Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ENNIO MORRICONI PERMANECE NA MÚSICA QUE NOS DEIXOU

6 de julho de 2020



O famoso compositor italiano, Ennio Morricone, morreu hoje, (6/07/2020) em Roma, aos 91 anos. Foi um dos músicos mais admirados e premiados do mundo do cinema. Ele estava internado numa clínica de Roma por causa de uma queda. De acordo com o portal vatican.news, o maestro “conservou até o fim plena lucidez e grande dignidade. Saudou sua amada esposa Maria, que o acompanhou com dedicação em cada momento de sua vida humana e profissional, e esteve com ele até o último suspiro. O funeral se realizará de forma particular “com respeito ao sentimento de humildade que sempre inspirou os atos de sua existência”.

A notícia fez palpitar o meu coração cansado deste retiro doméstico voluntário, para me proteger do Covid-19. A memória me levou a tempos atrás, quando vivenciei um momento comovente em Veneza. Estava saindo do Palácio Ducale, quando ouvi um mágico som musical, como se eu tivesse diante de uma grande orquestra, num imenso teatro. Curiosos, eu e meus amigos fomos seguindo aquela sonoridade, até chegar à grande Praça São Marcos. 

Notamos que dezenas de operário trabalhavam, montando a estrutura de uma plateia de costas para a catedral São Marcos. Pedi informações, e soube que nada menos do que o premiado compositor Ennio Morriconi se apresentaria naquela noite, para os felizes italianos e turistas que, em tempo, haviam comprado ingressos para o evento. Soube ainda que, mesmo se pudéssemos comprar tais ingressos, não havia mais nenhum para vender.

O barulho da montagem misturava-se ao som que perseguíamos. A grande surpresa foi quando descobrimos que, naquele momento, havia uma orquestra, sim, lá no fundo, do lado oposto à catedral. Era a orquestra que ia tocar na grande noite de gala. Estavam fazendo o último ensaio, ao aberto. Adiantei meus passos e me dei conta que, lá no fundo, estavam não só os músicos que tocariam à noite, mas o próprio compositor, que entregava aos nossos ouvidos passantes as músicas que ele apresentaria no teatro que se estava montando.

Eu e meus amigos nos adentramos, o máximo que pudemos, pois outros turistas já haviam descoberto o tesouro, antes de nós. Largamos o roteiro veneziano daquela tarde para ficar ali, com os outros, de pé, em profundo silêncio, vendo e ouvindo, gratuitamente, as músicas dos belos filmes para os quais o gênio Morriconi fazia as trilhas sonoras.

Abaixo, reproduzimos trechos de artigos do portal IHU-unisinos sobre Ennio Morricone. Eu, que sempre gostei de cinema, cheguei a acompanhar a maravilhosa produção do maestro que compôs a trilha sonora de dezenas de filmes, incluindo "Cinema Paradiso" e "A Missão". Em 2016, ele recebeu seu primeiro Oscar, pelo filme "Os Oito Odiados", dirigido por Quentin Tarantino. Em 2007, ele já havia recebido um Oscar honorário por sua abundante e elogiada carreira musical. E também compôs a Missa Papae Francisci. Anno duecentesimo a Societate Restituta, em 2015 (Missa do Papa Francisco. Nos 200 anos da Restauração da Companhia de Jesus).

Há uma entrevista, publicada pelo jornal italiano Avvenire, em 10/06/2015, em que Ennio Morriconi fala da sua decisão de compor a missa para o Papa Francisco. Vejam um trecho: 

A minha esposa, Maria, com quem estou casado desde 1956, sempre me pediu para escrever uma missa. Mas eu nunca fiz. Então, uma manhã, saindo de casa, eu encontrei o padre Daniele Libanori [i] reitor da igreja do Gesù, que está a dois passos da minha casa, em Roma, e que muitas vezes eu frequento. O jesuíta me pediu para escrever uma partitura para celebrar os 200 anos da reconstituição da Companhia de Jesus. Era 2012. Eu tomei um pouco de tempo para pensar. Enquanto isso, foi eleito o Papa Francisco, o primeiro pontífice jesuíta. Eu disse que sim e pensei em dedicá-la a ele. E também a minha esposa Maria. Assim nasceu a Missa Papae Francisci. Anno duecentesimo a Societate Restitutaou seja, uma missa em honra do Papa Francisco por ocasião dos 200 anos da Restauração da Companhia de Jesus, que adquire um valor ainda maior para mim, que sempre fui uma pessoa religiosa, crescido em uma família católica e com essa característica de que sempre marcou a minha vida”.

