Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O ONTEM, O AMANHÃ, O AGORA

28 de outubro de 2015

E lá se vai o tempo a nos deixar para trás, a se esvair nas brumas do já vivido, do já sentido, do que antes foi o agora... 

O tempo passeia sem aviso, ilude e confunde no devaneio da alegria, na agonia da espera, no seja o que Deus quiser... 

E se Ele não quiser?
E se eu não fizer por onde? 
E se o outro não colaborar?...

Vai-se o tempo, e não se vê por onde nem para onde ele seguiu, mas já passou, não é mais o presente de então, foi um momento futurado no que não se sabia, nem se esperava, sequer se imaginava fosse assim...

Os fatos se preanunciam de uma forma, a vida faz antever uma certa paisagem, mas ele - o tempo, senhor do viver - ele os desenha tão diferentes do planejado e do sonhado!... 

Outras vezes o tempo se vai sem se ir, e os seus rastros ficam para trás sulcados no ontem, no passado, e na profunda saudade de um futuro que não chegou... 




                                          
Esvai-se - o tempo do agora  feito um vagão de trem descarrilhado que se desmantela, e não segue mais, encalhado no trilho da lembrança... ou da ânsia do que ainda poderá acontecer.

Por que então se insiste em olhar para trás e chorar a estação perdida?... Ou a se querer presumir, antever... Por quê?  Se o momento do agora - que está ao alcance de cada um - poderia ser abraçado, e acolhido no coração como dádiva da vida para vivê-la plenamente? 

Melhor seria entregar-se inteiro ao instante que a vida está a oferecer... Mais tarde será outro o momento, e o tempo já terá levado o que era então. 

Viver é preciso... Olhar para trás não é preciso! E adiante, quem saberia dizer?  

O segredo do tempo é o instante presente, e a cada um cabe tomar o fardo que lhe é dado no agora, acolhendo-o como a coisa melhor a ser oferecida à vida neste momento único, que não voltará jamais. 

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LITERATURA — HELENO ALFONSO DE OLIVEIRA

25 de outubro de 2015

                           

 "Solidão
 Um quarto atravessado de brancura
 Onde a conversa mais alta é calada."            







Gostaria de escrever sobre o meu amigo/irmão Heleno Oliveira, mas não sei... Sinto-o muito mais presente, desde que ele partiu definitivamente para a infinitude, porque vivíamos em países diferentes, embora vez por outra nos encontrávamos para matar as saudades fortalecer nossa amizade. Tentarei rabiscar o que a memória e a dor me consente.


Brasileiro nordestino e sertanejo, nasceu em 1941 no sítio Santa Clara, do município de Tupanatinga - há 882 km da capital de Pernambuco. Aos dezoito anos, quando estudante no Recife, conheceu o Movimento dos Focolares, e consagrou a sua vida à difusão da espiritualidade cristã de Chiara Lubich, colocando-se ao serviço do movimento por ela fundado.

Heleno foi um dos jovens que conheci no Recife, ambos adolescentes. Após um período de contato com o Movimento dos Focolares, embarcamos junto a outros jovens - ainda nos tempos da Panair do Brasil - para um período de formação na Itália. De lá nos despedimos para destinos desencontrados. Foi com ele que fiz uma inesquecível viagem à cidade de Assis, na Itália, na companhia de Chiara Lubich, que nos contou a história de São Francisco e de Santa Clara de Assis.


De volta ao Brasil, Heleno viveu longos períodos em Porto Alegre-RS e em Belém do Pará. Nas duas cidades atuou na Universidade, como assistente da cátedra de Literatura Portuguesa. 

Em 1983 a Universidade do Pará publicou o seu primeiro livro: "Clarindo, Clarindo". Na ocasião, vivia em Florença, na Itália, até o dia da sua partida definitiva, em 1995, aos cinquenta e quatro anos. Deixou-se ficar em Lisboa, cidade que tanto amava, para onde viajava com frequência, no intuito de finalizar sua tese de doutorado sobre a obra da poetisa portuguesa Sophia de Mello Brayner Andresen. 


