Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

FLIP 2018 - MARIA TEREZA HORTA - EU SOU MINHA PRÓPRIA POESIA

29 de junho de 2018

Julho, o mês da Flip, já está chegando... O blog Espaço Poese seguirá publicando informações mais detalhadas desse evento tão importante para a Literatura, que se realiza em Paraty, cidade costeira do estado Rio de Janeiro. A escritora brasileira homenageada do evento Hilda Hitz e a poetisa portuguesa Maria Tereza Horta - convidada especial - abrem o verbo, eu diria, para falar do sentimento erótico no amor e na paixão. Maria Teresa Horta,  hoje com 80 anos, participou das lutas contra o patriarcado e o salazarismo, no Portugal do seu tempo. Vejam que matéria bonita, sobre essa mulher, publicou 'El País', para o nosso deleite. 
O autor do artigo é o jornalista Andre Oliveira.

---------------------------------------------------

Convidada da Flip, a poetisa Maria Teresa Horta, fundiu a luta feminista à  sua literatura.

Na altura de lançar seu primeiro livro de poesias, 'Espelho Inicial', em 1960, a escritora portuguesa Maria Teresa Horta ouviu de seu pai: “Tem cuidado com o que vais publicar, porque usas o meu nome”.  Foi aí, talvez, que ela descobriu, pela primeira vez, que às mulheres nem o nome era permitido e que ser autora já representava uma transgressão por si só, no Portugal salazarista em que vivia. Hoje, aos 80 anos, Teresa Horta tem mais de duas dezenas de livros entre poesia e ficção publicados, continua trabalhando incansavelmente e é também a mais nova autora anunciada na programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece no final de julho.

“Foi a primeira pessoa que tentamos trazer para a Flip deste ano, em uma mesa especial, um encontro com a autora para falar sobre sua trajetória. Infelizmente, ela não pode viajar de avião por questões de saúde, então decidimos fazer sua participação via vídeo”, diz Josélia Aguiar, curadora do evento literário. 

O encontro terá a presença de outras duas escritoras, ainda não divulgadas, que irão  dialogar com Teresa Horta através de vídeos previamente gravados em Lisboa, onde vive a escritora. “Será uma mesa sobre a poesia de Maria Teresa, sobre ela e sobre a conexão poética entre Brasil e Portugal”, diz Aguiar.

Pouco conhecida por leitores brasileiros e com apenas alguns livros publicados no país – como Cem Poemas [antologia pessoal + 22 inéditos], da editora 7 Letras, e o de contos Azul Cobalto, da Oficina Raquel – Teresa Horta, além de amplamente estudada na academia, é uma das poetisas (como ela própria gosta de ser chamada, em oposição a poeta) portuguesas, mais conhecidas internacionalmente. 

Com uma carreira literária que se confunde com sua atuação feminista e política, tem também diversos pontos de contato e semelhanças com Hilda Hilst, a poetisa homenageada nesta 16ª edição da Flip. “Elas operam em uma dimensão muito parecida. Seu último livro, Anunciações [de 2016], por exemplo, conta a história do encontro amoroso entre Maria e o anjo Gabriel, algo que poderia ter sido facilmente escrito por Hilda”.




Em 1972, ainda sob o salazarismo, Maria Teresa Horta, ao lado de duas amigas também escritoras, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa – as três Marias –, ficou famosa depois da publicação do livro Novas Cartas Portuguesas, um libelo literário feminista contra o fascismo e o patriarcado, composto por cinco cartas com uma narrativa não-linear. 

“O Novas Cartas faz referência às cartas de amor de Mariana Alcoforado, uma freira do século 17, ao seu amante, um soldado francês”, diz Raquel Menezes, editora da Oficina Raquel. Escritas a três mãos, as novas cartas acabaram por se transformar em um símbolo da queda do regime salazarista – comandado, então, por Marcelo Caetano – que aconteceria dois anos depois.

“O texto não era bem vindo porque discutia patriarcado, paternidade, feminismo. Recuperaram essa personagem, Mariana, enclausurada em um convento do século XVII, muito provavelmente contra sua vontade, para falar do enclausuramento português do século XX”, diz Menezes. 

