Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

NEM TUDO É DIAS DE SOL

3 de dezembro de 2016

Não é simples nesses dias escrever e pensar... Nem cuidar do pesar imenso por várias razões, e não só por nosso país dilacerado, diminuído dos valores e do exercício da democracia. 

Nesse clima a dor fincou presença, depois de termos admirado a alegria celebrada por um time que estava a conquistar um lugar de evidência, no futebol da América Latina. 

Um descuido da aviação privada nos traz a dor imensa de muitas mortes e profundas saudades. Pois não choramos essas mortes feito se choraria a morte como no poema do grande Fernando Pessoa:...e quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre.  




"
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural... 

Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se 
Natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
 
E quando se vai morrer,
Lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo 
E é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...".


Sobre a dor do mundo que nos atinge, há um soneto nascido em circunstância como esta, que me deixou abalada e triste. Volto àqueles versos e me refaço na Esperança:  


A dor do mundo


De tanta dor no mundo espraiada
Dos abalos infames, traiçoeiros,
De aleatórias mortes provocadas,
Ventania do ódio em nevoeiros...

De tanta falta de serenidade
Da infame lei de revidar no engodo,
Na guerra, na cegueira e na maldade
Que a violência traz ao mundo todo...


Essa vontade de abraçar os tristes       

Frente à guerra, ao terror, ao gesto insano,               
Nessa dor que se espalha sem limites...

De tantos ais e tantos desenganos,
Este desejo meu, essa vontade,
De revidar com gestos mais humanos! 

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Origem dos poemas:

Se eu pudesse trincar a terra toda - Fernando Pessoa (Alberto Caieiro) - Obra Poética em um volume - Org. e notas: Maria Aliete Galhoz - Editora Nova Aguiar, Rio de Janeiro,1995. p.216.

A dor do mundo - Vanise Rezende - Antologia Poética Sarau Brasil 2016 (Concurso Nacional de Novos Poetas). Org. Isaac Almeida Ramos. Vivara Editora Nacional. Cabedelo-PB, 2016. p.21

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Crédito das Imagens:

1. Madeleine Veilleuse - George La Tour - Museu do Louvre.
2. Imagem de Fernando Pessoa - www.nolimiardaspalavras. blogspot.com.br
3. Amanhecer - Foto: Odair Schiefelbein-Agudo-RS (Brasil).

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O AMOR REQUER CONCRETUDE

28 de novembro de 2016

Encontrei uma frase na internet cuja autoria é atribuida a Frida Kahlo: "Onde não  puderes amar não te demores". Consideradas as dificuldades que ela passou em sua vida, é possível que a frase se refira ao desmanche de uma relação amorosa. Quem já vivenciou essa experiência sabe como é doloroso quando, na relação amorosa, um dos parceiros já não se interessa de partilhar a vida com o outro. 

Aqui, eu gostaria de afirmar o contrário, lembrando que Amar é arte que se aprende como se aprende a caminhar e a falar... No caso da Arte de Amar é preciso tempo e cuidado, além da necessidade de exercício diário. 

Carece que te demores... 

Começa-se do jeito que se sabe, o coração e a mente abertos para conhecer o outro, cada outro com quem se está a relacionar por motivos diferentes, por compromissos diversos, por razões que só o coração conhece. Pessoas da família, os que encontro na rua e, ainda, aqueles com quem convivo no trabalho - uns mais camaradas e colaboradores, outros desconfiados, invejosos, irritantes -
um aprendizado que não tem fim. 

O Amor não é um sentimento coletivo, é personalizado de acordo com o dia e a hora, na alegria e na tristeza, nos dias de sim e nos dias de não. 

A gente ama a natureza e por amor à natureza a gente cuida bem do lixo e da água. Fazendo assim se está cuidando dos que hoje precisam do ar puro, das nascentes dos rios e da terra... Assim, cuida-se também dos que virão mais tarde.


