Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

IVONE GEBARA — UM CONVITE À TOMADA DE ATITUDES FEMINISTAS E A SOLIDARIEDADE À DOR DAS MULHERES

19 de agosto de 2017

Recentemente publicamos um texto divulgado via WhatsApp, de autoria de Ivone Gebara,  teóloga, filósofa e escritora feminista, reconhecida em vários países para além das fronteiras abaixo do Equador.

Foi uma das postagens mais lidas neste espaço este ano. Assim, para responder ao interesse demonstrado pelos leitores, de conhecer o que pensa esta insigne brasileira, reportamos uma entrevista que expressa aspectos importante da sua visão feminista. 

Para os que ainda não a conhecem, Ivone Gebara passou muitos anos convivendo com populações indigentes, quando era professora do Iter - Instituto de Teologia do Recife,  fundado com o apoio de Dom Hélder Câmara e com o suporte indispensável do sacerdote e sociólogo Humberto Plumen, coadjuvado pelos teólogos Sebastião Armando, Marcelo Augusto e Luís Carlos de Araújo. A entrevista foi realizada em março passado, por Amanda Massuela, da revista Cult, e publicada no portal de Carta Capital. Segue abaixo. Os grifos negritos são nossos.


A filósofa e teóloga Ivone Gebara é uma voz dissonante na Igreja Católica. Aos 72 anos, 50 deles dedicados à vida eclesiástica, ela trabalha para que mulheres deixem de ser exploradas pela religião.

Ivone Gebara está acostumada a incomodar. Incomodou os pais quando se juntou a uma Congregação religiosa aos 22 anos. Incomodou o Vaticano quando se manifestou a favor do aborto em uma revista de circulação nacional e incomoda a Igreja todos os dias, há cinquenta anos, ao questionar as verdades absolutas do catolicismo. Aos 72 anos, a filósofa da religião e teóloga feminista quer plantar dúvidas na cabeça dos fiéis, especialmente das mulheres. Quer explicar para confundir, quer tirá-las da espiral de dominação masculina que ainda impera em muitas igrejas.

“Tento ajudá-las a se ligar de maneira horizontal com a religião. É uma tarefa árdua, mas necessária”, afirma. Autora de mais de trinta livros publicados – entre eles Teologia Ecofeminista: ensaio para repensar o conhecimento e a religião (1997) e Rompendo o Silêncio: uma fenomenologia feminista do mal (2000) –, Ivone é doutora em Filosofia pela PUC-SP e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Lovaine, na Bélgica.

De volta a São Paulo depois de trinta anos morando no Recife, ela usa seus dias para escrever, participar de conferências, palestras e conversas com grupos de periferia. Quando encontrou a reportagem da CULT, estava prestes a embarcar em uma viagem ao México, onde falou sobre a genealogia da violência contra a mulher em um simpósio. “Quem me convida é porque quer me escutar”, diz Ivone, com a consciência de que as tentativas de silenciá-la são maiores que os espaços concedidos de bom grado.

“Seria muito bom se me oferecessem um púlpito em que eu pudesse fazer uma pregação feminista todos os domingos, mas nós temos pouquíssimo espaço público”, afirma. Ivone sabe das ambiguidades de suas escolhas, e vive em constante conflito por isso, mas está certa de que seguiu o caminho mais livre e transgressor possível ao se decidir pela vida religiosa.

CULTPor que a vida dentro de um convento lhe pareceu mais livre do que fora?

Ivone Gebara – Porque de repente me vi acolhida em minha busca intelectual. Acho que sou marcada por um desejo de conhecimento, de me aproximar de mundos e histórias diferentes, e o convento me abriu para essas possibilidades. Me lembro que queria fazer um curso de especialização em Filosofia na USP, ainda no tempo da rua Maria Antônia, e não me fizeram objeção alguma. O curso era à noite, me deram as chaves e eu me senti como nunca havia me sentido na vida, andando pela rua com um monte de estudantes, conversando depois das aulas. Jamais teria feito isso se vivesse com meus pais.

Algumas das minhas professoras na faculdade de Filosofia – que depois seriam as freiras da minha Congregação – manifestavam uma liberdade de mulher que apareceu antes do feminismo para mim. Eu achava legal como elas se movimentavam no mundo universitário e também no mundo popular, já que mantinham muitos trabalhos nas periferias. Essa aliança entre pensamento e ação me impressionou.

Então entrei na Congregação e de certa forma traí as expectativas da minha família, que esperava que eu me casasse e tivesse filhos. Era um mal-estar que eu estava provocando neles, fugindo à regra dessa maneira. As pessoas se perguntavam como eu podia negar essa razão de ser do feminino, essa naturalidade da mulher. Pode não parecer, mas o caminho que escolhi foi transgressor no passado. E ele me marcou de maneira que todo pensamento que parecia transgredir alguma ordem me atraía. Mas sei que para outras pessoas essa escolha foi escravizante, foi um delírio. Paradoxalmente, eu tive uma experiência diferente.

CULT - Quando encontrou o feminismo?

Ivone Gebara - Na década de 1980. Muita coisa aconteceu. Eu nunca tinha prestado atenção na questão de gênero, mas algumas agulhadas me foram dadas. A primeira foi quando me interessei por literatura teológica feminista. Alguns textos me ajudaram a perceber como a figura do pai religioso, o “Deus Pai Todo-Poderoso”, é cúmplice de várias formas de totalitarismo e de opressão sobretudo de marginalizados e de mulheres. Quando li, me assustei, mas senti fome daquela literatura. Como se ela me abrisse para coisas absolutamente impressionantes.
Outra agulhada veio dos movimentos populares. Vivi por mais de trinta anos no Recife, e mensalmente ia até uma cidadezinha chamada Cabo [de Santo Agostinho], onde fazia estudo teológico bíblico com alguns operários na casa de um deles. Sempre me preocupou o fato de nenhuma esposa deles participar, nem mesmo a dona da casa que servia o cafezinho. 
Num dia de domingo resolvi visitá-la e, muito timidamente, ela me disse que não participava porque eu só falava sobre “assuntos de homem”: sindicato, política, partidos, salário mínimo. “Você sabe que eu trabalho, mas não tenho carteira assinada?”, ela me disse. “Sabe que vendo cheiro-verde e coentro na feira? Sabe o que uma operária sofre com o sexo?”. Eu caí das pernas. Comecei a perceber que eu estava focada em uma problemática geral, e que a problemática geral é masculina.

