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DIVERGÊNCIA POLÍTICA E CIDADANIA

17 de novembro de 2019

Há uma semana falamos aqui de dois grandes eventos históricos com o ex-presidente Lula - quando ele saiu saudável, sorridente  e elegante das instalações da Polícia Federal, em Santa Catarina, e diante da imensa multidão que o recepcionou em São Paulo, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o lugar da sua iniciação política. 

Hoje, reproduzimos um artigo do The Intercept, não tanto sobre o fato em si, mas sobre as divergências políticas e o necessário exercício cidadão de, apesar das divergências, saudar as conquistas da nossa resistência democrática. 

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Você pode achar que Lula é culpado
e considerar sua soltura positiva

                                            
    Na foto acima, Lambe-Lambe com a imagem do ministro Sergio Moro segurando um        cartaz com  a escrita “Lula Livre”, na rua da Consolação, região central de São Paulo,      em 18/06/19.Foto de: Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress

Por: Rosana Pinheiro-Machado
The Intercept Brasil 


Esse não é um texto sobre o tiozão do pavê que acha que um ladrão está solto e que o próximo passo é soltar traficante e estuprador para então, finalmente, liberar a mamadeira de piroca. Esse é um texto sobre figuras “sensatas” e “isentas” que pairam acima do bem e do mal. É um texto sobre seu parente, vizinho ou colega, sobre o jornalista famoso que fica quieto diante da soltura de Lula, praticando o que agora se chama de “doisladismos”: o Bolsonaro é ruim, mas o PT também.

No debate político atual, seja na esfera privada ou pública, existe certa dificuldade de se entender que a questão chave do que está acontecendo não diz respeito ao quanto se gosta ou não do PT. Não é sobre simpatizar com o Lula ou aprovar o governo Dilma. Não é sequer sobre uma possível indignação com a corrupção do mensalão à Petrobras.

Há muito espaço – ou deveria haver – para divergências. Pode-se discutir se a soltura de Lula “piora a polarização” como as manchetes da Folha de S. Paulo e o Estadão anunciaram. Também é relevante o debate entre aqueles que acreditam que a relação com Lula é messiânica e os que defendem que se trata de gratidão. Pode-se questionar se Lula se beneficiou, ou não, de propina. Essas são muitas das questões onde o contraditório é desejável no âmbito jurídico e democrático.

O ponto fundamental aqui é uma questão de justiça histórica e princípios democráticos. Estamos falando de um circo jurídico que foi armado no Brasil quando juízes e procuradores vaidosos resolveram fazer um grupo no Telegram para condenar Lula antes do julgamento. Eles passaram por cima da constituição, fizeram conchavo entre pares e acionaram a mídia para inflar a população. Tudo isso em nome do ganho pessoal. O resultado do espetáculo da Lava jato foi fama, poder e dinheiro nas mãos de Sergio Moro a Deltan Dallagnol.

Foi um processo ilegítimo – e isso em nada tem a ver com a inocência ou culpa de Lula. A validade dos processos depende da imparcialidade dos juízes. Um julgamento independente e imparcial faz parte do código de ética da magistratura, é uma garantia constitucional e um direito humano universal. 

Comprovadamente, o julgamento de Lula foi uma farsa. Logo, não há outra postura possível além de considerar positiva a sua soltura – mesmo entre aqueles que entendem que Lula é culpado. Ele tem direito – como qualquer outro indivíduo – a um julgamento imparcial. Afinal, a lógica justiceira de que os fins justificam os meios não é aceitável numa democracia.

Senso de justiça é um valor inegociável e, portanto, o que está em jogo não é nossa avaliação ou interesses pessoais (lógica particularista) sobre tudo o que envolve o Partido dos Trabalhadores. O desafio das democracias é justamente fazer com que as partes entendam que precisam ceder suas vontades para o bem-comum.

Nossa avaliação política sobre o lulismo pouco importa neste momento crucial da história. Assim como não importava quando deveríamos ter votado com convicção em Fernando Haddad no segundo turno das eleições de 2018, pois o que estava em jogo era a vitória da extrema-direita.

Recepção ao ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, no sábado 9/11, em São Bernardo/SP. Foto de: Agatha Gameiro/ FramePhoto/Folhapress.

