Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

PAPA FRANCISCO EM MADAGASCAR: A POBREZA NÃO É UMA FATALIDADE

14 de setembro de 2019


O país de Madagascar é uma grande ilha, situada perto da costa sudeste da África, com florestas tropicais, lindas praias e recifes. Perto da sua capital Antananarivo, há uma encosta com um complexo de palácios reais e tumbas – “Ambohimanga”, e a belíssima  "Avenida dos Baobás"  uma estrada de terra ladeada de grandes árvores centenárias. A população fala malgaxe, sua língua nativa, e o idioma francês, uma herança do país que o colonizou.

A descrição acima podeira ser de um site de turismo. Mas, longe de viajar por interesses turísticos, Papa Francisco foi visitar dois grandes países insulares africanos, no início deste mês: Madagascar e Moçambique, pois ele bem conhece a vulnerabilidade desses povos, e talvez porque queria mostrar ao mundo a força de um projeto/cidade exemplar, mantido pelo povo da "Cidade da Amizade"/Akamasoa, na capital de Madagascar, com a presença e o apoio de um missionário argentino que fora seu aluno.  

A matéria que reproduzimos abaixo, é parte de um relato da visita de Papa Francisco a esse projeto. As palavras do papa e a força da sua presença significaram um grande alento para os participantes do projeto e, entre esses, centenas de trabalhadores e trabalhadoras de uma pedreira de pedras preciosas. No final, o papa nos presenteia com uma prece comovente, exaltando a fé, o trabalho e a garra daquele povo.



A pobreza não é uma fatalidade – diz Papa Francisco
em  Madagascar

Essa reportagem - publicada na revista “America”, dos jesuítas, por Gerard O’Connell, foi traduzida por Isaque Gomes Correa para o portal do ihu.unisinos  em 8/09/2019.

A pobreza não é uma fatalidade”, disse Papa Francisco ao visitar Akamasoa, “A Cidade da Amizade”, cuja construção foi iniciada em Madagascar em 1989, por Padre Pedro Pablo Opeka, missionário argentino, com o apoio da comunidade local. O papa saudou esse extraordinário projeto vendo-o como um “testemunho profético de esperança”.

Akamasoa “é uma expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre, não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo.” – escreveu Papa Francisco, no Twiter. Segue um texto reduzido da reportagem.

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Cerca de 8 mil crianças e jovens se fizeram presentes no local e não esconderam a alegria enquanto cantavam em uníssono à espera da chegada do papa. O presidente de Madagascar e sua esposa estavam presentes. 

A atmosfera estava eletrizante e o lugar irrompeu com uma emoção e uma alegria incontroláveis quando o Papa Francisco adentrou o amplo salão junto com Padre Opeka. Quando eles entraram, centenas de meninas enfileiradas no centro do salão, tremulavam bandeirinhas  das cores da roupa que vestiam   azul, branco, amarelo e rosa, que são as cores da "Cidade da Amizade" Akamasoa, como é chamada pela população local. Enquanto o papa entrava, elas cantavam um famoso hino espanhol  Dios està aquí. O olhar de imensa alegria no rosto de Francisco revelava a sua felicidade interior de estar aqui.

Padre Pedro Opeka deu as boas-vindas ao Papa Francisco e explicou que, em 1989, aquela “era uma região de exclusão, sofrimento, violência e morte”, mas que, nos últimos 30 anos, “a Divina Providência criara um ‘oásis de esperança’ – as crianças reconquistaram a dignidade, os jovens conseguiram trabalho e seus pais trabalhavam para preparar um futuro para seus filhos”.

“Erradicamos a pobreza extrema deste lugar graças à fé, ao trabalho, aos estudos, ao respeito recíproco e à disciplina” – disse Opeka a Francisco, agradecendo-lhe por sua vinda:  “A sua presença aqui é uma graça e uma bênção que redobra a nossa coragem de combater a pobreza”. Em seguida, uma jovem da "Cidade da Amizade" se expressou, diante do papa, relatando o que significou para a sua vida a convivência e o trabalho naquele projeto.

No início da sua fala, o Papa Francisco confidenciou aos jovens que o Padre Opeka tinha sido seu aluno de teologia em 1968, na Argentina, e acrescentou – provocando risadas dos presentes – “Ele não queria muito estudar, só queria trabalhar”. Manifestou a sua alegria de estar em "Akamasoa, dizendo que aquele projeto/cidade "é uma expressão da presença de Deus no meio do povo pobre”, não uma presença esporádica, casual: “é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo”. 

“Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia” – disse o papa, afirmando que os clamores dessas pessoas “nasceu do fato delas não poderem mais viver sem um teto, e ver os filhos crescerem desnutridos, sem trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos. Seus clamores transformaram-se em cânticos de esperança para vocês e aqueles que os contemplam”. O papa se referia às casas, escolas e dispensários do bairro, dizendo que tudo aquilo era “um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade”.

