Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

POLÍTICA MUNDIAL - MOMENTO DE LEVANTAR, SE REERGUER

27 de junho de 2017

Reporto aqui uma excelente entrevista publicada no portal Brasil Debate, com o renomado político e economista grego Costas Lapavitsas, professor de Economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas), na Universidade de Londres, e autor de diversos livros. A entrevista foi realizada por: Ana Luíza Matos de Oliveira e Paula Quental. A temática corrobora nossa visão sobre questões que desassossegam o mundo contemporâneo. Segue o texto:

Um dos convidados internacionais do 22º Encontro Nacional de Economia Política (Enep) - realizado na Unicamp, em Campinas, entre 30 de maio e 2 de junho - o economista grego Costas Lapavitsas, eleito deputado pelo Syriza em 2015, proferiu uma das palestras mais concorridas do encontro, sobre o tema “Políticas  de austeridade e as alternativas na periferia em tempos de crise do capitalismo”. É conhecido por  suas  críticas  ao  sistema financeiro ocidental moderno, o qual se dedica a estudar, e às políticas de austeridade.

Lapavitsas defende uma ruptura da Grécia  com  as políticas da União Europeia e menciona com frequência a existência de uma periferia na zona do euro formada por países que, como o seu, têm pouco a ganhar com o mercado comum. Também é um dos maiores entusiastas de um movimento  que unifique as  esquerdas  dos  vários  países  do bloco, embora admita que este seja um processo lento, de longo prazo. Em  entrevista exclusiva  ao Brasil Debate, falou de como a esquerda anda combalida  em  todo  o planeta, e  pregou  que ela ultrapasse o discurso apenas anticapitalista  para  trazer propostas “positivas” que conquistem os cidadãos, em geral bastante cansados e desiludidos.

“A esquerda perdeu confiança em si mesma e a aproximação com a classe trabalhadora, porque perdemos a credibilidade”, admite. “O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar, se reerguer”.  Comentou, ainda, sobre a importância da novidade representada pela micropolítica  de gênero  e  raça,  mas alertou  que esta não deve se distanciar  da  questão  da  luta  de classes, para  que  a  esquerda continue a falar a mesma língua dos trabalhadores.

Brasil Debate – Existem alternativas para países emergentes, como o Brasil, que sejam respostas à retomada agressiva do neoliberalismo pós-crise de 2008?  No caso do Brasil, a esquerda assiste, quase perplexa, a uma ofensiva das classes dominantes para impor reformas ultraliberais. Que opções ela tem diante desta ofensiva?

Costas Lapavitsas – A crise dos anos 2008-2009 atingiu vários países desenvolvidos, além dos Estados Unidos, que foi onde ela se iniciou. Atingiu vários países, desenvolvidos e em desenvolvimento, de forma sincronizada, e rapidamente. Isso porque atingiu o comércio de commodities, o fluxo de capitais, os investimentos estrangeiros. Houve impressão por parte de algumas pessoas, em vários países desenvolvidos, de que se poderia continuar no mesmo caminho e a crise terminaria, tudo ficaria OK. Que seria uma situação de crise temporária. Elas estavam dormindo. Agora nós sabemos a realidade. A situação atinge o mercado global e países como o Brasil. Não se imaginava a duração dessa crise e antes dela países da América latina com governos comandados pela esquerda falharam em suas economias com foco no extrativismo e em commodities. Falharam em perceber o que estava acontecendo na economia mundial nas últimas duas décadas. Deveriam ter desenvolvido outros setores da economia, de maneira mais equilibrada. Mas nós sabemos que a mudança é uma coisa difícil.

Brasil Debate – Você acredita que o capitalismo está em crise agora?

Costas Lapavitsas – O termo crise tem que ser usado com cuidado.  A esquerda fala em crise o tempo inteiro.  E  às  vezes  não  significa muita coisa.  Óbvio que não estamos em crise como estávamos em 2008-2009. Aquela realmente foi uma crise. Mas nós estamos em um período histórico de transformação nas últimas três décadas, com a globalização, a financeirização e o liberalismo. Não está claro. No largo senso, o capitalismo, mais uma vez, não está funcionando. Temos que pensar que não se trata apenas do pensamento anticapitalista. De não apenas se opor ao capitalismo. Precisamos buscar alternativas positivas ao capitalismo.

Brasil Debate – O que você quer dizer com alternativas positivas ao capitalismo?

Costas Lapavitsas – Temos que propor coisas positivas, alternativas que unam as pessoas em um mesmo propósito, não somente criticar o capitalismo.  Não  basta  ser anticapitalista. Temos  que  propor alternativas socialistas, associativismo. Basicamente alternativas socialistas. O capitalismo iniciou uma nova etapa, mas não terminou. Não é o fim.

