Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

POESIA - O QUE HÁ DE VIR

26 de abril de 2017


Hoje quero cantar um canto único, feito um sopro que se distancia no ocaso...  E a solidão que se torna companheira. 

Um sopro suave, que brota da simplicidade das coisas, enquanto a dor emerge oceânica... E o amor se diz ‘carícia essencial’... E os desejos cabem na tangência do momento.  

Um canto único, para pensar no já vivido e no que há de vir...  E cantar a morte como expressão última do ser.     


  O QUE HÁ DE VIR (*)                




Quando vieres sentirás meu canto!
E as águas do rio que eu amei
Acolherão as cinzas liquefeitas...
Mais viva e presente estarei 
Quando chegares, e sem lamentos, 
Mais do que ontem no furor dos ventos.








Quando vieres te darei a mão
Serena feito um rio a passar
Tal que a nova ilusão de um sonho...
E tu mais vera que os meus temores
Mais luz encontrarei ao te encontrar
Mais presente serás que os meus amores.

Quando vieres estarei feliz
Como feliz me procurei na vida
O meu sofrer a reverter-se em força...
A memória do belo repartida
Os amores e sonhos revelados
Vislumbre indecifrável de uma vida.




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(*) Poema de: Vanise Rezende - www.vaniserezende.com.br


Crédito das Imagens:

1. Inútil a Chuva - Abstracionismo - Wagner Corrêa de Araújo                           www.escriturascênicas.com.br/2015/12
2. Lavadeiras - yyymagescaa4nhqx.jpg
3. Les musiciennes - de Paul Alexandre Leroy - o.s.t. 81x65cm

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DIA DA MÃE TERRA - 22 DE ABRIL

22 de abril de 2017

O Dia da Mãe Terra é também o dia de homenagear o criador desta feliz expressão, o professor e escritor Leonardo Boff, grande produtor e cooperador da cultura em defesa do clima, além da cidadania e da fraternização de que é mestre e testemunho exemplar.

Aqui, o texto integral do seu discurso feito na Assembleia da ONU, em 22 de abril 2009, reproduzido no seu blog em 21.04.2017. Naquela ocasião – segundo narrativa do próprio L. Boff – o objeto de discussão era se convinha chamar a Terra de Mãe Terra. Caso fosse aprovada essa sua ideia, o dia 22 de abril não seria mais simplesmente o Dia da Terra, como há alguns anos se havia introduzido, mas seria o Dia da Mãe Terra.
Naquela ocasião – escreve L Boff  o presidente da Bolívia Evo Morales Ayma, em nome das nações indígenas, fez um discurso mais de ordem política, provocando grande aplauso da plateia. A Leonardo Boff coube a tarefa de fazer a fundamentação filosófica-ecológica desta proposta. O seu discurso recebeu ampla acolhida e uma feliz determinação. Foi então aprovada, por unanimidade, a resolução da ONU de celebrar o Dia da Mãe Terra sempre no dia 22 de abril
Mais tarde o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si: como cuidar da Casa Comum assumiu esta mesma expressão: Mãe Terra.
O discurso proferido por Leonardo Boff, naquela 63º Assembleia Geral da ONU em de 22/04/2009, "reforça uma compreensão verdadeiramente revolucionária, pois transforma nossa visão da Terra como Mãe, e cria, correspondentemente, novas exigências para nosso comportamento face a ela." É escusado dizer que os dados apresentados no texto que segue correspondem àquela data, pois hoje seriam outros, e de uma natureza muito mais grave. 
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No de 2000 a Carta da Terra nos fazia esta severa advertência: «Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro… A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Teerra e cuidarnos uns dos outros ou arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”. (Preâmbulo).

Se a crise econômico-financeira é preocupante, a crise da insustentabilidade da Terra se apresenta ameaçadora. Os cientistas que acompanham o estado da Terra, especialmente a Global Foot Print Network têm falado do Earth Overshoot Day, do dia em que foram ultrapassados os limites da Terra. E isso ocorreu exatamente no dia 23 de setembro de de 2008, uma semana após o estouro da crise econômico-financeira nos EUA. A Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento necessitamos mais de uma Terra para atender a nossa subsistência.
Como garantir a sustentabilidade da Terra já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentária, a energética e a climática? Agora já não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos devemos nos salvar juntos.

