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O DESAFIO DA COMUNICAÇÃO PARA A MUDANÇA

17 de janeiro de 2020

Em dezembro passado publicamos um excelente texto escrito por Herbert de Souza, o Betinho* – um dos grandes ativistas defensores da democracia brasileira, no período da ditadura militar em nosso país. Seu texto fala da importância da cultura para a construção da democracia brasileira.

Hoje nos deparamos com uma assustadora informação que nos chocou profundamente: o Secretário do Ministério da Cultura – Roberto Alvim – tratou de apropriar-se da tradução literal de uma decrépita prática da ditadura nazista de anos atrás, apresentando-a em vídeo como uma orientação de sua pasta para a comunicação no país. 
    
     Vejamos o que nos informa o jornal El País:

    "Ao som de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler, o secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, plagiou em pronunciamento que foi ao ar nas redes sociais trechos de um discurso do ministro da Propaganda do führer nazista, Joseph Goebbels. “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa (...) ou então não será nada”, diz Alvim no vídeo. O líder nazista havia dito: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferrenhamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa (...) ou então não será nada”. O caso suscitou revolta nas redes sociais e a manifestação dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Supremo, Dias Toffoli. A Confederação Israelita do Brasil considerou “inaceitável” o uso do discurso. No início da tarde desta sexta, o Governo demitiu o secretário, alegando que o pronunciamento “tornou insustentável” sua permanência”.

Ha novos ventos distantes e bem diferentes, a serem observados como, por exemplo, no governo do Estado do Vaticano, tendo à frente o Papa Francisco, que atua no intuito de acompanhar os dias atuais e a necessidade das populações do mundo empobrecido, carregado de grandes crises e necessidades. 

No dia 23/12/2019, Francisco fez um discurso dirigido ao corpo cardinalício da Cúria Romana. Coube a ele apresentar as propostas de mudança na prática organizacional da Cúria. Na sua fala, bem detalhada para cada pasta, o papa insistiu na importância da comunicação de época, e sugere aos Ministérios Vaticanos – ditos “dicastérios” – mudanças no modo como a comunidade eclesial deveria se comunicar com o mundo de hoje. Suas palavras buscam iluminar os critérios de dialogar, formular, produzir e divulgar informações nos modos de comunicação da era digital e imagética. O modo de governar de Francisco, em diálogo com os responsáveis dos dicastérios, poderiam também servir aos políticos que se preparam para as próximas eleições, mostrando-lhes a necessidade de conhecerem, de fato e na prática, os clamores das populações locais, para que possam ir em busca de respostas e programas efetivos e eficazes de governo.  

Estamos a viver, não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época. As mudanças já não são lineares, mas de época; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência”.

“Obviamente, não se trata de procurar a mudança por si mesma nem de seguir as modas, mas de ter a convicção de que o desenvolvimento e o crescimento são a caraterística da vida terrena e humana, enquanto no centro de tudo, segundo a perspectiva do crente, está a estabilidade de Deus.” (*)
   
Falando sobre a tarefa do recém-criado Dicastério para a Comunicação, o papa enfatiza:  “A perspectiva que se nos depara é a da mudança de época, pois ‘largas faixas da humanidade vivem mergulhadas no ambiente digital de maneira ordinária e contínua.’ Já não se trata apenas de ‘usar’ instrumentos de comunicação, mas de viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos muito profundos na noção de tempo e espaço, na percepção de si mesmo, dos outros e do mundo, na maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar em relação com os outros. Uma abordagem da realidade, que tende a privilegiar a imagem com relação à escuta e à leitura, influencia o modo de aprender e o desenvolvimento do sentido crítico". (Francisco - Exortação Apostólica pós-sinodal Christus vivit, 86).

Mas Francisco busca conhecer a realidade, e usa o discernimento. “Aqui é necessário advertir contra a tentação de assumir a atitude da rigidez - ele insiste. Esta nasce do medo da mudança e acaba por disseminar estacas e obstáculos pelo terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio. Lembremo-nos sempre de que, por trás de qualquer rigidez, jaz um desequilíbrio. A rigidez e o desequilíbrio nutrem-se, mutuamente, num círculo vicioso. E hoje essa tentação da rigidez tornou-se muito atual”.

Voltando à questão da “cultura”, retorno ao artigo de Betinho, como oferta de clareza e conhecimento de causa das dificuldades a serem enfrentadas em governos autoritários. O seu é um texto incisivo e ao mesmo tempo poético, cheio de fé, e carregado da vontade de enfrentamento e mudança, em que muitos, como ele,  se inscreviam no mundo cultural daquele período da ditadura militar.