Brasil Debate – O que a crise da Grécia, Portugal, Espanha e outros países da União Europeia submetidos aos rigores da Troika tem a ensinar ao Brasil? E, ao contrário, o que os últimos governos populares do Brasil (com Lula e Dilma), seguidos de um golpe dado pela direita, têm a ensinar à Grécia?

Costas Lapavitsas – Isto é muito interessante. Na Europa há claramente uma periferia. Uma nova periferia conformada pelos países que vocês mencionam. Assim, a Europa tem a ensinar à esquerda sul-americana  que  as  políticas  de  austeridade que nós fizemos nos últimos sete anos produzem resultados, que promovem a estabilização, mas destroem o emprego, destroem a produção e, na verdade, enfraquecem  a  economia.  É um ponto muito importante para considerar. 

A perspectiva de crescimento com a estabilização - que na verdade não existe - é a mais importante lição que poderá ser aproveitada pelo Brasil. O resultado das políticas de austeridade na Europa são um equilíbrio da economia muito problemático e uma economia muito fraca. Não se podem cometer os mesmos erros no Brasil.  Apenas porque eles querem estabilizar.  Austeridade  não  é  o  caminho.

Brasil Debate – Diante  de  uma  crise  do  capitalismo de grandes proporções, como a que estamos vivendo, por que a esquerda – em nível mundial – está com dificuldades de propor saídas e ganhar corações e mentes? E, ao mesmo tempo, assistimos ao fortalecimento da direita?

Costas Lapavitsas – Eu não sei muito sobre o Brasil, mas eu posso dizer sobre a Europa. Na Europa há duas razões. A primeira é que por muito tempo a esquerda foi apenas anticapitalista. Quando a esquerda propõe na Europa qualquer coisa, concretamente, é uma proposta para consertar instituições que já existem. E isso vem falhando sistematicamente. A esquerda perdeu confiança nas ideias mais radicais, de socialismo. Ela parou de ser mais radical porque não confia mais nessas ideias.

A segunda razão, ligada à primeira, é que a esquerda deixou de ser conectada aos trabalhadores, como  era  antes. Da  forma  orgânica anterior. Parou de falar dos interesses dos mais pobres, de suas ideias, aspirações. Deixou de falar a mesma língua dessas pessoas. As políticas de raça e de gênero se tornaram mais evidentes.  A partir do momento em  que  a esquerda abandona a política clássica de classes sociais e a substitui pelas políticas sexuais, de gênero, ela para de falar a língua das classes sociais, dos pobres, das classes trabalhadoras. Fala com pessoas com certo nível de educação, basicamente da classe média. Esquece sua origem plebeia. A esquerda precisa falar a língua das classes trabalhadoras, e isso é muito importante para a esquerda na Europa.

Brasil Debate – Você acha que essas questões de gênero e raça não deveriam estar interligadas com as de classes?

Costas Lapavitsas – Completamente. Deveriam estar conectadas sim. Estamos falando de identidade política.  A  gente  deveria perceber que classe e nação são um tipo de identidade. A questão da classe, da nação, é tudo meio unificado. Ao esquecer a questão de classe, a esquerda se torna supérflua.

Brasil Debate – Nós ouvimos falar sobre movimentos e partidos da esquerda dos países da zona do euro de se unirem para propor algumas medidas de enfrentamento da Troika, como a de criar uma moeda complementar ao euro e estatizar o setor financeiro e energético. Isso é verdade? Como está o andamento dessas conversas e propostas?

Costas Lapavitsas – Sim, isso está ocorrendo e por duas razões: a primeira é o nível geral da política. Uma grande parte  da população grega  se sente cansada, exausta, desiludida, zangada  por  tanta exclusão. Ela sente que foram tentadas muitas opções diferentes nos últimos anos, também por parte da esquerda, e  todas falharam, causando desapontamento. A desilusão é em relação à política de uma forma geral. É muito importante que isso seja levado em conta. 

A segunda razão é que os cidadãos se sentiram traídos em vários pontos pela esquerda. Esse é o estrago feito pela esquerda, e suspeito que esse é o estrago feito pela esquerda em todo o mundo. O prejuízo na Grécia é enorme.  A esquerda perdeu confiança em si mesma e perdemos  a  aproximação da classe trabalhadora, porque perdemos credibilidade. Então para nós é um tempo muito difícil. O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar,  se reerguer. 

A Grécia tem a necessidade de dar um tempo às instituições capitalistas. A esquerda precisa reinventar a ideia de soberania, o que isso significa,  de  soberania  da  população, como nós definimos o conceito do cidadão na Grécia, e como isto está conectado à classe trabalhadora. Como nós podemos nos unir de novo, porque a economia está indo muito mal, há  ainda  a  questão da imigração, o  movimento dos refugiados em direção à Europa. 