A missa foi executada na Igreja 'del Gesù', em Roma, 11.6.2015)  gravada e transmitida pela RAI.  Na nave central da Igreja estava presente Giorgio Napolitano, ex-presidente da Itália. Antes da solene estreia, Morricone esteve com o Papa Francisco, conforme narra em entrevista ao jornal italiano Avvenire, que foi traduzida e reproduzida nas Notícias do Dia do IHU-usininos: 

"Olhamo-nos por um longo tempo, em silêncio. O papa me olhava, esperava que eu lhe contasse sobre a minha missa. Eu lhe mostrei a primeira página da partitura onde as notas desenham uma cruz: uma linha confiada a tubas e trompetes formam o braço vertical da cruz; nessa linha, em certo ponto, insere-se toda a orquestra, que desenha o outro braço. O Papa Francisco logo me conquistou, porque soube caracterizar o seu ministério dando uma virada na Igreja, tentando corrigir as distorções encontradas”.

A missa, com imagens significativas da Igreja 'del Gesù' pode ser vista em: www.rai.it/dl/raitv/programmi/media.

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Fonte das informações:

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-07/morte-ennio-morricone.html

http://www.ihu.unisinos.br/600674-ennio-morricone-compositor-italiano-morre-aos-91-anos

[i] Daniele Libanori é, atualmente, bispo auxiliar de Roma.

Crédito das imagens:

1. Ennio Moricone - vatican.news.cq5dam.tubna.il.cropped.1000.563.jpg

2. Composição de imagens - Portal CBN.Campinas.

3. Morriconi 90 - www.radiomusica.com.br.jpg

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, envie a sua mensagem com um comentário, nesta postagem. 





GABRIELA MISTRAL - EL IMAGINERO / O SANTEIRO / L' ARTIGIANO

1 de julho de 2020



Neste período de pandemia, os festejos religiosos tradicionais, em quase todo o país, se restringiram à passagem solitária da Custódia, no dia de Corpus Christi, e das imagens de Santo Antônio, São João e São Pedro, pelas ruas das cidades, sem nenhuma procissão. Mas as famílias do Nordeste não dispensaram a tradição das canjicas e bolos, mesmo sem fogueiras, para celebrar a boa colheita do milho.
Em relação a essa tradição das imagens, ainda muito viva na tradição da Igreja Católica, há um raro poema da grande poetisa chilena, Gabriela Mistral (1889/1957) que, já em sua época, questionava essa tradição das imagens religiosas. Escrito em espanhol, o poema intitula-se "El Imaginero". Para os leitores deste blog, fiz uma versão livre, em português (O Santeiro), e em italiano ( L'artigiano). 

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Gabriela Mistral (1889/1957) – pseudônimo de Lucila Godoy Alcayaga – foi uma ilustre chilena que alcançou o respeito de insigne poeta, experiente pedagoga e ilustre pensadora da sua época. Foi a primeira mulher diplomata ibero-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1945). Na ocasião, ela afirmou:
«Por um acaso que me ultrapassa, sou neste momento a voz direta dos poetas da minha raça e a voz indireta das nobres línguas espanhola e portuguesa. Ambas se alegram por terem sido convidadas ao convívio da vida nórdica, toda ela assistida por seu folclore e sua poesia milenários».
Gabriela Mistral foi cônsul chilena em Los Angeles, Nova York e no Brasil. Em 1954, a convite do presidente chileno Carlos Ibáñez, ela foi recebida com honrarias no palácio da Moneda, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Chile.  É considerada uma das figuras mais relevantes da literatura chilena e latino-americana. Dos seus livros se destacam: Desolación (1922), Ternura (canciones para los niños)-1923; Nubles Blancas - 1930; Tala - 1938. Mistral morreu aos 68 anos, em janeiro de 1957, na cidade de Nova York.
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El Imaginero                           

      Poema de: Gabriela Mistral
       Prêmio Nobel de Literatura-1945

       ¡De qué quiere Usted la imagen?
Preguntó el imaginero:
Tenemos santos de pino,
Hay imágenes de yeso,
     
       Mire este Cristo yacente,
Madera de puro cedro,
Depende de quién la encarga,
Una familia o un templo,
O si el único objetivo
Es ponerla en un museo.
Déjeme, pues, que le explique,
Lo que de verdad deseo.
Yo necesito una imagen
De Jesús El Galileo,
Que refleje su fracaso
Intentando un mundo nuevo,
Que conmueva las conciencias
Y cambie los pensamientos.

