Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O RAMALHETE

24 de abril de 2014





Por acaso, ao abrir um livro da minha estante, encontrei um papel com um pequeno texto rabiscado, para um cartão que fora  enviado no dia em que ele completara setenta anos. O cartão teria acompanhado um ramalhete de flores. Estava escrito:

"Estas flores querem participar da celebração dos teus 70 anos.  A arte do cartão parece-me significar os caminhos que vens construindo, em claro-escuros difusos, a compor um desenho indefinido. Sinto-me feliz por ter participado – por mais de duas décadas – do teu desenho de vida. Parabéns pela nova etapa que hoje celebras!."

Fiquei pensando porque ela decidira enviar um ramalhete de flores, para o homem com quem há anos atrás havia partilhado a vida. Talvez as flores significassem o simbolismo dos bons momentos vivenciados, e, ao mesmo tempo, representassem a vida que se esvai, com as marcas que deixam o amor amado e o amor ferido. 

Lembro-me que, no dia em que se casaram, eles fizeram diferente: esperaram,  juntos, a chegada dos amigos na entrada da igreja, e com eles seguiram, felizes, para a cerimônia. Na cotidiana vida de casados, sempre discutiam sobre seus projetos de trabalho e de empenho social, reviam os textos que cada um produzia, e trocavam ideias sobre como orientar os filhos para a vida.

Juntos, fizeram uma rica experiência de amizades profundas, conviveram com a diversidade e o calor humano: a casa estava aberta para a acolhida carinhosa de amigos, e dos amigos de seus filhos. Recebiam pessoas de diferentes categorias, algumas procedentes de outras regiões ou países distantes. No decorrer dos anos, os amigos testemunharam seus gestos de cuidado e reciprocidade, mas, um dia, se surpreenderam diante da dolorosa notícia da separação. 

Aqueles que experimentaram o amor, sabem que a arte de viver conduz ao aprendizado do perdão, para si mesmo e para o outro.  Suas raízes – mesmo emaranhadas na lonjura do tempo - conseguem nutrir uma chama sutil que ofusca o que não faz sentido, ameniza a memória da dor, e deita a sua luz sobre o que se viveu, de mais belo e humano, de mais generoso e pleno, da carícia que a vida pôde oferecer.  

É pensando nisso que talvez eu compreenda as razões que ela teve, ao decidir enviar aquele ramalhete, porque expressava a memória da partilha de vida com o seu amor, por mais de duas décadas.

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Crédito Imagens:

1. Copiado de um cartão postal. O nome do autor é indecifrável.

2. www.canstockphoto.com.br

Nota:  As  imagens  publicadas  neste  blog  pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que  seja removida deste espaço,  por favor faça um comentário na posotagem.


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