Outra veio quando feministas de São Paulo me perguntaram como eu trabalhava a questão da sexualidade dentro da Teologia – eu não trabalhava de forma alguma –, e mais tarde, quando decidi fazer psicanálise e, de repente, ao contar a minha história, me descobri também mulher.

Cult - O que mudou a partir daí?

O feminismo mudou a minha relação com o mundo da religião. Percebi que o monoteísmo, em especial o cristianismo e particularmente o catolicismo são muito marcados pela figura de Deus Pai, que eles dizem ser “puro espírito”, mas que na verdade é um espírito controlado pelo masculino. Afinal as autoridades que se julgam representantes de Deus e que falam em seu nome são homens. 

Então esse personagem, Deus, passa a me incomodar, passa a ser o reflexo, a imagem e semelhança do poder masculino que governa o mundo e as consciências, sobretudo as consciências femininas.

Cult - E por que “sobretudo” as femininas?

Elas pagam, dão esmola, são exploradas e não percebem, porque é doce essa exploração. Muito me espanta que depois de tantos anos de militância feminista no mundo da religião, eu ainda me depare com tamanha sujeição das mulheres a todos esses movimentos de padres cantores, essas curas, religiões de massa. 

Me entristece porque imaginei que o feminismo religioso, ou a filosofia e a teologia feministas tivessem surtido um pouco mais de efeito. É um tanto frustrante ver como as mulheres  se dobram, se apaixonam, imploram ajuda e perdão a essas figuras que também se dizem representantes de Deus.

Basta ligar a TV em qualquer transmissão dos cultos neopentecostais e mesmo católicos, para ver que mulheres de meios populares são grande maioria. Elas saem do mundo doméstico cansativo, vão à igreja, cantam, batem palmas, algumas até dançam, e de repente encontram um pastor que diz uma palavra delicada e depois saem tomar um lanche. 

As igrejas aparecem como uma espécie de consolo, e elas pedem tanta coisa: pelos filhos, por elas mesmas, todas sonham com algum milagre. Há também uma função catártica da religião e não podemos desprezar o fato de que o capitalismo e a corrupção, na forma atual, precisam das religiões de massa em que você é uma anônima, mas ao mesmo tempo é alguém.

Cult - Os movimentos feministas conseguem chegar a essas mulheres ou ainda falham em compreender o papel que a religião tem na vida delas?

Falham. Algumas vezes, em reuniões com feministas eu disse: Vocês são críticas da religião, eu também. Mas o mundo das periferias é um mundo religioso. Se não é o catolicismo é o neopentecostalismo, o protestantismo, o candomblé, a umbanda, o espiritismo.  A cultura nacional é uma cultura de religiões múltiplas. Mas o feminismo, - sobretudo um certo feminismo crítico que absorveu as ideias de Marx, Feuerbach e Nietzsche, - desconhece os fenômenos das massas e a força da religião. 

A gente vê na televisão: o pastor enxuga o rosto com toalhinhas e muitas  mulheres correm para pegar uma, guardam esse pano, se limpam com ele como se fosse uma relíquia. É uma coisa espantosa de se ver no século 21 e que não pode ser desprezada. Mas também não pode ser tratada só do ponto de vista sociológico: eu tenho que me aproximar daquela mulher que pega a toalhinha e enxuga a cara com ela. O que ela está vivendo? Que emoções essa toalhinha provoca nela? E para isso é preciso que haja pessoas, homens e mulheres, com uma sensibilidade quase artística, poética, que percebam como nesse transfundo religioso existe outro tipo de racionalidade.

Cult - Você encontra abertura para levar a teologia feminista até essas mulheres que estão nas igrejas e não atuando nos movimentos?

Nós não temos espaços institucionais. Enquanto fui teóloga da libertação até havia algum, já que a Teologia da Libertação – embora tenha sido combatida pelo papa da época, João Paulo II – teve uma aceitação significativa no seio das autoridades da Igreja por ser bastante clerical. Mas nessa história eu sempre me senti uma minoria porque os homens ocupavam todos ou quase todos os espaços, e nós [mulheres] éramos um pouco a plateia que aplaudia e dava uma opinião de vez em quando.

Depois a coisa foi melhorando um pouco, nos abriram alguns espaços, mas, quando quisemos mais, houve conflito. Você não encontra, por exemplo, em nenhuma faculdade católica, um curso sobre teologia feminista. Há alguns anos fui convidada para encerrar um simpósio, e quatro dias antes, já com passagem comprada e texto publicado, suspenderam a minha fala por conta de forças conservadoras que atuam, sem a gente saber como – e há muitos grupos de católicos e protestantes ultraconservadores por aí. 

Seria muito bom se me oferecessem um púlpito em que eu pudesse fazer uma pregação feminista todos os domingos, mas nós temos pouquíssimo espaço público. Em geral, as mulheres do meio popular não sabem o que é teologia feminista e quem se interessa mais são mesmo os movimentos, são as filósofas.

Cult - Quais são as raízes dessas forças conservadoras que trabalham para silenciá-las? Elas são fruto de uma total ignorância em relação à produção das teólogas feministas ou são mesmo propositais?

Essa pergunta é muito importante. Não existe uma única causa, elas são múltiplas e há sempre exceções. Atribuo esse rechaço às formas históricas do monoteísmo, que têm cara masculina – dizer a palavra “Deus” já te joga para um universo de poder masculino. É possível que haja mudanças? Na estrutura atual da Igreja Católica, não. Não vão aceitar representatividade feminina. E quando digo feminina também coloco entre aspas, com a crítica de Judith Butler sobre o que é feminino e masculino. O divino que se fez na figura de Jesus era homem, macho, e qualquer tentativa de fazer outra leitura não terá efeito nenhum. Talvez em grupos específicos, mas aí não haverá uma incidência na cultura, que é o que precisaria existir.

