Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

PÁSCOA - NA MORTE, A NOSSA RESSURREIÇÃO - Leonardo Boff

31 de março de 2018



Neste sábado, queremos saudar os amigos que acompanham este blog com votos de profunda renovação Pascal. E lhes trago, com alegria, a reprodução de um texto de Leonardo Boff, que nos presenteia com uma certeza Pascal reconfortante:

"Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor".

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O fato maior para o cristianismo não é a cruz de Cristo, mas sua ressurreição. Sem a ressurreição, Cristo teria ficado no passado, no panteão dos mártires abnegados, sacrificados por uma grande causa, um sonho de um Reino de justiça, de amor incondicional e de total entrega a Deus. Mas nunca reuniria pessoas para celebrarem sua presença viva entre nós.

A ressurreição significa exatamente essa presença inefável de toda a realidade de Jesus, chamado por São Paulo como o “novíssimo Adão”, com um corpo transfigurado, corpo-espiritual, dentro da história humana.

A sua ressurreição não deve ser vista como a reanimação de um cadáver, como o de Lázaro, mas como a plena realização de todas as possibilidades inerentes à vida humana, dado que o ser humano é um projeto infinito, inteiro, mas ainda incompleto. 

A ressurreição representa a vida do homem de Nazaré elevado na cruz, e depois introduzida dentro da realidade divina. Pertence à fé cristã a convicção de que Cristo é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Todos nós ressuscitaremos em seguimento dele.

Mas quando? No fim do mundo que não sabemos quando vem? Ou no fim do mundo pessoal, quando cada um de nós deixa este mundo espácio-temporal?
Seguindo a linha de reflexão dos melhores teólogos atuais, sustento a tese de que nós ressuscitamos quando para nós se realiza, pessoalmente, o fim do mundo, isto é, quando morrermos. Ao morrermos somos transfigurados e ressuscitados.

Esta é seguramente a mensagem mais esperançadora que o cristianismo pode oferecer para a humanidade e para cada pessoa humana.
É a sua grandiosa colaboração antropológica. Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.
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Texto original publicado no site: LeonardoBoff.com em 30.03.2018
Leonardo Boff é teólogo e escreveu “A nossa ressurreição na morte”, Vozes 2005.

Crédito Imagens:

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


AS MULHERES NA VIDA DA JESUS

24 de março de 2018


Antes de tudo, comunico que fiz uma retificação à publicação anterior, sobre Marielle Franco. Retirei a pretensa intensão do efeito afirmativo positivo de chamá-la "mulher e negra". Em verdade, ela revive na memória histórica dos nossos dias como mulher política e defensora  intrépida da cambaleante democracia brasileira.  

Continuando a publicação de artigos sobre a mulher, neste mês de março, alegra-nos trazer aqui um texto recente, de Leornardo Boff, sobre uma questão que nos interessa de um modo especial: que sentimentos expressou Jesus sobre as mulheres, na condição de filho, amigo, homem do seu tempo, e, quem sabe, também companheiro de vida?

Eis um texto esclarecedor,  publicado por Leonardo Boff:


Jesus, judeu e não cristão, rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se sua gesta e suas palavras, percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino, em contraposição aos valores do machismo cultural, centrado na submissão da mulher.

Na sua história se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e de perdoar, ternura para com as crianças e os pobres, compaixão para com todos os sofredores deste mundo, e abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de ABBA  paizinho querido. Viveu cercado de discípulos, homens e mulheres. Desde o início dasua peregrinação itinerante,  as mulheres o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10. Cf E.Shhlüsser-Florenza, Discipulado de Iguais, Ed. Vozes,1995).

Em razão da utopia que prega  o Reino de Deus  que é uma libertação de todo tipo de opressão, Jesus quebra vários tabus que pesam sobre as mulheres. Mantém uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente, e a sós, com uma herege samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida prostituta, Madalena (Lc 7,36-50).

