Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ELEIÇÕES 2018 - MANIFESTO PELA DEMOCRACIA, PELO BRASIL

18 de outubro de 2018

No início desta semana, um manifesto aberto a todos os brasileiros foi divulgado em vários jornais e revistas de ampla circulação, para expressar, em unanimidade - embora admitindo que eram cidadãos 'diferentes' - a candidatura de Jair Bolsonaro como uma 'ameaça franca' ao 'patrimônio civilizatório primordial'.

É possível que muitos que me leem agora já ouviram falar ou leram trechos do documento citado. No entanto, gostaria de sugerir - aos que concordarem com os princípios e a visão dos que subscreveram o manifesto, e ainda o estão assinando, via internet - que o divulguem com amigos e pessoas de bem e desejam um país democrático comprometido com o povo brasileiro, com a garantia das liberdades individuais, e a preservação do bem comum, dos direitos humanos, da diversidade, da justiça e da paz social.   


Segue a íntegra do documento.


No início desta semana, um manifesto aberto a todos que desejem assiná-lo, foi divulgado em vários jornais e revistas de ampla circulação, que expressava, em unanimidade  - embora admitindo que eram cidadãos 'diferentes' -  a 'ameaça franca' ao 'patrimônio civilizatório primordial'.

É possível que muitos que me leem agora, já ouviram falar ou leram trechos do documento citado. No entanto, gostaria de sugerir - aos que concordarem com os princípios e a visão dos que subscreveram o manifesto, e ainda o estão assinando, via internet -  que procurem divulgá-lo com amigos e pessoas de bem que presam um sistema democrático comprometido com o povo brasileiro, a preservação das liberdades individuais que preservam o bem comum, os direitos humanos, a justiça e a paz social.   

Segue a íntegra do documento.


Manifesto representativo dos setores empresarial, cultural, jurídico, político e ativista do país, é lançado contra o candidato do  PSL - Jair Bolsonaro

Por: Renata Agostini, O Estado de S.Paulo
Atualizado em 24 de Setembro, 2018  

             Documento diz que presidenciável representa
                         'ameaça franca' ao 'patrimônio civilizatório'.


Um grupo que inclui intelectuais, juristas, artistas, esportistas, ativistas e empresários subscreveu um manifesto contra a candidatura de  Jair Bolsonaro (PSL), líder nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República, divulgado neste domingo. 

O documento, intitulado “Pela democracia, pelo Brasil”, não indica apoio a nenhuma candidatura presidencial, mas afirma ser necessário um movimento democrático contra o projeto do candidato do PSL nas eleições 2018

“A candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial”, diz o texto. A carta relaciona a ascensão de Bolsonaro com o surgimento de regimes autoritários em outros países e momentos da história. “Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica.”

O documento também compara o sucesso do ex-capitão a outros presidentes que assumiram com promessas populista relacionadas ao fim da corrupção. “Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio (Quadros) e (Fernando) Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre.”

Nas primeiras linhas, o texto ressalta as diferenças ideológicas entre os autores. Assinam desde o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), ao ex-ministro Renato Janine Ribeiro, que comandou o Ministério da Educação (MEC) por seis meses no governo Dilma.
O manifesto também é subscrito por personalidades que deram apoio a outros candidatos nas eleições. Entre os nomes estão os de Maria Alice Setúbal, educadora e acionista do Itaú Unibanco; do economista Bernard Appy; do empresário Guilherme Leal, sócio da Natura; de Caetano Veloso e Paula Lavigne; do advogado e professor da FGV Oscar Vilhena; e do médico Drauzio Varella.
Caetano e Paula Lavigne declararam apoio a Ciro Gomes (PDT). Maria Alice Setúbal e Guilherme Leal já atuaram ao lado de Marina Silva (Rede) em pleitos passados, mas não tê m papel na campanha atual da ex-senadora. 
O manifesto foi lançado com uma relação inicial de signatários e ficará hospedado num site próprio do movimento. A lista ficará aberta para quem quiser incluir a assinatura. Até a noite deste domingo, a lista tinha a assinatura de cerca de 330 nomes. 
O documento foi fechado na quinta-feira pelas mãos de um grupo de amigos, entre eles o advogado José Marcelo Zacchi. Ao longo do fim de semana, circulou em grupos de WhatsApp e teve adesões.
Segundo Zacchi, o objetivo do manifesto é reunir vozes que representem diversos segmentos da sociedade e possam mobilizar setores. “É sobre repudiar um projeto que nos parece contrário aos princípios democráticos”, diz.
Abaixo,  a íntegra do manifesto:
"Pela Democracia, pelo Brasil

Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros, sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. 

Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos. Essa clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser."

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Fonte do texto:


Veja também:

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,centrais-sindicais-divulgam-nota-de-repudio-a-bolsonaro,70002514568

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Crédito das Imagens:



ELEIÇÕES 2018 - A MENTIRA TEM PERNA CURTA!

13 de outubro de 2018



Reproduzimos matéria publicada no 'El País', no final de agosto passado, sobre um assunto aparentemente sem grande significado, se considerarmos as  grandes questões que temos diante de nós, para reafirmar e ampliar o nosso voto  pelo exercício da cidadania, pelos direitos humanos, por  oportunidades para todos e para a defesa da democracia no nosso país. 


Acredito, no entanto, que há informações e mentiras  que estão impactando  mais as  pessoas, especialmente aquelas que não conseguiram acompanhar ou já esqueceram as grandes ações da gestão do então ministro Fernando Haddad, na pasta da Educação - em favor de inúmeros jovens e adultos com menor chance de acesso à universidade e aos cursos de formação técnica, no país. 

Tenho a honra de tê-lo conhecido enquanto Ministro da Educação - pois trabalhei como consultora concursada e selecionada pelo MEC/UNESCO, para um dos projetos da sua gestão - a Escola Aberta e a Escola Integral, que surgiu para ampliar o tempo escolar com a inserção de atividades esportivas, culturais e de lazer, para estudantes da escola pública cuja Secretaria de Educação local aderisse ao projeto. 


Mas o que parece necessário insistir, agora, é desmentir informações falsas e mal-intencionadas que ainda se mantêm em ebulição. Infelizmente, as pessoas, embora bem-intencionadas, não têm tempo para buscar comprovações que desanuviem suas desconfianças nas intenções e compromissos de governo do candidato que, hoje, é a referência de uma frente democrática  de afirmação do nosso sim à Paz dos cidadãos brasileiros, à democracia e à justiça social para todos.  E do nosso não à mentira, ao desrespeito dos valores humanos e dos direitos sociais do cidadão brasileiro.

Segue a matéria em causa:

Bolsonaro mentiu ao falar de livro de educação  sexual no ‘Jornal Nacional’

Candidato do PSL mostra publicação que seria parte do 'kit gay', mas o título (mostrado pelo entrevistado) nunca foi comprado pelo MEC nem foi incluído no projeto.

São Paulo  - 30.08.2018

No que talvez tenha sido o momento mais tumultuado da sua entrevista no Jornal Nacional, na noite desta terça-feira, Jair Bolsonaro (PSL) mostrou às câmeras por poucos segundos um livro intitulado Aparelho sexual e Cia, cuja capa traz o desenho de um menino de topete loiro olhando um tanto quanto assustado para o que tem dentro das próprias calças. Seria só mais um dos incontáveis episódios polêmicos de um candidato que tem esbravejado contra o que chama de campanha para o ensino de "ideologia de gênero" nas escolas do Brasil, não fosse um detalhe: praticamente tudo o que o candidato falou quando se referiu à publicação não encontra respaldo na realidade.
"Tomei conhecimento [em 2010] do que estava acontecendo lá [num corredor da Câmara dos Deputados]. Eles tinham acabado o nono Seminário LGBT Infantil", disse Bolsonaro, após ter sido perguntado pela jornalista Renata Vasconcellos sobre suas manifestações prévias de caráter homofóbico. "Estavam discutindo ali, comemorando o lançamento de um material para combater a homofobia, que passou a ser conhecido como 'kit gay'. Entre esse material estava esse livro lá. Então, o pai que tenha filho na sala agora, retira o filho da sala, para ele não ver isso aqui. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem", emendou, para logo ser interrompido pelo âncora do JN William Bonner, que o lembrou que não estava permitido mostrar qualquer material gráfico durante a entrevista.

