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BRASIL - PRECISA-SE DE HUMANOS

16 de abril de 2018








Ali, Marielle e Marisa Letícia: vítimas da ignorância. 



Reproduzimos um oportuno e incisivo artigo de Magali do Nascimento Cunha, que nos convida a pensar e experimentar  o testemunho de uma convivência mais humana, nesses tempos de ódios, interesses e descalabros.


Por: Magali do Nascimento Cunha 
Fonte: Carta Capital - 12/04/2018


As mídias digitais necessitam 
com urgência de um choque
de humanidade.

Quando nos referimos ao humano, não ficamos apenas na ideia do homo sapiens (humano sábio) e da humanidade como conjunto dos seres humanos. Consideramos também a ótica da natureza, dos traços diferentes que homens e mulheres tendem a demonstrar, que incluem maneiras de pensar, sentir ou agir, que formam virtudes e fraquezas.
Nesse sentido, referimo-nos ao humano, em nossa vida coletiva, por suas virtudes, como sinônimo de bondade, amor, piedade, coragem, respeito, compreensão para com os outros, especialmente aquelas de fora do círculo de convivência.
Assim dizemos que alguém “é muito humano” para destacar a capacidade que ele tem de simpatia pela realidade de outros, especialmente aqueles em situação vulnerável e ser aberto a compreender o que não é parte do seu jeito de ser. Humanidade é o termo que também usamos para o que é e deve ser cultivado neste sentido por homens e mulheres.
Quando nos deparamos com situações que mostram o oposto disto, ou seja, crueldade, indiferença ao mal, violência dura e friamente praticada, de forma física ou simbólica, usamos o termo “desumano” ou “desumanidade”.  
Entretanto, há ainda outra qualificação que podemos atribuir àqueles homens e mulheres que vão além do desumano. Quando se mostram desprovidos de sentimentos de respeito, consideração, amor, generosidade, por meio de atitudes que revelam a ausência da identidade humana. Chamamos estes homens e mulheres que não se apresentam como humanos de “inumanos” ou revestidos de “inumamidade”.
Esta reflexão me ocorre por conta deste tempo que vivemos no cristianismo, a Páscoa, o período de 50 dias depois do domingo em que recordamos a ressurreição de Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado pelo Império Romano com anuência do poder judaico.
Ainda ecoam nos meus pensamentos que Jesus, depois de um julgamento injusto, baseado em convicções, finalizado por um ‘juiz’ que lava as mãos, depois de receber a pena de morte, de ser torturado, receber na cabeça uma debochada coroa de espinhos e ser pregado com pregos numa cruz de madeira, teve que ouvir do público que se deleitava com a crueldade e a injustiça: “Desce da cruz. Salva-te a ti mesmo”.
Quem, mantida viva a sua identidade humana, não se indigna quando lê ou assiste a uma narrativa deste episódio que mostra tanta inumanidade.
Como não pensar no nosso próprio Brasil. Em agosto do ano passado, o refugiado sírio Mohamed Ali, vendedor de esfihas em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi agredido por um homem, com apoio de outros, que derrubou sua mercadoria e gritava: “Saia do meu País. Eu sou brasileiro e estou vendo meu País ser invadido por esses homens-bombas que mataram, esquartejaram crianças, adolescentes. São miseráveis... Essa terra aqui é nossa. Não vai tomar nosso lugar não". As cenas se encerraram com o agressor entoando: "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor".
Neste março, o torcedor do Palmeiras William de Lucca criticou, no Twitter, os cantos da torcida do seu time contra a do São Paulo, carregados de homofobia. Após a repercussão, o jovem deu uma entrevista a um programa de tevê e emocionou o comentarista Walter Casagrande, que fez um desabafo, ao dizer que a dor é parecida de quando ele é ofendido por histórico de dependência química. “O que me ofendem nas redes sociais, me chamam de viciado, drogado… Não posso falar nada de ninguém por causa do meu passado. Quem sou eu para falar de alguém se fiquei internado. Eu sofro isso diariamente”.
Em janeiro de 2017, a médica reumatologista Gabriela Munhoz enviou mensagens a um grupo de Whatsapp de antigos colegas de faculdade, confirmando que a ex-primeira dama Marisa Letícia estava no pronto-socorro do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, com diagnóstico de Acidente Vascular Cerebral hemorrágico gravíssimo, prestes a ser levada para a UTI.
Um colega de Gabriela, o médico residente em urologia Michael Hennich, postou, quando ela disse que Marisa não tinha sido levada, ainda, para a UTI: “Ainda bem”. Gabriela respondeu com risadas.
Outro médico do grupo, o neurocirurgião Richam Faissal Ellakkis, também comentou: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima”, escreveu, em referência ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue em determinado local. “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu Ellakkis.
Nesta semana, tomamos conhecimento de um áudio vazado na internet, autêntico, segundo a Força Aérea Brasileira, em que alguém, sem se identificar, diz ao piloto que levava Lula para Curitiba: “Leva e não traz nunca mais”, "manda esse lixo janela abaixo”. O áudio foi curtido e aplaudido por milhares.
Estes comportamentos se assemelham à repercussão da execução da vereadora Marielle Franco há um mês. Houve comoção e movimentos de rua em solidariedade à família e ao povo do Rio de Janeiro, mas houve também expressões públicas que a classificaram como “vagabunda safada” e afirmaram que “teve o que procurou”, entre outras menções inumanas diante da situação dramática.
Estes são exemplos recentes, graves, cujos casos ganharam destaque nas mídias. Poderíamos tratar aqui de muitos outros, com gente simples, como a hostilidade a imigrantes, a homofobia transformada em violência física, o escárnio em relação a quem vive no limite da vida, como moradores de rua, dependentes químicos, indígenas. É alarmante identificarmos entre os inumanos jovens e até crianças.
Torna-se um alívio quando lembramos que ainda há muita gente humana que mostra que a humanidade tem jeito, sim. Vocês, leitores e leitoras, podem exercitar a lembrança de histórias. Precisamos torná-las mais conhecidas e visíveis, e, com isso cultivarmos e alimentarmos as virtudes da humanidade entre nós. Isto tem que ser feito a começar da nossa presença nas mídias digitais: elas precisam de um choque de humanidade.

