Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A ESTAÇÃO

30 de abril de 2014







A estrada de ferro subia da capital para os sertões afora, num longo percurso empoeirado e denso de calor. 


Na plataforma da estação, via-se a menina, quase adolescente, cabelos pretos e lisos, a realçar seus traços indígenas e olhos castanho-escuros ligeiramente repuxados. Usava um amplo vestido, com saia rodada, a lhe marcar a cintura de um corpo harmonioso e bem torneado. 




As paredes, da pequena e rústica estação, pareciam enferrujadas pelo tempo, e contrastavam com a luminosa abóbada azulada da agreste paisagem.  Mais distante, erguia-se um casario, com duas grandes chaminés: eram os conhecidos bueiros das fábricas de doce, marca registrada do lugar, que apontavam para o céu, à luz do sol empoeirado.

Era pouco o movimento local de passageiros. A menina estava só.  Aguardava a chegada do trem, que deveria trazer-lhe rever o amigo, com quem, há algum tempo, não se encontrava. Havia concluído o seu curso médio, e dirigia-se para casa, no alto sertão.

Entre os dois, houvera um longo período de silêncio. A direção do colégio, em que ela estudava, em regime de internato, não lhe repassara as cartas que ele enviara, em resposta às suas, mandadas às escondidas por meio das colegas, que residiam na cidade.

Fosse possível lembrar, agora, o que acontecera naquela velha estação...

À parada do trem, suas mãos teriam se abraçado sobre alguma janela do vagão? Disseram-se alguma coisa? Ou, quem sabe, essa lembrança seria uma nebulosa invenção, misturada às suas fantasias, sobre o que acontecera, que não fora, jamais...

Hoje, na memória esgarçada de sua história, ela registra a precoce experiência da perda de um sonho, por muitos anos acalentado, e a imagem de um trem que partia devagar, devagar, devagar... Até não mais se ver.

Para onde? Para onde?...               

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O RAMALHETE

24 de abril de 2014





Ao reabrir, um dia, um livro da minha estante, encontrei  um rabisco apagado de um cartão  enviado no dia em que ele completou setenta anos. O cartão teria acompanhado um ramalhete de flores. No cartão, ela escreveu:

"Estas flores querem participar da celebração dos teus 70 anos.  A arte do cartão parece-me significar os caminhos que vens construindo, em claro-escuros difusos, a compor um desenho indefinido. Sinto-me feliz por ter participado – por mais de duas décadas – do teu desenho de vida. Parabéns pela nova etapa que hoje celebras!."

Fiquei pensando porque ela decidira enviar um ramalhete de flores, para o homem com quem há anos atrás havia partilhado a vida. Talvez houvesse nas flores o simbolismo dos bons momentos vivenciados, e, ao mesmo tempo, representassem a vida que se esvai, não fossem as marcas que deixam o amor amado e o amor ferido. 

Lembro-me que, no dia em que se casaram, eles quiseram esperar, juntos, a chegada dos amigos, à entrada da igreja, e com eles adentraram, felizes, para a cerimônia. Na cotidiana vida discutiam sobre seus projetos de trabalho e de empenho social, reviam os textos que cada um produzia, e trocavam ideias sobre como orientar os filhos para a vida.

Juntos, fizeram uma rica experiência de amizades profundas, conviveram com a diversidade e o calor humano: a casa estava aberta para a acolhida carinhosa de amigos, e dos amigos de seus filhos. Recebiam pessoas de diferentes categorias, algumas procedentes de outras regiões ou países distantes. No decorrer dos anos, os amigos testemunharam seus gestos de cuidado e reciprocidade, mas, um dia, se surpreenderam diante da dolorosa experiência que fizeram, ao decidirem a separação.

Aqueles que experimentaram o amor, sabem que a arte de viver conduz ao aprendizado do perdão, para si mesmo e para o outro.  Suas raízes – mesmo emaranhadas na lonjura do tempo - conseguem nutrir uma chama sutil que ofusca o que não faz sentido, ameniza a memória da dor, e deita a sua luz sobre o que se viveu, de mais belo e humano, de mais generoso e pleno, da carícia que a vida pôde oferecer.  

