Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CHICO BUARQUE - CONTINUAMOS EM FESTA, PÁ!

19 de outubro de 2019



A REAÇÃO DO ESCRITOR MIA COUTO 

PRÊMIO CAMÕES EM 2013

No início desse mês de outubro, em meio aos preciosos aplausos no Brasil, em toda a América Latina e em vários países de além-mar, um fato extremamente dissonante tentou ferir a nossa alegria da nomeação de Chico Buarque para receber o Prêmio Camões-2019. 

Na sua rançosa ignorância, o presidente brasileiro – que vem nos envergonhando por muitas outras relevantes razões mundo afora – deu a entender à imprensa que negaria a sua assinatura no diploma de concessão do Prêmio Camões a Chico Buarque.



Ao tomar conhecimento desse fato, Chico Buarque – com a sua característica perspicácia política e a dignidade que nele há muito conhecemos – comentou a notícia na sua conta oficial do Instagram, dizendo que a não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo Prêmio Camões”.
O Portal Mundo Lusíada publicou que,  quando Chico foi anunciado vencedor do Prêmio Camões 2019, por unanimidade, em 21 de maio deste ano, na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, o presidente português Marcelo Rebelo de Souza, postou uma nota no portal da Presidência da República, “reconhecendo o romancista de ‘Estorvo’ e ‘Budapeste’, o dramaturgo e argumentista, mas também o extraordinário escritor de canções”.  

Ainda na internet, o estadista português – de acordo com o portal Mundo
 Lusíada – considerou que, ao premiar Chico Buarque, o júri do Prêmio Camões “reconheceu, naturalmente, também o extraordinário escritor de canções, um dos maiores da língua portuguesa”. E finaliza:  “Premiar ‘letristas’ pode ser sujeito a discussão, mas premiar Chico Buarque só pode ser unânime, porque, tal como Bob Dylan, para a língua inglesa, (a quem fora atribuído o Nobel da Literatura) as canções de Chico traduzem um profundo conhecimento da tradição poética e um alargamento das fronteiras da linguagem musicada, trazendo um grau de sofisticação inédito à música que se diz, e bem, popular”. 
Por sua vez, o primeiro-ministro português, António Costa, escreveu no Twitter: “Saiba que estamos em festa, pá”, e fala de Chico Buarque como o poeta de sambas e canções que os portugueses sabem de cor, “romancista que reserva à linguagem a sua maior atenção”. E finaliza: “Junto-me à alegria de ver Chico Buarque ganhar o Prêmio Camões 2019”.  

Recentemente, de acordo com a redação do Mundo Lusíada, o Ministério da Cultura de Portugal garantiu que “a cerimônia de entrega do Prêmio Camões a Chico Buarque realizar-se-á em Portugal, conforme ditam as regras”. Apesar de ainda não definida, a concessão oficial do prêmio estaria prevista “para abril 2020, na sequência do desejo manifestado pelo músico de o receber nessa altura”. 
O grande escritor e poeta moçambicano Mia Couto, tão conhecido e admirado no Brasil – e que em 2013 recebeu o prêmio Camões – conta-nos, na reportagem que reportamos abaixo, o que lhe inspira o comentário do inexpressivo  presidente do Brasil.
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Mia Couto vai encabeçar ação contra posição de Bolsonaro face ao
Prêmio Camões a Chico Buarque



Por: Redação “Mundo Lusíada” - 11/10/2019
O escritor moçambicano Mia Couto afirmou, no dia 10 de outubro, que já solicitou a lista dos vencedores mais recentes do Prêmio Camões, para convidá-los a tomarem uma posição conjunta contra a indicação do atual presidente brasileiro de que poderá não assinar o diploma do prêmio anunciado este ano para Chico Buarque.
Em entrevista à Lusa, o escritor moçambicano vencedor do Prêmio Camões em 2013 e muito querido entre os brasileiros disse que mal tomou conhecimento das declarações de Jair Bolsonaro, foi imediatamente “assaltado pela vontade de tomar uma atitude”.
Na quarta-feira, o Presidente brasileiro deu a entender que não assinará o diploma do Prêmio Camões concedido ao compositor e escritor Chico Buarque, afirmando aos jornalistas que assinaria “até 31 de dezembro de 2026”, data que remete para o final de um segundo mandato presidencial, caso fosse reeleito em 2022.