J.B deu a entender na sua declaração que o livro, de autoria do suíço Philippe Chappuis (conhecido como Zep) e da francesa Hélène Bruller, formava parte do projeto 'Escola sem Homofobia', que recebeu a alcunha de kit gay e que criou uma forte polêmica no primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff

Basicamente, tratava-se de um kit de apoio para a formação de professores em temas relacionados aos direitos LGBT, como o combate à violência e ao preconceito no ambiente escolar. A pressão de grupos conservadores, no entanto, fez com que a então presidente vetasse a proposta, e as peças de conscientização nunca saíram da gaveta. Logo, na estreia da administração Dilma, a bancada evangélica dava uma clara demonstração de força.

Acontece que o livro em questão nunca fez parte do projeto Escola sem Homofobia. E mais: sequer foi adquirido ou fez parte de algum programa do Ministério de Educação. 

"Ao contrário do que afirmou erroneamente o candidato à presidência em entrevista ao Jornal Nacional na noite de 28 de agosto, ele [o livro] nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto kit gay", disse, em nota, a Companhia das Letras, editora que lançou "Aparelho sexual e cia", em 2007. O MEC confirmou a informação. O que há registrado é uma compra, por parte do Ministério da Cultura em 2011, de apenas 28 exemplares da publicação para o programa Livro Aberto. Os livros foram entregues a diferentes bibliotecas públicas do País. Segundo a pasta da Cultura, nenhum foi distribuído para escolas.

Outro ponto da resposta de Bolsonaro contestado logo após o fim da entrevista foi a menção a um suposto Seminário LGBT Infantil. Trata-se do Seminário Nacional LGBT, realizado anualmente por comissões da Câmara que atuam na defesa dos direitos dessas comunidades. De acordo com o deputado Jean Wyllys (PSOL), coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT, Bolsonaro está se referindo ao encontro promovido em 2012. 

Naquele ano, a temática escolhida para o seminário foi "Sexualidade, Papéis de Gênero e Educação na Infância e na Adolescência". Havia três eixos naquele seminário: Subjetividades e papéis de gênero (É possível falar em uma infância e adolescência gay?); Educação, sexualidade e gêneros (O que os papéis de gênero têm a ver com a prática do bullying nas escolas?); e Infância, adolescência e estado de direitos (Como estender as redes de proteção da infância e da adolescência aos meninos e meninas que fogem dos papéis de gênero?). A assessoria de Wyllys pontuou que não participaram crianças no seminário, mas sim parlamentares, acadêmicos que estudam o tema e membros da sociedade civil. Em 2018, exemplifica Wyllys, a temática do seminário foi políticas para a população LGBT da terceira idade.

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O livro citado na entrevista do JN foi publicado pelo nosso selo jovem. Infelizmente está fora de catálogo, mas nos orgulhamos da publicação


Reedição

Lançado pelo selo juvenil da Companhia das Letras, o livro mostrado por Bolsonaro está esgotado. Na nota que lançou na tarde desta quarta, a editora disse que está em contato com os donos dos direitos da obra para avaliar a possibilidade lançá-la novamente no Brasil. 

A Companhia das Letras afirmou ainda que o texto original foi traduzido para dez idiomas ao redor do mundo e vendeu mais de 1,5 milhão de cópias, tendo sendo transformado em exposição que ficou em cartaz em Paris. O público alvo da publicação é formado por adolescentes: no catálogo da editora, ela era sugerida para alunos de 11 a 15 anos.

A Companhia das Letras defendeu enfaticamente o título. Segundo a empresa, a publicação tem "sólida base pedagógica e rigor científico" ao abordar "todos os aspectos da sexualidade". 

No comunicado, a editora diz que os autores conseguem tratar de forma "leve" assuntos importantes como paixão, mudanças da puberdade, contracepção, doenças sexualmente transmissíveis, pedofilia e incesto. "O livro conta ainda com uma seção chamada 'Fique esperto', que alerta os adolescentes para situações de abuso, explica o que é pedofilia — mostrando como tal ato é crime —, o que é incesto e até fornece o contato do Disque-denúncia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos'", explica a Companhia das Letras. 