  
                Lisboa sob a chuva a alma é outra.             
Aqui me encontro eu.
   Venho de longe com sede e deserto.
                     Caminho horas para ver o real...
                    É quando o silêncio pesa.
                      São Domingos sabe a desventura.
                     Morrem os ruídos, as Naus retornam.
                   Lisboa é voz e olhos mansos
                  Quando não há lugar no mundo
                  Como as tardes do Terreiro do Paço,
                  Nem língua mais lírica e azul.”[ii]


Convidado a vir ao Brasil para o lançamento do seu livro, único publicado em vida, Heleno deteve-se a rever os amigos de Recife e de Olinda, e visitar sua cidade natal - um evento que lhe promoveu profunda emoção.  


Dois anos após a sua morte,  seus amigos de Florença promoveram, em 1997, com o apoio da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner, a publicação do seu segundo livro: As sombras de Olinda, pela editora 'Caminho' de Lisboa,  com apresentação da poetisa portuguesa que se tornara sua amiga.  

Copio aqui alguns trechos do que ela escreve na apresentação do livro citado:[iii]

“Heleno Afonso Oliveira nasce dentro dum romance de Guimarães Rosa, na solidão de uma fazenda do sertão do Nordeste, no Brasil, filho de uma mãe negra, uma mãe paciente, doce, intensamente religiosa que ama os livros, a cultura, a arte, e filho de um pai branco, um pai vagabundo quase sempre ausente, que nos quatro caminhos da aventura desfralda a ‘sua vida rude e embandeirada’ – como no poema 'Clarindo, Clarindo' um dia o filho invocará:

Quinta-Feira santa o cavalheiro apeia
Parece gente de Guimarães Rosa
Capote preto negro como a barba,
revólver, o silêncio da chegada.

Ao seu redor a ânsia as empregadas,
a gamela o uniforme e o café,
aos pé as botas engraxadas,
o galo prateado das esporas.

E invoca o silêncio de Laura, a mãe:

– Nada se faz quando ele voltar,
Tudo bem limpo com água da cacimba.

Armem a rede abram as janelas,
Vosso senhor repousa e domina.
Ponham toalhas colchas de renda,
Silêncio sobre padre e procissão.


Dessa infância difícil, Heleno guardará, ao longo da vida, a recordação e o fantasma. (Ele escreve em Florença, onde residia, e fazia o doutorado sobre a obra da poetisa portuguesa):

                                   O sertão se ancora numa lágrima
                                    e nem a luz de Florença apaga.

E Sophia continua: (...) Um dia, em Florença, Heleno viu uma exposição de arte africana: as estátuas, as máscaras, a força, o esplendor, a sacralidade. 

Da iluminação que foi para ele esse descobrimento a sua poesia diz:
                           
                           Um longo caminhar apaixonado,
                           uma paixão que mal compreendia
                           até que um dia na florentina terra
                           reviu rainhas reis nigerianos
                           que de bem longe vinham nas estátuas,
                           um indizível sopro negro arcano,
                           e o lado seu quebrado e destroçado
                           fulgiu em harmonia e abandono."


De herança Heleno nos só deixou o seu testemunho que transmitia "as reais dimensões do carisma da unidade por meio do sabor do que as Escrituras chamam de Sabedoria", como afirma Sophia de Mello na introdução do livro "Oropa, França e Bahia".  

Do amigo que ele foi, desde a adolescência, talvez eu pudesse dizer o amor, a presença inteira e plena, o afeto do amigo irmão.  