Em resposta, Chico Buarque, defensor da política petista do ex-presidente Lula da Silva, afirmou que uma eventual não assinatura de Bolsonaro do diploma era para ele “um segundo Prêmio Camões”.
Comentando o sucedido, Mia Couto começou por “saudar” a resposta do músico e escritor, considerando-a “genial”, afirmando de seguida a sua intenção de contactar os “colegas que foram Prêmio Camões” para fazerem uma “declaração conjunta contra a imbecilidade desse tipo de atitude”.
“Soube hoje [desse episódio], e a minha ideia é – como eu não posso fazer isso sozinho – pedir ao secretariado do Prêmio Camões que me dê os contatos das pessoas de maneira que a gente tenha uma postura conjunta”.
A justificação do escritor é não só a “ligação muito particular” que tem com Chico Buarque, mas sobretudo o sentir que “é o Prêmio Camões que está a ser agredido, a liberdade de criar”.
“Ficarmos calados seria uma coisa inaceitável, por isso vou telefonar a saber se o secretariado do Prêmio Camões me pode ajudar a contactar, e fazermos um manifesto conjunto contra isso”, reiterou.
A este propósito, Mia Couto lamentou a situação política e cultural vivida atualmente no Brasil, país de onde regressou recentemente e onde foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília.
“Eu venho do Brasil e venho muito preocupado com essa subida de tom do lado autoritário da censura, a maneira como os livros estão a ser retirados das escolas, uma coisa completamente antiética. Não é só o Bolsonaro, estava ali um Brasil fabricado pelas Igrejas evangélicas, de que não dávamos conta”, afirmou à Lusa.
Como exemplo, contou a história de uma escola que visitou, em que “os pais mandaram retirar um livro infantil do Jorge Amado, porque tinha uma ilustração em que aparecia uma vaca e se viam as tetas da vaca”.
“A gente pode pensar que é o Jorge Amado, que querem agredir o Jorge Amado, mas não. É uma coisa tão idiota que não tem limite”, considerou, acrescentando: “É assustador porque apela a coisas tão primárias, tão fora daquilo que a gente pensa, que já passamos essa página”.
-----------------------------------------------------------------------------------------Fontes das informações:

Ver também:
Crédito das Imagens:

1. Chico Buarque é visto em 220 imagens na fotobiografia 'Revela-te, Chico' — Foto: Leo Aversa / Divulgação  
 2 - Chico Buarque em 1972 no traço do pintor Di Cavalcanti — Foto: Di Cavalcanti / Reprodução do livro 'Revela-te, Chico' - 
In: www.diariodocentrodomundo.com.br.jpg

3. Imagem Chico Buarque - www.metro1.br-noticias-cultura-73823.jpg

4. Imagem Mia Couto - reproduzida da reportagem do portal Mundo Lusíada.








SOLIDARIEDADE - ÁGAPE, COMPROMISSO E FRATERNIZAÇÃO

4 de outubro de 2019




É sempre bom recordar princípios básicos da convivência humana, cujas raízes permeiam a história da espiritualidade e das religiões em diferentes épocas. A história da humanidade viu surgir grandes mestres espirituais em diferentes contextos das  sociedades civilizadas. Seu ápice, para nós que vivemos no Ocidente, foi a presença de um judeu conhecido como o filho de Maria de Nazaré e do carpinteiro José. Aos 30 anos, ele, que se chamava Jesus, iniciou sua vida pública e - com os seus atos, suas palavras e uma vida adulta perseguida pelos legalistas da época - deixou um preciosíssimo legado aos seus seguidores. Esses, conseguiram organizar-se e expandir a sua mensagem até os nossos tempos, marcando o início de uma nova era de solidariedade, compaixão e abertura para o outro - os mais próximos de nós e, especialmente, os excluídos sociais, os que sofrem vários tipos de violência social, enfim, as pessoas mais vulneráveis da sociedade humana. 

Foi especialmente no Ocidente que se expandiram as comunidades cristãs. Hoje, numa sociedade ligada por inúmeros recursos de comunicação e de presença nas comunidades humanas, o cristianismo se expande ao lado de outras correntes de fé e de espiritualidade que também adotam princípios de fraternização e de acolhimento, de perdão e de misericórdia, e de amor pelos últimos - os sem pátria, sem teto, sem terra, sem um salário decente para sobreviver com sua família, nos tempos atuais. 

São inúmeros os movimentos mundiais de variadas espiritualidades e expressões religiosas, que acreditam no amor para sanar as feridas sociais nas suas específicas culturas. O mundo é rico de experiências, filosofias e espiritualidades que se irmanam com a fé cristã. O diferencial, entre todas elas, será a sua prática efetiva de acolhimento e compaixão, e de uma fraternização que não pode deixar de mover-se nas esferas da política e da justiça social.   

