Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ELEIÇÕES 2018 - A MENTIRA TEM PERNA CURTA!

13 de outubro de 2018



Reproduzimos matéria publicada no 'El País', no final de agosto passado, sobre um assunto aparentemente sem grande significado, se considerarmos as  grandes questões que temos diante de nós, para reafirmar e ampliar o nosso voto  pelo exercício da cidadania, pelos direitos humanos, pelas oportunidades para todos e pela segurança para o exercício da democracia no nosso país. 

Acredito, no entanto, que há pequenas informações e mentiras levantadas, que estão impactando  mais as  pessoas, especialmente aquelas que não conseguiram acompanhar ou já esqueceram as grandes ações da gestão do então ministro Fernando Haddad, na pasta da Educação - em favor de inúmeros jovens e adultos com menor chance de acesso à universidade e aos cursos de formação técnica, no país. 

Tenho a honra de tê-lo conhecido enquanto Ministro da Educação - pois trabalhei como consultora concursada e selecionada pelo MEC/UNESCO, para um dos projetos da sua gestão - a Escola Aberta e a Escola Integral, que surgiu para ampliar o tempo escolar com a inserção de atividades esportivas, culturais e de lazer, para estudantes da escola pública cuja Secretaria de Educação local aderisse ao projeto. 

Mas o que parece necessário insistir, agora, é desmentir informações falsas e mal-intencionadas que ainda se mantêm em ebulição. Infelizmente, as pessoas, embora bem-intencionadas, não têm tempo para buscar comprovações que desanuviem suas desconfianças nas intenções e compromissos de governo do candidato que, hoje, é a referência de uma frente democrática e ampla de afirmação do nosso sim à Paz dos cidadãos brasileiros, à democracia e à justiça social para todos.  E do nosso não à mentira, ao desrespeito dos valores humanos e dos direitos sociais do cidadão brasileiro.

Segue a matéria em causa:

Bolsonaro mentiu ao falar de livro de educação  sexual no ‘Jornal Nacional’

Candidato do PSL mostra publicação que seria parte do 'kit gay', mas o título (mostrado pelo entrevistado) nunca foi comprado pelo MEC nem foi incluído no projeto.

São Paulo  - 30.08.2018

No que talvez tenha sido o momento mais tumultuado da sua entrevista no Jornal Nacional, na noite desta terça-feira, Jair Bolsonaro (PSL) mostrou às câmeras por poucos segundos um livro intitulado Aparelho sexual e Cia, cuja capa traz o desenho de um menino de topete loiro olhando um tanto quanto assustado para o que tem dentro das próprias calças. Seria só mais um dos incontáveis episódios polêmicos de um candidato que tem esbravejado contra o que chama de campanha para o ensino de "ideologia de gênero" nas escolas do Brasil, não fosse um detalhe: praticamente tudo o que o candidato falou quando se referiu à publicação não encontra respaldo na realidade.
"Tomei conhecimento [em 2010] do que estava acontecendo lá [num corredor da Câmara dos Deputados]. Eles tinham acabado o nono Seminário LGBT Infantil", disse Bolsonaro, após ter sido perguntado pela jornalista Renata Vasconcellos sobre suas manifestações prévias de caráter homofóbico. "Estavam discutindo ali, comemorando o lançamento de um material para combater a homofobia, que passou a ser conhecido como 'kit gay'. Entre esse material estava esse livro lá. Então, o pai que tenha filho na sala agora, retira o filho da sala, para ele não ver isso aqui. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem", emendou, para logo ser interrompido pelo âncora do JN William Bonner, que o lembrou que não estava permitido mostrar qualquer material gráfico durante a entrevista.

