Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CRIME CONTRA A PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA E OS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS

11 de setembro de 2020

Ainda estamos celebrando a "passagem" do grande irmão Pedro Casaldáliga, deixando os povos nativos que conviveram com ele cheios de saudade, e, ao mesmo tempo, reanimados para ampliarem e continuarem o bom combate que com ele aprenderam. A cuidar da terra com amor, a defender o meio ambiente e os povos ancestrais que viviam neste chão Brasil muito antes da devastação provocada pela cana-de-açúcar, pelos cafezais e pelos "negócios" dos predadores da natureza, nas terras da Amazônia. 


Hoje publicamos uma informação muito triste, ainda sobre o desmando da
 ignorância e do desprezo que os "donos do poder" no Governo Federal vem mostrando em relação à Floresta Amazônica, aos seus povos nativos, à fauna e à flora. Esse rico ambiente vem sendo entregue pelo Governo Federal à direção de pessoas ignorantes, que desdenham do saber dos técnicos do Ibama, dos antropólogos e dos caciques. O resultado é o desmatamento da Amazônia, a perseguição às tribos nativas e a demissão de pessoas bem preparadas que fiscalizavam o "cuidado" com o meio ambiente. Agora,  fica claro que se entrega a  Amazônia nas mãos de coniventes com os depredadores. 


Há alguns dias publicamos informações de um relatório produzido  por órgãos internacionais de proteção ambiental, que demostrava a importância e os ganhos reais do "investimento financeiro" nas ações de proteção ambiental. Hoje, no Brasil, investe-se para oferecer resultados voltados aos interesses privados de parceiros, empresas e organizações que não amam o nosso país nem o seu povo, e desconhecem a história do nosso país e a importância do povo nativo nas matas de preservação ambiental. Segue o artigo de The Intercept Brasil.



IBAMA CONTRARIA TÉCNICOS E ENTREGA CHEFIA ESTRATÉGICA A FUNCIONÁRIO DA ABIN

 

 Agente sem experiência na área assume setor-chave para proteção da Amazônia e punição dos maiores criminosos ambientais do país.

Rafael Neves

The Intercept



UM FUNCIONÁRIO da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, foi alçado ao comando de uma unidade crucial no combate aos crimes ambientais do Ibama. André Heleno Silveira, um oficial de inteligência que não tem qualquer experiência comprovada na área, foi nomeado o novo chefe da Coordenação de Inteligência de Fiscalização, setor que faz investigações e abastece com dados as principais operações do órgão contra a destruição da Amazônia e outros biomas brasileiros.

Publicada em 21 de agosto, a nomeação assinada pelo presidente substituto do Ibama, Luis Carlos Hiromi Nagao, ignorou um aviso feito por servidores do próprio órgão. Em nota técnica entregue à diretoria, em julho, eles recomendaram que não se colocasse uma pessoa de fora do órgão à frente da unidade. O grupo argumentou, entre outros motivos, que a área produz dados sigilosos e que eventuais vazamentos ameaçam o sucesso da fiscalização.

Desde 2010 a área teve apenas três coordenadoras, todas elas analistas ambientais com anos de serviço no instituto. O próprio regulamento de fiscalização do Ibama determina que a atividade de inteligência seja exercida por servidores de carreira. Mas o governo Jair Bolsonaro desprezou o parecer técnico e as regras do órgão. Não é a primeira vez. Já contamos como o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, loteou o órgão com policiais militares sem nenhum conhecimento técnico.

Coordenar a Inteligência de Fiscalização exige conhecimento especializado. A cada ano, a unidade elabora um documento que classifica todos os crimes ambientais do país conforme a área em que ocorrem, a frequência com que são flagrados e seus impactos no meio ambiente. É com base nos dados da unidade que o Ibama planeja suas principais operações contra madeireiros, garimpeiros, traficantes de animais e outros criminosos.

Silveira, um paranaense de 36 anos, chegou ao cargo em circunstâncias misteriosas. Em maio deste ano, quando trabalhava em Manaus, ele foi chamado pelo Ibama para ser “consultor” da coordenação de fiscalização em Brasília, apesar de não ter nenhuma credencial para essa função.

Nos três meses em que esteve na capital federal, a partir de 18 de maio, Silveira consumiu mais de R$ 17 mil em diárias e passagens para “participar de ações de planejamento de combate ao desmatamento na Amazônia”, segundo a justificativa oficial de sua viagem.