A cultura está entre nós, sempre - afirma Betinho. É no campo da consciência que o mundo se faz ou se desfaz, é nesse universo da imagem, do som, da ação, da ideia. Tudo se resolve na criação. É na invenção que o tempo volta atrás e o atrás vai para frente. É onde o homem vira bicho, bicho conversa com gente. É onde eu sou Guimarães e você é Rosa. É onde fica como dantes ou tudo muda num átimo. É onde você se entrega de mãos amarradas ou se rebela de faca no dente. É onde o silêncio vira pedra ou o grito rompe tudo e esparrama vida por todos os poros. E onde o risco chora e o choro é o começo da cura.

    Foi o mundo da cultura que primeiro aceitou o desafio de mudar. De criar um outro Brasil. Sem pobreza e sem a arrogância dos ricos. Um Brasil totalmente simples, mas radicalmente humano. Um Brasil onde todos comam todos os dias, trabalhem, ganhem salários, voltem para casa e possam rir, beijar a mulher que ama, a filha que emociona, abraçar o amigo na esquina, se ver no espelho sem chorar pelo que não realizou”.

Inspirados em suas palavras, precisamos continuar sonhando e agindo, a fim de contribuir, em colaboração e de forma cooperante, na necessária e incessante caminhada de reconstrução da democracia em nosso país.  

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 (*) Numa das suas orações, o cardeal Newman afirmava: «Não há nada de estável fora de Vós, ó meu Deus. Vós sois o centro e a vida de todos aqueles que mudam, que confiam em Vós como seu Pai, que levantam os olhos para Vós e que são felizes por se colocarem nas vossas mãos. Eu sei, meu Deus, que devo mudar, se quiser ver o vosso rosto» (Meditazioni e preghiere, ed. G. Velocci, Milão 2002, p. 112).

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Fonte das informações, no corpo do texto:

Ano Novo – “O poder transformador da Cultura” – Herbert de Souza
www.vaniserezende.com.br – dezembro, 2019.




Crédito das Imagens

1. Recorte da imagem do vídeo do Sr. Roberto Alvim divulgada pela TVT.
2. Richard Wagner - reprodução:
 http://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia-richard-wagner-o-revolucionario.
3. Jesus em missão - obra de Adolfo Perez Esquivel - Prêmio Nobel da Paz - www.adplfoperezesquivel.org
4. Papa Francisco - O Pastor - www.centraldenoticias.radio.br
5. Cantadores de Viola - talha de JBorges 


Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 


UMA ECONOMIA CHAMADA COMUNHÃO

7 de janeiro de 2020




Fechando o ciclo natalino, reproduzimos aqui – com versões em português, español, italiano, francés e english – um texto assinado pelo renomado professor e economista italiano Luigino Bruni, de quem já publicamos outras postagens neste espaço. Parece-me significar uma “fraterna comunhão” pós-natalina, que nos fala da revelação do Menino de Nazaré, cuja chegada inaugura a distinção do que ele chama a “economia do dinheiro” e a “economia do Reino”. Uma revelação que, ano após ano vem sendo equivocadamente festejada como “o negócio do Natal”. Mesmo em terras ensolaradas, o Papai Noel, também este ano, foi a figura mais presente nos Shoppings Centers, no imaginário das crianças e nas sacolas de presentes de cristãos e não cristãos. Segue o texto, em suas diferentes versões. 


A ECONOMIA DO NATAL 
CHAMA-SE COMUNHÃO

Por: Luigino Bruni 

Tem-se abundante economia na gruta de Belém. Ali encontra-se a imagem mais forte da “economia da salvação”, da sua conveniência misteriosa, divina e humana, que fez o Verbo de Deus tornar-se criança. Ali estão, também, os trabalhadores (os pastores), José, um marceneiro, e os animais no estábulo, que naquela economia antiga eram os primeiros fatores de produção. E estava Maria, uma jovem mulher, que conhecia a economia de casa e das relações primárias.

No entorno da manjedoura confrontaram-se a economia do dinheiro e a economia do Reino. Um confronto que será uma constante no ensinamento de Jesus. Os hotéis, isto é, as empresas de Belém, “não tinham lugar” para aquele parto. Mas uma família – talvez uma pessoa do povo de Belém – encontrou espaço no único lugar que estava disponível: um estábulo.  