Cult - Mesmo a Igreja tendo, nesse momento, um líder considerado progressista e até revolucionário por alguns?

Ele pode ser progressista do ponto de vista da justiça social, da crítica ao capitalismo, mas é conservador no que se refere à compreensão antropológica do ser humano, e à aceitação das reivindicações feministas na sociedade. É conservador também em assuntos de moral sexual, por mais que ele diga coisas como: “Quem sou eu para julgar um homossexual?”. Essa afirmação não prova abertura alguma, porque ele se retira do debate. 

A pergunta não é essa, a pergunta é qual tratamento vocês têm dado às mulheres que abortam, aos homossexuais, aos transexuais? 

O que vocês estão acolhendo daquilo que a sociedade humanista, se eu posso assim dizer, tem produzido? 

Eles não admitem Foucault, por exemplo, Deleuze, Zizek, Judith Butler. O papa diz que não existe uma teologia da mulher. Ele desconhece, por uma ignorância consentida, os estudos e movimentos teológicos feministas da Argentina, de onde ele mesmo veio. Ignora o feminismo como fenômeno sociocultural político e religioso, e é uma ignorância voluntária porque os jornais e revistas não escondem. 

Por que castigaram a mim e a tantas outras? 
Porque sabem que nós existimos. Então é preciso que haja pessoas que denunciem continuamente para não deixar esse poder absoluto ser absoluto. Por isso, cada vez que algum grupo de periferia me convida para falar, eu vou, porque quero ajudar a levantar alguma dúvida na cabeça das mulheres religiosas, pouco a pouco, a partir do lugar em que elas estão. 

Conheço senhoras, por exemplo, que lavam as roupas dos padres e pastores, a toalha, os paninhos, gastam sabão, energia elétrica, tempo, e não cobram nada por esse trabalho porque o abraço do padre, quando elas entregam a roupa passada, já é uma recompensa – possivelmente porque não recebem nenhum carinho em casa. Temos que continuar desconstruindo, ajudar as pessoas a pensar, ainda mais agora que tiraram filosofia do currículo escolar.

Eu tento desconstruir essa imagem de Deus e provocar as pessoas nesse sentido. É um processo dificílimo porque há séculos se repete a mesma coisa: se ele quiser, vai dar certo, se ele não quiser, não vai. Todo o meu trabalho ainda é uma espécie de beabá para ajudá-las a entender que não podemos tudo, mas que, se nos solidarizarmos uns com os outros, quem sabe não podemos alguma coisa? Tento ajudá-las a se ligar de maneira horizontal com a religião. A tarefa é árdua, mas necessária.

Cult - Você vive muitos conflitos sendo uma teóloga feminista, algo que aparentemente é tão paradoxal?

Muitos, mas esses conflitos têm me ajudado a refletir. Diante do sofrimento humano às vezes eu me calo. As inúmeras devoções das pessoas, imagens, velas, mesmo a toalhinha do pastor cheia de suor, me movem as entranhas. 

Eu gostaria de dizer, espera aí, talvez outras coisas te ajudem mais do que a toalhinha, ou do que gastar seus dez reais para comprar a imagem de um santo. Eu sinto esse conflito dentro de mim, mas percebo que o momento da dor não é concomitante ao momento da racionalidade. E então eu acolho aquilo que as pessoas dizem que precisam: um gole de água benta, deitar a cabeça sobre uma bíblia. A solidariedade àquela dor passa na frente da teoria, da análise crítica e política, mas isso não tira meus conflitos. 

Quando digo que sou católica, também estou dizendo que não sou de alguns tipos de catolicismos, mas sou de outros. Sou católica por uma tradição, mas também não sou, porque muitas vezes critico essa mesma tradição. Esse ser e não ser se misturam em mim.  

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Fonte do texto da Entrevista: https://revistacult.uol.com.br/home/uma-rebelde-no-rebanho

Créditos das Imagens:

1. Ivone Gebara no Jardim Suspenso do CCSP-São Paulo - foto de Marcus Steinmeyer para a revista Cult.
2. Capa de um Caderno de Estudos Bíblicos - reprodução.
3. Capa do livro: O que é Teologia - de Ivone Gebara - Ed. Brasiliense.
4. Capa do livro: O que é Teologia Feminista - de Ivone Gebara - idem.
5. Ivone Gebara - TV Cultura Dogitial - 2013 
6. Reprodução de imagem de campanha pelo fim da violência contra a mulher. In: Koinonia.fw2
7. Capa do livro: O que é a Saudade - Coleção Primeiros Passos - Ed. Brasiliense.
8. Capa do livro: Teologia Ecofeminista - Ed. Olho d´Água - 1997 in: https://livralivro.com.br/books/show/404133?recommender=I2I
9. Capa do livro: Rompendo o Silêncio
10. Registro fotográfico do dia do lançamento do livro: Teologia Feminista, na Fafire - 2017 - Recife-PE.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com vrblog@hotmail.com 

BRASIL - ENTRE NÓS E 2018 HÁ UM ABISMO

11 de agosto de 2017




Dada a importância das informações de uma entrevista recentemente publicada no Portal Sul21, com o Professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG, Juarez Guimarães,  especialista em cultura política brasileira e em teoria política contemporânea  reproduzo  aqui questões e informações que me pareceram importantes enfatizar para os leitores do Espaço Poese

O entrevistado é autor de livros e ensaios sobre Maxismo, Democracia e sobre as raízes da corrupção no Brasil. 

Os negritos no texto são nossos.




Se não enfrentarmos a possibilidade do abismo                                                     corremos o risco de ser tragados por ele”. 


Por: Marco Weissheimer – Sul21


Sul21: Diante de uma conjuntura extremamente instável, que muda rapidamente, qual a sua avaliação sobre a situação política que o Brasil está vivendo? 

