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BOAVENTURA: MENSAGEM AOS DEMOCRATAS BRASILEIROS

7 de fevereiro de 2018

Reproduzimos, aqui, a "Mensagem aos democratas brasileiros", do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale. A reprodução é cópia do blog LBoff, que faz o seguinte  comentário:

"Em momentos sombrios como os nossos é imperativo escutar vozes de lucidez de pessoas que conhecem nosso país. Entre tantas, sobressai o sociólogo português Boaventura de Souza Santo. É considerado uma das melhores cabeças que pensam o mundo, a globalização, a partir do Grande Sul. Fez sua tese morando numa favela do Brasil, para conhecer por dentro o mundo da pobreza. Professor em Colimbra e em Wisconsin-Madison nos USA, ganhou fama mundial por ter introduzido várias categorias sociológicas novas para entender o mundo novo que está nascendo. Publicamos aqui seu apelo aos democratas do Brasil pelo amor que tem por nosso país e por seu povo". Lboff
                
MENSAGEM AOS DEMOCRATAS BRASILEIROS

Por:  Boaventura de Sousa Santos.



Dirijo-me aos democratas brasileiros porque só eles podem estar interessados no teor desta mensagem. Vivemos um tempo de emoções fortes. Para alguém, como eu e tantos outros que nestes anos acompanhamos as lutas e iniciativas de todos os brasileiros no sentido de consolidar e aprofundar a democracia brasileira e contribuir para uma sociedade mais justa e menos racista e menos preconceituosa, este não é um momento de júbilo. Para alguém, como eu e tantos outros que nas últimas décadas se dedicaram a estudar o sistema judicial brasileiro e a promover uma cultura de independência democrática e de responsabilidade social entre os magistrados e os jovens estudantes de direito, este é um momento de grande frustração. Para alguém, como eu e tantos outros que estiveram atentos aos objetivos das forças reacionárias brasileiras e do imperialismo norte-americano no sentido de voltarem a controlar os destinos do país, como sempre fizeram mas pensaram que desta vez as forças populares e democratas tinham prevalecido sobre eles, este é um momento de algum desalento.


As emoções fortes são preciosas se forem parte da razão quente que nos impele a continuar, se a indignação, longe de nos fazer desistir, reforçar o inconformismo e municiar a resistência, se a raiva ante sonhos injustamente destroçados não liquidar a vontade de sonhar. É com estes pressupostos que me dirijo a vós. Uma palavra de análise e outra de princípios da ação.

Porque estamos aqui? Este não é lugar nem o momento para analisar os últimos quinze anos da história do Brasil. Concentro-me nos últimos tempos. A grande maioria dos brasileiros saudou o surgimento da operação Lava Jato como um instrumento que contribuiria para fortalecer a democracia brasileira pela via da luta contra a corrupção. No entanto, em face das chocantes irregularidades processuais e da grosseira seletividade das investigações, cedo nos demos conta de que não se tratava disso mas antes de liquidar, pela via judicial, não só as conquistas sociais da última década como também as forças políticas que as tornaram possíveis. Acontece que as classes dominantes perdem frequentemente em lucidez o que ganham em arrogância.


A destituição de Dilma Rousseff, a Presidente que foi talvez o Presidente mais honesto da história do Brasil, foi o sinal que a arrogância era o outro lado da quase desesperada impaciência em liquidar o passado recente. Foi tudo tão grotescamente óbvio que os brasileiros conseguiram afastar momentaneamente a cortina de fumo do monopólio mediático. O sinal mais visível da sua reação foi o modo como se entusiasmaram com a campanha pelo direito do ex-Presidente Lula da Silva a ser candidato às eleições de 2018, um entusiasmo que contagiou mesmo aqueles que não votariam nele, caso ele fosse candidato. Tratou-se pois de um exercício de democracia de alta intensidade.