A economia do Natal foi Comunhão. Uma certa economia não encontrou espaço – porque todos os espaços já estavam ocupados – e uma outra economia ativou um processo. A economia dos espaços e a economia dos processos, a economia de Francisco e a economia de Bernardone, a nudez do bebê de Belém e a nudez do pobre de Assis. 

Se olhamos o nosso mundo, hoje, devemos dizer que não foi a economia do estábulo nem aquela de Francisco a tornar-se a economia que hoje gerencia o negócio do Natal, todos os dias de festa e todos os dias feriados. O lucro continua a vencer, e o dom da festa continuará desnudo. Ainda hoje, diante da nudez das crianças e dos pobres, devemos escolher qual é a Economia que queremos. A cada ano o período do Natal apresenta-nos a mesma questão: 
                                
                                   – Tu, de que lado estás? Qual é a tua Economia?



UNA ECONOMÍA LLAMADA "COMUNIÓN"

Despues del ciclo natalino, riproducimos aquí - con versiones en português, español, italiano, francés e english – un texto firmado por el reconocido profesor y economista italiano Luigino Bruni, de quien ya hemos publicado otras publicaciones en este espacio. Mi parece una "comunión fraterna" postnatal que nos habla de la revelación del Niño de Nazaret, cuya llegada inaugura la distinción de lo que él llama la "economía del dinero” y la "economía del Reino". Una revelación que año tras año ha sido erróneamente celebrada como "el negocio navideño". Incluso en tierras soleadas, Papá Noel, este año también, fue la figura más prominente en la imaginación de los niños y en las bolsas de regalo de cristianos y no cristianos. Sigue el texto.

La Economía de la Navidad 
se llama Comunión

Por: Luigino Bruni 

Hay abundante economía en la gruta de Belén. Allí está la imagen más fuerte de la “economía de la salvación”, de aquella convivencia misteriosa, divina y humana, que hizo convertirse en niño al Verbo de Dios. Están también presentes los trabajadores (los pastores), está José, un carpintero, están los animales de la granja, que en esta economía antigua eran los primeros factores de producción. También está una joven mujer, María, que conocía de la economía del hogar y sus relaciones primarias.

En torno al pesebre se confrontan la economía del dinero y la economía del Reino, una confrontación que será constante en las enseñanzas de Jesús. Los hoteles, es decir, las empresas de Belén, no tenían lugar para ese parto. Por otro lado, una familia, quizás una persona del pueblo de Belén, encontró espacio en el único lugar que tenía disponible: un pesebre. 

La economía de la Navidad fue Comunión. Cierta economía no encontró espacio, porque todos los espacios ya estaban ocupados, y otra economía activó un proceso. La economía de los espacios y la economía de los procesos, la economía de Francisco y la economía de Bernardone, la desnudez del niño de Belén y la desnudez del pobre de Asís. 

Si miramos nuestro mundo, debemos decir que no fue la economía de la gruta ni la de Francisco la que se convirtió en la economía que hoy gestiona el negocio navideño y todos los días festivos o feriados. El beneficio continúa siendo el ganador y el regalo permanece desnudo. Pero incluso hoy, ante la desnudez de los niños y de los pobres debemos decir cuál es la economía que queremos. Esta Navidad nos pode cada año la misma pregunta: 

                                     Tú, ¿De qué parte estás? ¿Cuál es tu Economía?



Una Economia chiamata “Comunione”

Chiudendo il ciclo natalino riproduciamo qui la versione italiana di una riflessione che vedo come una "comunione fraterna”, firmata da un professore e  economista italiano, Luigino Bruni. Abbiamo già altri suoi scritti in questo blog. Suo corto testo ci parla della rivelazione del Bambino di Nazaret, il cui arrivo inaugura la distinzione chiamata da lui di "economia del denaro” e "economia del Regno". Una rivelazione che, anno dopo anno viene erroneamente celebrata come "il business del Natale".  Anche in terre soleggiate, Babbo Natale è la figura di spicco dell'immaginazione dei bambini e nei sacchetti dei regali di cristiani e non cristiani. Segue il testo.

L’economia del Natale
si chiama Comunione

Per: Luigino Bruni

C’è molta economia nella grotta di Bethlehem. Lì c’è l’immagine più forte della “economia della salvezza”, di quella convenienza misteriosa, divina ed umana, che fece diventare Bambino il Verbo di Dio. Ci sono anche dei lavoratori (i pastori), c’è Giuseppe, un falegname, ci sono gli animali della stalla, che in quella economia antica erano i primi fattori di produzione. C’è una giovane donna, Maria, che conosceva l’economia di casa e delle relazioni primarie.

