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LITERATURA — HELENO ALFONSO DE OLIVEIRA

25 de outubro de 2015

                           

 "Solidão
 Um quarto atravessado de brancura
 Onde a conversa mais alta é calada."            







Gostaria de escrever sobre o meu amigo/irmão Heleno Oliveira, mas não sei... Sinto-o muito mais presente, desde que ele partiu definitivamente para a infinitude, porque vivíamos em países diferentes, embora vez por outra nos encontrávamos para matar as saudades fortalecer nossa amizade. Tentarei rabiscar o que a memória e a dor me consente.


Brasileiro nordestino e sertanejo, nasceu em 1941 no sítio Santa Clara, do município de Tupanatinga - há 882 km da capital de Pernambuco. Aos dezoito anos, quando estudante no Recife, conheceu o Movimento dos Focolares, e consagrou a sua vida à difusão da espiritualidade cristã de Chiara Lubich, colocando-se ao serviço do movimento por ela fundado.

Heleno foi um dos jovens que conheci no Recife, ambos adolescentes. Após um período de contato com o Movimento dos Focolares, embarcamos junto a outros jovens - ainda nos tempos da Panair do Brasil - para um período de formação na Itália. De lá nos despedimos para destinos desencontrados. Foi com ele que fiz uma inesquecível viagem à cidade de Assis, na Itália, na companhia de Chiara Lubich, que nos contou a história de São Francisco e de Santa Clara de Assis.


De volta ao Brasil, Heleno viveu longos períodos em Porto Alegre-RS e em Belém do Pará. Nas duas cidades atuou na Universidade, como assistente da cátedra de Literatura Portuguesa. 

Em 1983 a Universidade do Pará publicou o seu primeiro livro: "Clarindo, Clarindo". Na ocasião, vivia em Florença, na Itália, até o dia da sua partida definitiva, em 1995, aos cinquenta e quatro anos. Deixou-se ficar em Lisboa, cidade que tanto amava, para onde viajava com frequência, no intuito de finalizar sua tese de doutorado sobre a obra da poetisa portuguesa Sophia de Mello Brayner Andresen. 


  
                Lisboa sob a chuva a alma é outra.             
Aqui me encontro eu.
   Venho de longe com sede e deserto.
                     Caminho horas para ver o real...
                    É quando o silêncio pesa.
                      São Domingos sabe a desventura.
                     Morrem os ruídos, as Naus retornam.
                   Lisboa é voz e olhos mansos
                  Quando não há lugar no mundo
                  Como as tardes do Terreiro do Paço,
                  Nem língua mais lírica e azul.”[ii]


Convidado a vir ao Brasil para o lançamento do seu livro, único publicado em vida, Heleno deteve-se a rever os amigos de Recife e de Olinda, e visitar sua cidade natal - um evento que lhe promoveu profunda emoção.  


Dois anos após a sua morte,  seus amigos de Florença promoveram, em 1997, com o apoio da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner, a publicação do seu segundo livro: As sombras de Olinda, pela editora 'Caminho' de Lisboa,  com apresentação da poetisa portuguesa que se tornara sua amiga.  

Copio aqui alguns trechos do que ela escreve na apresentação do livro citado:[iii]

“Heleno Afonso Oliveira nasce dentro dum romance de Guimarães Rosa, na solidão de uma fazenda do sertão do Nordeste, no Brasil, filho de uma mãe negra, uma mãe paciente, doce, intensamente religiosa que ama os livros, a cultura, a arte, e filho de um pai branco, um pai vagabundo quase sempre ausente, que nos quatro caminhos da aventura desfralda a ‘sua vida rude e embandeirada’ – como no poema 'Clarindo, Clarindo' um dia o filho invocará:

Quinta-Feira santa o cavalheiro apeia
Parece gente de Guimarães Rosa
Capote preto negro como a barba,
revólver, o silêncio da chegada.

Ao seu redor a ânsia as empregadas,
a gamela o uniforme e o café,
aos pé as botas engraxadas,
o galo prateado das esporas.

E invoca o silêncio de Laura, a mãe:

– Nada se faz quando ele voltar,
Tudo bem limpo com água da cacimba.

Armem a rede abram as janelas,
Vosso senhor repousa e domina.
Ponham toalhas colchas de renda,
Silêncio sobre padre e procissão.


Dessa infância difícil, Heleno guardará, ao longo da vida, a recordação e o fantasma. (Ele escreve em Florença, onde residia, e fazia o doutorado sobre a obra da poetisa portuguesa):

                                   O sertão se ancora numa lágrima
                                    e nem a luz de Florença apaga.

E Sophia continua: (...) Um dia, em Florença, Heleno viu uma exposição de arte africana: as estátuas, as máscaras, a força, o esplendor, a sacralidade. 

Da iluminação que foi para ele esse descobrimento a sua poesia diz:
                           
                           Um longo caminhar apaixonado,
                           uma paixão que mal compreendia
                           até que um dia na florentina terra
                           reviu rainhas reis nigerianos
                           que de bem longe vinham nas estátuas,
                           um indizível sopro negro arcano,
                           e o lado seu quebrado e destroçado
                           fulgiu em harmonia e abandono."


De herança Heleno nos só deixou o seu testemunho que transmitia "as reais dimensões do carisma da unidade por meio do sabor do que as Escrituras chamam de Sabedoria", como afirma Sophia de Mello na introdução do livro "Oropa, França e Bahia".  