Temos, no entanto, de convir que, da perspectiva das forças conservadoras e do imperialismo norte-americano, a vitória deste movimento popular era algo inaceitável. Dada a popularidade de Lula da Silva, era bem possível que ganhasse as eleições, caso fosse candidato. Isso significaria que o processo de contra-reforma que tinha sido iniciado com a destituição de Dilma Rousseff e a condução política da Lava Jato tinha sido em vão. Todo o investimento político, financeiro e mediático teria sido desperdiçado, todos os ganhos econômicos já obtidos postos em perigo ou perdidos. Do ponto de vista destas forças, Lula da Silva não poderia voltar ao poder. Se o Judiciário não tivesse cumprido a sua função, talvez Lula da Silva viesse a ser vítima de um acidente de aviação, ou algo semelhante. Mas o investimento imperial no Judiciário (muito maior do que se pode imaginar) permitiu que não se chegasse a tais extremos.

Que fazer? A democracia brasileira está em perigo, e só as forças políticas de esquerda e de centro-esquerda a podem salvar. Para muitos, talvez seja triste constatar que neste momento não é possível confiar nas forças de direita para colaborar na defesa da democracia. Mas esta é a verdade. Não excluo que haja grupos de direita que apenas se revejam nos modos democráticos de lutar pelo poder. Apesar disso, não estão dispostos a colaborar genuinamente com as forças de esquerda. Por quê? Porque se vêem como parte de uma elite que sempre governou o país e que ainda não se curou da ferida caótica que os governos lulistas lhe infligiram, uma ferida profunda que advém do facto de um grupo social estranho à elite ter ousado governar o país, e ainda por cima ter cometido o grave erro (e foi realmente grave) de querer governar como se fosse elite.

Neste momento, a sobrevivência da democracia brasileira está nas mãos da esquerda e do centro-esquerda. Só podem ter êxito nesta exigente tarefa se se unirem. São diversas as forças de esquerda e a diversidade deve ser saudada. Acresce que uma delas, o PT, sofre do desgaste da governação, um desgaste que foi omitido durante a campanha pelo direito de Lula a ser candidato. Mas à medida que entrarmos no período pós-Lula (por mais que custe a muitos), o desgaste cobrará o seu preço e a melhor forma de o estabelecer democraticamente é através de um regresso às bases e de uma discussão interna que leve a mudanças de fundo. Continuar a evitar essa discussão sob o pretexto do apoio unitário a um outro candidato é um convite ao desastre. O patrimônio simbólico e histórico de Lula saiu intacto das mãos dos justiceiros de Curitiba & Co. É um patrimônio a preservar para o futuro. Seria um erro desperdiçá-lo, instrumentalizando-o para indicar novos candidatos. Uma coisa é o candidato Lula, outra, muito diferente, são os candidatos de Lula. Lula equivocou-se muitas vezes, e as nomeações para o Supremo Tribunal Federal aí estão a mostrá-lo.

A unidade das forças de esquerda deve ser pragmática, mas feita com princípios e compromissos detalhados. 
Pragmática, porque o que está em causa é algo básico: a sobrevivência da democracia. Mas com princípios e compromissos, pois o tempo dos cheques em branco causou muito mal ao país em todos estes anos. Sei que, para algumas forças, a política de classe deve ser privilegiada, enquanto para outras, as políticas de inclusão devem ser mais amplas e diversas. A verdade é que a sociedade brasileira é uma sociedade capitalista, racista e sexista. E é extremamente desigual e violenta. Entre 2012 e 2016 foram assassinadas mais pessoas no Brasil do que na Síria (279.000/256.000), apesar de este último país estar em guerra e o Brasil estar em “paz”. A esquerda que pensar que só existe política de classe está equivocada, a que pensar que não há política de classe está desarmada.

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Informações e contatos:

http://www.boaventuradesousasantos.pt/pages/pt/homepage.php

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, 15 de Novembro de 1940. É Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça.
Dirige atualmente o projecto de investigação ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu. 