Attorno a quella mangiatoia si confrontarono l’economia del denaro e l’economia del Regno, un confronto che sarà una costante dell’insegnamento di Gesù. Gli alberghi, cioè le imprese di Betlemme, non ‘avevano posto’ per quel parto. Una famiglia, invece, forse una persona del popolo di Betlemme, trovò spazio nell’unico luogo che aveva a disposizione: una stalla. 

L’economia del Natale fu Comunione. Una certa economia non trovò spazio, perché tutti gli spazi erano già occupati, e un’altra economia attivò un processo. L’economia degli spazi e l’economia dei processi, l’economia di Francesco e l’economia di Bernardone, la nudità del bambino di Bethlehem e la nudità del poverello di Assisi. 

Se guardiamo il nostro mondo dobbiamo dire che non è stata l’economia della Grotta né quella di Francesco a diventare l’economia che oggi gestisce il business del Natale, tutti i giorni di festa e tutti i giorni feriali. Il profitto continua a vincere ed il dono ad essere nudo. Ma, anche oggi, di fronte alla nudità dei bambini e dei poveri dobbiamo dire quale è l’economia che vogliamo. Il Natale che viene ci pone ogni anno la stessa domanda:

                                    Tu, da quale parte stai? Qual è la tua Economia?



Une Économie appelée “Communion”

Alors que le cycle de Noël se termine, nous reproduisons ici - avec des versions portugaise, espagnole, italienne, française et anglaise - un court texte signé par le professeur et économiste italien Luigino Bruni, dont nous avons déjà publié d'autres articles dans cet espace. Cela me semble signifier une «communion fraternelle» postnatale qui nous raconte la révélation de l'Enfant de Nazareth, dont l'arrivée inaugure la distinction de ce qu'il appelle «l'économie de l'argent» et «l'économie du Royaume». Une révélation qui année après année a été à tort célébrée comme «l'entreprise de Noël». Même dans les pays ensoleillés, le Père Noël, cette année également, a été la figure la plus éminente de l'imagination des enfants et des sacs-cadeaux des chrétiens et des non-chrétiens. Suit le texte.

L’économie de Noël
s’appelle Communion

Pour: Luigino Bruni

Il y a toute une dimension économique dans la grotte de Bethléem. C’est l’image la plus forte de l’économie du salut, de cette vie en commun tellement mystérieuse, à la fois divine et humaine, où le Verbe de Dieu se fait Enfant.
Il y a aussi des travailleurs (les bergers), y compris Joseph, un Charpentier, il y a les animaux de l’étable, qui, dans l’économie de cette période antique, étaient les premiers facteurs de production. Il y a une jeune femme, Marie, qui connaît l’économie domestique et des relations primaires.
Autour de la mangeoire, il y a confrontation entre l’économie de l’argent et l’économie du Royaume, confrontation qui sera constante dans l’enseignement de Jésus. Les auberges, c’est-à-dire les entreprises de Bethléem, n’avaient pas de place pour cet accouchement. Par contre, une famille, probablement des gens du peuple de Béthléem, a trouvé de la place dans l’unique lieu dont elle disposait: une étable.

L’économie de Noël a été Communion. Une certaine économie n’a pas trouvé de place, car toutes les places étaient déjà occupées, tandis qu’une autre économie met en œuvre un processus. L’économie de places et L’économie des processus, L’économie de François et L’économie de Bernardone, la nudité de l’enfant de Bethléem et la nudité du poverello d’Assise.

En regardant notre monde, on ne peut pas dire que c’est l’économie de la Grotte ou celle de François, l’économie dominante qui régit aujourd’hui le business de Noël, de tous les jours de fêtes ou des jours chômés. Le profit continue à dominer et le don reste à nu. Mais, aujourd’hui aussi, face à la nudité des enfants et des pauvres, nous sommes sommés de dire quelle est l' économie que nous voulons. Noël nous pose chaque année la même question: 

                                        De quel côté es-tu? Quelle est ton Économie?


An Economy called “Communion”

As the Christmas cycle closes, reproduce here - with Portuguese, Spanish, Italian, French and English versions - a short text signed by the italian professor and economist Luigino Bruni, from whom we have already published other posts in this space. It seems to me to mean a postnatal “fraternal communion” that tells us of the revelation of the Child of Nazareth, whose arrival inaugurates the distinction of what he calls the “economy of money” and the “economy of the kingdom”. A revelation that year after year has been mistakenly celebrated as "the Christmas business." Even in sunny lands, Santa Claus, this year too, was the most prominent figure in the imagination of children and gift bags of Christians and non-Christians. Follows the text.