J.B deu a entender na sua declaração que o livro, de autoria do suíço Philippe Chappuis (conhecido como Zep) e da francesa Hélène Bruller, formava parte do projeto 'Escola sem Homofobia', que recebeu a alcunha de kit gay e que criou uma forte polêmica no primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff

Basicamente, tratava-se de um kit de apoio para a formação de professores em temas relacionados aos direitos LGBT, como o combate à violência e ao preconceito no ambiente escolar. A pressão de grupos conservadores, no entanto, fez com que a então presidente vetasse a proposta, e as peças de conscientização nunca saíram da gaveta. Logo, na estreia da administração Dilma, a bancada evangélica dava uma clara demonstração de força.

Acontece que o livro em questão nunca fez parte do projeto Escola sem Homofobia. E mais: sequer foi adquirido ou fez parte de algum programa do Ministério de Educação. 

"Ao contrário do que afirmou erroneamente o candidato à presidência em entrevista ao Jornal Nacional na noite de 28 de agosto, ele [o livro] nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto kit gay", disse, em nota, a Companhia das Letras, editora que lançou "Aparelho sexual e cia", em 2007. O MEC confirmou a informação. O que há registrado é uma compra, por parte do Ministério da Cultura em 2011, de apenas 28 exemplares da publicação para o programa Livro Aberto. Os livros foram entregues a diferentes bibliotecas públicas do País. Segundo a pasta da Cultura, nenhum foi distribuído para escolas.

Outro ponto da resposta de Bolsonaro contestado logo após o fim da entrevista foi a menção a um suposto Seminário LGBT Infantil. Trata-se do Seminário Nacional LGBT, realizado anualmente por comissões da Câmara que atuam na defesa dos direitos dessas comunidades. De acordo com o deputado Jean Wyllys (PSOL), coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT, Bolsonaro está se referindo ao encontro promovido em 2012. 

Naquele ano, a temática escolhida para o seminário foi "Sexualidade, Papéis de Gênero e Educação na Infância e na Adolescência". Havia três eixos naquele seminário: Subjetividades e papéis de gênero (É possível falar em uma infância e adolescência gay?); Educação, sexualidade e gêneros (O que os papéis de gênero têm a ver com a prática do bullying nas escolas?); e Infância, adolescência e estado de direitos (Como estender as redes de proteção da infância e da adolescência aos meninos e meninas que fogem dos papéis de gênero?). A assessoria de Wyllys pontuou que não participaram crianças no seminário, mas sim parlamentares, acadêmicos que estudam o tema e membros da sociedade civil. Em 2018, exemplifica Wyllys, a temática do seminário foi políticas para a população LGBT da terceira idade.

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O livro citado na entrevista do JN foi publicado pelo nosso selo jovem. Infelizmente está fora de catálogo, mas nos orgulhamos da publicação


Reedição

Lançado pelo selo juvenil da Companhia das Letras, o livro mostrado por Bolsonaro está esgotado. Na nota que lançou na tarde desta quarta, a editora disse que está em contato com os donos dos direitos da obra para avaliar a possibilidade lançá-la novamente no Brasil. 

A Companhia das Letras afirmou ainda que o texto original foi traduzido para dez idiomas ao redor do mundo e vendeu mais de 1,5 milhão de cópias, tendo sendo transformado em exposição que ficou em cartaz em Paris. O público alvo da publicação é formado por adolescentes: no catálogo da editora, ela era sugerida para alunos de 11 a 15 anos.

A Companhia das Letras defendeu enfaticamente o título. Segundo a empresa, a publicação tem "sólida base pedagógica e rigor científico" ao abordar "todos os aspectos da sexualidade". 

No comunicado, a editora diz que os autores conseguem tratar de forma "leve" assuntos importantes como paixão, mudanças da puberdade, contracepção, doenças sexualmente transmissíveis, pedofilia e incesto. "O livro conta ainda com uma seção chamada 'Fique esperto', que alerta os adolescentes para situações de abuso, explica o que é pedofilia — mostrando como tal ato é crime —, o que é incesto e até fornece o contato do Disque-denúncia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos'", explica a Companhia das Letras. 