Sequer consigo inteirar-me da profundeza e da universalidade de sua poesia culta, forte, regressa aos cantos de imortais poetas. Mais que saudade, nele encontro o testemunho vivo do homem–solidão, do cidadão de tantas pátrias e de um só Sertão: aquele de sua mãe Laura, cuja pobreza e negritude eram para ele “morada do sagrado, sibila silenciada, Cassandra sem nome, sal da terra".  Dele, os  versos do poema “As sombras de Olinda”, onde registra a nossa amizade e nossos nomes, num canto livre da carícia do seu afeto:[iv]

"... Olinda é a sombra da luz da cal da brancura
    da brisa do sol do mar do cheiro a sargaço
    do frevo das ladeiras das algas
    dos olhos de Vanise, dando bom dia,
    enquanto a Igreja em transe espera,
    tão verde, que uma esperança voe certa para cá
    dos olhos de Luís Carlos, voltando das escolas
    do povo com o rosto de fortes mulheres
    desdentadas e belas
    e dos novos velhos olhos de Dona Álvara
    semelhantes aos da mãe terra...
   
    Revejo o mar, um menino sertanejo vê o mar
    vai num táxi anos cinquenta
      a voz materna sertaneja diz: o mar!
    O menino casa com Iemanjá
    com a mulher que nunca teve e tem
    verdíssima negríssima iara!
                                             O menino esposa as águas, e Deus não separa
                                              o que uniu, as traições não quebram alianças.

    O mar vem ao meu quarto navegar
    cirandeiro de Itamaracá
    atravessa-me nas sombras de Olinda
    meu rosto quarentão
    olha-me e me dá a teologia pé-no-chão
    eros paixão ágape de um irmão
    todo aceso na escuridão da mata".


A partir de 1983,  quando foi transferido do Brasil a Florença  Heleno iniciou a sua produção poética também em italiano, língua que conhecia muito bem. Os seus poemas em italiano foram publicados na coleção "Cittadini della Poesia", dirigida por Mia Lecomte - ele, o brasileiro escolhido como escritor estrangeiro na Itália, com poemas publicados nos livros: Se fosse vera la notte - Zone Editrice - Italia, 2003, e Oropa, França e Bahiauma linda publicação bilingue de poemas líricos, lançada em Florença em 2004. 

Na apresentação do livro "Se fosse vera la notte", (Se a noite fosse verdadeira), o brasileiro Julio Monteiro Martins faz uma descrição precisa desse grande poeta bilíngue, fiel à sua negritude. Martins escreve:



"Heleno em um sua poesia usa a expressão 'ballerino del caos' (bailarino do caos). É uma imagem exata, que se adéqua à perfeição a nós, homens do Sul do mundo, traficantes da beleza, vendedores ambulantes de versos e de histórias, que sonhamos uma Palmares imaginária, que não existe, enquanto olhares perspicazes já podem entrever, no fundo da paisagem, a sombra da depressão que nos espera, o topo do profundo precipício de onde o Zumbi desenhou, no vazio, o seu balé alado.
              
                                          Bailar é necessário. Viver não é necessário.
                                              Bailar é preciso. Viver não é preciso."(v)


Ainda choro sua partida, mas não conheço ausência, pois está ao meu lado como um suave e cálido alento. Para dizer de sua vida e da calidez de sua presença, tomo as palavras de Sophia de Mello ao falar do personagem de uma das suas histórias exemplares, onde ela escreve: "E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem".

A Heleno, essa minha homenagem simples e miúda, na Esperança de encontrá-lo, quando me for também, convidados que somos todos a nos despedir daqueles que amamos.



(i) Heleno Oliveira – As sombras de Olinda. Editora Caminho - 1977, p.43
(ii) Idem, p. 40
(iii) Idem, p.7
(iv) Idem, p. 29
(v) Martins, Julio Monteiro - Se fosse vera la notte - Cittadini della poesia:
 Heleno Oliveira. Zone Editrice. Suplemento da revista de poesia "Pagine".      Roma, 2003, p.9-10.

Fontes de informações, em italiano:

-   "Se fosse vera la notte"  -  editado por Mia Lacomte, apresentações de John Avogadri e Julio Monteiro Martins - Zona Editrice - Roma, 2003. 
-   "Oropa, França e Bahia" -   Introdução de Luciana Stegagno Woodpecker, traduções de Nicias Nogara e Andrea Sirotti, Edizioni della Meridiana, Florença, 2004.
-     It. Wikipedia.org/wiki/Heleno_Oliveira.

