Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O RÉVEILLION NOS CONVOCA AO DESPERTAR

30 de dezembro de 2016


A cada final de ano - além das múltiplas celebrações, com festas e fogos de artifício - voltamos a anotar nossas promessas de recomeço, nas bonitas agendas de ano novo.  Feito a retomada de um caminho que ninguém sabe quando chegará ao fim...

Encontramo-nos com amigos que poucas vezes se reúnem em outras datas, para curtir a vida e torná-la mais alegre. Então se percebe como faz bem ficar juntos, contar piadas e caçoar uns dos outros, provando-se um bem-estar pouco experimentado nos dias ‘comuns’, quando são esquecidos os preciosos valores da conversa, da amizade e do bem-querer.

Neste final de ano senti a necessidade de fazer um simples cálculo do ano que passou: quanto tempo passei ‘ocupada’ em repassar vídeos e mensagens que fulano recebeu de beltrano e enviou a sicrano, o qual, para manter a corrente, me repassou esperando que eu não a quebrasse...  

passa-passa do WatsApp favorece a atualidade da informação e é uma excelente ferramenta de trabalho. Mas há mensagens que circulam de forma despersonalizada, desvinculada do nosso momento pessoal, da nossa necessidade de trocar ideias. O que de certa forma nos desvia do que estamos a fazer ou a pensar, e requer a gentileza de responder... Ainda bem que os amigos mais próximos, além de nos enviar importantes informações, também sabem escolher vídeos que nos levam a boas risadas!  

Mesmo assim, um rápido olhar no tempo empregado com o WatsApp poderia nos falar de quantas amizades reais foram acrescidas à convivência de cada um, com os valores sinceros da reciprocidade. 



Fico a imaginar se não seria a hora de voltar a investir também nos velhos hábitos do encontro! Pois arriscamos de nos enroscar no distanciamento de uma dimensão indeclinável da relação humana: a intensidade do colóquio pessoal, o sabor da visita aos amigos, a importância da boa prosa enquanto se toma juntos um sorvete, uma cerveja, um chimarrão, um café, uma boa taça de vinho... A depender da criatividade e das circunstâncias em que vivemos. 

Nesses momentos, as pessoas que se querem bem podem falar tudo o que pensam, exprimir o que sentem no mais profundo, e entender o que não se é capaz de intuir sozinho. 

O convite do réveillion  que tem o significado de "despertar"  nos lembra o sentido profundo daquilo que nos aponta o que é importante para a vida. Como, por exemplo, tornar-se uma pessoa mais alegre e ousada, mais solta e participativa, mais confiante e disponível, mais aberta e colaborativa. 



Esse "despertar" tem a força de nos trazer inspirações de mudança, iniciando por nos convidar a um pequeno gesto, que cabe muito bem nos tempos natalinos. 

Um deles é nos abrir os olhos para o próprio descuido de acumular roupas, bolsas, sapatos, e tudo aquilo que felizmente se deixou de usar porque foi possível comprar novas roupas, novos sapatos, novos cremes e perfumes... 

O descuido nos faz juntar aquilo que não nos serve mais e que, agora mesmo estará faltando a outras pessoas. Um exemplo clássico são as roupas e os brinquedos de bebê guardados “de lembrança” ou esquecidos num canto do armário. Em algum momento, quiçá eu me lembre que há muitos bebês e crianças que viveriam melhor se esses "guardados" chegassem até eles.   





As ocasiões em que manifesto o bem-querer aos filhos, netos e outros familiares, o registro das fotografias, os vídeos no celular e, especialmente, as cálidas memórias que conservo no coração já seriam suficientes para se perceber o significado e o dom de uma vida cheia de afeto, e sem necessidades. 

A comemoração do Natal a cada ano propõe reavivar, em nós, as mensagens do aniversariante. Uma delas é que os dons que se recebe deveriam frutificar, do mesmo modo concreto e gratuito que se recebeu. 

Sabe-se que o marketing da indústria e do comércio se esmera em convencer a sociedade do bem-viver que quanto mais se renova o que se tem, e quanto mais se presenteia, se está a cuidar do próprio bem-estar, e a fazer os presenteados cada vez mais felizes... 

