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CUBA RESISTE - AO SEU POVO, A NOSSA SOLIDARIEDADE!

25 de julho de 2021

 

Há duas semanas ficamos sabendo dos manifestos havidos contra as medidas socialistas em Cuba. Muitos, na grande imprensa do Brasil, aproveitaram para apontar as dificuldades por que passa a população de Cuba, como se não soubéssemos do forte bloqueio econômico norte-americano, seguido por todos os países aliados, contra Cuba. Não esqueçamos que o Brasil deixou de contar com os excelentes serviços dos médicos cubanos, em nosso território, pelas mesmas razões. Foi uma forma de apoio do atual governo brasileiro ao bloqueio econômico ao povo cubano. Ninguém melhor do que o escritor Frei Beto para  trazer-nos informações confiáveis sobre o que está acontecendo por lá. Reproduzo, aqui, o seu artigo sobre o assunto. 

CUBA RESISTE

Artigo de: Frei Betto*

Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros “Fidel e a religião” (Fontanar/Companhia das Letras) e “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.

Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamento à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leitos cubanos avessos ao socialismo.

Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistas sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital?

Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.

Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.

Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.

Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos... O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?

Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas.

Democracia, no meu conceito, significa o “Pai nosso” - a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o “pão nosso” - a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.

Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de "prostíbulo do Caribe". A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular...

Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje.

Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do “sonho americano”, promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a “solidária” ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile.

Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Miguel-Diaz Canel: “Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar “missões humanitárias” que se traduzem em invasões e interferências militares.”

“Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia.  Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção “humanitária”, que terminaria em intervenções militares”.

“Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro.  Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração.”

"Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos.”                                                                          

"Também tem limitações de combustíveis e de peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano.”

“O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos.  Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto, tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação, segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado.”

“Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz).”

“Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha.”

É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.

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* Frei Betto é escritor, autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org – Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

Copyright 2021 – Frei Betto-Mhgpal - Agência Literária - mhgpal@gmail.com

http://www.freibetto.org/>  

Twitter:@freibetto.

https://youtu.be/HnR2EsH9dac

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Crédito das imagens:

1. A imagem panorâmica, foto da Catedral de Havana e do centro da capital são        reproduções de imagens de agências de viagem.

2. Miguel-Diaz Canel, presidente de Cuba - pt.wikipedia,org.jpg

3. Miguel-Diaz Canel em Havana - O globo. www.globo.com.br.jpg

4. Frei Beto - reprodução.


Nota As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.








VIVER BEM A VELHICE - O QUE VOCÊ TEM PARA NOS CONTAR?

19 de julho de 2021


Recebi de um amigo e seguidor deste blog, um pequeno e interessante texto sobre a velhice 

um tema sobre o qual muito se escreve (há uma página, neste blog, sobre a velhice), embora ainda nos pareça que não se disse tudo. A velhice é um período de plenitude da vida, em que se tem o conforto de lembrar o passado, a sensação bonita da saudade das coisas que vivemos, e a segurança da experiência que nos torna mais livres e felizes, quando não há necessidades imperiosas ou o desgosto do desamor familiar.

Para muitos, a velhice pode significar um tempo penoso de se viver, mas devíamos escrever mais sobre a graça e a riqueza de se alcançar a culminância da vida! Nós, os velhos, temos sentimentos que, se fossem mais conhecidos, muitos cuidariam de preparar com mais empenho pessoal essa etapa tão preciosa do viver. Seria bom sempre poder contar com a companhia de quem se ama, na velhice, mas às vezes se precisa viver na dependência de familiares, em casas de repouso ou na solidão de nossa própria casa, quando, por diversos motivos, o companheiro ou a companheira já não estão conosco.

Alguns alcançam a graça de uma solidão cultivada de bem-quereres e  de pensares, com momentos de alegria impagáveis por ainda podermos cooperar com o nosso fazer, colaborando para o bem-estar do mundo em que vivemos. Para muitos, o que mais os sustenta é a prática de uma espiritualidade de convivência fraterna e de amor pelo outro, que preenche a sensação de solidão, apoia o inevitável sofrer, e amplia o nosso horizonte para as diferentes diferenças que muito nos acrescenta e nos faz sentir cheios de vida. É quando a velhice nos torna abertos para o novo, e somos capazes de compreender aqueles que não pensam nem vivem como nós desejaríamos.

