Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O ANO FINDOU! UFA! E TUDO PERSISTIRÁ COMO ANTES?

31 dezembro, 2021

Para nós brasileiros, este 31 de dezembro de 2021 seria um alívio, se pudéssemos esperar que algo fosse diferente em 2022. É que os novos dias que virão serão uma consequência das decisões escabrosas, da inércia voluntária e do descaso público de que é vítima a população brasileira. Não há mais palavras para falar das muitas faces da violência que nos atinge. Temos um governo maquiavélico, insidioso e perverso, que age com uma pérfida astúcia contra um povo muito sofrido, a penar a fome, a carestia, o desemprego e o desleixo da coisa pública a debochar de todos nós de uma modo sarcástico, indiferente e irresponsável. 

É-nos impossível desejar, aqui, um feliz Ano Novo! E mais difícil ainda esperar mudanças, ações em benefício de um povo que só escuta mentiras deslavadas, não obstante tantos alertas, inúmera críticas e sugestões de cientistas e organizações responsáveis, em defesa do bem-estar da população.

Também não é preciso ser cientista para perceber que a devastação impiedosa da Floresta Amazônica e de outras matas no Centro e no Sudeste do país, estão a nos mostrar as consequências: as enchentes em inúmeras cidades brasileiras, provocando mortes, grandes perdas materiais e pessoais e o enorme sofrimento das populações atingidas.

Neste fim de ano, poucos tiveram suas casas revestidas de novas cores e boas comidas à mesa. Outros puderam renovar o seu guarda-roupa com novas peças e receberam lindos presentes. Nas varandas e terraços há lindas plantas para alegrar a vida e colorir o ambiente. Mas esses são uma minoria.

A realidade é que hoje conta-se mais de 16 milhões de brasileiros que estão  passando fome. É importante entender que a fome - e as suas graves consequências - é penosa e violenta, e cresce a cada dia entre nós, como há muito não se via no país.

Cada um de nós deveria fazer um gesto, uma doação que seja, para ajudar a  diminuir essa agonia, e as necessidades das vítimas das enchentes. Este seria um gesto que nos renovar e nos tornar justos e fraternos.   

        O gesto da partilha urge, entre nós, e todos sabemos 

como fazer concretamente.

Para que me serve o acúmulo de peças do vestuário – como se fosse um velho museu nós mesmos – enquanto outras pessoas, neste momento, perderam tudo, e estão precisando do que me sobra como coisas indispensáveis? 

O que fazer para  ampliar o nosso olhar de modo a enxergar os que precisam do meu gesto solidário?

Como primeiro passo podemos nos desfazer dos acúmulos inúteis no meu guarda-roupa, das gavetas e caixas dos meus armários. Todos estamos de acordo que não serve acumular papéis. E muitos já aprenderam a rasgá-los e separá-los para serem aproveitados no lixo dos reciclados. Mas muitos de nós ainda não aprenderam a revisar as próprias roupas, bolsas e sapatos. Também os armários da cozinha podem estar socados de utensílios que não servem para o próprio uso, mas estão faltando a outros.

Esta é uma reflexão a ser feita, como um passo essencial para priorizar "aquilo que as traças não roem”.

O "quarto de despejo” que muitos usamos em casa, em geral provoca um modo indevido de acumular, e de não se desfazer das coisas que nos sobram. Coisas que ficam ajuntadas, com a desculpa de que são velhas e boas lembranças! Tudo isso nos instiga a recordar que há sempre alguém à espera do meu dom.

Há pessoas simples que passam diante do nosso edifício com uma carroça cheia de quinquilharias... Vão carregando as sobras, pelas ruas da cidade, e as levam para revender. O dinheiro que arrecadam trazem bem-estar para os seus. E outras pessoas poderão adquirir coisas mais baratas, com a revenda do que foi doado. Os porteiros sabem muito bem o dia em que o carroceiro passa em busca das nossas sobras. Se não for o carroceiro, há organizações que pegam, em nossas casas, móveis e objetos ainda usáveis – mesmo em condição de reforma ou conserto. E tudo é repassado para o uso dos que precisam.

Os cuidados que tenho para o meu bem-estar pessoal, a minha saúde física e emocional, é proporcional ao que sou capaz de fazer para melhorar a vida  de quem tem necessidade. 

Novas atitudes de mudança pessoal podem ajudar a vitalizar as minhas relações em casa, na família e no trabalho.