Com essa visão de mundo que se expressa tão bem nos tipos de presentes que se escolhe para uns e para outros, fica-se a girar num círculo que só dança no próprio terreiro... E não se percebe o que é possível fazer pelos que não encontraram oportunidades que os ajude a levantar-se do seu chão enrudecido.  
É assim que se vai perdendo o sentido maior da celebração do nascimento de um Menino que veio "para que todos tenham vida, e vida em abundância!"


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Créditos Imagens:

1. Novo Ano: 2017Imagem de arquivo do blog.
2. Mulheres musicistas egípcias - Paul Alexandre Alfred Leroy, o.s.t. 81x65cm;       in: www.andepm.ma
3. Menino Vendedor de PeixesPintura do iraquiano Iman Maleki - 
    in: www.alixo.freeiraq.biz 
4. Mãe e Filho - Pintura do iraquiano Iman Maleki - Iman Malek in Pinterest.


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

MENSAGEM DE PAPA FRANCISCO

20 de dezembro de 2016



                                                

Uma curta mensagem de Papa Francisco, por ocasião do seu aniversário  no dia 17 de novembro – revela suas intenções pessoais para os anos que ainda terá pela frente. Seus desejos poderiam se tornar um programa de vida para 2017.  
Eis o que ele falou:

"Há alguns dias me veio à mente uma palavra que me parecia feia: velhice. E  que
poderia assustar. Recordo o que me disseram: a velhice é a sede da sabedoria. Esperemos que assim seja também para mim. A velhice é vida tranquila, religiosa e fértil. Rezai por mim, para que minha velhice seja assim: tranquila, religiosa, fértil, e também divertida.”

Fiquei a pensar qual o significado desse desejo do papa para a sua vida daqui em diante, e o que também poderia significar para o nosso cotidiano viver.


Uma vida tranquila – Plenificada, calma,  distensa, sem alvoroço  nem sobressaltos, a promover serenidade e segurança.

Bom seria que as situações que provocam desassossego e tumultuam o nosso bem-estar, não fizessem parte do cardápio de nossa vida. Mas, como fazer – no rebuliço das relações engendradas pela sociedade em que vivemos – para alcançar uma posição pessoal de tranquilidade? 

A experiência ensina que a melhor prática para chegar à tranquilidade é a pessoa se manter firmemente situada no momento tangente, simplesmente no aqui e no agora. Mesmo que se viva uma situação de conflito, de doença, de perda, de desamparo.



Uma vida religiosa, espiritual Que não significa, necessariamente, uma vida de oração, de normas e de preceitos. A oração maior está em se adquirir uma visão transcendente que descobre um novo sentido para cada momento, por mais simples que seja. 

A transcendência significa dar uma dimensão espiritual às coisas mais significantes e igualmente àquelas do dia-a-dia. 

A dimensão espiritual da vida promove, em muitos, uma profunda comoção diante da dor do mundo e das necessidades dos irmãos. 

O papa Francisco nos deu testemunho, desde o início, ao cuidar que os moradores de rua, próximos do Vaticano, tivessem acesso a banheiros e lavanderia, para levarem uma vida cidadã. Também se  sabe que foi ele quem chamou a atenção do mundo para a situação dos milhares de refugiados, fugitivos de seus países em situação de conflito. 



As atitudes dos familiares e sobreviventes do desastre aéreo com os chapecoenses também nos falam de transcendência. Dona Alaíde, mãe de uma das vítimas - o goleiro Danilo - no momento em que foi abordada por um jornalista que a entrevistava, foi capaz de cuidar da dor de seu entrevistador...


Uma vida fértilrequer, em primeiro lugar, o esforço e a participação de cada um para se desenvolver de forma cooperativa e produtiva, diferente das fúteis conquistas que brotam de um "jeitinho" ou do dinheiro que se tem para usufruir das coisas que se deseja.   

Uma vida fértil sugere a geração de frutos em comunhão com os outros, imersos na cooperação fraterna do serviço. E promove partilha de talentos, de saberes, de oportunidades e de experiência, a fim de se poder construir a solidariedade econômica, política e social que gera reciprocidade.

Uma vida fértil é, ainda, a vivência testemunhal das escolhas que cada um ou cada grupo faz com suas crenças e sua ideologia. Pois só o ministério do bem-comum contém a energia vital que fertiliza o solo das relações, e produz um novo jeito de ver o mundo e de se estar nele. Esta parece ser a vida fértil de que fala Francisco. 