“Após a publicação, aconteceu o que esperávamos: perseguição política, proibição de venda da obra, passaportes apreendidos, idas à Polícia Judiciária e o processo posto pelo Governo de Marcelo Caetano, por obscenidade, pornografia e atentado aos bons costumes”, conta Teresa Horta em entrevista ao EL PAÍS por telefone. Omitindo a autoria dos trechos do livro, as três Marias enfrentaram a perseguição com o apoio internacional de figuras como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e Christiane Rochefort. “Foi o maior movimento de solidariedade feminina internacional de que há memória”, diz a escritora.

Nessa época, contudo, Teresa Horta já era uma autora conhecida e perseguida pelo regime português. “A explosão do Novas Cartas, foi antecipada pela publicação de Minha Senhora de Mim, de 1971, em que Maria Teresa revisitou a lírica tradicional portuguesa ao escrever poesias com fundo erótico”, diz Ana Maria Domingues, doutora em Letras pela Universidade São Paulo (USP). 

O livro, segundo Domingues, faz uma releitura do trovadorismo galego-português, do século XI, sobretudo das cantigas de amigo, que tradicionalmente eram de homens, mas tinham um eu lírico feminino apaixonado. “A Maria Teresa fez uma releitura disso, colocando agora, de fato, uma mulher como autora, reivindicando seu direito à escritura e à própria voz”, diz.

Depois da publicação de Minha Senhora de Mim, o livro foi apreendido, a editora Dom Quixote foi ameaçada de fechamento caso publicasse a poetisa novamente e ela própria foi vítima de atentados. Primeiro começaram a telefonar em sua casa e para o jornal em que trabalhava, depois, um dia, foi espancada por três homens que a atiraram no chão e, sem parar de bater, gritavam: “isto é para aprenderes a não escrever como escreves”. 

Não funcionou. “Se eu tivesse ficado com medo, nunca teria escrito o Novas Cartas, que nós três resolvemos escrever justamente por causa da repercussão de Minha Senhora de Mim. Há pessoas que não se calam e eu não nasci para me calar”, diz Teresa Horta.

Em 25 de abril de 1974, poucos dias antes de uma audiência judicial que julgaria as três Marias aconteceu a Revolução dos Cravos – “o dia mais feliz da minha vida depois do nascimento do meu filho”, diz a autora –, Marcelo Caetano, que em sua juventude nos anos 1920 já havia perseguido outra poetisa, Judite Teixeira, caiu; o regime acabou; o processo contra elas foi extinto; e Teresa Horta deixou de ser uma autora perseguida em Portugal para se tornar um símbolo literário e de resistência do país. 

“Dos 15 anos até o 25 de abril, eu só fiz lutar contra o fascismo. Meus livros depois do 25 de abril são outros e diferentes entre si, mas têm uma raiz idêntica, que são as coisas que eu reflito sobre a vida. Minha poesia nunca deixou de ser uma arma”, diz.

Por trás das possíveis razões de Maria Teresa Horta chegar a 2018 como uma autora pouco conhecida na Flip, está o próprio quinhão brasileiro de fascismo. Em 1974, quando o mundo parava para assistir a Revolução dos Cravos e comentava sobre as Novas Cartas Portuguesas, o Brasil vivia os anos de chumbo da ditadura civil militar

Assim, em dezembro do mesmo ano, quando Teresa Horta veio pela primeira vez ao país, foi aconselhada a ser mais cautelosa em seus discursos, a falar mais baixo, a dissimular. Alguém de cima poderia se irritar. Anos mais tarde, em 2007, de visita ao país para um encontro literário na USP, lembrou um episódio acontecido na viagem anterior: “Por último, quando já na pista do aeroporto ia embarcar no avião, de regresso ao Rio, fui barrada por dois indivíduos que se identificaram como sendo da polícia política e me ‘aconselharam’ a voltar no dia seguinte para Portugal”. Claro, ela não obedeceu: “Voltei quando era de voltar”.


É uma escrita transgressora, conquistada a pulso da vida, da existência menor durante séculos imposta às mulheres. Por isso, aquelas que escrevem não podem ter medo de escutar o clamor
Hoje, anos depois, fala que é necessário ainda estar atenta ao “buraquinho” que o fascismo sempre espreita para regressar. E, por isso, diz-se feliz com os rumos do atual Governo de Portugal, encabeçado pelo primeiro-ministro socialista António Costa. “Somos um dos únicos Governos de esquerda em um mundo que está a ver renascer muito do fascismo”. Gostaria de ser até mais atuante, mas expressa seu contentamento com a primavera feminista do mundo e apoia os protestos das atrizes de Hollywood

“Estou contrária às francesas. Elas estão a ver se ganham a simpatia dos homens? É muito feio e muito triste”. diz. A simpatia ou aprovação de ninguém, ecoando a frase do pai que se preocupava com a própria honra na estreia literária da filha, nunca foi necessária, porque não deveria existir.

