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AMIZADE - AMOR QUE VAI SEM ESPERAR A VOLTA

17 de janeiro de 2018

Chegou ao meu celular um agradecimento aos amigos, lembrados como "pessoas que deixam um pouquinho de si e carregam um bocadinho de nós". 

Já escrevi muito, neste espaço, sobre a amizade. E gosto de ver a amizade como um novo sacramento que nos ampara no enfrentamento da vida, do jeito que ela se apresentar.  

A amizade nos permite dividir, com outros, os momentos mais difíceis de suportar sozinhos. E nos a multiplicar, de forma prazerosa, a alegria dos dias de regozijo, e o bem-estar do afeto profundo por pessoas que antes não conhecíamos. 

Você já notou como  nos momentos de tristeza  só temos vontade de ficar a  sós, e só nos abrimos à companhia dos amigos?


O amigo pode ser  o pai ou a mãe, um filho ou uma filha, um irmão ou irmã, um colega de trabalho... alguém que conheci no elevador do condomínio, numa viagem, na universidade, na fila do ônibus, ou na festa de outro amigo. E assim se tornam  pessoas especiais, a quem o  o tempo oferece — e a nós também — a liberdade e o direito de partilhar a vida. 

Manifestar a gratidão pela amizade é reconhecê-la dom maior, é agradecer à vida por nos fazer experimentá-la e sermos dignos dela. 

Mas, é imprescindível  reconhecer que a amizade é uma das faces do amor. Portanto, é verdadeira quando somos estimulados tendo recebido, ou não, a atenção de afeto do outro — a lhe oferecer a nossa atenção, o nosso afeto, o dom que transborda, sem jamais fazer medições de nenhuma espécie.

O amigo é alguém de quem se reconhece a presença fraterna, atenciosa, cuidadosa — e, ao mesmo tempo, com o mesmo dinâmico movimento também nos leva a fazer gestos concretos de comunhão com a sua dor, e de partilha das alegrias e dos bens da vida.  

Nas minhas lembranças da exuberante época da música popular brasileira, Gilberto Gil produziu "Grão", Milton nos deliciou com "Maria" e cantou: "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves"... Muitos outros emprestaram o dom da música para cantar essa dádiva rara da vida, que é o amor configurado em troca comum do bem-querer. 


Leonardo Boof se referiu à dádiva do amor fraterno e amigo, chamando-a "carícia do afeto". E quando Jesus de Nazaré falava desse movimento amoroso pelo outro, dizia que deveria ser igual ao amor que se tem por si mesmo.

Há que se aprender a não ficar à espera que alguém cuide de mim, do meu bem-estar, da minha saúde, das minhas decepções. O amor requer que eu tenha, como prioridade, o cuidado comigo mesmo.

O que acontece, então? Eu cuido de mim para continuar a ser capaz de ensejar uma existência agradável ao outro. O que está longe de ser um ato egoísta de exclusão, mas de cuidado comigo, em o benefício daqueles que amo. 

Desse modo a amizade se torna uma atitude de amor que vai, sem esperar a volta. E não só. Como ensinava Jesus, o Nazareno  fazendo de modo que a  a mão direita não veja o que a esquerda realiza. 


Assim, ser amigo não é, simplesmente, esforçar-se para retribuir o favor ou o benefício que alguém me fez — este é um digno gesto de "civilidade", e chama-se gratidão. Ser amigo, é me colocar na vida como um dom para o outro, assim como ele é, seja lá o que me fez ou deixou de fazer. E em qualquer circunstância da vida. 

Ao experimentar a amizade,  aprofundamos, em nós, o necessário aprendizado do amor fraterno, alargado a todos, e os gestos pessoais e sociais da compaixão.  

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*Texto de Vanise Rezende

As imagens são exclusivas do "Espaço Poese".

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com  




  









APRENDER UM NOVO JEITO DE VIVER

7 de janeiro de 2018


Volto a falar de Ano Novo, enquanto 2018 escorrega ligeiro pelas horas dos dias que talvez já voltaram a ser como o viver das horas comuns.

Pode ser que a casa tenha sido revestida de novas cores, como se costuma fazer ou é possível para alguns. Talvez foi renovado o guarda-roupa com novas peças, além de  bolsas e sapatos. E, nas varandas e terraços, terão chegado lindas plantas para alegrar a vida e colorir o ambiente.  



Mas, resta uma questão: 

O que fizemos de novo por nós, e pelos que estão ao nosso redor?


O costume de tornar a casa mais limpa e bonita, no Ano Novo, poderia também nos atiçar o desejo de fazer algo para renovar a nós mesmos. O empenho para revestir a casa de novidades, não seria o nosso desejo de abrigar gente nova?

Como primeiro passo eu poderia me liberar dos acúmulos inúteis no meu guarda roupa, na minha sapateira, nas gavetas e caixas dos meus armários.

Todos estamos de acordo que não serve acumular papéis. E há muitos que já aprenderam a rasgá-los e separá-los para serem aproveitados no lixo dos reciclados. Mas, que tal se também pudéssemos aprender a revisar as próprias roupas, bolsas e sapatos? Roupas que não se veste mais, que foram usadas por muito tempo e que são esquecidas e restam acumuladas nos armários.  

Nos dias de hoje, - com tantas pessoas empobrecidas e desempregadas em nosso país - seria uma ato de justiça promover a repartição daquilo que nos sobra, que não nos serve mais. 

Para que me serve o acúmulo de peças – como se fosse um velho museu de nós mesmos – enquanto outras pessoas, que não têm o que tenho, estão precisando delas como coisas indispensáveis? 

Esta é uma reflexão a ser feita, pensando-se no gesto necessário de construir leveza ao nosso redor, em busca de nos aprofundar no essencial, naquilo “que as traças não roem”.