Yo no la quiero encerrada
En iglesias y conventos.
Ni en casa de una familia
Para presidir sus rezos,
No es para llevarla en andas
Cargada por costaleros.

       Que ilumine a quien la mire
El corazón y el cerebro.
Que den ganas de bajarlo
De su cruz y del tormento,
Y quien contemple esa imagen
No quede mirando un muerto,
Ni que con ojos de artista
Sólo contemple un objeto,
Ante el que exclame admirado
¡Qué torturado mas bello!
Perdóneme si le digo,
Responde el imaginero,
Que aquí no hallará seguro
La imagen del Nazareno.
Vaya a buscarla en las calles
Entre las gentes sin techo,
En hospicios y hospitales
Donde haya gente muriendo
En los centros de acogida
En que abandonan a viejos,
En el pueblo marginado,
Entre los niños hambrientos,
En mujeres maltratadas,
En personas sin empleo.
Pero la imagen de Cristo
No la busque en los museos,
No la busque en las estatuas,
En los altares y templos.
Ni siga en las procesiones
Los pasos del Nazareno,
No la busque de madera,
De bronce de piedra o yeso,
¡mejor busque entre los pobres
Su imagen de carne y hueso!
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      O Santeiro
       Por: Gabriela Mistral 
       Versão portuguesa de: Vanise Rezende

       

De que quer você a imagem?
Perguntou-lhe o santeiro:
Temos santos de pino,
Há imagens só de gesso
Olhe este Cristo jacente,
Madeira pura de cedro,
Quem encomenda decide,
Uma família, uma igreja,
Ou se apenas o desejo
É expô-lo em um museu.
Deixe-me, pois, que lhe explique,
O que penso de verdade.

Eu necessito uma imagem
De Jesus, o Galileu,
Que reflete o seu fracasso
Em busca de um mundo novo,
Que comova as consciências,
E mude os pensamentos.


     


       
       Eu não a quero guardada
Em igrejas e conventos.
Nem em casas de família
A presidir orações,
E que não siga em andores
Nas costas de voluntários. 
       Que ilumina a quem o olhe 
       
       O coração e o cérebro.
       Que o queiras retirá-lo      
       De sua cruz e tormento,
       E quem contemple a imagem
       Não pare a olhar um morto,
       Nem com os olhos de artista
       Só contemple a figura
       Diante da qual exclame
       “Que belo esse torturado!”
       Perdoe-me se inda lhe digo,
       - responde ainda o santeiro –

Aqui não estará segura
A imagem do Nazareno.
Vá procurá-la nas ruas
Entre o povo sem abrigo,
Nos hospitais e hospícios
Onde há gente morrendo,
Nos centros de acolhida
Onde abandonam os velhos,
No povo com fome e medo,
Entre as crianças famintas,
Nas mulheres maltratadas,
E em pessoas sem emprego.
Mas a imagem de Cristo
Não a cerques nos museus,
E nem mesmo nas estátuas
Dos altares e dos templos.
Não sigas nas procissões
Os passos do Nazareno,
Nem o busques de madeira,
De bronze, de pedra ou gesso,
O encontrarás entre os pobres 
       Sua imagem em carne e osso! 

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L’artigiano


Poesia de Gabriela Mistral
Premio Nobel de Literatura-1945
Versione in italiano di Vanise Rezende 



Come volete l’immagine?
Le domandò l’artigiano:
Abbiamo santi di pino,
Ci sono quelli di gesso,
Guarda il Cristo giacente,
Un legno di puro cedro.
Dipende di chi lo vuole,
Una famiglia o un templo,
Oppure se l’obbiettivo
Sia portarlo in museo.

Intanto lascia-mi dirti
Il che di fatto desidero. 