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Fonte do texto: Carta Capital – Diversidade/Sociedade - Brasil 2018: 
Precisa-se de humanos
Publicado em 12/04/2018

Créditos imagens: foto reproduzida no artigo acima.

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BRASIL - O SURPREENDENTE LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA

9 de abril de 2018











Os grandes líderes da humanidade, na nossa época - que não viveram para si, mas carregaram a ventura e o peso da história e das vicissitudes do seu povo - provocaram, no percurso de suas vidas, momentos de grandes transformações  e, de consequência, de lutas, de revezes e de "ressurreição". 
Muito já se viu  em reportagens, filmes e livros que registram  as histórias de pessoas que não passaram despercebidas no seu país ou na história mundial.
Quem não ouviu falar de Ghandi, Luther King, San Martín, Simón Bolívar, Khomeini, Che Guevara, Mandela e muitos outros, como os abolicionistas brasileiros André Rebouças, Castro Alves, José do Patrocínio, Maria Firmino dos Reis, Maria Josephine Durocher e Chiquinha Gonzaga? 
Quem não sabe da feminista Beth Friedan? Ou de mulheres que se afirmaram como filósofas e políticas como Simone Well, Hannah Arendt e da professora premiada Hanan Al Hroub? 
Quem não conheceu a vida da comunista Olga Benario, vítima da ditadura Vargas? Como desconhecer, na história do Brasil, o esforço de lideranças como João Pedro Stédile, no Movimento dos Sem Terra, e Guilherme Boulous, no Movimento dos Sem Teto?
Há, também, muitos registros do trabalho político de mulheres brasileiras como Dilma Rousseff, que conquistou dois mandatos presidenciais, e foi punida com um baixo golpe político; ou Benedita da Silva, que liderou a aprovação dos direitos das domésticas na Câmara dos Deputados; Marielle Franco, a vereadora ex-favelada que morreu lutando em favor dos direitos humanos; e a prática  política de Luciana Santos do PCdoB, Manuela D´Ávila do PCB, e Gleisi Hoffman, atual presidente do Partido dos Trabalhadores.
São inúmeras as pessoas que marcaram, e ainda marcam a sua época, por se envolverem com questões ligadas aos direitos humanos e a atenção pelos  pobres. 
Mas poucos conseguiram marcar a história do Brasil como o nordestino pobre, que não concluiu a escola básica, mas conseguiu afirmar-se como um  grande  sindicalista e a presidência da república, por dois mandatos - reverenciado em todo o mundo: Luís Inácio Lula da Silva. 
Suas recentes palavras,  pronunciadas de forma espontânea, antes de apresentar-se à Polícia Federal, voaram como o vento em todo o planeta, e o agigantaram diante dos seus apequenados pilatos.
Tão espontâneo e aparentemente tranquilo, ele estava, que chegou a parar o seu discurso para dizer que alguém, na multidão, que precisava de socorro. 
Na sua história, Lula encontrou muitas pedras pelo caminho. Até o enfrentamento desse golpe, engendrado por aqueles que não querem vê-lo novamente no Palácio do Planalto. O caminho para evitar tal desastre, não podia ser a democracia, a escolha direta pelo voto dos eleitores. Pelo voto, sabiam que estariam perdidos. Optaram por um acordo baixo, um golpe impiedoso, que condenou um homem por crimes de cuja autoria não se encontra provas. 
Mas a sua prática militante, a persistência com que ainda lidera a maioria da população brasileira, a expressiva vigília de milhares e milhares de pessoas que o acolheram, em São Bernardo, numa manifestação sem precedentes, são fatos que demonstram o seu carisma, e geram um testemunho de uma força significante. Eram milhares os que o cercavam carregando-o nos braços. Milhares e milhares os que o seguiram ao vivo pela internet.  
São inúmeros os sinais de apoio  contundentes, a Lula, em todo o mundo, que não foram considerados nas maquinações de medo contrárias à democracia brasileira.     
O fato que poderia parecer uma humilhação, provocou uma notícia fenomenal. 
Hoje, os jornais anunciam  que oito governadores do Nordeste pretendem visitá-lo no local da prisão, em Curitiba. 