Seu livro mais recente (Boitempo, 2016): Pela Boitempo publicou também: Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Tem trabalhos publicados sobre globalização, sociologia do direito, epistemologia, democracia e direitos humanos. Os seus trabalhos encontram-se traduzidos em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão, chinês e romeno.
Veja a entrevista introdutória sobre o projeto ALICE
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Publicações mais recentes, de sua autoria:

Português
As bifurcações da ordem. Revolução, cidade, campo e indignação. Coimbra: Almedina, 2017.
A difícil democracia. Reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016. (Em venda na Estante Virtual).
As bifurcações da ordem. Revolução, cidade, campo e indignação. São Paulo: Cortez, 2016.
A justiça popular em Cabo Verde. São Paulo: Editora Cortez, 2015. 
O direito dos oprimidos. São Paulo: Editora Cortez, 2014.
A cor do tempo quando foge. Uma história do presente – crônicas 1986-2013. São Paulo: Ed. Cortez, 2014.
- Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez Editora, 2013.
- Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade - 
9ª edição, revista e aumentada. Coimbra: Almedina, 2013. Também publicado no Brasil, pela Editora Cortez (14ª edição, revista e aumentada).
- A cor do tempo quando foge - vol. 2. Crónicas 2001-2011. 
Coimbra: Almedina, 2012.
- Portugal. Ensaio contra a autoflagelação. Coimbra: Almedina, 2011. Também publicado no Brasil, pela Editora Cortez. Segunda edição aumentada, em 2012.
Para uma revolução democrática da justiça. São Paulo: Editora Cortez, 2007.
- Poderá o direito ser emancipatório? Vitória: Faculdade de Direito e Fundação Boiteux, 2007.
Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.


Francês
- Épistémologies du Sud. Mouvements citoyens et polémique sur la science. Paris: Desclée de Brouwer, 2016.
- Vers un Nouveau Sens Commun Juridique. Droit, Science et Politique dans la Transition Paradigmatique. Paris: Librairie Général de Droit et Jurisprudence, 2004.

ItalianoDiritto ed emancipazione sociale. Troina: EdCittà Aperta Edizioni, 2008.
Il Forum Sociale Mondiale: Verso una globalizzazione antiegemonica. Troina: 
Città Aperta Edizioni, 20

Espanhol
Justicia entre Saberes: Epistemologías del Sur contra el Epistemicidio. Madrid: Ediciones Morata, 2017.
Trece cartas a las izquierdas. Bogotá: Ediciones Desde Abajo, 2017.
Democracia y transformación social. Ciudad de México: Siglo Veintiuno Editores. Também publicado na Colômbia, por Siglo del Hombres Editores, 2017
La difícil democracia. Una mirada desde la periferia europea. Madrid: Akal, 2016.
- La universidad en el siglo XXI. Cidade do México: Siglo XXI Editores, 2016.
Revueltas de indignación y otras conversas. La Paz: OXFAM; CIDES-UMSA; Ministerio de Autonomías, 2015.
Derechos humanos, democracia y desarrollo. Bogotá: Centro de Estudios de Derecho, Justicia y Sociedad, Dejusticia, 2014. 
Democracia al borde del caos. Ensayo contra la autoflagelación. Bogotá: Siglo Del Hombre Editores/Siglo XXI Editores, 2014.
Si Dios fuese un activista de los derechos humanos. Madrid: Editorial Trotta, 2014.
Descolonizar el saber, reinventar el poder. Chile: LOM Ediciones, 2013.
De las dualidades a las ecologías. La Paz: REMTE-Red Boliviana de Mujeres Transformando la Economía, 2012.
Para descolonizar el occidente. Más allá del pensamiento abismal
San Cristobal de las Casas, Chiapas: Editorial Cideci Unitierra, 2011. 
Derecho y emancipación.
 Quito: Corte Constitucional para el Período de Transición, 2011.
Refundación del Estado en América Latina. Perspectivas desde una epistemología del Sur. Lima: Instituto Internacional de Derecho y Sociedad; Programa Democracia y Transformación Global. Também publicado na Venezuela, pelas Ediciones IVIC - Instituto Venezuelano de Investigaciones Cientificas, na Bolívia por Plural Editores; na Colômbia, por Siglo del Hombre Editores, 2010, y na Argentina pela Editorial Antropofagia, 2010.
Descolonizar el saber, reinventar el poder. Montevideo: Ediciones Trilce, 2010.
La universidad en el siglo XXI. Para una reforma democrática y emancipatoria de la universidad. Montevideo: Ediciones Trilce, 2010.
Sociología Jurídica Crítica. Para un nuevo sentido común en el derecho. Madrid: Editorial Trotta, 2009. Também publicado na Argentina por ILSA.
Una Epistemologia del Sur. La reinvención del Conocimiento y la Emancipación Social. Buenos Aires: Siglo XXI Editores, CLACSO, 2009. 
-  Pensar el Estado y la sociedad: desafíos actuales. La Paz: CLACSO, CIDES-UMSA, Muela del Diablo Editores, Comuna, 2008. Também publicado por CLACSO Ediciones, Waldhuter Editores, 2009.
La universidad en el siglo XXI. Para una reforma democrática y emancipatória de la universidad. La Paz: Plural Editores, 2007.
La reinvención del Estado y el Estado plurinacional. Santa Cruz de la Sierra: CENDA, CEJIS, CEDIB, Bolivia, 2007.
Conocer desde el Sur. Para una cultura política emancipatória. Lima: Fondo Editorial de la Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad Mayor de San Marcos, 2006. Também publicado na Bolivia, por Plural Editores, 2008; Santiago de Chile: Editorial Universidad Bolivariana, 2008.