Doisladismo

O antipetismo precisa ser combatido na luta política – mas também no divã. Não é possível que mesmo diante de tudo que a Vaza Jato mostrou ainda se cale sobre esse processo pela pura lógica de que os fins justificam os meios ou de que se prefere Lula preso para “acalmar os ânimos”.

O doisladismo é uma praga na vida social e na esfera pública brasileira, deixando que opiniões, preconceitos e ressentimentos pessoais se sobreponham ao coletivo. Mais perigoso ainda, é que o doisladismo é praticado com uma aura de superioridade opinativa, que vê a si próprio como “neutro”, “sensato” e “democrático”. Mas, na verdade, o que está sendo acionado é uma perspectiva egoísta e antidemocrática – perspectiva esta que ajudou a eleger Jair Bolsonaro.
No fundo, o isentão é fruto do pior do radicalismo, que tanto diz repudiar. Ele vê o mundo sem nuance. Ele se cala em momentos chave.

Como disse João Filho, em sua recente coluna para o Intercept, existe, entre jornalistas, uma “obsessão em busca de uma falsa imparcialidade. Há um temor constante em ser associado com algum dos lados”. O “isentão” aponta o dedo e torce o nariz para dois lados que seriam supostamente podres e radicais. Mas não são dois lados da mesma moeda: os erros dos governos petistas não se equivalem à prática de governo bolsonarista, que repudia e tripudia as instituições democráticas enquanto exalta torturadores e o AI-5. Ao contrário do que disse o Estadão, em seu famigerado editorial, nunca foi uma escolha difícil para os justos.

O isentão é alguém viciado no elogio que recebe quando é chamado de “sensato”. Ele se nutre dessa vaidade e é refém do próprio personagem, acreditando que está sendo moderado e racional. Mas não está. O isentão é um radical do doisladismo e, na prática, isso significa o oposto da sensatez, porque sensatez refere-se ao bom-senso, ao discernimento, à precaução e à resolução de assuntos difíceis.

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Fonte do texto: 

The Intercept - 12/11/2-19

https://theintercept.com/2019/11/12/lula-soltura-positiva/?utm_source=The+Intercept+Brasil+%20lNewsletter&utm_campaign=36af9e255c-%20EMAIL_CAMPAIGN_2019_10_04_08_20_COPY_%2001&utm_medium
=email&utm_term=0_96fc3bd6d5-36af9e255c-133210961

Créditos das Imagens: 

1. Luís Inácio Lula da Silva - reprodução na www.veja.abril.com.br

2. as duas outras imagens do texto são reproduções de fotografias inseridas na matéria citada, de 12/11/2019. 

Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 




LULA NOS BRAÇOS DO POVO FALA À MULTIDÃO EM SÃO PAULO

10 de novembro de 2019

                       Foto de Ricardo Stuckert - reprodução da Carta Capital

                                                          
    "ESTOU COM MAIS CORAGEM DE LUTAR DO QUE QUANDO SAÍ DAQUI"

  • Comentários de: Vanise Rezende


Luís Inácio LULA da Silva – o grande estadista que colocou o Brasil entre os países mais respeitados do mundo, por sua práxis conciliadora e atenta aos sinais da solidariedade humana está de volta, nos braços do povo, falando de suas necessidades, do combate às políticas devassadoras do governo vigente,  e do seu desejo de lutar, dia após dia, para que o povo brasileiro possa reconquistar sua dignidade, e volte a ter acesso amplo à educação, ao emprego, ao bem-estar e à serenidade de viver. 


Pelo canal da TVT assisti à expectativa do povo, à espera que Lula saísse da sede da Polícia Federal em Curitiba. Era emocionante ver a ansiedade dos seus familiares, amigos e correligionários políticos. Quando ele apareceu, muito elegante e tranquilo, o vimos pouco tempo na tela. A impressão que me deu era que ele estivesse voltando de uma longa viagem, durante a qual apenas pôde dar entrevistas aos jornais e TVs do mundo, mas era privado do que lhe era mais caro: a proximidade do povo.

Seu primeiro gesto foi agradecer às dezenas de pessoas que estiveram acampadas nas proximidades da sede da Polícia Federal de Curitiba, durante todo o período em que ele esteve preso.

