Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - QUAL A SAÍDA POLÍTICA BRASILEIRA?

31 de maio de 2016

"Frei Betto é um arguto analista das situações políticas vistas a partir das bases, dos movimentos sociais com os quais trabalha além de ser um bom conhecedor dos meandros da política partidária com suas negociatas e  jogos de interesses escusos. Este artigo nos situa bem no atual momento crítico pelo qual passa a sociedade brasileira." (1)  Segue o seu artigo. Os grifos são meus.

A deposição de Dilma cheira a golpe parlamentar, à semelhança do que ocorreu em Honduras e no Paraguai. O governo dela, neste início do segundo mandato, não corresponde ao êxito alcançado no primeiro. Contudo, foi democraticamente eleito e eu, que o critico, não cedo ao oportunismo que se empenha em quebrar os limites entre oposição e deposição.
Aceitar que antipatia e fracasso administrativo devam ter mais peso que princípios constitucionais é admitir o retrocesso, é jogar o Brasil e a América Latina na cartografia das “repúblicas de bananas”, tão em voga no continente na primeira metade do século XX.
Meu desconforto é óbvio. Não vejo saída para a emancipação brasileira dentro de nossa atual institucionalidade política. Eleições gerais? Seria uma boa medida se um Tiririca não pudesse alçar ao parlamento figuras que se valem da distorção do quociente eleitoral sem sequer terem contado com os votos da própria família! 
E, entre tantos candidatos, quem encarna um programa consistente de reformas estruturais? Vale trocar o seis por meia dúzia?

Tivesse o PT valorizado as lideranças populares de esquerda - ao longo dos últimos 13 anos -, hoje teríamos um Congresso progressista e com muito menos figuras ridículas. No entanto, preferiu alianças não confiáveis das quais agora é vítima.

As forças políticas progressistas precisam se redefinir no Brasil. Estabelecer um programa mínimo de libertação nacional, sem o que continuaremos reféns dessa política de efeitos, e não da política capaz de alterar as causas das anomalias nacionais.

É preciso romper o ciclo viciado da política de resultados e redefinir uma política de princípios capaz de mirar além das urnas, do neoliberalismo e dessa fase histórica do capitalismo.
Se a esquerda brasileira não resgatar a utopia libertária, nosso horizonte ficará limitado a este ou aquele candidato, num círculo dantesco de êxitos e decepções, avanços e recuos.


A idade adulta de democracia tem nome: socialismo. Mas de tal maneira o inimigo esconjura tal nome, que temos medo de pronunciá-lo. Ainda não nos recuperamos da queda do Muro de Berlim. Coramos de vergonha frente ao capitalismo de Estado adotado pela China e o hermetismo idólatra da Coreia do Norte.


Ora, não se trata de suportar o peso da culpa de tantos erros cometidos pelo socialismo, embora a América Latina abrigue a única experiência vitoriosa, Cuba. Trata-se de dissecar a verdadeira face do capitalismo repleta de atrocidades, misérias, exploração neocolonial, guerras e degradação ambiental. 

Qual é o “outro mundo possível”? Onde estará a senda do “bem viver”? O caminho se faz ao caminhar. E uma certeza eu guardo: fora do mundo dos pobres e de seu protagonismo político, os progressistas sempre correrão o risco de segurar o violino com a esquerda e tocá-lo com a direita.

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Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.



i Publicado no site Leonardo BOFF, em 11/05/2016

Crédito Imagens: 

1. Foto Frei Beto - http://noticias.gospelmais.combr/freibeto
2. Manifestação (Poder Popular) - www.cartamaior.com.br
3. Manifestação "Sem Teto, Sem Dignidade"  - www.ebc.com.br - Foto de
    Fábio Nassif - 2014. 
4. Trabalhador sem terra e capanga do proprietário - Iconografia de Latuff in:       fazendomedia.org .

ALEGRIAS DA VIDA NO SERTÃO

8 de maio de 2016

A cidade de Uauá, na Bahia, é mais conhecida, no Brasil, por duas referências: foi palco da primeira batalha da Guerra de Canudos, e é tida como a "Capital do bode”, pois todo ano realiza uma exposição de caprinos e ovinos. E ainda leva a fama de ter a carne de bode mais saborosa da região. Nos festejos juninos do município predomina o verdadeiro forró "pé-de-serra", com intensa participação popular, a preservar as raízes culturais do Nordeste. No mês de agosto, a sua tradicional exposição de caprinos e ovinos reúne grandes empresários e turistas de todo o Brasil.