Por fim, uma vida divertidaMuito simbólica essa lembrança de papa Francisco ao encerrar o seu discurso. A "fertilidade" carece de relação, de cuidado e de alegria em todas as suas fases de vida. 

Para se alcançar uma vida divertida não carece viver-se de espetáculo em espetáculo. É preciso, sim, construir pontes, fazer amizades, abrir-se para o outro, buscar aliados e aprendizes da vida, companheiros de caminhada. Pois seria muito duro estar a invernar no trabalho todo o tempo. É igualmente importante buscar as carícias da primavera e o calor do verão.

Aqui, vale lembrar um dito da espiritualidade africana conhecida como Ubuntu: “sou enquanto você é”. Para tudo na vida. Mas, de modo especial para se querer bem, se alegrar e se divertir.






Assim, ao completar oitenta anos, o papa Francisco nos revela por que o seu testemunho fala de sobriedade e tranquilidade, e de uma missão profundamente fértil. Mas, ele também não esconde o seu gosto por diferentes expressões artísticas e pelo cultivo de laços de amizade. 

Que nos sirva de aprendizado esses sábios desejos de uma pessoa tão querida, dentro e fora do ambiente das Igrejas Cristãs que nesses dias celebram o Natal. 




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Créditos Imagens

1. A pomba da paz e Papa Francisco - www.mensagenscomamor.com.br
2. Papa Francisco no refeitória da residência onde vive -                     www.taida.web.com.br - vaticano
3. Francisco com uma criança, em uma de suas viagens - www.clicrbs.com.br
4. Dona Alaíde e o jornalista Guido Nunes, seu entrevistador -www.youtube.com
5. Duas amigas comemoram o Ano Novo - foto exclusiva deste blog.
6. Uma boa dança pra relaxar - foto exclusiva deste blog.

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RELAÇÕES HUMANAS - CULTURA E DIVERSIDADE

7 de dezembro de 2016

Nesses dias encontrei, no facebook, um comentário de Luigino Bruni – do Projeto EdC: Economia de Comunhão – contando que certa vez perguntou a um filósofo africano qual era a sua ideia em relação ao uso do burkini na França. 

O burkini ou burquini é uma expressão que integra a ideia da burca (vestimenta das mulheres islâmicas) com o biquíni. É um traje de praia feminino que só deixa à mostra o rosto, as mãos e os pés da mulher que o veste. O corpo e os cabelos ficam totalmente cobertos.



O africano a quem foi feita a pergunta confundiu a expressão burquini com biquíni e respondeu: – Na África as mulheres nunca usam biquíni na praia, e quem for de topless é arrastada. Luigino comenta, no facebook: “O equívoco, na verdade, me pareceu interessante. O grande tema que se esconde  por   trás dessa  história  do burkini  é o corpo e, portanto, o corpo das mulheres (qualquer discussão sobre o corpo é sempre, e antes de tudo, uma discussão sobre o corpo das mulheres, por diversas razões).”


Em seguida Maria Sarni, também italiana, faz um comentário: “O maior erro que nós ocidentais cometemos é o de pretender tornar inerente a outras culturas os processos internos surgidos a partir do exterior – mediante ações legais ou militares ou outras – sabendo-se que os nossos presumidos progressos foram concebidos por processos internos que foram desenvolvidos em decênios ou séculos, e muitos ainda se mantêm. 

Os outros só poderiam ser influenciados por contágio, em sua particular via de desenvolvimento. Essa via também pode ser diferente da nossa, o importante é manter a comunicação, não fechar-se à escuta e ao conhecimento recíproco. A intervenção da lei só se justifica diante de evidentes violações da segurança e dos direitos humanos universais”.

À medida que lia esse bate-papo sobre o vestuário de mulheres islâmicas e africanas, fui transferindo o pensar para outro aspecto da vida humana que expressa igual diversidade de cultura, e influencia as compreensões das pessoas. Refiro-me aos “pontos de vista” sobre características de determinadas organizações, projetos, e até questões práticas simplórias.

No meu dia-a-dia percebo que “manter a comunicação, não fechar-se à escuta e ao conhecimento recíproco” também tem a sua complexidade, mas é um exercício extremamente necessário para se poder trabalhar em comunhão, aprender a inovar e a amar.