"O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais, um específico à 'Orientação Sexual' para crianças, jovens e adolescentes", conclui a editora. 
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Crédito das imagens:

Foto 1 - J.B.durante a entrevista no 'Jornal Nacional' - Reprodução Rede Globo 

Foto 2 - Capa do livro apresentado por J.B. - 
  

BRASIL - ELEIÇÕES - ENTREVISTA À PESQUISADORA MARIA HERMÍNIA TAVARES

9 de outubro de 2018



"Acusaram o PT de imitar a Venezuela,  mas é o Bolsonaro quem se espelha no processo de lá".               



Maria Hermínia Tavares, pesquisadora do CEBRAP, diz que Bolsonaro é o risco do chavismo com o sinal inverso. Para ela, Haddad precisa “tirar a camisa vermelha e colocar a branca da conciliação”

Jornalista - El País
Rio de Janeiro 9/10/2018



O primeiro turno das eleições brasileiras de 2018 materializou a indignação de um país farto de seus dirigentes políticos, incapazes de dar resposta ao tema da corrupção e questões cotidianas, como a segurança pública. O resultado não foi apenas a ascensão da extrema direita e de Jair Bolsonaro(PSL), que foi para o segundo turno dos comícios eleitorais com 46% contra Fernando Haddad (PT), que ficou com quase 30%, mas também "a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 1994". A avaliação é de Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP).

A cientista política se apoia no fato de que o PSL de Bolsonaro conseguiu a segunda maior bancada da Câmara, com mais de 50 deputados, apesar de não possuir estrutura partidária nem dinheiro. Ao mesmo tempo, importantes lideranças, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira, entre outras, não renovaram seus mandatos, enquanto que novatos na política chegaram ao segundo turno em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Trata-se de uma onda conservadora difícil de conter, uma vez que, segundo diz, "a racionalidade não é um dique forte" contra ela. Para Haddad, resta percorrer um caminho que passa por deixar seu padrinho político de lado e assumir o papel central. "Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso". 

Apesar não conseguir definir exatamente como seria um governo Bolsonaro, ela vislumbra um processo parecido ao que aconteceu na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro: "O maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. O que está acontecendo no mundo vai nessa direção".

Pergunta. Como chegamos até aqui?
Resposta. É um caminho longo. Começa em 2013 com as enormes manifestações espontâneas para as quais os dois partidos que organizavam a disputa eleitoral, PT e PSDB, foram incapazes de dar uma resposta. Isso passou por 2014, onde a radicalização dos dois grupos aumentou muito. Passou pelo impeachment e pelas manifestações do impeachment. Sempre tivemos uma disputa entre centro esquerda e centro direita. É uma bobagem dizer que o PT é de extrema esquerda. Mas tem um tema que os dois principais partidos não sabem lidar, que é a corrupção.

P. PT, PSDB e o sistema político como um todo se blindaram das ruas. Isso gerou uma raiva ainda maior?
R. Acho que sim. O PT passou esse tempo negando o seu envolvimento com atos importantes, mas o PSDB também. Os dois leram mal o que estava acontecendo na sociedade, que está mais atenta a esse tipo de questão e que foi tratada forma bastante intensa pelos meios de comunicação, e depois, pela candidatura de extrema direita [de Bolsonaro]. A dimensão da corrupção foi muito grande, mas a maneira como foi tratada também criou essa ideia de que é o principal problema do país. Quando não é, né? 

O país tem coisas muito graves a se resolver, apesar de a corrupção ser algo grave. Essa ideia de que as coisas não acontecem porque o governo é corrupto... A mídia teve um papel fundamental nisso. Eu não estou demonizando a mídia, tem que divulgar e contar a história, mas nos momentos de abertura das acusações, o Jornal Nacional ocupava uma hora com esse assunto, mostrando um cano do qual saía o dinheiro... Era muito impactante. Não acho que a corrupção foi inventada pela mídia: ela existia, é muito grave e não pode acontecer. Mas ela se transformou na cabeça de muita gente como algo associada ao PT e, depois, ao PSDB. O que nós estamos assistindo é a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 94.