Inglês- If God Were a Human Rights Activist. Stanford: Stanford University Press, 2015. 
Epistemologies of the South. Justice against Epistemicide. Boulder/Londres: Paradigm Publishers, 2014.
The Rise of the Global LeftThe World Social Forum and Beyond. Londres: Zed Books, 2006. Também publicado em chinês por Shanghai Bookstore Publishing House, 2013.
Toward a New Legal Common SenseLaw, globalization, and emancipation. Londres: Butterworths, 2002. Também publicado em chinês por Cambridge University Press & China Renmin University Press, 2009.
Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the Paradigmatic Transition. Nova Iorque: Routledge, 1995.


Crédito das Imagens:

1. Boaventura Sousa Santos - De:Renato Araújo/ABr-Agência Brasil-CC BY3.0 br
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9084247, 2010.
2. Capa do livro: Conoscer desde el Sur - Boaventura de Sousa Santos.
3. Lula da Silva, El País: Eleições 2018.
https://brasil.elpais.com/tag/luiz_inacio_da_silva/a
4. Dilma Rousseff e Chico Buarque - www.conversaafiada.com.br
5. Em Cuba, com o crítico literário Roberto Retamar, 2016.
6. Boaventura em trabalho de campo em Moçambique, em 1999. Na foto, o então juiz do Supremo Tribunal de Justiça de Maputo, João Carlos Trindade, Maria Manuel Trindade, Secretária de Estado de Modernização Administrativa e Conceição Gomes, Diretora Executiva do OPJ.



REFUGIADOS — ACOLHER, PROTEGER, PROMOVER, INTEGRAR

26 de janeiro de 2018

Após as duas postagens anteriores — sobre o amor fraterno e a amizade — parece-me significante retomar as palavras do Papa Francisco no Dia  Mundial da Paz. Na  sua  mensagem, ele nos convida a alargarmos o nosso olhar para além daqueles que amamos. E a  refletirmos    mais  em profundidade  na grave questão dos refugiados.

Adaptei a tradução original do site vatican.va para o português falado no Brasil. O trecho inicial das saudações às autoridades presentes  que não interfere na parte essencial da mensagem — foi omitido nesta reprodução. 