A gente ama as plantas e suas flores e frutos. Por causa da partilha da beleza que nos entregam e dos alimentos que nos dão a gente oferece água, põe um pouco mais de terra boa, faz chegar o sol e a sombra como requer cada situação.

A gente também ama os animais e alguns trazem gatinhos e cachorros para o próprio convívio. 

A gente curte muito os filhos e as filhas, e vibra com as traquinices dos netos... E mesmo sem netos nem filhos a gente gosta de ver crianças e velhinhos felizes, curtindo a vida que podem ter.

Quantos jeitos de exercitar o cuidado, de  aprender a carícia da atenção essencial sem pieguices nem esmolas, sem jeitinhos nem apadrinhamentos, mas oferecendo o melhor que se tem e que se sabe e que se pode dar. 

Então, carece que te demores, para amar. Busca uma brecha para começar a praticar o amor, que o amor se dilata, se renova, conquista, rejuvenesce, faz bem à saúde. 

Faz o teu aprendizado sem esmorecer. Observa com atenção o que está por trás do olhar triste ou preocupado da secretária doméstica, do motorista, da babá dos teus filhos. 

Até que um dia terás aprendido a te informar mais sobre a tua cidade - que é preciso saber o que se passa com o descuido das políticas sociais hoje, em nosso país. Carece saber, ainda, as aspirações dos jovens e o sofrimento dos que estão sós...  

Talvez descobrirás que há refugiados próximos ao lugar onde vives.  Desempregados que a crise colocou ali ao teu lado... 

Assim,
onde não houver amor, faz a tua parte para o amor chegar, porque o mundo tem sede de amor.

De Amor - não de um sentimento romantizado nem de esmola, nem da oração destacada do teu irmão, nem da "caridade ao pobrezinho", nem do desencanto da indiferença. Há muitos projetos sociais inclusivos, educadores e não assistencialistas esperando a tua cooperação.

Descobrirás, por exemplo, o testemunho dos estudantes que ocupam as escolas por que querem mais do que boas aulas e boa educação. Querem educação e saúde como um serviço cidadão que deve chegar a todos; querem mais do que têm os seus pais, querem democratizar a  cidadania. 

O Amor - também aquele dos casais de diferentes expressões, dos pais e dos filhos, dos amigos e dos apaixonados, do empenho social pela mudança, pela justiça, pela fraternidade... Todos os amores carecem que se olhe para fora de si, e não a esmo, mas na direção das possibilidades reais de expressão do lugar onde se está. Como, por exemplo, buscar informação e conhecimento dos direitos que o povo deste país está perdendo. Uma informação que não se encontra no silêncio imbecilizado da TV nem das meias verdades da imprensa de maior circulação.  


Amor requer concretude e exige posicionamento político. 

Também carece de "misericórdia", uma palavra antiga que agora se torna uma nova expressão universal e humanitária trazida pelo testemunho de Francisco, o papa. 

Visto assim, temos um bom caminho a fazer para aprender a amar.

Onde não houver amor, carece que te demores...  Experimenta começar em primeira pessoa. Verás que, com o teu gesto pessoal e único, que depende só de ti, o amor poderá florescer e vingar




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Crédito Imagens:

1. Imagem de: www.canstockphoto.com.br
2. Jardim doméstico - Idem
3. Refugiados - divulgação - epa.
4. Greve na UFPE - Recife-PE - WattsApp - Foto de Bruno Lafaiete -TV Globo.
5. Imagem divulgada em: www.outraspalavras.com.br


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MENSAGEM TARDIA A JULIO CORTÁZAR

22 de novembro de 2016


Deu-me vontade de enviar essa mensagem a você, você que há anos se foi e agora "está "... Pra falar daquela sensação tão viva que você descreveu sobre o seu amigo Paco, que morrera há trinta e um anos e ainda estava aí, não lá em cima nem na estratosfera mas estava aí, enquanto você acordava ou escovava os dentes, o amigo tão especial os outros presentes nos sonhos, mas ele sempre. 