Ao nos esforçar para manter a casa agradável,  sentiremos nos renovar com atitudes mais justas e fraternas, com gestos de amorosa  atenção pelo outro. Assim, tornamos a nossa "casa" interior mais leve e acolhedora.

   
    
  
  Também os armários da cozinha podem estar socados de utensílios que não servem para o próprio uso, mas estão faltando a outros.

c  O “quarto de despejo” que muitos usam em casa, talvez seja um modo indevido de acumular, e de não se desfazer das coisas que lhes sobram. Coisas que ficam ajuntadas, pedindo socorro em nome daqueles que precisariam recebê-las. 

Tudo isso nos instiga a recordar que há sempre alguém à espera do meu dom.

Há pessoas simples que passam diante do nosso edifício ou casa, com uma carroça cheia de quinquilharias... Vão carregando as sobras, pelas ruas da cidade, e as levam para revender. O resultado é um pouco mais de bem-estar para os seus, com o dinheiro que arrecadam. E outras pessoas têm a possibilidade de adquirir coisas mais baratas, com a revenda do que foi doado. Os porteiros sabem muito bem o dia em que o carroceiro passa em busca das nossas sobras. 

Se não for o carroceiro, há organizações que pegam, em nossas casas, móveis e objetos ainda usáveis – mesmo em condição de reforma ou conserto  como fazem os Trapeiros de Emaus. E tudo é repassado para o uso dos que precisam.

Feito isto, restam outras questões para os primeiros dias do ano.

 Como fazer para olhar a minha vida, a partir de hoje, com um olhar  energizado de esperança?
 O que devo aprender para superar os meus limites e tomar decisões que me levem a aprender a viver melhor? 
 Que fazer para não desistir do curso que ainda não fiz e para tomar atitudes concretas em benefício da paz comigo mesmo e com os outros? 
 Como posso iniciar a colaborar com outras pessoa, que não receberam o que recebi da vida, e que teriam o direito de alcançar a sua dignidade e de realizar o seu sonho?


O bem-estar da minha vida, a minha saúde emocional, é proporcional ao que sou capaz de fazer para o bem-estar dos que me estão próximos. 

Não me refiro a grandes projetos sociais, mas a atitudes de mudança  pessoal que ajudarão a vitalizar, as  minhas relações em casa, na família e no trabalho.





Ajudaria, também, iniciar fazendo um exame sincero do que há por fazer, e dar os primeiros novos passos. E realizar o que sou capaz agora. O que é possível agora. O que me ocorre agora, mesmo que seja uma pequena ação em favor de alguém. 
Por exemplo: de um dos meus dependentes, no trabalho, de uma pessoa amiga, da minha empregada doméstica, do  motorista que está a meu serviço, do meu colega de profissão, de um dos meus filhos, do meu pai ou da minha mãe.  

Não falo de sermos bonzinhos, de cuidar "dos pobrezinhos, coitados"... Não se trata de ter pena, mas doar, partilhar, cooperar. E tratar o outro com justiça, atenção e cuidado. O cuidado que vai além do dever, sem enganação, e que é sugerido pela consciência dos direitos de cada um e da fraterna convivência. E, por que não dizer: do amor que me leva a dar, sem esperar retorno. 


Refiro-me às relações sinceras, às atitudes carregadas da convicção de que somos todos irmãos. Qualquer que seja a nossa crença. 

Não é justo, viver achando que uns têm têm sorte na vida ou se esforçaram para conseguir o que queriam, e que os outros foram jogados na vida para servirem e serem submissos.

O que há na sociedade atual é uma imensa desigualdade. Uma uma injusta distribuição de bens. É a grade escassez de solidariedade, de um olhar fraterno sobre o outro, sem os julgamentos que aprendemos e que não gostaríamos que fizessem de nós. Há uma urgente necessidade de se reconstruir os laços fraternos entre as pessoas, e não apenas entre os iguais e os que julgo merecedores.  

Um novo passo  aquele que agora posso dar  me levará a conseguir coisas impensadas, como, por exemplo, aprender a sair da minha tristeza, e dos dias que me deixam depressivo, pois estarei aprendendo a amar. O gesto do amor reconstrói o tecido da paz e da fraternização entre as pessoas. E não é um amor de sentimentos, mas um amor de fato. 

Sem esquecer que, para poder ter, preciso aprender a dar, para que eu seja ouvido preciso aprender a escutar, para que eu seja perdoado também preciso perdoar, para aliviar a minha dor preciso buscar, com sinceridade – dentro e fora de mim – o que posso fazer agora pela dor dos outros, que talvez precisem mais do que eu.

O Ano Novo é uma excelente ocasião para que eu comece a me sentir alegre, um pouco que seja... Mesmo quando o entorno é triste, o país segue em derrocada, e seja necessário lutar para reconstruir tudo de novo. Pois o tecido da Paz é feito de atos sinceros de amor.  Aprendendo, no dia a dia, um novo jeito de viver! 

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Texto de: Vanise Rezende

Crédito das Imagens:  www. canstockphoto.com.br

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FELIZ ANO NOVO!!!

2 de janeiro de 2018

Já começamos a ver esvair-se, no dia a dia, a contagem regressiva do tempo de 2018. Voltamos aos dias comuns da vida, embora a nossa expectativa ainda é de Esperança.

Tivemos as comemorações do Natal e do Réveillon, cada um com as possibilidades que  teve de celebrar. É para esses que escrevo. Porque bem sei que as maiorias esquecidas, empobrecidas, vivendo à margem do que nos parece ser a normalidade do viver, não terão acesso a essas páginas.