A  Europa  está sendo desafiada a redefinir a sua população nacional, a soberania popular. Nós  estamos  vivendo um processo de reunificação das esquerdas, pois observamos  que o  que  acontece  na  esquerda na Espanha é semelhante ao que acontece com a esquerda na França e nos outros países. O movimento é de reunificação, mas não espere um processo rápido.

Brasil Debate – É verdade que a Grécia vive hoje o florescimento de iniciativas anarquistas, de organizações autogestionárias, como resultado da crise e no vácuo do desmonte do próprio Estado?

Costas Lapavitsas – Eu tenho razão para acreditar que isso está acontecendo. Sempre houve várias formas de anarquismo na Grécia, mas o que há de novo agora? De fato nesse momento na Grécia há uma influência forte do fascismo, e assim também é com o anarquismo. Você pode entender o porquê de isto estar acontecendo de muitas diferentes maneiras, claro. No caso do anarquismo, eles se unem de forma descompromissada, cada um faz seu trabalho, mas há um movimento forte de querer mudar as coisas. O sentimento de traição dos cidadãos dá um impulso extra a esse movimento. 

Então definitivamente algo está acontecendo. É difícil de dizer o que é. E há tempos que nós não tínhamos tanta violência, a violência terrorista. O anarquismo cresce nesses tempos. Em época de crise, em momentos de fraqueza (do capitalismo), o anarquismo cresce. Eu acho que eles estão se expandindo e seduzem principalmente os mais jovens. 
Potencialmente, pode ser uma forma de evolução da esquerda, por meio  do  que chamamos  de  esquerda  radical. Um tipo de esquerda incorruptível na sua proposta de mudar a sociedade. Estamos diante de um desafio e de uma oportunidade para a esquerda.




Brasil Debate – Gostaria de fazer algum comentário?

Costas Lapavitsas – Sim, eu penso que a esquerda latino-americana especialmente a esquerda que eu vejo no Brasil e na Argentina, tem muitas coisas a ensinar à esquerda europeia. Eles deviam perceber isso.  A esquerda europeia está num momento fraco e a esquerda latino-americana tem coisas a mostrar sobre formas de lidar com o capitalismo financeiro, o capitalismo global. Me refiro ao jeito com que vocês lutam contra isso.  Até porque existe a histórica exploração da América Latina pela Europa, experiência que a Europa desconhece. O intercâmbio, o fluxo de informação, ainda está muito no começo, é muito embrionário. Temos muito que aprender uns com os outros.






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Fonte do Texto: Entrevista - Brasil Debate - ‘O capitalismo, mais uma vez, não está funcionando’ - www.brasildebate.com.br - Por: Ana Luíza Matos de Oliveira e Paula Quental.
Título: 

Lapavitsas, na Unicamp: ‘Austeridade não é o caminho’. 

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Para outras informações, em inglês, ver a sua página na internet: 

http://costaslapavitsas2.blogspot.com.br/search/label/Books

Crédito das Imagens: 

Painel: Escravatura - Abelardo da Hora - Recife. www.mauritsstadt.blogspot.com.br

1a. foto de Costa Lapavitsas - www.tlaxcala-int.org
2a. foto: www.versobooks.com
3a. foto: www.youtube.com 

Observação:  As imagens de capas dos livros do autor foram copiadas da sua página.

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PAPA FRANCISCO - DEUS DEVE SER ENCONTRADO NO HOJE

23 de junho de 2017


Aí está 4a. parte - e penúltima - da entrevista de Papa Francisco ao Padre Jesuíta Antonio Spadaro. Aqui, são tratados os seguintes temas: o lugar dos religiosos e das religiosas na Igreja;  os dicastérios;  a unidade da Igreja; o papel da mulher na Igreja; o Concílio Vaticano II; onde procurar e encontrar Deus.
 
Os parênteses e os negritos são de responsabilidade da edição do texto neste espaço. As respostas do Papa  estão iniciadas e finalizadas entre parênteses, de acordo com o texto reproduzido do jornal "Osservatore Romano". Segue abaixo:

Papa Francisco é o primeiro pontífice proveniente de uma ordem religiosa, desde há 182 anos... Depois de Gregório XVI – um camaldolense eleito papa em 1831. Pergunto-lhe, pois:

Qual a condição dos religiosos na Igreja hoje?

"Os religiosos são profetas. São os que escolheram um seguimento de Jesus, que imitam a sua vida com a obediência ao Pai, a pobreza, a vida de comunidade e a castidade. Neste sentido, os votos não podem cair em caricaturas; de outro modo, por exemplo, a vida comunitária torna-se um inferno e a castidade um modo de viver como solteirões. O voto de castidade deve ser um voto de fecundidade

Na Igreja os religiosos são chamados em particular a  ser profetas que testemunham como Jesus viveu nesta terra, e anunciam como o Reino de Deus será na sua perfeição. Um  religioso  nunca  deve renunciar  à profecia. Isto não significa contrapor-se  à  parte hierárquica da Igreja, mesmo se a função profética e a estrutura hierárquica não coincidem. 

