovens precisam buscar essa postura”, afirma.

Novos líderes
A delicada questão da sucessão de cacique Kayapó, é um tema pouco discutido. Nas terras indígenas poucos se habilitam a se candidatarem ou lutar pelo reconhecimento necessário para tornarem-se uma liderança.
Pai de dez filhos, Raoni perdeu em dois acidentes os herdeiros naturais. Seu primogênito morreu em um acidente pouco esclarecido nos anos de 1990, quando seu povo ainda vivia no Parque Nacional do Xingu. Após o incidente, Raoni migrou para dentro do território Kayapó, abandonando de vez o local para onde foram levados pelos sertanistas Orlando, Claudio e Leonardo Villas-Boas, à época do contato, em 1954.
A aldeia de Raoni é tão reservada quanto a possibilidade de manter um contato mais próximo com ele. Apesar de ser uma figura pública, Raoni é quase sempre esquivo ao assédio de quem o admira. A aldeia isolada é uma proteção ao cacique. O único caminho é o rio Xingu em uma viagem de mais de duas horas. Foi para lá que ele convidou o seu sobrinho Bepkmro Metuktire e atual tradutor para morar.
“Ele já expôs o seu desejo de me transmitir a liderança e pediu para eu estudar e me preparar”, explica Bepkamro, ou Ta-ú como é conhecido
Bepkamro é vice-presidente do Instituto Raoni, a associação que o povo Kayapó utiliza para captar recursos para projetos de economia sustentável, como atividades agroflorestais nas aldeias e para fazer eventos como os dessa semana. O cargo é outro símbolo de proximidade com Raoni. Antes dele, o segundo filho do cacique, Tedje Metukitire, falecido em um acidente de carro em 2004, ocupava o cargo.
Mas a sucessão do cacique para as lutas futuras também envolverá uma figura feminina, com já anunciou o próprio Raoni, quebrando a tradição de transmissão da chefia apenas aos homens. O nome dessa figura segue sem ser definido.
Hoje a mulher mais respeitada entre os Kayapó é Tuíra. Para ela a figura de Raoni foi fundamental para tornar-se uma líder. “Desde jovem ele sempre vem lutando, e me vez ver o sonho da luta e segui-lo, mas a liderança é dos jovens. Daqui em diante nosso futuro está com as jovens mulheres”, explicou.

   Encerramento do Encontro dos Povos Mebengokrê no Xingu (Foto: Mídia Ninja/                Cobertura Colaborativa)

Militância pacífica

Enquanto não há ainda a previsão de um sucessor, o cacique viaja para repetir a mesma mensagem em inúmeras entrevistas e discursos. “Enquanto o indígena tiver ameaçado, eu vou pedir a paz”, diz Raoni.
O início de sua cruzada envolveu encontro com vários presidentes brasileiros e estrangeiros. O primeiro deles foi Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, e o ultimo o presidente francês Emanuel Macron, em 2019. Raoni apenas não se encontrou ainda com o atual presidente brasileiro Jair Bolsonaro, com quem vive uma história mútua de aversão.
O discurso anti-indígena do presidente foi uma das razões do sucesso do encontro na Aldeia Piaraçu. O documento pode ser considerado símbolo da resistência indígena e dos povos tradicionais contra velhos inimigos dessas nações, como na abertura de novas áreas de floresta, a mineração e a disputa pela terra
“Essa reunião não veio para fazermos guerra. Estamos unidos para defender o povo e a terra. Quero que todo mundo respeite os indígenas e nos deixe viver paz”, concluiu Raoni, que na semana que vem estará em Oxford, no Reino Unido, em um seminário sobre meio ambiente e direitos sociais.
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Fonte do texto:
Íntegra do Manifesto dos Povos Indígenas reunidos pelo Cacique Raoni:
Veja também:
Para entender melhor a história de luta dos povos indígenas:
Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco fazendo um comentário nesta postagem. 


COP 25 - EMERGÊNCIA CLIMÁTICA - É PRECISO INTERROMPER NOSSA GUERRA CONTRA A NATUREZA

29 de janeiro de 2020


"Mudemos a política, e não o clima" - Greve pelo clima em Milão, na Itália.  Em 27 de setembro de 2019. — Foto: Antonio Calanni/AP


Continuamos a trazer aqui textos selecionados sobre questões de grande repercussão, e outras que não chegam a ser considerdas, na grande mídia, como temas vitais para a sociedade, como é o caso da questão climática. 