P. Que dimensão tem isso? Não só Bolsonaro foi para o segundo turno como também o PSL tornou-se o segundo maior partido da Câmara.
R. É uma mudança muito importante no sistema político. Revela o fato de como o PT e o PSDB não souberam lidar com o tema da corrupção, também não souberam lidar com o tema da segurança. Isso acabou se transformando num discurso da extrema direita. Mas Bolsonaro é quase uma tela em branco, porque ele não diz nada. Ele diz uma meia dúzia de chavões. Tem algo vagamente nacionalista e antissistema. Os diversos grupos da sociedade que votaram nele foram projetando... Ele dá um marco de extrema direita.

P. Mas agora ele vai ter que ir aos debates com Fernando Haddad, vai ter mais tempo de televisão... Em suma, terá de falar mais. É um desafio para a campanha dele?
R. Veremos se isso tem um efeito importante. O que estamos assistindo é uma onda. E, às vezes, a racionalidade não é um dique forte pra conter essa onda. Então, eu espero, como brasileira, que ela possa ser contida. Ela é muita maléfica para o país.

P. O que o PT e o Haddad precisam fazer para conter essa onda?
R. Haddad já acenou com a ideia de que vai trazer outros candidatos e fazer uma espécie de frente pela democracia, trazendo o centro junto. Mas tem coisas difíceis que ele terá que fazer. Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso. 
A segunda coisa é tirar a camisa vermelha e colocar a camisa branca da conciliação, da paz, da negociação. Vai ter que lidar com grupos dentro do PT que não entendem qual é a situação. Ele vai ter que mudar o seu programa econômico, mas não é isso que vai decidir agora a eleição. Seria bom que ele acenasse agora para não parecer que deu um cavalo de pau depois. Mas a minha sensação é que o PT, quando fez aquele programa, estava se preparando para perder as eleições para o [Geraldo] Alckmin. E aí fizeram um programa pra cerrar fileiras e juntar a militância, porque ele é inviável. 
Se você conversa com petistas mais esclarecidos, eles dizem que não dá, que tem que fazer reforma da Previdência e coisas do tipo. Então, há vários movimentos complicados que ele terá de fazer. Vai ter que trazer o Fernando Henrique Cardoso para dentro. Ele não tem mais poder dentro do PSDB, mas tem uma liderança moral importante no país.

P. Caso o PT, ao invés de ter esvaziado a candidatura do Ciro Gomes, tivesse se aliado a ele desde o começo, quais seriam as chances de neutralizar desde já a candidatura Bolsonaro?
R. Basta somar os votos. O Ciro conseguiu quase 12%, é bastante. Agora, para trazer o Ciro, terão de fazer grandes concessões, não só de agenda mas também de espaço dentro do governo caso o PT ganhe.

P. E caso Bolsonaro ganhe? É possível vislumbrar o que seria um governo dele?
R. Não tenho nenhuma condição prever. Na melhor das hipóteses ele vira um governo Collor. Na melhor. Mas não é isso o que ele está fazendo. Ele está formando uma base parlamentar significativa. Ele pode ter maioria no Congresso para fazer coisas muito danosas para o país. Acho muito difícil saber e acho melhor não pagar para ver (risos).

P. O Exército vem pairando em cima da política brasileira e também das eleições, com ameaças veladas, uma movimentação do Toffoli em direção a instituição... Devemos temer algum tipo de intervenção ou interferência do Exército?
R. Os apoiadores de Bolsonaro por enquanto são generais de pijama. Não sabemos como a instituição e a hierarquia vão atuar. Mas é lógico que, caso se forme uma situação de muita instabilidade, existe o risco sim do Exército atuar. Mas o maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. 
O que está acontecendo no mundo vai nessa direção. Como foi na Venezuela, inclusive. Acusaram muito o PT de querer imitar a Venezuela, mas é o Bolsonaro que está espelhando esse processo que aconteceu lá, onde o sistema tradicional, fundado na corrupção, ruiu. E apareceu uma liderança fora do sistema que foi destruindo a democracia. Se tem algo parecido ao chavismo, mas com outro sinal, é essa ameaça do Bolsonaro.

