Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O TESTEMUNHO POLÍTICO DE MARIELLE FRANCO

16 de março de 2018


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A informação me chegou enquanto lia o Osservatore Romano, jornal da Cidade do Vaticano:  

"Ontem à noite (15/03/2018), no Brasil, milhares de pessoas saíram às ruas para se manifestar a favor da conselheira municipal Marielle Franco, símbolo da defesa das populações das favelas, assassinada no Rio de Janeiro. O homicídio provocou uma onda de indignação no país inteiro. Uma multidão participou nas exéquias, que tiveram lugar na prefeitura. Além disso, milhares de pessoas manifestaram nas ruas de São Paulo, e protestos foram programados em mais dez cidades do país, como Salvador da Bahia, Recife, Belo Horizonte e Belém. Na noite entre quarta e quinta-feira, enquanto estava no seu carro, Marielle Franco, 38 anos, foi assassinada com quatro tiros de revólver na cabeça por um grupo de atiradores, que mataram também o seu motorista, Anderson e feriram levemente uma sua assistente, que estava ao seu lado no banco de trás do carro. No lugar do homicídio a polícia encontrou nove cartuchos.
Conselheira municipal no Rio de Janeiro, membro do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Franco era muito ativa na luta contra as desigualdades e a violência nas favelas. Pouco antes do atentado, Franco tinha participado num evento a favor das jovens negras das favelas. Vigorosa opositora dos bandos de traficantes, criticara também fortemente a ação da polícia militar, definindo o corpo especial encarregado destas operações «batalhão da morte, que mata os nossos jovens».
Reproduzimos um artigo da "Carta Maior", publicado hoje: 

Por: Roberto Tardelli

                                                   
                           "Todas as dores somadas, todas as dores vividas,                                       todas as dores que, ah, serão ainda dobradas".                                                               

Na noite de ontem (15/03/2018), no Rio de Janeiro sitiado e dominado por exércitos, oficiais e oficiosos, Marielle Franco, civil e desarmada, foi morta com uma saraivada de tiros, que também ceifou a vida de Anderson Pedro Gomes, seu motorista; os talentos revelados por quem efetuou os disparos nos dão certeza de uma execução. Um crime político, ocorrido numa rua comum, matou uma mulher que tinha todos os méritos de ter vencido todas as vicissitudes que poderia alguém enfrentar, e um homem que apenas procurava ganhar sua vida honestamente, vítimas de um atentado político, que ocorre dentro do coração do estado de exceção que tão orgulhosamente os governos federal, estadual e municipal anunciaram. O Prefeito comemorou, o Governador comemorou, o Presidente e seus ministros comemoraram, os conservadores comemoraram.
A intervenção negou tudo o que o poder, público, porque emana do povo e em seu nome é exercido, deveria fazer, que é garantir um mínimo de bem-estar a quem estivesse nos limites geográficos desse imenso pasto racista em que se transformou o Brasil.
No momento em que o exército assume a direção do estado do Rio de Janeiro, o policiamento deixa de existir e o extermínio passa a ser a única política pública vigente. Caveirões não invadem comunidades pobres para prender, senão para destruir; tiros de fuzis são desferidos, não para prender, mas para matar. Atira-se nas ruas, atira-se em escolas, atira-se em tudo o que se move. Crianças foram alvos de buscas pessoais e de tiros, balas perdidas, como se pudessem ser perdidas balas disparadas por soldados fardados; tantos são os que tão estupidamente aplaudem, hipnotizados pela Rede Globo, monopolista da informação catastrófica de todos os dias e estimuladora principal da barbárie que edita e que reduz os quase duzentos mil habitantes da Rocinha em criminosos ou ajudantes de criminosos, que transformou toda a Rochinha em território inimigo, que exigia todos os dias que providências enérgicas fossem tomadas, que a intervenção passou a ser vista como uma espécie de terrorismo do bem, aquele que busca proteger a sociedade ordeira contra a sociedade cúmplice do crime organizado.
Nenhum motivo mais havia, alimentados os ódios cotidianos, para que se fizesse o trabalho de formiguinha, chamado policiamento, mas tão somente em exterminar fisicamente o inimigo eleito: os traficantes, assim tomadas todas as pessoas que os soldados entendessem pudessem ser suspeitas, direta ou remotamente, notadamente de integrar associações criminosas. Sabia-se de antemão, sob pena de renúncia prévia ao sistema nervoso central, que seria impossível fazê-lo sem que a ordem jurídica ou o que dela restasse fosse destruída, e as ruas fossem transformadas em campos de batalha.