Mas sempre devemos  refinar a nossa mente e o nosso olhar sobre a preciosa longevidade que nos é dada, especialmente se a vida nos favoreceu com saúde e a autonomia financeira. O que não significa que, com isto, estejamos dispensados de conhecer ou de nos solidarizar com as várias faces da dor, em todos os seus matizes, especialmente aquela de saber que muitos, velhos como nós, estão sofrendo o desalento da necessidade em várias dimensões.

O precioso texto que me foi enviado, atiçou-me a curiosidade e o prazer de conhecer um pouco da sabedoria e da poética do seu autor  um grande escritor  e crítico literário francês. Émile A. Faguet nasceu na primeira metade do século XIX. 

Seu texto, aqui reproduzido, deve ter sido encontrado num dos livros de uma coleção escrita por Faguet entre 1900 e 1910, chamada “Le Dix Commandements” (Os dez Mandamentos), produzida em 10 volumes que abarcam os nossos principais interesses, incluindo um livro sobre a velhice.


Eis os títulos dos 10 volumes de
Émile A. Faguet:

  1.   De l’Amour de Soi (Do Amor de Si),

  2.   De l’Amour (Do Amor),

  3.   De la Famille (Da Família),

  4.   De l’Amitié (Da Amizade),

  5.   De la Vieillesse (Da Velhice),

  6.   De la Profession (Da Profissão),

  7.   La Patrie (A Pátria),

  8.   De la Verité, (Da Verdade),

  9.   Le Devoir (O Dever),

   10. De Dieu (Sobre Deus).  

Segue o texto que me foi enviado:

“Existem cinco coisas antigas que são boas:

• Esposas idosas.

• Os velhos amigos para conversar.

• A velha lenha para aquecer.

• Velhos vinhos para beber.

• Os livros antigos para ler.”


Ao lado do texto, seguem ditos de filósofos, romancistas, artistas, produtores de
 teatro, cinema e outros, escolhidos por Émile A. Faguet, para complementar suas ideias sobre a velhice. Sugiro, aqui, uma leitura demorada e mais refletida, para que a curiosidade não nos deixe perder a profundidade do que os autores se propõem dizer. Pode acontecer que não estejamos de acordo com todos, e isso é bom. Significa que temos o direito de discordar, de pensar diferente, contanto que saibamos ampliar a nossa experiência com o de outras pessoas de culturas e tempos diversos. 

Vejamos: 

Velho é aquele que considera que sua tarefa está cumprida. Aquele que se levanta sem metas e se deita sem esperança. Autor desconhecido*

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão - Gabriel Garcia Marques*

Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os próximos trinta, o comentário. Arthur Schopenhauer*

A velhice tira o que herdamos e nos dá o que merecemos. Gerald Brenan*

Um homem não é velho até que comece a reclamar em vez de sonhar. John Barrymore*

Leva-se dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar a boca. Ernest Hemingway*

Quando me dizem que estou velho demais para fazer alguma coisa, tento fazer mais rápido. Pablo Picasso*

A maturidade do homem é ter recuperado a serenidade com a qual brincávamos quando éramos crianças. Frederich Nietzsche*

Os velhos desconfiam dos jovens porque já foram jovens. William Shakespeare*

Na juventude aprendemos, na velhice entendemos. Marie von Ebner Eschenbach*

O jovem conhece as regras, mas o velho conhece as exceções. Oliver Wendell Holmes*

O velho não pode fazer o que um jovem faz; mas faz melhor. Cícero*

A arte do envelhecimento é a arte de preservar alguma esperança.  André Maurois*

As rugas do espírito nos fazem mais velhos que as do rosto. Michel Eugene de le Montaigne*

As árvores mais antigas dão os frutos mais doces.  Provérbio alemão*

Envelhecer é como escalar uma grande montanha: enquanto escala, as forças diminuem, mas o olhar é mais livre, a visão mais ampla e mais serena. Ingmar Bergman*

O meu desejo sincero é que alguns leitores me enviem seus comentários sobre  como se prepara para a velhice, ou a vivenciam agora. Quem desejar, deixe o seu comentário aqui abaixo, ou escreva para: rezende.vanise@gmail.com. Eu teria muito prazer em publicar sua experiência, mesmo se você prefira não se identificar na postagem. É um gesto de partilha com os caros leitores deste blog. Agradeço de coração!