Não deixe escapar de fazer uma reflexão cuidadosa sobre a sua atenção por aqueles que dependem de você, em casa, no trabalho, nas relações de amizade. Sem esquecer os empregados domésticos que estão ao nosso serviço. Está em dia a sua carteira de trabalho? Eles têm como cuidar da saúde, do próprio aprendizado e dos seus familiares? Não falo para sermos os bonzinhos, ou cuidar "dos pobrezinhos, dos coitados". Trata-se de fazer o que é justo, como você espera que esses seus empregados lhe tratem. É um  cuidado que vai além do dever, e é sugerido pela consciência da fraterna convivência. E, por que não dizer: do amor que me leva a dar, sem esperar retorno. 

O que há na sociedade atual é uma grave desigualdade. Uma injusta distribuição de renda e de bens. E uma grande escassez de um olhar fraterno,  de uma atitude solidária, sem os julgamentos preconceituosos que aprendemos. Há uma urgente necessidade de se reconstruir os laços fraternos entre as pessoas.  

Um novo passo – aquele que agora posso dar – me levará a conseguir coisas impensadas, como, por exemplo, aprender a sair da minha tristeza, e dos dias que me deixam depressivo, pois começo a me ocupar da dor e da necessidade do outro. Um gesto de amor reconstrói o tecido da paz  entre as pessoas. Não será um amor sentimental, mas um amor de concretude. 

Sem esquecer que, para poder mudar, é preciso enxergar novos caminhos, para poder ter, preciso aprender a dar, para que eu seja ouvido preciso aprender a escutar, para que eu seja perdoado também preciso perdoar, para aliviar a minha dor preciso buscar, com sinceridade, o que posso fazer agora pela dor de outros, que agora precisam de mim. 

O Ano Novo é uma excelente ocasião para a mudança. Mesmo quando o entorno é triste, o país segue em derrocada, e seja necessário lutar para reconstruir tudo de novo. Pois o tecido da Paz é feito de atos sinceros de amor.  Aprendendo, no dia a dia, um novo jeito de viver! 

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Postagem de: Vanise Rezende

Crédito imagem: pobreza-tv-brasil-ok.jpg

Em: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/o-cenario-de-fome-persistira-em-2022/  

Nota As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.

UM TRISTE NATAL PARA NÓS BRASILEIROS - ENCHENTES, FOME, MIGRAÇÃO INTERNA

27 dezembro, 2021

Estive ausente deste espaço por cerca de um mês. Peço desculpas aos caros leitores e seguidores do Espaço Poese. Precisei me concentrar para a leitura final  do meu livro que, felizmente, foi concluído. Darei notícias de quando estará pronto para ser adquirido.

Em três dias o ano turbulento de 2021 terminará. Como escrevi aos amigos e familiares, o que posso desejar a todos é um feliz 2023. Sim, teremos uma ponte difícil a atravessar, um ano inteiro pela frente, até chegarmos lá! Vamos manter firme o trabalho, a esperança e a garra para que assim seja. 

No momento, enquanto o dito presidente do Brasil continua suas férias em comitiva pelo Sul, há várias questões importantes no país que nos causa imensa dor: a constatação de que a fome no Brasil se vai ampliando, e a questão dos Migrantes - a dolorosa marcha de pessoas que precisam mudar, como as populações assoladas pelas enchentes em Minas Gerais e na Bahia. O ano inteiro, no Brasil e em muitas partes do mundo, as populações mais pobres sofreram com enchentes, da China aos países da Europa e Estados Unidos. Há meses atrás também o Sul do Brasil conheceu esse sofrimento. Será assim, até que aprendamos a cuidar da Amazônia e da Mãe Terra, da nossa rua, do lixo na nossa casa, e dos nossos hábitos de cidadania. 

O sofrimento dos migrantes é também o das populações das cidades atingidas pela enchente, que tudo perderam e que estão sofrendo. Nem festas, nem comes e bebes, nem presentes. Sem as suas casas e sem os seus pertences arrastados pelas águas. Também eles, multidões de migrantes em seu próprio país, em razão do descuido público e da destruição das matas. Hoje já se contam 72 municípios alagados na Bahia, com mais de 16 mil desabrigados. Chegam a 430 mil pessoas afetadas, só no estado da Bahia. Há dias atrás as fortes chuvas atingiram populações em Belo Horizonte. Esse é o quatro que que tínhamos no país, quando o dito presidente decide tirar férias nas praias do Sul. 