Todos os anos a ONU convoca a cúpula do clima para fazer um levantamento da situação global, e discutir novas políticas em defesa do Meio Ambiente. Embora precisemos considerar que muitos “acordos do clima” nem sequer são assumidos pelos países que se comprometeram, na prática nos interessam, para cobrar dos governos nos respectivos países.

De acordo com matéria publicada no g1.globo.com, líderes mundiais têm enfrentado uma pressão crescente, especialmente de jovens em todo o mundo, para que assumam políticas efetivas orientadas para evitar os impactos catastróficos produzidos pelo aquecimento global. 

A última cúpula do clima – chamada COP 25 - aconteceu em Madri, no período de 2 a 13 de dezembro de 2019. Cerca de 200 países estavam representados, chegando a mais de vinte mil pessoas presentes.  

Com uma participação mundial tão representativa, nas cúpulas que acontecem a cada ano, já deveríamos ter encontrado soluções para os graves problemas que assolam as cidades do mundo com inundações violentas, desflorestamentos e intermináveis queimadas que destroem a vida da Mãe Terra. Mas aqueles que as populações escolheram, para assumir essa tarefa, não correspondem a essas expectativas. 

Documentos científicos divulgados pela ONU informam que as emissões de gases causadores do efeito estufa continuam subindo – e não caindo, como deveria ser.

Na COP 25 o slogan adotado foi: "Hora da Ação" (Time for Action). Na abertura do evento, o atual secretário-geral da ONU, António Guterres,(*) afirmou que é preciso interromper "nossa guerra contra a natureza".

O principal desafio da COP 25 é acelerar o combate às mudanças climáticas. Eventos climáticos extremos, no mundo inteiro, como enchentes e queimadas, estão ligados ao aquecimento global causado pelo ser humano, conforme demonstram estudos científicos realizados em diferentes países.

Algumas informações acima foram recortadas da introdução de uma matéria divulgada no Blog do Camarotti – via g1, cujo texto central reproduzimos abaixo.

Conferência do clima da ONU
 COP 25 - em Madri

Principal desafio da COP-25 é acelerar o combate às mudanças climáticas




As negociações começaram na segunda (2/12) sob um cenário de impactos cada vez mais visíveis, como incêndios florestais se espalhando do Ártico e da Amazônia até a Austrália, e regiões tropicais atingidas por furacões devastadores.

O que está em jogo: metas mais ambiciosas

·   A próxima década é um momento crítico para evitar a catástrofe global. No Acordo de Paris, o compromisso assumido foi de manter o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis da era pré-industrial até o fim do século – o mundo já está, em média, 1,1ºC mais quente. Estudos recentes da ONU dizem que a meta precisa ser ainda mais rígida.

·    A  concentração dos principais gases do efeito estufa na atmosfera alcançou um recorde em 2018. Caso as emissões não sejam reduzidas em mais de 7% ao ano, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3,2ºC. Impactos são imprevisíveis.

·   Os dois maiores emissores de gases, Estados Unidos e China, apresentam posicionamento dúbio. O presidente Donald Trump anunciou a saída do Acordo de Paris, adotado em 2015. A China vem assumindo discurso mais favorável ao combate ao aquecimento global, mas, na prática, constrói mais usinas de carvão.

·      Em Paris, 70 países se comprometerem a neutralizar emissões até 2050 – mas não são os maiores emissores de gases. Isso significa que esses 70 países prometeram equilibrar as emissões de carbono com tecnologias de captura de gases ou plantando árvores, por exemplo, e atingir "emissões zero".
·  Compromissos assumidos, no entanto, são voluntários. A ONU não tem mecanismos que obriguem os países a cumprirem as promessas assumidas no Acordo de Paris.       A COP 25 é a última conferência do clima antes da década de 2020. Restam dúvidas sobre como realizar a transição para energias limpas e, mais do que isso, como financiar esse processo.
·    O ministro brasileiro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que vai cobrar recursos de países ricos na COP 25 para a preservação do meio ambiente no Brasil. O Acordo de Paris prevê contribuições voluntárias dos países desenvolvidos aos países em desenvolvimento, por meio de um fundo. No entanto, isso ocorre num momento em que a pauta ambiental do país vem sendo questionada: a Amazônia registra aumento no desmatamento e manchas de óleo atingem centenas de praias brasileiras, sem um culpado ou origem do óleo identificados.