De sua casa, com caneta em punho, porque só escreve à mão – “uma vez tentei escrever no computador e a poesia desapareceu imediatamente” –, Teresa Horta ama seu passado – “viver em democracia é um sonho realizado para mim e eu vivo de sonhos” –, mas não teme o porvir. Ela, que explica não ter rotina, “porque a rotina é uma coisa anti-poesia”, escreve incessantemente. Ana Maria Domingues conta que em uma viagem pelo interior de Minas Gerais, a poetisa não parava de anotar em um moleskine por nenhum segundo, estivesse sentada ou em pé, andando ou parada. 

“É assim mesmo, a poesia aparece quando aparece e eu a aceito sempre”, diz. Na mesma conferência da USP, em 2007, falou: “É uma escrita transgressora, conquistada a pulso da vida, da existência menor durante séculos imposta às mulheres. Por isso, aquelas que escrevem não podem ter medo de escutar o clamor”.

Entre a (falta de) rotina imposta pela poesia, a autora ainda trava suas próprias batalhas. Em 2017, rejeitou uma indicação ao quarto lugar do Prêmio Oceanos que dividiria com o escritor brasileiro Bernardo Carvalho. Em uma carta, disse repudiar a classificação dada ao seu romance Anunciações e falou que não o aceitaria “por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobre sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra”. Na época, a romancista Inês Pedrosa disse sobre a questão: “Atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do prêmio representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado”.

Ao EL PAÍS, no final do telefonema, disse, como num último recado: “eu sou minha própria poesia”. A frase, que condensa seu trabalho, vida e batalhas, faz lembrar os versos de Ponto de Honra, em Minha Senhora de Mim:

"Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços

Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo

Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo o oposto do que ouço


Evito o que me ensinaram
Invento troco disponho

Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxaSou feiticeira
Sou poetisa e desato

Escrevo
e cuspo na fogueira".

-----------------------------------------

Autor do texto:
Andre Oliveira

São Paulo  - 4 de maio, 2018



--------------------------------

Crédito das Imagens:

1. Maria Tereza Horta - foto divulgação
2. As três Marias - foto do artigo aqui reproduzido: Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta.

3. As capas dos livros são reproduções.



Nota: Todas as imagens, aqui publicadas, pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida desse espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com






















CULTURA SUL-AMERICANA - O SÃO JOÃO E A FESTA DO SOL

23 de junho de 2018

Não podia deixar de homenagear a festa de São João, também este ano!  

Tenho grandes lembranças das brincadeiras e das muitas alegrias de quando eu vivia no Sertão, ainda criança, há cerca de 70 anos atrás...

Muita festa e comidas que juntavam as famílias e os vizinhos, amigos e convidados, para celebrar a amizade e o bem-querer! E para fazer as brincadeiras que nos  permitiam "adivinhar" o que poderia acontecer às nossas vidas, mais tarde, especialmente em relação ao parceiro ou parceira no amor. 

Também tenho lembranças das fogueiras que cheguei a observar, de longe, viajando em regiões interioranas da França, visitadas há anos atrás. E das festas em terras incaicas, que conheci nos anos '80, (Lima, Cuzco, Macchupichu, Arequipa...) de que fala o grande irmão e amigo beneditino Marcelo Barros, de quem reproduzo um texto postado no facebook. 



Lembro as rodas de assar castanhas de caju, quando nos juntávamos nas terras secas do semiárido, a fumaça, o tempo de assá-las e descascá-las para comer e oferecer aos outros... 
Ah! Foi um aprendizado que registrei na memória do afeto, para todo o sempre! 