Juarez GuimarãesEstou trabalhando com a ideia de uma contrarrevolução neoliberal, que dialoga com elaborações que estão sendo feitas pela ciência política brasileira. A ciência política brasileira, majoritariamente, se posicionou, através da Associação Brasileira de Ciência Política e da Associação Latino-americana de Ciência Política (Alacip), caracterizando o que aconteceu no Brasil como um golpe. O cientista político sênior do Brasil, Wanderley Guilherme dos Santos, escreveu o livro “A democracia impedida. O Brasil no século XXI(FGV Editora), cujo título deve ser bem entendido.
A “democracia impedida” contém a denúncia do que ele chama de golpe parlamentar, que é uma figura nova na ciência política. Em regimes democráticos representativos, forças políticas utilizam-se de aparatos previstos na Constituição, reinterpretando-os de forma ilegítima, forçando o sentido previsto na Carta Constitucional para promover um golpe parlamentar. Esses golpes são ditos parlamentares, diz Wanderley Guilherme dos Santos, porque os atores são parlamentares que necessitam de uma cobertura de legitimação do Judiciário. Eles são, por natureza, instáveis, e carecem de legitimidade, razão pela qual procuram a via antidemocrática.
O autor acrescentou o subtítulo “O Brasil no século XXI” por entender que esse golpe parlamentar não é um ser estranho na atual conjuntura das democracias ocidentais, embora ele não queira fazer, do que ocorreu no Brasil, um paradigma. Está apenas chamando a atenção para o fato de que existe uma crise das democracias ocidentais e que fenômenos semelhantes, de captura da soberania popular e de um encaminhamento antidemocrático das instituições, a partir de seu próprio interior, encontra alguma tipicidade hoje, no funcionamento dessas democracias. 



Wanderley Guilherme dos Santos  revisita Karl Polanyi, recuperando a oposição dramática entre democracia e capitalismo para pensar esse novo contexto. E reivindica a ideia de que as democracias representativas, tais como nós as conhecemos, são eventos recentes na história ocidental, eventos do pós-guerra, mergulhados hoje em um processo de grande tumulto e instabilidade. Trata-se de um livro muito importante e é preciso chamar a atenção sobre ele. A mídia brasileira praticamente o ignorou. O principal cientista político do país, que estuda a democracia há quase cinco décadas, escreve um livro importante como esse e ele é ignorado pela mídia brasileira.

Nós estabelecemos uma afinidade com essa interpretação e também com a interpretação do cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília, que caracteriza o que nós estamos vivendo como uma situação de exceção. Foi rompida a Constituição e estamos numa situação marcada pelo arbítrio, onde os fundamentos constitucionais de 1988 já não estão valendo. 

Nesta situação, o Executivo funciona de uma forma ilegítima, o Legislativo  funciona com uma alienação de representação, de um modo absolutamente autonomizado em relação à sociedade, e o Judiciário emite jurisprudências arbitrárias de forma sequencial. Cada caso é um caso, dependendo das conveniências e dos interesses políticos envolvidos. Luis Felipe Miguel  concordando com essa avaliação de que houve um golpe parlamentar elabora a ideia de uma crise do estado democrático brasileiro, onde os três poderes estão trabalhando em um regime de exceção. 

Nós dialogamos com esses dois conceitos – golpe parlamentar e estado de exceção – para trabalhar a ideia de uma contrarrevolução neoliberal.

Sul21Quais seriam as características desta contrarrevolução neoliberal?
Juarez Guimarães: Esse conceito parte da ideia de que, para pensar a conjuntura brasileira na sua imprevisibilidade e elevado grau de arbítrio, é preciso recorrer à história longa, ao processo inacabado e interrompido de construção de uma república democrática no Brasil e aos impasses históricos dessa construção. Ao inserirmos a narrativa do golpe de 2016 na história brasileira, não pretendemos interpretar esse golpe a partir do que ocorreu em 1964. O que queremos é identificar uma reiteração de sentido, isto é, a incapacidade das classes dominantes brasileiras de conviver com a democracia naquilo que ela tem de substantivo, como a distribuição de poder e riqueza e de alargamento de sua base social.

Revisitamos, por essa via, os clássicos de interpretação do Brasil, principalmente o livro “A Revolução Burguesa no Brasil ”, de Florestan Fernandes, que interpretou 1964 como uma revolução burguesa brasileira que conjugou capitalismo selvagem e autocracia. As classes dominantes brasileiras, muito prematuramente, viveram o dilema distributivista pela pressão das classes populares em um espaço restrito de manobra, em função de sua dependência em relação às classes dominantes internacionais. Pressionada desde baixo e com um espaço restrito de manobra, ela optou historicamente por conjugar capitalismo com autocracia e essa é a história da ditadura militar.


Sul21Na sua opinião, qual a relação que existe entre a narrativa do golpe de 2016 e a do golpe de 1964?


Juarez Guimarães: O sentido do golpe de 64 está sendo reiterado agora, com uma grande diferença. Além dessa pressão dos de baixo para conseguir um alargamento da distribuição de poder e das riquezas, e do fato de a economia brasileira ser hoje muito mais associada ao capitalismo internacional do que era em 64, temos uma mudança epocal da tradição liberal. Essa tradição liberal é responsável pela formulação dos princípios civilizatórios dominantes no mundo. 


No entanto, esses princípios, nas últimas quatro, cinco décadas, passaram por uma grande mudança em nível global. O neoliberalismo já tem uma história e já há uma literatura especializada sobre esse tema, em grande parte desconhecida pela esquerda brasileira, que estuda esse fenômeno epocal e suas consequências no sentido de desconstruir o princípio da soberania popular nas democracias ocidentais. (...)