No dia seguinte, junto aos  sindicalistas de São Bernardo do Campo, em São Paulo, Lula teve o seu primeiro momento com uma multidão certamente maior da que o viu sair para a prisão, em 7 de abril de 2018. Além dos que seguiam o seu discurso pelos canais de TVs independentes, centenas de pessoas o recebiam no Sindicato dos Metalúrgicos de de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Ali, Lula não falava mais sozinho, e nem mesmo em nome do seu partido. Bastava observar os que lhe estavam ao redor.

Além de Fernando Haddad/PT e Boulos/PSOL, estavam presentes várias mulheres combatentes na Câmara Federal, como Benedita da Silva e Gleisi Hoffman, do PT, Luciana Siqueira e Jandira Feghali, do PCdoB. Esta última, atual líder da minoria na Câmara Federal. Várias vezes o presidente se dirigiu ao deputado federal do PSOL/RJ, Marcelo Ribeiro Freixo, e a outros políticos e sindicalistas presentes, todos eles saudados com efusão pelo ex-presidente. Entre os presentes, os mais aplaudidos pela multidão foram Fernando Haddad e Boulos, ex-candidatos à Presidência da República nas eleições passadas, além da deputada Gleisi Hoffman, presidente do PT, que fez a abertura do evento.

A fala de Lula depois de denunciar que os seus acusadores estavam mentindo – trouxe à cena política pontos importantes, que certamente voltarão nas eleições legislativas de 2020. “Estou com mais coragem de lutar do que eu lutava antes”, ele afirmou. Ainda lembrou as diferentes lutas em cada país da América Latina, com suas crises e avanços, conclamando os jovens a saíres às ruas para reivindicar emprego, educação de qualidade, lazer e justiça social, afirmando que “o povo brasileiro ficou mais pobre”.

O evento durou cerca de uma hora e meia. Algumas frases de Lula foram incisivas, e anunciavam sua visão atual sobre as políticas de oposição no Brasil de hoje.  Conclamando o povo à mobilização Lula enfatizou: “Não tem ninguém que conserte esse país se vocês não quiserem consertar” – a multidão o aplaudiu demoradamente.  E esclareceu: “Um povo como vocês não depende de uma só pessoa, mas de um coletivo”.

Uma passagem elucidativa do discurso, aconteceu após a reação das pessoas quando Lula afirmou que “esse país não merece o governo que tem”. Chegaram aos seus ouvidos alguns xingamentos contra Bolsonaro, vindos da multidão. Ao que ele calmamente retrucou: “Isso não. Não precisamos dizer palavrões contra Bolsonaro, ele já é um palavrão!” E completou: “O que nós temos que fazer é não permitir que eles destruam o nosso país!” 
         
Em outra ocasião, Lula afirmou: “Eu saio daqui sem ódio. Aos 74 anos meu coração só tem espaço para o amor, porque é o amor que vai vencer neste país!”  Por fim, convocou os deputados e senadores de oposição a serem uma presença mais proativa no Congresso, lembrando que “a luta é todo dia, todo dia!”.

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Créditos das Imagens:

1. Saída de Lula nos braços do povo, após pronunciamento em São Brnardo do Campo/SP - reprodução:  https://www.cartacapital.com.br/politica/discurso-de-lula-em-sao-bernardo-e-anuncio-de-virada-para-a-esquerda/


Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 


PRÊMIO DA PAZ ALEMÃO AO FOTÓGRAFO SEBASTIÃO SALGADO

24 de outubro de 2019













Sebastião Salgado é um dos maiores nomes da arte da expressão imagética do nosso tempo. Com o manejo articulado das lentes de sua máquina fotográfica, ele nos traz as histórias que observa de perto, com as quais se emociona e se identifica. É um fotógrafo jornalista, pois torna-se parceiro da realidade que fotografa, levando-a ao mundo, trazendo-a até nós, exercendo o seu papel político do mais mais alto nível, de cidadão que almeja o bem-comum. Suas imagens são expressões do seu olhar transparente, marcadas pelo compromisso ativo e inarredável desse brasileiro destemido, conhecedor da nossa história de lutas.  O mundo culto, comprometido com a Paz, a Vida e a Fraternização, nos aplaude, a nós brasileiros, homenageando as lentes do grande Sebastião Salgado e as letras do poeta maior Chico Buarque. Neste ano,  ambos foram agraciados com dois prêmios de excelência, que orgulham e engrandecem o nosso povo. 