Como asseverou  com muita propriedade o Secretário Geral desta Casa, Ban Ki-Moon: ”não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial”. O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade do planeta Terra. É decisivo superar a crise financeira, porém o imprescindível e essencial é: como vamos salvar a Casa Comum e a Humanidade que é parte dela? Esta é a razão para termos adotado a resolução sobre o Dia Internacional da Mãe Terra que, a partir de agora, se celebrará no dia 22 de abril de cada ano.
Dado o agravamento da situação ambiental, especialmente do aquecimento global, temos que atuar juntos e rápido. Não temos tempo a perder nem nos é permitido errar. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar, mas sem nós.
Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e dos demais membros da comunidade de vida, quero agradecer a esta 63º Assembleia Geral da ONU por haver sabiamente aprovado esta resolução.
Neste contexto, me permito fazer uma breve apresentação do fundamento que sustenta a ideia da Terra como nossa Mãe.
Desde da mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama.
Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal.
Durante séculos e séculos prevaleceu esta visão até a emergência recente do espírito científico no século XVI. A partir de então, a Terra já não é mais considerada como Mãe, senão como uma realidade sem espírito, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. A mãe-natureza que devia ser respeitada se transformou em natureza-selvagem que deve ser dominada. A Terra se viu convertida num baú cheio de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano.
Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suporte do sistema-Terra nem dos bens e serviços naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão.

A preocupação principal era e é: como ganhar mais no tempo mais rápido possível e com um investimento menor? A realização histórica deste propósito fez surgir um arquipélago de riqueza rodeado por um mar de miséria.
O PNUD de 2007-2008 o confirma: os 20% mais ricos do mundo absorvem 82,4% de todas as riquezas da Terra enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Estes dados provam que uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam pilhagem da natureza e grande injustiça social.
Entretanto, a partir dos tardios anos 70 do século passado se tem imposto a constatação de que um planeta pequeno, velho e limitado como a Terra já não pode suportar um projeto ilimitado. Faz-se urgente outro modelo que tenha como eixo a Terra, a vida e o bem viver planetário no quadro de um espírito de colaboração, de responsabilidade coletiva e de cuidado.

Agora a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com a Terra, com os seres humanos, como o universo e com a Última Realidade, distribuindo equitativamente os benefícios entre todos e alimentando solidariedade para com as gerações presentes e futuras? Como viver mais com menos?

Foi neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não é mais apercepção dos antigos, mas uma constatação empírica e científica. Foi mérito dos cientistas e sábios como Vladimir Vernadsky, James Lovelock, Lynn Margulis e José Lutzenberger nos anos 70 do século passado, ter demostrado que a Terra é um superorganismo vivo que se autorregula. Ela articula permanentemente o físico, o químico e o biológico de forma tão sutil e equilibrada que, sob a luz do sol, propicia a produção e a manutenção de todas as formas de vida. Por milhões de anos o nível do oxigênio, essencial para a vida, se mantem em 21%, o nitrogênio, decisivo para o crescimento, em 79% e o nível de sal dos oceanos em 3,4%. E assim todos os elementos necessários para a vida. Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra mesma é viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva.


Que toda a Terra está cheia de vida nos comprova o conhecido biólogo Edward O. Wilson. Escreve ele: ”Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes”. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda.

A Terra existe já há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Com razão nas línguas ocidentais homo/homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de 'adamah', terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui.