“Digamos com força: a pobreza não é uma fatalidade!”

papa afirmou que a cidade de Akamasoa reflete uma “longa história de coragem e ajuda mútua  o resultado de muitos anos de trabalho duro”. Aqui, ele afirmou, “encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de mover montanhas. Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição”.

Lembrou que os “alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vocês, mas entre vocês”, e que isso deu “a possibilidade de vocês serem os protagonistas e os artífices desta história”. Tudo isso - ele continuou - leva o povo a compreender que “faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário”. “Não há escravidão pior – como nos lembrou o Padre Pedro – do que viver cada um só para si”.

Dirigindo-se aos jovens de Akamasoa, Francisco incentivou-os para que “nunca desistam diante dos efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos”. Exortou-os a continuar a obra iniciada pelos mais velhos e disse que eles encontrarão a força para isso na fé e no testemunho vivo dos mais velhos. O papa também encorajou os jovens a pedirem a Deus para fazê-los “servir generosamente os irmãos e irmãs”.

Por fim, o papa rezou para que  Akamasoa  difunda, no  Madagascar inteiro e em outras partes do mundo, “o esplendor desta luz [e que] se possa alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho”. Concluiu invocando a bênção de Deus sobre o Padre Opeka e todos os habitantes de Akamasoa, pedindo também que os participantes do evento rezassem por ele.

Em seguida, dirigiu-se a pedreira Mahatazana - uma região também administrada pelo projeto Akamasoa. Lá, cerca de 700 trabalhadores são empregados para a extração de pedras preciosas. Num encontro com música e breves discursos, Papa Francisco recitou a sua prece por todos os  trabalhadores e trabalhadoras - e não só os da pedreira Mahatazana, como ele enfatizou.

Finalizando sua visita a Madagascar, o papa foi ao Collège Saint Michel, faculdade jesuíta onde se encontrou com padres, religiosos, religiosas e seminaristas. Seu compromisso final do dia foi uma reunião privada com a comunidade local dos jesuítas. 

  
    Súplica de Papa Francisco pelos Trabalhadores e 
Trabalhadoras - diante dos operários da pedreira Mahatazana. 

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra, nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui, como irmãos, em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem.

Nós Vos pedimos por todos os trabalhadores! Por aqueles que trabalham com as próprias mãos, com enorme esforço físico.

Preservai os seus corpos do desgaste excessivo! Que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e de brincar com eles.

Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo, para que não sejam esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita assegurar uma vida digna às suas famílias. E que à noite, encontrem nelas calor, conforto e encorajamento, e juntos, reunidos sob o vosso olhar, conheçam as verdadeiras alegrias.

Que as suas famílias saibam que a alegria de ganhar o pão é perfeita, quando este pão é partilhado.

Que as suas crianças não sejam forçadas a trabalhar, mas possam ir à escola e continuar os seus estudos. E que os seus professores consagrem tempo a essa tarefa, sem precisarem de outras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes: que eles provejam a tudo o que é necessário para assegurar, a quantos trabalham, um salário digno e condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai daqueles que não têm trabalho, e fazei que o desemprego, causa de tantas misérias, desapareça das nossas sociedades.

Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade: que procurem velar uns pelos outros, encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, ajudar a levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio, ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança de ver um mundo melhor e trabalhe para que isso aconteça. Juntos, e de forma construtiva, que eles saibam fazer valer os seus direitos e que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus, nosso Pai, Vós destes como protetor dos trabalhadores do mundo inteiro São José, pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria: a Ele, entrego todos que trabalham aqui, em Akamasoa, e todos os trabalhadores de Madagascar, especialmente aqueles que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho e os sustente na sua vida e na sua esperança. Amém!

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Fonte da reportagem:


Observação: Aos que desejam conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Papa Francisco, vejam a tradução de uma publicação de 25/04/2018, na revista “America” – uma revista dos jesuítas americanos, que publica a íntegra do importante pronunciamento de Robert W. McElroy,  bispo de San Diego, EUA, proferido na Loyola University de Chicago, fazendo uma análise das proposições do papa no âmbito de três pilares fundamentais: a paz, a pobreza e a Terra Mãe. Segue a url:



Créditos das imagens:

1 - Alamaeda dos Baobás - em Moçambique - reprodução.
2 - Maputo, no oeste da África, e a ilha de Moçambique - www.ajsgem.com
3 - Painel com Papa Francisco, em Moçambique - www.rappler.com
4 - Alameda dos Baobás - reprodução.

Nota: As imagens aqui postadas são dos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução, que se comunique conosco por meio de um comentário nesta postagem. 











LADISLAU DOWBOR - RECENTRAR A ECONOMIA NO BEM-ESTAR E NA SUSTENTABILIDADE

6 de setembro de 2019



“A economia precisa se recentrar no bem-estar das famílias e na sustentabilidade do planeta"

UMA ENTREVISTA COM O ECONOMISTA LADISLAU DOWBOR

Dispomos de recursos financeiros e tecnológicos para assegurar uma reconversão econômica, mas falta capital político para enfrentar as corporações.