Tradução de citações, em italiano:
Vanise Rezende - www.vaniserezende.com.br

Citações em português: 

Figueiredo, Joana Bosak. In: "Do mar de Sophia a Oropa, França e Bahia"            - www.celpcyro.org.br/jomla

- Cidade de Tupantinga - www.pt.db - city.com

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Crédito Imagens:


1. Foto de Heleno - www.it. wikipedia.org./wiki/Heleno_Oliveira
2. Mapa de Tupanatinga - www.pt.db-city.com
3. Foto de Sophia de Mello Breyner Andersen - www.blogs.publico.pt
4. Imagem dança - arquivo blog Espaço Poese.

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CHRISTMAS SHOPPING

17 de outubro de 2015


Sabe-se que atualmente grande parte do mundo está em crise, e o Brasil – também enredado numa dura crise política – está longe de resolver as graves questões econômicas e sociais que o assolam. Mesmo assim, um pequeno percentual dos que ainda não foram atingidos pela crise econômica passeiam pelos centros de compras, nesta época que anuncia as diversas festividades de final de ano.

O comércio explora as oportunidades do dia das crianças, do dia do professor, dos casamentos de gala... E está cada vez mais especializado em estimular o consumo e a expectativa do novo e do mais, desde a população infantil a nós todos, das classes média e      alta de todo o mundo.




O clima da necessidade de presentear é mantido nos anúncios televisivos, nos cartazes chamativos das lojas de rua e dos shoppings centers que já adornam os seus espaços luminosos, para abrigar... Adivinha quem??? A figura do velho "Papai Noel"! Porque não há qualquer conveniência de lembrar, – nos suntuosos ambientes comerciais – a identidade de uma certa criança nascida há séculos atrás. A mensagem do menino de Nazaré não conduziria com os festejos e a abundância da festa que hoje chamamos "Natal"...

É impressionante o resultado de uma pesquisa que fiz, em busca de imagens de decoração natalina dos shoppings centers brasileiros. Acreditem: não encontrei uma só delas que me falasse de um recém-nascido acolhido pobremente entre as palhas de um curral. Só encontrei pinheirinhos carregados de sinos, estrelas brilhantes, presentes e laços coloridos, com ao lado um Papai Noel branco e gorducho, uma longa barba de algodão e um roupão vermelho, quase sempre sentado em lindas cadeiras, abraçando criancinhas inocentes que lhe confidenciam seus desejos...

O velhinho das terras do norte do planeta tornou-se o ícone natalino, o sígno do querer sempre mais e mais... também em terras tropicais. Na decoração não há cavalos nem bois, gatos nem cachorros, só esquilos e girafas, até mesmo o Mikey! Também há casinhas enfeitadas com luzes, cores e jardins... O habitante é o bonzinho Papai Noel, com um saco de presentes!


Recentemente lí um artigo sobre o significado do querer e do desejar, escrito pela professora Rita Almeida – psicanalista, blogueira e doutoranda em Educação (UFJF) – publicado no site Carta Maior, no início deste mês. O seu texto ajuda a refletir sobre os hábitos consumistas que nos constrangem, especialmente às vésperas do significativo evento histórico que envolve uma pobre família, de quem se conta a conhecida lenda de uns reis magos em busca de um menino anunciado pelos anjos, e uma grande estrela alumiando o seu abrigo nas palhas de um curral, porque na cidade "não havia lugar para eles". Segue o texto.


"Há quem pense que querer e desejar sejam a mesma coisa. Não são! Ao menos, não para a psicanálise. O querer é uma enorme prateleira, o desejo uma tesoura. A operação matemática do querer é a soma e a do desejo a divisão, nunca exata, sempre com resto. O querer é cumulativo, já o desejo envolve escolha e perda.

A operação que rege e sustenta o sistema capitalista e, portanto, domina a forma de estarmos no mundo hoje em dia é o querer. Ao capitalismo interessa o acúmulo de coisas; prateleiras cheias para vender, prateleiras cheias para comprar. Queremos mais um livro, mais um perfume e mais um sapato, não importa quantos já temos. Queremos mais uma especialização, mais uma viagem e mais 20 canais de TV, não importa que sentido tenha feito em nossa vida. Queremos mais um carro, mais um imóvel e mais bens, não importa o que isso represente para a coletividade humana e para a sustentabilidade do nosso planeta.