1. Votos de paz

A paz, anunciada aos pastores, na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre esses,  que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração,  quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. 

Esses refugiados, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz». Em busca desse lugar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa. Sujeitam-se a fadigas e sofrimentos, e enfrentam arames farpados e muros erguidos para os manter longe da sua meta.

Abertos à misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental. Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz, numa casa segura.

Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e benefícios, uma atenção vigilante e abrangente. E também a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar ao grande número de problemas já existentes, bem como recursos que são sempre limitados. 

Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar essas pessoas, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos ao bem da própria comunidade, retamente entendidos, a fim de  favorecer-lhes a integração». (Neste sentido,) os governantes têm uma responsabilidade precisa diante das suas próprias comunidades, e devem assegurar-lhes os justos direitos de um desenvolvimento harmônico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?


Na mensagem para idêntica ocorrência — no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, — São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, e “limpezas étnicas”», que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira mudança: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas.

As pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir». Elas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar desses direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato Si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».

A maioria das pessoas migram seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, quase sempre por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e quando todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.

Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos desejam respeitar o princípio da tutela de todos os seres humanos.

Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidades para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo

A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Essas palavras propõem-nos a imagem da Nova Jerusalém. 

O livro do profeta Isaías (cap.60) e Apocalipse (cap.21) descrevem a Nova Jerusalém  como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admiram e a enchem de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.

Precisamos lançar esse olhar contemplativo, também sobre a cidade onde vivemos. "Um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (...), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, e de justiça". Em outras palavras, realizando a promessa da Paz.

Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e desse modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Um olhar que também vislumbre a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive em países onde não sobram recursos.

Quem estiver animado por esse olhar será capaz de reconhecer os rebentos de paz que já estão a despontar e cuidará do seu crescimento. Transformará em canteiros de paz as nossas cidades, frequentemente divididas e polarizadas por conflitos que se referem precisamente à presença de migrantes e refugiados.

4. Quatro pedras miliárias (indispensáveis) para a ação


Oferecer àqueles que pedem asilo,  refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano — uma possibilidade de encontrar a paz de que estão à procura, exige uma estratégia que combine quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar.

«Acolher»  é uma atitude que faz apelo à exigência de ampliação das possibilidades de entrada legal, de não repelir refugiados e migrantes para lugares onde os aguardam perseguições e violências, e de equilibrar a preocupação pela segurança nacional com a tutela dos direitos humanos fundamentais. Recorda-nos a Sagrada Escritura: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos».

«Proteger»  Lembra o dever de reconhecer e tutelar a dignidade inviolável daqueles que fogem de um perigo real em busca de asilo e segurança, e de impedir a sua exploração. Penso de modo particular nas mulheres e nas crianças que se encontram em situações em que ficam mais expostas aos riscos e aos abusos que chegam até ao ponto de torná-las escravas. Deus não discrimina: «O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva».

«Promover»  Alude ao apoio para o desenvolvimento humano integral de migrantes e refugiados. Dentre os numerosos instrumentos que podem ajudar nesta tarefa, desejo sublinhar a importância de assegurar às crianças e aos jovens o acesso a todos os níveis de instrução. Deste modo, poderão não só cultivar e fazer frutificar as suas capacidades, mas encontrarão melhores condições para também ir ao encontro dos outros, cultivando um espírito de diálogo e não de fechamento ou de conflito. A Bíblia ensina que Deus «ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário». Daí a exortação: «Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito».

Por fim, «Integrar»  Significa permitir que refugiados e migrantes participem plenamente na vida da sociedade que os acolhe, numa dinâmica de mútuo enriquecimento e fecunda colaboração e na promoção do desenvolvimento humano integral das comunidades locais. «Portanto – como escreve São Paulo – já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus».

5. Uma proposta para dois Pactos Internacionais

Almejo, do fundo do coração, que seja este espírito a animar o processo que, no decurso de 2018, levará à definição e aprovação, por parte das Nações Unidas, de dois pactos globais: um deles para as migrações seguras, ordenadas e regulares; um outro referido aos refugiados. 