Natal e Ano Novo são comemorações das minorias das cidades e das populações ocidentais. Entre esses, alguns tiveram alegres momentos com aqueles que amam: os familiares, os amigos ou os colegas de trabalho. Outros, por escolha, preferiram comemorar sozinhos. Todos, assim espero, se perguntando o que virá no futuro. E o que será importante realizar para torná-lo melhor.

As horas desses primeiros dias pareceram saídas de um relógio novinho, disposto a registrar horas abençoadas, ricas de humanidade. 

E, quiçá, um sentimento de humanidade que exige um verdadeiro empenho, para ver  nascer e educar pessoas que possam construir algo mais sensato e mais belo do que fomos capazes de fazer, até agora.  

Bem sabemos que o novo ano não surgiu do nada. Nasceu de muitas páginas viradas que deixaram marcas, lembranças, saudades, e histórias pessoais e políticas que ficarão em nossa memória. As últimas delas, aqui no Brasil, desaparecerão nas cinzas tenebrosas do passado. E serão lançadas no fundo do baú, deixadas no esquecimento do que já não é e não voltará a ser jamais.

Hoje, quando este primeiro dia comum de 2018 madrugou, trazendo os raios de sol ao chão da minha varanda, não vi apenas o fulgor do surgimento de um novo dia. Para além dos arranha-céus que me fecham a visão expandida do céu, senti que eram as primeiras horas de um novo tempo ao qual preciso me preparar.




Nós, viventes, – diferentemente dos satélites e dos astros que se movimentam em vaivém e sempre retornam, após o seu giro em volta do sol,  temos a necessidade de parar um pouco, mover o nosso olhar interior para dentro de nós e buscar, no profundo, a expressão maior do nosso brilho, e das nossas pequenas alegrias. 

É a incrível e necessária capacidade que temos de recomeçar, enquanto o sol é o sol, as estrelas são estrelas, a lua brilha como a única mulher celeste a nos encantar, e os satélites nos acenam no seu mistério de vidas que gostaríamos de conhecer.


Nesses momentos, percebo que a nossa paz pode assentar-se ao lado das sérias preocupações que nos chegam, dia após dia: nossos pequenos medos, as situações e as pessoas que nos fazem sofrer, a discriminação, o racismo e a violência.  E, olhando melhor, o afeto e o cuidado daqueles com quem convivemos. 

Resta, a alguns, a busca do perdão e da paz para a sua própria história, aquela que somente nós conhecemos. Parece-me que esta é uma sensação especial, apenas para os maiores de trinta anos. Os outros, que ainda não chegaram lá, têm a graça e o conforto de quem segue os seus sonhos e acredita poder alcançá-los todos, no correr da vida.





Assim, vamos tecendo e ligando os retalhos do tempo, nas horas que correm velozes, reconstruindo o delicado tecido do viver e do amar. 


Em cada encontro fortuito, buscamos reinventar a atenção do afeto, o cuidado do amor, e as relações que fazem parte da vida que escolhemos.




Para muitos, é a alegria de estar com os filhos e as pessoas que se ama. A  sensação exuberante de iniciar uma nova experiência de amor. A força de começar a viver de forma autônoma. A festa pelo trabalho encontrado. O encontro com um amigo que há muito não se via...

Entendi, por experiência, que não é novidade a mudança periódica dos anos, dos meses, das semanas, dos dias, das horas  e dos momentos que costuram a arte de viver. Na caminhada,  somos nós os únicos que podemos mudar e renovar o caminho e inventar as veredas que nos podem salvar. Esforçando-nos para suscitar o novo dentro de nós, e vislumbrando os bons frutos do nosso empenho cotidiano. Pois a vida é feita de instantes. De um só momento. Depois outro... Depois outro...

A energia do momento é tirada das raízes viçosas das relações que estabelecemos com as pessoas, aqueles que amamos, aqueles de que amorosamente cuidam de nós e aqueles que precisam da nosso atenção e cuidado.  

Bom seria, que nos perguntássemos dia após dia, escutando lá dentro, e ouvindo com maior atenção:

O que posso fazer para cooperar na construção da paz? 

Quando se consegue descobrir essa chama, e se toma uma atitude concreta, simples que seja, já é possível estar mais contente com a vida.  

E não esquecer que – se 2018 chegou novinho em folha – nós somos os mesmos. E seremos sempre os mesmos, embora, se quisermos, em ritmo permanente de mudança.




O importante é o aprendizado de ser dom para aqueles que amamos. Convictos de que o que recebi a mais ou melhor do que outros, me foi dado para ser doado. 

Se não me me esforço para me doar, risco de perder a energia que me move para a vida.

Enquanto me ocupo de fazer alguém mais feliz, me sentirei um ser realizado. E capaz de ouvir mais, dialogar mais, apoiar mais, com=viver mais, na simplicidade do amor.






Essa energia em movimento - que para alguns significa a presença do Inefável, da Vida que me gerou e me mantém vivo/viva - me ajudará a ser melhor do que fui e quero ser. 





Não seria este o sentido que queríamos dar quando dissemos e escrevemos, tantas vezes, há dias atrás:
                                          
                                            Feliz ano novo!                                                             
                                              
                                                  Feliz ano novo! 
                                                                                 
                                                                             Feliz ano novo!


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Texto de: Vanise Rezende

Crédito das imagens:


Imagem nº 7 - www.youtube.com
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O NATAL É HOJE, É AGORA!

17 de dezembro de 2017



        Aos caros leitores 
        do Espaço Poese
        Os meus votos de que 
        Esta mensagem
        Chegue num dia 
        De alegria,
        Na sua profundez.

        E chegue para lembrar
        Que o Natal é hoje.
        O Natal é agora!
        Nesta vida que mistura
        Alegrias com pesares
        Bem-querer com 
        Discriminação
        Ilusão com realidade.

       Resta-nos a Esperança 
       De que em 2018 
       Tenhamos mais encontros 
       Entre nossas diferenças! 
       