 Segue o texto de Marcelo Barros                                                         

"Nossa aventura em direção à Luz"

Todo o Brasil, principalmente o Nordeste, festeja São João. Na cordilheira dos Andes, vestida de neve para a festa, nesses dias que vão do 21 a 24 de junho, se celebra o Inti Raymi, a festa do Sol. O centro maior das festividades é na fortaleza Sacsayahuaman, antigo centro de culto inca a dois quilômetros da cidade de Cuzco no Peru. 
No entanto, por toda a cordilheira, as comunidades indígenas marcam o solstício do inverno em nosso hemisfério com ritos dedicados ao Sol e a toda luz que clareia a nossa vida. Assim como na Páscoa judaica, as famílias jogam fora todo fermento que, por acaso, possa ainda se encontrar nas casas, as comunidades andinas ficam um dia ou dois sem acender nenhum fogo. Assim, celebram com maior intensidade o fogo novo que é aceso por aquele que simboliza o Inca. Em 1570, o governo colonial proibiu essa festa sob a justificativa de que ela era idolátrica e contra a Igreja Católica. Na verdade, o fato é que os índios organizados para a festa se sentiam mais fortes para armar resistências à escravidão e ao colonialismo. 
Mesmo proibidas, durante séculos, as celebrações sempre se mantiveram clandestinamente. Nunca os índios pararam de celebrar o Sol. Somente em 1940, a partir de antigos escritos contando em detalhe como eram os festejos, as comunidades retomaram a fazer a festa pública. Hoje, em Cuzco, essa festa reúne mais de cem mil pessoas.
Turistas vêm do mundo inteiro para participar. Certamente, para muitos, fazer festa ao sol tem uma dimensão mítica e folclórica. No entanto, é um rito que lhes faz retomar a relação com seus antepassados e honrar a natureza inundada de novo com a luz do sol. 
Nos tempos coloniais, os índios festejavam a luz, quando podiam sair da escuridão das minas nas quais, durante o dia, eram escravos. No Brasil colonial, as comunidades negras só podiam festejar seus Orixás durante a noite. E os senhores de engenho que ouviam os atabaques e os cânticos acreditavam que eram puros lamentos de escravos. Ao contrário, aqueles ritos faziam a religação dos filhos com os pais e as mães divinizados, assim como os índios andinos retomavam a sua condição de filhos e filhas do Sol. 

Atualmente, no mundo, enquanto os filhos e filhas do Sol celebram a sua dignidade no carinho à mãe Terra e nas margens do lago sagrado (o Titicaca), nos palácios dos grandes, a cada dia, governos monstruosos se dedicam a novos golpes contra os povos aos quais deviam servir. Na Colômbia, o presidente eleito é contra o processo de paz. Provavelmente tem negócios com os fabricantes de armas.

No Equador, o novo governo abre novos contratos com mineradoras que expulsam comunidades e destroem a natureza. No Peru, se sucedem governos e a política é a mesma. No Brasil, não precisamos comentar que todo brasileiro sabe o que estamos sofrendo. Nos Estados Unidos, o presidente tinha decidido de prender as mães e separá-las de suas crianças. Mesmo governadores do partido de Bush declararam que aquilo era um crime contra a humanidade. E a medida foi abolida. No entanto, o núcleo da desumanidade contra os migrantes continua. 

Eduardo Galeano contava que no Haiti o povo dizia que só se deve contar histórias à noite. De dia, é perigoso. Que histórias poderemos contar em nossas noites para que o sol venha iluminar um novo dia da libertação? É urgente nos organizarmos para a festa e, assim, nos sentirmos juntos nas lutas de hoje.


------------------------
21 de Junho às 21:23


Crédito das Imagens:

1. Quadrilha caipira  - foto de Elielma Santos. 
www.historiasecenariosnordestinos.blogspot.com
2. Roda de assar castanhas de caju no Sertão - arquivo blog Espaço Poese
3. Festa do Sol - www.h www.pacoteserotas.com 
4. Machupiccho - Festa do Sol - www.hotelurbano.com
5. Lago Titicaca, no Peru - www.hotel.urbano.com.br.jpg
6 - Mineiros no Equador - www.noticias.sapo.cv.jpg
7 - Fogueira de São João - www.apai.org.jpg

Nota: Todas as imagens, aqui publicadas, pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida desse espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

POLÍTICAS DE DIREITOS HUMANOS - OS EUA REGRIDEM

22 de junho de 2018





As informações da postagem anterior - sobre as prisões dos  imigrantes, nos EUA - assombraram o mundo. 
A revista americana "Time" fez críticas à política de imigração do governo estadunidense. A capa da revista (de 21/06) foi reproduzida e divulgada em todos os meios de comunicação. Trata-se de uma montagem da imagem do presidente Trump, olhando, da sua altura, e sem emoção, uma criança pequena, aos prantos, cuja foto original já era conhecida do mundo todo.