Na atualidade, o grande vilão não é nem mesmo o capitalismo, mas o capitalismo rentista

O mundo está em tamanha transformação que tudo parece ter um novo modo de ser, um novo lugar. Nem mesmo o capitalista de hoje é como foi o de antigamente, aquele que “explorava os trabalhadores, mas produzia, gerava produto e pagava impostos”.
A assertiva do economista Ladislau Dowbor parece irônica, mas é real. As transformações têm descentrado até lógicas econômicas que, por mais perversas que pareciam ser, ainda tinham um mínimo de geração de bem-estar social. “A fragilidade do atual sistema dominante consiste precisamente no fato de ser economicamente, social e ambientalmente disfuncional”, observa.
Na entrevista concedida por correio eletrônico à IHU On-Line, Dowbor detalha que, na atualidade, o grande vilão não é nem mesmo o capitalismo, mas o capitalismo rentista, pois o patrão “de mão no bolso, vê o seu dinheiro crescer de maneira exponencial. Ele ganha com juros altos, pois os recebe. Mas a massa da população, a pequena e média empresa e o Estado pagam juros sobre a dívida. E pagam esses juros precisamente para os que vivem de aplicações financeiras”. O resultado é que “a população perde capacidade de compra, a empresa capacidade de investir, e o Estado, capacidade de prover políticas públicas e infraestruturas”. Por isso, defende uma inversão: “a economia precisa se recentrar no bem-estar das famílias e na sustentabilidade do planeta. A visão de sucesso econômico precisa se deslocar da glorificação dos bilionários, que souberam como arrancar um pedaço maior, para o reconhecimento de quem mais contribui”.
Dowbor ainda destaca que há saída para essa situação. “Trata-se, de um lado, de reduzir os impactos destrutivos. Por outro lado, trata-se de promover o acesso gratuito, público e universal a um conjunto de bens essenciais”. Ações que, nesse nosso tempo de avanços tecnológicos, já têm a possibilidade de implementar essa reconversão. “Mas não temos poder político sobre as corporações que geram o desastre”, acrescenta.
Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema “S”. Formado em economia política pela Universidade de Lausanne, na Suíça, também é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, na Polônia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Podemos afirmar que a economia do nosso tempo assumiu tamanha centralidade a ponto de pôr a sociedade a seu serviço, invertendo a lógica para a qual o campo econômico foi concebido? Por quê?
Ladislau Dowbor – No mundo, a produção de bens e serviços aumenta em média 2% ao ano. É que produzir é trabalhoso. Mas as aplicações financeiras rendem em média, nas últimas décadas, entre 7% e 9% ao ano. O dinheiro – não o nosso, que serve para pagar as contas, mas o dos ricos – vai para onde rende mais.
Isso gera as fantásticas fortunas financeiras de quem não produz, mas drena os processos produtivos em seu proveito. Hoje o 1% mais rico tem mais do que os 99% seguintes, o que deformou radicalmente a economia. O PIB cai, e os lucros dos bancos e dos rentistas se expande. A economia real, que é o que nos interessa, perde espaço.
De que forma o mercado e, consequentemente, as corporações assumem a capacidade de drenar recursos e esvaziar o papel das políticas públicas? 
O mecanismo é o que se chama de efeito bola de neve. Um bilionário que aplica o seu bilhão em papéis que rendem modestos 5% ao ano está ganhando 137 mil por dia. No dia seguinte o seu rendimento será sobre o bilhão mais 137 mil e assim por diante. De mão no bolso, vê o seu dinheiro crescer de maneira exponencial. Ele ganha com juros altos, pois os recebe.
Mas a massa da população, a pequena e média empresa e o Estado pagam juros sobre a dívida. Pagam esses juros, precisamente, para os que vivem de aplicações financeiras. A população perde capacidade de compra, a empresa capacidade de investir, e o Estado capacidade de prover políticas públicas e infraestruturas. O volume dos nossos impostos transferidos para os bancos e a classe média alta rentista foi de 310 bilhões de reais em 2018, é tanto a menos para políticas públicas. Equivalem a 10 vezes o Bolsa Família.
Como o relatório do Roosevelt Institute , divulgado recentemente, põe em xeque a perspectiva de que faltam recursos para financiar políticas públicas? E que outra economia se pode conceber a partir do que revela o relatório?
O relatório está centrado em dois conjuntos de medidas: restringir o poder das corporações e recuperar a capacidade de ação do Estado. Hoje, temos essencialmente um Estado apropriado por grandes corporações, que ditam políticas como, por exemplo, a lei do teto de gastos, a apropriação da previdência pelos bancos, a liberação dos agrotóxicos proibidos em outros países, o desmatamento da Amazônia, a entrega da Embraer, a venda de terras aos grupos internacionais, a entrega do petróleo e assim por diante.
Assim, as corporações agem indiretamente, por meio do Estado, que perdeu a sua função de defesa dos interesses públicos. Trata-se de enquadrar as corporações e de promover ações diretas do Estado, em particular no fornecimento de bens públicos como saúde, educação e semelhantes. Clique para acessar as principais propostas.
O esvaziamento da perspectiva política da economia pode ter contribuído para a resignação do campo a lógicas tecnocráticas? Por quê? E de que forma a economia política é capaz de frear a centralidade do mercado e a imposição de suas lógicas ao campo da economia?
Não se trata de lógicas tecnocráticas, mas de narrativas pseudotécnicas destinadas a obscurecer os mecanismos de apropriação de dinheiro por meio de sistemas financeiros deformados. Agiotagem, na maioria dos países, é crime. Mas os caminhos para se recolocar a economia nos rumos construtivos são evidentes e bem conhecidos. O dinheiro que vai para a base social dinamiza a demanda, o que estimula a produção, o que por sua vez amplia o emprego, gerando mais demanda e um ciclo ascendente de desenvolvimento. Não gera inflação, pois temos uma grande capacidade ociosa das empresas.