Eu também tenho essa sensação da presença viva de pessoas que amei e que se foram há tantos idos anos. E, como você, Cortázar, sei que a Mara, minha amiga Mara "está aí". Quem sabe vocês se encontraram na Argentina, ela estava lá no tempo de Allende, e depois como você foi morar em Paris. Ela e o Phillipe, você e a sua Carol, quem sabe chegaram a conversar um dia, quem sabe...

Mara vive. Vejo-a chegando à minha casa com suas malas de repente, sem dizer quando nem por que... Ainda sei dos contatos que ela tinha lá em casa, e não me falava nada... A ditadura em pleno rigor... Ela sequer uma explicação.    

O tempo passou... Um dia ela mandou me chamar depressa, morava no Rio de Janeiro e estava partindo, dessa vez não para Moçambique, – ia de férias a Paris, tinha a passagem comprada, tudo pronto...

De repente, não mais. Viera a leucemia, eu ali junto a massagear seus pés ou acarinhar seu rosto pálido, e aquela sua expressão amorosa de cuidado com os amigos que chegavam pra visitá-la.  


Na sua crônica você dedica ao Paco aquele quadro de René Margritte: um cachimbo... Ou um caminho sinuoso, uma ponte e não um cachimbo. Mas o que você escreveu eu sei que é assim, a Mara todavia está pra chegar com suas grandes malas, viva e sorridente, maravilhosamente  ela,  (a saudade me avisa quando o amigo que partiu está aí). 

Como você, a gente não sabe como nem onde... Só sabe que não é lá em cima, quiçá ao lado, cá dentro, está aí, não se sabe como nem onde... Está aí, eu sei, a Mara. Mesmo depois de anos que nem contei quantos!




Aquele seu rosto grande e cheio, como uma índia morena, olhos brilhantes de vida, cabelos lisos  e um vestido leve e solto de algodão florido como se usava então, e ela aí... ativa, atenta a todos os meus senões. A vida a fluir e sua presença delicada, ela está aí, e ainda sabe amar como ninguém...


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Texto inspirado no conto de Julio Florencio Cotázar - romancista, contista e cronista argentino (*26/08/1914 +12/02/1984): "Aí, mas onde, como". Livro de contos "Octaedro", Edições BestBolso, Editora Best Seller Ltda. Rio de Janeio, RJ

Créditos das Imagens

1. Imagem - www.ihu.usininus.br/entrevistas/557209
2. Foto de Marluza Correia Lima - arquivo deste blog
3. Cachimbo - Pintura de René Magritte - www.obviousmag.org
4. Rosto de índia publicado por www.avaaz.com.br - divulgação.

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BRASIL PEC-55 - UMA TEMERIDADE!

18 de novembro de 2016



Registramos, aqui, uma importante análise crítica à PEC 55 (antiga 241), realizada pela economista Tânia Barcelar, uma das mais importantes economistas e pesquisadoras do Brasil.

A produção dessa matéria é do site Marco Zero Conteúdo, que organizou um roteiro “para ajudar o leitor a entender melhor como funciona a máquina da desigualdade no Brasil e o que o governo Temer e seus aliados escondem dos brasileiros para justificar o injustificável”.

O texto é longo, mas a qualidade da informação e a linguagem facilitadora do conteúdo ajudam a compreender a temeridade desse Projeto de Lei - PEC 55.

A PEC 55 é a máquina brasileira
de produzir desigualdade

A PEC 55 (antiga 241) é insustentável. Cedo ou tarde amplos setores da sociedade devem se unir aos milhares de estudantes que ocupam escolas e universidades, por todo o país, para barrar a agenda que ela propõe: manter um Estado que tira riqueza de quem não tem para financiar quem não precisa. Se ainda não o fizeram é porque existe um debate interditado no Brasil sobre as verdadeiras causas do déficit público e de quem deve pagar a conta pelo ajuste”.