O que causou espanto no Ibama, porém, é que a área de inteligência não foi consultada sobre o recrutamento do agente da Abin e nem informada sobre as atividades que ele exercia, segundo dois fiscais com quem conversei e que me pediram anonimato devido ao risco de represálias.

Por todo o tempo em que trabalhou “emprestado” ao órgão, Silveira interagiu apenas com a cúpula da área de fiscalização, que desde abril está sob domínio de dois ex-comandantes da Rota, a violenta tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo. Foram estes PMs que Salles escolheu para substituir os antigos dirigentes, que foram demitidos sem explicações, após uma operação contra o garimpo ilegal em terras indígenas no sul do Pará.

O padrinho de Silveira no Ibama é Leslie Jardim Tavares, que aproveitou a degola de abril para assumir a coordenação de operações de fiscalização, subordinada aos PMs. Assim como o funcionário da Abin, Tavares trabalhava no Amazonas, onde era braço direito do coronel da reserva da PM Olímpio Ferreira Magalhães. Até assumir a diretoria de proteção ambiental em Brasília, Magalhães foi chefe do Ibama no estado. A falta de transparência sobre a atuação de Silveira irritou os fiscais do Ibama, que chegaram a suspeitar que o funcionário da Abin estivesse trabalhando em uma espécie de atividade paralela de inteligência na diretoria de proteção ambiental.

No dia 2 de julho, a coordenadora da unidade, Sabrina Rodrigues Silva, deixou o cargo alegando motivos pessoais. Foi durante esse vácuo de comando na unidade, em 10 de julho, que os técnicos alertaram a diretoria para a necessidade de preencher a vaga com um servidor de carreira. A recomendação sequer foi respondida.

O diretor Olímpio Magalhães se manifestou sobre a nota dos técnicos somente 41 dias depois, em 20 de agosto. Não para discutir a preocupação deles, como se esperava, mas para questionar se o seu subalterno, o também PM da reserva Walter Mendes Magalhães, havia orientado a equipe a fazer aquela nota, algo que ele se apressou em negar no mesmo dia. Àquela altura, porém, o debate era inócuo: no dia seguinte, a nomeação do funcionário da Abin aparecia no Diário Oficial da União.

Perguntei ao Ibama por que o alerta dos técnicos foi ignorado pela diretoria, e qual era o trabalho de Silveira como “consultor” do órgão. Também questionei a respeito das qualificações na área ambiental que possam justificar a nomeação dele para um cargo de chefia, e se ele fez algum serviço de “inteligência paralela”, como suspeitam os servidores. Todas as perguntas ficaram sem resposta.

Também procurei Silveira diretamente, mas ele não respondeu às várias tentativas de contato por ligações, mensagens de WhatsApp e e-mail. Ao ministério do Meio Ambiente, perguntei se a pasta foi consultada sobre a nomeação e deu aval a ela. Tampouco houve retorno. O espaço está aberto para manifestações.

-------------------------------------------------

Fonte da matéria:

https://theintercept.com/2020/09/01/agente-abin-chefe-inteligencia-ibama-amazonia-salles/?utm_source=The+Intercept+Brasil+Newsletter&utm_camp

Sobre a matérioa, entre em contato com: Rafael Nevesrafael.neves@theintercept.com@contaneves

Crédito das imagens:

1. Imagem integrada na matéria aqui publicada.

2. Pedro Casaldáliga - reprodução foto/vídeo da homenagem realizada pelos amigos e seguidores do bispo, dia 8/09/2020 - YouTube.com


Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário. 

PROTEÇÃO ECO-SISTEMA - RELAÇÃO CUSTO BENEFÍCIO

5 de setembro de 2020

Sequoias de segundo crescimento vistas em um bosque no Joaquin Miller Park em Oakland, Califórnia, em 29 de abril de 2020. A Save the Redwoods League agora se concentra em preservar e restaurar florestas que foram derrubadas nos últimos 100 anos, depois que estudos mostraram que essas florestas capturam mais carbono, mais rápido do que qualquer outra floresta no mundo. (Carlos Avila Gonzalez/The San Francisco Chronicle via Getty Images).


Sabe-se que o eco-sistema da grande área da Amazônia - que envolve vários países da América Latina e as grandes matas da região central do do Brasil  -continuam sofrendo depredações violentas e envolvendo terras e vidas de indígenas e de suas tribos tradicionais. 