E a grande vigília continua, continuam as manifestações e campanhas, iniciadas em todo o Brasil. Muitas pessoas se revezam em Curitiba, diante do local onde ele se encontra.  
Os gestos de Lula, e seu compromisso com o povo do seu país, voltam a enobrecer o Brasil mundo afora. Embora, ao mesmo tempo, estamos envergonhados e indignados com a  decisão da sua prisão. Esse fato teve enorme ressonância na imprensa internacional, como se pode ver em notícia da redação de Carta Capital, abaixo reproduzida.
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O discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o ato ecumênico em homenagem ao aniversário de sua esposa Marisa Letícia, em frente a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na manhã do sábado 7, foi destaque na imprensa de todo mundo. Para além da repercussão internacional do ato político que precedia a prisão de Lula, jornais internacionais cobriram in loco a comoção popular e o xadrez quem envolvia a rendição do ex-presidente à Polícia Federal.
O assunto está nas primeiras páginas e é um dos principais temas das agências internacionais de notícias. A foto de Lula, cercado por uma multidão em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, tirada por Francisco Proner, foi distribuída pela Reuters para todo o mundo e reproduzida em jornais influentes, como o inglês The Guardian e o canadense The Globe and Mail.
As palavras-chave são a rendição do maior líder da esquerda brasileira, que está à frente na corrida presidencial, a transformação de Lula em preso político e a desconfiança e crítica sobre o sistema judiciário do país. O material produzido pelas agências de notícia: AP, Reuters, Bloomberg, AFP, EFE, DW e Prensa Latina ganhou o mundo. Vários despachos foram sendo atualizados ao longo do dia. 
O americano The New York Times traz longa reportagem assinada pelos correspondentes Manuel Androni, Ernesto Landoño e Shasta Darlington, com foto de Lalo de Almeida, destacando que Lula se rendeu para cumprir pena de 12 anos de prisão. “Sua prisão é uma reviravolta ignominiosa na notável carreira política de Lula, filho de trabalhadores rurais analfabetos que enfrentou os ditadores militares do Brasil como líder sindical e ajudou a construir um partido reformista de esquerda que governou o Brasil por mais de 13 anos”, diz a reportagem.
Os correspondentes do NYT relatam que antes de se render às autoridades policiais federais, Lula, 72 anos, acusou promotores e juízes de intencionalmente persegui-lo com um caso infundado. “Eu não os perdoo por criar a impressão de que sou um ladrão”, disse um indignado Lula, rouco, diante de uma multidão reunida do lado de fora do sindicato de metalúrgicos. A reportagem destaca que, durante horas no sábado, em um impasse tenso, seus fervorosos defensores haviam bloqueado fisicamente sua rendição, antes de finalmente permitir que ele partisse.
O americano Washington Post informa que Lula se entregou à Polícia Federal, mas disse que, mesmo encarcerado, vai fazer campanha política. Segundo o jornal, que destaca em foto Lula sendo levado nos braços do povo no berço do sindicalismo brasileiro, a prisão “intensificou o drama político na maior nação da América Latina”. De acordo com o texto dos correspondentes Marina Lopes e Anthony Faiola, a cadeia transformou um homem que o presidente Barack Obama chamou de “o político mais popular da Terra” no prisioneiro mais famoso da região.
O inglês The Guardian reproduz a foto distribuída pela Reuters com Lula cercado pela multidão e destaca em manchete: “Lula inicia sentença de prisão no Brasil depois de se entregar à polícia”. Segundo o diário, o ex-presidente promete provar sua inocência da corrupção depois de encerrar um impasse de dois dias com as autoridades.
“Faça o que quiser, o poderoso pode matar uma, duas ou 100 rosas. Mas eles nunca conseguirão impedir a chegada da primavera”, discursou o líder político. O jornal canadense The Globe and Mail destaca em primeira página que Lula foi para a cadeia, “mas aqueles que ele defendeu lamentam o fim de uma era”, publicando também a foto de Francisco Proner, distribuída pela Reuters.