·   O mercado de créditos de carbono atualmente funciona somente a partir de acordos entre empresas e governos, pois o sistema ainda não foi completamente implementado. Isso também foi discutido na COP 25. Além disso, foi previsto debater as operações de um fundo de US$ 100 bilhões para iniciativas de financiamento entre países.













 O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez — Foto: Andrea Comas/AP


Início da COP 25


Michał Kurtyka - ministro polonês do clima que liderou a rodada anterior de negociações climáticas da ONU, em 2019, na cidade polonesa de Katowice - disse que um aumento no ativismo climático entre jovens enfatizou a urgência da questão – conforme a agência Reuters.

"Talvez o mundo ainda não esteja se movendo no ritmo que gostaríamos, mas minha esperança ainda está particularmente entre os jovens. 

Eles têm a coragem de falar e nos lembrar que herdamos este planeta de nossos pais, e precisamos entregá-lo às gerações futuras".


A conferência tem como objetivo estabelecer as peças finais necessárias para apoiar o Acordo de Paris de 2015 para combater as mudanças climáticas, que entra em uma fase crucial de implementação no próximo ano. 

As promessas existentes feitas sob o acordo estão aquém do tipo de ação necessária para evitar as consequências mais desastrosas do aquecimento global em termos de elevação do nível do mar, seca, tempestades e outros impactos, de acordo com os cientistas.

Mais de 50 chefes de Estado devem comparecer à COP 25, mas nem o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, nem o americano, Donald Trump, confirmaram presença.

Guerra contra a natureza

O secretário-geral da ONU, António Guterres (*), afirmou que é preciso interromper "nossa guerra contra a natureza". Ele lembrou que estamos cada vez mais próximos de um "ponto de não retorno", e denunciou a falta de vontade política dos líderes globais para reduzir as emissões de gases estufa.
"E sabemos que é possível", disse Guterres


"Simplesmente precisamos parar de cavar e perfurar para aproveitarmos as vastas possibilidades oferecidas pelas energias renováveis ​​e pelas soluções baseadas na natureza.




A emissão de gases causadores do efeito estufa precisa diminuir mais de 7% ao ano no período entre 2020 e 2030 para que o aumento na temperatura média global seja de apenas 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais – conforme relatório lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Guterres disse que a meta atual não é suficiente. E afirmou:

“Os grandes emissores não estão fazendo sua parte e, 
sem eles, nossas metas são inatingíveis”.


O que são as cúpulas anuais do clima 

As cúpulas anuais do clima são organizadas como uma “Conferência das Partes” realizada anualmente por representantes de países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). A convenção é um tratado internacional com objetivo de lidar com o aquecimento global, refletindo sobre o que já foi feito e o que ainda precisa ser adotado.

Em 2019 a conferência chegou à sua 25ª edição. Por isso o nome "COP25". A
próxima reunião, a COP26, será em Glasgow (Escócia), em novembro de 2020.

A Conferência do Clima da ONU estava marcada para acontecer em Santiago, no Chile. Mas, devido à onda de protestos que o país atravessa, o presidente Sebastián Piñera decidiu cancelar a sua realização no país. A Espanha se ofereceu para receber o evento, em Madri.

Posição do governo Bolsonaro

No ano passado, o Brasil também desistiu de sediar Conferência do Clima da ONU devido a restrições orçamentárias. A decisão ocorreu ainda durante o governo Michel Temer, mas, já na transição, o presidente Jair Bolsonaro disse ter recomendado que o encontro não fosse realizado no país, pois "custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil".

Segundo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o governo brasileiro pretende aproveitar a COP25 para apresentar propostas que facilitem o financiamento estrangeiro de medidas de preservação ambiental. Ele afirma que o Brasil já conduz medidas de preservação ambiental e que é preciso ser remunerado pelo que já realiza na área.