       E mais conversas...
       Para nos aproximar mais
       E para ampliar mais
       O nosso olhar 
       E o nosso abraço 
       Aos simples e pobres que nos cercam.


E que as bênçãos 
Daquele que sustenta 
A nossa fé no Amor
Inominável, 
O fio de Luz que Encontramos 
Na nossa profundeza,
E que se chama
Orixá, Iemanjá, 
A Senhora dos Mares,
A Mãe Terra,
Alá, Maomé, 
Aquele que está por vir, 
O Menino, tão simples,
Filho de José e de Maria, 
De quem hoje é Natal!








Almejo à nossa vida
Esperança e Paz,
e uma irrestrita fé no Amor!


Aprendendo a perdoar,
serenos e leves, 
setenta vezes sete.


E a multiplicar e repartir a alegria,
pois o bem e os bens da nossa vida
são como as águas dos grandes rios...
Água corrente, fresca e contínua,
que flui, depois passa, e se faz Mar!


                                                            
Aprendendo,
Como nos pede o coração,
A partilhar os bens
Que recebemos a mais...  
Para aliviar a dor
Dos necessitados.

                 Assim poderemos viver 
                 Quase contentes
                 Diante do grande mistério 
                 Da dor humana.

                Que os gritos dos ignorados e injustiçados
                E o infame espetáculo da desarmonia global
                 - que evade a alegria de todos nós -
                Encontre em nós um rebate de indignação

                        E que não esqueçamos a força dos justos,
                        dos simples de coração,
                        dos que padecem fome e sede de tudo,
                        E dos que não perdem a Esperança!     

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Texto de: Vanise Rezende                                                                                                                
Créditos das Imagens:

1. Casal com criança - Foto de Tanyxa.333 - In: Depositofotos.
2. Cena do Natal de Jesus -  Imagens do artesanato do Nordeste do Brasil. Foto de Vanise Rezende.
3. Mulher e Pássaro - Abelardo da Hora - reprodução de foto realizada em uma mostra em Recife-PE.

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O BRASIL DE CARA CONTRA O MURO

12 de dezembro de 2017

                                       
Em um dos momentos de crise mais complexos da sua história, o Brasil sofre com problemas que alimentam ainda mais o difícil cenário já instalado. A falta de disposição ao diálogo, a busca por culpados e a transformação da política em algo menor, supostamente sem importância para a vida coletiva e individual, torna nebuloso ou inviável a possibilidade de um futuro esperançoso para o país. Soluções simplistas e superficiais ganham notoriedade no debate nacional sobre a sociedade, a política e a economia. Para entender como todos esses aspectos podem impactar e interferir na vida e na saúde das pessoas, conversamos com Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular de psicanálise e psicopatologia do departamento de Psicologia Clínica da USP. Com tese sobre as patologias de linguagem, ele aponta a reversão de perspectiva de futuro como um dos principais problemas que trouxe o Brasil para o labirinto em que se encontra.
Abaixo, confira a entrevista completa.
Davi Carvalho: Existe uma definição padrão para o que se entende por saúde mental?

Christian Dunker - Não trabalhamos com uma espécie de “padrão ouro” do que seria o perfil de normalidade. Ao contrário do que podemos pensar em relação ao corpo humano, ao organismo, que tem uma relação funcional entre os sistemas. A saúde mental se define muito mais pela capacidade de colocar-se em conflito, suportar seus próprios desvios, criar anomalias e conviver com o fato de que normalidade é uma invenção dos nossos desejos de adequação e conformidade.

Talvez, essa pergunta poderia ser substituída por: o que é uma vida bem vivida? Uma vida realizada em seus próprios termos? Para isso temos alguns critérios. Por exemplo, reconhecer e fazer reconhecer seus desejos, a capacidade de criar ideais e suportar suas desilusões, e a consequência delirante por trás de aspirações de independência e autonomia. Tudo isso forma os litorais da condição trágica da experiência humana. Reconhecer as condições que permitem eleger fins que se deseja, tanto do ponto de vista da vida, que foi individualizada, quanto da história que tornou possível essa vida.


- O cenário que o Brasil vive, de crises que se retroalimentam, que parece não apontar para um fim, torna as pessoas mais vulneráveis?
CD: Sim! No fundo, a vulnerabilidade é uma palavra que modaliza uma atitude importante, que é a capacidade de se deixar afetar e ser afetado. Nos últimos anos temos vivido um aumento de conflitos sociais, mas de certa forma eles ocorrem pela maior visibilidade de contradições antes silenciadas ou suprimidas.

Mas, não é porque temos conflitos que sofremos.  Há conflitos que têm uma dinâmica produtiva, por exemplo, os que envolvem mudança de posição de classe, seja pela ascensão, seja pelo medo de queda, a possibilidade de que as relações se alterem é extremamente produtiva, mesmo que dolorosa.
Conflitos que atravessam a criação de filhos são outro exemplo de como a arte política nos é exigida no cotidiano: uma educação monotemática, unidimensional e baseada em valores certos e indiscutidos, ou seja, sem conflito, é uma educação em geral ruim ou muito empobrecedora.  A conquista cognitiva é outro exemplo, o desafio do conhecimento envolve a construção de conflitos produtivos, ela não acontece em meio ao conforto e a segurança. E nem por isso somos dominados pelo sofrimento que eles impõem.
Qual a diferença então?  Temos uma espécie de arco de destino que sanciona ou rejeita certas gramáticas de conflito, que valoriza ou desacredita outras gramáticas. Ou seja, o que determina a valência política do sofrimento é o saber sobre o conflito, é a nossa teoria da transformação que, por exemplo, lê o sofrimento como sacrifício justo, como caminho para a redenção ou como iniquidade intolerável. A partir desta gramática de reconhecimento podemos acreditar ou nos demitir dos meios para enfrentá-los. Quando a maioria dos eleitores vota nulo, branco ou se abstém, isso significa que nossa teoria da transformação não reconhece mais o sistema partidário representativo, tal qual ele se apresenta, como meio legítimo para lidar com o sofrimento que nos toma e com os conflitos que o subjazem.
- O que seria essa teoria?
Tivemos uma mudança social significativa, de pessoas que saíram da condição de miserabilidade e formaram uma nova classe trabalhadora ou nova classe média. Junto com isso aumentou brutalmente o acesso à vida digital e suas redes sociais, com seus blogs e com seus youtubers, com seu jornalismo alternativo. Relações históricas de ambiguidade e exercício de poder, como a que se via com os empregados domésticos, com os gêneros e com a monocultura discursiva, se desequilibraram.