O exercício da escuta é tão delicado quanto o do dizer e se expressar sobre alguma coisa na comunicação com os outros. A minha "escola" da escuta vem de tempos atrás, ainda quando eu secretariava a presidência da CNBB, na região Nordeste, no período assumido por Dom Hélder Câmara, depois por Dom José Maria Pires que, por ser negro, era chamado Dom Pelé. 


Até hoje guardo a memória da escuta fraterna e profunda de Dom Pelé, que sempre se mostrou cuidadoso e atento nas ocasiões em que se discutia algum assunto importante a ser deliberado. Eu, inexperiente, o espreitava e o admirava na condição de pequena aprendiz... E percebia o quanto me seria difícil chegar àquele comportamento tão sábio e sagaz.

Mas, Dom José Maria Pires também sabia ser fraterno no respeito pelo outro, e especialmente em relação ao papel da mulher, em épocas em que poucos acolhiam a ideia de rever a sua excludente e difícil inserção na comunidade eclesial.

Hoje, todas as vezes que me encontro diante de uma situação que me exige o silêncio e a escuta respeitosa, lembro-me do testemunho daquele caro irmão arcebispo que ainda vive no interior das Minas Gerais.

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Crédito das Imagens:

1. Mulheres na praia - www.brasildelonge.com./tag/acaraje
2. Mulheres africanas - viagemempauta.com.br
3. Mulheres afegãs vestindo burcas - pt.wikipedia.org/wiki/Burca
4. Intercomunicação - imagem de divulgação da filosofia africana Ubuntu
5. Foto de Dom José Maria Pires - Universidade da Paraíba - setembro de 2013, ocasião da sua título de Doutor Honoris Causa que lhe foi outorgado.

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NEM TUDO É DIAS DE SOL

3 de dezembro de 2016

Não é simples nesses dias escrever e pensar... Nem cuidar do pesar imenso por várias razões, e não só por nosso país dilacerado, diminuído dos valores e do exercício da democracia. 

Nesse clima a dor fincou presença, depois de termos admirado a alegria celebrada por um time que estava a conquistar um lugar de evidência, no futebol da América Latina. 

Um descuido da aviação privada nos traz a dor imensa de muitas mortes e profundas saudades. Pois não choramos essas mortes feito se choraria a morte como no poema do grande Fernando Pessoa:...e quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre.  


"
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural... 

Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se 
Natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
 
E quando se vai morrer,
Lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo 
E é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...".


Sobre a dor do mundo que nos atinge, há um soneto nascido em circunstância como esta, que me deixou abalada e triste. Volto àqueles versos e me refaço na Esperança:  


A dor do mundo


De tanta dor no mundo espraiada
Dos abalos infames, traiçoeiros,
De aleatórias mortes provocadas,
Ventania do ódio em nevoeiros...

De tanta falta de serenidade
Da infame lei de revidar no engodo,
Na guerra, na cegueira e na maldade
Que a violência traz ao mundo todo...


Essa vontade de abraçar os tristes       

Frente à guerra, ao terror, ao gesto insano,               
Nessa dor que se espalha sem limites...

De tantos ais e tantos desenganos,
Este desejo meu, essa vontade,
De revidar com gestos mais humanos! 

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Origem dos poemas:

Se eu pudesse trincar a terra toda - Fernando Pessoa (Alberto Caieiro) - Obra Poética em um volume - Org. e notas: Maria Aliete Galhoz - Editora Nova Aguiar, Rio de Janeiro,1995. p.216.

A dor do mundo - Vanise Rezende - Antologia Poética Sarau Brasil 2016 (Concurso Nacional de Novos Poetas). Org. Isaac Almeida Ramos. Vivara Editora Nacional. Cabedelo-PB, 2016. p.21

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Crédito das Imagens:

1. Madeleine Veilleuse - George La Tour - Museu do Louvre.
2. Imagem de Fernando Pessoa - www.nolimiardaspalavras. blogspot.com.br
3. Amanhecer - Foto: Odair Schiefelbein-Agudo-RS (Brasil).

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O AMOR REQUER CONCRETUDE

28 de novembro de 2016

Encontrei uma frase na internet cuja autoria é atribuída a Frida Kahlo: 

"Onde não puderes amar não te demores". 