Jacques Lacan, ao construir sua teoria dos discursos faz menção ao que ele chama de Discurso Capitalista, que seria uma mutação pervertida do Discurso do Mestre. Enquanto o Discurso do Mestre se baseia na relação do senhor e do escravo – resgatado da dialética hegeliana – o Discurso Capitalista se dá pelo eclipse da relação entre os sujeitos. Em tal discurso, um sujeito não se relaciona com outro, se relaciona apenas com os objetos–mercadoria. Tudo vira objeto a ser consumido, até mesmo os próprios sujeitos.


O agente do Discurso Capitalista é o consumidor, seu interesse é pelo consumo. Como diria Viviane Forrester, na sociedade atual consumir é nosso último recurso, nossa última utilidade. Somos clientes necessários à sustentação do modelo capitalista.
Mas, consumidor é aquele sujeito que está sempre aquém, sempre em déficit, pois sempre haverá uma bugiganga, uma tecnologia, um bem, um saber e um modelo mais novo, que ele ainda não conseguiu adquirir, portanto, o verbo que ele conjuga é o querer. Entretanto, o engano do consumidor não é se considerar incompleto, já que a incompletude é uma realidade irremediável para todos nós, mas sim acreditar que irá alcançar a completude por meio da aquisição de coisas; coisas que ainda não tem.
Neste sentido, o querer é uma armadilha, pois por mais que o sujeito adquira coisas estará sempre se sentindo em falta, e ao invés de aceitá-la, seu movimento é continuar a buscar, no consumo, coisas que criem uma falsa sensação de completude. O querer é sempre mais, sempre sem limites. O querer funciona como negação da castração. No excesso de querer o sujeito se perde, pois perde a capacidade de fazer escolhas, e com isso, seu potencial singular.
Mas, e o desejo?

A psicanálise se sustenta sobre a ética do desejo. Ao contrário do querer – em que o sujeito quer tudo, até que sua prateleira fique completa – o desejo implica em escolhas, portanto, em perdas. O desejo é uma tesoura, sendo assim desejar implica em fazer opções. Ou isto ou aquilo, diria Cecília Meireles.


'Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!



Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!


                                                 
Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo'.[i]



O desejo seria, portanto, um antídoto para intervir numa sociedade baseada no querer consumista. Desejar implica no sujeito admitir sua própria divisão, aceitar sua incapacidade de ter tudo. Desejar não é produzir um acúmulo de coisas, mas sim, definir o que é mais fundamental e importante. Desejar é cortar o excesso, é aceitar a perda de gozo, é escapar da mera sobreposição de bugigangas a fim de produzir singularidade e estilo.

Num mundo onde o imperativo categórico é que abarrotemos nossas prateleiras e que queiramos tudo, todo o tempo, utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução."
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[i] Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo. Global Editora. São Paulo, 2012, p.63



Créditos de imagens:

1. Christimas Shopping - www.canstockphoto.com.br
2. Mensagem da chegada de Papai Noel - divulgação
3. Papai Noel - Natal Shopping Plaza - foto de Fernanda Acioly
4. Decoração Shopping - www.canstockphoto.com.br
5. Natal do quebra-nozes - foto de Fernando Machado
6. Capa do livro: "Ou isto ou aquilo" - divulgação da editora.
7. O querer e o desejo - www.canstockphoto.com.br


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DIAS DE SIM E DE NÃO

9 de outubro de 2015

Há dias que amanhecemos embutidos em sentimentos que têm raízes em tempos atrás, e se aprofundam cada vez mais na terra viva do nosso cotidiano. Chegamos até a esquecer de cuidar dos sinais profundos da alegria – ocupados com as marcas de mágoas que resistem inutilmente no coração. 