A visão dos astronautas confirma a simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais testemunhavam de forma comovedora: ”daqui, contemplando este resplandecente planeta azul-branco, não se percebe nenhuma diferença entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade”. Mais que como povos, nações e etnias devemos nos entender como criaturas da Terra, como filho e filhas da Mãe comum.
Entretanto, olhando a Terra mais de perto, nos damos conta de que ela se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vive sistematicamente agredida. Quase a metade de seus filhos e filhas padecem fome e sede e são condenados a morrer antes do tempo. A cada quatro segundos, consoante dados da própria ONU, morre uma pessoa estritamente de fome.
Por isso, são expressões de amor à Mãe Terra as políticas sociais de muitos países como, por exemplo, de meu pais, o Brasil, sob o governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, particularmente o programa Fome Zero e Bolsa Família.  Em seis anos se devolveu vida e dignidade a 50 milhões de pessoas que antes viviam na pobreza e na fome.
Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la. Para esta tarefa gigantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO a apresentou “como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável”. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong e Steven Rockfeller e eu mesmo entre outros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra, possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembleia Geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra junto com a declaração sobre a dignidade da pessoa humana.
Mas cabe fazer uma advertência. Para sentir a Terra como Mãe não é suficiente a razão dominante que é funcional e instrumental. Necessitamos enriquecê-la com a razão sensível, emocional e cordial, pois aí se enraíza o sentimento profundo, se elaboram os valores, se cultivam o cuidado essencial, a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiães e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe.
Para terminar permito-me fazer uma sugestão: que se coloque na cúpula interna da Assembleia uma destas imagens belíssimas e plásticas da Terra, vista a partir de fora da Terra. Suspensa no transfundo negro do universo, ela evoca em nós sentimentos de reverência e de mútua pertença. Ao contemplá-la, tomamos consciência de que aí está o nosso Lar Comum.
Pediria ainda que fosse aprovada uma recomendação de que no dia 22 de abril, dia Internacional da Mãe Terra, se fizesse um momento de silêncio em todos os lugares públicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos parlamentos para que nossos corações entrem em sintonia com o coração de nossa Mãe Terra.
Concluo. Tal como está, a Terra não pode continuar. É urgente que mudemos nossas mentes e nossos corações, nosso modo de produção e nosso padrão de consumo, caso queiramos ter um futuro de esperança. A solução para a Terra não cai do céu. Ela será o resultado de uma coalizão de forças em torno a uma consciência ecológica integral, a valores éticos multiculturais, a fins humanísticos e a um novo sentido de ser. Só assim honraremos nossa Casa Comum, a Terra, nossa grande generosa Mãe.
Muito obrigado.
Prof. Dr.Leonardo Boff
Representante do Brasil na Assembleia da ONU e membro da Comissão da Carta da Terra.

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Crédito das Imagens:

1. Foto de Leonardo Boff - www.redebrasiliatual.com.br
2. Habitação primitiva - www.syttertock.com 
3. Outras Imagens - www.canstockphoto.com.br 


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BRASIL - E SE O POVO, ENTÃO, SE ALEVANTASSE!?

18 de abril de 2017





E se um dia nós se acordasse
E no sofrer do povo nós pensasse
E no pensar o sofrer, nós se alembrasse
De um sonho só que todos nós tivesse...
E se esse grande sonho se espalhasse
E ninguém mais do sonho se esquecesse!







E se vivendo o sonho se formasse
Uma Nação que unida trabalhasse
E nessa roda viva se enredasse...
E, se enredada, Ela aprendesse
A união de forças e quereres
E um povo consciente se tornasse!

Se estudante e doutor 
se achegasse...
Domésticos, comércio, professores,
Gente da roça e de outros setores...
Tudinho nas cidades se ajuntasse!
E juntos um acordo se selasse
Que todos os trabalhos se parasse!?

E então a mão-de-obra 
se fechasse...
E num acordo todos defendessem
Direitos e deveres conquistados!?



E tão forte essa voz 
se escutasse
Que quem hoje o direito
lhe negasse,
Espantado, sua
força percebesse!

E se o bem-viver todos quisesse...
E querendo 
O povo então cantasse...
E no canto este sonho ele abraçasse!



E num só passo, unido,
ele dançasse!
E a grande roda
se engrandecesse...
E num só brado 
o povo se expressasse!


Educação, Saúde e Moradia
Viessem se ajuntar com o Trabalho
Pra construir uma Nação decente!
E se a voz da Nação se ampliasse...
Índios e jovens e desempregados 
A Esperança de novo conquistasse!