A financeirização do mundo
A economia funciona em duas esferas: a esfera produtiva e a esfera financeira. A esfera produtiva foi muito dinâmica no pós Segunda Guerra. E o Brasil foi um dos países mais dinâmicos do mundo neste período. Mas isso acabou nos anos 1980, quando a esfera financeira passa a comandar a economia mundial. Sem o impulso produtivo, fica cada vez mais difícil crescer. As grandes economias não crescem mais do que 2%. O Brasil dos anos Lula e do primeiro mandato de Dilma foi uma das exceções.

A força do dinheiro que não gera emprego
Os ativos financeiros circulando no mundo antes da crise 2008-2010 eram da ordem de 860 trilhões de dólares. Já o PIB somado de todos os países (toda a riqueza PRODUZIDA por esses países) estava na casa dos 60 trilhões de dólares, ou seja, catorze vezes menos.

O valor trabalho perdeu peso na vida econômica
Hoje você gera riqueza e valor sem passar pelo trabalho. Esse é o caráter fundamental da financeirização. O valor trabalho perdeu peso relativo na vida econômica. Para entender o que está acontecendo no Brasil é preciso ver o que está acontecendo no mundo.

"Agora se pode ganhar bilhões com o dinheiro certo, no lugar certo, na hora certa. Sem gerar um único emprego”.

No Brasil, ao contrário de outros países, o sistema financeiro é oligopolizado
Mesmo com o processo mundial de financeirização há diferenças em como os países adaptam suas economias a este sistema. O nosso sistema financeiro é oligopolizado, controlado por poucos agentes. Na Alemanha e no Canadá o sistema é descentralizado, a força não está concentrada nos grandes grupos econômicos. No Brasil, o poder econômico (e político) de ganhar dinheiro, muito dinheiro, sem gerar bens e empregos, está na mão de poucos, muito poucos. E eles respondem pela alcunha de “mercado”.

“Se eu falar cinco nomes de bancos aqui do Brasil vocês não vão lembrar os nomes dos outros”

Quem cavou o buraco da dívida foram os juros altos e não os gastos sociais
O déficit fiscal no Brasil começa quando começa o processo de financeirização da nossa economia. No pós-guerra, o Brasil sempre teve superávit. E foi esse superávit que pagou o desenvolvimento do país nos anos de Vargas, Juscelino e em boa parte do período do governo militar. Quem faliu o Brasil não foi a crise do petróleo dos anos 70. Foi o aumento dos juros nos anos 80.

Da dívida externa para a dívida interna
O Brasil engatou nessa dinâmica internacional da financeirização. O Brasil sempre engata. Querem dizer que a gente não é importante. Mas nós somos importantes, sim. Engatamos no comércio internacional no século XVI tocado pelas metrópoles colonizadoras, engatamos no desenvolvimentismo do pós-guerra e engatamos, a partir dos anos 80, na financeirização da economia. O boom dos juros americanos derruba a economia mexicana, que declara moratória. O capital internacional, com medo de que o (gigante) Brasil seja o próximo, fecha a torneira de recursos para o país. O governo, então, muda sua política. Ao invés de nos endividarmos externamente, passamos a rolar uma dívida financeira interna, através da emissão de títulos. Os aplicadores agora estão no Brasil (grandes bancos e empresas). Não dá para decretarmos moratória porque o estouro vai acontecer aqui dentro e não fora do país, como ocorreu no caso do México.

A boa vida dos rentistas: a aliança do setor produtivo com o setor financeiro
O que é dívida interna? Ela surge quando o governo emite títulos. E quem compra esses títulos? Os grandes bancos e as grandes empresas do setor produtivo. Aí entra uma conta que o credor faz: vale mais a pena comprar mais máquinas e contratar pessoal para aumentar a produção (o que vai gerar emprego e renda para os trabalhadores e o país) ou financiar o governo? Se os juros são altos, nesta conta vai valer mais a pena financiar o governo. Esses são os rentistas. Lucram muito, produzindo muito pouco. Ou nada.