Se estamos identificando uma época, é necessário também identificarmos as conjunturas no interior dessa época de quatro ou cinco décadas. Esse golpe no Brasil é a expressão de um terceiro período epocal do neoliberalismo. Se formos olhar sua história, o neoliberalismo teve uma proto-origem nos anos 30 e passa por um primeiro período de acumulação no pós-guerra. Ele alcançou, pela primeira vez, o governo de dois estados centrais, Estados Unidos e Inglaterra, no final dos anos 70, construindo, em nome da liberdade, uma agenda do Estado mínimo nos anos 80. Essa é a primeira fase de irrupção do neoliberalismo na vida política do Ocidente. Nos anos 90, houve então uma reação, uma tentativa do Partido Democrata, dos Estados Unidos, originário do New Deal e a favor de um keynesianismo, e também da socialdemocracia europeia. Neste processo, ocorre uma absorção da agenda do neoliberalismo tanto pelo Partido Democrata norte-americano como pelo chamado novo trabalhismo de Tony Blair. 
Aí temos um primeiro momento de fusão do Brasil com esse novo movimento, através do governo Fernando Henrique, que tentou conectar o país nessa ideia de terceira via. Essa terceira via já não era, então, algo intermediário entre o liberalismo e o socialismo, mas sim entre liberalismo e neoliberalismo. O que resultou dos anos 90 foi uma desconstituição das bases programáticas e identitárias tanto do Partido Democrata norte-americano quanto das tradições socialdemocratas europeias, inclusive do Partido Trabalhista inglês.


Entramos neste século vivendo uma terceira fase do neoliberalismo, uma fase mais predatória, onde suas dimensões antidemocráticas ficam mais evidentes.  A partir de 2008, quando as dívidas financeiras foram estatizadas a contradição entre a gestão da dívida pública e as democracias vai para o primeiro plano. Vemos, então, essa dimensão antidemocrática do neoliberalismo irromper de forma mais evidente. O golpe no Brasil se insere nesta narrativa de uma contrarrevolução neoliberal que está construindo estados constitucionais não democráticos. Não são estados militarizados, como na época da guerra fria, mas estados constitucionais não democráticos.

Sul21: Do ponto de vista do pensamento político de esquerda, quais seriam as principais implicações dessa contrarrevolução neoliberal, tanto no plano nacional como internacional?

Juarez Guimarães: Há muitas questões interpretativas sobre essa nova realidade que desafiam os marxistas. A primeira é como entender que o neoliberalismo tenha saído mais forte da crise de 2008. Muitos marxistas e outros intérpretes do neoliberalismo previram ali o fim do neoliberalismo e da globalização neoliberal. Este foi o segundo fim proclamado do neoliberalismo. O primeiro foi com a derrota dos governos conservadores de Reagan e Thatcher para alianças socialdemocratas nos anos noventa. Também aí se teorizou, de modo impressionista, que o neoliberalismo estava no fim. No entanto, ele ressurgiu com mais força. 

Como entender isso? A grande resposta a isso estaria em estudos feitos sobre a tradição neoliberal que se perguntam, no sentido gramsciano, se o neoliberalismo é apenas um evento superestrutural da política ou se ele já é expressão da constituição de uma classe capitalista transnacional. Isto é, se ele já é a expressão de uma vontade política classista que se organiza para além dos estados nacionais. (...)

A partir da crise de 2008, do acúmulo de suas vitórias e de expansão do setor financeiro, estaria ocorrendo a passagem da classe-em-si para a classe para-si. Essas classes transnacionais já estariam sendo capazes de formular um projeto de uma ordem internacional capaz de submeter estados nacionais aos paradigmas por ela formulados. Os autores se perguntam: qual o lugar dessa passagem da classe-em-si para a classe-para-si? Onde esses capitalistas estão ganhando essa consciência mundial e formulando um programa internacional de dominação? 

No Estado norte-americano, fundamentalmente, desde a época Clinton, mas também durante a era Obama, e no processo da unificação europeia. Nestes dois lugares estatais está se dando a formação dessa consciência política nova de uma classe capitalista transnacional. Eles também se perguntam pelos locais onde se organiza essa vontade política. A resposta é que isso se dá, fundamentalmente, em três lugares. 

Em primeiro lugar, na Organização Mundial do Comércio (OMC), que reúne 133 países e é o espaço onde se resolvem disputas, se produzem consensos estratégicos e se estabelecem regulações comuns. O segundo lugar seria o Fórum Econômico Mundial de Davos, onde as mil corporações mais importantes do planeta comparecem anualmente. O papel do Fórum de Davos é formular e hierarquizar as agendas políticas. E o terceiro é a Mont Pelèrin Society, organização criada em 1947 para promover valores e princípios liberais e pode ser considerada como a origem do neoliberalismo. É uma sociedade reúne, através da Atlas Economic Research Foundation, quatrocentos  think thanks, articulados internacionalmente para organizar a cobertura intelectual desse paradigma.




Sul21: Em que medida esse movimento internacional já estabeleceu raízes no Brasil também?

Juarez Guimarães: Quando estudamos o caso brasileiro e constatamos as contradições no interior da coalizão golpista, vemos que por trás de um Temer há um Maia, e que por trás do Maia há um outro e por trás desse outro há um programa que unifica todos os golpistas. 

Os golpistas estão divididos e enfrentam dificuldades para lidar com a crise de legitimidade decorrente do golpe, mas estão unificados programaticamente. 

Essa unificação programática e esse background internacional tornam possível fazer operações de reposição política como ocorreu recentemente na França. Lá, tínhamos uma direita derrotada eleitoralmente e uma socialdemocracia derrotada na sua identidade. De repente, surge um outro, que repõe o fundamento político desse programa e recompõe uma maioria parlamentar. Que milagre político é esse?

Esse milagre político só pode ser entendido a partir de uma visão integrada dessa contrarrevolução neoliberal. Estamos vivendo uma espécie de abalo sísmico civilizacional. O que está em jogo é um princípio de civilização que reorganiza os fundamentos da vida em comum. O liberalismo keynesiano expressa uma visão de sociedade que tem como referência a ideia de soberania popular e é um lugar onde se disputam e se forma os direitos dos cidadãos. É esta ideia civilizacional que está em questão com essa contrarrevolução neoliberal.

Sul21: Como vê as possibilidades de resistência e de enfrentamento desta contrarrevolução?

Juarez Guimarães: A insuficiência de consciência leva a uma desorganização da
vontade política. A direita está à frente da esquerda em função disso. Ela está mais contemporânea e mais unificada programaticamente do que a esquerda, em nível internacional. 