O Programa Ambiental da ONU e a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) cuidam dessas e de outras grandes áreas ambientais do eco-sistema, além de promover e gerenciar grande parte do financiamento da proteção ambiental global. Trazemos abaixo a informação de um importante relatório, preparado para a reunião anual da Conferência das Partes (COP 15) e da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD).  Este ano esta reunião deveria ocorrer em outubro próximo, em Kunming, na China, mas foi adiada para 2021 devido à pandemia da Convid-19. O relatório de que se fala abaixo, traz-nos informações importantes sobre a relação de custo benefício na proteção do eco-sistema. 

---------------------------------------------------------------------


A RELAÇÃO DE CUSTO BENEFÍCIO

  NA PROTEÇÃO DO PLANETA


Por: Jessica Corbett 
Publicado originalmente em: 'Common Dreams
Tradução de César Locatelli

 

 Um novo  relatório descobre que benefícios econômicos da proteção de 30% da terra e dos oceanos de todo o planeta superam os custos de 5 para 1.

 "Este relatório nos diz inequivocamente que o tempo para financiar a natureza - para as pessoas e para o planeta - é agora".

Foi assim que Jamison Ervin, gerente do Programa Global de Natureza para o Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), resumiu um novo estudo encomendado pela Campaign for Nature (CFN), uma coalizão de mais de 100 grupos de conservação e cientistas que apoiam a proteção de pelo menos 30% da terra e do oceano do planeta até 2030.

O relatório “Protegendo 30% do Planeta para a Natureza: custos, benefícios, implicações econômicas” foi divulgado no início de julho deste ano (8/7).  "É a primeira análise de impactos de áreas protegidas em vários setores econômicos, incluindo agricultura, pesca e silvicultura, além do setor de conservação da natureza", de acordo com a CFN.

Um rastreador on-line gerenciado por um centro do Programa Ambiental da ONU, com o apoio da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), mostra que cerca de 15% da terra e 7% dos oceanos em todo o mundo atualmente possuem algum nível de proteção. Os mais de 100 cientistas e economistas responsáveis pelo relatório da CFN descobriram que os benefícios econômicos da proteção de 30% da terra e dos oceanos do mundo superam os custos em pelo menos 5 para 1.

Os autores do relatório da CFN conduziram uma análise financeira que descobriu que a expansão de áreas protegidas para atingir ou superar a meta de 30% poderia gerar uma receita geral de US$ 64 bilhões a US$ 454 bilhões por ano até 2050, dependendo da implementação. Considerando os efeitos multiplicadores, diz o relatório, o impulso final à produção econômica global pode ser superior a US$ 1 trilhão por ano.

Eles também conduziram uma análise econômica parcial, focada em florestas e manguezais, e descobriram que "apenas nesses biomas, a meta de 30% tinha um valor de perda evitada de US$ 170 a US$ 534 bilhões por ano até 2050, refletindo amplamente o benefício de se evitar o inundações, mudanças climáticas, perda de solo e danos causados por tempestades costeiras que ocorrem quando a vegetação natural é removida".

Atualmente, a comunidade internacional investe cerca de US$ 24 bilhões por ano em áreas protegidas, de acordo com a CFN. A meta de 30% exige um investimento médio anual de cerca de US$ 140 bilhões até 2030.

Jamison Ervin - que está entre os autores do relatório - explicou em um recentee comunicado: “O custo para proteger 30% do nosso planeta, variando de US$ 103 a US$ 178 bilhões, não é inconsequente. No entanto, a natureza fornece mais de US$ 125 trilhões em benefícios para a humanidade, o PIB global é de cerca de US$ 80 trilhões e o total de ativos globais sob administração é de cerca de US$ 125 trilhões. Nesse contexto, o custo de criar uma rede de segurança planetária resiliente para toda a vida na Terra, mal tem a ordem de grandeza de um erro de arredondamento estatístico. Os benefícios para a humanidade são incalculáveis e o custo da inação é impensável.”

As novas descobertas econômicas reforçam os argumentos ecológicos e morais, muitas vezes no centro dos apelos ao aumento dos esforços de conservação. O  coautor do mesmo  relatório, Stephen Woodley, vice-presidente de ciência e biodiversidade da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da IUCN, manifestou: 

 "Expandir a área global de proteção para pelo menos 30% até 2030 é um requisito essencial para impedir a perda de espécies semelhantes em nosso planeta".

A Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Serviços de Biodiversidade e Ecossistemas (IPBES) alertou, em maio de 2019, que atividades humanas destrutivas levaram um milhão de espécies de plantas e animais à beira da extinção. Mais recentemente, a pandemia da Covid-19 direcionou mais atenção às consequências da destruição da natureza da humanidade, provocando preocupações sobre futuras doenças zoonóticas.

Antony Waldron, um ecologista da Universidade de Cambridge, enviou uma mensagem semelhante:

"Nosso relatório mostra que a proteção na economia atual gera mais receita do que as alternativas e provavelmente adiciona receita à agricultura e à silvicultura, além de ajudar a evitar mudanças climáticas, crises hídricas, perda de biodiversidade e doenças". Aumentar a proteção da natureza é uma política sólida para os governos que lidam com múltiplos interesses. Você não pode colocar um preço na natureza - mas os números econômicos apontam para sua proteção".

Stephen Woodly concluiu: 

"Devemos dar espaço para a natureza. A análise liderada por Anthony Waldron mostra que podemos ganhar financeira e economicamente implementando essa política", observando que alguns governos já se comprometeram com a meta de 30%. "A proteção da natureza impede a perda de biodiversidade, ajuda a combater as mudanças climáticas e diminui a chance de futuras pandemias. Esta é uma política pública sólida, econômica, ecológica e moral".

O relatório vem antes da próxima reunião da Conferência das Partes (COP 15) da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD), que deveria ocorrer em Kunming, China, em outubro deste ano, mas que foi adiada para o próximo ano devido à pandemia. Como a CFN observou na quarta-feira, a CDB incluiu a meta de 30% de área protegida em seu rascunho de estratégia de 10 anos, que deve ser finalizado na reunião do próximo ano.


----------------------------------------------------

Fonte da informação:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Beneficios-de-proteger-o-planeta-superam-custos-em-5-vezes/3/48103   Publicado em: 10/10/2020


Créditos das imagens:

1. Sequoias de segundo crescimento vistas em um bosque no Joaquin Miller Park em Oakland, Califórnia, em 29 de abril de 2020. Carlos Avila Gonzalez/The San Francisco Chronicle via Getty Images.

2. Imagem - www.canstockphoto.com.br

3. Eyes_eco-one-21 - www.focolares.org

 

Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário. 

 

  

EDUARDO GALEANO - 80 ANOS - SEMPRE PRESENTE

4 de setembro de 2020

No dia 2 de setembro 2020 quarta feira passada  o reconhecido escritor uruguaio e, merecidamente, o grande escritor latino-americano EDUARDO GALEANO estaria sendo festejando, em muitos países, por seus 80 anos. Certamente muitos o farão durante este mês, como fez o portal Carta Maior, publicando um texto de Aram Aharonian - um jornalista uruguaio, seu amigo, que nos dá uma visão da sua atividade como escritor, e do seu "aprendizado" como exilado – voluntário ou não  em outros países. Por razões de espaço, alguns trechos do artigo original foram omitidos.

Como leitora e grande admiradora de Galeano, bem que gostaria de ver a Editora Nova Fronteira, a Saraiva ou a LP&M realizarem, neste ano, alguma campanha de divulgação de seus livros  neste momento tão necessários e atuais facilitando o acesso a tão precioso tesouro aos jovens estudantes e universitários.     


Promover o acesso aos livros de Galeano hoje, no Brasil, seria uma façanha mais eficaz e bem mais efetiva do que certas "lives" que se ocupam apenas de "pixar" o nome do inominável que preside o nosso país. Os jovens de hoje mereceriam ter acesso às curtas histórias de Galeano, para se perceberem integrantes de um povo sofrido, sim, mas lutador, cabeça erguida, pensante e operante  como alguns, individualmente ou em coletivos, têm agido e procurado dialogar sobre o Brasil que queremos amanhã. Um amanhã cuja alvorada deve surgir sem mais tardar. 

------------------------------------------------------

Os 80 anos de Eduardo Galeano

       A vigência de um escritor comprometido


Por: Aram Aharonian

Tradução de: Vanise Rezende


No dia 3 de setembro de 1940 nascia em Montevideo o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. O autor de As veias abertas da América Latina,falecido em 13 de abril de 2015, estaria completando 80 anos. Considerado um dos mais importantes escritores da literatura latino-americana, seus trabalhos transcendem gêneros ortodoxos e combinam documentário, ficção, jornalismo, análise política e história.