É pensando nisso que talvez eu possa compreender as razões de minha amiga ao decidir enviar aquele ramalhete, porque expressava a sua lembrança da partilha de vida com o seu amor, por mais de duas décadas.


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1. Copiado de um cartão postal. O nome do autor é indecifrável.

2. www.canstockphoto.com.br

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A CELEBRAÇÃO DO AFETO

19 de abril de 2014


Uma das minhas filhas chegara de viagem da Europa com o marido e o meu neto, que na ocasião tinha oito meses. Ao entrar em seu apartamento, ela nos emocionou com o seu jeito cuidadoso de explicar, ao filho, o que estava acontecendo. Mesmo assim, foi muito forte a surpresa de Artur ao reencontrar seus espaços e brinquedos mais queridos. 

Seu olhar se detinha nos recantos da casa, a reconhecê-los um a um, até mesmo as letras de seu nome, grandes e coloridas, na porta do seu quarto.



Mais tarde – após Artur adormecer – eu e as três filhas começamos a lembrar dos tempos em que elas eram crianças, quando viajávamos no nosso fusquinha alaranjado e destoante, mas muito útil para a família. Em cada curva elas indagavam sobre a proximidade da chegada. O pai explicava que ainda faltava uma subida e, mais adiante, aquela curva que tanto demorava a chegar... Tentávamos distraí-las mostrando a paisagem da região, as serras, o canavial, as usinas à beira da estrada, os canavieiros que passavam.



Nosso roteiro era quase sempre a praia de Tamandaré, tempos em que a cidade era menos badalada e mais acolhedora. Lá nos juntávamos a amigos queridos, também com filhos pequenos, e a brincadeira era solta.





Maravilhosa a saída de barco  para as águas marinhas de um pedregulho distante, onde era possível contemplar pequenos peixes na transparência do mar. Em noites de luar íamos descalços a passeio, uma boa conversa pela praia, as crianças entre nós. 

Em casa ouvia-se música popular brasileira - tempos de Jobim, Chico Buarque, Clara Nunes, Milton Nascimento... Uns ficavam de prosa enquanto trabalhavam na cozinha, outros se dedicavam a leituras prazerosas ou aos cochilos nas redes estendidas da varanda.  

Quantos anos velhos nós rompemos, os pés descalços à beira-mar sentindo a areia fina e úmida, muitas vezes sob um deslumbrante luar!  Quantas celebrações de Natal e de Páscoa, refestelados nos sabores da simplicidade e do cuidado, partilhados com outros amigos queridos!  
                  
Assim vimos crescer os nossos filhos, e com eles celebramos as alegrias da superação de cada vestibular e das suas escolhas profissionais. Alguns já se casaram e se aproximam da idade que tínhamos nos tempos de Tamandaré. Nós e eles enveredamos os caminhos singulares de cada um... 

No percurso, perdemos a alegria da presença de Luiz Carlos, das amigas Marluza, Peghy, Amparo, Graça e Lourdes, que já fizeram a viagem definitiva. Novas famílias se formam, os netos e sobrinhos netos começam a brincar entre nós e a tecer suas relações. 

Vez por outra revemos os álbuns daqueles tempos e os slides ainda guardados. Os comentários às vezes são de zombaria e sempre de muita saudade!  Há belíssimas fotografias, uma delas com todos os filhos, ainda bem jovens, ladeados por ordem de tamanho... 

Hoje, continuamos os nossos encontros e celebrações em uma granja próxima da cidade onde resido. E levamos adiante uma densa história de amizade, que nossos filhos e netos certamente continuarão, na convivência e na cumplicidade entre eles.


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SOBRE A AMIZADE

15 de abril de 2014

Há momentos na vida em que não se consegue escrever ou falar – pode-se apenas viver. Grandes são aqueles que na literatura, na dança, no teatro, nas artes em geral tocam engenhosamente alguns acordes da experiência do amor e da dor. 

A música me parece ser mais fiel, delicadamente nascida para sugerir à alma acordes do sentimento de amor, ou revelar-lhe a sua face do sofrimento. A sua fidelidade será tanto mais próxima, quanto mais irmanada alguém se fizer do artista, com o seu próprio momento de vida, com a sua compreensão... O que me reporta ao grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, que inventou o verbete “sentirpensador”.