Estou  a  falar de uma proposta sempre positiva  que, no entanto, não deve  ser  tímida. Pensemos  naquilo  que  fizeram  tantos  grandes santos monges, religiosos  e  religiosas, desde  Santo Antão, o  abade. Ser profeta pode significar, por vezes, fazer ruído, não sei como dizer. A profecia  faz  ruído,  alarido,  alguns  chamam  “escarcéu". Mas, o seu carisma na realidade é o de ser fermento: a profecia anuncia o espírito do Evangelho".

Considerando a referência à hierarquia, pergunto ao Papa:  

O que pensa dos 'dicastérios'?

"Os dicastérios da Igreja  estão ao serviço do Papa  e dos bispos: devem ajudar as  Igrejas particulares  e  também às Conferências  Episcopais.  São  seus mecanismos de apoio. Nalguns casos,  quando não são bem entendidos, correm o risco de se tornarem, ao contrário,  organismos  de  censura. 

É  impressionante  ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Creio que os casos devem ser estudados pelas Conferências Episcopais locais, às quais  pode chegar uma válida  ajuda de Roma. De fato, os casos são tratados melhor no local. Os dicastérios romanos são mediadores, nem intermediários nem gestores".

Recordo ao Papa que por ocasião da bênção e da imposição do palio (29/06/2012), a 34 bispos metropolitas – ele havia afirmado "o caminho da "sinodalidade" (colegialidade episcopal) como o caminho que leva a Igreja unida a «crescer em harmonia com o serviço do primado». Eis então as perguntas:



Como conciliar em harmonia o primado petrino e o conjunto das resoluções  sinodais? 





E que caminhos seriam praticáveis, numa perspectiva ecumênica?

"Devemos caminhar juntos: as pessoas, os bispos e o papa. A representação sinodal vive-se a vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecumênico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da "sinodalidade". O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da ruptura entre Oriente e Ocidente, dará frutos a seu tempo. Nas relações ecumênicas isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros um dom que é também para nós. Quero prosseguir a reflexão sobre como exercitar o primado petrino já iniciada em 2007 pela Comissão Mista que levou à assinatura do documento de Ravena. É preciso continuar neste caminho".



Como vê o futuro da unidade da Igreja? 

"Devemos caminhar unidos nas diferenças: não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus".


Em várias ocasiões o papa falou sobre o papel da mulher na Igreja. Numa entrevista tinha afirmado que a presença feminina na Igreja não emergiu mais, porque a tentação do machismo não deixou espaço para tornar visível o papel que compete às mulheres na comunidade. Retomou à questão durante a viagem de regresso do Rio de Janeiro, afirmando que ainda não foi feita uma teologia profunda da mulher.  Então lhe pergunto:

Qual deve ser o papel da mulher na Igreja? 

E como fazer para tornar esse seu papel mais visível?

"É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do 'machismo de saias', porque, na verdade a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contrário, os argumentos que ouço sobre o papel da mulher são muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. 

As  mulheres  têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher,  é imprescindível para a Igreja. Maria, que é uma mulher,  é mais importante que os bispos. Digo isto, porque não se deve confundir a  função  com a dignidade. É  necessário,  pois,  aprofundar melhor  a figura da mulher na Igreja.  É  preciso  trabalhar  mais  para fazer uma teologia profunda da mulher. Só  realizando  esta etapa se poderá refletir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O  gênio feminino  é  necessário  nos  lugares em que se tomam as importantes decisões. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher."

O Concílio Vaticano II

À luz das suas afirmações precedentes se poderia imaginar uma resposta longa e articulada. Tenho como que a impressão de que o Papa simplesmente  considera o Concílio como um fato de tal modo indiscutível que para sublinhar a sua importância não vale a pena falar disso demasiado tempo.

O que o Concílio Vaticano II realizou na Igreja? 

"O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do próprio Evangelho. Os frutos são enormes. Basta recordar a liturgia. O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje,  que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível. Depois existem questões particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo (a Velha Ordem). Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada à ajudar a algumas pessoas que têm esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologização do Vetus Ordo, a sua instrumentalização.


O discurso do Papa Francisco sobre os desafios de hoje é muito desconcertante. Há uns anos ele havia escrito que para ver a realidade é necessário o olhar da fé; de outra forma, vê-se uma realidade aos pedaços, fragmentada. É este também um dos temas da Encíclica Lumen Fidei. Tenho em mente algumas passagens dos discursos do Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Cito-lhos: «Deus é real se Se manifesta no hoje»; «Deus está em toda a parte». São frases que fazem eco da expressão inaciana: «procurar e encontrar Deus em todas as coisas». Pergunto então ao Papa:

Santidade, como se faz para procurar encontrar Deus em todas as coisas? 