Nesses dias, celebramos o Prêmio da Paz, que homenageia Sebastião Salgado. Em 28,08,2019, o jornal "El País" comenta a exposição realizada pelo fotóografo, com o título "Amazônia": 
                                          
"Esta série de imagens faz parte de Amazônia, o novo (e talvez último) projeto do fotógrafo Sebastião Salgado. Depois de seus trabalhos sobre as migrações e a natureza, Êxodos e Gêneses, o brasileiro volta às imagens antropológicas, convertidas no grito de um povo que teme por seu futuro. Os korubo vivem isolados em um mundo hiperconectado. Formam uma das etnias amazônicas do Brasil com menos contato com os não indígenas. Um aspecto que os converteu em mais vulneráveis aos ataques de madeireiros e garimpeiros, as doenças e o avanço imparável do homem na selva".

"Seus olhares fincados na câmera são a quebra de um silêncio. Os korubo, uma das etnias da Amazônia brasileira com menos contato com pessoas não indígenas, posam em grupo, em casal, trabalhando ou cortando os cabelos. Este projeto de Salgado (Aimorés, 1944) soma mais um capítulo à história de amor do fotógrafo com a região e as culturas em risco de desaparecimento, um dos eixos principais de seu trabalho. Em 2017, durante 20 dias, o artista conviveu com esta aldeia, uma das populações mais isoladas do mundo. E converteu o Vale do Javari, a segunda maior Terra Indígena do Brasil, em um estudo fotográfico".


"Amazônia sofre com política criminosa do presidente"


Sebastião Salgado recebe Prêmio da Paz, o dedica às vítimas que retratou e critica Bolsonaro, em fala de agradecimento. 

"Os povos indígenas vivem com medo. A agricultura industrial destrói cada vez mais a floresta"



Brasileiro se torna primeiro fotógrafo a ganhar um dos
 mais prestigiosos prêmios literários alemães.
Bonn (Alemanha)
21 de out de 2019 Parte superior do formulário

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que recebeu o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão no domingo 20/10, dedicou a sua conquista a todas as vítimas das tragédias que fotografou e aproveitou o discurso para novamente criticar o presidente Jair Bolsonaro.
O Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão é uma das mais importantes distinções literárias do país, premiando escritores, filósofos e cientistas desde 1950. Esta é a primeira vez que um fotógrafo recebe a homenagem, dotada com um prêmio em dinheiro de 25 mil euros (quase 115 mil reais). A cerimônia de premiação é realizada tradicionalmente no último dia da Feira do Livro de Frankfurt.
"Suas fotos desarmam, elas promovem conexão, proximidade e empatia", disse o cineasta Wim Wenders em seu discurso de homenagem ao brasileiro, acrescentando que elas são "uma obra da paz". O alemão dirigiu o documentário O sal da terra, sobre a vida e o trabalho de Salgado, que concorreu ao Oscar em 2015.
"Ele fotografa pessoas em todo o mundo forçadas a enfrentar fome, guerra e opressão, a deixarem seus lares e realizarem uma jornada ao desconhecido", ressaltou o diretor, afirmando que, assim, ele prova ser um "vidente, cuja câmera nos mostra profeticamente a perda de outros fundamentos da paz".
Em sua fala de agradecimento, Sebastião Salgado classificou sua obra como um "ensaio fotográfico", que ele começou há 50 anos e que ainda continua a complementar. "Quero compartilhar este prêmio com todos que permitiram que eu os fotografasse para que as suas tragédias fossem conhecidas pelo mundo", declarou o brasileiro.

    Sebastião Salgado - A remota aldeia dos AWA, na Amazônia. Reprodução do El País.

Ao longo do discurso, Salgado contou um pouco da trajetória que o levou a muitas partes do mundo para documentar situações extremas e depois a diversos paraísos naturais, o que fez para se recuperar do desespero após ter trabalhado como fotógrafo no genocídio de Ruanda. "Esse genocídio poderia ter sido evitado se a Europa e a ONU tivessem interferido. Todo mundo sabia o que estava acontecendo e ninguém fez nada", denunciou.
Ao falar sobre as viagens à Amazônia, Salgado voltou a criticar Bolsonaro pelas políticas relacionadas aos povos indígenas e ao meio ambiente. "A Amazônia está nas notícias agora pela política criminosa do presidente brasileiro. Os povos indígenas vivem com medo. A agricultura industrial destrói cada vez mais a floresta", analisou.
Apesar de todas as situações críticas que já presenciou, Sebastião Salgado disse que continua tendo certa esperança porque "o futuro do planeta está nas nossas mãos".
"Não podemos negar o dano que podemos fazer, pois o ser humano pode ser um lobo para o homem. Mas o futuro do planeta está nas nossas mãos", argumentou.