O aumento da produção e do consumo de massa também amplia a receita tributária, o que permite financiar as políticas governamentais e ampliar o outro eixo de bem-estar da população que é o acesso aos bens e serviços públicos, como saúde e educação, gerando uma prosperidade que se amplia. Assim temos desenvolvimento sem gerar déficit. O Estado, pela sua capacidade de dinamizar a demanda na base da sociedade, precisa ter um papel central na promoção dessa dinâmica. Inversamente, o dinheiro no topo da sociedade gera especulação financeira, evasão fiscal e déficit nas contas.
De que forma a transição ecológica pode impactar a concepção de novas formas de trabalho e, consequentemente, de uma outra economia?
Sabemos o que deve ser feito, e os 17 objetivos da Agenda 2030 constituem um caminho que não só é claro como aprovado pela quase totalidade dos países, Brasil inclusive. Trata-se, de um lado, de reduzir os impactos destrutivos, como o aquecimento global, a perda de biodiversidade, a perda de solo fértil, a contaminação generalizada da água, a liquidação da vida nos mares e assim por diante. Envolve reconversão energética, agricultura de precisão, regulação das corporações e assim por diante. Temos os recursos financeiros e tecnológicos para assegurar esta reconversão, mas não temos poder político sobre as corporações que geram o desastre.
Por outro lado, trata-se de promover o acesso gratuito, público e universal a um conjunto de bens essenciais, e em particular à saúde, educação, água segura e semelhantes, bens e serviços que constituem bens públicos e de consumo coletivo, exigindo gestão pública. Melhoram radicalmente o bem-estar das famílias e geram muito pouco impacto ambiental, pelo contrário, em geral melhoram o nosso convívio com a natureza, além de gerar mais empregos. Não são “gastos”, como gosta de afirmar o governo, são investimentos nas pessoas. Um real investido em saneamento básico, por exemplo, reduz em quatro reais os gastos com doenças.
Ao longo dos últimos anos, o capitalismo tem revelado uma grande capacidade de transformação e superação das crises geradas por ele mesmo. Como compreender essa capacidade de transformação? E é possível conceber um sistema econômico que opere a partir das bases do capitalismo, mas que aja no sentido contrário? 
O capitalismo está vivendo uma dinâmica profunda de transformação, que resulta em grande parte das dinâmicas tecnológicas. O que surge tem sido caracterizado de capitalismo global, financeiro, parasitário, imaterial e outros qualificativos que tentam captar que tipo de deformação está em curso. Eu trabalho com a hipótese de que estamos vivendo uma revolução digital que é tão profunda quanto foi a transformação dos sistemas agrários pela revolução industrial. Não é uma indústria 4.0. É muito mais do que isso. Temos de parar de analisar apenas como o passado está se deformando, e pensar que novo sistema está se formando.
Apresento os principais eixos de mudança num ensaio, Além do Capitalismo: a revolução digital . A borboleta é uma continuidade da lagarta, mas a natureza é qualitativamente diferente. As mudanças são sistêmicas. Precisamos deslocar o raciocínio. É a sociedade do conhecimento que precisa de outras regras.
O papa Francisco está conclamando economistas a pensar noutras formas de economia. O que está na gênese dessa proposta do pontífice? Quais os desafios para se levar essas questões de fundo de suas reflexões para a prática do campo da economia?
O papa Francisco está rigorosamente sintonizado com o que há de mais moderno nas propostas, em particular na Agenda 2030. A economia precisa se recentrar no bem-estar das famílias e na sustentabilidade do planeta. A visão de sucesso econômico precisa se deslocar da glorificação dos bilionários, que souberam como arrancar um pedaço maior, para o reconhecimento de quem mais contribui. Pasteur não precisou ser bilionário.
Na mensagem do Papa, eu vejo um profundo resgate de valores. Em termos econômicos, os caminhos são claros. O bem-estar das famílias, ao ser generalizado – como, por exemplo, no New Deal do Roosevelt, no Well-Fare State da Europa, ou nas políticas de 2003 a 2013 no Brasil, que o Banco Mundial qualificou de Golden Decade of Brazil –, gera uma maior demanda de massa, que por sua vez dinamiza as atividades empresariais. Ambas geram, além de empregos, mais receitas para o Estado, o que lhe permite financiar a outra dimensão do bem-estar das famílias, que é o acesso aos bens de consumo coletivo que mencionamos acima.
Hoje, no Brasil e no mundo, vivemos o ápice do liberalismo? E de que ordem é esse liberalismo?
Vivemos essencialmente uma desordem econômica, política e social. A economia, e em particular o sistema financeiro, tem como palco o planeta. O dinheiro hoje é imaterial, dinheiro-papel representa apenas 3% da chamada liquidez. E dinheiro imaterial viaja pelo mundo em tempo real por meio dos computadores. Mas os governos que tentam regular o sistema financeiro estão fragmentados em 193 países membros da ONU, cada um puxando para o seu lado. Há um desajuste sistêmico entre a dimensão global da economia e a dimensão nacional dos governos.
Com isso se gerou a impotência das políticas públicas e o vale-tudo econômico que vemos nas fraudes dos bancos, de empresas do porte da Volkswagen, de empresas farmacêuticas, de empresas energéticas, do agronegócio, nos desastres como em Mariana e Brumadinho. No meu livro A Era do Capital Improdutivo , disponível gratuitamente online, analiso essas transformações, inclusive com pequenos vídeos para cada capítulo. Acho vital que mais pessoas entendam os mecanismos de opressão que estão sendo gerados, bem como os caminhos que temos pela frente. Estamos funcionando no século 21 com regras do jogo de outra era. É só observar o caos político mundial que se expande.