Um sentir nascido das lembranças do amor quando foi viçoso e intenso, ou da sombra de uma dor já ida, relembrada num ai trazido pela ventania...

Cada um tem o seu dia de sim e de não.
O dia dos apaixonados longe da pessoa amada... 
O dia de um pai ao lado do filho adoecido...
O dia da dor cruel, com tantas faces... 
O dia da expectativa do encontro almejado... 

Há dias do escriba entorpecido diante de uma página em branco...
Dias do músico inquietado por sons difusos em seus ouvidos...
Dias de pesada imobilidade nas mãos do pintor  a tela inteira diante de si, em sua brancura inexpressiva...
O dia a dia dos médicos de um precários sistema público de saúde  ainda incapaz de lhes oferecer iguais oportunidades... 
Dias de crianças famintas a clamar pelo pão que não chega...
Dias de guerras insanas que desarmam a harmonia da convivência, a esperança de um futuro melhor, os projetos de vida dos cidadãos...
Dias de perceber os próprios limites diante do que ainda há que realizar...

E o todo dia de recomeçar mais uma vez, na tentativa de mudar o rumo da vida, em busca de um sonho. Diferentes dias – do passado e do presente – que às vezes nos convidam a repetir: "Meu deus, meu deus, por que me abandonaste?" 

Nesses momentos, a vida nos convoca a dizer um 'sim', feito as palavras daquele homem tão especial, que fez história e, queiramos ou não, continua inspirando a nossa vida: "Em tuas mãos entrego o meu espírito!’"


Crédulos e incrédulos, e mesmo os que se dizem indiferentes – todos são chamados a definir o sim histórico da sua própria vida, o desenho do seu destino, a sua participação pessoal e única na construção do viver civil, do viver cordial, do viver enredado de amor. 

Pois que seja hoje, esse dia. O hoje de um ano que está por começar. O hoje deste momento que preciso aceitar, o hoje que devo enfrentar na luta por tempos melhores, na construção de relações mais saudáveis, como brisa de alívio a tantas preocupações. 

Que seja hoje o dia de dizer 'sim' ao recomeço, e que isto signifique o momento de optar pelo 'não' diante da negligência, da exploração, do comodismo, do vício de uma lastimosa vida. 

Que seja o dia da adesão a um estilo de vida mais comprometido com os irmãos – mais tempo para estar com o filho que espera uma presença amorosa, mais coragem para perdoar o que pode parecer imperdoável, e uma decisão tenaz para largar as artimanhas de uma vida superficial e indiferente ao que acontece na cidade, no país em vivo, no mundo ao redor.

Que seja hoje o momento do não à preguiça e ao engodo e, especialmente, aos incontáveis atos da corrupção do dia a dia. Que seja um 'sim' de adesão às iniciativas de contenção nos gastos de água, do cuidado pessoal com a manipulação do lixo da própria casa e da empresa ou instituição em que se trabalha. Um 'não' às camufladas faces do desamor e do ódio (nas relações pessoais e na participação política); um não à indiferença e à desinformação alimentada nas mesmas fontes da mídia.  

Cada um sabe qual será o seu primeiro passo, o seu gesto mobilizador e necessário para hoje mesmo retomar a vida em suas mãos, pois o tempo não espera os que dormem. É tempo de acordar e de assumir atitudes que envolvam participação, e coragem para as mudanças na vida pessoal e civil. 


Atitudes signifiquem juntar-me aos que também desejam construir  no ambiente profissional e social – os pequenos e grandes sonhos dos tantos deserdados sociais que vivem em busca do seu dia de 'sim'

Pois a indiferença, o descaso, e a comodidade são as grandes doenças de uma sociedade que não enxerga além do seu próprio quintal – um quintal em que viceja o culto à riqueza, a busca do poder, a indiferença à dor do outro.  

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Crédito de Imagens:

As três primeiras imagens são de: www.canstockphoto.com.br

Imagem 4 - Babel - pintura de Roberto Ploeg. ost. 120x220cm. - 2012
Imagem 5 - Desenho de João LIN - Recife - PE - Brasil

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