   AFP/D.Rolling
De acordo com o prestigiado fotógrafo, o prêmio recebido neste domingo reconhece um trabalho desenvolvido durante quase 50 anos e toda a sua vida. "Corrijo-me, a nossa vida. A de Lélia (Wanick Salgado, mulher do fotógrafo) e eu. Tudo o que fiz não teria sido possível sem Lélia. Ela me levou à fotografia, ela editou os meus livros, ela me devolveu a esperança e salvou a minha vida quando voltei de Ruanda", comentou.
Entre outras personalidades distinguidas com o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão estão Margaret Atwood (2018), Susan Sontag (2003), Václav Havel (1989). Albert Schweitzer (1951), Hermann Hesse (1955), Astrid Lindgren (1978), Siegfried Lenz (1988), Mario Vargas Llosa (1996), Martin Walser (1998), Jürgen Habermas (2001), Orhan Pamuk (2005) e David Grossman (2010).
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Fonte dos textos:

Do Jornal El País, em 28 de agosto de 1918:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/10/eps/1533894534_470404.html

Do Portal Operamundi, em 21 de outubro de 2019:
https://operamundi.uol.com.br/meio-ambiente/61111/amazonia-sofre-com-politica-criminosa-do-presidente
Crédito das Imagens:

1 - Fotografia de Sebastião Salgado - www.elpais_noticia_relacionada_jpg
2 - Capa Livro Revela-te, sobre Chico Buarque - www.resenhando,com.jpg
3 - Prêmio - Sebastião Salgado Agradece Prêmio recebido. AFP.D.Roland
4 - Amazônia - www.elpaís.noticia_relacionada.jpg - A remota Aldeia dos AWÁ.
5 - Amazônia - fotografia de Sebastião Salgado - 
https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/sebastiao-salgado-photography-brazil-amazon-jungle-javari-valley-699825/

Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 





CHICO BUARQUE - CONTINUAMOS EM FESTA, PÁ!

19 de outubro de 2019



A REAÇÃO DO ESCRITOR MIA COUTO 

PRÊMIO CAMÕES EM 2013

No início desse mês de outubro, em meio aos preciosos aplausos no Brasil, em toda a América Latina e em vários países de além-mar, um fato extremamente dissonante tentou ferir a nossa alegria da nomeação de Chico Buarque para receber o Prêmio Camões-2019. 

Na sua rançosa ignorância, o presidente brasileiro – que vem nos envergonhando por muitas outras relevantes razões mundo afora – deu a entender à imprensa que negaria a sua assinatura no diploma de concessão do Prêmio Camões a Chico Buarque.



Ao tomar conhecimento desse fato, Chico Buarque – com a sua característica perspicácia política e a dignidade que nele há muito conhecemos – comentou a notícia na sua conta oficial do Instagram, dizendo que a não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo Prêmio Camões”.
O Portal Mundo Lusíada publicou que,  quando Chico foi anunciado vencedor do Prêmio Camões 2019, por unanimidade, em 21 de maio deste ano, na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, o presidente português Marcelo Rebelo de Souza, postou uma nota no portal da Presidência da República, “reconhecendo o romancista de ‘Estorvo’ e ‘Budapeste’, o dramaturgo e argumentista, mas também o extraordinário escritor de canções”.  

Ainda na internet, o estadista português – de acordo com o portal Mundo
 Lusíada – considerou que, ao premiar Chico Buarque, o júri do Prêmio Camões “reconheceu, naturalmente, também o extraordinário escritor de canções, um dos maiores da língua portuguesa”. E finaliza:  “Premiar ‘letristas’ pode ser sujeito a discussão, mas premiar Chico Buarque só pode ser unânime, porque, tal como Bob Dylan, para a língua inglesa, (a quem fora atribuído o Nobel da Literatura) as canções de Chico traduzem um profundo conhecimento da tradição poética e um alargamento das fronteiras da linguagem musicada, trazendo um grau de sofisticação inédito à música que se diz, e bem, popular”. 
Por sua vez, o primeiro-ministro português, António Costa, escreveu no Twitter: “Saiba que estamos em festa, pá”, e fala de Chico Buarque como o poeta de sambas e canções que os portugueses sabem de cor, “romancista que reserva à linguagem a sua maior atenção”. E finaliza: “Junto-me à alegria de ver Chico Buarque ganhar o Prêmio Camões 2019”.  