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                          Èmile A. Faguet /1915), nasceu em La Roche-sur-Yon (Vendée), na França. Estudou na École  Superieure em Paris. Doutorou-se em Literatura em 1883. A partir de 1892 foi crítico literário para o “Revue Bleue” e em 1896 assumiu o lugar de Jules Lamaître no “Jounal des débats”. Também atuou como crítico dramático para o Soleil.  Em 1897 tornou-se professor de crítica literária na Universidade de Paris. Em 1900 foi eleito para a Academia Francesa de Letras, recebendo a faixa do “Légion d’honor” no ano seguinte. É autor valiosos livros sobres temas diversificados. Em 1890 escreveu Estudos Literários sobre o século XIX, sobre Política e Moralismo (1890), Nietche (1900), Liberalismo (1903), Feminismo (1910), Culto à incompetência (1911), Iniciação à Filosofia e A arte de Ler (1912), Pequena história da Literatura (1913), e muitos ensaios sobre grandes nomes da literatura francesa. Morreu aos 68 anos.
A imagem ao lado, de Émile A. Faguet, é de 1894.



Créditos das Imagens:

1 a 3 - Imagens do portal www.canstockphoto,com.br

4. Cadernos da Coleção dos 10 vol., em português.

5. Retrato Émile A.Faguet - https://images.app.goo.gl/kBPzQP7KPiNrXB1J8  

6. Imagem de Émile A. Faguet em 1897. 

Nota As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.


DESIGUALDADE SOCIAL E POBREZA - UM FATOR RELEVANTE NO CÍRUCLO VICIOSO DA ESCASSEZ E DA TOMADA DE DECISÕES

5 de julho de 2021

 


Entrevista com o sociólogo Luís Henrique Paiva, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e em Política Social pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, e doutor Sociologia e Política pela UFMG. Atualmente é diretor do Cadastro Único para Programas Sociais, do Ministério do Desenvolvimento Social e professor do curso de mestrado em Administração Pública do Instituto Brasiliense de Direito Público - IDP.

  • Por: João Vitor Santos | Edição: Patrícia Fachin
  • Foto: Fotos Públicas/Raphael Alves
  • Publicado em: IHU Unisinos - 05/07/2021

Situações de escassez pioram nossa capacidade de tomar boas decisões. São situações nas quais temos mais problemas do que recursos para resolvê-los", diz Luís Henrique Paiva, ao comentar o estudo publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo sobre o tema. Quando se trata de escassez gerada pela pobreza, explica, a situação ganha contornos mais difíceis porque "a pobreza não é uma escolha" da pessoa que se encontra nessa condição. "Você pode parar no meio da tarde e tomar um lanche na padaria, o dinheiro não fará falta para você no final do mês. Uma pessoa pobre, ao contrário, tem que pensar em cada pequena decisão econômica como um dilema: tudo o que decidir poderá ter um grande custo", observa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, o sociólogo argumenta que a distribuição de renda às famílias que se encontram na pobreza contribuiria para romper com este "círculo vicioso" em que más decisões são tomadas em função da condição de pobreza e, ao mesmo tempo, a pobreza é um fator que contribui para a tomada de más decisões. "Um pai ou uma mãe que não sabe se o dinheiro que tem vai chegar ao final do mês, e passa todos os momentos do dia pensando em como pode tentar resolver, acaba se irritando com o barulho das crianças, perdendo a paciência mais facilmente. Isso faz com que seja fundamental dar a essas famílias garantias mínimas de renda. Isso terá impacto em indicadores educacionais, no longo prazo, e trará, já no curto, um aumento no bem-estar psicológico dos mais pobres. (...) Romper esse ciclo envolve redesenhar as políticas sociais, de maneira que elas possam acomodar alguns erros dos mais pobres e, ainda assim, beneficiá-los". Confira.

IHU On-Line - O que significa ser pobre hoje, nesse contexto de pandemia, perda de rendimentos e diante de um mar de incertezas?

Luís Henrique Paiva - A pandemia está nos mostrando que nossa preocupação deve ser maior do que com o núcleo estrutural da pobreza, composto por famílias e pessoas que são permanentemente pobres, e alcançar pessoas que são muito vulneráveis à pobreza. Pessoas que, na ocorrência de choques (econômicos, políticos, ambientais ou epidemiológicos), podem repentinamente cair na pobreza e ter grandes dificuldades para voltar a superá-la.

IHU On-Line - Pobreza e estresse. Como esses dois elementos incidem sobre a vida dos brasileiros no atual cenário e quais os efeitos sobre a tomada de decisão?