Do amigo que ele foi, desde a adolescência, talvez eu pudesse dizer o amor, a presença inteira e plena, o afeto do amigo irmão.  

Sequer consigo inteirar-me da profundeza e da universalidade de sua poesia culta, forte, regressa aos cantos de imortais poetas. Mais que saudade, nele encontro o testemunho vivo do homem–solidão, do cidadão de tantas pátrias e de um só Sertão: aquele de sua mãe Laura, cuja pobreza e negritude eram para ele “morada do sagrado, sibila silenciada, Cassandra sem nome, sal da terra".  Dele, os  versos do poema “As sombras de Olinda”, onde registra a nossa amizade e nossos nomes, num canto livre da carícia do seu afeto:[iv]

"... Olinda é a sombra da luz da cal da brancura
    da brisa do sol do mar do cheiro a sargaço
    do frevo das ladeiras das algas
    dos olhos de Vanise, dando bom dia,
    enquanto a Igreja em transe espera,
    tão verde, que uma esperança voe certa para cá
    dos olhos de Luís Carlos, voltando das escolas
    do povo com o rosto de fortes mulheres
    desdentadas e belas
    e dos novos velhos olhos de Dona Álvara
    semelhantes aos da mãe terra...
   
    Revejo o mar, um menino sertanejo vê o mar
    vai num táxi anos cinquenta
      a voz materna sertaneja diz: o mar!
    O menino casa com Iemanjá
    com a mulher que nunca teve e tem
    verdíssima negríssima iara!
                                             O menino esposa as águas, e Deus não separa
                                              o que uniu, as traições não quebram alianças.

    O mar vem ao meu quarto navegar
    cirandeiro de Itamaracá
    atravessa-me nas sombras de Olinda
    meu rosto quarentão
    olha-me e me dá a teologia pé-no-chão
    eros paixão ágape de um irmão
    todo aceso na escuridão da mata".


A partir de 1983,  quando foi transferido do Brasil a Florença  Heleno iniciou a sua produção poética também em italiano, língua que conhecia muito bem. Os seus poemas em italiano foram publicados na coleção "Cittadini della Poesia", dirigida por Mia Lecomte - ele, o brasileiro escolhido como escritor estrangeiro na Itália, com poemas publicados nos livros: Se fosse vera la notte - Zone Editrice - Italia, 2003, e Oropa, França e Bahiauma linda publicação bilingue de poemas líricos, lançada em Florença em 2004. 

Na apresentação do livro "Se fosse vera la notte", (Se a noite fosse verdadeira), o brasileiro Julio Monteiro Martins faz uma descrição precisa desse grande poeta bilíngue, fiel à sua negritude. Martins escreve:



"Heleno em um sua poesia usa a expressão 'ballerino del caos' (bailarino do caos). É uma imagem exata, que se adéqua à perfeição a nós, homens do Sul do mundo, traficantes da beleza, vendedores ambulantes de versos e de histórias, que sonhamos uma Palmares imaginária, que não existe, enquanto olhares perspicazes já podem entrever, no fundo da paisagem, a sombra da depressão que nos espera, o topo do profundo precipício de onde o Zumbi desenhou, no vazio, o seu balé alado.
              
                                          Bailar é necessário. Viver não é necessário.
                                              Bailar é preciso. Viver não é preciso."(v)


Ainda choro sua partida, mas não conheço ausência, pois está ao meu lado como um suave e cálido alento. Para dizer de sua vida e da calidez de sua presença, tomo as palavras de Sophia de Mello ao falar do personagem de uma das suas histórias exemplares, onde ela escreve: "E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem".

A Heleno, essa minha homenagem simples e miúda, na Esperança de encontrá-lo, quando me for também, convidados que somos todos a nos despedir daqueles que amamos.



(i) Heleno Oliveira – As sombras de Olinda. Editora Caminho - 1977, p.43
(ii) Idem, p. 40
(iii) Idem, p.7
(iv) Idem, p. 29
(v) Martins, Julio Monteiro - Se fosse vera la notte - Cittadini della poesia:
 Heleno Oliveira. Zone Editrice. Suplemento da revista de poesia "Pagine".      Roma, 2003, p.9-10.

Fontes de informações, em italiano:

-   "Se fosse vera la notte"  -  editado por Mia Lacomte, apresentações de John Avogadri e Julio Monteiro Martins - Zona Editrice - Roma, 2003. 
-   "Oropa, França e Bahia" -   Introdução de Luciana Stegagno Woodpecker, traduções de Nicias Nogara e Andrea Sirotti, Edizioni della Meridiana, Florença, 2004.
-     It. Wikipedia.org/wiki/Heleno_Oliveira.

Tradução de citações, em italiano:
Vanise Rezende - www.vaniserezende.com.br

Citações em português: 

Figueiredo, Joana Bosak. In: "Do mar de Sophia a Oropa, França e Bahia"            - www.celpcyro.org.br/jomla

- Cidade de Tupantinga - www.pt.db - city.com

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Crédito Imagens:


1. Foto de Heleno - www.it. wikipedia.org./wiki/Heleno_Oliveira
2. Mapa de Tupanatinga - www.pt.db-city.com
3. Foto de Sophia de Mello Breyner Andersen - www.blogs.publico.pt
4. Imagem dança - arquivo blog Espaço Poese.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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