O que a direita brasileira fez foi se amparar neste novo paradigma internacional para, com base nele, quebrar um acúmulo sincrético da esquerda brasileira. O que resulta desta contrarrevolução neoliberal não são nem regimes estáveis no plano nacional nem uma ordem internacional estabilizada, pelo contrário. 

O que temos visto como fenômeno intrínseco a este desmantelamento dos fundamentos de pactuação das democracias ocidentais é um grau crescente de ilegitimidade e de instabilidade política no centro dessas democracias. Então, essa contrarrevolução neoliberal não gera estabilidade, mas instabilidade permanente e um processo de degradação política.

Temos que entender melhor o que significa essa erosão dos fundamentos da soberania popular. A erosão da soberania popular pode se dar através da erosão da soberania de estados nacionais com a transferência para organismos internacionais de decisões  que deveriam ser tomadas soberanamente pelos povos. 

Além disso, ataca-se os fundamentos democráticos da competição eleitoral através de um grau de financeirização inaudito das eleições. 

Hoje, por exemplo, a probabilidade de reeleição de um membro do Congresso norte-americano está em torno de 93% ou 94%. Isso significa que o sistema político já está de tal maneira oligarquizado, já se desprendeu do controle popular de uma tal maneira que ele não diz mais respeito ao cidadão comum ou diz muito pouco. Ele se reproduz no seu próprio processo de financeirização.

Junto com isso temos um processo de degradação profunda da formação da opinião pública democrática nestes países, inclusive nos Estados Unidos onde mais existiam leis anti-trustes, que proibiam a verticalização. Em 1996, houve um ato que reviu esses fundamentos de regulação e hoje a mídia norte-americana está concentrada em sete grandes empresas. Isso provoca um processo de corrupção da opinião pública. O que ocorre no Brasil em termos de concentração midiática não é uma excentricidade, mas algo que se verifica inclusive nos Estados Unidos.

Ao invés do pluralismo, o que vemos hoje é o crescimento de uma cultura do ódio e da intolerância. Os fundamentos da vida pública democrática em comum estão sendo erodidos. Isso está levando a uma situação de grande instabilidade e a fenômenos como a eleição de Trump. 

Vemos hoje também uma profunda desorganização das relações internacionais e a configuração de um contexto global onde o cenário de guerra não se tornou apenas possível, como provável. Os paradigmas de regulação estão em crise. A própria ONU está impotente. Estamos lidando com o crescimento potencial de conflitos bélicos. Isso deve fazer parte da imaginação da esquerda contemporânea. Os valores fundamentais da paz, da liberdade, dos direitos humanos, do pluralismo e da tolerância estão em questão e é por isso que falo que estamos vivendo uma crise civilizacional.

Sul21: Falando da conjuntura mais de curto prazo, a sua vinda a Porto Alegre coincidiu com o anúncio da sentença de condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro. Na sua avaliação, como esse fato impacta o atual cenário político do país? Ele provoca alguma mudança qualitativa na atual conjuntura ou é apenas mais um capítulo do processo do golpe?

Juarez Guimarães: A resposta depende da consciência que você tiver. Há quem trabalhe com a ideia de que o que está ocorrendo no Brasil é apenas um intervalo irregular de uma normalidade democrática, uma espécie de cicatriz no corpo da democracia brasileira. Seguindo essa ideia, poderíamos avaliar que a sentença de Moro, como não possui nenhuma base jurídica, certamente seria revertida na segunda instância. Mas eu penso que não é disso que se trata. 

Acho errado chamar Moro de juiz parcial. Isso é conceder muito a ele. Na verdade, é um juiz corrompido politicamente. Ele está exercendo o seu mandato de juiz de forma partidária, contra a Constituição e contra o povo brasileiro. É um juiz corrompido e deve ser assim chamado publicamente. A corrupção mora ali em Curitiba. Eu fico indignado quando as pessoas falam da “República de Curitiba”. Não há nada de República ali, mas sim o contrário. É o princípio da corrupção da República que está organizado ali.

Então, se eu achasse que o que está acontecendo fosse apenas uma cicatriz no corpo da democracia brasileira, poderia ter esperança de que esse juízo tão corrompido fosse revertido numa segunda instância. No entanto, eu penso que nós estamos vivendo um período de excepcionalidade onde a exceção é a regra. Portanto, a decisão da segunda instância dependerá da correlação de forças políticas que se estabelecer quando ela for julgar. Qualquer pensamento político que se estreitar no plano da legalidade jurídica estará cometendo um gravíssimo erro, pois nós estamos em um estado de exceção. Com o STF, tal qual está funcionando, com a Constituição tantas vezes violada como foi, qual a dificuldade em praticar mais uma violação?

O fundamento da lógica do golpe é que não deve haver mais democracia nem soberania popular no Brasil, e que a esquerda não deve mais ser competitiva em eleições. A candidatura do Lula pode ser impugnada de diferentes maneiras. Ele pode levar uma pena leve de dois anos em prisão domiciliar, com perda de direitos políticos, por exemplo. Eles podem arguir a inelegibilidade de Lula, compondo com qualquer tipo de sentença ou podem simplesmente mudar a regra eleitoral.

Nós não estamos trabalhando em um período de normalidade democrática. Se não soubermos capturar o tempo dos golpistas, eles utilizarão o tempo contra nós.

É aí que entra a questão das Diretas que foi decidida no último congresso do PT e que frequenta o discurso dos movimentos sociais brasileiros e de outros partidos como o PSOL e o PCdoB. Mas esse discurso - das Diretas - ainda não se tornou uma campanha. 
É como se a esquerda brasileira estivesse, ao mesmo tempo, denunciando o golpe, dizendo “não queremos Maia”, mas não organizando uma campanha pelas Diretas.