Consideradas as dificuldades que Frida Kahlo passou em sua vida, é possível que a frase se refira a uma experiência de desmanche de uma relação amorosa. Quem já vivenciou essa experiência sabe como é doloroso quando um dos parceiros, na relação amorosa, não mais se interessa de  partilhar a vida com o outro. 

Aqui, eu ousaria afirmar o contrário do que diz Frida, lembrando que amar é arte que se aprende como se aprende a caminhar e a falar... No caso da arte de amar, é preciso tempo e cuidado, além do exercício diário. 

Carece que te demores... 

Começa-se do jeito que se sabe, o coração e a mente abertos para conhecer o outro, cada outro com quem se está a relacionar por motivos diferentes, por compromissos diversos, por razões que só o coração conhece. Pessoas da família, os que se encontra na rua e, ainda, aqueles com quem se convive no trabalho - uns mais camaradas e colaboradores, outros desconfiados, invejosos, irritantes -
um aprendizado que não tem fim. 

O amor não é um sentimento coletivo, é personalizado de acordo com o dia e a hora, na alegria e na tristeza, nos dias de sim e nos dias de não. 

A gente ama a natureza e por amor à natureza se cuida bem do lixo e da água. Fazendo assim, se está cuidando dos que hoje precisam de ar puro, das nascentes dos rios e da Mãe Terra. E se cuida hoje também dos que virão mais tarde.


Amamos as plantas, suas flores e seus frutos. Por causa da partilha da beleza que nos entregam e dos alimentos que nos dão a gente oferece água, põe um pouco mais de terra boa, faz chegar o sol e a sombra como requer cada situação.

A gente também ama os animais e alguns trazem gatinhos e cachorros para o próprio convívio. 

Cuidamos dos filhos e das filhas, e vibramos com as traquinices dos netos. E, mesmo sem netos nem filhos, a gente gosta de ver crianças e velhinhos felizes, curtindo a vida que podem ter.

Quantos jeitos de exercitar o amor, de aprender a carícia da atenção essencial sem pieguices nem esmolas, sem jeitinhos nem apadrinhamentos, mas oferecendo o melhor que se tem e que se sabe e que se pode dar. 

Carece que te demores, para amar. Buscar uma brecha para começar a praticar o amor, que o amor se dilata, se renova, conquista, rejuvenesce, faz bem à saúde. 

É importante fazer esse aprendizado sem esmorecer. Observar com atenção o que está por trás do olhar triste ou preocupado da assistente doméstica, do motorista, da babá, da manicure, do porteiro... 

Até que um dia se terá aprendido a informar mais sobre a própria cidade - que é preciso saber o que se passa com o descuido das políticas sociais de hoje, em nosso país. Carece se interessar, ainda, sobre as aspirações dos jovens e o sofrimento dos que estão sós...  

Talvez até se descobra que há refugiados próximos ao lugar onde  vivemos, e que há vários desempregados
que a crise colocou ao nosso lado. 

Aprendi certa vez, de Chiara Lubich, que 
onde não houver amor, faz a tua parte para o amor chegar, porque o mundo tem sede de amor.

Sede de amor - não de um sentimento piedoso nem de esmolas, nem da oração destacada do teu irmão, nem da "caridade ao pobrezinho", nem da indiferença. Há muitos projetos sociais inclusivos e não assistencialistas esperando a nossa cooperação.

Descobriremos, por exemplo, o testemunho dos estudantes que ocupam as escolas por que querem mais do que boas aulas e boa educação. Querem educação e saúde como um serviço cidadão que deve chegar a todos; querem mais do que têm os seus pais, querem democratizar a  cidadania. 

O amor - também aquele dos casais de diferentes expressões, dos pais e dos filhos, dos amigos e dos apaixonados, do empenho social pela mudança, pela justiça, pela fraternidade... Todos os amores carecem de um olhar para fora de si, e não a esmo, mas na direção das possibilidades reais do lugar onde se está. Como, por exemplo, buscar informação e conhecimento dos direitos que o povo deste país está perdendo. Uma informação que não se encontra no silêncio imbecilizado diante da TV nem das meias verdades da imprensa de maior circulação.  


amor requer concretude e exige posicionamento político. 