O meu convite, é que alarguemos o nosso olhar para mais além, para conhecer a situação das migrações mundo afora, e não só por alagamentos.  

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Mundo registrou cerca de 281

 milhões de migrantes internacionais em 2020

 

Por: ONU News

Recente relatório da OIN - Organização Internacional dos Migrantes, revela que Covid-19 complicou, mas não impediu mobilidade dos migrantes. O relatório apresenta o Brasil como modelo por conceder vistos humanitários a muitos refugiados e migrantes. E, ao mesmo tempo está no 3º lugar com mais deslocados internos por desastres naturais.


As Nações Unidas lançaram, em 8/12/2021, o Relatório Mundial sobre Migração. Segundo o documento, havia 281 milhões de migrantes internacionais, até o final de 2020, o equivalente a 3,6% da população global. O aumento ocorreu apesar do impacto dramático da pandemia sobre a migração, que incluiu o fechamento de fronteiras. O estudo revela que as inúmeras restrições para conter a Covid-19 afetaram a mobilidade, mas não impediram o movimento dos que precisavam deixar os seus países em busca de outras terras que os acolhessem. 

População

Em 2019, a OIM contabilizava 272 milhões de migrantes internacionais - 3,5% da população global. Uma cifra correspondente a 200 milhões a maior, em relação à década de 70, quando o total de migrantes internacionais eram 2,3% da população mundial.  Segundo a OIM, não fora a pandemia, o mundo teria, hoje, mais de 2 milhões de migrantes internacionais. O documento destaca que apesar do crescimento da migração internacional, em 2020 o número de deslocados internos subiu para 55 milhões que fugiram de desastres naturais, de conflitos e da violência.

“Enquanto bilhões de pessoas foram imobilizados pela Civid-19 outras dezenas de milhões de pessoas se deslocaram dentro de seus próprios países.” Foto: OIM/Alexander Bee

Para o diretor-geral da OIM, António Vitorino, o mundo vive um paradoxo jamais visto: “Enquanto bilhões de pessoas foram imobilizados pela Covid-19, outras dezenas de milhões se deslocaram dentro de seus próprios países.”

O Brasil, por exemplo, foi o quinto maior destino de venezuelanos ao lado de Colômbia, Peru, Chile e Equador na região. O relatório apresenta o Brasil como modelo por conceder vistos humanitários a muitos refugiados e migrantes.

América do Sul

Considerado a maior fonte de remessas da América Latina e Caribe com saídas de US$ 1,6 bilhão em 2020, o Brasil é o terceiro lugar com mais deslocados internos por desastres naturais. Foram 358 mil pessoas nessa situação, depois das Honduras com 937 mil e Cuba com 639 mil. 


  Foto OIM – Funcionária da OIM fala com pessoas afetadas pelas enchentes em Timor-Leste

Portugal é citado pela OIM por ser o terceiro país europeu com mais mulheres migrantes enfrentando desemprego, do que homens vivendo na mesma situação. As autoridades portuguesas libertaram pessoas detidas por questões de imigração para conter riscos de transmissão nas instalações. Portugal é o 14º ponto de origem global de migrantes.

Cabo Verde é a quinta nação do mundo que mais recebeu pessoas migrantes, em 2020, depois da Somália, do Sudão do Sul, do Lesoto, da Gâmbia. No geral as remessas para a África diminuíram cerca de 3% em comparação com 2019.

Angola e Moçambique vêm depois da África do Sul como os principais países de origem das saídas de pessoas no continente.

Ver vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=_EWHhxz6F0c

 

Dia Mundial do Refugiado

 

Em 20 de junho deste ano, as Nações Unidas celebraram o Dia Mundial do Refugiado. De acordo com a organização, mais de 82,4 milhões de pessoas deixaram seus países, este ano, buscando apoio por fatores como guerras, atos de violência e perseguição.

Em mensagem sobre a data, o secretário-geral da Nações Unidas, António Guterres afirmara que, estando fora de casa, os refugiados têm de começar as suas vidas do zero. E destacou as maiores carências do grupo em tempos de crise de saúde.