"O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais, um específico à 'Orientação Sexual' para crianças, jovens e adolescentes", conclui a editora. 
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Crédito das imagens:

Foto 1 - J.B.durante a entrevista no 'Jornal Nacional' - Reprodução Rede Globo 

Foto 2 - Capa do livro apresentado por J.B. - 
  

BRASIL - ELEIÇÕES - ENTREVISTA À PESQUISADORA MARIA HERMÍNIA TAVARES

9 de outubro de 2018



"Acusaram o PT de imitar a Venezuela,  mas é o Bolsonaro quem se espelha no processo de lá".               



Maria Hermínia Tavares, pesquisadora do CEBRAP, diz que Bolsonaro é o risco do chavismo com o sinal inverso. Para ela, Haddad precisa “tirar a camisa vermelha e colocar a branca da conciliação”

Jornalista - El País
Rio de Janeiro 9/10/2018



O primeiro turno das eleições brasileiras de 2018 materializou a indignação de um país farto de seus dirigentes políticos, incapazes de dar resposta ao tema da corrupção e questões cotidianas, como a segurança pública. O resultado não foi apenas a ascensão da extrema direita e de Jair Bolsonaro(PSL), que foi para o segundo turno dos comícios eleitorais com 46% contra Fernando Haddad (PT), que ficou com quase 30%, mas também "a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 1994". A avaliação é de Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP).

A cientista política se apoia no fato de que o PSL de Bolsonaro conseguiu a segunda maior bancada da Câmara, com mais de 50 deputados, apesar de não possuir estrutura partidária nem dinheiro. Ao mesmo tempo, importantes lideranças, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira, entre outras, não renovaram seus mandatos, enquanto que novatos na política chegaram ao segundo turno em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Trata-se de uma onda conservadora difícil de conter, uma vez que, segundo diz, "a racionalidade não é um dique forte" contra ela. Para Haddad, resta percorrer um caminho que passa por deixar seu padrinho político de lado e assumir o papel central. "Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso". 

Apesar não conseguir definir exatamente como seria um governo Bolsonaro, ela vislumbra um processo parecido ao que aconteceu na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro: "O maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. O que está acontecendo no mundo vai nessa direção".

Pergunta. Como chegamos até aqui?
Resposta. É um caminho longo. Começa em 2013 com as enormes manifestações espontâneas para as quais os dois partidos que organizavam a disputa eleitoral, PT e PSDB, foram incapazes de dar uma resposta. Isso passou por 2014, onde a radicalização dos dois grupos aumentou muito. Passou pelo impeachment e pelas manifestações do impeachment. Sempre tivemos uma disputa entre centro esquerda e centro direita. É uma bobagem dizer que o PT é de extrema esquerda. Mas tem um tema que os dois principais partidos não sabem lidar, que é a corrupção.

P. PT, PSDB e o sistema político como um todo se blindaram das ruas. Isso gerou uma raiva ainda maior?
R. Acho que sim. O PT passou esse tempo negando o seu envolvimento com atos importantes, mas o PSDB também. Os dois leram mal o que estava acontecendo na sociedade, que está mais atenta a esse tipo de questão e que foi tratada forma bastante intensa pelos meios de comunicação, e depois, pela candidatura de extrema direita [de Bolsonaro]. A dimensão da corrupção foi muito grande, mas a maneira como foi tratada também criou essa ideia de que é o principal problema do país. Quando não é, né? 

O país tem coisas muito graves a se resolver, apesar de a corrupção ser algo grave. Essa ideia de que as coisas não acontecem porque o governo é corrupto... A mídia teve um papel fundamental nisso. Eu não estou demonizando a mídia, tem que divulgar e contar a história, mas nos momentos de abertura das acusações, o Jornal Nacional ocupava uma hora com esse assunto, mostrando um cano do qual saía o dinheiro... Era muito impactante. Não acho que a corrupção foi inventada pela mídia: ela existia, é muito grave e não pode acontecer. Mas ela se transformou na cabeça de muita gente como algo associada ao PT e, depois, ao PSDB. O que nós estamos assistindo é a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 94.