Reproduzimos hoje, neste espaço, um artigo de Magali Cunha que nos fala da espiritualidade cristã, convidando os leitores a repensar suas atitudes na sociedade em que vivem.

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Só o amor inclusivo poderá  
curar e salvar a 
sociedade adoecida



MAGALI CUNHA
Carta Capital - diálogos da fé
02 de outubro de 2019


É Jesus quem  sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições.

No final da tarde da sexta-feira, 27 de setembro, aos sete dias da morte da menina Ágatha Félix em ação do Estado no Complexo do Alemão, foi realizado um ato religioso, em frente à sede do governo do Estado do Rio. Ali, pessoas de diferentes confissões de fé clamaram por paz e justiça para as famílias das cinco crianças assassinadas em intervenções violentas da polícia, em favelas do Rio, somente em 2019, e por aquelas que residem nessas áreas, inseguras.
Durante o ato, permeado por falas proféticas de denúncia, consolo e anúncio de esperança, e por orações em prol da paz com justiça, um ou outro que passava em automóveis gritava da janela: “Vão trabalhar”, “Vagabundos!”.
Os gritos gratuitos de ofensa me fizeram pensar na incapacidade que muitos de nossos iguais estão desenvolvendo de amar e de demonstrar amor. E isto aconteceu nos dias em que outra menina, a sueca Greta Thunberg, líder de uma nobre causa em defesa do meio ambiente, foi ofendida publicamente por homens bárbaros ressentidos.
Nossa sociedade adoeceu. Os últimos anos marcados no espaço público por competição, por polarização, pela disseminação de mentiras e calúnias contra desafetos e pela incitação à violência da parte de governantes, fizeram sair do esgoto da vida uma legião de pessoas inumanas: sem misericórdia, sem solidariedade, sem amor.
Falo do amor, não de mães e pais por seus filhos e vice-versa, não aquele entre irmãos e irmãs que afeta amigos e amigas, ou o que une pessoas e formam casais. Falo do amor que permeia (ou deveria) as relações entre seres humanos, e que no Cristianismo, é estimulado pela Lei do Amor.
Esta Lei vem de preceitos antigos da tradição judaica, alimento da fé cristã, dos chamados Dez Mandamentos e seus desdobramentos expostos nos Livros da Lei (a Torá). A base está no Deuteronômio 6.5, que diz: “Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, e no Levítico 19.18, que expressa: “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Jesus reafirma esta tradição e desafia seus seguidores a imitá-lo: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. O termo grego para “amor” nestas palavras é "agapao", o verbo amar que está relacionado ao substantivo ágape, amor. Agapao, a que Jesus se refere, é amar ou expressar amor ao que está próximo, ao compatriota, ao companheiro, ou simplesmente o Outro.
Quando Jesus recupera a Lei de Deus, ele impõe uma novidade, porque enfatiza a relação com o Outro – o sentido amplo do amor que aqueles que dizem amar Deus devem ter. É a oposição a uma tendência religiosa que emergiu na história e acabou restringindo, limitando o amor àquele que está próximo, ao compatriota da terra e aos estrangeiros que habitavam a terra (não os de fora). Jesus, então, abriu, ampliou essa compreensão, e retomou o sentido do amor dos preceitos antigos, dirigido ao Outro, de forma.

Um forte exemplo disto está na narrativa em que Jesus reafirma que façamos aos outros aquilo que desejamos que os outros nos façam (a Regra de Ouro, Mateus 7.12). Por isso ele contou a história do samaritano justo, o homem do povo considerado inferior, que prestou solidariedade a um cidadão judeu, que estava ferido na estrada, depois de assaltado (um inimigo, de acordo com aquela cultura), e já tinha sido abandonado por dois líderes religiosos do seu povo.
A história foi contada em resposta à pergunta de um Doutor da Lei sobre quem vem ser o Outro, o próximo. O líder parecia esperar confirmação do que já sabia: segundo a sua tradição religiosa, o próximo era o compatriota e o que cumpria as leis, o “cidadão de bem”. Entretanto, Jesus contou a história e respondeu com uma outra pergunta: quem foi o próximo do judeu ferido na estrada? A resposta não poderia ter sido outra da parte do Doutor da lei: “aquele que usou de compaixão para com ele”.
O Doutor da Lei teve que reconhecer que aquele tido como “não-cumpridor das leis”, o estrangeiro considerado impuro e inimigo, foi o próximo do judeu ferido e não os seus iguais. Ou, poderíamos dizer, o estrangeiro, impuro e inimigo, o samaritano, foi aquele que mostrou amor.
Quem ama só os amigos não faz nada de excepcional. Jesus, porém, sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições, “como se não houvesse amanhã”… O amor da reconciliação, que rompe com as restrições das leis e das culturas para que se faça o que é bom e justo.