Na ocasião, Guterres sublinhou que a pandemia acabara com os meios de subsistência dos refugiados. São pessoas estigmatizadas e desconsideradas, que, nas grandes retiradas ficam gravemente expostas e desprotegidas do vírus. Guterres considerou que, mesmo assim, os refugiados têm demonstrado uma contribuição inestimável para as sociedades que os adotaram, como trabalhadores essenciais na linha da frente.

Na sua fala, Guterres ainda pediu que se dê maior atenção à situação dos refugiados, de modo que eles encontrem meios de reconstruir a vida num momento marcado pela Covid-19. E elogiou os que acolhem os refugiados, enfatizando ser preciso mais apoio dos Estados, do setor privado e das comunidades e indivíduos para que se caminhe em direção a um futuro mais inclusivo e livre de discriminação. O secretário-geral afirmou que os refugiados reconhecem o significado de poderem reconstruir a própria vida e, ao mesmo tempo, querem reunir forças para apoiar outras pessoas.

A Acnur - Agência da ONU para Refugiados, destaca o dever de se proteger todas essas pessoas, independentemente de sua raça, nacionalidade, crenças ou outras características. E aponta que é importante falar abertamente e combater a injustiça, e, no lugar de incentivar divisões e ódio - culpando os outros ou difamando vítimas - deve-se procurar avançar com soluções pragmáticas e duradouras para as crises.

Nos últimos três anos, cerca de 1 milhão de crianças nasceram como refugiados, fora de seu país de origem, devido a problemas locais de conflitos, violências e perseguições. A Acnur defende mais proteção, o fim das injustiças e a busca de soluções para essa crise.

Ver vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=D-iRTRRiAdE&t=15s

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Fonte das informações:

Onu News - 8/12/2021


https://falouedisse.blog.br/?=11046&utm_source=mailpoet&utm_medium=email&utm_campaign=os-ultimos-newsletter-total-artigos-do-nosso-blog_2

 ONU News - 20/06/2021

https://falouedisse.blog.br/?p=8736&

Enchenteshttps://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/12/chega-a-18-total-de-mortos-em-enchentes-que-atingem-37-cidades-na-bahia.shtml

Crédito das Imagens:

Foto 1 - destaque: OIM - Rohingya_CoxBazar.jpg

Em:  https://news.un.org/pt/focus/migrantes-e-refugiados

Foto 2: Brasil foi o quinto maior destino de venezuelanos ao lado de Colômbia, Peru, Chile e Equador na região - OIM/Diana Diaz 

Foto 3 - https://news.un.org/pt/content/un-newsletter-subscribe

 

 

CRIME AMBIENTAL - CUMPLICIDADE DE UM GOVERNO TOLERANTE

28 novembro, 2021

 

Balsas de garimpo ilegal no rio Madeira, na altura da comunidade de Rosarinho, em Autazes, a 110 quilômetros de Manaus.  BRUNO KELLY (GREENPEACE)

 Por: Regiane Oliveira

 El Pais - São Paulo,  25/11/2021

  

Invasão de centenas de garimpeiros na Amazônia expõe tolerância do Brasil com crime ambiental


Greenpeace atribui a audácia da exploração do rio Madeira à luz do dia à licença “política e moral” dada por Bolsonaro. Mourão afirma que atividade pode estar ligada ao narcotráfico

Apenas duas semanas se passaram desde que o Brasil se comprometeu com medidas de proteção ambiental durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 26). O cenário que se vê no país, no entanto, é bem diferente da imagem de preocupação com o meio ambiente que o Governo federal tentou vender para as grandes potências. Nesta quinta-feira, imagens de centenas de balsas garimpando livremente o leito de um dos mais importantes rios da Amazônia tomaram as redes sociais. “É um crime ocorrendo à luz do dia, sem o menor constrangimento”, afirma Danicley Aguiar, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace, que sobrevoou a região para averiguar a denúncia de crime ambiental, em nota divulgada à imprensa.

As imagens feitas pela ONG mostram diversas fileiras de dragas e empurradores, equipamentos que cavam o fundo do rio em busca do minério, posicionados no rio Madeira na altura da comunidade de Rosarinho, na cidade de Autazes (Amazonas), a 110 quilômetros de Manaus. Eles teriam sido atraídos há duas semanas por boatos da descoberta de ouro na região. O local é bastante estratégico uma vez que a distância da capital dificulta fiscalização. “O Madeira é o rio com a maior biodiversidade no mundo. Abriga pelo menos 1.000 espécies de peixes já identificadas. Trata-se de um gigante que agoniza com hidrelétricas e uma epidemia de garimpo que nunca foi contida”, afirmou Aguiar.