O amor também carece de  "misericórdia", uma palavra antiga que carregada de um sentimento universal e humanitário, como nos faz entender o Papa Francisco. 

Visto assim, temos um bom caminho a fazer para aprender a amar.

Onde não houver amor, carece que te demores...  

Experimenta começar em primeira pessoa. E verás que, com o teu gesto pessoal e único, que depende só de ti, o amor poderá florescer e vingar ao teu redor

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Crédito Imagens:

1. Imagem de: www.canstockphoto.com.br
2. Jardim doméstico - Idem
3. Refugiados - divulgação - epa.
4. Greve na UFPE - Recife-PE - WattsApp - Foto de Bruno Lafaiete -TV Globo.
5. Imagem divulgada em: www.outraspalavras.com.br


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MENSAGEM TARDIA A JULIO CORTÁZAR

22 de novembro de 2016


Deu-me vontade de enviar essa mensagem a você, caro Julio Cortázar. Você que há anos se foi e agora "está "... Creio perceber agora aquela sensação tão viva que você descreveu, sentindo saudades do seu grande amigo Paco, que morrera há trinta e um anos e ainda estava aí, não lá em cima nem na estratosfera, mas estava aí enquanto você acordava ou escovava os dentes, o amigo tão especial, os outros presentes quando chegavam, mas ele sempre. 

Eu também tenho essa sensação da presença viva de pessoas que amei e que se foram há tantos idos anos. E, como você, Cortázar, sei que a Mara, minha amiga Mara "está aí". Quem sabe vocês se encontraram na Argentina, ela estava lá no tempo de Allende, e depois, como você, foi morar em Paris. Ela e o Phillipe, você e a sua Carol, quem sabe chegaram a conversar um dia, quem sabe...

Mara vive. Vejo-a chegando à minha casa com suas malas de repente, sem dizer quando nem por que... Ainda sei dos contatos que ela tinha, fazendo os companheiros se sentarem no chão do meu quarto, as janelas fechadas, e ela não me explicava nada. A ditadura em pleno rigor... Ela me protegia sem me apresentar seus amigos, sem me dar uma explicação.    

O tempo passou... Um dia ela mandou me chamar depressa, morava no Rio de Janeiro e estava partindo, - dessa vez não para cooperar com o governo de Moçambique, como fizera antes – ia de férias a Paris, seu marido era francês, tinha a passagem comprada, tudo pronto...

De repente, não mais. Viu-se tomada pela leucemia, e aquietou-se num hospital público no Rio de Janeiro. Eu ali junto a massagear seus pés ou acarinhar seu rosto pálido, e aquela sua expressão amorosa de cuidado com os amigos que chegavam para visitá-la.  



Na sua crônica, caro Cortázar, você dedica ao Paco aquele quadro de René Margritte: um cachimbo... Ou um caminho sinuoso, uma ponte e não um cachimbo. E Paco presente, bem ali.
O que você escreveu eu sei que é assim. Aprendi de você que é assim: a Mara todavia chegará a qualquer hora, com suas grandes malas, viva e sorridente, maravilhosamente ela, (a saudade me avisa quando o amigo que partiu está aquí). E, como você. Cortázar, a gente não sabe como nem onde... Só sabe que não é lá em cima, quiçá ao lado, cá dentro, está aí, eu sei, a Mara. Mesmo depois de tantos anos já passados... nem sei contar quantos!




Aquele seu rosto grande e cheio, como uma índia morena, olhos brilhantes de vida, cabelos lisos  e um vestido leve e solto de algodão florido, como se usava então, e ela aí... ativa, atenta a todos os meus senões. A vida a fluir e a sua presença delicada, ela aqui, e ainda sabe amar como ninguém...
E como não ter saudades dela!


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Texto inspirado no conto de Julio Florencio Cotázar - romancista, contista e cronista argentino (*26/08/1914 +12/02/1984): "Aí, mas onde, como". Livro de contos "Octaedro", Edições BestBolso, Editora Best Seller Ltda. Rio de Janeio, RJ


Créditos das Imagens

1. Imagem - www.ihu.usininus.br/entrevistas/557209
2. Foto de Marluza Correia Lima - arquivo deste blog
3. Cachimbo - Pintura de René Magritte - www.obviousmag.org
4. Rosto de índia publicado por www.avaaz.com.br - divulgação.

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