Este é o amor relacional, o Dom Maior da Vida que, como registrado na Bíblia, torna as pessoas pacientes, bondosas, sem ciúmes (controle do outro), não arrogantes, não desagradáveis, não egoístas, não grosseiras, sem ressentimento e rancor, incomodadas com a injustiça, a mentira e a calúnia, esperançadas (1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13).
Esta Lei do Amor, sepultada até mesmo por alguns líderes que se apresentam como seguidores de Jesus mas, na prática, são cristãos fake, cheios de ódio, arrogância e cúmplices da morte, pode ser recuperada e revitalizada. Sim, a sociedade doente pode ser curada.
Basta que cada um se mantenha na sua condição humana,  desafie toda orientação que restrinja a expressão do amor apenas àqueles que estão perto de nós, que são como nós, que nos fazem sentir bem. Abrir-se ao amor inclusivo, amplo, com todos os compromissos e as dificuldades que ele requer de nós ao nos colocarmos no lugar do Outro.
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Fonte do artigo:


Créditos das Imagens:

2. Monges budistas e o compositor Philippe Leduc - www.bodisatva.com.br/
author/philippe-leduc.jpg
3. Compaixão fraterna - www.youtube.com.br.jpg
4. Escuta amorosa - www.canstockphoto.com.br


Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 




BRASIL - RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

24 de setembro de 2019















CPMI vai revelar fábrica de fake news de Bolsonaro e Steve Bannon, diz Zarattini

Em entrevista, parlamentar explica que as mentiras não são criadas só para prejudicar pessoas políticas, mas também artistas e outras personalidades

 Diálogos do Sul
São Paulo (SP-Brasil)
20 de set de 2019 


Com o objetivo  de abordar temas como a soberania do Brasil, as reformas
trabalhistas e a importância de união dos partidos que fazem oposição ao governo atual, a TV Diálogos do Sul recebe o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), pré-candidato da esquerda à prefeitura de São Paulo, que integra a Frente Parlamentar em defesa da Soberania Nacional, para uma entrevista com o editor da revista, Paulo Cannabrava Filho.
De acordo com Zarattini, a oposição está em um momento em que começa a reorganizar suas forças, um exemplo disso é  a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das fake news, instalada no dia 4 de setembro que, de acordo com o deputado, investigará "o subterrâneo que foi montado pelos bolsonaristas com o apoio de Steve Bannon, essa fábrica de fake news e de propagação das fake news".
O economista explica que as fake news não são feitas somente para prejudicar pessoas políticas. Artistas e outras personalidades também têm sido alvo de ataques, agora os bolsonaristas usam notícias falsas contra inimigos internos, que foi o que “fizeram com Bebiano [Gustavo Bebianno, advogado brasileiro e ex-secretário-geral da Presidência da República].


"Artistas e outras personalidades também têm sido alvo de ataques", diz o deputado.