Alguém poderá dizer que o fato desta campanha não ter deslanchado é um limite do povo brasileiro. Eu acredito, porém, que os limites fundamentais estão no grau de consciência da esquerda. Esse grau de consciência ainda aponta: calma, ainda haverá eleições em 2018, é preciso ter um pouco de paciência, vamos aguardar e acumular para 2018. O problema é o que existe entre hoje e 2018. Nada mais desmobilizador, hoje, do que 2018, porque entre nós e 2018 há um abismo. Se não enfrentarmos a possibilidade do abismo corremos o risco de ser tragados por ele.

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Fonte do texto: https://www.sul21.com.br - Capa / Últimas Notícias / Política / ‘Não há nada mais desmobilizador hoje do que 2018. Entre nós e 2018 há um abismo’ - Publicado em: julho 16, 2017.

Juarez Guimarães é autor de: Democracia e marxismoCrítica à razão liberal (Ed. Xamã, 1998) e A esperança crítica (Ed. Scriptum, 2007). Entre outras publicações organizou:  Leituras críticas sobre Maria da Conceição Tavares (Ed. Perseu Abramo, UFMG, 2010), Raymundo Faoro e o Brasil (Ed. Perseu Abramo, 2009) e, mais recentemente: A Corrupção da Opinião Pública: uma defesa republicana da liberdade de expressão. (Editora Boitempo, 2013) escrito a quatro mãos com Ana Paola Amorim.

Créditos das Imagens:

1. Prof. Juarez Guimarães - foto durante palestra no MPSP, em janeiro - 2014
In: mpsp.mp.br
2. A Democracia Impedida - Wanderley Guilherme dos Santos - Ed. FGV, 2017.
3. Socioeconomia e Democracia - A Atualidade de Karl Polanyi - Org. Isabelle Hillenkanp - Tradução: Patrícia Reuillard e Chittoni Ramos - Ed. Escritos, 2016. 
4. Prof. Luis Felipe Miguel - Organizador de "Desigualdades e Democracia" - Editora Unesp, 2016. 
5. Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea -  Luís Felipe Miguel - Editora Unesp - 2017.
6. A Revolução Burguesa no Brasil - Estudos de Interpretação Sociológica. Florestan Fernandes - Zahar Editores (1974) e Ed. Globo (2005).
7. 1964 - A Conquista do Estado - Ação Política, Poder e Golpe de Classe - Renê Armand Dreifuss - Ed. Vozes, 1981
8. Coleção Ditadura - Elio Gaspari - Box com 5 volumes. Ed. Intrínseca - 2016 
9. Prof. Juarez Guimarães - Foto: Maia Rubim/Sul21 - 2017
10. Gramsci nos Trópicos - Estudos a partir de olhares latino-americanos. Org. por Eduardo Rebuá e outros. Ed. Multifoco, 2014
11. Prof. Juarez Guimarães - Foto: Maia Bubim/Sul21 - 2017
12. Mapa Muckety da conexão internacional dos ricos, famosos e influentes no mundo econômico - organizado por: Mont Pèlerin Society - Atlas Economic Research Foundation (publicado no artigo da Sul21 aqui reproduzido).
13. Temer e Maia - Imagem do Jornal do Brasil - autor não identificado.
14. As Encruzilhadas da Democracia - Organizadores: Luís Felipe Miguel e Flávia Biroli - Editora Zouk, 2017.
15. A Corrupção da Opinião Pública - Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim - Editora Boitempo, 2013. 
16. Capa de um exemplar da Revista "Margem Esquerda" - Ed. Boitemp, 2017
17. Luís Inácio Lula da Silva - foto in: www.pt.org.br
18. Registro fotográfico do 6º Congresso Nacional do PT - São Paulo - 2017.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com







BRASIL - A GLORIFICAÇÃO DE MAMÓN — O MERCADO

5 de agosto de 2017

Ao ouvir o discurso de Temer, — após a vitória negociada à compra/venda de votos para barrar a denúncia contra ele no legislativo  pareceu-me estar diante da fiel personificação da Maldade e da Mentira: o descaso a todos os valores éticos que faz uma pessoa aparentar-se com o Demo. 

Ele chegou a afirmar sabendo que mentia — que o resultado da votação era "uma conquista do Estado democrático de direito, da força das instituições e da própria constituição...". (i)

Diante de tão arrogante desprezo ao povo brasileiro e à sua capacidade de discernimento, lembrei do que Ivone Gebara filósofa e teóloga feminista —   escreveu, recentemente, sobre  "a vitória expressiva de Mamón".(ii) 

A reflexão de Gebara  que reporto a seguir  também se refere a um fato já divulgado neste espaço. A autora, no entanto, tem uma percepção diferenciada, atual e aguda sobre essas questões.  Tomei a liberdade de acrescentar, no texto, o sobrenome e o partido das senadoras citadas, para melhor identificação. 
Segue o texto.   
  
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A imagem usada pelo “presidente” Temer para celebrar a aprovação, pelo
Senado, da Reforma Trabalhista, foi de uma fina crueldade. 

 — Qual é a caravana que passa? 
 — E passa onde? 
 — E passa sobre quem?

Passa sobre corpos estendidos, sobre corpos famintos e sofridos que reclamam por casa, terra, trabalho e pão. A caravana passa, massacra e mata porque os cavaleiros e os cavalos estão gordos de tanto comerem a comida do povo.

Os cavaleiros armados e com armaduras são mantidos por outros de ‘corpos sutis’ que, de seus escritórios, em qualquer lugar do mundo jubilam de alegria diante da vitória expressiva de Mamón. É Mamón sua divindade suprema. Por ele sacrificam vidas que nada significam para seu culto e sua glória. 



É Mamón que governa o mundo. Os políticos do governo são títeres de Mamón. São seus servos que apenas o ajudam a engordar seus cofres, suas Bolsas, e a dominar a terra em troca de benefícios que o fogo e as traças um dia comerão. Não gozarão individualmente de seus roubos. A bendita morte os alcançará. Um AVC, um infarto fulminante, um tumor maligno, um desastre inesperado, uma diarreia incontrolável os eliminarão. 