A vida em forma de condomínio havia organizado nossos ideais, mas ela não servia mais como uma boa teoria da transformação, baseada no medo e na inveja como afetos políticos dominantes. O Brasil viu florescer um novo tipo de religiosidade, neopentecostal, com uma crença prática no sucesso e um saber bem definido sobre as modalidades de ascensão social, prosperidade e prestígio. A judicialização da Saúde, da Educação e da política abriram espaço para um novo tipo de apropriação simbólica da justiça. 

Tudo isso acontecendo levanta o espírito nacional das promessas e esperanças. Em parte, elas nos decepcionaram porque se cumpriram, mas em vez do paraíso elas só nos levaram à descoberta de um universo completamente novo de problemas.

O tamanho do mundo se expandiu. Ideais mais simples tornam-se insuficientes para lidar com este tipo de abertura, nossas teorias sobre a transformação entraram em colapso. Quando isso acontece saímos da lógica na qual luto para fazer-me reconhecer pelo meu desejo, cuja lei se concentra neste saber sobre a transformação. E regredimos para a contagem dos amigos e inimigos, para a detecção de quem somos “nós” e quem são “eles”.  Quando nossos sonhos se esgotam, em vez de o conflito nos orientar para a ação, seja ação de transformar o mundo seja o esforço de transformar a nós mesmos, isso se manifesta em patologias sociais, intolerância, desrespeito, crise ou desestabilização das referências simbólica de autoridade.
Quando a relação entre o nosso sofrimento e o nosso saber sobre ele se desfaz, isso começa a produzir sintomas, efeitos massivos, generalizados numa capilaridade que tem toda chance de afetar, sistemicamente, nossas formas de vida definidas por uma certa relação entre desejo, linguagem e trabalho. Se o conflito não evolui produtivamente, começa a gerar confrontações com o seu vizinho, com a sua sombra, com seus inimigos imaginários.

A tensão social que não gera transformação, mas uma espécie de impasse, porque a minha teoria da transformação implica que a do outro tem que ser eliminada. O problema passa a ter um diagnóstico simples demais, simples e malthusiano: tem gente demais no mundo. Tem alguém que está gozando um pouco mais que eu. A felicidade que me falta pode ser corrigida distribuindo infelicidade para os outros, negando-lhes reconhecimento, cidadania ou pertinência simbólica. São respostas muito simples, respostas que polarizam.

Especificamente sobre o Brasil, paramos de sonhar com o futuro que queríamos para nossos filhos, especificamente com os massivos investimentos em Educação que seriam necessários para isso. Paramos de nos preocupar com o desenvolvimento da empresa e começamos a pensar apenas no próximo quarter, em produzir um bonito balanço para os acionistas. Paramos de nos preocupar com a ciência e nos dedicamos a produzir papers que ninguém lê, para fazer pontos no currículo Lattes. Paramos de nos preocupar com o sistema político e nos importamos apenas com quem vai ganhar as próximas eleições. Tudo isso é simplesmente corrupção, corrupção branca de nosso compromisso com o desejo.

Paramos realmente de nos engajar no futuro com o qual queremos nos fidelizar e a discussão passou a ser quem é quem. Ricos e pobres, negros e brancos, mulheres e homens, direita e esquerda.

Primeiro vamos saber quem você é, depois pensamos se dá para fazer algo juntos, finalmente depois disso podemos pensar em escutar o que você diz. Aqui, a palavra é decisiva para inverter esta crise de identidade que tomou conta do país. Primeiro vem a palavra, depois veremos quem você é. O sofrimento identitário é uma armadilha, pois se há identidades que são sistematicamente silenciadas, tornadas invisíveis e tratadas como zumbis, também é preciso lembrar que quando deposito a causa do meu sofrimento em quem eu sou, e não consigo transformar quem eu sou, a transformação possível vai ser no choque com o outro, pelo ódio ao outro, pela identidade do outro. É sempre muito mais fácil suturar sua crise de identidade reforçando a identidade maléfica do outro.

- Aí se cruzam política, economia, sociedade, indivíduos …



CD: Há poucos anos tinha-se um arco de futuro, uma expectativa ou esperança.  Uma hora você bate a cara contra o muro. Conforme você se aproxima desse muro ele se projeta para um novo horizonte, se isso não acontece ocorre essa mutação do saber que organiza nossa relação com o sofrimento. Ora, se não tem futuro, não é só que o passado não importa, mas você destrói o verdadeiro presente. De certa maneira, isso também é um processo global, é um processo neoliberal. Viver sem pensar no próximo capítulo. Reduzir o horizonte, aumentar o tamanho do eu e diminuir o tamanho do mundo. Isso está presente em processos como políticas públicas, que são projetos para se pensar 20, 30 anos. Em vez disso inventamos esta imbecilidade da PEC 241 e o congelamento preventivo do pior. A aceitação de que não conseguimos conter nossa voracidade para devorar o futuro, nos faz assassiná-lo já.  Ao fazer isso, cria-se uma cadeia de consequências que gera pessoas com atitudes mais predatórias, imediatistas, mais egoístas.