Outro exemplo, segue o deputado, é o de “Santos Cruz [Carlos Alberto dos Santos Cruz, general de divisão da reserva do Exército Brasileiro e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República], que eles praticamente enxotaram do governo. Só não estão enxotando o [ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio] Moro porque eles têm um certo receio de que isso prejudique a faixada do governo", afirma Zarattini.
O deputado denuncia que na chamada internet subterrânea, ou deep web, existem pessoas da extrema direita que possuem articulações com o objetivo de promover a violência. "Tem muita gente do governo que utiliza essa internet subterrânea e isso a nossa CPMI vai demonstrar", ressalta.
Os membros da CPMI das fake news, composta por 15 senadores e 15 deputados (e igual número de suplentes), se reuniram pela primeira vez na terça-feira (17) e terão 180 dias para investigar a criação de perfis falsos para influenciar as eleições do ano passado e ataques cibernéticos contra a democracia e o debate público.
Resistência
Além dessa conquista, o deputado explica que os parlamentares obtiveram as assinaturas necessárias para CPMI da Lava-Jato. "A gente quer, com base nos vazamentos que foram e estão sendo publicados, ter uma averiguação do que a Operação Lava-Jato fez de irregularidades e são inúmeras", diz.
Carlos Zarattini conta que também no dia 4 de setembro, em defesa da soberania nacional e dos direitos do povo, seis partidos de oposição (PT, PCdoB, PDT, PSOL, PSB e Rede) lançaram em Brasília a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional. E, a partir desse evento nacional, o objetivo é fazer os lançamentos em cada Estado do país.
Respondendo ao comentário de Paulo Cannabrava sobre por que os deputados "deixaram passar as reformas", Zarattini disse que a maioria do Congresso é composto por empresários. "Os deputados, os senadores, a grande maioria são empresários. Então eles, como deputados empresários, atuam diretamente no seu interesse de classe e com a situação que nós estamos, de desemprego, favorece muito a desmobilização sindical", explica.
"Nós fizemos uma luta de minoria e conseguimos reduzir os danos da reforma da Previdência, tivemos uma atuação e a capitalização, por exemplo, não foi consolidada e outras regras que eles queriam aprovar para tirar dos trabalhadores, nós conseguimos tirar do texto”, diz o deputado.
Já com relação à Reforma Trabalhista, Carlos Zarattini diz que “não teve uma única negociação, tudo o que eles quiseram, eles enfiaram goela abaixo”. “Nós tínhamos alguns votos, resistimos, brigamos, mas sem o povo na rua, você não consegue parar o carro desse jeito”, lamenta.
Ver: https://youtu.be/BZ0wS4WkcYU
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* Carlos Alberto Rolim Zarattini  é economista e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores e líder do partido na Câmara dos Deputados. 

Fonte do texto:

https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/brasil/60634/cpmi-vai-revelar-fabrica-de-fake-news-de-bolsonaro-e-steve-bannon-diz-zarattini

BRASIL - A BURRICE NO PODER - LADISLAU DAWBOR

21 de setembro de 2019


















Temos evitado reproduzir, neste espaço, as bombásticas “notícias de efeito” criadas pelo pretenso governo de plantão. As análises do seu desgoverno sim, para que tenhamos subsídios e críticas esclarecedores que venham corroborar a compreensão da conjuntura econômica brasileira e mundial. 

Hoje, iniciamos a publicação de três postagens subsequentes – uma importante análise do economista Ladislau Dowbor, consultor de diversas agências das Nações Unidas, professor da PUC/SP e autor de numerosos livros e estudos técnicos.                             


Publicado originalmente no livro Novos Paradigmas para Outro Mundo Possível - organizado por Ivo Lesbaupin e Mauri Cruz - Usina Editora-Abong - o título “A burrice no poder” pode parecer um pouco provocador, mas pense um pouco: a desigualdade está explodindo no mundo, e as propostas vão no sentido de austeridade não dos que esbanjam, mas dos que mal sobrevivem. O planeta está sendo destruído e o que se vislumbra não é consumo mais inteligente e sim expansão do consumismo irresponsável. A violência se espraia, e a solução seria disseminar mais armas. O homo demens transforma a burrice em bandeira. Uma visão construtiva é fácil de identificar: é só fazer o contrário.
Divirta-se.

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A burrice no poder – 1ª parte
Ladislau Dowbor  - Edição revista em 7 janeiro de 2019

The most intellectual creature ever to walk the earth, is destroying its only home.” – Jane Goodall
                                                        A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como nela se afundar.                                                            

O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso. Barbara Tuchman nos dá uma análise preciosa dos mecanismos, no que ela chama de Marcha da Insensatez: “Uma vez que uma política foi adotada e implementada, toda atividade subsequente se transforma num esforço para justificá-la.” Isso levou, por exemplo, cinco presidentes americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida e documentada, de que era uma causa perdida. A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. (263)

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás - mesmo depois de quatro anos de desastre - não é evidentemente uma coincidência, é a regra.

No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo. Apontar os absurdos não é negativo: corrigir os erros óbvios pode ser mais factível do que buscar distantes utopias. 

A burrice da austeridade

A austeridade, para quem não tenha notado, não funciona. Como diz Stiglitz, nunca funcionou. Por uma razão simples: o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Façam um cálculo simples: o Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços, o montante do nosso PIB. Isso dividido por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano, ou seja, 10 mil reais por mês por família de 4 pessoas. Isso está longe das ambições de consumo da nossa classe média alta, mas assegura, para o comum dos mortais, o suficiente para uma vida digna e confortável.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição. Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa. Portugal tem uma experiência simpática: mandou a austeridade às favas, e está indo de vento em popa. Com uma lei absurda de teto de gastos, nós institucionalizamos o aprofundamento da desigualdade. Já se notou que a austeridade recomendada é a dos pobres que têm pouco, e não a dos ricos que têm muito e ainda esbanjam?