No site da revista Veja, do Brasil, (21/06/2018) se afirma: “A foto da menina imigrante, chorando ao ser abordada por oficiais da polícia fronteiriça americana, foi estampada em jornais e revistas de todo o mundo, na última semana, diante de denúncias gravíssimas sobre o tratamento recebidos pelos menores separados de seus pais ao tentarem entrar ilegalmente nos Estados Unidos”.
A Carta Capital, em artigo de Dimalice Nunes, sobre Política Migratória (20/06/2018) informa o seguinte:
“A saída do Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) na terça-feira 19 - que alegaram "preconceito crônico contra Israel" - coincide com uma grave crise na área para o governo Trump: a separação de famílias que tentam atravessar a fronteira do país. 
Em abril o procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, anunciou a política de tolerância zero do governo federal, medida prevê que todos os detidos ao tentarem cruzar ilegalmente a fronteira, incluindo requerentes de refúgio, sejam indiciados. Desde então, cerca de duas mil crianças foram separadas de suas famílias, gerando indignação e críticas de ambos os partidos norte-americanos - Republicano e Democrata - e de líderes internacionais. 

A crise se agravou nesta semana, quando imagens das condições em que essas crianças estão sendo mantidas vieram a público. (...) A instalação do Texas é conhecida como Ursula, embora os imigrantes a chamem de La Perrera, ou o canil, referindo-se às gaiolas instaladas no local que, além de imigrantes adultos, agora também são usadas ​​para albergar crianças, separadas de seus pais, depois de tentar atravessar ilegalmente a fronteira.”

Aconteceu que, com a expressiva reação mundial, as imagens de crianças separadas de seus pais, na fronteira dos EUA, repercutiram internacionalmente, mostrando-se inclusive os locais onde adolescentes e crianças estão sendo enviados (em especial no Texas e no Arizona).

Em alguns desses lugares, diz a revista Veja, no site da redação – as crianças são mantidas em celas separadas por redes de arame – uma espécie de gaiola. Enquanto os pais respondem à Justiça americana, muitas delas são entregues provisoriamente a outras famílias ou enviadas para instituições que cuidam de crianças abandonadas, vítimas de violência e órfãs”.

Mas, os correligionários de Sr. Trump o levaram a recuar, em relação à separação das crianças de suas famílias prisioneiras e Trump terminou assinando um novo decreto. Ao fazê-lo, informa a Veja, ele adota um tom sentimental, e se diz horrorizado pelas imagens de crianças separadas de seus pais”.

Os ‘sentimentos’ de Trump não duraram muito tempo. O chefe do governo americano, voltou a concentrar-se na visão política que, de fato, defende, em relação à imigração: ao anunciar o decreto, ele avisou: “A fronteira continuará forte. (…) Estamos nos assegurando de ter uma fronteira muito poderosa, muito forte, ele declarou, ciente da pressão de seu eleitorado médio, favorável a medidas duras contra a imigração ilegal”.

Seguem trechos do artigo de Dimalice Nunes, sobre o assunto:

“O representante republicano Mario Díaz Balart – escreve a jornalista  declarou que a prioridade é acabar com a separação dos pais de seus filhos após as detenções de imigrantes ilegais na fronteira, mas que nas próximas semanas serão apreciados também projetos que incluem iniciativas como o muro na fronteira com o México, a proteção dos chamados dreamers (imigrantes que entraram no país ainda crianças) e modificações nos programas de imigração, como o fim da loteria de vistos.”

E continua, ao escrever sobre a repercussão internacional desse fato:

“A crise migratória dos EUA já repercute
internacionalmente. 

"Donald Trump não é o líder moral do planeta e não pode falar em nome do mundo livre", afirmou o secretário-geral do Conselho da Europa, Thorbjørn Jagland reagindo à questão da separação de crianças migrantes de seus pais. "Tudo o que faz o exclui do papel que os presidentes norte-americanos sempre tiveram. Ele não pode mais falar em nome do que se chama mundo livre", acrescentou.