P. O PT apostou fortemente em manter o discurso da perseguição contra o partido e manter a candidatura de Lula até o último momento. Essa estratégia acabou se virando contra ele?
R. O que está claro é que a expectativa de que a transferência de votos fosse grande não se materializou. Lógico que ela aconteceu, Haddad não era conhecido por ninguém, e o fato de ser apoiado por Lula facilitou sua entrada. Mas isso ocorreu onde o PT tinha bases fortes e seguras. 
As pesquisas sobre identificação com partidos (que não sabemos exatamente o que significam, mas indicam uma tendência) mostram que cerca de 20 e poucos por cento da população apoiam o PT. É o único que tem esse apoio em escala nacional. E foi mais ou menos o que Haddad teve de votação. A votação do Lula é muito acima disso. E nem sei o que aconteceria com o Lula se ele fosse candidato.

P. O PT terá de fazer um mea culpa e pedir desculpas pela corrupção que cometeu?
R. O partido estava numa situação muito complicada, com seu principal líder na cadeia a partir de um processo controverso na maneira como foi conduzida. Essa coisa de prender depois da segunda instancia também é controverso. Ele foi submetido a processos que dão espaços para a narrativa da perseguição. Nesse contexto, é muito difícil pedir pro PT admitir que fez mesmo tudo aqui. Ele estava numa situação complicada. Mas vai ter que fazer [um mea culpa]. Não sei se durante a campanha eleitoral ou depois, mas tem que fazer. E, sobretudo, tem que acabar internamente com esses procedimentos [de corrupção].
Agora, o eleitorado puniu muito fortemente não só o PT, mas o sistema como um todo. Lideranças muito importantes ficaram de fora, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira. Entraram candidatos de fora do sistema, entre aspas. No Rio, o [ex-juiz-federal] Wilson Witzel tá disputando. 
Em Minas, Antonio Anastasia (PSDB) dava sinais de que iria se eleger tranquilamente. A rejeição ao arranjo politico anterior é enorme. Como as lideranças políticas de centro, de centro esquerda e centro direita não se deram conta do tamanho disso, Bolsonaro acabou canalizando melhor [essa insatisfação].

P. Qual é o papel do PSDB nesse processo? O que prejudicou o partido? Tem a ver com o fato de ter questionado o resultado das urnas em 2014 e, depois, ter participado do impeachment, como dizem alguns analistas?
R. Eles fizeram a crise politica. Eles aprofundaram a crise, é uma responsabilidade muito grande. O grande derrotado do impeachment é o PSDB, que deu viabilidade ao processo. Sem ele não se teria conseguido fazer. Mas a centro direita se fragmentou e o PSDB se enfraqueceu demais. 
Se a vitória em São Paulo não se materializar, ele perde uma força importante. Ele perdeu espaço para a extrema direita e é o grande perdedor do impeachment. Ele imaginava que com o impeachment teria benefícios, mas fez um cálculo equivocado. A crise politica se acirrou muito com o processo.

P. O PSDB  fez acordo com o centrão, conseguiu o maior tempo de TV... Parecia se blindar contra Bolsonaro, mas isso também não funcionou.
R. Eles acharam que o jogo ia ser o mesmo de sempre. Era o cálculo que todos faziam nas eleições anteriores. E agora um cidadão que tinha poucos segundos na TV teve um sucesso impressionante. Por outro lado, o horário eleitoral funcionou muito bem para o Haddad. Sua votação não veio com rede social.

P. Acredita que Bolsonaro entendeu melhor o mal estar que veio à tona em 2013?
R. Não sei se entendeu, porque ele pensa aquela meia dúzia de coisas simples e erradas. Se o problema da segurança se resolvesse matando as pessoas, o Brasil não teria problemas de segurança, porque aqui a polícia mata com muita tranquilidade. E ele não tem nada a dizer sobre outras coisas. Mas ele expressa de maneira muito sintética a rejeição a isso tudo, a esse sistema que se afundou. Ele canalizou aquele sentimento.