Como outras cidades sertanejas, Uauá também registra, na sua história, a passagem de Virgulino Ferreira da Silva o respeitado cangaceiro “Lampião”, que ficou hospedado na casa de Roque Ferreira (filho de Davi Ferreira, o primeiro morador do município). Apesar de situar-se na região semiárida do nordeste brasileiro, é um município economicamente sustentado. O bode representa 1/3 do PIB do município. Os trabalhadores rurais de Uauá fazem parte de um programa de convivência com o semiárido que já mudou a vida de muitas famílias através do beneficiamento das frutas do sertão a exemplo do Umbú. A seguir, o instigante convite Roberto Malvezi - Gogó [i], que encontrei no site Adital. [ii]


Festa do Umbu e da Vida em Uauá - BA 

“Você quer ver mel em abundância, cerveja de umbu (25 reais a longuinete), bode assado com macaxeira por todo lado, geleia de umbu, compota de umbu, suco de maracujá da caatinga, rendas, artesanatos e tantos produtos que mostram a abundância da vida no Semiárido Brasileiro? Então você deveria ter ido ao 7º Festival do Umbu em Uauá, organizado pela Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERCUC).

Estamos saindo de uma seca de cinco anos, sendo dito que estamos atravessando a "maior crise econômica do Brasil da história”, que em outras épocas significaria que metade de Uauá deveria estar por outros lados do mundo, menos no sertão nordestino. E totalização dessa produção alcança cerca de 200 toneladas por ano.

Ali, onde nasce o Vaza Barris, hoje um rio seco, onde logo abaixo Antônio Conselheiro encontrou um lugar onde "jorrava leite e mel” (Canudos), às margens do Vaza Barris, sertão antigamente dito como "bravo”, a festa foi grande, cheia de vida, de produtos, de gente. O mesmo povo que começou a festa na sexta pela noite ainda estava lá 4 hs da manhã do domingo, dançando ao som da música típica da região, embora sempre apareça algum forró eletrônico para quebrar a beleza musical.

O paradigma de ‘convivência com o Semiárido’  intuído por homens como Guimarães Duque e Celso Furtado (Discurso de inauguração da SUDENE, 1959), foi tirado do papel e da imaginação pela sociedade civil, nos últimos anos, que lhe deu carne, na troca de experiências acumuladas pela população sertaneja, com sua captação de água de chuva, o manejo da caatinga, uma agricultura conforme o ambiente, pelo cultivo do umbu, do maracujá do mato, dos animais adaptados ao Semiárido como a cabra e a ovelha. Então, a vida veio abundante, mesmo em tempos de seca.

Essas são conquistas dos últimos 20 anos, com programas construídos pela sociedade civil como a ASA (Articulação no Semiárido Brasileiro), ou por componentes como o IRPAA (Instituto Regional da Pequena Agropecuária Adaptada). Não veio dos coronéis, nem do Estado, mesmo esse um pouco mais modernizado. O que houve foi o apoio econômico dos últimos governos, o que deu escala a esse trabalho, com mais de 1 milhão de cisternas para beber e mais de 150 mil tecnologias de produção implantadas.

A COOPERCUC tem mercado interno e externo, seus produtos vão para a Itália, França e Áustria. Essa é a prova que a "irrigação” não é o único veio produtivo do Nordeste e nem o principal. O PIB da irrigação gira em torno de dois bilhões de reais ao ano, enquanto o PIB do sequeiro em 2008 já girava em torno de 140 bilhões de reais ao ano. Portanto, os números desmentem os mitos.

Parabéns à COOPERCUC, trabalho que mostra a beleza e a viabilidade do sequeiro nordestino, com a caatinga em pé, ambiente preservado e cheio de vida. O único caminho para os biomas brasileiros sobreviverem é o da convivência. Quem tem inteligência ambiental sabe.”

















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[i] Roberto Malvezzi, Gogó - Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo - robertomalvezzi@hotmail.com

[ii] In: Adital – site adital.com.br/site/noticia - 03.05.2016


Créditos Imagens:

1.  Foto de Lampião - www.eunopolis.ifba.edu.br/omfpr,atoca/Sites_Historia
2. 7º Festival Umbú - 2015 -  www.aratuonline.com.br
3. 8º Festival Umbú - 2016 -  www.portal,uaua.com.br
4. São João Uauá-BA - 2013 - www.portalsg.ne.10.uol.com.br
5. XXXVI Expo Uauá - 2015 - www.portal.uauá.com.br
6. Foto de Roberto Malvezzi - www.10envolvimento.org.br

Nota:  As  imagens  publicadas  neste  blog  pertencem  aos   seus autores.  Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que  seja removida  deste  espaço,  por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com 

O DOM DA VIDA - POESIA

1 de maio de 2016





Vão-se ungidas as águas na ventania
E na força do Mar no seio da Terra
Dia e noite a embalar-se em sintonia
Ao redor do Sol e da noite em sentinela.

Vão-se as águas e sobem gasosas ao céu
Em berços de bolhas pra dormir estrelas
E acolhem a Lua em seu límpido véu,
Quando o Sol às escondidas a engravida.

No correr do tempo que morre e recria
A fauna, a flora, e as criaturas
Descobrem o amor e a dor e a alegria...

A Luz que brilha e a Esperança da Vida
A fluir e a maturar nas desventuras...
Que dom, oh Deus, te faço dessa lida!?

vanise rezende
Recife, 01.05.2016


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