Mas para outros, a prisão de Lula é um fim devastador para uma era de um tipo diferente de política. “Lula trouxe um poder para os pobres brasileiros - as pessoas foram viver acima da linha da pobreza, pessoas que nunca tinham estudado começaram a estudar, trabalhadores domésticos tiveram direitos quando antes eram todos escravizados", disse Elisa Lucinda, uma proeminente atriz, poeta e cantora. “Era um Brasil que nunca havia sido visto antes e agora vai desaparecer novamente”.
O site russo Sputnik reporta que Lula se entregou à polícia. Os muitos despachos ao longo do dia foram reproduzidos em outras línguas, inclusive nos serviços em espanhol e português. Em um dos destaques no site, reportagem relata que embora tenha sido condenado por subornos, a Justiça não apresentou provas e que o ex-presidente é líder inconteste nas pesquisas de opinião para voltar ao poder nas eleições previstas para este ano. “A direita brasileira joga com fogo”, destaca. 
A emissora de TV Russia Todaydestacou no final da noite que Lula acabou com o impasse e se entregou à polícia. A reportagem aponta que, antes de se entregar, Lula se dirigiu a uma audiência de milhares de pessoas que estavam nas ruas de São Bernardo do Campo e discursou: “Quanto mais dias eles me deixarem (na cadeia), mais Lulas nascerão neste país”. A multidão gritou: “Libertem Lula!”.
Na Argentina, o jornal Clarín destacou em manchete de primeira página, que Lula já está preso em Curitiba para cumprir sua pena por corrupção. Outro jornal argentino, o Página 12, aponta que a detenção de Lula é um segundo golpe que o país vive, e que, durante todo o dia, o líder do PT recebeu o apoio e solidariedade de milhares de militantes e simpatizantes. 
Ele falou à multidão, onde disse que o único crime que cometeu “foi tirar milhões da pobreza” e que o golpe que começou com a deposição de Dilma Rousseff terminou com a decisão de impedi-lo de ser candidato à Presidência. Também o La Nación destacou em primeira página que Lula já está na sede da PF em Curitiba, onde cumprirá sua pena. 
Agências internacionais
Matéria da AP, reproduzida em 10,6 mil sites noticiosos, relatou que Lula foi levado no início da noite sob custódia policial, depois de um confronto tenso com seus próprios partidários e três intensos dias que de fortes emoções por causa do seu encarceramento.
“Apenas algumas horas antes, Lula disse a milhares de partidários que se entregaria à polícia, mas alegou inocência e disse que sua condenação por corrupção era simplesmente uma maneira de os inimigos garantirem que ele não fugisse – e possivelmente vencesse – as eleições presidenciais de outubro”, diz o texto assinado por Maurício Savarese e Peter Prengaman.
Reportagem da AFP relata a tensão no final de sábado da saída de Lula da sede do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, apontando-o como favorito da eleição presidencial de outubro. O despacho destaca que “Lula se considera vítima de uma trama da elite para impedir que concorra a um terceiro mandato”. O jornal traz declaração forte do ex-presidente: “A obsessão deles é ter uma foto do Lula prisioneiro”, disse. O material foi replicado por 3,7 mil veículos de imprensa no mundo.
A agência espanhola EFE, em despacho divulgado no final de sábado, relatou que Lula pôs fim à sua resistência e já estava nas mãos da Polícia Federal, destacando trecho do seu discurso em que confessou ter cometido um delito. “Eu cometi um crime: trazer os pobres para a faculdade, o que lhes permite comprar carros, eles têm alimentos”. “Serei um criminoso pelo resto da minha vida”.
Texto, vídeo e fotos foram reproduzidos em 2.590 sites e veículos noticiosos em todo o mundo.
Texto da Reuters, com a foto de Lula cercado pela multidão de simpatizantes e militantes de esquerda no pátio do sindicato onde começou sua vida política, foi reproduzido em dezenas de sites de notícias. A reportagem aponta que Lula se entregou à polícia, acabando com o impasse, no início da noite de sábado. Segundo a agência, “a prisão de Lula remove a figura política mais influente do Brasil, líder da campanha presidencial deste ano”.