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Fonte do texto:


Ver mapa da votação, no 1º turno:


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Nota: As imagens deste texto fazem parte da entrevista publicada no El País.

BRASIL - ELEIÇÕES 2018 - MOVIMENTO POLÍTICO PELA UNIDADE

7 de outubro de 2018

Queremos agradecer hoje, às centenas de leitores deste blog, não só do Brasil, mas de outros países como  Portugal, Moçambique,  Itália, França, Índia, Japão, Estados Unidos, e outros países da Europa, Ásia e da América Latina. 

Uma parcela desses leitores participa das comunidades do Movimento dos Focolares, de âmbito internacional, fundado por Chiara Lubich, que reconheceu como seu cofundador um ilustre e respeitado senador da república italiana, Igino Giordani.  

Tive a honra de conhecer o senador Giordani por seu desejo de dialogar com os primeiros e as primeiras brasileiras que aderiam como membros ativos do movimento, no Brasil, como Marluza Correia, Heleno Oliveira, Inês, Vera Araújo, Irami Bezerra, Tininha Cavaldanti e eu, entre outros. Eram os anos sessenta, e o movimento estava em seu período de maior difusão.

Da história de Igino Giordani sabemos que,  no período de governo fascista de Mussolini, ele se abrigou no Vaticano, protegendo-se da perseguição. A sua sabedoria e o seu testemunho pessoal foi de uma pessoa aberta à fraternidade e à solidariedade humana. Um cristão sábio, seguidor do chamamento de Jesus ao amor fraterno, mas, decididamente, um cristão lutador pela causa do seu povo e da democracia, que, como disse o Papa Francisco a um jesuíta, entendia que o amor fraterno requer que "sujamos as mãos" na política pelo bem-comum.

Conto esse fato para dizer da minha alegria, hoje, quando recebi do MPPU - Movimento Político pela Unidade - o seu manifesto pela democracia, diante dos "desafios do processo eleitoral tenso", convidando a todos a abrirem-se ao diálogo e às diversas propostas da sociedade democrática, para "fortalecer a coesão sociopolítica" e encontrar "soluções conjuntas" a este momento de crise que vivenciamos, no Brasil e no mundo. 

O Movimento Político pela Unidade convoca os seus membros a "discernir entre o que seja democrático e antidemocrático".  

A nota é incisiva no convite a se escolher uma prática de educação e aprendizado da "fraternidade política", e "repudia de forma veemente qualquer discurso, proposta, atitude ou prática antidemocrática que aceite romper com as regras do jogo democrático, negue a legitimidade dos oponentes, admita a restrição às liberdades civis, expresse opiniões francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, cultive, incite e pratique a violência como solução para os vários problemas que enfrentamos, sustente e/ou se beneficie das estruturas públicas para práticas corruptas (durante e após as eleições)… e assim tantas outras atitudes e práticas que travam uma práxis político educativa (de povo) que seja fraterna, democrática". 

O MPPU mostra com clareza a sua preocupação quanto à candidatura candidatos à presidência da república do Sr. Jair Bolsonaro. Estendendo a confiança numa prática política de educação e aprendizado da "fraternidade política".

Segue a íntegra do manifesto.


Nota em apoio ao necessário diálogo político e

fraterno, que essas eleições e a democracia 

brasileira exigem da sua gente. 


“A política é o amor dos amores (...) ao criar e resguardar as condições que possibilitem com que as pessoas colaborem entre si, promovendo o encontro das necessidades com os recursos, infundindo em todos a confiança de uns nos outros”.
                                        Chiara Lubich



Somos diversos, somos muitos, somos diferentes. 
Nossa maior riqueza se encontra justamente nessa diversidade de rostos, cantares, sabores, histórias, sotaques, lutas, conquistas, alegrias e tantas outras marcas que nos distinguem enquanto povo. 