A PEC 55 inviabiliza a participação das despesas financeiras no déficit do governo
Um governo possui despesas primárias e despesas financeiras. As despesas primárias são aquelas relacionadas ao pagamento de pessoal, custeio da máquina pública, transferências e investimentos. As despesas financeiras são aquelas para pagamento da dívida e dos juros da dívida pública. Lembre-se: dívida com os grandes bancos e as grandes empresas do setor produtivo. Mas você não ouviu falar em propostas para reduzir a despesa com o pagamento da dívida, ouviu? A PEC 55 só foca nos cortes e no congelamento das despesas primárias e é aí que estão os gastos e investimentos sociais em saúde e educação.

Quando a economia vai bem, tudo vai bem. Quando vai mal, alguém tem que pagar a conta.
Quando a economia vai bem, o superávit primário vai bem (o resultado positivo de todas as receitas e despesas do governo, excetuando gastos com pagamento de juros). Foi assim durante os dois mandatos do presidente Lula, e quase todo o primeiro mandato da presidenta Dilma. Nossas receitas foram maiores do que nossas despesas.

Tivemos superávit no Brasil até 2013. Em 2014 o saldo ficou negativo em 0,4 e em 2015 em 1,8. Em resumo, quando a economia vai mal (já ouviram falar na crise internacional, certo?) o superávit também vai mal. E isso significa que sobra menos recursos para o governo pagar os rentistas (aqueles que não produzem bens nem empregos, mas ganham muito dinheiro). Alguém tem que pagar essa conta, entende?

A PEC 55 e a falácia de que a Constituição de 1988 inviabilizou o Brasil
Os defensores da PEC 55 dizem que o Brasil não cabe na Constituição de 1988, que a Constituição aumentou muito as despesas (direitos) sociais e o Brasil não aguenta.

Mas não é verdade: Não houve explosão das despesas primárias depois da Constituição de 1988. Para se ter uma ideia, os gastos com o INSS cresceram apenas 1,3 ponto percentual em relação ao PIB entre 1999 e 2011. Também foi de 1,3 ponto percentual o aumento registrado para a soma de todos os demais gastos sociais. É claro que o PIB cresceu muito neste período, mas a proporção gastos/PIB nem tanto. O comportamento da despesa financeira também se manteve relativamente equilibrado enquanto o país crescia.

A PEC 55 e a falácia de que se reduzirmos os gastos sociais vamos reduzir a dívida.

Os defensores da PEC 55 dizem que se reduzirmos as despesas primárias (pagamento de pessoal, custeio da máquina, transferências e investimentos em infraestrutura e sociais) vamos diminuir o déficit, emitir menos títulos e diminuir a dívida.

Não é verdade: O cerne do problema da dívida e do déficit está no tamanho dos juros praticados no Brasil. E isso fica evidente a partir de 2014, com o agravamento da crise econômica. Os juros nominais saltam de R$ 311 bilhões em dezembro de 2014 para R$ 503 bilhões em dezembro de 2015. Um aumento de R$ 191 bilhões. O equivalente a 8,5% do PIB.

No mesmo período, as despesas primárias (que o governo Temer quer cortar com a PEC 55) passam de R$ 38 bilhões para R$ 111 bilhões, comprometendo 1,8% do PIB. As despesas primárias aumentaram R$ 78 bilhões, o que significa apenas 49% do aumento registrado para as despesas financeiras (para pagamento da dívida).

Fica claro que é o significativo aumento dos juros que gera o aumento da relação dívida/PIB tão criticado pelos defensores da PEC 55. Mas, por incrível que pareça, não está no debate nacional a redução dos juros. E olhe que o Brasil é o país com a maior taxa de juro real do mundo. Aqui os juros reais (descontada a inflação) estão em 3,5%. Em todo o mundo só dois países chegam próximo ao índice do Brasil: a Rússia e a Indonésia. Os demais têm taxas próximas de zero.

