Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - NÃO VAMOS ESTACIONAR!

16 novembro, 2018



Uma cara amiga me enviou um poema de Roberta França, conceituada  médica geriatra do Rio de Janeiro.  

Tomo a liberdade de transcrevê-lo para os leitores deste espaço, expondo aqui o que me inspiraram as suas palavras tão sábias quanto poéticas. 

Segue abaixo o poema citado.




“Jamais estacione a sua alma em espaços onde não cabem os seus sonhos. Jamais!
Jamais estacione a sua alma, ela precisa de movimento.
Jamais estacione os seus sonhos, eles precisam de liberdade.
Jamais estacione a sua esperança, ela precisa de espaço.
Jamais estacione a sua alegria, ela precisa de ação.
Jamais se estacione onde não lhe cabe, não lhe contenha, não lhe permita ser contido.
Somos alma em evolução, somos o caminho que ensina, somos a luz que sempre vence a escuridão.
Jamais estacione!”


Tenho 80 anos, e bem poderia ser uma das clientes dessa jovem médica e poetisa, não fosse eu uma velha sertaneja que há muitos anos reside no Recife. Mas, apesar da grande diferença de idade, encontro coincidências com essa jovem profissional tão estimada: amo a vida, e porque a amo cuido bem do tempo presente, do meu lazer e, também, sou uma mulher que gosta de escrever. 

Seguem os pensares que o seu poema me provocou.


“Jamais estacione a sua alma em espaços
onde não cabem os seus sonhos. Jamais!”

Quando a dor do nosso povo nos domina, o impacto de notícia negativas nos paralisa, o inesperado nos assusta, o desamor nos toca no mais profundo e a violência nos assombra, é necessário ouvir com atenção, lá dentro de nós mesmos, e reconhecer o que é mais importante neste agora.  

A dor me domina quando me deixo soltar dos laços que me sustentam no presente, e me entrego apenas a um sentimento temeroso do futuro.

O cotidiano me paralisa porque estou descuidando de cuidar de mim, pois para lutar pelo bem comum, e manter a atenção pelo outro, preciso de energias positivas que me animem a seguir em frente, sem me entregar. 

O inesperado me assusta no momento em que me prendo à solidão não procurada, e não me percebo parte dos familiares que me acolhem, dos amigos que deixei de acompanhar, de fato, pois o WatsApp não me dá o retorno da "presença do afeto" que me trazem os amigos que partilham, comigo, a dor do meu meu país, da minha cidade, das pessoas mais vulneráveis e esquecidas.

O desamor me impacta se, por alguma razão, ainda se tem atitudes de uma criança, como se dependesse dos cuidados e da atenção permanente dos outros. Talvez, ainda não se cresceu para viver com autonomia. Quando crescemos, quando amadurecemos, os outros me interessam para trocar talentos e ideias, para dialogar sobre as nossas diferentes diferenças  e, especialmente, para amá-los e também sermos capazes de lhes pedir ajuda, quando for preciso.   

A violência me assombra na sociedade em que estou inserida, na cidade onde vivo, no país onde nasci, no mundo desigual e individualista que todos construímos. Essa é, portanto, a hora de  exercitar a atenção carinhosa por cada pessoa com quem me relaciono, se a percebo desassossegada. 

É importante manter-se mais vigilante, para não escorregar em pequenas violências cotidianas: no trato com os empregados domésticos, com os meus colegas e auxiliares, no escritório e, ainda, com o porteiro, o entregador de pizza e outros prestadores de serviço que a nós, da classe média, nos passam desapercebidos, como se elas não fossem pessoas como nós, com as suas dores, o seu difícil cotidiano, as suas preocupações, seus sonhos e desamores. Mas não esqueçamos que mais vale um gesto de escuta, de paciência e de atenção com o outro, do que qualquer outra coisa que eu possa lhe dizer ou presentear. 

Parece-me que é esse o sentido do verso seguinte:
                
“Jamais estacione a sua alma, ela precisa de movimento.”
           
Carecemos do movimento interior da “carícia do afeto” – no dizer do grande escritor e teólogo Leonardo Boff. Mesmo por aqueles que pouco conheço ou que tenham outro jeito de viver e de pensar. 

A “carícia do afeto” é uma atitude indispensável para se permanecer fiel à resistência democrática por um país melhor, e para cooperar, efetivamente, na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Que significado teria para mim e para a sociedade, pôr-se a lutar por uma sociedade justa e fraterna, utilizando-me de palavrões contra os outros ou tendo atitudes de segregação? 