O rastro de destruição do mercado ilegal de ouro brasileiro

O ativista atribui a audácia dos garimpeiros, que exploram o rio à luz do dia, à licença “política e moral” dada por Bolsonaro. No final de outubro, o presidente visitou um garimpo ilegal na terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, e defendeu um projeto de lei que regulamenta a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas. “Esse projeto não é impositivo. Se vocês quiserem plantar, vão plantar. Se vão garimpar, vão garimpar. Se quiserem fazer algumas barragens no vale do rio Cotingo, vão poder fazer’”, discursou o presidente na ocasião. Nesta quinta, questionado sobre a situação, o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que a atuação dos garimpeiros pode ter o apoio do tráfico de drogas. “Nós temos tido vários informes de que o narcotráfico, essas quadrilhas, na ordem de proteger suas rotas, subiram para lá. Uma das formas de se manterem é apoiando ações dessa natureza”, disse.

Boatos de descoberta de ouro em Autazes, no Amazonas, fez com que dezenas de balsas de garimpeiro descessem o rio Madeira nas duas semanas.

BRUNO KELLY (GREENPEACE)

Segundo pesquisa divulgada pelo MapBiomas, entre 1985 e 2020 a área minerada no Brasil cresceu seis vezes ―passando de 31.000 para 206.000 hectares―, e o garimpo ilegal já ocupa uma área maior que a da mineração industrial. No ano passado, três de cada quatro hectares minerados no país estavam na Amazônia, pressionando especialmente os territórios indígenas. Em dez anos, a área ocupada pelo garimpo dentro de terras indígenas cresceu 495%; em unidades de conservação, o crescimento foi de 301%. O bioma concentra hoje 72,5% de toda mineração feita no país: são 149.393 hectares, sendo que, destes, 101.100 (67,6%) são de garimpo ilegal.

Modo de operação

O Greenpeace explica que o garimpo na Amazônia consiste em retirar minérios do fundo dos rios, filtrar e devolver as sobras, com produtos químicos, às águas. “Além de ilegal, o trabalho realizado pelas dragas polui e impacta diretamente o meio ambiente e as comunidades ribeirinhas e indígenas”, informou a organização. No Twitter, o ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, descreveu a ação dos garimpeiros como sendo de “uma milícia com esquema financeiro político por trás, que envolve políticos e policiais”.

Mensagens trocadas por um dos grupos de garimpeiros que está no rio Madeira, às quais o Estadão teve acesso, mostram que eles estão preocupados em legalizar a situação. “Se não tiver um representante no Governo para brigar pelos garimpeiros, pode ter certeza que, todo ano, vai ser essa frescura”, disse um homem sem identificação nas mensagens publicadas pelo jornal, em relação às operações contra crimes ambientais. Os garimpeiros estão confiantes após uma vitória em janeiro de 2021, quando Rondônia autorizou a prática do garimpo em seu território e revogou um decreto que proibia a extração de minério no rio Madeira, no trecho da divisa com o Amazonas, Estado no qual a prática continua sendo ilegal.

A atividade vem sendo promovida pelo Governo brasileiro nos últimos dois anos, e já deixa marcas. Uma reportagem feita pelo EL PAÍS mostrou que a extração de ouro ilegal na Amazônia despejou um volume estimado em 100 toneladas de mercúrio nos rios da região. A exposição ao metal neurotóxico pode deixar danos graves e permanentes como problemas de ordem cognitiva e motora, perda de visão, além de implicações renais, cardíacas e no sistema reprodutor. Esse ouro foi exportado pelo Brasil para países como Canadá, Reino Unido e Suíça ―ironicamente, nações que também tentam vender a imagem de comprometidos com a causa ambiental.

No radar lento das autoridades

Após a denúncia, o Ministério Público Federal (MPF) expediu uma “recomendação pedindo a adoção emergencial de ação coordenada de repressão e desarticulação ao garimpo ilegal de ouro” no rio Madeira, no prazo de 30 dias. O MPF ressalta que a “extração de ouro na região não é amparada por licença ambiental expedida pela autoridade ambiental competente (....) o que torna essa atividade ilegal”. Em evento em Brasília, o ministro da Justiça, Anderson Torres, disse que está sendo preparada uma operação com a presença, inclusive, da Força Nacional. O Ibama respondeu por meio de sua assessoria de comunicação que serão tomadas providências, mas que a coordenação da ação está sendo feita pela Polícia Federal e pelo Ministério da Justiça.