The name of the economy 

of Christmas is Communion

By: Luigino Bruni 

There is a lot of economy in that cave in Bethlehem. It constitutes the most powerful image possible of the "economy of salvation", of that mysterious, divine and human convenience that turned the Word of God into a Child.

There are also workers (shepherds) present, Joseph a carpenter is also present, the animals of the stable are also there, which in that ancient economy were the first elements of production. There is a young woman, Mary, who knew about home economics and primary relationships.

The Economy of Money and the Economy of the Kingdom confronted each other around that manger, a comparison that would later become a constant in the teachings of Jesus. The hotels, that is, the Bethlehem businesses, did not have 'room’ for that birth. A family, however, perhaps just one person, among the people of Bethlehem, found room for them in the only place he or she had available: a stable.

And so the economy of Christmas became Communion. A certain type of economy did not find room, because all the spaces available were already occupied, and another kind of economy gave way to a new process. The economics of space and the economics of processes, the economy of Francis and the economy of Bernardine, the bareness of the Child of Bethlehem and the bareness of that poor man of Assisi.

Looking at our world today, we must admit that it was not the economy of the Cave or that of Francis that ended up becoming the economy that rules the business surrounding Christmas, all holidays and all weekdays. Profit continues to win and the gift to be bare. Even today, however, faced with the bareness of children and the poor around the world, we need to ask ourselves what kind of economy and economics we want. Each approaching Christmas holiday asks us the same question every year: 

                                     Which side are you on? What is your Economy?

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Fonte dos textos:

A versão portuguesa do original italiano, é de autoria de Vanise Rezende.  
As outras versões encontram-se em:

http://edc-online.org/es/86-josetta-1-es-es/news-es/es-news-varias/15659-la-economia-de-la-navidad-se-llama-comunion.html

http://edc-online.org/fr/652-francais/fr-nouvelles-diverses/15660-l-economie-de-noel-s-appelle-communion.html

http://edc-online.org/it/eventi-e-news/news/news-internazionali/82-varie/15658-l-economia-del-natale-si-chiama-comunione.html

http://edc-online.org/en/home-en/news/15661-the-name-of-the-economy-of-christmas-is-communion.html

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Créditos das Imagens:

1. Aristides. Presépio de palha e milho na cabaça. Minas Gerais. In: www.jornalpuc-campinas.edu.br
2. Presépio de Valência - ES - www.m.gaudiumpres.org
3. Giorgione. Natività Azendale.jpg
4. www.m.camarappiracicaba.sp.gov.br-natal-presepios-de-todo-o-mundo-
5.Paulo Suez - Linha do Tempo - dez.2015.

Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco fazendo um comentário nesta postagem. 






ANO NOVO - O PODER TRANSFORMADOR DA CULTURA - HERBERT DE SOUZA

29 de dezembro de 2019


Chegou o Novo Ano. Estamos em 2020. Após a celebração do Natal na simplicidade do bem-querer, dediquei o resto da semana para saudar os amigos, também os mais distantes, dos quais, em alguns casos, me havia distanciado. No meu pequeno escritório organizo os meus papeis e tomo nota dos compromissos já apontados para o ano que se inicia. Reescrevo telefones e endereços nas novas agendas físicas, como todos os anos. Não as dispenso, mesmo reconhecendo a facilidade que nos trouxe à vida as agendas virtuais.  

Entre os papeis que organizava em pastas tive a alegria de encontrar um recorte de jornal amarelado. É um texto de alguém que se foi, mas que ficou muito presente entre nós: Betinho - Herbert de Souza. Lendo-o, percebi que não poderia encontrar melhor presente de Ano Novo para os leitores do Espaço Poese. É um texto escrito também para os nossos dias, sem tirar nem pôr. Conta-nos o que acontecera décadas atrás – em tempos de ditadura e resistência. Em suas considerações, encontro recados também para os dias de hoje. Betinho nos comove na sua profundidade poética e no seu amor por este país, partícipe que é da sua história. 

Vejo-o agora, a nos confirmar caminhos de resistência. Não é isso que muitos têm buscado, cotidianamente? Gente que reinventa gestos, ideias, músicas e tantas outras expressões artísticas, esforços de encontros e reencontros, em busca de refazer e de manter o delicado tecido da nossa cultura usurpada, abandonada, delapidada. E, igualmente, no mundo da Educação e da Comunicação. 