A PEC 55 e a falácia da relação dívida/PIB e a confiança no governo
Os defensores da PEC 55 dizem que o custo dos juros da dívida está relacionado à solvência do governo (sua capacidade de honrar os compromissos fiscais). Dizem que quando cresce muito a relação dívida/PIB o país fica sob suspeita. Os credores não confiam e deixam de financiar o governo. Por isso os juros têm que ser altos, para tornar os títulos atrativos aos credores (rentistas).

Não é verdade: A relação dívida pública/PIB no Brasil é de 66%. Para rolar esta dívida nós estamos pagando de juros 8,5% do PIB. Um percentual e tanto de juros, hein? Pois bem, a relação dívida/PIB do Canadá é de 90%, bem maior do que a do Brasil, e eles só pagam 0,5% de juros para rolar essa dívida. Na Alemanha, a relação dívida/PIB é de 70% e eles pagam 1,1% de juros.

Os países que têm relação dívida pública/PIB bem maior do que o Brasil estão pagando juros bem menores do que o nosso. O Brasil é a exceção. Nós somos um ponto fora da curva. Remuneramos o capital financeiro melhor do que qualquer país do mundo. Mas esse tema também está fora do debate nacional. Por que será? Para o governo Temer e seus aliados, o problema está nos gastos sociais do governo e no tamanho do Estado.

Por que a PEC 55 é insustentável e vai mobilizar muitas forças contra ela.
Não há como a sociedade brasileira suportar a PEC 55 por 20 anos. Ela exclui os gastos sociais de toda a dinâmica da economia. Vamos tirar todo o crescimento futuro da economia para pagar as despesas financeiras. No fundo, estaremos tirando recursos dos mais pobres para pagar os bancos e as grandes empresas. Simples assim.

Recentemente o senador Cristovam Buarque justificou o voto a favor da PEC 55 dizendo que agora veremos de fato quem apoia a educação, porque teremos que tirar recursos de outras áreas do governo para bancar o setor. Mas essa é apenas mais uma falácia. Das despesas primárias, 29% são gastos para pagar a Previdência, 14% para pagar a Saúde e 14,8% para pagar a Educação (Básica e Superior). Como se pode ver, a despesa do governo é muito concentrada em Previdência, Saúde e Educação. Ou seja, sobra muito pouco de onde tirar. O corte vai ser na carne. Ou então vai se esvaziar áreas estratégicas como os investimentos em ciência, tecnologia e inovação. O quadro é insustentável. Nenhum país do mundo realizou uma agenda tão radical de corte por tanto tempo. Tão danosa à população de mais baixa renda.

A pressão sobre a Saúde
Na Saúde, a dinâmica demográfica vai pressionar o aumento de gastos. A melhoria da qualidade de vida e a queda da natalidade estão envelhecendo a população brasileira. Teremos cada vez menos crianças e adolescentes (menor pressão sobre gastos em educação) para aumentarmos nossa população de idosos (pressão sobre os gastos com saúde). E todos sabem que o custo para manter um idoso é maior do que o custo de uma criança.

O gasto per capita do governo com saúde previsto para 2016 é da ordem de R$ 519,00. Caso a PEC vigore por 20 anos - com um crescimento estimado pelo IBGE de 10,1% para a população brasileira - o gasto per capita deve cair para R$ 411,00 em 2036, segundo estudo realizado pelo Ipea. No momento em que precisaremos de mais recursos, teremos menos dinheiro para a Saúde.

A ameaça da PEC 55 para a assistência social como política de Estado
Em 1988, o Brasil copiou o que havia de mais avançado em política no país, o Sistema Único de Saúde (SUS), para formular sua política de assistência social. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) é baseada no SUS. A medida incrementou o gasto público na cobertura econômica a um dos estratos sociais mais vulneráveis da sociedade.

Uma conquista fundamental do processo de redemocratização brasileira porque na assistência social você atinge diretamente quem não trabalha: o exército industrial de reserva que não trabalha. Ela beneficia com um salário mínimo mensal todo aquele que comprovar ser portador de uma deficiência física, mental, intelectual ou sensorial de longo prazo, que o impossibilita de participar de forma plena e efetiva na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas. Em outras palavras, todos aqueles que têm dificuldades de servir como mão de obra ao capital. O Brasil hoje dá cobertura a esses grupos. Um avanço extremamente significativo. O congelamento de gastos que a PEC 55 propõe deve atingir em cheio essa política.