Salles diz que vai cobrar recursos de países ricos para preservação do meio ambiente. Salles se refere ao mecanismo de cooperação internacional por meio de um fundo global – o "Green Climate Fund" – por meio do qual países desenvolvidos podem ajudar a financiar projetos em países mais pobres. Entretanto, embora Salles tenha cobrado recursos, esses pagamentos não são obrigatórios.

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Para saber outros comentários sobre a posição do Governo brasileiro, representado na COP25 pelo Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, veja: 

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Emergencia-climatica/3/46233  - 12/01/2020
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Fonte do texto:


Créditos das Imagens:

1. Foto de abertura - Protesto na Italia - Antonio Calann/AP
2. Foto do secretário-geral da ONU, António Guterres, com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez —  Andrea Comas/AP
3. Foto de Michal Kurtika, ministro do Clima na Polônia - www.msn.com.jpg
4. Foto do Secretário Geral da ONU, António Guterrez, ex-primeiro ministro português - www.dv.com.jpg

(*) O Secretário-geral da ONU António Guterrez é engenheiro, político e diplomata português - e foi primeiro ministro do seu país. Assumiu o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas desde 2017.


Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 


Para mais informações leia:





O DESAFIO DA COMUNICAÇÃO PARA A MUDANÇA

17 de janeiro de 2020

Em dezembro passado publicamos um excelente texto escrito por Herbert de Souza, o Betinho* – um dos grandes ativistas defensores da democracia brasileira no período da ditadura militar em nosso país. Seu texto fala da importância da cultura para a construção da democracia brasileira.

Hoje nos deparamos com uma assustadora informação que nos chocou profundamente: o Secretário do Ministério da Cultura – Roberto Alvim – tratou de apropriar-se da tradução literal de uma decrépita prática da ditadura nazista de anos atrás, apresentando-a em vídeo como uma orientação de sua pasta para a comunicação no país. 
    
     Vejamos o que informa o jornal El País:

    "Ao som de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler, o secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, plagiou em pronunciamento que foi ao ar nas redes sociais trechos de um discurso do ministro da Propaganda do führer nazista, Joseph Goebbels. “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa (...) ou então não será nada”, diz Alvim no vídeo. O líder nazista havia dito: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferrenhamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa (...) ou então não será nada”. O caso suscitou revolta nas redes sociais e a manifestação dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Supremo, Dias Toffoli. A Confederação Israelita do Brasil considerou “inaceitável” o uso do discurso. No início da tarde desta sexta, o Governo demitiu o secretário, alegando que o pronunciamento “tornou insustentável” sua permanência”.

Há novos ventos distantes e bem diferentes, a serem observados. No governo  do Estado do Vaticano, o Papa Francisco vem atuando como lhe é possível, no intuito de acompanhar os dias atuais. Apesar do  engessamento dos seus ministérios (a chamada Cúria Romana) Francisco propôs recentes mudanças  organizacionais, a partir de 2020.

No dia 23/12/2019, o Papa fez um discurso dirigido ao corpo cardinalício da Cúria Romana. Coube a ele apresentar as propostas de mudança na prática de governança da Cúria. Na sua fala, referindo-se a cada pasta, o papa insistiu na importância da comunicação, e sugere aos Ministérios Vaticanos – ditos “dicastérios” – mudanças no modo como a comunidade eclesial deveria se comunicar com o mundo de hoje. 

Suas atitudes e palavras buscam identificar e iluminar critérios para dialogar, formular, produzir e divulgar informações nos moldes de comunicação da era digital e imagética. O modo de governar de Francisco, em diálogo com os responsáveis dos dicastérios, poderiam também servir aos políticos de boa vontade que se preparam para as próximas eleições no Brasil. O Papa nos mostra a urgente necessidade de se conhecer, de fato e na prática, os clamores das populações locais, para que se possa ir em busca de respostas, criando políticas  e programas efetivos e eficazes de governo.  

Estamos a viver, não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época. As mudanças já não são lineares, mas de época; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência”.

