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NATAL EM TEMPOS DE HERODES

15 de dezembro de 2018




A  celebração  do aniversário do Menino de Belém, e do Novo Ano que se aproxima, nos convida a refletir  sobre uma realidade  semelhante aos tempos de Herodes, que - por razões de avidez, desatino e poder - promoveu a caça e a morte de todos os recém-nascidos. 

Voltamos a publicar um artigo do teólogo e escritor Leonardo Boff - publicado neste espaço em 2016. O autor nos mostra qual a aproximação das políticas de então - nos tempos do Brasil de 2016 - e do momento atual, neste dezembro de 2018 pós-eleições.  Segue o texto.

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O Natal é celebrado, geralmente, como a festa da confraternização das famílias. Para os cristãos é a celebração da divina criança que veio para assumir nossa humanidade e fazê-la melhor.

No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes, o Grande (73a.C - 4-a.C) ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, um dia ouviu que nascera em seu reino, a Judéia, um menino-rei. 

Foi quando Herodes ordenou a degolação de todos os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se, então, uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia: ”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem” (Mt 2,18).


Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas que nos têm sido impostas, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos de saúde, educação, segurança, aposentadorias e possibilidades de desenvolvimento - têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.
Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais derivadas da decisão de considerar mais importante o mercado que as pessoas.
Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos. Neste ano (2016),  são 71.440 segundo IPEA, portanto, 0,05% da população, uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status, e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para a miséria.
A miséria significa fome das crianças que morrem por subnutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.
As elites do dinheiro e do privilégio conseguiram voltar. Apoiados por parlamentares corruptos, de costas ao povo e moucos ao clamor das ruas, e por uma coligação de forças que envolve juízes justiceiros, o Ministério Público, a Polícia Militar e parte do Judiciário e da mídia corporativa, reacionária e golpista - não sem o respaldo da potência imperial interessada em nossas riquezas - forjaram a demissão da Presidenta Rousseff. O real motor do golpe é o capital financeiro, os bancos e os rentistas (não afetados pelas políticas dos ajustes fiscais).
Com razão denuncia o cientista politico Jessé Souza: “O Brasil é palco de uma disputa entre dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites” (FSP 16/4/2016).
A tristeza é constatar que todo esse processo de espoliação é consequência da velha política de conciliação dos donos do dinheiro entre si e com os governos, que vem desde o tempo da Colônia e da Independência. Lula-Dilma não conseguiram ou não souberam superar a arte finória desta minoria dominante que, a pretexto da governabilidade, busca a conciliação entre si e com os governantes, concedendo alguns benefícios ao povo, a preço de manter intocada a natureza de seu processo de acumulação de riqueza em altíssimos níveis.

O historiador José Honório Rodrigues - que estudou a fundo a conciliação de classe sempre de costas ao povo – afirma, com razão: ”a liderança nacional, em suas sucessivas gerações, foi sempre antirreformista, elitista e personalista… A arte de furtar é nobre e antiga, praticada por essas minorias e não pelo povo. O povo não rouba, é roubado… O povo é cordial, a oligarquia é cruel e sem piedade…; o grande sucesso da história do Brasil é o seu povo, e grande decepção é a sua liderança”(Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, pp. 114;119).

Estamos vivendo a repetição desta maléfica tradição, da qual jamais nos liberaremos sem o fortalecimento de um anti-poder, vindo do andar de baixo, capaz de derrubar esta clique perversa, e instaurar outro tipo de Estado com outro tipo de política republicana, onde o bem comum se sobrepõe ao bem particular e corporativo.

O Natal deste ano é um Natal sob o signo de Herodes. Não obstante, cremos que a divina criança é o Messias libertador, e a estrela é generosa para nos mostrar melhores caminhos.

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Leonardo Boff: Natal em tempos de Herodeswww.leonardoboff.com – 20.12.2016


Crédito das Imagens:

1. Maternidade - Iconografia de Keitw Mallet - Postada na linha de tempo de       Paulo Suess - dezembro, 2015
2. Detalhe Matança dos Inocentes - In: www.fazendoartedmc.blogspot.com.br/2014  
3. Brincando de roda - www.mapadebrincar.com.br
4. Menino de Rua - www.diariodonordeste.verdesmares.com.br
5. Adoração dos Pastores - Guido Reni: The Adoration of the Shepheurds
    in: www.pintings.art.pichare.com

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LULA E O MOVIMENTO PROGRESSISTA NO MUNDO

13 de dezembro de 2018


'Lula está na consciência da América Latina e da Europa', diz líder do 'Podemos'. 