Antes da Constituição de 1988 a assistência social não era política pública. Era coisa de primeira-dama”.

O Estado que tira de quem não tem para financiar quem não precisa
Não são apenas os rentistas e os grandes empresários beneficiados pelo modelo do Estado brasileiro que o governo Temer quer aprofundar: tirar de quem não tem para financiar quem não precisa. A classe média também entra nessa conta.

É necessário colocar no debate público as isenções e deduções de impostos promovidos pelo Estado brasileiro. A maior delas é a do Simples para micro e pequenas empresas, na ordem de R$ 74 bilhões. Completamente justificável porque dinamiza a economia brasileira, gerando empregos e renda.

As isenções e deduções do imposto de renda chegam ao valor de R$ 39 bilhões. Aqui estão os gastos que a classe média faz com os pagamentos da mensalidade dos seus filhos em escolas privadas e de seus planos de saúde privados. Aqui também está a isenção de lucros para empresas, que beneficiam em grande parte profissionais de classe média como médicos, advogados, economistas, engenheiros, jornalistas.

“Um Estado que financia quem não precisa e vai cortar de quem precisa. O Estado é para financiar a classe média ou para financiar um estudo de qualidade para a meninada que está nas favelas? Do jeito que está montado, nosso sistema tributário é um modo de financiar a desigualdade desde a base”.

Uma elite com a herança do colonialismo e a serviço do capital estrangeiro
O que a história nos mostra – e o impeachment da ex-presidenta Dilma e a ascensão do governo Temer confirmam – é que segmentos significativos da classe política e empresarial brasileira não possuem um projeto de soberania nacional. São submissos ao capital estrangeiro. Esta classe recebe o reforço da grande mídia e de setores conservadores da Academia para fazer triunfar seu modo de ver o mundo. Não é à toa que o governo de Getúlio Vargas sofreu tanta resistência interna à sua agenda de construção da autonomia econômica nacional.

A elite brasileira tem uma herança forte do colonialismo. Herança cultural. Nossos políticos só espelham isso”.

Depois da privatização, vivemos a desnacionalização do ensino superior brasileiro
O que está acontecendo com o ensino superior é um exemplo do descompromisso da elite brasileira com a soberania nacional. A oferta no ensino privado cresceu muito nos últimos anos. Três de cada quatro alunos estão na iniciativa privada. E as grandes empresas e grupos internacionais estão comprando as universidades privadas. Grandes grupos financeiros internacionais. Estamos vivendo uma preocupante desnacionalização do ensino privado superior no Brasil.

Você não vê esse mesmo movimento em outros países emergentes. Isso não está acontecendo na China, nem na Rússia, nem na África do Sul. E nossa elite empresarial e nossa elite acadêmica estão dizendo o que sobre isso? Nada. Afinal, este também não é um tema de debate nacional.

Nossa elite se importa mais em negar o que a gente é, porque quer ser o que não somos. E o sistema educacional reproduz isso. Educação tem que estar no centro das nossas preocupações.

A PEC 55 faz parte de um projeto maior de desmonte do Estado
O projeto que está embutido dentro do impeachment da presidenta Dilma é bem maior do que a PEC 55. A mudança do marco regulatório do pré-sal, por exemplo, é um capítulo fundamental desse processo. Eles sabiam que este era um ponto que Dilma não abriria mão. Um ponto inegociável para a ex-presidenta Dilma.

“A verdade é que nossa elite empresarial apóia a entrega do pré-sal para o capital estrangeiro. Falam que a Petrobrás não tem condições agora de tocar todos os investimentos necessários para a exploração do pré-sal. Mas por que essa pressa toda? Por que a urgência na votação de um projeto tão relevante?”