O texto especula que isso poderia aumentar as chances de um candidato centrista prevalecer. O despacho da agência foi reproduzido por 2.480 sites e jornais, inclusive o The New York Times. 

A Deutsche Welle, agência alemã, deu em manchete que “o ex-presidente brasileiro Lula está na prisão”, que o primeiro prazo ele havia deixado passar, no sábado os seus seguidores impediram a sua detenção, mas o líder condenado por corrupção foi levado afinal por policiais. “Vários pedidos para permanecer em liberdade até o final do apelo foram negados”, relata a agência alemã. “Lula também pediu ao Comitê de Direitos Humanos da ONU em Genebra uma liminar para evitar a detenção”.

Jornais europeus
O diário espanhol El País deu manchete de primeira página para a prisão de Lula, destacando no título trecho do discurso do ex-presidente: “A morte de um combatente não para a revolução”. Segundo o jornal, o líder petista foi para a prisão no final da noite de sábado, condenado a 12 anos de prisão, mas que falou antes a uma multidão: “Não sou um ser humano mais. Eu sou uma ideia. E as ideias não se encerram”.
O jornal francês Le Monde, por exemplo, em editorial na edição de sábado avalia que, mesmo Lula tendo caída em “desgraça” a Justiça brasileira terá que provar ao mundo que sua mobilização contra a corrupção é capaz de atingir também a outros grupos políticos. “A Operação Lava Jato deve demonstrar ao país que a prisão de Lula não é um ato político”, aponta o editorial. 
“A prisão daquele que continuará sendo um dos dirigentes mais marcantes da história do país não significa o fim dos processos. (...) A Lava Jato precisa ter a mesma severidade com outros caciques de partidos do centro e da direita”. E cita o ex-presidenciável tucano Aécio Neves, “suspeito de corrupção passiva e obstrução da justiça”, estranhando que “seu caso ainda não foi examinado pela Suprema Corte”. 
Em reportagem da correspondente Claire Gatinois, o Le Mondedestacou que Lula se rendeu à polícia, abrindo a notícia com a declaração do ex-presidente para “uma multidão em lágrimas” de que “podem matar um combatente, mas a revolução continua". “Ofegante e animado”, descreve a jornalista, “o velho confirmou a sua rendição”.
O tradicional jornal Liberationquestionou em sua edição de domingo se a ida de Lula para prisão poderia ser interpretado como “um golpe de misericórdia na esquerda latina”. Ouvindo especialistas, o jornal relata que Lula é o candidato da esquerda reformista – “não revolucionária” – a mais amigável em relação aos mercados. 
“O resultado é que ele vai tornar-se radical”, analisa Patricio Navia, orientador acadêmico do Centro de abertura e desenvolvimento da América Latina (Cadal). Fontes ouvidas pelo jornal avaliam que a esquerda terá grandes dificuldades em voltar, mas que “enquanto as sociedades da região da América Latina forem marcadas pela pobreza, desigualdade e exclusão social, sempre haverá um desafio para mudar o status quo”.
O jornal L’Humanité aponta um “golpe judicial e militar contra Lula”, reforçando o argumento da esquerda brasileira de que o ex-presidente está sendo perseguido. “O Supremo Tribunal do Brasil rejeitou na quarta-feira a libertação do ex-presidente Lula, que é o candidato presidencial em outubro. Contra o pano de fundo das ameaças do exército”, resume. O também francês Le Fígarodestacou que Lula anunciou que aceitava a sua prisão, mas a matéria ressalta que ele contestou as acusações que pesam contra si e disse que vai provar que seu julgamento é um “crime político”. 
Em outro despacho no mesmo jornal, o destaque foi a reportagem da agência France Press, também reproduzida no diário Le Progress,noticiando que, no final da tarde de sábado, Lula foi impedido de se entregar pelos simpatizantes que cercavam o sindicato dos metalúrgicos, onde ele despontou sua liderança, na região de São Bernardo do Campo. O material também foi reproduzido no canal France24, nos jornais La Provence eLa Croix, no canadense Le Journal de Montreal, as emissoras de rádio DH, da Bélgica, e Radio Canada. 
O português Diário de Notícias, em reportagem do correspondente João Almeida Moreira, destacou que o último dia de liberdade de Lula, poderia ser de tristeza, com sua despedida e a missa em memória da sua falecida mulher como panos de fundo. Mas se tornou uma festa, com direito a set list escolhida pelo ex-presidente: “Asa Branca” e “O que é, o que é”, de Gonzaguinha, “Apesar de Você”, de Chico Buarque, e o samba “Deixa a Vida me Levar”, de Zeca Pagodinho.
A matéria reproduz trechos do discurso de Lula – “Eu não sou um ser humano, eu sou uma ideia, todos vocês agora vão virar Lula, eles acham que tudo o que acontece nesse país é responsabilidade do Lula, agora eu responsabilizo vocês” – e diz que o petista também citou Martin Luther King.
Na Bélgica, a RTBF manteve flashes sobre Lula e a sua iminente prisão, durante a programação de sábado.  Foram quatro destaques sobre o líder brasileiro, a última reportagem apontando que o petista foi impedido de se entregar à polícia pelos simpatizantes.
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Fonte do texto: Carta Capital - Prisão de Lula repercute internacionalmente - por: Redação. publicado em 8/09/2018
Créditos das imagens:

1. Lula entre os manifestantes, em Curitiba - Foto de Ricardo Stuckert 
2. http://www.virgula.com.br/comportamento/foto-viral-de-dia-da-prisao-de-lula-e-de-enteado-de-chico-buarque/
3. http://lula.com.br/estamos-com-lula-e-marca-da-passagem-pelo-nordeste

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PÁSCOA - NA MORTE, A NOSSA RESSURREIÇÃO - Leonardo Boff

31 de março de 2018



Neste sábado, queremos saudar os amigos que acompanham este blog com votos de profunda renovação Pascal. E lhes trago, com alegria, a reprodução de um texto de Leonardo Boff, que nos presenteia com uma certeza Pascal reconfortante:

"Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor".