Nada mais natural, sendo o que somos, defendermos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos. Nada mais lógico que esse confronto de causas, ideias e projetos no espaço público, com propostas de mundo diversas, gere conflitos, tensões, lutas que são constitutivas desse espaço que é e deve ser gestado e ocupado por toda a sociedade. 

Nada mais necessário, então, compreendermos/aprendermos que o confronto de ideias e propostas no espaço público, sedimentados a partir do diálogo respeitoso e consciente, fortalece nosso aprendizado político, sustentando nossa jovem democracia. 

Imersos em um processo eleitoral que se apresenta tenso, resultado de um conjunto de crises - política, econômica, educacional e jurídica, que nos colocam diante de uma encruzilhada democrática - temos consciência da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. 

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público. 

Em momentos de crise, considerando as consequências históricas das nossas decisões, nossas escolhas devem refletir, mais que a nossa paixão, a nossa consciência, a nossa responsabilidade, a nossa esperança e luta por uma política que seja fraterna. 

Uma política fraterna, como quer e trabalha o Movimento Político pela Unidade, mantém as portas sempre abertas aos diversos projetos de sociedade representados pelas diversas ideologias políticas.  Contudo, uma política que se quer e deseja fraterna, deve necessariamente discernir entre o que seja democrático e antidemocrático e ter a capacidade e coragem de intensificar suas ações a favor do diálogo, da fraternidade. 

Nesse sentido, o Movimento Político pela Unidade, ao mesmo tempo que propõe, apoia e nos desafia (toda a sociedade – candidatos e eleitores) a vivermos uma prática política que nos eduque à fraternidade política, repudia de forma veemente qualquer discurso, proposta, atitude ou prática antidemocrática que aceite romper com as regras do jogo democrático, negue a legitimidade dos oponentes, admita a restrição às liberdades civis, expresse opiniões francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, cultive, incite e pratique a violência como solução para os vários problemas que enfrentamos, sustente e/ou se beneficie das estruturas públicas para práticas corruptas (durante e após as eleições)… e assim tantas outras atitudes e práticas que travam uma práxis político educativa (de povo) que seja fraterna, democrática. 

Nessas eleições, o nosso voto atento, pensado, consciente, estudado, pode transformar uma política em crise (que sustenta uma cultura do privilégio que silencia a muitos) em uma política para o bem de todo o povo brasileiro (que sustenta uma cultura político fraterna). 

Nesse sentido, é de fundamental importância que escolhamos candidatos (Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador, Presidente) que saibam dialogar, que pensem o bem de todos, que saibam viver a FRATERNIDADE na política. 

Em momentos de crise como esse que estamos vivendo, nos parece fundamental recuperarmos nosso horizonte político comum, de uma sociedade fraterna, livre e solidária, com igualdade de direitos e deveres, liberdades e oportunidades para todos. Reconhecer, nesse horizonte, o valor e a força da nossa diversidade e pluralidade supõe a presença e envolvimento de todos nós, passando ao largo de soluções fáceis, românticas ou mirabolantes. 

Esta é, certamente, uma tarefa de todos. Cada um e cada uma, cada grupo, organização e voz entre nós pode contribuir nessa construção. Mais que nunca, precisamos fortalecer nossa coesão social/política, ampliar e intensificar o diálogo fraterno (antídoto potente contra o fascismo), sustentar nossa confiança nas instituições políticas, aprofundar nossa capacidade de encontrarmos soluções conjuntas, de povo, para os muitos desafios que nos envolvem. 

Nosso desafio enquanto sociedade (família humana) passa urgentemente por ressignificar a política, recuperando seu papel fundamental de organização e espaço de interlocução em sociedades cada vez mais complexas e interligadas. Sedimentando, através da política, relações sociais fundadas na responsabilidade comum, inclusivas, horizontais, fraternas, ou simplesmente na esperança de um povo que se percebe capaz e responsável pelo que é e pelo seu futuro. Esse é um aprendizado político necessário, permanente.


                 Movimento Político pela Unidade do Brasil brasil@mppu.or.br




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