Atualmente, tenho visto vídeos alternativos ou postagens no WatsApp de pessoas que respeito e admiro, por assumirem com coragem uma posição contrária ao desmantelo das ações do governo que está por vir. Há muitas pessoas bem intencionadas e lutadoras que, no entanto, às vezes escorregam em expressões de destempero e insultos violentos. É bem verdade que precisamos expressar, sim, a nossa indignação, a nossa crítica contundente,  e a nossa visão dos fatos de um modo mais condizente com os que postulam uma conduta não violenta. 

Sei que não é fácil, não é simples, especialmente quando somos "agredidos" nos nossos princípios e crenças, com tanta desfaçatez, desequilíbrio e uma escancarada ignorância sobre políticas públicas, para um povo cujo trabalho sustenta, no dia a dia, o nosso país.   

“Jamais estacione os seus sonhos, eles precisam de liberdade.”

Sonhar é preciso, e é indispensável à vida. Se nos permitirmos estacionar a nossa capacidade de sonhar, se nos entregamos ao desalento, se deixamos secar a fonte dos sonhos que  sustentam a nossa vida, é porque estamos permitindo o abatimento, o escorrego fundo na tristeza, o adeus à convivência necessária com os outros. Estacionar significa quebrar a mola do amor, amolecer, deixar a vida me levar.

Sonhar é preciso. É fonte de energia para sobreviver, e até para sermos capazes de, juntos, ultrapassar o túnel que hoje nos esconde a luz do amanhã. É o sonho que nos impulsiona a dizer sim, e a nos juntar aos que sonham conosco o bem comum e a justiça social.

“Jamais estacione a sua esperança, ela precisa de espaço.”

O espaço da esperança de um povo está no mais profundo de cada um de nós.  Às vezes somos apenas capazes de ter um “fio de esperança”. Lembremo-nos, então, que é importante manter uma atitude coerente com os nossos ideais, até mesmo algo que possa nos parecer insignificante, simples que seja... Mas, que seja!

É da esperança que nascem os projetos para a superação do desamor, do desmantelo, do dissabor, da desolação, da necessidade. Projetos que pertençam e incluam os que não têm espaço para se desenvolver, para aprender, para ir atrás do seu sonho. 

A esperança movimenta os sonhos, junta as energias, recria a vida e promove a alegria!

Mas... “Jamais estacione a sua alegria, ela precisa de ação.”

A alegria não é um dom, um sentimento ofertado, algo que se compra ou que se encontra facilmente. A alegria é construída no correr das escolhas que fazemos, do clima que criamos em torno de nós, do nosso aprendizado e da nossa sensibilidade para pensar no outro.  

Lembremos o caminhante Francisco de Assis: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado...”.  Carece que se desenvolva a própria capacidade de dar, de entender e de acolher o outro, caso contrário estaremos restringindo o nosso aprendizado, desprezando o que o outro tem para doar, para nos ensinar e somar conosco.

Portanto... "Jamais estacione onde não lhe cabe, não lhe contenha, não lhe permita ser contido". 

Amar o outro é a porta para nos encontrar, para crescer por dentro, para  aprender a descobrir a alegria do gesto de amor. O desamor nos apequena, nos empobrece, leva-nos a nos perder.

O poeta chileno Pablo Neruda (*), que “canta o amor, a esperança, a justiça, a vida e seus milagres” – como escreve Thiago de Mello na apresentação do livro “Prólogos” – em um dos seus poemas descreve os benefícios do amor. Mesmo se tratando do amor por uma só pessoa, seus versos revelam o que acontece quando alguém se move para fora de si em direção ao outro:


Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Tudo estava vazio, morto e mudo (...)
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.”

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(*) Pablo Neruda: Cem sonetos de amor, XXV.L&PM, p.35



Para mais informações sobre a Dra. Roberta França consulte:

https://oglobo.globo.com/rio/bairros/geriatra-roberta-franca-faz-sucesso-com-dicas-em-portal-na-internet-215178


Crédito das imagens:


1.  Imagem símbolo divulgada no WatsApp durante a campanha eleitora do professor Fernando Haddad à presidência do Brasil, em 2018. 
2. Geriatra carioca Roberta França - Foto de: Fábio Rossi, Agência Globo, na matéria acima citada.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que sejam removidas deste espaço, por favor deixe o seu comentário. 



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