Galeano, um sedutor da palavra, é considerado o mestre dos relatos curtos. Fundador da revista Crisis, (em Montevideu), autor de livros como Memória de fogo, ele foi preso e obrigado a abandonar o Uruguai em 1973 (período da ditadura militar), quando foi para a Argentina. Logo depois, em 1976, teve que exilar-se fugindo da ditadura. De consequência, seu libro, As veias abertas na América Latina foi proibido em boa parte da região.

A editora uruguaia Siglo XXI, que publicou todos os seus livros, anunciou que lançará em redes sociais a hashtag #Galeano, para convidar a partilhar seus textos. Estarão disponíveis os livros; Bocas del tempo, El fútbol a sol y sombra, El libro de los abrazos, Espejos, os três volumes de Memoria del fuego, Días y noches de amor y guerra, El cazador de historias e Los hijos de los días, entre otros.

Eduardo de América (Lapobre)

Eduardo Germán María assumiu o sobrenome materno Galeano, na assinatura, para não usar o paterno anglo-saxão, Hughes, mesmo se  usava o Gius para assinar seus cartuns. Frustrou-se como jogador de futebol, foi trabalhador, mensageiro, cartunista, jornalista e finalmente escritor, para “ajudar a resgatar as cores e a luz do arco-íris humano, algo mutilado por anos, séculos, milênios de racismo, machismo, guerras e muito mais. Sim, irmão, somos muito mais do que nos dizem.” (...)


Caminhante incansável pela Lapobre América, foi correspondente da Prensa Latina na Venezuela e, para não perder as praias de Montevidéu, hospedou-se no decadente Hotel La Alemania em Macuto, a cerca de 40 quilômetros de Caracas. Muitos anos depois, ao esquecer que quase morreu de malária nos trópicos (escreveu uma história sobre seu delírio), conseguira banhar-se novamente no Caribe, em frente ao mesmo hotel, que resistira à ocupação de 1999.

Seu amigo Luis Britto García conta que cada vez que a polícia ou o vírus ou os infartos atacavam Galeano, ele saía mais fortalecido. Os exílios consecutivos o separam da edição de Marcha y de Época (em Montevidéu) e Crisis, uma das revistas de repercussão continental que encerrou a ditadura argentina em 1973. No exílio em Barcelona, ​​as autoridades exigiram que ele tivesse um emprego para renovar o visto, mas não o deixavam trabalhar se não tivesse o visto renovado.

Campeão em exílios, Eduardo experimentou vários gêneros literários para conseguir que a plenitude de suas mensagens chegassem a todos. Conheceu e viveu com guerrilheiros mayas, mineiros bolivianos, e garimpeiros venezuelanos consciente de que dessa fragmentação iria nascer a totalidade no seu Memória de Fogo, mural no qual as partes se olham com o todo, feito de detalhes que resultam em leis gerais e análises ágeis como aforismos. Seu amigo Luís Britto García anima-se a dizer que ao tratar a história como uma novela emocionante e a mitologia indígena como notícia e denunciá-la como poesia, Galeano seguia cada vez mais propenso à antologia, porque tudo nele é “antologizável”.

Em “Memórias de Fogo” Galeano escreve: “Acho admirável a capacidade dos povos indígenas das Américas de perpetuar uma memória que foi queimada, punida, enforcada e desprezada por cinco séculos. E toda a humanidade tem que ser muito grata a ele, porque graças a essa memória teimosa sabemos que a terra pode ser sagrada, que fazemos parte da natureza, que a natureza não acaba conosco.

As veias abertas da América Latina” – o livro que Hugo Chávez deu a Barack Obama para que ele pudesse entender a América Latina triturava a barbárie americana no continente, o fervor gringo para apoiar ditaduras e genocídios e poderem realizar seus negócios. "Minha intenção era escrever um livro de economia política, mas não tive treinamento ou preparação suficiente", disse ele. Inclusive, e com humor, reconheceu que não pode ria lê-lo novamente porque desmaiaria: "Para mim essa prosa de esquerda tradicional é extremamente pesada e minha mente não tolera isso." Obviamente, a direita tentou usá-lo contra ele, mas conseguiu que levantar o interesse de muitos que ainda não o haviam lido. Seu livro “Mulheres” nos envenena de beleza e feminismo, com a ajuda de Helena Villagra a sonhadora, sua esposa há quatro décadas.