Ho bisogno di una immagine
Di Gesù, Il Galileo,
Che ritratti il suo fiasco
Costruendo un mondo nuovo,
Che commuova coscienze
E cambi anche i pensieri.
Io non lo voglio raccolto
Nelle chiese e conventi.
Neppure con le famiglie
Per presiedere orazioni.
Né per essere portato
Dagli uomini devoti.

Voglio una immagine viva
Di Gesù Uomo, soffrente,
Che il cuore e la mente 
Di chi lo guardi, s’illumini.
Che ci vadano a toglierlo
Dalla croce e del tormento,
E chi contempli il suo volto
Non resti a vederlo morto,
Né con occhi di uno artista
Solo contempli l’oggetto,
E si esprima ammirato:
“Che bello, il torturato!”


Mi perdoni se gli dico,
Spiega l’uomo artigiano,
Qui non starebbe sicura
L’immagine del Nazareno!

Vai cercarlo per le strade
Tra la gente senza tetto
Negli ospizi e ospedali
Dove c’è gente morenti.
Là nei centri d’accoglienza
Dove abbandonano i vecchi,
Tra i bambini affamati
Tra le donne maltrattate
E persone senza impiego.

Però l’immagine di Cristo
Non la cerchi nei musei
Né la ricerchi in statue
Negli altari e nei templi.
Né segua in processione
I passi del Nazareno.
Non Lo troverai di legno
Di bronzo, pietra o gesso.
Meglio è cercarlo trai poveri

Suo viso in carne ed osso! 

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 Fonte das informações:  https://es.wikipedia.org/wiki/gabriela_mistral#mw-head
                  
  Principais prêmios recebidos:

                        1945: Premio Nobel de Literatura
             1947: Doctor Honoris Causa por el Mills College of Oakland (California)
              1950: Premio Serra de las Américas
              1951: Premio Nacional de Literatura de Chile

Entre los muitos doutorados honoris causa que recebeu, destacam-se os da  Universidad Nacional de Guatemalade California em Los Ángeles y de Florença, além do que lhe foi outorgado pela Universidad de Chile, em 1953 .


Crédito das imagens:
                            
        1. "La ciudad de Santiago a Gabriela Mistral" - mural de Fernando Daza, 
             em cerâmica - 1971.
        2.  Gabriela Mistral - www.folha.uol.com.br.jpg
        3.  Imagem de Cristo crucificado - www.pinterest.com
        4.  Moisés de Michelangelo - Igreja de San Pietro in Vincola (Roma).
        5.  A San Damiano - www.a.muse.arte.jpg
        
Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.


FREI BETTO - A ÉTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA

22 de junho de 2020

Estamos cansados. Nós, os velhos, resguardados com cautela em nossas casas (aqueles que as têm), e os médicos, enfermeiros, motoristas de ambulâncias, coveiros, auxiliares de limpeza, porteiros, motoqueiros, guardas,  professores, crianças e jovens distanciados da vida escolar, e todo o povo da periferia, muitos deles sem poder trabalhar no “bico” onde se arranjam para sobreviver. Dá-nos inveja quando vemos outros países se refazendo, mesmo que na lenta volta,  ainda cheia de cuidados.

Mas há um cansaço premente - que se expande e nos atinge misturado à nossa tristeza e ao espanto enraivecido, diante das graves consequências de uma eleição ardilosamente falseada, à espera de que os processos judiciais escancarem a farsa grotesca da mentira institucionalizada, infectada de violências pessoais e sociais, e de conluios políticos de interesses nocivos ao povo brasileiro. Resta-nos reagir, unidos, na luta pela restauração dos direitos republicanos dos cidadãos e das instituições assaltadas por um poder inconsequente, que só nos envergonha aqui e lá fora. 

Do blog do escritor e teólogo Leonardo Boff, reproduzimos um excelente artigo de Frei Betto, que lLboff apresenta como “um texto claro, simples, essencial”, e nos convida a não deixar de ler, no final, "o belo poema de um autor cubano (Alexis Valdés), que nos mostra o valor e a presença de Deus em nossa vida”. Para os nossos leitores, fizemos uma versão livre, em português, do poema canção, originalmente em espanhol.