Quando escrevi o pequeno texto acima,  vivia um momento em que apenas conseguia pensar e sentir... E então podia ver, como em um filme ao revés, uma história que se eu não a tomasse nas mãos, e não lhe desse um nome e um destino, poderia se tornar mais uma estúpida novela do “plin plin” da vida, com cenas repetidas e infiéis ao que a cada um de nós é essencial: a vivência de uma relação sincera, do diálogo aberto e permanente.

Tomar a própria história nas mãos é graça, é coragem de conhecê-la até onde se viveu e talvez reconhecê-la mesquinha. É perceber que não se sabe claramente o para onde, embora o para quê reclame coragem, atitude, e também complacência e esperança.

A história nas mãos é assumir a responsabilidade de escolha do rumo do próprio caminho, que não exclui o aprendizado da compreensão do outro, do diferente de si, nem o desejo de realizar, um dia, a experiência da reciprocidade. Para isto é necessário saber que, antes de tudo, há uma certeza da realidade única que importa: a “silenciosa atenção que nutre a vida”, de onde surge “a benevolente compreensão”.

O carismático teólogo alemão Ladislaus Boros, no seu livro “Incontrare Dio nell´uomo” (*) fala de uma compreensão que significa “desenvolver a delicadeza de sentir e a capacidade de vibrar em sintonia, para superar a estranheza entre os homens. Assim nasce uma comunhão de benevolência. E esta se alcança somente através da experiência. Uma experiência em que se aprende de verdade: o olhar se torna lentamente mais límpido, a sensibilidade mais fina, a adaptação mais fácil. O que, por sua vez, só é possível se o homem se liberta das suas relações instintivas de simpatia-antipatia e busca aceitar o outro como ele é; se não divide mais o mondo em simpático e antipático, mas diz a cada pessoa: tens o direito de ser assim como és”.

A comunhão entre Agostinho e Mônica, sua mãe – continua Boros – tende a alguma coisa de eterno: 

“É a característica de toda amizade. Na amizade surge uma afirmação incondicionada do ser. Pronuncia-se a palavra que lhe dá consistência: Tu deves ser! Deves expandir tudo quanto o teu ser tem em si de possibilidade; mais ainda: deves ser ainda mais belo, mais luminoso, potente e vivo daquilo que já és; não só: para mim, és o mundo; tenho experiência do mundo só à luz da nossa amizade; um mundo sem ti não seria um mundo belo para mim.

É a autêntica palavra do amor. Gabriel Marcel faz dizer a um personagem em ‘La mort de demain’ : amar significa dizer: ‘não morrerás’. A mesma coisa se pode dizer da amizade. Em cada profunda relação humana, seja esta de amizade ou amor vem afirmada, posta e incluída a imortalidade. Não pode ser que esta existência tenha fim. Da amizade humana surge um imediata evidência da imortalidade (...).

Se alguém permanece fiel a uma amizade humana até o fim, mesmo até o desvanecimento de todos os sonhos e de todas as esperanças, experimenta em si aquele Deus que se pensava estivesse distante. Os dois discípulos não cessaram de dialogar, de estar juntos. E, assim, deram a Cristo a ocasião de introduzir-se no seu colóquio. Com este episódio Deus nos sugere: permanece fiel à tua amizade, ao teu destino de comunhão com os homens; se podes ainda pronunciar a palavra Tu, não estás perdido. É sempre possível que, pronunciando esta palavra, eu esteja com aquele com quem falas.

A grande ocasião do homem de hoje – os discípulos de Emaus são o símbolo da nossa hodierna situação no mundo – é a amizade vivida com sinceridade. Mesmo se a amizade não seja um sacramento em sentido restrito podemos, no entanto, estar convencidos de que é um sinal concreto da presença do absoluto no mundo, e pode realizar tudo o que se pode esperar de um sacramento. (...) O Céu, a quintessência do ser, no qual tudo atinge a sua autenticidade está, portanto, presente na amizade. Os amigos o experimentam continuamente, mesmo que inconscientemente. É por isso que a amizade provoca saudade.