Eduardo era um grande ouvinte, o cacique Oreja Abierta, como ele próprio se definia. Sempre falou da e pela juventude, dos e para os indígenas, contra os narcoestados e o neoliberalismo, a favor da ecologia e da legalização das drogas. Ele falou contra o esquecimento e o resgate da memória para encontrar os caminhos do futuro comum. Mas ele também era um exilado político, do qual se absteve de fazer uma profissão. Saiu do Uruguai depois de ser preso pela ditadura, cruzou o Río de la Plata para morar na Argentina, mas – ameaçado de morte – teve que voltar novamente para a Espanha. Na Catalunha.

Em 1985 regressou a Montevideo, onde foi cofundador do semanário Brecha. Nesse mesmo ano obteve o Prêmio Stig Dagerman. Ao longo de sua vida recebeu diversos doutorados Honoris Causa de universidades de Cuba, El Salvador, México e Argentina. Em 2010 recebeu o Prêmio Manuel Vázquez Montalbán, na categoria Jornalismo Esportivo e em 2013 a Ordem Simón Rodríguez das mãos de Nicolás Maduro – Chávez não sobreviveu para entregá-la a ele, depois que ele recusara uma condecoração com o nome de Francisco de Miranda, “agente inglês”. (...)

Sempre do lado dos pobres, dos indignados, do seu ativismo social e do compromisso com os desprotegidos o levaram a Chiapas para conhecer de perto o Exército Zapatista de Libertação Nacional, experiência que acumulou ao longo de vários anos em diversos artigos, por exemplo, em A March universal (2001). “Quem fala do problema indígena terá que começar a reconhecer a solução indígena. Afinal, a resposta zapatista a cinco séculos de mascaramento, o desafio dessas máscaras que desmascaram, é tirar o esplêndido arco-íris que contém o México e dar esperança aos condenados à espera perpétua”. “Os indígenas, ao que parece, são apenas um problema para aqueles que lhes negam o direito de ser o que são e, portanto, negam a pluralidade nacional e negam o direito dos mexicanos de serem totalmente mexicanos sem as mutilações impostas pela tradição racista, que torna a alma anã e amputa as pernas”.

Em 2008, Galeano recebeu a distinção do Mercosul  o primeiro ilustre cidadão da sub-região  e fez um discurso inesquecível, no qual se disse um “patriota de vários países”. “Só estando juntos poderemos descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos treinou para o medo, a resignação e a solidão e que a cada dia nos ensina o desamor”, disse. (...)

Foi solidário com os palestinos ("Desde 1948 eles estão condenados à humilhação perpétua. Eles não podem nem respirar sem permissão. Eles perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Eles nem mesmo têm o direito de eleger seus governantes"), com os povos indígenas, os haitianos, os povos subjugados que lutam por seu futuro. E, também, com seus amigos, que soube espalhar pelas Américas e pelo mundo. Indignados, os lutadores da América Lapobre e do mundo perderam um de seus guias, uma de suas poucas referências intelectuais e políticas das últimas cinco décadas. E um amigo.

Dizia: “A identidade não é uma peça de museu, ainda na janela, mas a síntese sempre surpreendente das nossas contradições quotidianas. Nessa fé, fugitivo, creio. Acho que é a única fé confiável, pelo quanto se parece com o inseto humano, ferrado mas sagrado, e a louca aventura de viver no mundo (...) Afinal, somos o que fazemos para mudar quem somos dos medos nasce a coragem, e das dúvidas as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível e delírios, outra razão”.

Eduardo Edu, Gius, Dudi, Abu é hoje um legado de milhões de palavras, escritas em inúmeros livros, ditas em múltiplas falas, convertidas em texto, som e imagem, arrebatadas por milhares e milhares de jovens e adultos, homens e mulheres Insatisfeito por todo o planeta, nas entrevistas concedidas, em todas aquelas frases que assombram a Internet ... e que hoje, felizmente, as novas gerações procuram.

  “Este é um mundo violento e mentiroso, mas não podemos perder a esperança e o entusiasmo para mudá-lo ... a grandeza humana está nas pequenas coisas que se fazem diariamente, no dia-a-dia que os anônimos fazem sem saber o que fazem” – é assim que ainda o vemos.

-------------------------------------------

(*) Aram Aharonian é jornalista uruguaio, cientista da comunicação e Mestre em Integração. Fundador da Telesur, hoje preside a Fundação para a Integração da América Latina (FILA) e dirige o Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la) e Susrysurtv.