Continuemos observando, apoiando e participando desses tantos gestos, diálogos, filmes e teatros e de muitas outras invenções, para os dias de agora, como então. Segue o texto. 

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“Tudo se resolve na criação. É na invenção que o tempo volta atrás e o atrás vai para frente. (...) É onde eu sou Guimarães, você é Rosa. É onde fica como dantes ou tudo muda num átimo. (...) É pela brecha da cultura que podemos dar o salto para o reencontro do país com a sua cara.”



O PODER
TRANSFORMADOR
DA CULTURA


Por: Herbert de Souza - Betinho
Reprodução de artigo publicado na Folha de São Paulo, em 27/09/1993.


Primeiro tocou a orquestra. Depois as cortinas se abriram e comecei a cantar. Tinha nas mãos a letra de “Apesar de Você”, hino de resistência à ditadura que, em algum momento, todos nós tínhamos cantado nas ruas, nas praças, nos bares, nas esquinas. Difícil mesmo era entender, sob os holofotes do Teatro Municipal e à luz da razão, a emoção de estar ali.

Na coxia, mais de 500 artistas se preparavam para entrar em cena e, fosse por música, canto, dança, teatro, começar a mudar este país. Mudar no imaginário, na fantasia, na criação. Mudar no faz-de-conta, no palco, na loucura. Mas quanto há de loucura em querer mudar este país?

Durante as cinco horas de espetáculo que se seguiram, mudar se provou possível. Transformar na fantasia é o primeiro passo para transformar na realidade, é provar que recriar o Brasil é preciso e possível. Em cada cena, a cada um de nós, espectadores da imaginação alheia, nos encantávamos com um espetáculo que, além de todas as suas proezas, nos mostrava o quanto pode o mundo da cultura.

Estávamos em meados de maio quando, numa primeira reunião no restaurante do Teatro Municipal, cerca de 30 significativos representantes de todas as áreas aceitaram o desafio. Fazer arte contra a fome, fazer fome virar arte. Carregava então a mesma convicção que me move ainda. A de que um país muda pela sua cultura, não pela sua economia nem pela política, nem pela ciência.

Aos poucos, os artistas começaram a se organizar, discutir, divergir, construir e reconstruir ideias, vontades, desejos, sonhos. Foram meses de dedicação. Mas, mais importante do que o tempo entregue a cada discussão, foi dedicar cada arte, cada gesto, cada tom, cada som ao outro, à solidariedade. O gesto de dar, de entregar, de somar. Não apenas exibir, mas doar e oferecer.


A cultura está entre nós, sempre. É no campo da consciência que o mundo se faz ou se desfaz, é nesse universo da imagem, do som, da ação, da ideia. Tudo se resolve na criação. É na invenção que o tempo volta atrás e o atrás vai para frente. É onde o homem vira bicho, bicho conversa com gente. É onde eu sou Guimarães, você é Rosa. É onde fica como dantes ou tudo muda num átimo. É onde você se entrega de mãos amarradas ou se rebela de faca no dente. É onde o silêncio vira pedra ou o grito rompe tudo e esparrama vida por todos os poros. E onde o risco chora e o choro é o começo da cura.

Foi o mundo da cultura que primeiro aceitou o desafio de mudar. De criar um outro Brasil. Sem pobreza e sem a arrogância dos ricos. Um Brasil totalmente simples, mas radicalmente humano. Um Brasil onde todos comam todos os dias, trabalhem, ganhem salários, voltem para casa e possam rir, beijar a mulher que ama, a filha que emociona, abraçar o amigo na esquina, se ver no espelho sem chorar pelo que não realizou.

Esta mudança começou a ser feita. Com sons, imagens, ações, ideias, emoções. Esta mudança começou a ser feita com gente. E gente é, antes de tudo, cultura. Caldo de gente é cultura. Sumo de gente é esta parte divina que cada diabo carrega dentro de si. O mundo imaginário é onde, do duelo entre Deus e o diabo, não é possível prever o resultado. E é pela brecha da cultura que podemos dar o salto para o reencontro do país com a sua cara. Buscar o que é grande em cada um, buscar a possibilidade de fazer a felicidade o pão nosso de cada dia. É esta a vida e a nossa busca. É esta a fome e a nossa morte.