Luís Henrique Paiva - Situações de escassez pioram nossa capacidade de tomar boas decisões. São situações nas quais temos mais problemas do que recursos para resolvê-los. Não são situações que digam respeito apenas à pobreza. Pessoas enfrentam muitos tipos diferentes de escassez: se você resolve ter um segundo trabalho, vai sentir escassez de tempo, por exemplo. Se você resolve fazer um regime, sentirá escassez de calorias. A diferença para a pobreza é que a pobreza não é uma escolha. Eu tenho dois trabalhos e sinto escassez de tempo, o que prejudica a qualidade das minhas decisões, mas essa foi uma decisão minha. Os pobres enfrentam uma difícil situação de escassez que não escolheram sentir.

Os pobres enfrentam uma difícil situação de escassez que não escolheram sentir - L.H.Paiva  Tweet

A escassez faz com que tenhamos que utilizar nossos recursos mentais para tomar todas as decisões. Você pode parar no meio da tarde e tomar um lanche na padaria, o dinheiro não fará falta para você no final do mês. Uma pessoa pobre, ao contrário, tem que pensar em cada pequena decisão econômica como um dilema: tudo o que decidir poderá ter um grande custo.

O que a literatura tem mostrado, infelizmente, é que esses recursos mentais se exaurem. A consequência é que perdemos a capacidade de tomar boas decisões quando questões realmente importantes surgem. Devo mandar meus filhos para a escola ou permitir que eles façam pequenos trabalhos que possibilitem que a família consiga comprar alimentos? É lógico que, no longo prazo, a melhor decisão para a família é mandar seus filhos para a escola. Mas como tomar essa decisão em um contexto diário de profunda escassez? A escassez compromete a nossa capacidade de tomar boas decisões. E más decisões alimentam nossa escassez. É um círculo vicioso.

A escassez compromete a nossa capacidade de tomar boas decisões. E más decisões alimentam nossa escassez. É um círculo vicioso - L.H.Paiva  Tweet

IHU On-Line - Analisando dados de sua pesquisa sobre o tema, o senhor disse que “viver na pobreza exaure a sua capacidade mental”. Poderia nos trazer exemplos concretos que o senhor detectou na pesquisa? Como essa exaustão se manifesta na vida dos mais pobres? 

Luís Henrique Paiva - Nosso trabalho é um policy research brief, uma revisão da literatura na área, e não chegou a levantar dados primários. Mas há exemplos na literatura que podem ser mencionados. Alguém que enfrenta escassez de tempo, por exemplo, se apressa em tomar uma decisão porque não pode perder tempo com ela. A qualidade da decisão é ruim e o problema volta em duas semanas, ainda mais complicado. Isso alimenta a escassez de tempo original e mantém a pessoa permanentemente na própria situação de escassez. O mesmo ocorre com as pessoas pobres. Elas muitas vezes recorrem a um agiota para resolver uma situação extrema. Como o agiota vai cobrar juros extorsivos, a resolução de um problema imediato tem como custo a manutenção da pobreza. A escassez, seja ela de tempo ou dinheiro, nos leva a tomar decisões que nos mantêm em situação de escassez.

IHU On-Line - Como esse estado de exaustão decorrente da pobreza impacta os mais jovens?

Luís Henrique Paiva - Crianças mais pobres e jovens que vivem situações de escassez têm pior desempenho escolar e isso compromete a saída da pobreza. Elas também tendem a viver em contextos familiares mais tensos, pelo fato de que a escassez reduz nossa capacidade de autocontrole. Um pai ou uma mãe que não sabe se o dinheiro que tem vai chegar ao final do mês, e passa todos os momentos do dia pensando em como pode tentar resolver, acaba se irritando com o barulho das crianças, perdendo a paciência mais facilmente. Isso faz com que seja fundamental dar a essas famílias garantias mínimas de renda. Isso terá impacto em indicadores educacionais, no longo prazo, e trará, já no curto, um aumento no bem-estar psicológico dos mais pobres.

Crianças mais pobres e jovens que vivem situações de escassez têm pior desempenho escolar e isso compromete a saída da pobreza - L. H. Paiva -  Tweet

IHU On-Line - Como o senhor analisa os programas sociais nesse contexto de pobreza e exaustão mental?

Luís Henrique Paiva - O importante é que tenhamos alguma “folga” para lidar com imprevistos. Se o seu carro quebra, você precisa levá-lo ao mecânico. Se você tem recursos, isso não te afetará. Se não tiver, provavelmente vai consumir toda sua capacidade mental. Você terá que fazer contas, pensar se há algo que possa ser cortado das suas despesas. A chance de cometer um erro aumenta. A “folga” pode levar pessoas muito ocupadas a deixarem sua agenda aberta e sem compromissos durante parte do dia ou da semana. Isso permite que ela acomode as demandas, quando surgir algo que não foi previsto. Se você não é pobre, é bom que tenha uma poupança para emergências, de modo que também possa lidar com imprevistos. As pessoas muito pobres, entretanto, precisam de políticas sociais que levem isso em conta. As transferências de renda colaboram para gerar uma “folga” mínima: ter a certeza de que uma soma de recursos virá todos os meses reduz a carga imposta pela pobreza ao processamento mental. Na prática, essas transferências têm potencial para produzir impactos educacionais, no longo prazo, e podem trazer, já no curto, um aumento no bem-estar psicológico dos mais pobres.