 

Crédito das imagens:

1. Galeano - www.arte.culturaculturaeatualidades.com.br.jpg

2. Velório de Galeano - Mujico visita Helena - divulgação

3. Joven leitor no YouTube - www.aviagendosargonautas.net.jpg

4. Galeano na Flip - 2009. Divulgação.

5. Galeano - www.escritores.org.index.jpg

6. Galeano  - www.brasil.espaís.com.jpg

 * As capas dos livos estão em divulgação nas respectivas editoras.


  Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário. 

SAÍDAS PARA O BRASIL - SUGESTÕES DO SOCIÓLOGO BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS

28 de agosto de 2020

 Um oportuno e importante artigo de Boaventura de Souza Santos digirido aos Movimentos Sociais, a nós cidadãos brasileiros e aos Partidos Políticos que precisam cooperar em defesa de um país para todos, na convivência demorática e na luta conjunta pela igualdade de direitos e da justiça social:

 "Apesar de muito dano irreversível ter sido feito, a saída consistirá em os brasileiros e as brasileiras sentirem política e psiquicamente que acordaram de um pesadelo, que estão vivos - apesar de tantos entes queridos perdidos - e que um novo dia nasce e um novo começo volta a ser possível."


Boaventura: em busca de saídas para o Brasil


Névoa do fascismo paira sobre o país: medo, apatia e um presidente com chances de se reeleger. Para dissipá-la, será preciso recuperar a efervescência do campo popular e pressionar o Judiciário, para punir crimes do clã Bolsonaro e da Lava Jato

 

Em: OUTRASPALAVRAS/OUTRA POLÍTICA

Por: Boaventura de Sousa Santos

    

O Brasil está numa encruzilhada existencial de uma dimensão difícil de imaginar. É o país do mundo com um dos maiores desastres humanitários causados pela pandemia. O Brasil tem cerca de 2,8% da população mundial, mas tem 13,9% das mortes por covid-19.

É o país que viveu dois graves atentados à democracia e ao primado do direito num curto espaço de tempo: o golpe jurídico-político contra a Presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a grotesca manipulação judicial-política que levou à condenação sem provas do ex-presidente Lula da Silva, em 2018, até hoje o mais popular presidente da história do Brasil.

É o país governado por um presidente, Jair Bolsonaro, que ganhou as eleições depois de o seu rival ter sido ilegalmente neutralizado e, mesmo assim, com a ajuda de uma avassaladora avalanche de notícias falsas. É o país governado por um presidente não só manifestamente incompetente para exercer o cargo, como também pró-fascista (defensor da ditadura militar, que governou o país entre 1964 e 1985, e da tortura de opositores democráticos, e que chega a pôr sob vigilância defensores dos direitos humanos, por alegadas atividades…antifascistas); é ainda cúmplice ativo do genocídio em curso no Brasil contra a população indígena e contra a população em geral.

É o único governante do mundo que continua a negar a gravidade da situação pandêmica e recusa declarar luto nacional pela morte de tantos milhares de brasileiros. Um governante que faz propaganda de um produto sem comprovação científica da sua eficácia, a cloroquina, produzida por um empresário bolsonarista, a quem o governo adquiriu um estoque suficiente para abastecer o país durante 18 anos, a um preço seis vezes superior ao preço porque comprou o mesmo medicamento no ano passado.

É o país onde os grandes meios de comunicação mostraram ao longo dos anos um total desprezo pelas regras de convivência democrática.

É o país onde os EUA puderam infiltrar o sistema judicial com mais facilidade e eficácia, para fazer alinhar a política externa do país com os interesses norte-americanos no continente e para destruir o tecido econômico do país em algumas áreas concorrentes com as empresas norte-americanas (construção civil, aeronáutica e combustíveis fósseis).

É, finalmente, o país onde, apesar de tudo isto, e no aparente funcionamento normal das instituições democráticas, a popularidade do presidente, que desceu bastante nos primeiros meses da pandemia, volta a crescer e o posiciona para um segundo mandato a partir de 2022.

Perante isto, a única saída possível para o Brasil é, no mais tardar, em 2022 poder pôr fim democraticamente ao pesadelo infernal do bolsonarismo.

Entretanto, e apesar de muito dano irreversível ter sido feito, a saída consistirá em os brasileiros e as brasileiras sentirem política e psiquicamente que acordaram de um pesadelo, que estão vivos - apesar de tantos entes queridos perdidos - e que um novo dia nasce e um novo começo volta a ser possível.

Quais são as condições para isso?

