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MULHER - A DESCONSTRUÇÃO PROMOVIDA PELO PATRIARCADO, SEGUNDO LEONARDO BOFF

4 de março de 2018





Em comemoração ao DIA DA MULHER, durante o mês de março publicaremos uma série de artigos que reportam ideias contemporâneas, fazendo uma nova leitura sobre o lugar da mulher - da sociedade patriarcal aos nossos dias.  Artigos que trazem opiniões complementares sobre a MULHER, conquistas e retrocessos do seu lugar na história, e no mundo contemporâneo.  Estreamos  com um artigo de Leonardo Boff, publicado em 16/02/2018.       

Como o patriarcado 
desmantelou o matriarcado,
diabolizando a mulher                          
                  
É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. 

Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero.
A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela um trabalho de desmonte, do matriarcado pelo patriarcado, mediante um processo de diabolização da mulher. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco, 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Editions Indigo-Côtes Femmes, Paris,1997).
Segundo estas duas autoras, houve uma espécie de processo para culpabilizar as mulheres, no esforço de consolidar o domínio patriarcal.
Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são vistos como diabólicos, e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.
O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16), que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.
Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.
Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu à terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis (3,6) diz, explicitamente, que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos, e desejável para se agir com sabedoria”.
Em quarto lugar, destruiu-se a relação homem-mulher, que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.
Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens?
Inverteu, totalmente, o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, mostrou-o diabólico, e os transformou de bênção em maldição.
A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz, explicitamente, que “o homem a dominará” (Gen 3,16). O poder da mulher, de dar a vida, foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.
A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal: “porei inimizade entre ti e a mulher…tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).
A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito (Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.
O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: ”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3,16). A partir de então, se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.
Aqui se operou uma desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culposo.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva, na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.
Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior, entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Essa mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador, que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela, debilmente alcançada, sob o regime patriarcal.
Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas, teólogas e outras estão fazendo, com expressiva criatividade. E há teólogos que se somam a elas.
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Texto publicado in: Leonardo Boff, 16/02/2018

Crédito das Imagens:

1. Madaleine Veilleuse - de: George de La Tour - reprodução no Museu de Louvre. - Arquivo do Espaço Poese.
2. Adão e Eva - pintura de Albrecht Düres - Museu do Prado - Madrid
3. Afresco no átrio do Cinema São Luís - Recife

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com  



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