Enquanto acordos partilhados no âmbito global, esses pactos representarão um quadro de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por isso, é importante que sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da Paz. 

Só assim, o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença. De fato, o diálogo e a coordenação constituem uma necessidade e um dever próprio da comunidade internacional. Mais além das fronteiras nacionais, — e se a cooperação internacional lhes disponibilizar os fundos necessários — será possível também que países menos ricos possam acolher um número maior de refugiados ou acolhê-los melhor.


6. Em prol da nossa casa comum

Inspiram-nos as palavras de São João Paulo II: «Se o "sonho" de um mundo em paz é partilhado por tantas pessoas, se se valoriza o contributo dos migrantes e dos refugiados, a humanidade pode tornar-se sempre mais família de todos e a nossa terra uma real “casa comum”». Ao longo da história, muitos acreditaram neste "sonho", e as suas realizações testemunham que não se trata de uma utopia irrealizável.

Franciscus



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AMIZADE - AMOR QUE VAI SEM ESPERAR A VOLTA

17 de janeiro de 2018

Chegou ao meu celular um agradecimento aos amigos, lembrados como "pessoas que deixam um pouquinho de si e carregam um bocadinho de nós". 

Já escrevi muito, neste espaço, sobre a amizade. E gosto de ver a amizade como um novo sacramento que nos ampara no enfrentamento da vida, do jeito que ela se apresentar.  

A amizade nos permite dividir, com outros, os momentos mais difíceis de suportar sozinhos. E nos a multiplicar, de forma prazerosa, a alegria dos dias de regozijo, e o bem-estar do afeto profundo por pessoas que antes não conhecíamos. 

Você já notou como  nos momentos de tristeza  só temos vontade de ficar a  sós, e só nos abrimos à companhia dos amigos?


O amigo pode ser  o pai ou a mãe, um filho ou uma filha, um irmão ou irmã, um colega de trabalho... alguém que conheci no elevador do condomínio, numa viagem, na universidade, na fila do ônibus, ou na festa de outro amigo. E assim se tornam  pessoas especiais, a quem o  o tempo oferece — e a nós também — a liberdade e o direito de partilhar a vida. 

Manifestar a gratidão pela amizade é reconhecê-la dom maior, é agradecer à vida por nos fazer experimentá-la e sermos dignos dela. 

Mas, é imprescindível  reconhecer que a amizade é uma das faces do amor. Portanto, é verdadeira quando somos estimulados tendo recebido, ou não, a atenção de afeto do outro — a lhe oferecer a nossa atenção, o nosso afeto, o dom que transborda, sem jamais fazer medições de nenhuma espécie.

O amigo é alguém de quem se reconhece a presença fraterna, atenciosa, cuidadosa — e, ao mesmo tempo, com o mesmo dinâmico movimento também nos leva a fazer gestos concretos de comunhão com a sua dor, e de partilha das alegrias e dos bens da vida.  

Nas minhas lembranças da exuberante época da música popular brasileira, Gilberto Gil produziu "Grão", Milton nos deliciou com "Maria" e cantou: "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves"... Muitos outros emprestaram o dom da música para cantar essa dádiva rara da vida, que é o amor configurado em troca comum do bem-querer. 


Leonardo Boof se referiu à dádiva do amor fraterno e amigo, chamando-a "carícia do afeto". E quando Jesus de Nazaré falava desse movimento amoroso pelo outro, dizia que deveria ser igual ao amor que se tem por si mesmo.

Há que se aprender a não ficar à espera que alguém cuide de mim, do meu bem-estar, da minha saúde, das minhas decepções. O amor requer que eu tenha, como prioridade, o cuidado comigo mesmo.

O que acontece, então? Eu cuido de mim para continuar a ser capaz de ensejar uma existência agradável ao outro. O que está longe de ser um ato egoísta de exclusão, mas de cuidado comigo, em o benefício daqueles que amo. 