O socialismo ainda é uma perspectiva política e econômica que pode fazer frente ao liberalismo? Por quê? 
Temos de requalificar o que entendemos por socialismo. Em particular, sair da simplificação de que a esquerda quer estatizar e a direita privatizar. Somos sociedades demasiado complexas para simplificações ideológicas deste tipo. Mas os objetivos são claros: temos de assegurar uma sociedade economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável. Assim, temos um “norte”. O vale-tudo das corporações, e a opressão das populações, que é o que vivemos, não pode continuar a se cobrir de legitimidade científica com termos como liberalismo ou neoliberalismo.
Wolfgang Streeck diz que não é o fim do capitalismo, mas o fim do capitalismo democrático. O conceito de socialismo é forte no que associamos de decência no comportamento político, de visão humanista, de redução das desigualdades, de resgate do meio ambiente. É o tal do “outro mundo possível”. Mas precisamos mostrar que uma outra forma de gestão da sociedade é possível. Trata-se de formas concretas de organização do processo decisório da sociedade. Para mim, socialismo democrático parece ótimo como horizonte político.
O socialismo se construiu em diferentes sociedades, em diferentes momentos (como a Rússia de 1917 e a China de 1949). A partir desse dado, pode-se afirmar que o socialismo é um modelo que, como o capitalismo, possui uma grande capacidade de adaptação? Em que medida o(s) socialismo(s) se adapta(m) ao século XXI, atravessado pelas mudanças tecnológicas e culturais? 
Eu trabalho com o conceito de economia mista. Produzir sapatos, carros e cosméticos pode perfeitamente ficar no âmbito da economia privada, mas com regulação, em particular pelos impactos ambientais. Mas as grandes infraestruturas de transporte, de energia, de comunicação e de água/saneamento precisam ser planejadas e geridas em função do bem comum, na lógica de um desenvolvimento equilibrado. Aqui, o Estado e o planejamento têm de exercer papel dominante.
Já as políticas sociais, como saúde, educação, segurança e semelhantes, onde funcionam bem, são públicas, gratuitas e de acesso universal. Sai muito mais barato e é muito mais eficiente do que a indústria da doença, a indústria do diploma, sem falar das milícias privadas. Aqui o Estado é fundamental, e de forma descentralizada, com lógicas diferenciadas segundo as condições. Em outra área, temos de exercer rigoroso controle sobre os grandes sistemas de intermediação financeira, que hoje deformam todo o processo de desenvolvimento.
Isso porque as finanças não são um setor, são uma dimensão de todas as nossas atividades. Se reduzimos as políticas sociais públicas, por exemplo com o teto de gastos, as famílias são empurradas para os planos privados de saúde, hoje mecanismos de extorsão. A intermediação financeira é atividade meio, ninguém come dinheiro. Só é legítima quando canaliza os recursos para o que nós como sociedade queremos priorizar. Apresento estas novas articulações num pequeno estudo, O pão nosso de cada dia: processos produtivos no Brasil .
A economia não é misteriosa, é só seguir o bom senso. Mas quando estão nos ferrando, querem demonstrar que é para o nosso bem, o que exige análises econométricas que realmente ninguém entende. E o objetivo deles é esse mesmo. Se você não entendeu, desconfie.
A construção do socialismo pressupõe método e disciplina por parte da classe trabalhadora. Levando em conta a característica dos movimentos de hoje, que se dão de forma descentralizada e efêmera, é possível afirmar que, nesse contexto, podem emergir “outros socialismos”? 
Os desafios hoje se tornaram mais complexos. Não estamos mais no tempo em que havia a burguesia, o proletariado e o campesinato, e a luta de classes. Há uma profunda fragmentação social, formas muito diferenciadas de inserção que dificultam as identidades e solidariedades sociais. Hoje estão se tornando mais fortes eixos de identidade em torno do gênero, raça, religião, regionalismos. E as formas de construção de laços mudam profundamente com as redes sociais e as novas tecnologias.
Mas há grandes eixos de unificação de lutas. O que estamos enfrentando é um sistema que está destruindo o nosso futuro no planeta, e no mundo todo as pessoas estão despertando e se mobilizando. E a desigualdade está atingindo bilhões de pessoas, que hoje estão conscientes de que deveriam poder ter acesso a uma saúde decente, a escolas decentes. Não há mais pobres como antigamente, eternamente conformados. O saco cheio está se generalizando, como inclusive vemos no aproveitamento eleitoral de uma direita que navega no ódio. E em particular, está cada vez mais evidente que este duplo drama ambiental e social é gerado por uma minoria rica, poderosa e improdutiva. O que temos em paraísos fiscais, entre 21 e 32 trilhões de dólares, equivale a um terço do PIB mundial. Evasão fiscal, corrupção, lavagem de dinheiro, especulação financeira.
O capitalista de antigamente explorava os trabalhadores mas produzia, gerava produto e pagava impostos. A destruição do planeta é obra de uma minoria planetária que é improdutiva, desvia os recursos necessários para a reconversão das nossas economias para a sustentabilidade ambiental e a inclusão social. A fragilidade do atual sistema dominante consiste precisamente no fato de ser economicamente, socialmente e ambientalmente disfuncional. Como muitos economistas importantes que nada têm de esquerda hoje proclamam, de Joseph Stiglitz no Roosevelt Institute até Martin Wolf no Financial Times, este sistema perdeu a sua legitimidade.