Se nesse passo todos entendessem
O direito a escolher quem governasse!
Se o povo todo então, se alevantasse! 
E a roda da ciranda vigorasse...
E um Brasil, cidadão, se revelasse!




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*Texto e versos de Vanise Rezende www.vaniserezende.com.br


Crédito Imagens: 

1. Desculpe o Transtorno - www.robsonpiresxerife.com/brasil/enquete-voce-é-a-favor--ou-contra-manifetações-no-brasil
2.  Ciranda popular - www.pcr_10-recifearte-publica.com.br -fotos -brincadeiras-de-roda
3. Fora Temer - www.sobralemrevista-blogspot.com.br - 2016-09-UFC-paralisa

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LITERATURA - LÁZARO RAMOS

12 de abril de 2017





No Recife, finalmente, teremos a alegria de ver em cena dois importantes atores de TV, teatro e cinema: a atriz Taís Araújo, e o ator Lázaro Ramos. Como se sabe, eles formam um dos mais admirados casais no âmbito das artes cênicas. E foram reconhecidos, numa pesquisa da revista Veja, os mais admirados do Brasil.

Foi em busca de mais informações sobre a peça “O Topo da Montanha” que fiquei sabendo dos livros infantis escritos por Lázaro Ramos, inspirado em suas conversas com o filho João. Quis saber mais. A sua última publicação infantil - Caderno de Rimas do João - foi lançada em Salvador na Livraria Cultura, em maio de 2016.  



O livro apresenta-se como um dicionário ilustrado, para crianças, de excelente qualidade. Diria, até, que gente grande deveria lê-lo com atenção, pois há que se aprender a conversar com os pequenos e responder-lhes os porquês. Seus verbetes são explicados a partir de uma clara  visão cidadã, sobre as relações humanas contemporâneas e as diferentes diferenças que enriquecem e ampliam nossa visão de mundo. O renomado Maurício Negro assina as ilustrações. É o terceiro livro infantil do autor. 


Em uma qualificada crítica sobre a obra, comenta-se que Lázaro Ramos "descobriu que, assim como as crianças, as palavras têm grande vontade de se divertir. Por isso, no livro, o autor brinca com o significado das palavras, construindo um dicionário intuitivo de João. A obra mescla temas importantes para a infância, como família, valores, vida e morte, e temas cotidianos e contemporâneos. Palavras como “Amizade”, “Candidato”, “Sonegar”, “Sotaque”, entre outras, são passadas para as crianças de uma forma leve e ao mesmo tempo didática. O livro ainda conta com a ilustração de personagens negros e com menções a Gilberto Gil e à capoeira."


No seu livro anterior, A Velha Sentada, "Edith é uma menina que vive alheia ao mundo. Ao seu redor alguma coisa sempre está acontecendo, mas ela só tem olhos para a tela do computador. Edith não brinca, não se relaciona e é completamente... sem graça. Segundo uma vizinha, parece até que ela tem uma velha sentada dentro de sua cabeça. Ao ouvir isso, Edith inicia uma viagem de autoconhecimento, em busca da causa de seu desânimo". (i)

Ainda aos 20 anos Lázaro Ramos escreveu "Paparutas". Os dois livros, A Velha Sentada e Paparutas foram adaptados pelo autor para o teatro, sob a sua direção.  

Reproduzo aqui a entrevista dada a Júlia Barban (ii), na época do lançamento do "Caderno de Rimas do João":

Folhinha - Como surgiu a ideia desse novo livro?

Lázaro Ramos - Depois que lancei "A Velha Sentada", escrevi um monte de coisa, mas nenhuma ideia ia para frente. Tendo filho, você começa a brincar de várias coisas, e a própria criança vai te induzindo. Tinha uma brincadeira que eu fazia com o João. Quando ele me perguntava alguma coisa, eu começava a fazer rimas para explicar, porque não tem jeito, tem significado que não dá para explicar para a criança. Então eu pensei: vou fazer um dicionariozinho com alguns verbetes – alguns de uma maneira engraçada, outros de maneira poética ou lúdica. Aí fui deixando a criatividade falar. Eu queria também falar sobre o tema amizade, que é o que costura os poemas, porque eu estava observando muito o meu filho na maneira como ele formava amizades: às vezes brigava, e daqui a pouco já fazia as pazes.