Primeiro, o presidente e o seu clã devem ser investigados seriamente e, por tudo o que se conhece, se o forem, concluir-se-á que há indícios suficientes para serem acusados, julgados e presos. Aliás, no plano internacional, já foram apresentadas várias queixas-crime no Tribunal Penal Internacional de Haia, contra a pessoa do Presidente Bolsonaro - pelo modo como conduziu o país durante a crise pandêmica, queixas por crime contra a humanidade e, no caso dos povos indígenas, por genocídio, o mais grave deste tipo de crimes.

Segundo, os artífices da grave degradação da democracia nos últimos anos, os juízes e procuradores do Ministério Público que conduziram as “investigações” a partir de Curitiba, cometeram tantos e tais atropelos que devem ser não só erradicados da função judicial que desonraram, como devem ser julgados, com respeito por todas as garantias processuais, as mesmas que eles negaram às vítimas da sua macabra manipulação. Particularmente Sérgio Moro, o candidato dos EUA para as eleições presidenciais de 2022, deve ser definitivamente afastado da vida política. Como foi possível que um medíocre juiz federal de primeira instância assumisse jurisdição nacional e se arrogasse o poder de violar as mais elementares hierarquias do sistema judicial? Que ninguém tenha pena dele, pois os EUA encontrarão meio de o compensar pelos serviços prestados, nomeadamente com um cargo internacional.

Terceiro, o ex-presidente Lula da Silva deve quanto antes recuperar em pleno os seus direitos políticos em face da diabólica armadilha judicial-política de que foi vítima, cujos mais grotescos traços começam a ser conhecidos.

Quarto, as forças políticas de esquerda precisam se convencer de que estão perante uma situação política excepcional a exigir comportamentos excepcionais e que discutir neste momento se o PSB (Partido Socialista Brasileiro) ou o PDT (Partido Democrático Trabalhista) são ou não de esquerda ou furtar-se a articulações com um amplo leque de forças democráticas - com vista às próximas lutas eleitorais - são atos de suicídio político que o país se encarregará de lhes lembrar nos próximos anos.

Quinto, os movimentos sociais e organizações da sociedade civil têm de acordar da sonolência inquietante que lhes foi incutida pela vida relativamente fácil que tiveram durante os governos de Lula da Silva. O país do Fórum Social Mundial é hoje um embaraço para todos os democratas e ativistas do mundo que viram, no Brasil, no início da década de 2000, o país líder de uma nova época de mobilizações sociais incisivas e pacíficas guiadas pela ideia inaugural de que “um outro mundo é possível”.

Estas são as principais condições.

As três primeiras estão nas mãos do poder judicial do Brasil. Há indícios de que os tribunais superiores se deram conta de que o futuro da democracia depende em boa medida deles. Cometeram muitos erros no passado recente, foram lassos, se não mesmo cúmplices, ante flagrantes violações do garantismo processual que é a razão de ser do sistema judicial numa democracia. Mas há sinais de que serão a primeira instituição a acordar do pesadelo bolsonarista, e não há neste momento razões para duvidar de que estarão à altura do encargo histórico que lhes cabe. Certamente já se deram conta de que serão as próximas vítimas, se a ilegalidade continuar à solta e impune. Não devem deixar-se intimidar por grupelhos extremistas nem pelo gabinete do ódio. Têm alguns bons exemplos, no continente, de que os tribunais sabem por vezes assumir a responsabilidade que lhes cabe num dado momento histórico. Afinal, quem poderia imaginar que o mais poderoso político da Colômbia, Álvaro Uribe, senador, ex-presidente do país, responsável impune por muitos crimes e pela destruição dos acordos de paz com a guerrilha, fosse posto em detenção domiciliária para não obstruir a justiça que o vai julgar por uma decisão unânime do tribunal supremo?

---------------------------------

Fonte da postagem:  https://outraspalavras.net/outrapolitica/boaventura-em-busca-de-saidas-para-o-brasil/   

Publicado em: 13/08/2020


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS é Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.


Crédito das Imagens

1. Imagem abertura artigo - reprodução foto do artigo.

2. Imagem de manifestação pró-Lula - divulgação 

3. Solenidade comemorativa Dia do Indio na Câmara dos Deputados - Foto de Mario Vilela - Funai - em 16.04.2015

4. https://www.jota.info/stf/do-supremo/stf/2020

5. Foto de Boaventura de Souza Santos - reprodução


Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário. 

Posts + Lidos

Desenho de AlternativoBrasil e-studio