A cultura apareceu para construir no campo arrasado, para levantar do chão tudo que foi deitado. E descobrir, enquanto é tempo, que o importante é ser cidadão, é ser gente. O que importa é alimentar gente, educar gente, empregar gente. História é gente. Brasil é gente. E descobrir e reinventar gente é a grande obra da cultura. Uma obra que será nossa. Será porque a cultura continua a pensar, discutir, reunir, transformar. A arte tem o poder de transformar, nem que seja primeiro na ficção, na imaginação. 

Terminado o espetáculo, de volta aos bastidores, o mundo da cultura está desafiado a continuar pensando, fazendo, mexendo, revolucionando. Até aqui, foi grande. Mas o grito deve ecoar sem parar, o gesto feito deve continuar entrelaçando ações, abraçando em solidariedade. 

Uma nova consciência deve criar o mundo novo e enterrar a miséria e a exclusão para sempre. Uma cultura que busque no fim de cada atalho uma reta. Que busque em cada ponta de sofrimento uma alegria. Que busque em cada despedida o reencontro. 

O Brasil está aí para ser criado, recriado. Esta criação apenas começou. E a ação de criar e recriar é a nossa cultura.

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Em 3 de novembro de 2019 Betinho teria feito 84 anos. Há anos atrás a Documenta Filmes realizou o longa metragem “Betinho – A Esperança Equilibrista” - conta a vida desse brasileiro que mudou a face da fome e da Aids no Brasil.




Crédito das imagens:

1. O Brasil de Betinho - Símbolo de cidadania - https://ibase.br/pt/betinho/
2. Betinho - www.pt.wikipedia.org.jpg
3. Circo Voador - www.ctb.org.br.jpg
4. Sesc - www.issuu.com.jpg
5. Betinho - www.nossacausa.com.jpg


Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco fazendo um comentário nesta postagem. 

O NATAL DOS HERODES DE HOJE - Leonardo Boff

23 de dezembro de 2019

Em recente publicação, o escritor e teólogo Leonardo Boff nos propõe uma reflexão sobre o momento que passamos, quando vemos anuviar-se de chumbo o céu das nossas expectativas de Natal, fazendo-nos chegar de mãos limpas e coração partido ao encontro dos nossos amigos e familiares. 

"Presentes e festa só para as crianças" – foi o que eu desejaria combinar com a minha família... A elas caberá desmanchar as tristes marcas que este mundo cruel nos vem oferecendo, apesar da nossa vigilante resistência. E construir o mundo que muitos sonhamos para elas e com elas. Mas hoje, como se denuncia nas redes sociais: "É a política que incita a morte, que faz disparos de helicópteros em cima de casas e escolas, que faz dias de operações com invasões a domicílios e comete abuso de autoridade”. (Maré Vive)

Com a sabedoria do seu olhar fraterno sobre o mundo, Leonardo Boff nos mostra que não só ampliamos o número das centenas e centenas de jovens, pobres e negros negligenciados e mortos pelas ruas das grandes cidades. Agora, o que estamos assistindo é que também as crianças, inúmeras, são vítimas das "armas de Satanás", como as chamava Celestino V, um papa da época medieval. Mas essa é outra história. 
Segue o texto. 

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O Natal sempre possui o seu idílio. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, especialmente quando vem ao mundo o puer aeternus, o Divino Infante, Jesus. Há anjos que cantam, a estrela de Belém que brilha, os pastores que velam à noite o seu rebanho. Mas lá estão principalmente Maria, o bom José e o Menino deitado numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria”. E eis que apareceram também vindo do Oriente, uns sábios, chamados magos, que abriram seus cofres e ofereceram ouro, incenso e mirra, símbolos misteriosos.

Mas havia também um rei mau, Herodes, crudelíssimo a ponto de dizimar toda sua família. Ouviu que nascera na cidade de Davi, Belém, um menino que seria o Salvador. Temendo perder o trono, mandou matar em Belém e arredores, todos os meninos de dois anos para baixo.

Os textos sagrados conservam um lamento dos mais pungentes de todo o Novo Testamento: ”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e muito gemido. É Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu."(Mt 2,18). 


O Natal deste ano nos traz à mente os atuais Herodes que estão dizimando nossas crianças e jovens. 

Entre 2007-2019, 57 crianças e jovens até 14 anos foram mortos no Brasil por balas perdidas, em ações policiais. Só neste ano de 2019 no Rio de Janeiro, 6 crianças e 19 adolescentes perderam a vida em ações policiais, informa a Plataforma Fogo Cruzado. Houve na região metropolitana do Rio 6.058 tiroteios com arma de fogo, com 2.301 pessoas baleadas das quais 1.213 foram mortas e 1.088 gravemente feridas. 