Desse modo a amizade se torna uma atitude de amor que vai, sem esperar a volta. E não só. Como ensinava Jesus, o Nazareno  fazendo de modo que a  a mão direita não veja o que a esquerda realiza. 


Assim, ser amigo não é, simplesmente, esforçar-se para retribuir o favor ou o benefício que alguém me fez — este é um digno gesto de "civilidade", e chama-se gratidão. Ser amigo, é me colocar na vida como um dom para o outro, assim como ele é, seja lá o que me fez ou deixou de fazer. E em qualquer circunstância da vida. 

Ao experimentar a amizade,  aprofundamos, em nós, o necessário aprendizado do amor fraterno, alargado a todos, e os gestos pessoais e sociais da compaixão.  

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*Texto de Vanise Rezende

As imagens são exclusivas do "Espaço Poese".

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APRENDER UM NOVO JEITO DE VIVER

7 de janeiro de 2018


Volto a falar de Ano Novo, enquanto 2018 escorrega ligeiro pelas horas dos dias que talvez já voltaram a ser como o viver das horas comuns.

Pode ser que a casa tenha sido revestida de novas cores, como se costuma fazer ou é possível para alguns. Talvez foi renovado o guarda-roupa com novas peças, além de  bolsas e sapatos. E, nas varandas e terraços, terão chegado lindas plantas para alegrar a vida e colorir o ambiente.  



Mas, resta uma questão: 

O que fizemos de novo por nós, e pelos que estão ao nosso redor?


O costume de tornar a casa mais limpa e bonita, no Ano Novo, poderia também nos atiçar o desejo de fazer algo para renovar a nós mesmos. O empenho para revestir a casa de novidades, não seria o nosso desejo de abrigar gente nova?

Como primeiro passo eu poderia me liberar dos acúmulos inúteis no meu guarda roupa, na minha sapateira, nas gavetas e caixas dos meus armários.

Todos estamos de acordo que não serve acumular papéis. E há muitos que já aprenderam a rasgá-los e separá-los para serem aproveitados no lixo dos reciclados. Mas, que tal se também pudéssemos aprender a revisar as próprias roupas, bolsas e sapatos? Roupas que não se veste mais, que foram usadas por muito tempo e que são esquecidas e restam acumuladas nos armários.  

Nos dias de hoje, - com tantas pessoas empobrecidas e desempregadas em nosso país - seria uma ato de justiça promover a repartição daquilo que nos sobra, que não nos serve mais. 

Para que me serve o acúmulo de peças – como se fosse um velho museu de nós mesmos – enquanto outras pessoas, que não têm o que tenho, estão precisando delas como coisas indispensáveis? 

Esta é uma reflexão a ser feita, pensando-se no gesto necessário de construir leveza ao nosso redor, em busca de nos aprofundar no essencial, naquilo “que as traças não roem”.

Ao nos esforçar para manter a casa agradável,  sentiremos nos renovar com atitudes mais justas e fraternas, com gestos de amorosa  atenção pelo outro. Assim, tornamos a nossa "casa" interior mais leve e acolhedora.

   
    
  
  Também os armários da cozinha podem estar socados de utensílios que não servem para o próprio uso, mas estão faltando a outros.

c  O “quarto de despejo” que muitos usam em casa, talvez seja um modo indevido de acumular, e de não se desfazer das coisas que lhes sobram. Coisas que ficam ajuntadas, pedindo socorro em nome daqueles que precisariam recebê-las. 

Tudo isso nos instiga a recordar que há sempre alguém à espera do meu dom.

Há pessoas simples que passam diante do nosso edifício ou casa, com uma carroça cheia de quinquilharias... Vão carregando as sobras, pelas ruas da cidade, e as levam para revender. O resultado é um pouco mais de bem-estar para os seus, com o dinheiro que arrecadam. E outras pessoas têm a possibilidade de adquirir coisas mais baratas, com a revenda do que foi doado. Os porteiros sabem muito bem o dia em que o carroceiro passa em busca das nossas sobras. 