Não é o triunfo do individualismo, como uma certa tradição liberal quer nos fazer crer, mas o triunfo dos grupos organizados, com maior poder de pressão dentro do governo, que poderão “amassar” os desperdiçadores de dinheiro público: Educação, Cultura, Saúde, Direitos Humanos.  Tudo isso vai ser sentido como uma patologia do individualismo, a patologia pela qual eu só posso sofrer como um indivíduo, só posso sofrer na “forma indivíduo”. Se formos fazer valer Thomas Hobbes, e sua guerra de todos contra todos, eu vou me dar mal, se eu não for capaz de instrumentalizar a lei e o recurso que ela legitima, que não é só de coibir a violência de quem transgride a lei, mas de praticar a violência em nome da lei. O que os estudantes das escolas ocupadas enfrentaram, e isso foi só o começo da conversa, ou melhor da falta de conversa.

- Mas para uma certa visão de mundo essa atitude é funcional…
CD: Essa atitude, que era a forma clássica do liberalismo lidar com o sofrimento, ou seja, proteger as relações, as pessoas, os trabalhadores porque isso prejudica a produção. E quando prejudica demais, o Estado precisa intervir. Há um certo limite político de quanto sofrimento podemos aguentar. Esta política vai sendo substituída, como aconteceu no Brasil, de 2014 para cá, por uma concepção neoliberal que se especializa em instrumentalizar o sofrimento. Explorar pessoas com jornadas de trabalho além do exaustivo, medicalizar a infância, induzir o sofrimento entre equipes para aumentar a competição, instalar gestores interessados em extrair mais valor de mais sofrimento. E aquele sofrimento que não pode ser convertido em aumento de produtividade deve ser ignorado como desvio individual, como o “lobo solitário” que se revolta contra o sistema e sai atirando em todo mundo como um terrorista, como o zumbi da cracolândia que será legado à sua própria errância. Ou seja, a gestão do sofrimento passa a ser um capítulo fundamental da maneira de entender e lidar com o novo mundo, em forma de condomínio.

Isso tem a ver com o que chamamos popularmente de autoestima?
CD: Eu diria que o conceito de autoestima é muito ruim. Ele parece dizer alguma coisa imediata, descritiva e intuitiva, mas é uma noção problemática. Por exemplo, um indivíduo arrogante que se superestima, pode se sentir cronicamente com “baixa autoestima”, porque não atinge seus ideais superinflacionados, e na verdade sofre com um complexo de superioridade e não de inferioridade. O que Freud chamava de autoestima (Selbstgefüllt) seria melhor traduzido por sentimento de si, o que envolve nosso senso de familiaridade, temporalidade, nossa apropriação das posições de classe, raça, gênero. Autoestima sugere uma dimensão de amor por si mesmo que não confere nem com o amor próprio (amour prope), nem com o amor de si (amour sui). A sede por “likes”, a obsessão com a fama e o efeito celebridade decorrem de uma ascensão do amor próprio, com um rebaixamento do sentimento de si.

Descobrimos, assim, que temos uma propriedade fundamental: nós mesmos, nossa marca, nossa imagem, nosso personagem social. Como toda propriedade, em um mercado de imagens, seu valor depende da comparação com outras imagens do mesmo “segmento”.

Mais uma vez é preciso entender que o neoliberalismo não é só um sistema econômico, mas uma forma de moralidade que tem como uma de suas principais características a aceleração do tempo e da vida. O que você provoca em uma pessoa quando você diz que ela tem que viver, necessariamente, 10 anos em 2? Quando ela deve esperar ganhar seu primeiro milhão aos 25 anos? Insatisfação permanente. Isso é que gera a sensação de que seu sentimento de si é baixo, ou seja, a suposição que o amor próprio dos outros é muito mais elevado.
- Esse processo todo faz as pessoas perderem a capacidade de reconhecer seus sentimentos, emoções?
CD: Para entender isso é preciso distinguir, no interior da dialética do reconhecimento, o que se reconhece (o si e o próprio), por quem se é reconhecido (o outro e o Outro) e o ato real de reconhecimento. Nesta equação, a forma, o outro e o ato pelo qual somos reconhecidos determina diretamente o potencial patógeno em termos de sofrimento. Exemplo: caiu uma bomba. Estamos todos na miséria. Sofrimento real, sim, mas eventualmente não patológico, porque estamos todos juntos. Temos que aceitar a tragédia que se abateu sobre nós. Estamos diante de uma situação que interpretamos como universalizável.