Ora, sabemos que Deus deve ser a verdadeira plenitude, o uno, o infinito: nós o experimentamos justamente neste esforço desesperado da amizade, que não pode ser exaurido nesta terra. Se vivemos na amizade sabemos que ele existe; na limitação terrena, na nossa ilegitimidade, dispersão e insatisfação sentimos como o nosso coração descontente bate por um totalmente outro. Não sabemos nada mais do que isso sobre Deus. Esta é, substancialmente, a estrutura da nossa experiência de Deus: intuir o absoluto no espelho ‘cego’ da nossa existência que, no entanto, tornou-se espelho para a amizade."

E conclui: "É na amizade que o homem é restituído a si mesmo.”

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(*) Boros, Ladislaus. Meditazioni Teologiche. Ed.Queriniana.Brescia.1968.pp.20,65-69,73. Tradução dos textos citados, do original italiano, por: Vanise Rezende, para o blog Espaço Poese. 

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OS PRIMEIROS PASSOS DE ARTUR - POESIA

12 de abril de 2014

















Quando soube que tinhas dado
O teu primeiro passo
Fui correndo pra te ver.
Vieste-me ao encontro
Com o teu lindo sorriso
O equilíbrio nos braços
Palmas das mãos levantadas
Num gesto de liberdade!


                                          Teus primeiros passos!
Começaste o teu caminho,
Sempre, agora, a caminhar...
Tu mesmo o farás sozinho
Feliz qual fosse brincar!


Teus primeiros passos! 
Os de hoje e os demais
Tu, caminhante, a viver...
E a cada dia terás
Teus caminhos a escolher.

Quem pode mais se lembrar
Quando teu pai, tua mãe,
Começaram a caminhar?

Na emoção me asseguro
Que sempre estarei contigo,
Hoje, amanhã e além...
Quando fecharem meus olhos,
E eu for viver nas estrelas...
Juntinho ao teu coração
Feliz seguirei de perto
O teu longo caminhar!

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Poesia de Vanise Rezende -  www.vaniserezende.com.br

Créditos da Imagem: arquivo do blog


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AS CELEBRAÇÕES DA VIDA

Vez por outra me irrompe a vontade de confidenciar aos amigos mais do que o meu bem querer e o desejo de que tenham dias melhores e densos de vida. 

Hoje, ao pensar em cada um deles, entendi que a vida tece a sua densidade em diferentes nuances de cores e tramas, engendradas em desenhos de características pessoais de múltipla beleza.  

O resultado é marcado por celebrações inusitadas de sim e de não, dor e amor, vida e morte, nebulosas interrogações e inúmeros recomeços. Um instigante caminhar na fé e no amor para a celebração da vida.  

Quando celebramos a dor ela nos permite caminhar, sim, pela experiência da negação, até nos fazer encontrar o conforto da doce e amorosa acolhida do que nos cabe viver. Cada um de nós já experimentou que, ao conhecer o desalento, o exercício da fraternidade nos leva a ensaiar atitudes de reconstrução e de colaboração; podemos até conhecer o descuido do desamor, mas, na dinâmica da vida continuamos o aprendizado da paz interior e da liberdade de amar.  No amor – dizia Chiara Lubich – o que vale é amar.

Há também os momentos bonitos de celebração das nossas conquistas pessoais, familiares e sociais; e ainda das surpreendentes alegrias, especialmente quando as celebramos em comunhão com os outros. Parece ser este o sentido de cada momento da vida: tentar inventar um jeito novo de amar, aprendendo a praticá-lo de um modo bem diferente daquilo que a sociedade nos ensinou sobre o amor, ontem como hoje, e que está longe daquilo que queremos para nós e para os outros.

Será este o sopra vital da presença do Inominável que nos permite viver, teimosamente,  esse contínuo peregrinar, assumir com altivez os nossos destinos e continuar a nos querer bem?

Aí está alguma coisa parecida com o que eu queria registrar hoje, neste espaço. 

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Créditos Imagens:


"Resta con noi" -  Fica conosco:  placa de entrada da antiga cchácara de meus amigos queridos  Irami e Conchita em Indaiatuba - SP

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