Deseja acrescentar algo?
Sugiro fortemente que as pessoas peguem a minha análise nos 15 vídeos de 10 minutos que acompanham o livro A Era do Capital Improdutivo. Não precisamos ser economistas para entender como nos ferram, e como nos defender.


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*Ladislau Dowbor é fundador da Diálogos do Sul
Entrevista publicada originalmente em: 


HINO À LIBERDADE - JOSÉ DURÁN Y DURÁN

30 de agosto de 2019


Há poucos dias recebi de uma especial amigo e irmão, o empresário, professor, pintor e escritor espanhol JOSÉ DURÁN Y DURÁNradicado em Palmares/PE deste 1977 - um poema denso e profundo intitulado HINO À LIBERDADE.

Inspirado na atual conjuntura mundial, que vem se distanciando mais e mais da prática e dos valores da Justiça Social e do cuidado pela Mãe Terra, sua poesia não nos deixa esquecer a longa e dolorosa experiência da ditadura militar, iniciada nos anos ´60, aqui e em outros países da América Latina. O autor nos lembra os valores que fundamentam a nossa luta por justiça social, ética, equidade e paz, agora que o país encontra-se empoeirado de vergonha diante do mundo, deixando o seu povo triste e cabisbaixo de inquietações, por ver-se saqueado das conquistas sociais e trabalhistas que havíamos conquistado há anos atrás. 

Durán nos fala de uma Liberdade que devemos almejar, com a tenacidade da nossa luta cotidiana, a fim de enfrentarmos esse momento difícil (que, esperamos, seja passageiro), anulando o terrorismo fundamentalista, rompendo as correntes da nova escravidão, quebrando preconceitos, desviando-nos da ignorância a que nos querem relegar, para voarmos livres no fraterno abraço da liberdade.

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HINO À LIBERDADE

             * José Durán y Durán


Oh! deusa aclamada e reverenciada,
Pelas mentes ilustradas,
Pelos amantes da verdade,
Pelos que na igualdade acreditam,
E constroem a fraternidade.
Para ti fomos criados,
Por ti somos cuidados,
Em ti vivemos e somos realizados.


Oh! deusa das civilizações mais antigas,
Essência da criatura humana,
Vital estado espiritual de toda cultura.
Quando te afastas da nossa vida,
Escurece nossa existência,
Quando de ti nos roubam,
Murcham nossas esperanças,
Quando de ti abusamos
Em escravos nos transformamos.