Então, ficamos sabendo que a bomba só afetou a zona leste da cidade, onde por acaso moramos. É um problema. Alguns são reconhecidos de uma forma, outros se sentirão neuroticamente culpados por sobreviver. Vamos dizer agora que a ONU designe equipes de resgate, mas que elas escolham salvar apenas os motoristas de taxi e os donos de supermercado. A miséria se transforma em revolta. Neste ponto surgem motivos teológicos que justificam que eles e não outros sejam salvos. Nosso próprio sofrimento é transformado em redenção.  Veja como o teor de minha experiência de sofrimento se altera em função da minha interpretação da felicidade ou da infelicidade do outro, da justiça ou da injustiça, da autoridade que a nomeia, em função da narrativa que a explica.
- E esse reconhecimento se dá através do trabalho, do consumo, tudo que pode ser afetado em períodos de crise…
CD: Um erro teórico é imaginar que se é a favor ou contra o consumo. Se você pensar, o consumo é uma instância extremamente democrática. É uma condição de inclusão. A possibilidade de você entrar em uma loja e poder comprar algum produto, e ser aceito naquele lugar, em termos de reconhecimento, é um avanço brutal. Ou seja, o consumo não é só uma instância de exclusão, que produz sonhos irrealizáveis e insatisfação infinita, mas de inclusão também. O verdadeiro problema é saber que tipo de gramática de reconhecimento vai aparelhar as relações de consumo. Por exemplo, o Brasil da minha geração, era conhecido como um lugar de consumo conspícuo, onde o valor gozoso de um objeto está no fato de que eu posso humilhar o outro causando-lhe inveja. Ele é propositalmente exagerado, para que eu possa me exibir e gozar de que o outro não tem o carro, a escola, a roupa que eu tenho, e você não. Se você começa a estimular uma gramática de reconhecimento nesses termos, atravessando o consumo, isso vai terminar em violência. Óbvio, o problema ocorre porque está se fazendo algo para ele acontecer. Você destila inveja, junta com ódio e termina em violência.
A esquerda não conseguiu se conciliar com o tema do consumo. Sua versão de interesse público associou-se demasiadamente com o interesse estatal. Isso bloqueou seu diálogo com as teologias da prosperidade, com a colaboração da sociedade civil, com os movimentos sociais, com os coletivos de cultura, com as universidades. Cultivou-se uma espécie de horror ao dinheiro privado, como se todo ele fosse obviamente demoníaco. Por outro lado, incentivou-se o consumo das famílias, o que teve, sim, efeitos amplamente inclusivos. Ora, se todo dinheiro que toque a coisa e o interesse público só pode passar por dentro do Estado, isso constitui um foco e uma tentação permanente para obter os meios de controle, por onde a corrupção e a instrumentalização do Estado, com o pior dinheiro privado, pode se realizar bem debaixo de nossos olhos.
- Ódio e ressentimento …
CD: Existe no Brasil uma ascensão do ressentimento de classe, de gênero. Ele junta todas as problemáticas. No fundo, o ressentimento é uma crença demasiada na onipotência do Outro, que é quem me fez mal. A ideia de que a minha vida não está “funcionando” direito porque o outro fez alguma coisa e me impediu, é duplamente problemática. Primeiro, porque ela desconhece a noção de pacto social, ou seja, de que alianças e oposições se dão entre sistemas de interesse que não desconhecem o todo. É o que se percebe bem no golpe que assistimos hoje, de um lado a Esquerda sente que foi despojada do poder por meios semilícitos, por outro a Direita ficou envergonhada, e temos reformas brutais em andamento, segundo o espírito mágico das mãos limpas, ou seja, sem que ninguém pague realmente a conta. Aqueles que eram contra Dilma, de repente se saem com essa de que não eram a favor de Temer, eles só queriam a saída de uma, não a entrada de outro.

Logo, quem realmente está vendendo nossos 20 próximos anos para pagar as contas? Quem está pulverizando a aposentadoria e os direitos sociais? Quem vai pagar a conta pelo sucateamento do SUS e das universidades? O senhor Ulisses Ninguém, o Vampiro de Düsseldorf? O golpe não é o impeachment, mas o truque de que ninguém realmente quer isso que está acontecendo diante de nossos olhos. Isso é típico da cultura do ressentimento. Como ela trabalha em um sistema de covardia e desimplicação subjetiva, quando o ódio extermina seus inimigos, depois do duelo e do linchamento vão todos para a casa, e voltam a ficar em cima do muro. E na solidão de suas colunas de jornal pensam: “foi ele que me fez fazer isso”. Saímos da cultura do ressentimento para a cultura da indiferença.

- É possível tratar isso?
CD: É possível tratar o ressentimento, e temos dois recursos para fazê-lo, mas estão sendo completamente ignorados: primeiro, a cultura e depois a política. A experiência cultural não é orientada para um fim nem para um gozo imediato. Estamos falando de uma verdadeira experiência cultural, que é a experiência de linguagem, de simbolização, de coletivização, e que envolve muitas outras coisas. É muito estranho, que em meio a tantos candidatos para a vilania, os grupos escolhidos como grandes “atrapalhadores do progresso nacional” sejam gente como artistas e intelectuais, professores e alunos de escolas públicas. Em meio a tantos cortes, seja o Ministério da Cultura o escolhido. Em meio a tantos problemas, a questão para a Educação tornou-se a Escola sem Partido. Obviamente, não é pelo poder, nem pela representatividade, nem pelo barulho que tais grupos podem fazer, ainda que tentem, mas porque eles representam este grão de mal-estar que é preciso erradicar. Eles representam a possibilidade que tem que ser negada, ou seja, de que existe vida fora da produção e do consumo, existe vida fora do agora. É por isso que eles são representados como indolentes, aproveitadores e favorecidos. Eles não estão sofrendo como o resto. E, em parte, isso é verdade, eles sofrem de outra maneira.

A segunda forma de tratamento é a política, mas, não gostaria de reduzir esse termo à política representativa, institucional, partidária, que se transformou em um negócio. Isso não é política, é o negócio da política. É a produção e o consumo do empreendedorismo das leis e do uso da violência. Precisamos falar de outro entendimento de política, que é uma forma de entendermos que o futuro tem que ver com aquilo que queremos. E o que a gente quer tem a ver com diferenças. E diferenças se resolvem pela palavra. Então, é fundamental reinstituir a política propriamente dita, porque nós paramos de fazê-la, porque nos convenceram de que tudo que ela pode nos dar é este espetáculo farsesco de deputados e senadores.  Estamos fazendo outra coisa: gestão de sofrimento, família no poder, moral segregativa, religião de resultados. Tais coisas são a antipolítica.
Política é o campo produtivo das diferenças: palavra indeterminada sob condição de conflito, como na psicanálise.
- No seu livro “Mal-estar, sofrimento e sintoma” você fala da “lógica do condomínio”. Essa lógica baseada na exclusão é própria de sociedades como a nossa, com grande nível de desigualdade? O que essa lógica explica sobre o Brasil que vivemos hoje?