"O que eu disse no Rio tem um valor temporal. Existe, de fato, a tentação de procurar Deus no passado ou no futuro. Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje  sobre como o mundo anda “bárbaro”, acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje.

Deus Se manifesta numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os.Deus Se encontra no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus Se manifesta  no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera.

Encontrar Deus em todas as coisas não é um eureka empírico. No fundo, quando desejamos encontrar Deus, quereríamos constatá-lo de imediato com um método empírico. Assim não se encontra Deus. Ele Se encontra na brisa ligeira sentida por Elias. Os sentidos que constatam Deus são os que Santo Inácio designa por “sentidos espirituais”. Inácio nos pede para abrir a sensibilidade espiritual para encontrar Deus para além de uma abordagem puramente empírica. É necessária uma atitude contemplativa: é o sentir que se vai pelo bom caminho da compreensão e do afeto no que diz respeito  às  coisas e às situações. O sinal de que se está neste bom caminho é o sinal da paz profunda, da consolação espiritual, do amor de Deus e de todas as coisas em Deus".

Certezas e erros


Se o encontro com Deus  em todas as coisas  não  é  um «eureka empírico» — digo ao Papa — e se, portanto, se trata de um caminho que lê a história, é possível  cometer-se erros... 

Ele me responde:
"Sim, neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem que ser assim. Se uma  pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre  deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre à confirmação da consolação espiritual.

«O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. Encontraremos somente um deus à nossa medida. A atitude correta é a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontrá-lo para O procurar sempre. E muitas vezes procura-se por tentativas, como se lê na Bíblia. 

"É esta a experiência dos grandes Pais da Fé, que são o nosso modelo. É necessário reler o capítulo 11 da  Carta aos Hebreus. Abraão partiu sem saber para onde ia, pela fé. Todos os nossos antepassados da fé morreram vendo os bens prometidos, mas longe... A nossa vida não nos é dada como um libreto de ópera onde está tudo escrito, mas é ir,  caminhar, fazer, procurar, ver... Deve-se entrar na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se  encontrar por Deus. Porque Deus está antes, Deus está sempre antes, Deus antecede. Deus é um pouco como a flor da amendoeira da tua Sicília, Antonio, que floresce sempre antes. Lemo-lo nos profetas. Portanto, encontra-se Deus caminhando, no caminho

"Neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto,  não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário,  portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental".

"Se o cristão é "restauracionista", legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas. 

Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se  procurar Deus na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus».

O otimismo

Estas palavras do Papa recordam-me algumas reflexões suas do passado, nas quais o então cardeal Bergoglio escreveu que Deus vive já na cidade, vitalmente misturado no meio de todos e unido a cada um. É um outro modo, na minha opinião, para  dizer o que Santo Inácio escreve nos Exercícios Espirituais , ou seja, que Deus «trabalha e opera» no nosso mundo.   Pergunto-lhe então: 

Devemos ser otimistas? Quais são os sinais de esperança no mundo de hoje? Como conseguir ser otimista num mundo em crise?

"Não gosto de usar a palavra “otimismo”, porque indica uma atitude psicológica. Gosto, pelo contrário, de usar a palavra “Esperança”, segundo aquilo que se lê no capítulo 11 da Carta aos Hebreus , como já citei. Os pais continuaram a caminhar,  atravessando grandes dificuldades. E a esperança não engana, como lemos na Carta aos Romanos. Pensa, pelo contrário, no primeiro enigma da ópera Turandot, de Puccini",  sugere-me o Papa.

 Naquele momento recordei, um pouco de memória, os versos daquele enigma da princesa que tem como resposta a esperança:

Na noite escura voa 
Um fantasma iluminado. 
Sobe e abre as asas
Sobre a negra infinita humanidade.
Todo o mundo o invoca
E todo mundo o implora. 
Mas o fantasma desaparece com a Aurora para renascer no coração
E cada noite nasce 
E cada dia morre! 

E concluo: São versos que revelam o desejo de uma esperança que aqui, no entanto, é um fantasma cintilante e que desaparece com a aurora.


"Aqui está — esclarece o Papaa Esperança cristã não é um fantasma e não engana. É uma virtude teologal e portanto é,  definitivamente, um presente de Deus que não se pode reduzir ao otimismo, que é apenas humano. Deus não defrauda nem nega a  Esperança, não pode negar-se a Si mesmo. Deus é todo promessa".