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O fato maior para o cristianismo não é a cruz de Cristo, mas sua ressurreição. Sem a ressurreição, Cristo teria ficado no passado, no panteão dos mártires abnegados, sacrificados por uma grande causa, um sonho de um Reino de justiça, de amor incondicional e de total entrega a Deus. Mas nunca reuniria pessoas para celebrarem sua presença viva entre nós.

A ressurreição significa exatamente essa presença inefável de toda a realidade de Jesus, chamado por São Paulo como o “novíssimo Adão”, com um corpo transfigurado, corpo-espiritual, dentro da história humana.


A sua ressurreição não deve ser vista como a reanimação de um cadáver, como o de Lázaro, mas como a plena realização de todas as possibilidades inerentes à vida humana, dado que o ser humano é um projeto infinito, inteiro, mas ainda incompleto. 

A ressurreição representa a vida do homem de Nazaré elevado na cruz, e depois introduzida dentro da realidade divina. Pertence à fé cristã a convicção de que Cristo é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Todos nós ressuscitaremos em seguimento dele.



Mas quando? No fim do mundo que não sabemos quando vem? Ou no fim do mundo pessoal, quando cada um de nós deixa este mundo espácio-temporal?
Seguindo a linha de reflexão dos melhores teólogos atuais, sustento a tese de que nós ressuscitamos quando para nós se realiza, pessoalmente, o fim do mundo, isto é, quando morrermos. Ao morrermos somos transfigurados e ressuscitados.

Esta é seguramente a mensagem mais esperançadora que o cristianismo pode oferecer para a humanidade e para cada pessoa humana.
É a sua grandiosa colaboração antropológica. Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.
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Texto original publicado no site: LeonardoBoff.com em 30.03.2018
Leonardo Boff é teólogo e escreveu “A nossa ressurreição na morte”, Vozes 2005.

Crédito Imagens:

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AS MULHERES NA VIDA DA JESUS

24 de março de 2018


Antes de tudo, comunico que fiz uma retificação à publicação anterior, sobre Marielle Franco. Retirei a pretensa intensão do efeito afirmativo positivo de chamá-la "mulher e negra". Em verdade, ela revive na memória histórica dos nossos dias, como mulher política, e defensora  intrépida da cambaleante democracia brasileira.  

Continuando a publicação de artigos sobre a mulher, neste mês de março, alegra-nos trazer aqui um texto recente, de Leornardo Boff, sobre uma questão que nos interessa de um modo especial: que sentimentos expressou Jesus sobre as mulheres, na condição de filho, amigo, homem do seu tempo, e, quem sabe, também companheiro de vida?

Eis um texto esclarecedor,  publicado por Leonardo Boff:


Jesus, judeu e não cristão, rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se sua gesta e suas palavras, percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino, em contraposição aos valores do machismo cultural, centrado na submissão da mulher.

Na sua história se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e de perdoar, ternura para com as crianças e os pobres, compaixão para com todos os sofredores deste mundo, e abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de ABBA  paizinho querido. Viveu cercado de discípulos, homens e mulheres. Desde o início dasua peregrinação itinerante,  as mulheres o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10. Cf E.Shhlüsser-Florenza, Discipulado de Iguais, Ed. Vozes,1995).

Em razão da utopia que prega  o Reino de Deus  que é uma libertação de todo tipo de opressão, Jesus quebra vários tabus que pesam sobre as mulheres. Mantém uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente, e a sós, com uma herege samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida prostituta, Madalena (Lc 7,36-50).

São várias as mulheres que foram beneficiadas com o seu cuidado, como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), e, igualmente, a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26), e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.
Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente pobres, como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas, mas com toda a sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis, e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem o sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.
Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, ao ponto de se ver a sua ação providente, em cada detalhe da vida, como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres, com sua anima, preencheram o seu lado masculino, o animus.
Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante, e introduzem um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas sobre o amor como mútua doação, que inclui a igualdade entre homem e mulher. As mulheres irrompem como pessoas, filhas de Deus, destinatárias do sonho de Jesus, e são convidadas a serem, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.
Um dado de uma pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos  o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006)) — mostram a relação afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.
Nesse textos se diz que Ele entretinha uma relação especial com Míryam de Mágdala, chamada de “companheira” (koinónos). No Evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres” (op.cit. p.111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 questões que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míryam de Mágdala (Cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).

O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, a irmã de sua mãe, e Míryam de Mágdala que é conhecida como sua companheira, porque Míryam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006, p. 71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência nos lábios. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o quê? Por acaso não devo amá-la tanto quanto a vocês?” (Evangelho de Felipe, op. cit. p. 89).

Embora semelhantes relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos  dizem reconhecidos exegetas (Cf. A. Piñero, El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113)  excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal, intelectual e espiritual de Jesus com Míryam de Mágdala.
   
Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do homem, Jesus) e uma mulher?
Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. É o seu lado profundamente humano.

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Texto de Leonardo Boff, postado em português em 23/02/2018 e traduzido para o italiano em 01/03/2018.
Leonardo Boff escreveu: O rosto materno de Deus, Vozes 2005.