Outros órgãos que também foram cobrados são o Comando Militar da Amazônia (CMA); a Superintendência da Polícia Federal no Amazonas e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), ligado ao Governo do Estado. “Os órgãos devem, cada um dentro de sua esfera de atribuições, realizar a identificação e autuação administrativa de todos os empreendimentos irregulares em operação ou com sinais de operação em passado recente na calha do rio Madeira ou afluentes, além de adotar medidas para a imediata interrupção das atividades ilícitas, inclusive mediante destruição dos instrumentos do crime, caso necessário”, disse o MPF.

No entanto, Juliano Valente, diretor-presidente do Ipaam, esclareceu em nota que as balsas estão ancoradas no rio Madeira, área de competência federal. De acordo com o órgão, a regulamentação da exploração mineral na área é de competência da Agência Nacional de Mineração; ao Ibama, compete o licenciamento ambiental. Quanto a atuação, em caso de crimes de exploração ilegal de minério, é competência da Polícia Federal. E questões como poluição hídrica estão sob responsabilidade da Marinha.

O MPF lembra que, em agosto deste ano, a Justiça Federal condenou Ipaam a anular licenças concedidas irregularmente para as atividades de extração de ouro no leito do rio Madeira, em área de mais de 37.000 hectares, em uma outra região, no sul do Amazonas. O processo está agora em fase de recurso. A ANM informou que ainda não recebeu oficialmente o documento do MPF. “Tão logo estejamos de posse do documento e articulados com os demais órgãos provavelmente nele citados, tomaremos as medidas cabíveis”, informou.

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Fonte:

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-11-25/invasao-de-centenas-de-balsas-de-garimpo-ilegal-na-amazonia-expoe-tolerancia-do-brasil-com-crime-ambiental.html?sma=newsletter_brasil_diaria20211126


CRÔNICAS DO SERTÃO - SAUDADES DO TELEFONE FIXO

10 novembro, 2021





A vida dá voltas incríveis, especialmente quando se conta com uma memória afetiva que nos proporciona grandes alegrias. Uma delas foi o reencontro com Fernando Silva, não mais o garoto de 15 anos que conheci na época da fundação do Sedipo um Serviço de Documentação e Informação Popular, que oferecia informações para os movimentos populares do Nordeste (1978/1988), com sede na Regional NE-II da CNBB.

Na crônica que reproduzo abaixo, Fernando Silva me dá o título honorífico de sua “mãe do coração”. Assim, o leitor pode entender o que significa, para mim, poder contar com ele como um cronista colaborador deste blog. O seu percurso, como pessoa e profissional, faz-me lembrar uma frase do nosso querido Dom Hélder Câmara: É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas, graça das graças é não desistir nunca.”

Fernando Silva é mestrando em Educação, Culturas e Identidades, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)/Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ). Contato:  jfnando.silva@gmail.com

Vamos à crônica.

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                  Saudades do telefone fixo

 

Por: Fernando Silva*

Atualizado em 10.11.2021

Usei um telefone pela primeira vez aos 15 anos de idade. Espere, vou contextualizar. Morei até essa idade na zona rural de Agrestina, a Capital do Agreste. Lá não existia energia elétrica. Água encanada, nem pensar. Notícias das “terras civilizadas”, transmissão de jogos de futebol, escutar músicas e novela somente através do rádio de pilha. E com hora marcada. Sim, escutava rádio novela junto com mãe, irmã e irmãos. Papai ficava uma fera e dizia que novela era coisa de “muié”. Acho que era uma adaptação do latim (muliere, que origina a palavra mulher). E olhe que o cabra, papai, não sabia nem ler e nem escrever. Assinava o nome com extrema dificuldade. Brincava e dizia que sabia escrever a letra “o” porque a xícara tinha um fundo redondo. Genial! Papai, o meu melhor e maior amigo. De todos os tempos e lugares!