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Créditos das Imagens:

1. Papa Francisco - www.alx_mundo-papa-francisco-america-latina- 05.07.2015
2. Audiência aos representantes da União Europeia - 24.03.2017
3. Papa Francisco em Manila - dez./2015 - Coheryly Ravelo - Reuter.
4. Ruim é o Racismo - Manifestação de mulheres negras no Brasil 
5. Audiência do Patriarca Atenágora a Chiara Lubich em 1967 - www.focolari.org
6. Partilha fraterna - www.youtoube.com.br.jpg
7. Caminhos - imagem de: www.canstockphoto.com.br
8. Caminhantes na cidade - www.canstockphoto.com.br
9. Esboço de cenografia para a Ópera Turandot de Puccini - 
www.wikimidia.commons

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MEMÓRIAS - ESTER PIRES DE REZENDE

19 de junho de 2017

Estive relendo Julio Cortázar, e das tantas destrezas na arte da escrita com que nos presenteia, (cópias de suas Aulas de Literatura em Berkeley - 1980), assimilei melhor como, em certos momentos, é possível experimentar a duplicidade do tempo presente e passado, eterno e fugaz, alegre e sofrido um tempo duplo, um sobre o outro e do lado, a nos fazer experienciar amor e  desassossego,  quimeras e esperanças, o antes e o depois por sobre um no outro, feito um momento único.
 

E tão encantada fiquei de lembrar essa possibilidade - eu que tanto gosto de manejar o imaginário no tempo ao revés - que, sem mais nem menos  me deparei menina na minha terra natal. Alguns sabem que acabo de  contar setenta e nove poentes e alvoreceres de encontros e desencontros,  venturas e adeuses, e tantas impossíveis alegrias...  O fato é que - como disse - me achei menina, na casa de então - uma casa grande que cabia Ester, minha mãe, e Né Marinho, meu pai, os sete irmãos que fomos, mais duas Marias que estavam a nos cuidar.


 
 

... Fui entrando sem pedir licença no tempo distanciado, a vida no remoto e no improvável, lá estava eu a escutar de novo o doce barulho da  máquina Singer de Ester a costurar as roupas de tantos filhos, eu junto dela, ela pertinho de mim, - no tempo do que já fora, inteiro, sem sofreguidão - sentindo a mesma plenitude da sua presença doce. 





 
Quem sabe por que o momento foi-se esfumando como se esfuma, em toda parte, o tempo ligeiro e o agora, e eu queria cantar com ela mas não sabia quê, sentada, papel e lápis na mão (não é a primeira vez, tenho sempre ali) e me acudiu um sentimento ingênuo de menina triste a escrever:    






Repara que lindo dia
   Nesse bonito sertão
     Menina agora eu vivia
        Lá na casa sertaneja
          Brincadeira...redenção!



                                                            
Zomp zomp zomp zom
Zarp zarp zarp zar
Era o som do motorzinho
De uma Singer a costurar...

                                                    

Que alegre viveu ela
  Sete filhos a cuidar
    Feito uma leve gazela

     A cantar... Sempre a cantar
       E nunca a se lamentar!



                                               Zomp zomp zomp zom
                                               Zarp zarp zarp zar    
                                               Era o som do motorzinho        
                                               De uma Singer a costurar.
                                                 
     
Hoje de lá bem distante
  Chegou a me consolar:
    Que na vida tudo frange
      E que eu cantasse... cantasse
       Que um dia vem me buscar!





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Créditos das Imagens:

1. Ester e Seu Né - arquivos privados de família.
2. Máquina Singer - pinterest 
3. Sertão - Filipe Alessio

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OS EUA ABANDONAM O ACORDO DE PARIS SOBRE O CLIMA

15 de junho de 2017

 
E AGORA?
 Quais as implicações políticas da decisão de Trump?
Por que a China pode assumir protagonismo?
Que ocorrerá com o combate ao aquecimento da Terra?

As informações do Observatório do Clima, aqui reproduzidas, nos ajudam a entender a nó da questão e, ao mesmo tempo, a nos sentir, também nós, responsáveis pelo que fazemos e não fazermos em relação a esta grave questão que atinge os povos do planeta. Segue o texto: (*)

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A recente notícia de que Donald Trump teria batido o martelo  pela  saída  dos Estados Unidos do Acordo de Paris se espalhou como fogo em barril de petróleo desde que foi publicada pela primeira vez pelo site noticioso americano Axios.

Fontes na Casa Branca confirmaram a informação a diversos outros veículos, até que o próprio presidente correu para seu meio de comunicação favorito, o Twitter, para desautorizar a mídia: “Vou anunciar decisão sobre o Acordo de Paris nos próximos dias”. Mas deixou uma pista agourenta no fim do tuíte: “Tornar a América grande novamente”.

A virtual saída do acordo não é grande surpresa para quem acompanha os passos do líder americano. Trump, afinal, se elegeu sob a promessa de “cancelar” o Acordo de Paris, e desde sua posse já deixou claro que acha de verdade que o aquecimento global é uma “fraude” para prejudicar a economia dos EUA: cortou programas de ciência climática e o orçamento da EPA (Agência de Proteção Ambiental), e autorizou a agência a matar o Plano de Energia Limpa de Barack Obama, principal instrumento de cumprimento da NDC, a meta americana no acordo do clima.