São várias as mulheres que foram beneficiadas com o seu cuidado, como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), e, igualmente, a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26), e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.
Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente pobres, como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas, mas com toda a sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis, e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem o sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.
Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, ao ponto de se ver a sua ação providente, em cada detalhe da vida, como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres, com sua anima, preencheram o seu lado masculino, o animus.
Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante, e introduzem um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas sobre o amor como mútua doação, que inclui a igualdade entre homem e mulher. As mulheres irrompem como pessoas, filhas de Deus, destinatárias do sonho de Jesus, e são convidadas a serem, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.
Um dado de uma pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos  o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006)) — mostram a relação afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.
Nesse textos se diz que Ele entretinha uma relação especial com Míryam de Mágdala, chamada de “companheira” (koinónos). No Evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres” (op.cit. p.111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 questões que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míryam de Mágdala (Cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).

O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, a irmã de sua mãe, e Míryam de Mágdala que é conhecida como sua companheira, porque Míryam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006, p. 71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência nos lábios. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o quê? Por acaso não devo amá-la tanto quanto a vocês?” (Evangelho de Felipe, op. cit. p. 89).

Embora semelhantes relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos  dizem reconhecidos exegetas (Cf. A. Piñero, El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113)  excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal, intelectual e espiritual de Jesus com Míryam de Mágdala.
   
Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do homem, Jesus) e uma mulher?
Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. É o seu lado profundamente humano.

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Texto de Leonardo Boff, postado em português em 23/02/2018 e traduzido para o italiano em 01/03/2018.
Leonardo Boff escreveu: O rosto materno de Deus, Vozes 2005.

Crédito das Imagens:

1 - Santa Ana - reprodução de um particular da obra de Leonardo da Vinci, exposta, no Louvre, ao lado do famoso quadro da Monalisa.
2 - Jesus e Míryiam de Mágdala (Maria Madalena) - Foto de uma imagem pictórica adquirida no Mosteiro São João, em Campos de Jordão, sem indicação do autor - www.mosteirosaojoao.cjb.net 

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O TESTEMUNHO POLÍTICO DE MARIELLE FRANCO

16 de março de 2018


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A informação me chegou enquanto lia o Osservatore Romano, jornal da Cidade do Vaticano:  

"Ontem à noite (15/03/2018), no Brasil, milhares de pessoas saíram às ruas para se manifestar a favor da conselheira municipal Marielle Franco, símbolo da defesa das populações das favelas, assassinada no Rio de Janeiro. O homicídio provocou uma onda de indignação no país inteiro. Uma multidão participou nas exéquias, que tiveram lugar na prefeitura. Além disso, milhares de pessoas manifestaram nas ruas de São Paulo, e protestos foram programados em mais dez cidades do país, como Salvador da Bahia, Recife, Belo Horizonte e Belém. Na noite entre quarta e quinta-feira, enquanto estava no seu carro, Marielle Franco, 38 anos, foi assassinada com quatro tiros de revólver na cabeça por um grupo de atiradores, que mataram também o seu motorista, Anderson e feriram levemente uma sua assistente, que estava ao seu lado no banco de trás do carro. No lugar do homicídio a polícia encontrou nove cartuchos.
Conselheira municipal no Rio de Janeiro, membro do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Franco era muito ativa na luta contra as desigualdades e a violência nas favelas. Pouco antes do atentado, Franco tinha participado num evento a favor das jovens negras das favelas. Vigorosa opositora dos bandos de traficantes, criticara também fortemente a ação da polícia militar, definindo o corpo especial encarregado destas operações «batalhão da morte, que mata os nossos jovens».
Reproduzimos um artigo da "Carta Maior", publicado hoje: 

Por: Roberto Tardelli

                                                   
          "Todas as dores somadas, todas as dores vividas,                                       todas as dores que, ah, serão ainda dobradas".                                                               