P. Que dimensão tem isso? Não só Bolsonaro foi para o segundo turno como também o PSL tornou-se o segundo maior partido da Câmara.
R. É uma mudança muito importante no sistema político. Revela o fato de como o PT e o PSDB não souberam lidar com o tema da corrupção, também não souberam lidar com o tema da segurança. Isso acabou se transformando num discurso da extrema direita. Mas Bolsonaro é quase uma tela em branco, porque ele não diz nada. Ele diz uma meia dúzia de chavões. Tem algo vagamente nacionalista e antissistema. Os diversos grupos da sociedade que votaram nele foram projetando... Ele dá um marco de extrema direita.

P. Mas agora ele vai ter que ir aos debates com Fernando Haddad, vai ter mais tempo de televisão... Em suma, terá de falar mais. É um desafio para a campanha dele?
R. Veremos se isso tem um efeito importante. O que estamos assistindo é uma onda. E, às vezes, a racionalidade não é um dique forte pra conter essa onda. Então, eu espero, como brasileira, que ela possa ser contida. Ela é muita maléfica para o país.

P. O que o PT e o Haddad precisam fazer para conter essa onda?
R. Haddad já acenou com a ideia de que vai trazer outros candidatos e fazer uma espécie de frente pela democracia, trazendo o centro junto. Mas tem coisas difíceis que ele terá que fazer. Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso. 
A segunda coisa é tirar a camisa vermelha e colocar a camisa branca da conciliação, da paz, da negociação. Vai ter que lidar com grupos dentro do PT que não entendem qual é a situação. Ele vai ter que mudar o seu programa econômico, mas não é isso que vai decidir agora a eleição. Seria bom que ele acenasse agora para não parecer que deu um cavalo de pau depois. Mas a minha sensação é que o PT, quando fez aquele programa, estava se preparando para perder as eleições para o [Geraldo] Alckmin. E aí fizeram um programa pra cerrar fileiras e juntar a militância, porque ele é inviável. 
Se você conversa com petistas mais esclarecidos, eles dizem que não dá, que tem que fazer reforma da Previdência e coisas do tipo. Então, há vários movimentos complicados que ele terá de fazer. Vai ter que trazer o Fernando Henrique Cardoso para dentro. Ele não tem mais poder dentro do PSDB, mas tem uma liderança moral importante no país.

P. Caso o PT, ao invés de ter esvaziado a candidatura do Ciro Gomes, tivesse se aliado a ele desde o começo, quais seriam as chances de neutralizar desde já a candidatura Bolsonaro?
R. Basta somar os votos. O Ciro conseguiu quase 12%, é bastante. Agora, para trazer o Ciro, terão de fazer grandes concessões, não só de agenda mas também de espaço dentro do governo caso o PT ganhe.

P. E caso Bolsonaro ganhe? É possível vislumbrar o que seria um governo dele?
R. Não tenho nenhuma condição prever. Na melhor das hipóteses ele vira um governo Collor. Na melhor. Mas não é isso o que ele está fazendo. Ele está formando uma base parlamentar significativa. Ele pode ter maioria no Congresso para fazer coisas muito danosas para o país. Acho muito difícil saber e acho melhor não pagar para ver (risos).

P. O Exército vem pairando em cima da política brasileira e também das eleições, com ameaças veladas, uma movimentação do Toffoli em direção a instituição... Devemos temer algum tipo de intervenção ou interferência do Exército?
R. Os apoiadores de Bolsonaro por enquanto são generais de pijama. Não sabemos como a instituição e a hierarquia vão atuar. Mas é lógico que, caso se forme uma situação de muita instabilidade, existe o risco sim do Exército atuar. Mas o maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. 
O que está acontecendo no mundo vai nessa direção. Como foi na Venezuela, inclusive. Acusaram muito o PT de querer imitar a Venezuela, mas é o Bolsonaro que está espelhando esse processo que aconteceu lá, onde o sistema tradicional, fundado na corrupção, ruiu. E apareceu uma liderança fora do sistema que foi destruindo a democracia. Se tem algo parecido ao chavismo, mas com outro sinal, é essa ameaça do Bolsonaro.