As ilustrações do livro têm muitas referências à cultura negra. Foi algo que você combinou com o ilustrador?
Lázaro Ramos - Não, eu dei o livro para o Mauricio Negro ilustrar, sem falar nada. Não vi quase nada antes de ficar pronto. E achei que ficou muito legal, o que tem de cultura negra vem de maneira bem natural.

Acha que faltam livros infantis com protagonistas negros ou que mostrem a cultura africana?
Lázaro Ramos - Nem todas as livrarias têm a preocupação de colocar esses livros em suas prateleiras, mas um pai que esteja atento, que queira que seu filho conviva com a diversidade, consegue encontrar um bom catálogo. Muito do que eu faço é procurar as editoras na internet e às vezes mandar entregar em casa. Temos ótimos autores que estão contando novas histórias. Tem uma coleção por exemplo, da editora Mazza, que são os contos infantis contados da mesma maneira, só que em todas as ilustrações os meninos são negros. É isso, a lição de moral está lá e a estética é outra, o que é bacana para os nossos filhos.

Você tem essa preocupação com o seu filho?
Lázaro Ramos - Tenho sim, e vejo que faz toda a diferença. Ele lê pelo menos um livro por dia, e quando se vê representado ou quando vê a diversidade, ele se sente incluído no mundo, com a possibilidade de ser herói também. Porque muitas vezes o que falta são essas referências. E esse rosto diverso é fundamental para a infância, não só para uma criança negra, mas para toda e qualquer criança. Porque o mundo é essa diversidade, e aprender a ver isso na infância já é meio caminho andado para ser um adulto legal. Isso em todos os tipos de diversidade, não só étnica.

Qual foi a reação do João quando viu o livro?
Lázaro Ramos - Está todo metido, né! Fala para todo mundo: "Sabia que meu pai fez um livro para mim?". O livro dele já está todo amassado, aí o pessoal vai em casa e ele pega, mostra. Ele não sabe fazer a rima ainda, isso é o mais engraçado, porque ele tenta ler e faz a rima dele [risos]. Mas ainda não levou para a escola, porque estou pensando em dar de surpresa para todos os colegas no aniversário dele.

Você já tinha escrito dois livros para crianças. O que acha que mudou entre um trabalho e outro?
Lázaro Ramos - Os dois primeiros livros me ensinaram coisas. Acho que o primeiro era muito "verdinho", escrevi com 21 anos de idade. Tem uma inocência ali, era só um pós-adolescente tentando dar uma explicação para uma memória afetiva de infância, não tem uma linguagem. Já  "A Velha Sentada" tem uma pesquisa. Enquanto escrevia, tive muita certeza de que a minha maneira de escrever para criança não é pensando que estou escrevendo para criança. Todas as vezes que eu pensava: "Esse capítulo eu vou escrever porque as crianças de quatro anos...", só saía porcaria. Não saía, porque eu ficava ali tentando imaginar o que uma criança ia desejar ou gostar de ler. Eu vou escrever uma história e, se for para criança, será. Mas, se não for, não será.

Você se envolveu em vários projetos relacionados a crianças. Os livros, as peças, a Unicef. De onde surgiu esse interesse pela infância?
Lázaro Ramos - [Silêncio]. Eu acho que desde sempre gostei disso. Desde sempre gastei muito tempo com criança e idoso. Eu pequeno ficava do lado do velhinhos perguntando, estimulando. Mesmo quando era adolescente, que é uma época em que você meio que rejeita as crianças, eu adorava levar papo. Eu adoro cabeça de criança, a sinceridade da criança e como ela te põe contra a parede. Isso me deixa estimulado. Vez por outra também faço personagens que têm comportamento de criança, que são brincalhões, lúdicos, inventivos, e as crianças se identificam muito com isso. A cabeça da criança é uma coisa sensacional.
A Unicef já é uma questão política, porque eu tenho uma grande preocupação em como a infância está sendo tratada. Eu poderia ficar aqui desfilando dados para você. Mas eu acho que, se eu tenho o microfone na mão, eu tenho que falar em prol de uma causa que faça diferença, e acho que falar em nome das crianças é muito importante.