Recentemente, de acordo com a redação do Mundo Lusíada, o Ministério da Cultura de Portugal garantiu que “a cerimônia de entrega do Prêmio Camões a Chico Buarque realizar-se-á em Portugal, conforme ditam as regras”. Apesar de ainda não definida, a concessão oficial do prêmio estaria prevista “para abril 2020, na sequência do desejo manifestado pelo músico de o receber nessa altura”. 
O grande escritor e poeta moçambicano Mia Couto, tão conhecido e admirado no Brasil – e que em 2013 recebeu o prêmio Camões – conta-nos, na reportagem que reportamos abaixo, o que lhe inspira o comentário do inexpressivo  presidente do Brasil.
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Mia Couto vai encabeçar ação contra posição de Bolsonaro face ao
Prêmio Camões a Chico Buarque



Por: Redação “Mundo Lusíada” - 11/10/2019
O escritor moçambicano Mia Couto afirmou, no dia 10 de outubro, que já solicitou a lista dos vencedores mais recentes do Prêmio Camões, para convidá-los a tomarem uma posição conjunta contra a indicação do atual presidente brasileiro de que poderá não assinar o diploma do prêmio anunciado este ano para Chico Buarque.
Em entrevista à Lusa, o escritor moçambicano vencedor do Prêmio Camões em 2013 e muito querido entre os brasileiros disse que mal tomou conhecimento das declarações de Jair Bolsonaro, foi imediatamente “assaltado pela vontade de tomar uma atitude”.
Na quarta-feira, o Presidente brasileiro deu a entender que não assinará o diploma do Prêmio Camões concedido ao compositor e escritor Chico Buarque, afirmando aos jornalistas que assinaria “até 31 de dezembro de 2026”, data que remete para o final de um segundo mandato presidencial, caso fosse reeleito em 2022.

Em resposta, Chico Buarque, defensor da política petista do ex-presidente Lula da Silva, afirmou que uma eventual não assinatura de Bolsonaro do diploma era para ele “um segundo Prêmio Camões”.
Comentando o sucedido, Mia Couto começou por “saudar” a resposta do músico e escritor, considerando-a “genial”, afirmando de seguida a sua intenção de contactar os “colegas que foram Prêmio Camões” para fazerem uma “declaração conjunta contra a imbecilidade desse tipo de atitude”.
“Soube hoje [desse episódio], e a minha ideia é – como eu não posso fazer isso sozinho – pedir ao secretariado do Prêmio Camões que me dê os contatos das pessoas de maneira que a gente tenha uma postura conjunta”.
A justificação do escritor é não só a “ligação muito particular” que tem com Chico Buarque, mas sobretudo o sentir que “é o Prêmio Camões que está a ser agredido, a liberdade de criar”.
“Ficarmos calados seria uma coisa inaceitável, por isso vou telefonar a saber se o secretariado do Prêmio Camões me pode ajudar a contactar, e fazermos um manifesto conjunto contra isso”, reiterou.
A este propósito, Mia Couto lamentou a situação política e cultural vivida atualmente no Brasil, país de onde regressou recentemente e onde foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília.
“Eu venho do Brasil e venho muito preocupado com essa subida de tom do lado autoritário da censura, a maneira como os livros estão a ser retirados das escolas, uma coisa completamente antiética. Não é só o Bolsonaro, estava ali um Brasil fabricado pelas Igrejas evangélicas, de que não dávamos conta”, afirmou à Lusa.
Como exemplo, contou a história de uma escola que visitou, em que “os pais mandaram retirar um livro infantil do Jorge Amado, porque tinha uma ilustração em que aparecia uma vaca e se viam as tetas da vaca”.
“A gente pode pensar que é o Jorge Amado, que querem agredir o Jorge Amado, mas não. É uma coisa tão idiota que não tem limite”, considerou, acrescentando: “É assustador porque apela a coisas tão primárias, tão fora daquilo que a gente pensa, que já passamos essa página”.
-----------------------------------------------------------------------------------------Fontes das informações:

Ver também:
Crédito das Imagens:

1. Chico Buarque é visto em 220 imagens na fotobiografia 'Revela-te, Chico' — Foto: Leo Aversa / Divulgação  
 2 - Chico Buarque em 1972 no traço do pintor Di Cavalcanti — Foto: Di Cavalcanti / Reprodução do livro 'Revela-te, Chico' - 
In: www.diariodocentrodomundo.com.br.jpg

3. Imagem Chico Buarque - www.metro1.br-noticias-cultura-73823.jpg

4. Imagem Mia Couto - reproduzida da reportagem do portal Mundo Lusíada.



Nota: As imagens aqui postadas pertencem aos respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução neste espaço, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. 





SOLIDARIEDADE - ÁGAPE, COMPROMISSO E FRATERNIZAÇÃO

4 de outubro de 2019




É sempre bom recordar princípios básicos da convivência humana, cujas raízes permeiam a história da espiritualidade e das religiões em diferentes épocas. A história da humanidade viu surgir grandes mestres espirituais em diferentes contextos das  sociedades civilizadas. Seu ápice, para nós que vivemos no Ocidente, foi a presença de um judeu conhecido como o filho de Maria de Nazaré e do carpinteiro José. Aos 30 anos, ele, que se chamava Jesus, iniciou sua vida pública e - com os seus atos, suas palavras e uma vida adulta perseguida pelos legalistas da época - deixou um preciosíssimo legado aos seus seguidores. Esses, conseguiram organizar-se e expandir a sua mensagem até os nossos tempos, marcando o início de uma nova era de solidariedade, compaixão e abertura para o outro - os mais próximos de nós e, especialmente, os excluídos sociais, os que sofrem vários tipos de violência social, enfim, as pessoas mais vulneráveis da sociedade humana. 

Foi especialmente no Ocidente que se expandiram as comunidades cristãs. Hoje, numa sociedade ligada por inúmeros recursos de comunicação e de presença nas comunidades humanas, o cristianismo se expande ao lado de outras correntes de fé e de espiritualidade que também adotam princípios de fraternização e de acolhimento, de perdão e de misericórdia, e de amor pelos últimos - os sem pátria, sem teto, sem terra, sem um salário decente para sobreviver com sua família, nos tempos atuais. 

São inúmeros os movimentos mundiais de variadas espiritualidades e expressões religiosas, que acreditam no amor para sanar as feridas sociais nas suas específicas culturas. O mundo é rico de experiências, filosofias e espiritualidades que se irmanam com a fé cristã. O diferencial, entre todas elas, será a sua prática efetiva de acolhimento e compaixão, e de uma fraternização que não pode deixar de mover-se nas esferas da política e da justiça social.   

Reproduzimos hoje, neste espaço, um artigo de Magali Cunha que nos fala da espiritualidade cristã, convidando os leitores a repensar suas atitudes na sociedade em que vivem.

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Só o amor inclusivo poderá  
curar e salvar a 
sociedade adoecida



MAGALI CUNHA
Carta Capital - diálogos da fé
02 de outubro de 2019


É Jesus quem  sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições.