Mas, enquanto isso não acontece imaginam-se imortais. Creem em seu poder. Corrompem-se mutuamente, para gozar num instante breve das deliciosas iguarias recebidas pela glorificação de Mamón. Já recebem seus prêmios agora, enquanto o povo “lazarento” come migalhas caídas de suas mesas. Falam de humanidade e de respeito na medida em que estas palavras lhes servem. As banalizam para aparecer como cidadãos justos e dignos. Enganam os incautos e os que já não têm mais forças para entender o que está acontecendo no país e no mundo. 

As bravas senadoras da oposição mantiveram a fibra das mulheres fortes, defensoras do povo até o fim. Sentadas à mesa da presidência do Senado, durante seis horas   além das que gritavam e apoiavam-nas de seus lugares   tudo fizeram para impedir a ‘caravana’ de passar. Último recurso, talvez, mas um recurso digno que ficará na história política do país como o grito daquelas e daqueles que não podem dobrar-se e negociar o inegociável. O inegociável é a piora das condições de vida do povo brasileiro, ou melhor, da maior parte do povo. 

Parabéns Fátima Bezerra - PT-RN, Gleise Hoffmann - PT-PR), Vanessa Grazziotin - AM-PCdoB, Regina Souza - PI-PT, Lúcia Vânia Abrão - GO-PSB, Kátia Abreu - TO-PMDB, e tantas outras, como as deputadas Luiza Erundina (SP-PSL) e Benedita da Silva (RJ-PT), que bravamente, com outros oposicionistas, gritaram por justiça expondo-se à caravana loucamente desenfreada. 

E, ainda assim, as senadoras foram acusadas por jornalistas e políticos de não agirem por força própria, mas por manipulações masculinas de fora. Incrível ousadia de querer virar o jogo desprestigiando a força das mulheres. E não só isto, foram também acusadas de perturbadoras da ordem do "honrado Senado Federal, algo nunca visto antes". Como se a mentira dos senadores fosse a ordem, e a denúncia da mentira, feita pelas mulheres, fosse a desordem.

Mais uma vez confundem o povo com seus discursos sobre a ordem, sobre a lei, sobre a necessidade de modernização, sobre um bem que querem dar ao povo. Um “bem” sem que o povo o escolha! Insistem em dizer que as leis da CLT foram inspiradas por Mussolini e escritas e aprovadas por Getúlio, um ditador. Quando lhes serve, Getúlio é santo do povo, e quando não, é ditador. Camaleões da república colorindo-se conforme seus interesses! Insensatos que não distinguem o bem comum do individualismo que os caracteriza! 


—   Para que povo governam eles? 

— Qual é a democracia que se 
sustenta fora dos apelos e das 
necessidades reais do povo?

Aqui está a chave do problema. É que imaginamos estar numa democracia, mas estamos apenas nominalmente, apenas retoricamente, apenas para encher a boca com essa palavra esvaziada de seu sentido original. Não há democracia por aqui! O que há é algo sem nome, algo confuso parecido com uma oligarquia, uma gerontocracia ou, como disseram alguns, uma 'corruptocracia'. Tudo pela e para a Bolsa, nada para os pobres!

Estamos todas e todos misturados nessa massa pegajosa sem saber como sair dela, como limpar nossas mãos e nosso corpo de sua aderência incômoda. Não temos ainda a água pura que possa nos ajudar a limpar as mãos, o corpo, as mentes e o coração. 

O ar poluído desse momento nos sufoca. Tudo está alterado e em ebulição como se estivéssemos num dilúvio de proporções nacionais e mundiais. Ainda não avistamos terra firme. Ainda não dá para mandar nossos pássaros para ver se há algum ramo verde para além do dilúvio. Mas dá para esperar que, de repente, um ramo verde possa aparecer e nutrir a esperança da reconstrução de nosso país. Dá para algumas e alguns darem-se as mãos e pensar em caminhos alternativos. 


Parabéns, bravas mulheres! Vocês nos fazem lembrar as mulheres rurais de Chipko do Himalaia,  que não tiveram outro recurso para salvar seus bosques senão abraçar-se às árvores quando estas iam ser cortadas. Vocês nos fizeram pensar nas sufragistas que expuseram seus corpos às muitas manifestações para terem o direito ao voto. Vocês nos fizeram pensar nas mulheres sem terra e sem teto que continuam lutando, nesse país, de cabeça erguida. 


Parabéns, senadoras! Vocês são o ramo verde,  ainda que apenas um broto de pequenas proporções  que nos fazem esperar e crer num Brasil onde todas e todos possam caber com dignidade. Reconhecendo nossos imites pessoais e institucionais, e dentro dessa massa pegajosa na qual todas e todos estamos, continuaremos dizendo "Não" a esta insana e corrupta “caravana”!

Parabéns a nós todas e todos que mantemos nossas lâmpadas acesas em meio à obscuridade de nosso tempo!

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Fonte do texto: Ivone Gebara – via WhattZap – 12.07.2017
Introdução atualizada em 06/07/2017.

(i) In: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/08/02/temer-agradece-a-camara-destaca-maioria-dos-votos-e-promete-mais-reformas.htm?cmpid=copiaecola

(ii)  Mamón, Mammon, Pandemonium ou Demon - denominações usadas nas histórias bíblicas cujo significado é dinheiro, riqueza e cobiça. A personificação ou a divinização de algo diabólico e impuro. Era o nome do deus fenício e sírio da riqueza. 
No Diccionario Abierto de EspañolMamóna  é uma expressão que qualifica alguém que se sente superior aos demais e gosta de castigá-los, amparado na sua presumida superioridade. In: www.significadode.org 


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Créditos das Imagens:

1. Mammon - pintura assinada, divulgada em: www.pinterest.com
2. Ivone Gebara - Foto divulgada em: www.koinonia.org.br
3. Mammon - pintura assinada, divulgada em: www.pinterest.com
4. Tenacidade - imagem ilustrativa - www.canstochphoto.com.br
5. Mammon - pintura da mesma autoria, divulgada em: www.pinterest.com
6. Muheres de Chipko, no Himalaia - www.asoutrasalmas.blogspot.com.br/
2016/04/a-era-ecologica-iii-o-abate-de-florestas.html


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com vrblog@hotmail.com

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