Época de dormir cedo e acordar com o galo cantando, ainda escuro. A alimentação saudável era produzida na roça. Ainda lembro, como se fosse agora, do cheiro e do gosto do cuscuz de milho bem maduro, feito por mamãe, ao amanhecer do dia. Pena que esse tipo de cuscuz, só era feito na época junina, quando o milho já caminhava para ficar seco. Não podia passar do ponto. Comia até lamber os beiços. E do queijo e da coalhada caseiros, feitos com leite totalmente natural. Direto do peito da vaca. De beber a água fria, quase gelada, do fundo do pote de barro. O ovo era da galinha da roça. Um dia, mamãe pediu para meu irmão Erivam, o mais novo, pegar ovos no quintal. O primeiro, quando ela partiu, tinha um pintinho em formação. Ele havia tirado debaixo de uma galinha que estava chocando para receber uma ninhada de novos pintos. Um “pintincídio”. Ainda bem que os demais ele tirou noutro lugar. Saudades de pegar, torrar e comer tanajura, uma iguaria maravilhosa.

Geladeira, sem energia, nem pensar. Só conhecia o caju para chupar e fazer doce (na época, sem a danada da diabetes). Quando fiquei mais velho, passou a servir como tira-gosto para tomar cachaça. Torrar as castanhas do caju era uma atividade perigosa para os pequenos. Porém, as danadas são deliciosas. Lembro da primeira vez que tomei suco de caju, batido no liquidificador, lá na casa da minha tia Lica, irmã da minha mãe. Tia morava no bairro Petrópolis, em Caruaru. Ela batia uns cajus com água, gelo, e um pouco de leite (natural, direto do peito da vaca). Uma delícia. Ainda faço o dito suco com a receita da tia Lica. Acho esquisito quando tomo o danado sem seguir a receita.

Mas, voltando ao telefone, fixo, diga-se de passagem. Fui apresentado a um aparelho por volta do final de abril de 1978, lá na casa da Madre Porto, na rua Viscondessa do Livramento, no bairro do Derby, Recife. Ela coordenava, se a memória não falha, a Pastoral da Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB – Regional NE-II). Com Madre Porto moravam as minhas tias, irmãs de papai, Irmã Maria e Irmã Dionísia, que articularam para eu iniciar a minha trajetória profissional (e militância política) na Rua do Giriquiti, onde funcionava a Regional da CNBB e as coordenações pastorais da Arquidiocese.

Só sabia conversar olho no olho, sem interferências e intermediações tecnológicas.


O telefone fixo era simples. Madre Porto fez as devidas apresentações e me disse como usá-lo. Tipo, quando tocasse, eu deveria tirar o bicho do gancho, dizer “alô”, “bom dia” ou “boa tarde”. Pronto, virei íntimo do telefone, o fixo, uma novidade e tanto, para mim que estava já na adolescência. Só sabia conversar olho no olho, sem interferências e intermediações tecnológicas.

Comecei a trabalhar na CNBB-NE-II no início de maio de 1978. A sede ficava onde, atualmente, funciona o Centro Comercial (Shopping) da Boa Vista. Conheci pessoas maravilhosas: Vanise Rezende, Ceça da Mangueira, Fátima e Tânia, e muito mais. No primeiro dia de trabalho, Vanise que também é minha mãe do coração , explicou as minhas atividades (organizar arquivo, servir cafezinho, limpeza, trabalhos na rua e atender telefone). Um multiprofissional.                   

Matuto, aliás, escutei “ordem cronológica”, pela primeira vez, aos 15 anos.

Eram várias salas no primeiro andar. Um dia o telefone tocou numa das salas. Fátima pediu para eu atender. Cheguei no bicho, tirei-o do gancho e disse “alô e “bom dia”. Ninguém respondeu. Voltei para minha sala para organizar, em ordem cronológica, boletins das arquidioceses, dioceses, sindicatos e muitos mais. Matuto, aliás, escutei “ordem cronológica” pela primeira vez aos 15 anos. Nunca esqueci. Vanise orientou: organize o boletim de notícias da Arquidiocese de Natal (RN) em ordem cronológica, deixando os números (lembro como se fosse agora) os mais antigos no fundo da pasta A-Z e os recentes na parte de cima. Tarefa cumprida, rápido e segundo a avaliação de Vanise, muito bem executada. Já ia esquecendo, o danado do telefone continuou tocando.