O caso mais clamoroso foi da criança de 8 anos Aghata Félix morta por disparo de fuzil pelas costas dentro de uma kombi quando ia para casa com sua mãe. Seus nomes merecem ser referidos. 





Com poucos anos a mais, tiveram o mesmo destino dos mortos por Herodes. Seus nomes merecem ser referidos. Embora com poucos anos a mais, tiveram o mesmo destino dos mortos de Herodes: Jenifer Gomes, 11 anos; Kauan Peixoto 12 anos; Kauã Rozário 11 anos; Kauê dos Santos 12 anos; Agatha Félix 8 anos; e Ketellen Gomes 5 anos

Os textos sagrados conservam um lamento dos mais pungentes de todo o Novo Testamento: ”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e muito gemido. É Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu” (Mt 2,18).                         
                             
O governador do Rio de Janeiro com sua polícia feroz vem sendo acusado de crime contra a humanidade pois manda atacar as comunidades com helicópteros e drones, aterrorizando a população. O prefeito Marcelo Crivella confessou que nas 436 escolas instaladas nas comunidades, devido às ações policiais, as crianças perderam 7000 horas de aula.  Junto com a mãe de Aghtata Félix, Vanessa Francisco Sales que carregava no enterro a boneca da Mônica que sua filhinha tanto gostava, fazem-se ouvir as mesmas vozes que a Raquel bíblica.   

As mães do Morro do Alemão, do Jacarezinho, da Chatuba de Mesquita, da Vila Moretti de Bangu, do Complexo do Chapadão, de Duque de Caxias, da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha, de Maricá. Escutemos seus lamentos:



“Ouvem-se muitas vozes, muito choro e muitos gemidos. As mães choram seus queridos, mortos por balas perdidas; não querem consolar-se porque perderam suas crianças para sempre. Pedem uma resposta que não lhes vem de nenhuma instância. Entre lágrimas e muitas lamentações suplicam: parem de matar nossas crianças. Parem, pelo amor de Deus. Queremos elas vivas. Queremos justiça”.                                                                       

       
Este é o contexto do Natal de 2019, agravado por uma política oficial que usa os meios perversos da mentira, do fake news, de muita raiva e de ódio visceral. 

Jesus nasceu pobre e pobre viveu a vida inteira. E surge um presidente que tem frequentemente Jesus em seus lábios e não em seu coração porque difunde ofensas a homoafetivos, a negros, a indígenas e a quilombolas e a mulheres.

Diz abertamente que não gosta de pobres, quer dizer, não gosta daqueles que Jesus disse: “bem-aventurados os pobres” e e que os chamou “meus irmãos e irmãs menores” e que no ocaso da vida serão nossos juízes (Mt 25,40). Não gostar dos pobres significa que não quer governar para as maiorias dos brasileiros que são pobres e até miseráveis, para os quais deveria primeiramente governar e cuidá-los.


Apesar disso tudo, há que se celebrar o Natal. Faz escuro, mas festejamos a humanidade e a jovialidade de nosso Deus. Ele se fez criança indefesa. Que felicidade em saber que seremos julgados por uma criança que apenas quer brincar, receber e dar carinho e amor.

Que o Natal nos conceda um pouco daquela luz que vem da Estrela que encheu de alegria os pastores dos campos de Belém e que orientou o sábios-magos para a gruta. “Sua luz ilumina cada pessoa que vem a este mundo” (Jo 1,9), você e eu, todos, não só os batizados.

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Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: sol da esperança, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2007.

Fonte do texto: https://leonardoboff.wordpress.com/

Publicado em 16/12/2019

Créditos das imagens - na ordem de inserção neste texto:

1 - Pipa - Praia Grande SP - www.mapadebrincar.com.br.jpg
2 - Sant'Ana - Leonardo da Vinci - reprodução: www.veja.abril.com.br.jpg
3 - Imagens montadas - www.catracalivre.com.br.jpg
4 - Ágatha Félix - 8 anos - www.ucamcesc.com.br
5 - Kattellen Gomes - 5 anos - www.cbn.globoradio.globo.com
6 - Kauê dos Santos - www.eurio.com.br.jpg
7 - Kauan Peixoto - 12 anos -  www.ibahia.com.jpg
8 - Kauã Rosario - 11 anos - hpps://bandnewsfmrio/editoriais-detalhes/menino-baleado-na-zona-oeste-tem-morte-cerebral
9 - Presépio doméstico - www.vaniserezende.com.br


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