Mesmo assim, a decisão de Trump tem repercussões sérias para o Acordo de Paris e para o resto do mundo. Entenda, nas perguntas e respostas abaixo o que a saída americana pode e o que não pode significar para a luta contra a crise do clima.

1 – É o fim do Acordo de Paris?

De jeito nenhum. O acordo está em vigor desde 4 de novembro do ano passado e já foi ratificado por 147 países, inclusive os EUA. Dos 196 membros da ONU, apenas dois, Síria e Nicarágua, não são partes do acordo. A saída dos EUA não tem efeito retroativo sobre a entrada em vigor, então, pelo menos do ponto de vista formal, tudo fica como está, só que com um país a menos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse na última terça-feira, sem citar Trump, que, se algum governo “duvida da vontade e da necessidade global desse acordo, isso é razão para os outros se unirem mais ainda” em torno dele.

2 – A decisão de sair tem efeito imediato?

Não. Pelas regras legais do Acordo de Paris, é preciso uma espécie de “aviso prévio” de três anos até que a saída de uma das partes se efetive. Nesse meio tempo, os EUA serão uma espécie morto-vivo nas negociações internacionais: 
seus diplomatas poderão  participar das reuniões, mas não terão mais nenhuma influência nas decisões que venham a ser tomadas sobre o acordo. Um risco existente é que os EUA nesse “modo zumbi” sintam-se tentados a bloquear decisões dos outros países pelos próximos três anos – já que tudo na ONU é decidido por consenso. No entanto, os presidentes das conferências do clima também poderão se sentir livres para bater o martelo mesmo diante de objeções americanas.

3 – Qual é o impacto da saída sobre a negociação?


É imenso: os EUA são o maior emissor histórico de gases de efeito estufa e um dos principais doadores do Fundo Verde do Clima, que precisa chegar a US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020. Com os americanos fora, o mundo fica com um buraco na ambição coletiva das metas de corte de emissões e um buraco ainda maior no financiamento climático, o que elevará ainda mais a tensão que já existe entre países desenvolvidos e em desenvolvimento sobre quem paga a conta.

Outro efeito temido é que outros países sigam o exemplo dos EUA e abandonem o acordo ou reduzam a prioridade do cumprimento das suas metas – que, afinal, são voluntárias e não levam a punição caso não sejam cumpridas. Nações como a Rússia e as Filipinas já ameaçaram recuos. A liderança americana nos últimos anos também era importante para moderar países como Austrália e Nova Zelândia, tradicionalmente refratários à ação no clima. Sem ela, esses países perdem o superego, por assim dizer.

Mas o principal impacto da saída dos EUA é psicológico: muitos países recentemente “convertidos” à causa climática na época da assinatura do Acordo de Paris poderão deixar de tratar o tema como prioridade, mesmo mantendo-se formalmente fiéis ao acordo. Um exemplo claro é o Brasil, que está aumentando suas emissões.

4 – O que acontece agora com as metas de 1,5oC e de 2oC do Acordo de Paris?

A chance de estabilizar o aquecimento em 1,5oC, que é o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris, fica praticamente fora de alcance. Mas isso independe da saída americana do tratado – o problema principal é que, para o mundo ter uma chance de pelo menos 50% de 1,5oC, os EUA e todos os outros países precisariam acelerar o corte de emissões nos próximos quatro ou cinco anos. A eleição de Trump e a rejeição do Plano de Energia Limpa significam que isso não vai acontecer.

A meta de segurar o aquecimento “bem abaixo de 2oC” está sob risco, mas ainda não pode ser descartada. As metas nacionais (NDCs) apresentadas pelos países em Paris não dão conta dos 2oC: elas põem o mundo no rumo de 2,7oC a 3,1oC de aquecimento neste século e demandariam um aumento significativo da ambição. E nem mesmo elas estão garantidas: os EUA, por exemplo, precisariam de várias políticas adicionais ao Plano de Energia Limpa para cumprir sua NDC, que previa entre 26% e 28% de redução até 2025 com relação a 2005. Vários países em desenvolvimento têm metas condicionadas a financiamento externo – que, sem a contribuição dos EUA, deve minguar. Os países ficaram de se encontrar em 2018 para começar a conversar sobre o aumento da ambição das metas. Sem os EUA e sem dinheiro na mesa, não há clima para esse diálogo.

A decisão de Trump de cancelar o Plano de Energia Limpa e um outro plano de Obama que previa o aumento da eficiência dos motores de automóveis deve inverter o sinal das emissões americanas: elas vinham caindo paulatinamente, mas deverão subir ligeiramente, em 400 milhões de toneladas, até 2030.