E a sua infância, como foi?
Lázaro Ramos - Foi o máximo. Meu pai e minha mãe trabalhavam muito, mas tenho uma tia-avó – a primeira da família a sair do interior da Bahia e ter uma vida um pouco melhor – que tinha uma casa em Salvador, para onde ela acabou levando todas as crianças para estudar. Nessa casa tinha quintal, e para mim isso fez toda a diferença na minha infância. Foi pisando com o pé no chão de terra, subindo em árvore, brincando com os primos de correr de lá para cá, muitas brincadeiras artesanais. Nunca tive o Atari, o brinquedo mais caro da época, mas eu tinha ali um universo em que eu podia criar o que quisesse. Brincar de castelo, brincar de floresta no quintal da minha tia, essa é a memória de infância que eu mais tenho.

Você costumava ler ou ouvir histórias?
Lázaro Ramos - Não, eu comecei a ler quando comecei a fazer teatro, com 15 anos de idade. Eu lia aqueles livros indicados pela escola, mas fui aprender a ter o gosto pela leitura com 15 anos, já tarde. Meu tio contava histórias. Ele foi um dos fundadores dos Filhos de Gandhy, bloco de Carnaval lá de Salvador, então não contava histórias infantis, mas de família, de como foi fundar o bloco, de como era trabalhar como estivador. Ele adorava. E eu ficava imaginando tudo o que ele dizia.

Você ainda é um pouco criança?
Lázaro Ramos - Eu sou bem bobinho. Meu filho fala "Papai você é tão engraçado", porque eu acho que é o que deixa meu dia a dia leve. Eu tenho uma rotina bem pesada, minha vida de adulto é bem de adulto mesmo. Se eu não fugir um pouco para esse universo lúdico, brincalhão, deitar no chão com os meus filhos, esquecer de outros assuntos para me permitir isso, acho que eu seria uma pessoa muito sofrida.

Você disse que escreveu várias coisas, mas nenhuma deu certo. Que tipo de coisas?
Lázaro Ramos - Estou com mais dois livros infantis prontos, que fiz depois desse. Não sei quando nem por qual editora vou lançar. O outro é sobre a conquista da independência, seja de aprender a comer sozinho ou ter coragem para fazer alguma coisa. O outro acho que não é infantil. Está terminado, mas estou achando que é um livro para mulheres de 30 anos. Quando eu escrevo eu nunca sei o que vai virar. O meu primeiro livro eu não sabia que era infantil. Quando eu terminei, pensei: "Ih, isso dá para criança."

Pretende escrever mais?
Lázaro Ramos - Eu vou escrevendo, não acho que essa vida de autor vai ser uma coisa planejada. Acho que eu tenho que escrever, se eu tiver alguma coisa útil para falar. Se eu não tiver, eu não vou falar.
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Texto original da entrevista: 'Faltam heróis negros', diz Lázaro Ramos ao lançar seu 3º livro infantil. Por: Júlia Barbaon, de São Paulo, publicado na ‘Folhinha’ em 11.11.2015.

"Cadernos de Rima do João" - Ed. Pallos - 2016 
"A Velha Sentada" - Ed. Uirapuru - 2010. 