No final da tarde da sexta-feira, 27 de setembro, aos sete dias da morte da menina Ágatha Félix em ação do Estado no Complexo do Alemão, foi realizado um ato religioso, em frente à sede do governo do Estado do Rio. Ali, pessoas de diferentes confissões de fé clamaram por paz e justiça para as famílias das cinco crianças assassinadas em intervenções violentas da polícia, em favelas do Rio, somente em 2019, e por aquelas que residem nessas áreas, inseguras.
Durante o ato, permeado por falas proféticas de denúncia, consolo e anúncio de esperança, e por orações em prol da paz com justiça, um ou outro que passava em automóveis gritava da janela: “Vão trabalhar”, “Vagabundos!”.
Os gritos gratuitos de ofensa me fizeram pensar na incapacidade que muitos de nossos iguais estão desenvolvendo de amar e de demonstrar amor. E isto aconteceu nos dias em que outra menina, a sueca Greta Thunberg, líder de uma nobre causa em defesa do meio ambiente, foi ofendida publicamente por homens bárbaros ressentidos.
Nossa sociedade adoeceu. Os últimos anos marcados no espaço público por competição, por polarização, pela disseminação de mentiras e calúnias contra desafetos e pela incitação à violência da parte de governantes, fizeram sair do esgoto da vida uma legião de pessoas inumanas: sem misericórdia, sem solidariedade, sem amor.
Falo do amor, não de mães e pais por seus filhos e vice-versa, não aquele entre irmãos e irmãs que afeta amigos e amigas, ou o que une pessoas e formam casais. Falo do amor que permeia (ou deveria) as relações entre seres humanos, e que no Cristianismo, é estimulado pela Lei do Amor.
Esta Lei vem de preceitos antigos da tradição judaica, alimento da fé cristã, dos chamados Dez Mandamentos e seus desdobramentos expostos nos Livros da Lei (a Torá). A base está no Deuteronômio 6.5, que diz: “Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, e no Levítico 19.18, que expressa: “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Jesus reafirma esta tradição e desafia seus seguidores a imitá-lo: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. O termo grego para “amor” nestas palavras é "agapao", o verbo amar que está relacionado ao substantivo ágape, amor. Agapao, a que Jesus se refere, é amar ou expressar amor ao que está próximo, ao compatriota, ao companheiro, ou simplesmente o Outro.
Quando Jesus recupera a Lei de Deus, ele impõe uma novidade, porque enfatiza a relação com o Outro – o sentido amplo do amor que aqueles que dizem amar Deus devem ter. É a oposição a uma tendência religiosa que emergiu na história e acabou restringindo, limitando o amor àquele que está próximo, ao compatriota da terra e aos estrangeiros que habitavam a terra (não os de fora). Jesus, então, abriu, ampliou essa compreensão, e retomou o sentido do amor dos preceitos antigos, dirigido ao Outro, de forma.

Um forte exemplo disto está na narrativa em que Jesus reafirma que façamos aos outros aquilo que desejamos que os outros nos façam (a Regra de Ouro, Mateus 7.12). Por isso ele contou a história do samaritano justo, o homem do povo considerado inferior, que prestou solidariedade a um cidadão judeu, que estava ferido na estrada, depois de assaltado (um inimigo, de acordo com aquela cultura), e já tinha sido abandonado por dois líderes religiosos do seu povo.
A história foi contada em resposta à pergunta de um Doutor da Lei sobre quem vem ser o Outro, o próximo. O líder parecia esperar confirmação do que já sabia: segundo a sua tradição religiosa, o próximo era o compatriota e o que cumpria as leis, o “cidadão de bem”. Entretanto, Jesus contou a história e respondeu com uma outra pergunta: quem foi o próximo do judeu ferido na estrada? A resposta não poderia ter sido outra da parte do Doutor da lei: “aquele que usou de compaixão para com ele”.
O Doutor da Lei teve que reconhecer que aquele tido como “não-cumpridor das leis”, o estrangeiro considerado impuro e inimigo, foi o próximo do judeu ferido e não os seus iguais. Ou, poderíamos dizer, o estrangeiro, impuro e inimigo, o samaritano, foi aquele que mostrou amor.
Quem ama só os amigos não faz nada de excepcional. Jesus, porém, sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições, “como se não houvesse amanhã”… O amor da reconciliação, que rompe com as restrições das leis e das culturas para que se faça o que é bom e justo.

Este é o amor relacional, o Dom Maior da Vida que, como registrado na Bíblia, torna as pessoas pacientes, bondosas, sem ciúmes (controle do outro), não arrogantes, não desagradáveis, não egoístas, não grosseiras, sem ressentimento e rancor, incomodadas com a injustiça, a mentira e a calúnia, esperançadas (1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13).
Esta Lei do Amor, sepultada até mesmo por alguns líderes que se apresentam como seguidores de Jesus mas, na prática, são cristãos fake, cheios de ódio, arrogância e cúmplices da morte, pode ser recuperada e revitalizada. Sim, a sociedade doente pode ser curada.
Basta que cada um se mantenha na sua condição humana,  desafie toda orientação que restrinja a expressão do amor apenas àqueles que estão perto de nós, que são como nós, que nos fazem sentir bem. Abrir-se ao amor inclusivo, amplo, com todos os compromissos e as dificuldades que ele requer de nós ao nos colocarmos no lugar do Outro.
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Créditos das Imagens:

2. Monges budistas e o compositor Philippe Leduc - www.bodisatva.com.br/
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3. Compaixão fraterna - www.youtube.com.br.jpg
4. Escuta amorosa - www.canstockphoto.com.br


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