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ÉTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Por: frei betto

A pandemia causada pelo coronavírus veio nivelar a humanidade. E suscitar sérias questões éticas. Não faz distinção de classe, como a anemia e o raquitismo, que resultam da fome; ou de gênero, como as doenças da próstata.
Trata-se, agora, de enfrentar um inimigo invisível que exige urgente mobilização global para deter o seu avanço. E é em momentos de crise como este que as pessoas se revelam.
A questão ética fundamental que a pandemia levanta é quanto ao valor da vida humana. Para o capitalismo, em si tem valor zero, a menos que revestida de adereços com valor de mercado e robustecida por bens patrimoniais e financeiros. Prova disso é o descaso humano em nossas cidades, cujas calçadas se enchem de pessoas maltrapilhas que sobrevivem da caridade alheia. Não têm valor nenhum e, ao cruzar com elas, muitos evitam se aproximar, receiam o mau cheiro e o assédio.
Suponhamos que um deles ganhe uma fortuna na loteria e, pouco depois, apareça a bordo de um reluzente Mercedes Benz. Imediatamente passará a ter valor social e ser reverenciado pelo respeito e pela inveja de quem o observa. Portanto, eis o patamar antiético ao qual o sistema capitalista nos conduz: valemos pelo que portamos e não pelo simples fato de sermos humanos.
Agora, o espectro da morte nos nivela. A devastação letal provocada ocupa praticamente todo o noticiário. Somos todos obrigados a redimensionar nossos critérios, valores e hábitos. Até as nações mais ricas descobrem que o dinheiro não é suficiente para evitar a pandemia. Só a ciência é capaz de detê-la, mas andava muito ocupada em descobrir, nos laboratórios, como aumentar os lucros das empresas farmacêuticas, enquanto faltavam recursos para combater a fome e o aquecimento global.
A Itália nos mostrou como a pandemia coloca sérios dilemas éticos. Médicos e enfermeiros tiveram que optar entre um e outro paciente, devido à falta de recursos suficientes. E nossos parentes e amigos infectados devem padecer sozinhos nos hospitais, sem que possamos consolá-los, exceto pelo celular quando ainda não entraram no respiradouro.
Os falecidos, não temos direito de pranteá-los no velório e nem mesmo cumprir seus últimos desejos, como ser enterrados ou cremados com tal roupa ou símbolo religioso. Como se fossem anônimos, são descartados tal como ocorria na Idade Média com os infectados pela peste. Estão proibidos de rituais fúnebres. Assim, o Covid-19 rouba-lhes a dignidade. E nos apunhala ao nos obrigar a ficar afastados de quem somos mais próximos. É uma tríplice morte: a individual, do paciente; a familiar, dos ausentes; a social, causada pela interdição de velório, enterro e culto religioso.
Outra dimensão ética suscitada pela pandemia é o conflito entre solidariedade e competitividade. Todos conhecemos gestos meritórios de solidariedade visando a aplacar o nosso isolamento e favorecer o socorro às vítimas, como o da jovem do apartamento 404 que, todos os dias, prepara a refeição da idosa do 302, obrigada a dispensar a cozinheira; o empresário que distribui quentinhas aos moradores das ruas de sua vizinhança; o universitário que se apresentou como voluntário em um hospital, disposto a carregar macas e limpar enfermos. Ou como o do bombeiro carioca Elielson dos Santos que, do topo da escada Magirus, oferece músicas com seu trompete a moradores do Rio.
Há que ressaltar também a solidariedade entre países que enviaram recursos a outros povos, especialmente Cuba, que deslocou centenas de médicos para reforçar o socorro na Itália, na Espanha, na França e em muitos outros países.
No entanto, falou mais alto a competitividade, valor supremo do capitalismo. O chinês Jack Ma, fundador da plataforma de vendas online Alibaba e um dos homens mais ricos do mundo, ofereceu gratuitamente kits de testes para diagnosticar Covid-19 e respiradores a 50 países, inclusive Cuba. Porém, a transportadora aérea era de bandeira usamericana, e a Casa Branca, desprovida do mínimo senso humanitário, valeu-se do genocida bloqueio imposto à ilha do Caribe para impedir que a carga chegasse a seu destino.
Em nome de caprichos políticos, sacrifica-se a vida de nações. Algo semelhante ocorreu com o governo da Bahia, que comprou equipamentos da China no valor de R$ 42 milhões. Ao passar de navio pelos EUA, a encomenda foi apropriada pelo governo da nação imperial.
As implicações éticas suscitadas pela pandemia se assemelham às de situações de guerra. O governo Bolsonaro, monitorado pelo FMI, havia aplicado ao Brasil rigoroso ajuste fiscal coroado pelo teto de gastos e os juros elevados. Desde a posse alegava não ter dinheiro e precisar promover reformas, como a da Previdência, para poupar recursos.
Dinheiro nunca falta quando se trata de pagar os juros da dívida pública e saciar o voraz apetite dos bancos. Desde que assumiu o Ministério da Economia, Guedes transferiu para os bancos R$ 433 bilhões, dinheiro do povo sonegado da educação, da saúde, do saneamento etc. O que vale mais, o lucro dos bancos ou a vida de milhões de brasileiros?
O combate à pandemia exigiu medidas urgentes e, como por milagre, apareceu R$ 1,3 trilhão! Recursos há, mas não vontade política de quem qualificou a pandemia de “gripezinha” e demonstrou não se importar com a morte em proporções geométricas.