“Obviamente, não se trata de procurar a mudança por si mesma nem de seguir as modas, mas de ter a convicção de que o desenvolvimento e o crescimento são a caraterística da vida terrena e humana, enquanto no centro de tudo, segundo a perspectiva do crente, está a estabilidade de Deus.” (*)
   
Falando sobre a tarefa do recém-criado Dicastério para a Comunicação, o papa enfatiza:  “A perspectiva que se nos depara é a da mudança de época, pois ‘largas faixas da humanidade vivem mergulhadas no ambiente digital de maneira ordinária e contínua.’ Já não se trata apenas de ‘usar’ instrumentos de comunicação, mas de viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos muito profundos na noção de tempo e espaço, na percepção de si mesmo, dos outros e do mundo, na maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar em relação com os outros. Uma abordagem da realidade que tende privilegiar a imagem com relação à escuta e à leitura, influenciando o modo de aprender e o desenvolvimento do sentido crítico". (Francisco - Exortação Apostólica pós-sinodal Christus vivit, 86).

Mas Francisco, ao buscar conhecer a realidade usa o discernimento. “Aqui é necessário advertir contra a tentação de assumir a atitude da rigidez - ele insiste. Esta nasce do medo da mudança e acaba por disseminar estacas e obstáculos pelo terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio. 

Lembremo-nos sempre de que, por trás de qualquer rigidez, jaz um desequilíbrio. A rigidez e o desequilíbrio nutrem-se, mutuamente, num círculo vicioso. E hoje essa tentação da rigidez tornou-se muito atual”.

Voltando à questão da “cultura”, retorno ao artigo de Betinho, como oferta de clareza e de conhecimento de causa das dificuldades a serem enfrentadas em governos autoritários, como acontecia e volta a acontecer agora, em nosso país. O seu é um texto incisivo e ao mesmo tempo poético, cheio de fé, e carregado da vontade de enfrentamento e mudança. Muitos, como ele, se inscreviam no mundo cultural daquele período da ditadura militar.

A cultura está entre nós, sempre - afirma Betinho. É no campo da consciência que o mundo se faz ou se desfaz, é nesse universo da imagem, do som, da ação, da ideia. Tudo se resolve na criação. É na invenção que o tempo volta atrás e o atrás vai para frente. É onde o homem vira bicho, bicho conversa com gente. É onde eu sou Guimarães e você é Rosa. É onde fica como dantes ou tudo muda num átimo. É onde você se entrega de mãos amarradas ou se rebela de faca no dente. É onde o silêncio vira pedra ou o grito rompe tudo e esparrama vida por todos os poros. E onde o risco chora e o choro é o começo da cura. 

Foi o mundo da cultura que primeiro aceitou o desafio de mudar. De criar um outro Brasil. Sem pobreza e sem a arrogância dos ricos. 

Um Brasil totalmente simples, mas radicalmente humano. Um Brasil onde todos comam todos os dias, trabalhem, ganhem salários, voltem para casa e possam rir, beijar a mulher que ama, a filha que emociona, abraçar o amigo na esquina, se ver no espelho sem chorar pelo que não realizou”.

Inspirados nas palavras de Betinho, precisamos continuar sonhando e agindo, a fim de contribuir - como cidadãos e como políticos - em colaboração e de forma cooperante, na necessária e incessante caminhada de reconstrução da democracia em nosso país.  

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 (*) Numa das suas orações, o cardeal Newman afirmava: «Não há nada de estável fora de Vós, ó meu Deus. Vós sois o centro e a vida de todos aqueles que mudam, que confiam em Vós como seu Pai, que levantam os olhos para 
Vós e que são felizes por se colocarem nas vossas mãos. Eu sei, meu Deus, 
que devo mudar, se quiser ver o vosso rosto» (Meditazioni e preghiere, ed. 
G. Velocci, Milão 2002, p. 112).

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Fonte das informações, no corpo do texto:

www.vaniserezende.com.br – dezembro, 2019.


Crédito das Imagens

1. Recorte da imagem do vídeo do Sr. Roberto Alvim divulgada pela TVT.

2. Richard Wagner - reprodução:
http://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia-richard-wagner-o-revolucionario.

3. Jesus em missão - obra de Adolfo Perez Esquivel - Prêmio Nobel da Paz - www.adplfoperezesquivel.org

4. Papa Francisco - O Pastor - www.centraldenoticias.radio.br

5. Cantadores de Viola - talha de JBorges 


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