Na noite de ontem (15/03/2018), no Rio de Janeiro sitiado e dominado por exércitos, oficiais e oficiosos, Marielle Franco, civil e desarmada, foi morta com uma saraivada de tiros, que também ceifou a vida de Anderson Pedro Gomes, seu motorista; os talentos revelados por quem efetuou os disparos nos dão certeza de uma execução. Um crime político, ocorrido numa rua comum, matou uma mulher que tinha todos os méritos de ter vencido todas as vicissitudes que poderia alguém enfrentar, e um homem que apenas procurava ganhar sua vida honestamente, vítimas de um atentado político, que ocorre dentro do coração do estado de exceção que tão orgulhosamente os governos federal, estadual e municipal anunciaram. O Prefeito comemorou, o Governador comemorou, o Presidente e seus ministros comemoraram, os conservadores comemoraram.
A intervenção negou tudo o que o poder público, porque emana do povo e em seu nome é exercido, deveria fazer, que é garantir um mínimo de bem-estar a quem estivesse nos limites geográficos desse imenso pasto racista em que se transformou o Brasil.
No momento em que o exército assume a direção do estado do Rio de Janeiro, o policiamento deixa de existir e o extermínio passa a ser a única política pública vigente. Caveirões não invadem comunidades pobres para prender, senão para destruir; tiros de fuzis são desferidos, não para prender, mas para matar. Atira-se nas ruas, atira-se em escolas, atira-se em tudo o que se move. Crianças foram alvos de buscas pessoais e de tiros, balas perdidas, como se pudessem ser perdidas balas disparadas por soldados fardados; tantos são os que tão estupidamente aplaudem, hipnotizados pela Rede Globo, monopolista da informação catastrófica de todos os dias e estimuladora principal da barbárie que edita e que reduz os quase duzentos mil habitantes da Rocinha em criminosos ou ajudantes de criminosos, que transformou toda a Rochinha em território inimigo, que exigia todos os dias que providências enérgicas fossem tomadas, que a intervenção passou a ser vista como uma espécie de terrorismo do bem, aquele que busca proteger a sociedade ordeira contra a sociedade cúmplice do crime organizado.
Nenhum motivo mais havia, alimentados os ódios cotidianos, para que se fizesse o trabalho de formiguinha, chamado policiamento, mas tão somente em exterminar fisicamente o inimigo eleito: os traficantes, assim tomadas todas as pessoas que os soldados entendessem pudessem ser suspeitas, direta ou remotamente, notadamente de integrar associações criminosas. Sabia-se de antemão, sob pena de renúncia prévia ao sistema nervoso central, que seria impossível fazê-lo sem que a ordem jurídica ou o que dela restasse fosse destruída, e as ruas fossem transformadas em campos de batalha.

Tantos tiros e tantas mortes, o cheiro de sangue logo despertaria as matilhas de sempre: matar vicia, me disse certa vez um policial de grupos de extermínio. Farda, treinamento, munição, autoridade, mistures tudo isso em uma mente assassina e terás o perfil de quem matou tão covardemente

Marielle e Anderson. A ausência inteira e deliberada de legalidade gera narco-milicianos, que se confundem com os soldados da força de paz. A dificuldade de combatê-los é que eles estão nas entranhas do poder oficial, são amigos daqueles que os deveriam perseguir.
Afirmo que os tiros que mataram Marielle e Anderson foram disparados no âmago da intervenção militar, são tiros da intervenção militar, são tiros disparados no caudal conceitual da intervenção militar que separa, maniqueísta, a cidade entre os amigos e aliados (os que aprovam e lambem a intervenção) e inimigos e infiltrados (aqueles que a criticam e a desaprovam). Quem matou, estava seguro de que eliminava uma inimiga, militante de direitos humanos, que protestava contra mortes inexplicáveis, praticadas pelas forças militares de invasão.
Além dos executores materiais do crime (aqueles que efetivamente atiraram), há outros culpados e são todos aqueles que realizaram a intervenção, que, doravante, terão que lidar com uma epidemia de assassinatos, que ocorrerão, não mais nas beiradas das autoridades públicas, uma vez que a morte de Marielle e de seu motorista Anderson foi uma clara mensagem a quem quiser seguir os passos corajosos e destemidos dela. Se não se estancarem imediatamente essas mortes, será criada uma cultura de matança, esta, sim, inteiramente incontrolável. Já vimos esse filme nas periferias de São Paulo.

Morrerão os pretos, os favelados, assassinados pelas matilhas de sangue e que somente existiram porque não mais há direitos para os pretos e os favelados, que estão sob fogo do exército. Não haverá ministro que as controle e é mais provável que as matilhas milicianas agreguem novos integrantes, colhidos nas forças invasoras. Não tardará ter o exército que atirar em seu próprio exército.
Estúpidos, nem sabem que não muito longe dali a festa continua, e a cidade maravilhosa continuará a encantar na zona sul. Vôlei em dia de sol, praia, beleza, calor e sensualidade burguesas continuarão.