Crédito das Imagens:

1 - Santa Ana - reprodução de um particular da obra de Leonardo da Vinci, exposta, no Louvre, ao lado do famoso quadro da Monalisa.
2 - Jesus e Míryiam de Mágdala (Maria Madalena) - Foto de uma imagem pictórica adquirida no Mosteiro São João, em Campos de Jordão, sem indicação do autor - www.mosteirosaojoao.cjb.net 

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


O TESTEMUNHO POLÍTICO DE MARIELLE FRANCO

16 de março de 2018


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A informação me chegou enquanto lia o Osservatore Romano, jornal da Cidade do Vaticano:  

"Ontem à noite (15/03/2018), no Brasil, milhares de pessoas saíram às ruas para se manifestar a favor da conselheira municipal Marielle Franco, símbolo da defesa das populações das favelas, assassinada no Rio de Janeiro. O homicídio provocou uma onda de indignação no país inteiro. Uma multidão participou nas exéquias, que tiveram lugar na prefeitura. Além disso, milhares de pessoas manifestaram nas ruas de São Paulo, e protestos foram programados em mais dez cidades do país, como Salvador da Bahia, Recife, Belo Horizonte e Belém. Na noite entre quarta e quinta-feira, enquanto estava no seu carro, Marielle Franco, 38 anos, foi assassinada com quatro tiros de revólver na cabeça por um grupo de atiradores, que mataram também o seu motorista, Anderson e feriram levemente uma sua assistente, que estava ao seu lado no banco de trás do carro. No lugar do homicídio a polícia encontrou nove cartuchos.
Conselheira municipal no Rio de Janeiro, membro do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Franco era muito ativa na luta contra as desigualdades e a violência nas favelas. Pouco antes do atentado, Franco tinha participado num evento a favor das jovens negras das favelas. Vigorosa opositora dos bandos de traficantes, criticara também fortemente a ação da polícia militar, definindo o corpo especial encarregado destas operações «batalhão da morte, que mata os nossos jovens».
Reproduzimos um artigo da "Carta Maior", publicado hoje: 

Por: Roberto Tardelli

                                                   
                           "Todas as dores somadas, todas as dores vividas,                                       todas as dores que, ah, serão ainda dobradas".                                                               

Na noite de ontem (15/03/2018), no Rio de Janeiro sitiado e dominado por exércitos, oficiais e oficiosos, Marielle Franco, civil e desarmada, foi morta com uma saraivada de tiros, que também ceifou a vida de Anderson Pedro Gomes, seu motorista; os talentos revelados por quem efetuou os disparos nos dão certeza de uma execução. Um crime político, ocorrido numa rua comum, matou uma mulher que tinha todos os méritos de ter vencido todas as vicissitudes que poderia alguém enfrentar, e um homem que apenas procurava ganhar sua vida honestamente, vítimas de um atentado político, que ocorre dentro do coração do estado de exceção que tão orgulhosamente os governos federal, estadual e municipal anunciaram. O Prefeito comemorou, o Governador comemorou, o Presidente e seus ministros comemoraram, os conservadores comemoraram.
A intervenção negou tudo o que o poder, público, porque emana do povo e em seu nome é exercido, deveria fazer, que é garantir um mínimo de bem-estar a quem estivesse nos limites geográficos desse imenso pasto racista em que se transformou o Brasil.
No momento em que o exército assume a direção do estado do Rio de Janeiro, o policiamento deixa de existir e o extermínio passa a ser a única política pública vigente. Caveirões não invadem comunidades pobres para prender, senão para destruir; tiros de fuzis são desferidos, não para prender, mas para matar. Atira-se nas ruas, atira-se em escolas, atira-se em tudo o que se move. Crianças foram alvos de buscas pessoais e de tiros, balas perdidas, como se pudessem ser perdidas balas disparadas por soldados fardados; tantos são os que tão estupidamente aplaudem, hipnotizados pela Rede Globo, monopolista da informação catastrófica de todos os dias e estimuladora principal da barbárie que edita e que reduz os quase duzentos mil habitantes da Rocinha em criminosos ou ajudantes de criminosos, que transformou toda a Rochinha em território inimigo, que exigia todos os dias que providências enérgicas fossem tomadas, que a intervenção passou a ser vista como uma espécie de terrorismo do bem, aquele que busca proteger a sociedade ordeira contra a sociedade cúmplice do crime organizado.
Nenhum motivo mais havia, alimentados os ódios cotidianos, para que se fizesse o trabalho de formiguinha, chamado policiamento, mas tão somente em exterminar fisicamente o inimigo eleito: os traficantes, assim tomadas todas as pessoas que os soldados entendessem pudessem ser suspeitas, direta ou remotamente, notadamente de integrar associações criminosas. Sabia-se de antemão, sob pena de renúncia prévia ao sistema nervoso central, que seria impossível fazê-lo sem que a ordem jurídica ou o que dela restasse fosse destruída, e as ruas fossem transformadas em campos de batalha.