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Deixo à nossa reflexão o poema/canção “Esperanza”, 
do cubano Alexis Valdés.



Cuando la tormenta pase                                 Quando a tormenta passar
Y se amansen los caminos                                E aplanarem-se os caminhos                
Seamos sobervivientes                                     Sejamos sobreviventes
Con el corazón lloroso                                      Com o coração choroso     
Y el destino bendecido                                E o destino abençoado.
Nos sentiremos dichosos                             Nos sentiremos ditosos
Tan sólo por estar vivos.                             Tão só por estarmos vivos.
Y le daremos un abrazo                              E daremos um abraço
Al primer desconocido.                               Mesmo a um desconhecido.             
Y alabaremos la suerte                               Celebraremos a sorte
De consevar un amigo.                               De reencontrar um amigo.              

Y entonces recordaremos                            E, então, nos lembraremos    
Todo aquello que perdimos.                         Tudo aquilo que perdemos
Y de una vez aprenderemos                         E logo aprenderemos
Todo lo que no aprendimos.                         Tudo o que não aprendemos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
                                                               Não mais teremos inveja,
Ya no tendremos envidia,                           Pois todos terão sofrido.
pues todos habrán sufrido.                         Não haverá incertezas
Ya no tendremos desidia                            Seremos mais compassivos.
Seremos más compasivos.                         O bem comum valerá 
Valdrá más lo que es de todos                    Como jamais conseguimos.
Que lo jamás conseguido                           Seremos mais generosos
Seremos más generosos                            E bem mais comprometidos. 
Y mucho más comprometidos.                    

Entendemos lo frágil                                   Entenderemos o frágil
Que significa estar vivos.                            Tão só por estarmos vivos.             

Sudaremos empatía                                   Sentiremos empatia
Por quien está ya se ha ido.                        Por quem está ou se foi.
                                                            
Extrañaremos al viejo                                Lembraremos o velhinho
Que pedía en el mercado,                           Que pedia no mercado,
Que no supimos su nombre                        Que o nome não sabíamos
Y siempre estuvo a tu lado.                        Mesmo estando ao teu lado.
Y quizás el viejo pobre                               Quem sabe o pobre velho,
Era tu Dios disfrazado.                               Era o teu Deus disfarçado.
                                                                                                                  

Y todo será un milagro                               Tudo será um milagre,
Y todo será un legado                                Tudo será um legado,
Y se respetará la vida.                                Se respeitará a vida
La vida que hemos ganado.                        Como um dom que nos foi dado.
     
Cuando la tormenta pase                            Quando a tormenta passar
Te pido Dios, apenado,                               Te peço, oh Deus, apenado,
que nos devuelvas mejores,                        Que nos devolvas melhores,
Como lo habías soñado.                              Como tu havias sonhado!                                                                       

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Frei Beto é escritor de inúmeros livros, entre os quais o"O diabo na Corte - 
leitura critica do Brasil atual" , Ed. Cortez.

Fonte do artigo: https://leonardoboff.org/2020/05/29/frei-betto-etica-em-tempos-de-pandemia/

Ouça o poema recitado pelo autor Alexis Valdés 

Poema recitado em uma live:
https://youtu.be/MPxyRvoL6sg


Crédito da Imagens:

1. Foto de abertura - www. canstockphoto.com.br
2Frei Betto - reproduçãao/divulgação
3. Alexis Valdés - Foto imagem do vídeo da canção acima reproduzida, 


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.




































































  


      








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