A burrice do golpe

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilómetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante. Um processo firme dez anos seguidos é caminho, não é oportunismo nem voo de galinha. Mesmo porque, para o Brasil, os 150 milhões que precisam melhorar o seu consumo individual e coletivo constituem uma imensa oportunidade de dinamização econômica, um horizonte de expansão. O mercado externo, lembremos, representa apenas 10% da nossa economia.

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem, chamada hoje de “narrativa”, tentando convencer as pessoas que fazer política para o povo é populismo, que o populismo quebrou as contas do Estado e que o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, “a dona de casa” Dilma tem de ir para casa. Mas os números são simples e derrubam essa narrativa: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização
Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas? São adultos, acrescentem as famílias, estamos falando da massa da população.

Quando - entre 2012 e 2013 - a Dilma tenta reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. A Dilma ainda ganha a eleição de 2014, mas como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão, mas alguém tinha de levar a culpa, e buscar um bode expiatório tem sólidas tradições.
Em termos políticos tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro. 
Sim, de 2014 para cá, são muitos anos que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, o Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso. E quanto mais travam a economia, mas explicam que o sacrifício ainda é insuficiente.
No entanto, persiste a narrativa simplória: a Dilma quebrou a economia. É uma farsa. O déficit nas fases Lula e Dilma nunca foi significativo, mesmo incluídos os juros sobre a dívida pública.
Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás mulher e teimosa, vítima ideal. O poder dos bancos funciona hoje apenas para os banqueiros e para os rentistas. Na linha de uma charge americana, podemos dizer que o nosso problema é que uma minoria que ganha 500 mil por mês conseguiu convencer os grupos que ganham 50 mil por mês de que o problema do país são as pessoas que ganham mil reais por mês. Acredite quem quiser.
Os arrependidos da quebra da legalidade hoje são qualificados de viúvas do golpe. Abriram as portas para o absurdo total que hoje vivemos, prolongamento da burrice econômica por meio da burrice política.

A base evidente e o elementar bom senso indicam que o que funciona é a representatividade do poder, na linha do artigo 1º da nossa Constituição: “Todo poder emana do povo”. Neste sentido fundamental, o de representar o povo, o novo governo eleito não é legítimo. Foi eleito porque o candidato legítimo e que ia ganhar foi preso, porque a mídia comercial criou um fanatismo anti-petista, porque recorreram a uma escala industrial de fakenews, e porque uma facada criminosa lhe conferiu uma aura de vítima e lhe evitou o vexame de submeter as suas visões a debate.

Não se trata de “reconhecer” ou não o candidato eleito, mas sim de reconhecer que sua representatividade é pífia, e que pensar em desenvolver um país moderno sobre a base de um poder de extrema-direita não faz nenhum sentido. Para se sustentar, precisará se submeter ao grande vizinho do Norte, abrir ainda mais as portas aos interesses predatórios nacionais e internacionais, e mobilizar em permanência o ódio contra o que apresentará como “os inimigos”, desde já escolhidos como futuros culpados do não funcionamento do seu governo. A perseguição e a violência tendem a ser um caminho natural para a insensatez. A incompetência está sempre à procura de bodes expiatórios.
A burrice do rentismo

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. O lucro sobre aplicações financeiras constitui dividendos, assegura grandes retornos para quem não produz nada. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.
O manual britânico sobre o funcionamento da moeda explica o efeito bola de neve, financial snow-ball effect: papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. Por exemplo, um bilionário que aplica o seu dinheiro a modestos 5% ao ano ganha 137 mil dólares ao dia, sem precisar produzir nada. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. No curto e médio prazo, funciona muito para o 1%. Como institucionalização da remuneração dos improdutivos muito superior à dos que produzem, não funciona para o conjunto. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez. Não é preciso ir muito longe para aprender algo de positivo: a China controla o seu sistema financeiro para que seja utilizado produtivamente, os alemães usam a rede de caixas de poupança locais (sparrkassen) assegurando que o dinheiro seja investido no que a comunidade necessita. Sabemos o que funciona: é quando o dinheiro é investido produtivamente.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção e, portanto, emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que cobrem o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio, os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.
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