Em São Paulo, os restaurantes dos Jardins permanecerão com as portas abertas, a receber seleta clientela, que sabe apreciar glamurosas cartas de vinho. Estúpidos porque matam e morrem a serviço de quem os despreza.

Marielle e Anderson se constituem em um marco da ilegalidade, constituem-se 
na visualização do que efetivamente se transformou a intervenção militar, a mais vergonhosa operação em que o exército brasileiro se meteu depois do fim (houve mesmo o fim?) da ditadura. Os meninos pretos da favela e os quase pretos de tão pobres nunca terão motivo para se orgulhar da farda, da bandeira, do hino, que devem ouvir mentalmente antes de morrer dos tiros oficiais.
Os protestos, as notas enfurecidas e enlutadas, prenhes de uma dor que vai parir outras dores, outras solidões. A dor da família, a dor do filho, a dor do irmão, a dor dos amigos, a dor daqueles que a conheciam e a abraçavam, a dor de quem com ela militava, a dor que vem de dentro daquelas pessoas miseráveis e que viam nela uma forma real de representatividade, a dor de quem servia a ela uma média na padaria, a dor de quem vendia livros a ela, a dor de quem a via andando e a admirava porque andava com altivez, a dor de minha querida Djamila e de meu amado filho Brenno, a dor de quem vê o país em ruínas, a dor de quem odeia essa intervenção que nada mais fez do que matar e aterrorizar, a dor de quem ainda acredita na possibilidade de pacificação e de extirpação dos ódios e dos preconceitos que fazem de nossa sociedade uma das mais odiosas do planeta, a dor de quem procura ensinar que a democracia só tem sentido se for plena e assegurar a todos igualmente os mecanismos de acesso à cultura, à educação e à inclusão de todas as formas, a dor, a dor, a dor, a dor.
Todas as dores somadas, todas as dores vividas, todas as dores que serão, ah serão, ainda dobradas…
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Fonte do artigo:
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Luto-por-Marielle-e-Anderson/4/39613, publicado em 16/03/2018
*Roberto Tardelli, é advogado e ex-procurador de Justiça de São Paulo
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Créditos das Imagens:
1. Ilustração de João Brizzi - http://piaui.folha.uol.com.br/sem-policia-a-vista-mulheres-velam-marielle/
2. Foto: https://revistaforum.com.br
3. Foto reproduzida no Osservatore Romano:
http://www.osservatoreromano.va/pt/news/assassinada-marielle-franco-voz-das-favelas-do-rio
4. Foto: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/Vereadora-critica-da-Policia-Militar-assassinada-no-Rio-de-Janeiro/47/39608
5. Foto:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/album/1521133382_968626.html#foto_gal_8

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MULHER - O PROCESSO DA SEXOGÊNESE

10 de março de 2018



Continuando a nossa homenagem ao mês da MULHER, reproduzimos um novo texto de Leonardo Boff. Talvez para alguns poderá parecer mais difícil, por serem usados termos de caráter mais científico. Mas o autor é didático e busca facilitar a nossa compreensão. 

O presente texto - inicia Boff - quer ser uma pequena contribuição ao debate sobre o feminino, tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. 

Vejamos como surgiu no processo da sexogênese.

A vida já existe na terra há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente uma bactéria unicelular, sem núcleo, que se multiplicava espantosamente por divisão interna. Isso durou cerca de um bilhão de anos.




Há dois bilhões de anos, surgiu uma célula com uma membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares. Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas diferentes células com seus núcleos. 


A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose -  composição de diferentes elementos - que junto com a seleção natural, representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose, do que da luta competitiva pela sobrevivência.


Nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos, de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada, que no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.
Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis,  masculino, que tocando a célula fêmea passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.



Com o aparecimento dos vertebrados - há  370  milhões  de  anos,  com os  répteis - estes criaram o ovo amniótico, cheio de nutrientes, e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos maníferos - há cerca de 125 milhões de anos surgiu uma sexualidade  definida de macho e fêmea.  Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. 