Indagado sobre a saída dos Estados Unidos Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDH), Jagland também afirmou que não era algo inesperado. "É só um exemplo a mais que demonstra que ele não quer tratados nem organizações internacionais baseadas em cooperação", explicou.

A primeira-ministra britânica Theresa May classificou perturbadoras as imagens de crianças imigrantes separadas de seus pais ao chegar aos Estados Unidos:  "As imagens da crianças detidas no que parecem ser jaulas são profundamente perturbadoras, é um erro, não é algo com que estejamos de acordo", afirmou May ante o Parlamento, quando foi indagada sobre a possibilidade de cancelar a visita de Trump ao Reino Unido em 13 de julho em função dessa situação. A premiê, no entanto, afirmou que o convite a Trump continua de pé.

O governo da Guatemala acusou os EUA de violar os direitos humanos dos imigrantes com sua política de tolerância zero. O país "lamenta, condena e rechaça a política migratória impulsionada pelo governo dos Estados Unidos por considerar que viola os direitos humanos e destrói a unidade familiar", assinalou a Chancelaria.” 
Ainda na Carta Capital, a jornalista afirma que “as críticas (ao governo dos EUA) não vêm apenas da oposição democrata. A ex-primeira dama Michele Obama, alinhada aos Democratas, retuitou outra ex-primeira dama, Laura Busch, esposa do republicano George W. Bush. "Às vezes a verdade transcende partidos", disse Michele ao compartilhar a indignação de Laura, "Esta política de tolerância zero é cruel. É imoral. Parte meu coração."

---------------------------------
Fonte das citações reportadas -
Por: Da Redação Veja - access_time21 jun 2018,
https://www.cartacapital.com.br/internacional/criancas-apartadas-dos-pais-e-os-direitos-humanos-seletivos-dos-EUA

 --------------------------------------
Crédito das imagens:


2. Garota hondurenha de dois anos chora, enquanto sua mãe é detida, em 12/6, na fronteira entre EUA e México. 
https://outraspalavras.net/capa/ainda-se-encarcera-crianças-no-seculo-21 /19.06.2018     

3. Aduana/EUA - Imigrantes pegos na fronteira são alojados em especie de jaulas, inclusive crianças.


Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

REFUGIADOS - GOVERNO DOS EUA AGRAVA A DOR DO MUNDO

20 de junho de 2018

Hoje, eu preferiria falar da celebração do solstício de inverno no hemisfério sul e de verão, no hemisfério norte, (21 ou 23 de junho), quando o Sol atinge o maior grau de afastamento angular do equador, no seu movimento aparente no céu, e se tem o dia mais curto do ano e a noite mais longa... E dizer que o nosso solstício – no Nordeste do Brasil – é comemorado com as fogueiras de São João, e as danças típicas das quadrilhas brincantes. 

Aconteceu que, nas minhas leituras diárias, me deparei com um artigo publicado no The Guardian - New York, fazendo-me lembrar que, no dia 20 de junho se comemora o dia dos Refugiados. Então, saí da alegria do solstício, para partilhar com os leitores uma informação que, como acontece com o sol, move os nossos corações e nos põe, mais uma vez, diante da dor que assola o mundo.


Ainda se encarceram crianças, no século 21?
PorAmanda Holpuch 
Repórter do The Guardian-NewYork Tradução: Mauro Lopes


Política anti-imigrantes dos EUA vai muito além. Em um ano, 38 mil foram presos, por serem estrangeiros. Um milhão de outros podem ser deportados. Crianças aprisionadas podem nunca mais encontrar os pais.