Se não for o carroceiro, há organizações que pegam, em nossas casas, móveis e objetos ainda usáveis – mesmo em condição de reforma ou conserto  como fazem os Trapeiros de Emaus. E tudo é repassado para o uso dos que precisam.

Feito isto, restam outras questões para os primeiros dias do ano.

 Como fazer para olhar a minha vida, a partir de hoje, com um olhar  energizado de esperança?
 O que devo aprender para superar os meus limites e tomar decisões que me levem a aprender a viver melhor? 
 Que fazer para não desistir do curso que ainda não fiz e para tomar atitudes concretas em benefício da paz comigo mesmo e com os outros? 
 Como posso iniciar a colaborar com outras pessoa, que não receberam o que recebi da vida, e que teriam o direito de alcançar a sua dignidade e de realizar o seu sonho?


O bem-estar da minha vida, a minha saúde emocional, é proporcional ao que sou capaz de fazer para o bem-estar dos que me estão próximos. 

Não me refiro a grandes projetos sociais, mas a atitudes de mudança  pessoal que ajudarão a vitalizar, as  minhas relações em casa, na família e no trabalho.





Ajudaria, também, iniciar fazendo um exame sincero do que há por fazer, e dar os primeiros novos passos. E realizar o que sou capaz agora. O que é possível agora. O que me ocorre agora, mesmo que seja uma pequena ação em favor de alguém. 
Por exemplo: de um dos meus dependentes, no trabalho, de uma pessoa amiga, da minha empregada doméstica, do  motorista que está a meu serviço, do meu colega de profissão, de um dos meus filhos, do meu pai ou da minha mãe.  

Não falo de sermos bonzinhos, de cuidar "dos pobrezinhos, coitados"... Não se trata de ter pena, mas doar, partilhar, cooperar. E tratar o outro com justiça, atenção e cuidado. O cuidado que vai além do dever, sem enganação, e que é sugerido pela consciência dos direitos de cada um e da fraterna convivência. E, por que não dizer: do amor que me leva a dar, sem esperar retorno. 


Refiro-me às relações sinceras, às atitudes carregadas da convicção de que somos todos irmãos. Qualquer que seja a nossa crença. 

Não é justo, viver achando que uns têm têm sorte na vida ou se esforçaram para conseguir o que queriam, e que os outros foram jogados na vida para servirem e serem submissos.

O que há na sociedade atual é uma imensa desigualdade. Uma uma injusta distribuição de bens. É a grade escassez de solidariedade, de um olhar fraterno sobre o outro, sem os julgamentos que aprendemos e que não gostaríamos que fizessem de nós. Há uma urgente necessidade de se reconstruir os laços fraternos entre as pessoas, e não apenas entre os iguais e os que julgo merecedores.  

Um novo passo  aquele que agora posso dar  me levará a conseguir coisas impensadas, como, por exemplo, aprender a sair da minha tristeza, e dos dias que me deixam depressivo, pois estarei aprendendo a amar. O gesto do amor reconstrói o tecido da paz e da fraternização entre as pessoas. E não é um amor de sentimentos, mas um amor de fato. 

Sem esquecer que, para poder ter, preciso aprender a dar, para que eu seja ouvido preciso aprender a escutar, para que eu seja perdoado também preciso perdoar, para aliviar a minha dor preciso buscar, com sinceridade – dentro e fora de mim – o que posso fazer agora pela dor dos outros, que talvez precisem mais do que eu.

O Ano Novo é uma excelente ocasião para que eu comece a me sentir alegre, um pouco que seja... Mesmo quando o entorno é triste, o país segue em derrocada, e seja necessário lutar para reconstruir tudo de novo. Pois o tecido da Paz é feito de atos sinceros de amor.  Aprendendo, no dia a dia, um novo jeito de viver! 

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Texto de: Vanise Rezende

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