Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

NEM TUDO É DIAS DE SOL

3 de dezembro de 2016

Não é simples nesses dias escrever e pensar... Nem cuidar do pesar imenso por várias razões, e não só por nosso país dilacerado, diminuído dos valores e do exercício da democracia. 

Nesse clima a dor fincou presença, depois de termos admirado a alegria celebrada por um time que estava a conquistar um lugar de evidência, no futebol da América Latina. 

Um descuido da aviação privada nos traz a dor imensa de muitas mortes e profundas saudades. Pois não choramos essas mortes feito se choraria a morte como no poema do grande Fernando Pessoa:...e quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre.  




"
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural... 

Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se 
Natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
 
E quando se vai morrer,
Lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo 
E é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...".


Sobre a dor do mundo que nos atinge, há um soneto nascido em circunstância como esta, que me deixou abalada e triste. Volto àqueles versos e me refaço na Esperança:  


A dor do mundo


De tanta dor no mundo espraiada
Dos abalos infames, traiçoeiros,
De aleatórias mortes provocadas,
Ventania do ódio em nevoeiros...

De tanta falta de serenidade
Da infame lei de revidar no engodo,
Na guerra, na cegueira e na maldade
Que a violência traz ao mundo todo...


Essa vontade de abraçar os tristes       

Frente à guerra, ao terror, ao gesto insano,               
Nessa dor que se espalha sem limites...

De tantos ais e tantos desenganos,
Este desejo meu, essa vontade,
De revidar com gestos mais humanos! 

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Origem dos poemas:

Se eu pudesse trincar a terra toda - Fernando Pessoa (Alberto Caieiro) - Obra Poética em um volume - Org. e notas: Maria Aliete Galhoz - Editora Nova Aguiar, Rio de Janeiro,1995. p.216.

A dor do mundo - Vanise Rezende - Antologia Poética Sarau Brasil 2016 (Concurso Nacional de Novos Poetas). Org. Isaac Almeida Ramos. Vivara Editora Nacional. Cabedelo-PB, 2016. p.21

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Crédito das Imagens:

1. Madeleine Veilleuse - George La Tour - Museu do Louvre.
2. Imagem de Fernando Pessoa - www.nolimiardaspalavras. blogspot.com.br
3. Amanhecer - Foto: Odair Schiefelbein-Agudo-RS (Brasil).

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