O verdadeiro debate é sobre o Estado que a gente quer

Mais do que o debate sobre o déficit público, o debate que precisa ser realizado hoje, no Brasil, é sobre o modelo de Estado que nós queremos. “Para quem é que a gente quer o Estado Brasileiro? Esta deve ser nossa primeira pergunta. A partir da resposta é que vamos discutir o déficit público”.

Exemplo do debate enviesado acontece na Reforma da Previdência. Sempre se discute muito a questão da idade, a ampliação da idade para a aposentadoria. Mas o mais grave é desindexar o salario mínimo do reajuste da aposentadoria. Se isso ocorrer, mais uma vez a conta da reforma vai ser paga pelos mais pobres. “Você vai depreciar a renda justamente na base mais vulnerável da Previdência”.

A luta pelos corações e as mentes dos brasileiros
Diante do quadro político atual uma reflexão se impõe: como fazer as pessoas perceberem que elas melhoraram de vida nos últimos anos porque houve a implantação de políticas públicas que construíram as condições para esses avanços?

Muitos acham que suas vidas melhoraram por mérito próprio. É claro que existe muito esforço individual envolvido na história da ascensão social da última década no Brasil, mas a ampliação de políticas públicas sociais foi a base que deu sustentação, facilitou e incentivou o sucesso pessoal.

O fortalecimento do caráter social da política e a relativização do determinismo da trajetória individual é um desafio que está posto na disputa de narrativas. Não é preciso dizer o quanto esse tema é central na mobilização da sociedade contra a PEC 55 e o quanto ele explica o sucesso da inviabilização das reais causas do déficit público e seus verdadeiros beneficiários.

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http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/A-PEC-55-e-a-maquina-brasileira-de-produzir-desigualdade/7/37265
Reportagem de Laércio Portela, publicada por Marco Zero Conteúdo  em 06-11-2016

Créditos da foto: reprodução

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GENTILEZA NO DIA-A-DIA

13 de novembro de 2016






Dia 13 de Novembro - Dia Mundial da Gentileza. Saí em busca de informação sobre o surgimento dessa ideia. Uma semente nasceu no final dos anos noventa, enquanto alguns amigos de várias partes do mundo se encontravam no Japão para trocar suas experiências. A ideia foi levada adiante até chegar aos nossos dias.




Entre nós é uma comemoração de incentivo para sermos melhores na convivência com os outros. Há muitos motivos para se exercitar essa dinâmica pessoal do bem, da atenção pelo outro, da fraternidade pessoal e universal. Pessoal, porque precisa-se aprender a cuidar de si mesmo,  e  a conviver com os mais próximos - os da família, os do condomínio, os que se encontra no trabalho. 

Cuidar da própria saúde (dos vícios de alimentação insana, do cigarro, da cerveja "social" habitual, do mau humor...). O mau humor faz mal à saúde! 


Cuidar, também, como cidadão, de seu próprio país, e interessar-se pelo país do outro como fosse o próprio - assumir atitudes pela saúde cidadã, aqui e lá fora. 

Hoje, no Brasil, por exemplo, estamos adoecidos... Sofremos a perda de direitos adquiridos, e da liberdade do exercício da democracia conquistada. 

Há ainda que se cuidar do viver - dessa missão tão importante que é viver! Do bem viver! Pois, o tempo se esvai... e, como canta Lenine no seu recente CD "Carbono", a vida não para!




Quem Leva a Vida Sou Eu
   

Não deixo a vida me levar
Não deixo a vida me levar
Eu levo o que vale do viver
Eu levo o que vale do viver!

Um sorriso pleno
Um amor sereno
E tudo que o tempo me der...

A vida é pra se louvar
Pra se louvar a vida é!
Pra se louvar a vida é!
Para o que vier, para o que valer!
Para o que vier, para o que valer!
Um caminho raro
Um coração claro
Por todo tempo que houver...
Levar
Valer
Louvar
Haver
Viver,
Se houver valor à vida!





Não deixo a vida me levar...
Quem leva a vida sou eu! 

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