Oh! deusa mãe que libertas,
Respeitada pelas mentes abertas,
Clarão de luz, matriz das nações,
Impulso vital estendido no universo,
Genitora do amor reverente dos corações.
Teu pranto é pela espada de dor das ditaduras,
Pelos espinhos que rasgam e ensanguentam teu corpo,
Pela economia que te sequestra,
Pela ignorância que te deixa relegada a ideologia,
Pelo terrorismo fundamentalista,
Que te amordaça, te confina e te deixa indefesa.


Oh! Força e inspiração dos libertadores,
Que romperam as correntes da escravidão,
Que fustigaram demônios e espíritos maus,
 Que quebraram preconceitos e voaram livres,
Que uniram os povos no abraço da liberdade.


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* Poema gentilmente cedido pelo autor, para ser publicado neste blog.

Crédito das Imagens:

1. José Durán - foto tirada durante palestra do autor em Aparecida.
2. A Liberdade conduzido o povo - Delacroix - Museu do Louvre - fotografia.




FREI BETTO: A NATURALIZAÇÃO DO HORROR NO BRASIL

23 de agosto de 2019

É uma prática costumeira trazer a   este espaço informações, entrevistas e reportagens produzidas por autores reconhecidos no amplo leque dos jornalistas, analistas políticos, ativistas, filósofos, políticos, líderes religiosos, especialistas e escritores que corroboram o nosso empenho de manter os leitores deste blog – especialmente os brasileiros que vivem fora do Brasil – em dia com o que se produz sobre a atual situação brasileira, com ênfase na nossa proposta de alimentar a resistência democrática.
Hoje trazemos um precioso artigo do escritor Frei Betto que aponta 10 táticas do pretenso atual presidente, que resumem a forma debochada com que este senhor vem tratando o povo brasileiro, com exceção dos seus pares e apoiadores comprometidos com o Deus Mamona, e com as manobras do poder político e econômico diante de quem o dito mandatário escolheu ajoelhar-se, agindo sempre ao seu serviço. 
Recentemente, na terça-feira 13/08, tivemos oportunidade de manifestar, mais uma vez, a nossa voz de resistência pacífica e democrática, no empenho de trazer a interpelação de mais de 12 mil desempregados, dos trabalhadores que veem suas conquistas trabalhistas usurpadas, dos povos indígenas entregues aos gananciosos tomadores de suas terras, de todas as mulheres tidas como meros cochilos da natureza, dos ativistas, professores, estudantes, jornalistas e produtores culturais que defendem esse povo, e se juntam aos pequenos pensionistas e anciãos, aos pobres e doentes sem remédio, maltratados, menosprezados, espezinhados pela maldade desse poder mascarado, que não se dá conta que deixará o seu nome como um grave hiato na história do país - e, comparativamente, do mundo inteiro - representado por um significante "messias" do Maligno. É em nome dele que os defensores do povo brasileiro são encurralados e afastados de suas posições e responsabilidades, porque denunciam as suas graves injustiças sociais e rechaçam o pensamento malvado e idiota de um rei bufão. 
Ao publicar no seu site essa matéria, Leonardo Boff muito oportunamente escreve que Frei Betto  "é um atento observador e analista da situação brasileira, especialmente a partir da ótica das vítimas das políticas sociais que prejudicam os mais vulneráveis."  Em seu texto - continua Boff - ele "descreve um percurso que nos coloca em alerta. É semelhante àquele seguido pelo nazismo de Hitler que provocou o maior genocídio da história e uma guerra mundial com milhões de mortos. A lógica seguida pelo atual governo é a mesma, embora, como pensamos, não consiga impor as perversidades que o nazismo impôs na Alemanha e lá onde chegou com suas tropas. Sua irradiação perversa persiste até os dias de hoje nos seguidores que possui pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Seria uma tragédia sem tamanho se algo parecido ocorresse em nosso país. Daí, a vigilância, a resistência e mais ainda a (criação de uma) proposta, de um caminho alternativo, humanitário, com maior justiça e solidariedade, que tanto fazem falta em nossa história. Valem estes 10 pontos de reflexão de Frei Betto. Profeticamente, ele denuncia o que eventualmente pode ocorrer entre nós se não nos mantivermos alertas".  
Segue o artigo. Alguns negritos no texto são nossos.
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A naturalização do horror
Por: Frei Beto

Em 1934, o embaixador José Jobim (assassinado pela ditadura, no Rio, em 1979) publicou o livro “Hitler e os comediantes” (Editora Cruzeiro do Sul). Descreve a ascensão do líder nazista recém-eleito, e a reação do povo alemão diante de seus abusos. Não se acreditava que ele haveria de implantar um regime de terror. “Ele não gosta de judeus”, diziam, “mas isso não deve ser motivo de preocupações. Os judeus são poderosos no mundo das finanças, e Hitler não é louco de fustigá-los”. E sabemos todos que deu no que deu.
Estou convencido de que Bolsonaro sabe o que quer, e tem projeto de longo prazo para o Brasil. Adota uma estratégia bem arquitetada. 
Enumero suas 10 táticas mais óbvias:

1. Despolitizar o discurso político e impregná-lo de moralismo. Jamais ele demonstra preocupação com saúde, desemprego, desigualdade social. Seu foco não é o atacado, é o varejo: vídeo com “golden shower”; filme da “Bruna, surfistinha”; kit gay (que nunca existiu); proteção da moral familiar etc. Isso toca o povão, mais sensível à moralidade que à racionalidade, aos costumes que às propostas políticas. Como disse um evangélico, “votei em Bolsonaro porque o PT iria fazer nossos filhos virarem gays”.
2. Apropriar-se do cristianismo e convencer a opinião pública de que ele foi ungido por Deus para consertar o Brasil. Seu nome completo é Jair Messias Bolsonaro. Messias em hebraico significa ‘ungido’. E ele se acredita predestinado. Hoje, 1/3 da programação televisiva brasileira é ocupado por Igrejas Evangélicas pentecostais ou neopentecostais. Todas pró-Bolsonaro. Em troca, ele reforça os privilégios delas, como isenção de impostos e multiplicação das concessões de rádio e TV.
3. Sobrepor o seu discurso, desprovido de fundamentos científicos, aos dados consolidados das ciências, como na proibição de figurar o termo ‘gênero’ nos documentos oficiais e dar ouvidos a quem defende que a Terra é plana.
4. Afrouxar leis que possam imprimir no cidadão comum a sensação de que “agora, sou mais livre”, como dirigir sem habilitação; reduzir os radares; desobrigar o uso de cadeirinha para bebês etc.
5. Privatizar o sistema de segurança pública. Melhor do que gastar com forças policiais e ampliação de cadeias é possibilitar, a cada cidadão “de bem”, a posse e o porte de armas, e o direito de atirar em qualquer suspeito. E, sem escrúpulos, ao ser perguntado o que tinha a declarar diante do massacre de 57 presos (sob a guarda do Estado) no presídio de Altamira, respondeu: “Pergunta às vítimas”.
6. Desobstruir todas as vias que possam dificultar o aumento do lucro dos grandes grupos econômicos que o apoiam, como o agronegócio: isenção de impostos; subsídios a rodo; suspensão de multas; desativação do Ibama; diferençar “trabalho análogo à escravidão” de trabalho escravo e permitir a sua prática; sinal verde para o desmatamento e invasão de terras indígenas. Estes são considerados párias improdutivos, que ocupam despropositadamente 13% do território nacional, e impedem que sejam exploradas as riquezas ali contidas, como água, minerais preciosos e vegetais de interesse das indústrias de produtos farmacêuticos e cosméticos.
7. Aprofundar a linha divisória entre os que o apoiam e os que o criticam. Demonizar a esquerda e os ambientalistas, ameaçar com novas leis e decretos a liberdade de expressão que desgasta o governo (The Intercept Brasil), incutir a xenofobia no sentimento nacional.
8. Alinhamento acrítico e de vassalagem à direita internacional, em especial a Donald Trump, e modificar completamente os princípios de isonomia, independência e soberania que, há décadas, regem a diplomacia brasileira.
9. Naturalizar os efeitos catastróficos da desigualdade social e do desequilíbrio ambiental, de modo a se isentar de atacar as causas,chegando a afirmar que no Brasil não há fome. 
10. Enfim, deslegitimar todos os discursos que não se coadunam ao dele. Michel Foucault, em “A ordem do discurso” (2007), alerta para os sistemas de exclusão dos discursos: censura; segregação da loucura; e vontade de verdade. O discurso do poder se julga dono da verdade. Não por acaso, na campanha eleitoral, Bolsonaro adotou, como aforismo, o versículo bíblico “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8, 32). A verdade é ele, e seus filhos. Seu discurso é sempre impositivo, de quem não admite ser criticado.
Na campanha eleitoral, a empresa BS Studios, de Brasília, criou o jogo eletrônico Bolsomito 2K18. No game, o jogador, no papel de Bolsonaro, acumulava pontos à medida que assassinava militantes LGBTs, feministas e do MST. Na página no Steam, a descrição do jogo: 
Derrote os males do comunismo nesse game politicamente incorreto, e seja o herói que vai livrar uma nação da miséria. Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no país. Muita porrada e boas risadas.” 
Diante da reação contrária, a Justiça obrigou a empresa a retirar o jogo do ar.
Mas o governo é real. Dissemina o horror e enxerga em quem se opõe a ele o fantasma do comunismo.
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Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.
Fonte do texto:


Crédito das imagens:

a) Foto de abertura - Vanise Rezende - arquivo do blog.


c) Imagem de Bolsonaro - www1.folha.uol.com.br








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