Um mês antes de Donald Trump promulgar uma política que permite a seu governo tirar milhares de crianças migrantes de seus país, o presidente disse duas vezes a multidões, em seus comícios, que membros de gangues de imigrantes não eram pessoas. “Eles são animais”, afirmou em maio. No último fim de semana, surgiram vídeos e fotos dos centros de detenção, semelhantes a gaiolas, onde crianças, separadas de seus pais, estão abrigadas.
O comentário de Trump foi dirigido a membros violentos da gangue MS-13 [uma gangue formada sobretudo por migrantes de origem salvadorenha Mara Salvatrucha’, uma combinação das palavras Mara (“gangue”), Salva (“Salvador”) e trucha (“malandros da rua”). Trump rejeitou a ideia de que estivesse falando sobre todos os imigrantes. Hoje, no entanto, na medida em que surgem críticas sobre um conjunto draconiano de políticas de imigração, ativistas e advogados especulam sobre até que ponto o presidente dos EUA, e sua equipe, estão dispostos a ir para impedir a entrada de imigrantes no país.
O exemplo mais extremo dessa política é a prática da separação familiar, com mais de 1.600 crianças tiradas dos pais. Ativistas dizem que a prática ocorreu discretamente, por meses, antes de o governo adotá-la como política em abril. “Isso vai totalmente contra o espírito com que este país foi fundado”, disse Janet Gwilym, uma advogada que representa crianças no estado de Washington. “Temos a responsabilidade moral de aceitá-los. É lei internacional aceitar refugiados; é o que são essas pessoas e, em vez disso, estamos apenas aumentando o trauma pelo qual elas estão passando.
Gwilym, diretora da filial de Seattle da Kids in Need of Defense – Kind (Crianças que Precisam de Defesa), um grupo de defesa de crianças imigrantes desacompanhadas dos pais, disse que crianças de 12 a 17 anos, que estão nos centros de detenção, consolam crianças que, como elas, acabam de ser tiradas de seus pais. Ela afirmou ainda que as crianças denunciam que as autoridades de imigração lhes dizem que elas vão ver seus pais novamente, em poucos minutos, mas que elas ficam sem vê-los por meses.
  
Mesmo diante da generalizada condenação bipartidária (democrata e republicana) e das advertências de organizações médicas sobre as consequências de longo prazo que essas separações têm sobre as crianças, Trump e seu gabinete permaneceram firmes. “Os Estados Unidos não serão um campo de migrantes e não terão instalações com benefícios para refugiados. Não seremos”, disse Trump em um encontro com a imprensa na Casa Branca, nesta segunda-feira (18/06).
Essa defesa estridente de Trump acontece na medida em que se aproximam as eleições de novembro, e dois anos depois da tentativa fracassada do presidente norte-americano cumprir sua promessa de campanha de expandir o muro fronteiriço entre o México e os Estados Unidos.
O Congresso não concedeu verbas a Trump para edificar novos trechos da muralha na fronteira, mas nesse ínterim, seu governo criou um muro invisível de políticas que os ativistas e advogados dizem que devem conter todos os tipos de imigração. A separação das crianças de seus pais é apenas a mais dramática de muitas medidas tomadas pela Casa Branca, para combater a imigração ilegal nos Estados Unidos.
As pessoas afetadas por essas medidas incluem refugiados e adultos e crianças sem o green card, que também foram alvo de uma série de ações, como o cancelamento de um programa de refugiados para crianças que viajam de “países perigosos” do norte da América Central até os EUA.
Há histórias diárias de pessoas sem visto - residentes nos Estados Unidos há décadas e com filhos nascidos no país - sendo localizadas em seus locais de trabalho e forçadas a voltar para seus países de origem. 
Quando se trata de população sem visto, que vive nos EUA, aos olhos do governo parece não haver mais nenhuma distinção entre criminosos violentos e pessoas que vivem discretamente há décadas, sem status legal. De outubro de 2016 a setembro de 2017, o Serviço de Imigração e Alfândega, dos EUA, prendeu cerca de 38 mil pessoas que não tinham condenações criminais – um aumento de 146% em relação ao ano anterior.
Da mesma forma que aplica a política de separação de famílias, o governo cancelou abruptamente um programa que fornecia suporte temporário para imigrantes sem documentação, conhecido como Dreamers (Sonhadores). 
Após o encerramento do Dreamers, e de um programa do governo de socorro aos migrantes - chamado Status Temporário de Proteção  destinado a pessoas de seis países - 1.038.600 pessoas não estão mais protegidas da deportação, segundo dados do próprio governo.
A repressão política avançou em muitas frentes, mas a virada mais extraordinária ocorreu em abril, quando o governo Trump possibilitou a separação familiar, dizendo que haveria “tolerância zero” para as pessoas que cruzam a fronteira ilegalmente. Na fronteira, os pais são considerados criminosos e separados de seus filhos, que não podem ser mantidos em centros de detenção para adultos.
A posição do governo, que inclui culpar os opositores do Partido Democrata e defender a separação das famílias, com base em supostos motivos bíblicos, ignora os alertas das principais organizações de saúde e bem-estar infantil do país, inclusive da Associação Americana de Pediatria.