Os 2oC ainda não estão completamente fora da mesa por causa da inesperada velocidade com que as energias renováveis vêm caindo de preço e sendo adotadas por países como Índia e China. Segundo uma análise recente do Climate Action Tracker, os dois gigantes asiáticos estão no rumo de exceder suas NDCs, e em muito: em 2030, os dois somados deverão emitir 3 bilhões de toneladas de CO2 menos do que se estimava um ano atrás, o que mais do que compensaria a reversão da curva de emissões dos EUA.

5 – Quem vai preencher o vácuo de liderança dos EUA?


A resposta é óbvia: União Europeia e China, o  terceiro  e  o  segundo  maior emissor de gases de efeito estufa. A UE é tradicionalmente quem puxa por mais ambição nas negociações climáticas, e a China foi persuadida por Barack Obama e pelo mercado multibilionário de energia renovável  a  tornar-se  mais  proativa nessa agenda. A China ultrapassou os EUA como o  maior investidor em energia renovável, com US$ 102,9 bilhões investidos em 2015. Até 2020,  esse   grande investimento deverá criar 5.000 empregos por dia no país.    A  maior  indústria eólica do mundo e as seis maiores fabricantes de painéis solares são chinesas.


6 – A economia americana se beneficia com a saída do acordo?


Não, ao contrário do que diz Trump. Os empregos no setor de energia suja, como o carvão, estão escassos por razões tecnológicas – e não por imposição das renováveis ou regulação ambiental. O gás natural é mais competitivo que o carvão, segundo o Programa de Economia Ambiental da Universidade Harvard, e foi por isso que esta fonte declinou nos EUA. Nada que Trump possa fazer trará o carvão de volta.

Empresas de energia renovável e eficiência energética são grandes empregadores: as indústrias eólica e solar estão criando empregos 12 vezes mais rapidamente que o restante da economia. Uma pesquisa recente sobre emprego no mundo revela que 9,8 milhões de pessoas são empregadas por energia renovável no planeta, sendo 777 mil nos EUA. O emprego da indústria solar aumentou 25% em 2016 (373.807), ultrapassando os empregos na geração de energia de carvão (86.035), extração de petróleo e gás (180 mil) e mineração de carvão (50 mil).  

7– A saída dos EUA de Paris significa que eles estão fora de qualquer debate climático?


Não. Todos os fóruns internacionais de que os EUA participam estão envolvidos em mudanças climáticas, incluindo o G7, o G20 e a Otan. Abordar a ação climática será inevitável para eles. Especialmente do ponto de vista econômico. Por mais que a vontade de Trump não seja a de ver prosperar a matriz energética limpa, ela já se estabeleceu nos alicerces da economia americana e se tornou uma opção mais competitiva. Em outras palavras, não depende da escolha dele. A decisão de Trump teria sido um golpe fortíssimo há pouco mais de dez anos, quando as principais decisões econômicas sobre a descarbonização estavam sendo tomadas. Felizmente, no contexto atual, seu poder é limitado.

8 – Sem o governo federal envolvido, há algo que os americanos possam fazer no clima?

Sim. Pesquisa recente mostrou que 71% dos americanos são favoráveis à permanência dos EUA no Acordo de Paris. Mais da metade (55%) dos eleitores de Trump apoia as políticas atuais sobre mudanças climáticas e a expansão da energia renováveis, como a solar (84%). Então há amplo apoio popular à ação climática e rejeição às políticas do governo. Estados americanos como a Califórnia anunciaram que devem manter suas metas de redução de gases. Massachusetts, New Hampshire e Nova York planejam reduzir as emissões em 80% até 2050, em comparação com os níveis de 1990. A cidade de Nova York anunciou que vai reduzir as emissões em 80% até 2050, e, Los Angeles, que está desenvolvendo um plano de energia 100% renovável.

9 – A relação dos EUA com os outros países sofrerá algum impacto?

Já está sofrendo, e quem viu o presidente francês Emmanuel Macron ignorar solenemente Trump na reunião do G7 sabe disso. A confiabilidade, a credibilidade e a competência do governo americano estão sendo questionadas, em parte porque a maior parte dos países está comprometida com o Acordo de Paris.

O G7 criticou a falta de compromisso do governo Trump na semana passada e a chanceler alemã, Angela Merkel, sugeriu que a Europa não pode mais contar com o antigo aliado.

Eventualmente, essa desconfiança pode azedar para disputa na OMC: é cada vez maior o número de especialistas que defendem que produtos americanos intensivos em carbono sejam tarifados no futuro, num cenário em que os parceiros comerciais dos EUA adotem medidas de descarbonização.

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Fonte do Texto - http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/os-eua-deixam-o-acordo-de-paris-sobre-o-clima-e-agora/Observatório do Clima
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Crédito das Imagens:

De 1 a 5 - www.canstockphoto.com.br.
6 - Países assinam acordo do clima na sede da ONU/Paris - www.g1.globo.com

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