P. O PT apostou fortemente em manter o discurso da perseguição contra o partido e manter a candidatura de Lula até o último momento. Essa estratégia acabou se virando contra ele?
R. O que está claro é que a expectativa de que a transferência de votos fosse grande não se materializou. Lógico que ela aconteceu, Haddad não era conhecido por ninguém, e o fato de ser apoiado por Lula facilitou sua entrada. Mas isso ocorreu onde o PT tinha bases fortes e seguras. 
As pesquisas sobre identificação com partidos (que não sabemos exatamente o que significam, mas indicam uma tendência) mostram que cerca de 20 e poucos por cento da população apoiam o PT. É o único que tem esse apoio em escala nacional. E foi mais ou menos o que Haddad teve de votação. A votação do Lula é muito acima disso. E nem sei o que aconteceria com o Lula se ele fosse candidato.

P. O PT terá de fazer um mea culpa e pedir desculpas pela corrupção que cometeu?
R. O partido estava numa situação muito complicada, com seu principal líder na cadeia a partir de um processo controverso na maneira como foi conduzida. Essa coisa de prender depois da segunda instancia também é controverso. Ele foi submetido a processos que dão espaços para a narrativa da perseguição. Nesse contexto, é muito difícil pedir pro PT admitir que fez mesmo tudo aqui. Ele estava numa situação complicada. Mas vai ter que fazer [um mea culpa]. Não sei se durante a campanha eleitoral ou depois, mas tem que fazer. E, sobretudo, tem que acabar internamente com esses procedimentos [de corrupção].
Agora, o eleitorado puniu muito fortemente não só o PT, mas o sistema como um todo. Lideranças muito importantes ficaram de fora, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira. Entraram candidatos de fora do sistema, entre aspas. No Rio, o [ex-juiz-federal] Wilson Witzel tá disputando. 
Em Minas, Antonio Anastasia (PSDB) dava sinais de que iria se eleger tranquilamente. A rejeição ao arranjo politico anterior é enorme. Como as lideranças políticas de centro, de centro esquerda e centro direita não se deram conta do tamanho disso, Bolsonaro acabou canalizando melhor [essa insatisfação].

P. Qual é o papel do PSDB nesse processo? O que prejudicou o partido? Tem a ver com o fato de ter questionado o resultado das urnas em 2014 e, depois, ter participado do impeachment, como dizem alguns analistas?
R. Eles fizeram a crise politica. Eles aprofundaram a crise, é uma responsabilidade muito grande. O grande derrotado do impeachment é o PSDB, que deu viabilidade ao processo. Sem ele não se teria conseguido fazer. Mas a centro direita se fragmentou e o PSDB se enfraqueceu demais. 
Se a vitória em São Paulo não se materializar, ele perde uma força importante. Ele perdeu espaço para a extrema direita e é o grande perdedor do impeachment. Ele imaginava que com o impeachment teria benefícios, mas fez um cálculo equivocado. A crise politica se acirrou muito com o processo.

P. O PSDB  fez acordo com o centrão, conseguiu o maior tempo de TV... Parecia se blindar contra Bolsonaro, mas isso também não funcionou.
R. Eles acharam que o jogo ia ser o mesmo de sempre. Era o cálculo que todos faziam nas eleições anteriores. E agora um cidadão que tinha poucos segundos na TV teve um sucesso impressionante. Por outro lado, o horário eleitoral funcionou muito bem para o Haddad. Sua votação não veio com rede social.

P. Acredita que Bolsonaro entendeu melhor o mal estar que veio à tona em 2013?
R. Não sei se entendeu, porque ele pensa aquela meia dúzia de coisas simples e erradas. Se o problema da segurança se resolvesse matando as pessoas, o Brasil não teria problemas de segurança, porque aqui a polícia mata com muita tranquilidade. E ele não tem nada a dizer sobre outras coisas. Mas ele expressa de maneira muito sintética a rejeição a isso tudo, a esse sistema que se afundou. Ele canalizou aquele sentimento.

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Fonte do texto:


Ver mapa da votação, no 1º turno:


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Nota: As imagens deste texto fazem parte da entrevista publicada no El País.

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