Tantos tiros e tantas mortes, o cheiro de sangue logo despertaria as matilhas de sempre: matar vicia, me disse certa vez um policial de grupos de extermínio. Farda, treinamento, munição, autoridade, mistures tudo isso em uma mente assassina e terás o perfil de quem matou tão covardemente

Marielle e Anderson. A ausência inteira e deliberada de legalidade gera narco-milicianos, que se confundem com os soldados da força de paz. A dificuldade de combatê-los é que eles estão nas entranhas do poder oficial, são amigos daqueles que os deveriam perseguir.
Afirmo que os tiros que mataram Marielle e Anderson foram disparados no âmago da intervenção militar, são tiros da intervenção militar, são tiros disparados no caudal conceitual da intervenção militar que separa, maniqueísta, a cidade entre os amigos e aliados (os que aprovam e lambem a intervenção) e inimigos e infiltrados (aqueles que a criticam e a desaprovam). Quem matou, estava seguro de que eliminava uma inimiga, militante de direitos humanos, que protestava contra mortes inexplicáveis, praticadas pelas forças militares de invasão.
Além dos executores materiais do crime (aqueles que efetivamente atiraram), há outros culpados e são todos aqueles que realizaram a intervenção, que, doravante, terão que lidar com uma epidemia de assassinatos, que ocorrerão, não mais nas beiradas das autoridades públicas, uma vez que a morte de Marielle e de seu motorista Anderson foi uma clara mensagem a quem quiser seguir os passos corajosos e destemidos dela. Se não se estancarem imediatamente essas mortes, será criada uma cultura de matança, esta, sim, inteiramente incontrolável. Já vimos esse filme nas periferias de São Paulo.

Morrerão os pretos, os favelados, assassinados pelas matilhas de sangue e que somente existiram porque não mais há direitos para os pretos e os favelados, que estão sob fogo do exército. Não haverá ministro que as controle e é mais provável que as matilhas milicianas agreguem novos integrantes, colhidos nas forças invasoras. Não tardará ter o exército que atirar em seu próprio exército.
Estúpidos, nem sabem que não muito longe dali a festa continua, e a cidade maravilhosa continuará a encantar na zona sul. Vôlei em dia de sol, praia, beleza, calor e sensualidade burguesas continuarão.

Em São Paulo, os restaurantes dos Jardins permanecerão com as portas abertas, a receber seleta clientela, que sabe apreciar glamurosas cartas de vinho. Estúpidos porque matam e morrem a serviço de quem os despreza.

Marielle e Anderson se constituem em um marco da ilegalidade, constituem-se 
na visualização do que efetivamente se transformou a intervenção militar, a mais vergonhosa operação em que o exército brasileiro se meteu depois do fim (houve mesmo o fim?) da ditadura. Os meninos pretos da favela e os quase pretos de tão pobres nunca terão motivo para se orgulhar da farda, da bandeira, do hino, que devem ouvir mentalmente antes de morrer dos tiros oficiais.
Os protestos, as notas enfurecidas e enlutadas, prenhes de uma dor que vai parir outras dores, outras solidões. A dor da família, a dor do filho, a dor do irmão, a dor dos amigos, a dor daqueles que a conheciam e a abraçavam, a dor de quem com ela militava, a dor que vem de dentro daquelas pessoas miseráveis e que viam nela uma forma real de representatividade, a dor de quem servia a ela uma média na padaria, a dor de quem vendia livros a ela, a dor de quem a via andando e a admirava porque andava com altivez, a dor de minha querida Djamila e de meu amado filho Brenno, a dor de quem vê o país em ruínas, a dor de quem odeia essa intervenção que nada mais fez do que matar e aterrorizar, a dor de quem ainda acredita na possibilidade de pacificação e de extirpação dos ódios e dos preconceitos que fazem de nossa sociedade uma das mais odiosas do planeta, a dor de quem procura ensinar que a democracia só tem sentido se for plena e assegurar a todos igualmente os mecanismos de acesso à cultura, à educação e à inclusão de todas as formas, a dor, a dor, a dor, a dor.
Todas as dores somadas, todas as dores vividas, todas as dores que serão, ah serão, ainda dobradas…
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Fonte do artigo:
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Luto-por-Marielle-e-Anderson/4/39613, publicado em 16/03/2018
*Roberto Tardelli, é advogado e ex-procurador de Justiça de São Paulo
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Créditos das Imagens:
1. Ilustração de João Brizzi - http://piaui.folha.uol.com.br/sem-policia-a-vista-mulheres-velam-marielle/
2. Foto: https://revistaforum.com.br
3. Foto reproduzida no Osservatore Romano:
http://www.osservatoreromano.va/pt/news/assassinada-marielle-franco-voz-das-favelas-do-rio
4. Foto: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/Vereadora-critica-da-Policia-Militar-assassinada-no-Rio-de-Janeiro/47/39608
5. Foto:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/album/1521133382_968626.html#foto_gal_8

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.co







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