Há 70 milhões de anos apareceu o nosso ancestral, mamífero, que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros - há 67 milhões de anos - os mamíferos puderam ganhar o chão e se desenvolverem, chegando até aos dias de hoje.
sexo genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). 

O sexo do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Com referência ao sexo genital-gonodal, importa entender que, nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio, a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. 

Assim, em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação. O que desautoriza o fantasioso “princípio de Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgênio pelos testículos.

Existe ainda o sexo hormonal

Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra, e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São hormônios responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. 

A predominância de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, ele terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher, com referência ao androgênio.

Por fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica.

O ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, 
corporais, mentais e espirituais. Até o surgimento da sexualidade, o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade, emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. 

É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais ponderosa “que move o céu e as estrelas”,(Dante) e move também os nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminino vem primeiro, e é o básico.

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Leonardo Boff escreveu “O processo da sexogênese” em Feminino e masculino, com Rose Marie Muraro. Record, 2010.

Créditos das Imagens

1. Mulher Árvore -My-Mothers-Garden/Rossi.jpg
2. Reprodução Assexuada-https://nelo209epic.webnode.pt/products/reprodução %20/assexuada
3. Formação de células reprodutivas - https://mundoeducacao.bol.uol.com.br-biologia-gametogenese.htm.jpg

4. A Ventania - Anita Mafalttti - Coleção Palácio dos Bandeirantes/reprodução 
5. Tartaruga-de-pente - www.curiosidadeanimalbrasil.wordpress.com
6. Ancestral dos Mamíferos - imagem: https://g1-globo.com/ciência-e-saúde/notícia/2013 
7. Gestação de 3 a 4 meses - foto: Davinadiaries
8. Feminino e Masculino - imagem: www.ihu.usininus.br - entrevistas

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

MULHER - A DESCONSTRUÇÃO PROMOVIDA PELO PATRIARCADO, SEGUNDO LEONARDO BOFF

4 de março de 2018





Em comemoração ao DIA DA MULHER, durante o mês de março publicaremos uma série de artigos que reportam ideias contemporâneas, fazendo uma nova leitura sobre o lugar da mulher - da sociedade patriarcal aos nossos dias.  Artigos que trazem opiniões complementares sobre a MULHER, conquistas e retrocessos do seu lugar na história, e no mundo contemporâneo.  Estreamos  com um artigo de Leonardo Boff, publicado em 16/02/2018.       

Como o patriarcado 
desmantelou o matriarcado,
diabolizando a mulher                          
                  
É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. 

Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero.
A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela um trabalho de desmonte, do matriarcado pelo patriarcado, mediante um processo de diabolização da mulher. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco, 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Editions Indigo-Côtes Femmes, Paris,1997).
Segundo estas duas autoras, houve uma espécie de processo para culpabilizar as mulheres, no esforço de consolidar o domínio patriarcal.
Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são vistos como diabólicos, e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.
O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16), que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.
Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.
Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu à terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis (3,6) diz, explicitamente, que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos, e desejável para se agir com sabedoria”.
Em quarto lugar, destruiu-se a relação homem-mulher, que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.
Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens?
Inverteu, totalmente, o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, mostrou-o diabólico, e os transformou de bênção em maldição.
A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz, explicitamente, que “o homem a dominará” (Gen 3,16). O poder da mulher, de dar a vida, foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.
A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal: “porei inimizade entre ti e a mulher…tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).
A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito (Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.
O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: ”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3,16). A partir de então, se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.
Aqui se operou uma desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culposo.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva, na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.
Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior, entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Essa mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador, que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela, debilmente alcançada, sob o regime patriarcal.
Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas, teólogas e outras estão fazendo, com expressiva criatividade. E há teólogos que se somam a elas.
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Texto publicado in: Leonardo Boff, 16/02/2018

Crédito das Imagens:

1. Madaleine Veilleuse - de: George de La Tour - reprodução no Museu de Louvre. - Arquivo do Espaço Poese.
2. Adão e Eva - pintura de Albrecht Düres - Museu do Prado - Madrid
3. Afresco no átrio do Cinema São Luís - Recife

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com  



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