As transferências de renda colaboram para gerar uma “folga” mínima: ter a certeza de que uma soma de recursos virá todos os meses reduz a carga imposta pela pobreza ao processamento mental - L. H. Paiva  Tweet

IHU On-Line - Quais os desafios para a concepção de programas sociais que atendam quem tem fome e outras necessidades básicas, mas que também deem conta da saúde mental das pessoas empobrecidas?

Luís Henrique Paiva - Vimos que pessoas mais pobres tendem a ter sua capacidade de tomar boas decisões comprometida pela própria situação de escassez. Políticas que criam uma “folga” para essas pessoas podem melhorar sua capacidade de tomar boas decisões. Transferências de renda minimamente generosas têm essa capacidade.Vemos também que as pessoas que são mais pobres aderem menos a tratamentos de saúde de longo prazo, desistem mais de programas de qualificação profissional. Esses são exemplos de como as decisões tomadas em situação de escassez alimentam a própria escassez. Muitos pensam que são pobres porque tomam más decisões, mas não percebem que tomam más decisões porque são pobres. Romper esse ciclo envolve redesenhar as políticas sociais, de maneira que elas possam acomodar alguns erros dos mais pobres e, ainda assim, beneficiá-los.

Muitos pensam que são pobres porque tomam más decisões, mas não percebem que tomam más decisões porque são pobres - L.H.Paiva Tweet

IHU On-Line - Os efeitos psicológicos do empobrecimento tendem a ser maiores no campo ou nas cidades? Por quê?

Luís Henrique Paiva - A literatura que revisamos não sugere nenhuma diferença substantiva nesse sentido. Agricultores pobres tendem a ter resultados em testes de QI mais baixos nos períodos de maior carência, no momento que precede a colheita, da mesma forma que pobres urbanos comprometem sua capacidade de tomar decisões em momentos de grande escassez.

IHU On-Line - O Brasil é um país extremamente desigual. Como essa desigualdade afeta a autoestima de quem está na parte de baixo da pirâmide social e como isso acaba amarrando-os nessa condição econômica e social que vivem?

Luís Henrique Paiva - Há pesquisas que sugerem impactos específicos da desigualdade sobre o bem-estar das pessoas e sobre um grande número de problemas sociais. Segundo esses estudos, sociedades mais igualitárias teriam maiores níveis de coesão, maior apreço pela vida e menor suporte a medidas como a pena de morte, as crianças seriam mais felizes, doenças mentais seriam menos frequentes. Mas há um enorme percurso até termos um pouco mais de certeza sobre isso.

O Estado brasileiro muitas vezes se comporta como um Robin Hood às avessas, o que explica termos uma sociedade tão desigual - Luís Henrique Paiva. Tweet

IHU On-Line - Qual o papel da sociedade, como um todo, no enfrentamento do empobrecimento e adoecimento do Brasil? E o Estado, quais os erros e acertos que tem percebido nos últimos governos no enfrentamento desses problemas?

Luís Henrique Paiva - Iniciativas que partam da sociedade são importantes. Temos visto muitas ações conduzidas por entidades sem fins lucrativos, empresas e famílias, que beneficiam a vida dos mais pobres. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que uma alteração mais profunda do quadro de pobreza e desigualdade depende da atuação do Estado. O regime tributário tem que ser mais progressivo, isto é, alcançar desproporcionalmente os mais ricos, e financiar transferências e serviços também progressivos, isto é, que alcancem desproporcionalmente os mais pobres. O Estado brasileiro muitas vezes se comporta como um Robin Hood às avessas, o que explica termos uma sociedade tão desigual.

Uma alteração mais profunda do quadro de pobreza e desigualdade depende da atuação do Estado - L.H. Paiva

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Fonte da entrevista: http://www.ihu.unisinos.br/610751-a-pobreza-e-um-fator-relevante-no-circulo-vicioso-da-escassez-e-da-tomada-de-mas-decisoes-entrevista-especial-com-Luís-henrique-paiva

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