Voltei lá na sala e refiz o procedimento ensinado por Madre Porto e ninguém respondeu. Para encurtar a história, Fátima perguntou como eu estava atendendo a ligação e eu, prontamente, expliquei. Nova descoberta: o telefone fixo tinha quatro ramais (A, B, C e D) e recebi a transferência das chamadas atendidas na central no térreo do belo edifício na Rua do Giriquiti. Era para apertar a letra que piscava e tocava, freneticamente. Matuto sofre quando se depara com a tecnologia.

Agora já posso falar da saudade do telefone fixo. Mas, outra vez, muita hora nessa calma. Ou muita calma nessa hora! É que o telefone celular não deixa ninguém em paz. O bicho vai para tudo o que é lugar. Sala, cozinha, mesa, cama, sofá, trabalho, cinema, teatro, estádio de futebol, bar, casa de parente, amigo, vaquejada, aniversário, casamento, casa do vizinho, restaurante, praia, piscina, lanchonete, padaria, feira livre, supermercado, missa, culto, Natal, Ano Novo, festa de padroeira, São João, Carnaval e Noite dos Tambores Silenciosos. Inté no banheiro. Viaja de carro, charrete, carro de boi, barco. E inté de avião. O telefone fixo, não. Fica fixo. O celular é um tremendo intrometido e tem múltiplas funcionalidades. Utilidades. Algumas até interessantes. Deixa para lá. Não é o assunto.

Lembro que quando eu estava no Governo do Estado de Pernambuco Secretário-executivo dos Sistemas Protetivo e Socioeducativo , o celular era um tormento. Tocava a qualquer momento. Funcionava 24 horas. Estou fazendo um esforço, mas preciso melhorar para ter desapego com o danado. Agora, estou definindo o horário de olhar as mensagens e, normalmente, deixo-o no silencioso. As mensagens chegam, freneticamente, a qualquer instante.

Às vezes sou (e você também é) inserido em grupos passadores de mensagem etc. e tal (conhecido por ‘zap’ ou WhatsApp), sem autorização. Lembro de Carlinhos, colega de jogar bola lá no Clube Líbano (Recife) que falou algo do tipo: “tem gente que cria grupo só para ser administrador e pensa que é possível colocar isso no seu currículo, no lattes”, aquela plataforma do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para alimentar o currículo. No celular tem grupo para todo e qualquer assunto e muitíssimo mais. Se não tiver cuidado, é possível passar 24 horas só respondendo ou comentando assuntos que vão da catota ao foguete. Haja criatividade! Pense num bicho sem educação, o passador de mensagem! As mensagens chegam sem um “bom dia”, “boa tarde”. “Boa noite”, nem pensar.

Com a pandemia da Covid–19 não vou escrever nada sobre a Covid-17, pois ele desistiu desse número , o celular ganhou mais força. O que tem de atividades virtuais! Overdose perde feio. Deixa para lá.

Confesso que estou pensando seriamente em comprar um telefone fixo e abandonar o celular. Quem quiser falar comigo, se for coisa importante, vai ter múltiplas possibilidades: telefonar no fixo (e não quero aquele sem fio, o bicho também anda), enviar mensagem pelo correio eletrônico, ou mandar carta (sim, a famosa correspondência, pelo Correio Postal). E olhe, querem privatizar o danado, como se a privatização fosse a alternativa). Não vamos nos esquecer de Mariana e Brumadinho.

Estou esperando um novo normal que chegue logo a 3ª dose para todos! –, e vamos ampliar (ou retomar) as possibilidades: tomar cafezinho, comer torta dietética. Beber cerveja, vinho ou como diz Silvino Neto ex-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado de Pernambuco , é melhor marcar para “tomar uma cachaça”. Tem assunto que precisa de algo forte. Estou com Silvino.

Reconheço as possibilidades de comunicação que o celular oferece. Porém, o bicho se movimenta e perturba demais. Tem gente que passa mais tempo agarrado com o celular, do que lendo um bom livro, uma revista, um jornal (impressos, de preferência). Deixo duas dicas: assistam o documentário “O dilema das Redes Sociais” e o “Excêntrico”, do Portas dos Fundos, disponíveis em plataformas digitais. Ambos ajudam na reflexão.

Viva o telefone fixo! Viva o suco de caju da Tia Lica! Viva o cuscuz, de milho quase seco, feito por mamãe. Viva a vida matuta. Viva o planeta Terra e a Mãe Natureza, tão castigados.

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Texto originalmente publicado em: 

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