Os pais também estão sofrendo comseparação dos filhos, disse Lee Gelernt, vice-diretor do Projeto de Direitos dos Imigrantes da ACLU (União Americanapelas Liberdades Civis). Gelernt entrou com uma ação coletiva, em março, contra a prática de separação familiar do governo Trump, após se encontrar com uma mulher congolesa que não via sua filha de sete anos havia quatro meses. Ela e sua filha foram reunidas depois que Gelernt entrou com uma ação legal em seu nome. “Essa é uma política de imigração chocante, a que vemos no governo Trump; francamente, venho fazendo esse trabalho há quase três décadas, e essa é a política de imigração mais terrível que já vi”, disse Gelernt.
Gelernt afirmou, ainda, que os pais detidos com quem ele fala, têm medo de perguntar demais aos agentes de imigração sobre seus filhos, por receio de suas crianças sofrerem retaliação. O líder da ACLU relatou que uma família disse a ele que desde que eles se reencontraram, o filho de quatro anos pergunta repetidamente se o governo vai tirá-lo do convívio familiar novamente.
Os processos legais, por iniciativa ACLU, buscam reunir as famílias que foram separadas, e impedir que outras famílias sejam separadas no futuro. Conforme os casos caminham nos tribunais, os impactos da separação das famílias são agravados pela falta de uma infraestrutura mínima para apoiar a política de Trump. O governo tem um sistema tão caótico, que os defensores dos filhos estão fazendo buscas desesperadas para localizar os pais.
O que estamos descobrindo é que não há nenhum mecanismo, nenhuma política para comunicar ou mesmo encontrar os pais enquanto a criança estiver separada”, disse Megan McKenna, diretora sênior de comunicações e mobilização da Kind. Ela afirma que quando os pais e filhos foram separados, cada um deles recebeu o número de seu processo individual ao qual sua mãe, pai, filha ou filho não tiveram acesso. Imaginando que esses números fossem sequenciais, os defensores da Kind começaram a procurar, no sistema de rastreamento de casos, na esperança de que isso os levasse aos pais que eles estavam procurando.
É como um jogo: talvez o número da criança termine em cinco, então o número do adulto pode terminar em seis”, disse Megan. “Você coloca isso no sistema e vê se dá certo. Mas poderia ser o contrário.  Ou tenta outra lógica”. Essa tática funcionou em alguns casos, mas não em número suficiente para ser uma solução. Ela disse que outros problemas incluem o fato de as crianças, em muitos casos, não saberem por que sua família estava fugindo, o que poderia afetar o resultado de seu caso de imigração.
Outro desafio é o fato de os advogados não saberem o que pais separados das crianças querem para seus filhos. Por exemplo, se um pai ou mãe é deportado, ele pode querer que seu filho seja devolvido ao país de origem com ele. Ou pode haver tanto perigo, em seu país de origem, que eles prefeririam que a criança ficasse com autoridades de imigração nos EUA. E mesmo que as preferências dos pais fossem conhecidas, não há um procedimento claro para reunir os pais, especialmente se um deles já tiver sido deportado.
Megan disse que a Kind estava defendendo uma criança de dois anos que foi separada de seu pai em março último. O pai foi deportado em abril, mas até 12 de junho a menina ainda estava sob a custódia do governo dos EUA.
As consequências em termos de sofrimento humano não podem ser subestimadas”, disse Megan. “As crianças estão sendo tirados de seus pais.”
-------------------------------------------

 Crédito das imagens:
1.  www.canstociphoto.com.br
2. Em certos pontos, a cerca que separa EUA e México já está erguida. Aqui, em Tornillo (Texas), como aparece a partir do lado mexicano.
3. Crianças imigrantes, separadas de seus pais, são detidas em tendas em Tornillo (Texas), próximo à fronteira com o México.
4.  Uma garota hondurenha de dois anos chora, enquanto sua mãe é detida, em 12/6, na fronteira entre EUA e México.       
5. "Em Fila!" - Crianças detidas em Tornillo (Texas) são conduzidas a banheiros químicos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

           


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            


Posts + Lidos

Desenho de AlternativoBrasil e-studio