LAZARO RAMOS - Nascido em 1978, em Salvador, Lázaro Ramos é ator, apresentador, cineasta e escritor. Atuou em diversos filmes, peças de teatros, minisséries e novelas, como Cobras & Lagartos, da Rede Globo — atuação que lhe rendeu indicação ao Emmy Awards 2007, umas das principais premiações da TV internacional. Desde 2006, dirige e apresenta o programa Espelho, no Canal Brasil. Estreou na literatura infantil em 2010, quando publicou A velha sentada (2010) e, cinco anos depois, lançou sua segunda obra do gênero, Caderno de rimas do João (2015).(iii)


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(i)  Sinopse - Livraria Travessa - www.travessa.com.br
(ii) http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/11
(iii) Biografia do autor - Livraria Travessa - www.travessa.com.br

Créditos Imagens:

1. Foto Taís Araújo e Lázaro Ramos - www.claudia.abril.com.br/famosos/6-vezes-em-que-taís-araújo-e-lázaro-ramos-derretem-nossos-corações/06.06.2016
2, 3, 4 - Imagens de divulgação 
5. Foto do autor in: www.travessa.com.br

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 









BRASIL - UM CONVITE DE GONZAGUINHA

4 de abril de 2017



Nos dias atuais em nosso país, estamos a experimentar a maldade dos fatos e das intenções atordoadas de um governo sem tino nem futuro.  

A democracia é um bem conquistado a duras penas na nossa história, e foi reescrita, com intencionalidade e carinho, na Constituinte de 1988. 

Hoje, o povo não sofre - como outrora - a infâmia dos desaparecimentos e das torturas em lugares obscuros oficiais, mas sente forte, com sua família, a crueza e o descalabro do desemprego.




Para iniciar este artigo consultei alguns dados que citam fontes confiáveis, e nos informam que as taxas de desemprego, no país, em janeiro de 2017, chegaram a 12% atingindo 13,2% no final de março. São números que nos assustam e nos envergonham diante do mundo, mostrando um Brasil que, em pouco tempo, tornou-se campeão incomparável de multidões desempregadas.

As projeções das consultoras citadas - Tendências e GO Associadas - apontam que "só a partir de 2020/2021 o Brasil poderá recuperar o nível de estoque de empregos formais que tinha no final de 2014, quando tinha uma situação de quase pleno emprego". (i)

Assim, a sociedade continuará a assistir a ignomínia das mortes de centenas de jovens, negros e pobres, a perambular nas ruas de uma nação que descolora e desmorece o orgulho pátrio e a Esperança no futuro.      

Os movimento sociais, representativos dos trabalhadores, profissionais e importantes organizações sociais, se preparam para sair às ruas em significante demonstração do querer do povo, da sua palavra organizada, consciente e livre. Essas manifestações significam a expressão de milhares de votos em defesa dos direitos dos trabalhadores e de suas conquistas. E ainda afirma significativa compreensão da responsabilidade coletiva de defender uma educação de qualidade para todos, e serviços públicos universais de saúde e lazer. 

Para apoiar a costura histórica das lutas civis desse povo destemido, reproduzo aqui a letra de uma canção doída e forte do inesquecível cantor e cidadão Gonzaguinha. Seu canto nos convida a seguir firmes, e manter a luta.  


Pequena Memória Para
Um Tempo Sem Memória (ii)


Memória de um tempo
Onde lutar por seu direito
É um defeito, que mata!

São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Tanta crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução.
São cruzes sem nomes,
Sem corpos, sem datas.

Memória de um tempo
Onde lutar por seu direito
É um defeito, que mata!

E tantos são os homens
Por debaixo das manchetes
São braços esquecidos
Que fizeram os heróis.
São forças, são suores
Que levantam as vedetes
Do teatro de revistas,
Que é o país de todos nós!

São vozes que negaram
Liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida!
São vidas que alimentam
Nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança!



Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver 
quem se lembrará!
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará!
Ê eu não posso esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia!
Ê eu quero é cantar 
Essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria!   
E vamos à luta!    



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 (i)  g1.globo.com/economia/noticias/desemprego-ainda-deve-subir-em-2017
(ii)  Letra copiada do site: https://vagalume.com.br/gonzaguinha, comparada com a voz gravada do autor, disponível no mesmo site.


Créditos das Imagens:

1. Foto de Gonzaguinha - www.averdade.org.br-2015/09-70-anos-de-               gonzaguinha
2. In: elpais/12.09.2016/manifestação-na-av-paulista - Stringer (Reuters).


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 

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