Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CHRISTMAS SHOPPING

17 de outubro de 2015


Sabe-se que atualmente grande parte do mundo está em crise, e o Brasil – também enredado numa dura crise política – está longe de resolver as graves questões econômicas e sociais que o assolam. Mesmo assim, um pequeno percentual dos que ainda não foram atingidos pela crise econômica passeiam pelos centros de compras, nesta época que anuncia as diversas festividades de final de ano.

O comércio explora as oportunidades do dia das crianças, do dia do professor, dos casamentos de gala... E está cada vez mais especializado em estimular o consumo e a expectativa do novo e do mais, desde a população infantil a nós todos, das classes média e      alta de todo o mundo.




O clima da necessidade de presentear é mantido nos anúncios televisivos, nos cartazes chamativos das lojas de rua e dos shoppings centers que já adornam os seus espaços luminosos, para abrigar... Adivinha quem??? A figura do velho "Papai Noel"! Porque não há qualquer conveniência de lembrar, – nos suntuosos ambientes comerciais – a identidade de uma certa criança nascida há séculos atrás. A mensagem do menino de Nazaré não conduziria com os festejos e a abundância da festa que hoje chamamos "Natal"...

É impressionante o resultado de uma pesquisa que fiz, em busca de imagens de decoração natalina dos shoppings centers brasileiros. Acreditem: não encontrei uma só delas que me falasse de um recém-nascido acolhido pobremente entre as palhas de um curral. Só encontrei pinheirinhos carregados de sinos, estrelas brilhantes, presentes e laços coloridos, com ao lado um Papai Noel branco e gorducho, uma longa barba de algodão e um roupão vermelho, quase sempre sentado em lindas cadeiras, abraçando criancinhas inocentes que lhe confidenciam seus desejos...

O velhinho das terras do norte do planeta tornou-se o ícone natalino, o sígno do querer sempre mais e mais... também em terras tropicais. Na decoração não há cavalos nem bois, gatos nem cachorros, só esquilos e girafas, até mesmo o Mikey! Também há casinhas enfeitadas com luzes, cores e jardins... O habitante é o bonzinho Papai Noel, com um saco de presentes!


Recentemente lí um artigo sobre o significado do querer e do desejar, escrito pela professora Rita Almeida – psicanalista, blogueira e doutoranda em Educação (UFJF) – publicado no site Carta Maior, no início deste mês. O seu texto ajuda a refletir sobre os hábitos consumistas que nos constrangem, especialmente às vésperas do significativo evento histórico que envolve uma pobre família, de quem se conta a conhecida lenda de uns reis magos em busca de um menino anunciado pelos anjos, e uma grande estrela alumiando o seu abrigo nas palhas de um curral, porque na cidade "não havia lugar para eles". Segue o texto.


"Há quem pense que querer e desejar sejam a mesma coisa. Não são! Ao menos, não para a psicanálise. O querer é uma enorme prateleira, o desejo uma tesoura. A operação matemática do querer é a soma e a do desejo a divisão, nunca exata, sempre com resto. O querer é cumulativo, já o desejo envolve escolha e perda.

A operação que rege e sustenta o sistema capitalista e, portanto, domina a forma de estarmos no mundo hoje em dia é o querer. Ao capitalismo interessa o acúmulo de coisas; prateleiras cheias para vender, prateleiras cheias para comprar. Queremos mais um livro, mais um perfume e mais um sapato, não importa quantos já temos. Queremos mais uma especialização, mais uma viagem e mais 20 canais de TV, não importa que sentido tenha feito em nossa vida. Queremos mais um carro, mais um imóvel e mais bens, não importa o que isso represente para a coletividade humana e para a sustentabilidade do nosso planeta.

Jacques Lacan, ao construir sua teoria dos discursos faz menção ao que ele chama de Discurso Capitalista, que seria uma mutação pervertida do Discurso do Mestre. Enquanto o Discurso do Mestre se baseia na relação do senhor e do escravo – resgatado da dialética hegeliana – o Discurso Capitalista se dá pelo eclipse da relação entre os sujeitos. Em tal discurso, um sujeito não se relaciona com outro, se relaciona apenas com os objetos–mercadoria. Tudo vira objeto a ser consumido, até mesmo os próprios sujeitos.


O agente do Discurso Capitalista é o consumidor, seu interesse é pelo consumo. Como diria Viviane Forrester, na sociedade atual consumir é nosso último recurso, nossa última utilidade. Somos clientes necessários à sustentação do modelo capitalista.
Mas, consumidor é aquele sujeito que está sempre aquém, sempre em déficit, pois sempre haverá uma bugiganga, uma tecnologia, um bem, um saber e um modelo mais novo, que ele ainda não conseguiu adquirir, portanto, o verbo que ele conjuga é o querer. Entretanto, o engano do consumidor não é se considerar incompleto, já que a incompletude é uma realidade irremediável para todos nós, mas sim acreditar que irá alcançar a completude por meio da aquisição de coisas; coisas que ainda não tem.
Neste sentido, o querer é uma armadilha, pois por mais que o sujeito adquira coisas estará sempre se sentindo em falta, e ao invés de aceitá-la, seu movimento é continuar a buscar, no consumo, coisas que criem uma falsa sensação de completude. O querer é sempre mais, sempre sem limites. O querer funciona como negação da castração. No excesso de querer o sujeito se perde, pois perde a capacidade de fazer escolhas, e com isso, seu potencial singular.
Mas, e o desejo?

A psicanálise se sustenta sobre a ética do desejo. Ao contrário do querer – em que o sujeito quer tudo, até que sua prateleira fique completa – o desejo implica em escolhas, portanto, em perdas. O desejo é uma tesoura, sendo assim desejar implica em fazer opções. Ou isto ou aquilo, diria Cecília Meireles.


'Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!



Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!


                                                 
Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo'.[i]



O desejo seria, portanto, um antídoto para intervir numa sociedade baseada no querer consumista. Desejar implica no sujeito admitir sua própria divisão, aceitar sua incapacidade de ter tudo. Desejar não é produzir um acúmulo de coisas, mas sim, definir o que é mais fundamental e importante. Desejar é cortar o excesso, é aceitar a perda de gozo, é escapar da mera sobreposição de bugigangas a fim de produzir singularidade e estilo.

Num mundo onde o imperativo categórico é que abarrotemos nossas prateleiras e que queiramos tudo, todo o tempo, utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução."
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[i] Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo. Global Editora. São Paulo, 2012, p.63



Créditos de imagens:

1. Christimas Shopping - www.canstockphoto.com.br
2. Mensagem da chegada de Papai Noel - divulgação
3. Papai Noel - Natal Shopping Plaza - foto de Fernanda Acioly
4. Decoração Shopping - www.canstockphoto.com.br
5. Natal do quebra-nozes - foto de Fernando Machado
6. Capa do livro: "Ou isto ou aquilo" - divulgação da editora.
7. O querer e o desejo - www.canstockphoto.com.br


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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