CD: Essa lógica é coisa brasileira. O condomínio como tipo de habitação e moradia é uma invenção que se disseminou pelo mundo, e nós não fomos pioneiros nisso. Há condomínios por toda parte, mas por aqui eles assumiram uma função social que nos é própria. O condomínio como ideia social de vida, com o muro em estrutura de defesa contra supostos inimigos violentos que ficaram de fora, com o síndico que é o arremedo de político, agenciador das leis, o espaço público mimetizado e reconstruído como um simulacro em forma privada, uma estética kitsch baseada no corte de renda e no padrão de diferenciação por exagero e dissonância de gosto. Até os nomes das coisas são uma paródia involuntária, “Alphaville” a cidade dos “alfas”, de Godard, inspirada pelo Admirável Mundo Novo e sua sociedade de castas.

Nos EUA, quando surgiu a ideia de se morar em condomínios, nos subúrbios, isso tinha o apelo do “venha para cá e resgate o multiculturalismo. Restitua o sentido de comunidade que está na origem do nosso país. Um lugar de diferenças reconciliadas”.
No condomínio brasileiro a ideia é: “vamos nos defender juntos, porque o mundo é perigoso”. É outra coisa. Há uma espécie de demissão do Estado. Você empreita as responsabilidades. Mantém alguma responsabilidade com o síndico. E só. Dentro dessa lógica, o muro é um símbolo que impede de ver o outro. Se não vejo, não existe. Se não existe, não me afeta, se não me afeta estou dormindo tranquilo.
Mas, quando eu não vejo o outro que me constitui, começam a aparecer nos meus sonhos questões como: “o que tem do outro lado do muro?”. O sonho vira pesadelo. A vida perfeita vem com vizinhos barulhentos, adolescentes agressivos, madames fúteis, com a experiência vazia da felicidade entre iguais. Tudo fica pior que na realidade. É bicho que não tem na realidade, mas o sonho de minha razão e o embrutecimento de minha gramática de reconhecimento cria monstros. Na hora, uma parcela significativa de gente decide sair do “condomínio”, o mundo revelou-se bem outro, e batemos de cara contra o muro que nós mesmos criamos. Sua fantasia do outro, como alguém com quem não é possível sentar e conversar, tornou você sozinho e pobre. A rua passa a ser vista como uma floresta, cheia de seres perigosos, porque eles podem ser apenas iguais a você mesmo, só que de outro modo, de um modo que anos de condomínio te impedem de perceber.
Portanto, além da novidade política da internet, devemos acrescentar a completa inexperiência política daqueles que ficaram aprisionados durante anos em “condomínios”. Quando falo de condomínio não são só os residenciais. A lógica do condomínio é também a que vigora nas prisões e seus PCCs, nas favelas e comunidades, nos shopping centers e seus diferentes muros simbólicos.
- Muito do que falamos tem assustado porque ganhou forma e cara nas redes sociais e foi para as ruas…
CD: Nas redes sociais é possível fazer muita coisa boa, mas ruim também. É a primeira geração que tem esse instrumento. Não dá para julgá-la esquecendo disso. Quando se descobriu a radiação todo mundo achava bonitinho. A cocaína era usada como medicamento e fazia parte da fórmula de refrigerantes. Diante das grandes invenções, seus efeitos deletérios são descobertos muito depois. É um espaço semipúblico, estamos aprendendo, mas não sabemos usá-lo. Nossa fronteira clara e distinta entre o que é público - o que é espaço público e o que é interesse público - está sendo redefinida. Também o que chamávamos de espaço privado, de intimidade, de pessoalidade passa por uma reforma.

Como você tira o pior de alguém? Para além de suas contenções de culpa, inveja, de educação? A sabedoria popular já nos diz que basta dar poder e saberemos quem é aquela pessoa.  E o palco da internet é uma estrutura de poder. A mídia social te diz que agora você tem um palco, só seu. Junto com isso vem a ilusão de que finalmente você será ouvido, e o que os milhões que te faziam sentir irrelevante vão se dobrar diante de tuas palavras e de tuas imagens. Pior que a infelicidade banal é a promessa de que ela é passageira e será superada.  Aí as pessoas se desvestem, e começam a falar, há uma reverberação, duas curtidas e você começa a achar que você é o Donald Trump. Obviamente, não estamos falando de poder real, se bem que ele exista também nesta situação, mas principalmente do poder imaginário, aquele que concorre para tornar a depressão uma epidemia mundial.
Na mídia tradicional não tem isso. Você só ouve. É a voz do dono da empresa (jornal, televisão, revistas). Antigamente havia uma expressão bem velha chamada “choque de gerações”, para designar a tensão social que faziam dos jovens uma turma de contestadores e revolucionários. Agora que todos são jovens, (adultescentes e adoledultos), esquecemos que há uma geração no poder que foi nascida e criada pré-internet, e outra geração que não consegue entender porque certos problemas não são tratados de forma mais transparente, democrática e com participação direta dos interessados, inclusive por meio da democracia digital.  Fomos criados com a ideia de que quem fala é que tem poder. Interessante perceber que o ódio e o ressentimento foram feitos em torno de discursos, não das pessoas se encontrando face a face.

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Entrevista de Cristian Dunker a Davi Carvalho
O Brasil no Divã/HD/Café Filosófico –
In: www.plataformapoliticasocia.com.br/o-brasil-de-cara-contra-o-muro/




Créditos das Imagens

1a. Foto Christian Duker - Revista Época - fotode Walter Craveiro.
2a. Foto Christian Duker - www.revistaforum.com.br
3a. Foto Christian Duker - reprodução.
Capas de livros - reprodução.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com  


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