Tantos tiros e tantas mortes, o cheiro de sangue logo despertaria as matilhas de sempre: matar vicia, me disse certa vez um policial de grupos de extermínio. Farda, treinamento, munição, autoridade, mistures tudo isso em uma mente assassina e terás o perfil de quem matou tão covardemente

Marielle e Anderson. A ausência inteira e deliberada de legalidade gera narco-milicianos, que se confundem com os soldados da força de paz. A dificuldade de combatê-los é que eles estão nas entranhas do poder oficial, são amigos daqueles que os deveriam perseguir.
Afirmo que os tiros que mataram Marielle e Anderson foram disparados no âmago da intervenção militar, são tiros da intervenção militar, são tiros disparados no caudal conceitual da intervenção militar que separa, maniqueísta, a cidade entre os amigos e aliados (os que aprovam e lambem a intervenção) e inimigos e infiltrados (aqueles que a criticam e a desaprovam). Quem matou, estava seguro de que eliminava uma inimiga, militante de direitos humanos, que protestava contra mortes inexplicáveis, praticadas pelas forças militares de invasão.
Além dos executores materiais do crime (aqueles que efetivamente atiraram), há outros culpados e são todos aqueles que realizaram a intervenção, que, doravante, terão que lidar com uma epidemia de assassinatos, que ocorrerão, não mais nas beiradas das autoridades públicas, uma vez que a morte de Marielle e de seu motorista Anderson foi uma clara mensagem a quem quiser seguir os passos corajosos e destemidos dela. Se não se estancarem imediatamente essas mortes, será criada uma cultura de matança, esta, sim, inteiramente incontrolável. Já vimos esse filme nas periferias de São Paulo.

Morrerão os pretos, os favelados, assassinados pelas matilhas de sangue e que somente existiram porque não mais há direitos para os pretos e os favelados, que estão sob fogo do exército. Não haverá ministro que as controle e é mais provável que as matilhas milicianas agreguem novos integrantes, colhidos nas forças invasoras. Não tardará ter o exército que atirar em seu próprio exército.
Estúpidos, nem sabem que não muito longe dali a festa continua, e a cidade maravilhosa continuará a encantar na zona sul. Vôlei em dia de sol, praia, beleza, calor e sensualidade burguesas continuarão.

Em São Paulo, os restaurantes dos Jardins permanecerão com as portas abertas, a receber seleta clientela, que sabe apreciar glamurosas cartas de vinho. Estúpidos porque matam e morrem a serviço de quem os despreza.

Marielle e Anderson se constituem em um marco da ilegalidade, constituem-se 
na visualização do que efetivamente se transformou a intervenção militar, a mais vergonhosa operação em que o exército brasileiro se meteu depois do fim (houve mesmo o fim?) da ditadura. Os meninos pretos da favela e os quase pretos de tão pobres nunca terão motivo para se orgulhar da farda, da bandeira, do hino, que devem ouvir mentalmente antes de morrer dos tiros oficiais.
Os protestos, as notas enfurecidas e enlutadas, prenhes de uma dor que vai parir outras dores, outras solidões. A dor da família, a dor do filho, a dor do irmão, a dor dos amigos, a dor daqueles que a conheciam e a abraçavam, a dor de quem com ela militava, a dor que vem de dentro daquelas pessoas miseráveis e que viam nela uma forma real de representatividade, a dor de quem servia a ela uma média na padaria, a dor de quem vendia livros a ela, a dor de quem a via andando e a admirava porque andava com altivez, a dor de minha querida Djamila e de meu amado filho Brenno, a dor de quem vê o país em ruínas, a dor de quem odeia essa intervenção que nada mais fez do que matar e aterrorizar, a dor de quem ainda acredita na possibilidade de pacificação e de extirpação dos ódios e dos preconceitos que fazem de nossa sociedade uma das mais odiosas do planeta, a dor de quem procura ensinar que a democracia só tem sentido se for plena e assegurar a todos igualmente os mecanismos de acesso à cultura, à educação e à inclusão de todas as formas, a dor, a dor, a dor, a dor.
Todas as dores somadas, todas as dores vividas, todas as dores que serão, ah serão, ainda dobradas…
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Fonte do artigo:
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Luto-por-Marielle-e-Anderson/4/39613, publicado em 16/03/2018
*Roberto Tardelli, é advogado e ex-procurador de Justiça de São Paulo
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Créditos das Imagens:
1. Ilustração de João Brizzi - http://piaui.folha.uol.com.br/sem-policia-a-vista-mulheres-velam-marielle/
2. Foto: https://revistaforum.com.br
3. Foto reproduzida no Osservatore Romano:
http://www.osservatoreromano.va/pt/news/assassinada-marielle-franco-voz-das-favelas-do-rio
4. Foto: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/Vereadora-critica-da-Policia-Militar-assassinada-no-Rio-de-Janeiro/47/39608
5. Foto:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/album/1521133382_968626.html#foto_gal_8

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