Juan Carlos Monedero, cofundador do partido de esquerda espanhol "Podemos", visitou Lula em Curitiba. Segundo ele, ninguém que defende o estado de direito na Europa respeita o juiz Sérgio Moro
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Por: Redação RBA


  "Necessitamos, os setores progressistas da Europa e América Latina, nos unir", defendeu Monedero Foto de Ricardo Stuckert.  


São Paulo – Fundador do partido espanhol “Podemos”, o cientista político Juan Carlos Monedero visitou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tarde da quinta-feira (22/11/2018), em Curitiba.

“Da Espanha, do Podemos, queria dizer-lhe (a Lula) que esse cárcere é o que teria prendido (Nelson) Mandela ou (Antonio) Gramsci. Concordamos com esses grandes homens, mas não concordamos com os carcereiros. Portanto, vamos recordar constantemente o que significam", disse.
O ex-candidato petista à presidência da República, Fernando Haddad, e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, também falaram à imprensa na capital paranaense.
Segundo Monedero, “Lula está na consciência da América Latina e dos democratas da Europa. Compartilhei com ele a alegria que vimos na Argentina, no encontro do Clacso, onde vi 40 mil pessoas chorando e gritando 'Lula Livre'. A democracia no Brasil se chama Lula".
Foi uma referência ao 1º Fórum Mundial do Pensamento Crítico, promovido pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), realizado recentemente em Buenos Aires.
Monedero criticou o presidente brasileiro, eleito em 28 de outubro, e seu futuro ministro da Justiça. “Ninguém que defende a democracia, na Europa, pensa que Bolsonaro é um democrata, pelo contrário. Ninguém que defende o estado de direito, na Europa, aponta o juiz Moro com respeito”. A percepção é clara de que o magistrado responsável pela Lava Jato foi “recompensado por haver encarcerado um homem justo e bom”.
O espanhol se declarou triste ao chegar à Polícia Federal em Curitiba, mas disse ter saído feliz do encontro, por ter visto “um presidente que não vai se deixar dobrar, e que, em sua expressão, me disse: ‘estou em um cárcere de merda, mas meus pensamentos não estão sujos, mas limpos”.
Na opinião de Monedero, “Lula sabe que na América Latina os melhores, que lutam pela democracia, são encarcerados”. Eles conversaram sobre a necessidade de os movimentos e partidos progressistas do mundo estarem unidos na luta contra o crescimento da direita. Monedero afirmou que transmitirá ao líder do Podemos, Pablo Iglesias, o recado de Lula sobre o assunto.
“Necessitamos, os setores progressistas da Europa e América Latina, nos unir. Há uma mensagem (de Lula) por unidade, de que temos que dar-nos conta de que a direita está caminhando por lugares contrários à democracia, e não podemos estar desunidos, mas perto uns dos outros.” Segundo Monedero, o compromisso e os laços entre o Podemos e Lula estão mais fortes.
Haddad lembrou que, na semana que vem, vai aos Estados Unidos para participar de reunião de fundação da “Internacional Progressista”, liderada pelo senador norte-americano Bernie Sanders, do Partido Democrata.
A preocupação, disse Fernando Haddad, é “frear o obscurantismo no mundo, que prejudica direitos conquistados por muitas jornadas de luta por direitos políticos, civis e sociais, sobretudo depois da segunda guerra mundial”.
Haddad lembrou também que, no Brasil, junto com o PT, está propondo duas frentes de atuação parlamentar em defesa dos direitos civis e sociais. Ele negou que, no movimento de oposição ao governo de Jair Bolsonaro, o PT pretende ter a hegemonia de eventuais frentes que venham a ser construídas. “O PT não tem hegemonia, tem a importância que tem e vai agir de acordo com essa importância. Não nos consideramos melhores do que ninguém, sabemos do nosso tamanho e importância e respeitamos as outras agremiações que respeitam direitos sociais e civis.”
No mundo
No âmbito internacional, Haddad salientou que, sobretudo na Europa, Monedero pode ajudar a articular partidos, organizações e movimentos populares que estejam de acordo com as premissas de defesa de direitos e da democracia, e contra o crescimento do obscurantismo. Segundo ele, Lula está bem. “Mas ninguém passa incólume por 230 dias (na prisão). É penoso para qualquer pessoa, para ele também”, ressalvou Haddad.
Gleisi Hoffmann destacou que Haddad terá importância fundamental para “levar a voz de mais de 47 milhões de brasileiros” que votaram no petista no segundo turno. A expectativa da senadora é de que esse número “só vai aumentar”.
“A decepção com o governo Bolsonaro vai acontecer. Temos que fazer essa resistência, interna e externamente”, afirmou. Segundo ela, Haddad inicia na semana que vem “uma grande caminhada no exterior”, para conversar com lideranças da política internacional e “dizer ao mundo o que está acontecendo no Brasil”.
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Fonte do texto:


*Publicado originalmente na Rede Brasil Atual, em  23/11/2018

Créditos imagens:

1. Carlos Monedero - foto divulgação
2. Carlos Monedero no Brasil - Ricardo Stuckert
3. Lula e Haddad - foto divulgação


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O SENTIDO DO NATAL NA NOSSA CIVILIZAÇÃO

7 de dezembro de 2018


Pensar é tarefa da filosofia. 
O entrevistado é o filósofo e professor italiano  Massimo  Cacciari, também
conhecido, na Itália, como um político ateu, ligado ao partido comunista. 
Pareceu-me oportuno traduzir a entrevista, porque Carciari nos coloca (e, ao que parece, a ele próprio) 
contra a parede, ao repensar a influência profunda dos valores cristãos na civilização.  

Mais importante, ainda, é quando o filósofo levanta questões sobre o que estamos habituados a vivenciar, acomodados que somos ao pensamento vigente, que não parece refletir em profundidade a dimensão profunda da vida, do afeto, da solidariedade, do mistério e, no caso desta entrevista, sobre a espiritualidade cristã como matriz significante da nossa civilização. 

Na tradução, a designação de "católico", usada pelo entrevistado, foi traduzida por "cristão", em respeito à nossa experiência latino-americana, claramente ecumênica.

O entrevistador, Stefano Zuro, pareceu-me instigante e arguto. A temática é 
atual. O Natal hoje, pode nos passar a sensação de uma "festinha" entre amigos e familiares, com troca de presentes e um bom jantar, regado a vinho ou cerveja. É uma festa encharcada pela desatenção do nosso tempo à experiência do essencial, da solidariedade e da sobriedade que, aqui e ali, levemente se manifesta.  
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O Natal não é só dos cristãos, mas permeia a nossa civilização.

“A indiferença envolve cristão e não cristãos. Não têm presente o significado perturbador da festa”.
Por: Stefano Zurlo 
Versão portuguesa: Vanise Rezende

NATAL. Massimo Cacciari é um crescendo de irritação, quase uma cantilena de insultos: “O Natal do panetone, o Natal da publicidade, o Natal do dinheiro. O Natal hoje é uma festinha”. E, ao dizer isto, vê-se em seu rosto os sinais do seu desgosto.
A crônica é uma sequência de episódios mortificantes: a escola que abole o presépio em sinal do politicamente correto, o pároco que teme celebrar a missa da meia-noite, a comunidade que renuncia aos cantos tradicionais para não perturbar a sensibilidade alheia. O filósofo fica impaciente, depois vai fundo como uma guilhotina: “Foram os cristãos os primeiros a abolir o Natal”.
Professor, quer provocar?
Não, a verdade é que a indiferença reina soberana e envolve quase todos: os  os cristãos e não cristãos".
Está bem, existe um Natal dos pacotes e dos presentes. E depois?
“Depois, eu que não sou crente me interrogo: há um símbolo que trouxe uma contribuição extraordinária à nossa história, à nossa civilização, à nossa sensibilidade”.
Para o senhor, o que é o cristianismo?
“O cristianismo é uma parte fundamental do meu percurso, da minha trajetória, é algo com que me confronto todos os dias”.
Por que os leigos e os católicos de hoje balbuciam diante de um evento que cingiu em duas a história?
“Porque não refletem, porque não respeitam a memória dessa história tão perturbadora”.
Deus que se fez homem.
“Percebes? Não Deus que estabelece uma relação com os homens, mas Deus que vem à terra através de Cristo. É vertiginoso”.
Talvez o seja para o senhor e poucos outros.
“Justamente. A nossa sociedade está anestesiada. O Natal se tornou uma fábula qualquer, uma espécie de historinha edificante que apaga as inquietudes”.
Ou seja, não se defende mais o Natal, (...) talvez porque não se saiba mais o que é o Natal?
“Exatamente. Se posso generalizar - e sei que em toda parte existem as exceções – o leigo não se permite ser atingido por esse escândalo; o professor de religião não transmite mais a força dessa história, mas faz apenas um aceno na aula de educação cívica; e o padre, quase sempre declama prédicas cômodas, cômodas e tranquilizantes, que são um convite ao ateísmo”.
Um desastre.
“O abc foi descartado. A primeira distinção não é entre cristãos e não cristãos, mas entre pensantes e não pensantes. Se alguém pensa, como pensava o cardeal Martini, então se interroga. E se se interroga, antes ou depois vê-se fascinado pelo cristianismo, pelo Deus que se faz homem, escandalizando os hebreus e o Islam”.
Estamos às voltas com um choque de civilização?
“E que choque!  Da parte deles, também se perdeu o valor profundo do fato religioso. Vivemos em um mundo que esquece a dimensão espiritual”.
De onde pode partir o diálogo com as outras religiões?
“O diálogo parte da compreensão, mas se não houver compreensão, então nos preparemos para o pior. E, de fato, os cristãos sabem, e eu sei que, de alguma parte, há sempre um resto de Israel, servos ingênuos do nosso tempo".
Na verdade, o que está faltando?
“Falta o arrepio diante de um fato tão grandioso, incomensurável. Observo isso nos museus, quando estudantes param diante de quadros com sujeito religioso”.
Está implicando também com os estudantes?
“Não, implico com os seus professores e não só com eles. Esses jovens recebem noções de natureza estética, mas depois, se chegas perto e perguntas a eles: quem é aquele santo? É o Batista? É Paulo? É João? Eles te olham estupefatos, não sabem nada, estão desmemoriados como o nosso tempo”.
Cacciari, o senhor está mesmo certo de que não crê?
“O filósofo não pode crer”.
Com todo o respeito, isto é o senhor quem afirma.
“O filósofo não pode aceitar a lição cristã, mas é um inquieto e reflete”.
Então, o senhor reza?
A busca a um certo ponto se avizinha da oração. É certo que o fiel está convencido de que a sua oração será escutada. O filósofo pede o nada. Mas, fica estupefato diante do mistério. E o absorve, como aconteceu no meu último livro, sobre Maria: Gerar Deus. Pense, uma jovenzinha que se torna mãe de Deus. É de não acreditar, mesmo para aqueles que creem”.
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Fonte do texto:


Créditos das imagens:

1. Foto de abertura - www.mondi.it.jpg
2. Imagem da entrevista realizada pelo "Il Giornale", em 2017.
3. Foto divulgada em: www.ilglobo.globo.com.jpg

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Notas biográficas:

Massimo Cacciari nasceu em Veneza em 5/06/1944. É um político italiano, ex-prefeito de Veneza, professor e filósofo. Atualmente é docente do pensamento filosófico e metafísica na Faculdade de Filosofia da “Università Vita Salute di San Raffaelle”, fundada por ele, em 2002, e da qual é pró-reitor. Foi eleito prefeito de Veneza em 2005 e abandonou a política ativa após a conclusão do seu mandado, em abril de 2010. Em 2016 publicou, pela editora “Il Mulino”, o livro “Ocidente senza utopie”, escrito com Paolo Prodi.

Fonte: http://www.mondi.it/almanacco/voce/16015






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BRASIL - A FORÇA DA HISTÓRIA

5 de dezembro de 2018

Nenhum político, nenhum general, nenhum juiz, irá determinar como historiadores de ofício chamarão isso ou aquilo, ou como exercerão o seu ofício. 
Podemos ser calados, mas não vencidos.
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Por: Sidney Chalhoub


 *Sidney Chalhoub - Professor of History, Harvard University - Professor Titular Colaborador na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).


Seria melhor escrever crônica, mas hoje não é possível. Faz dias que abro jornais e revistas e aparece uma saraivada de notícias e artigos de opinião a respeito do que o governo eleito do país pretende fazer na área de Educação. Tramita um projeto de lei no parlamento para instituir a censura em sala de aula, fala-se em fundir o ministério da Educação com outro, em cobrar mensalidades nas universidades públicas, em vouchers etc. Bastante cacofonia, mas não seria razoável descartar de início todos os pontos que aparecem para discussão.
Todavia, há alguns esclarecimentos a fazer no que tange à produção do conhecimento histórico e a difusão dele nas instituições de ensino, nos livros, em revistas especializadas, em meios diversos de divulgação. Apesar das aparências (a julgar pelo que se lê e escuta), a produção de conhecimento histórico e o ensino dele não são a casa da mãe Joana. De modo que vou explicar duas ou três cousas básicas, para colocar a conversa em lugar devido.
Ao que parece, professores e professoras de história são alvos principais de iniciativas para combater uma suposta doutrinação nas escolas. Todo dia há alguma notícia sobre docente de história denunciado, perseguido, demitido, ameaçado, agredido verbalmente, ou pior.
É possível que tenha havido um excesso ou outro, em especial devido à alta temperatura política dos últimos meses. Mas a exceção não faz a regra, nem o ataque em curso contra docentes de história precisa de episódios isolados para se justificar.
Quais os motivos para tanto foco nos historiadores? Por que eles passaram a incomodar tanto a certos setores da sociedade brasileira e da classe política?
A resposta é complexa. Seria necessário situá-la no quadro mais amplo de explicações dos motivos pelos quais a extrema direita chegou ao poder no Brasil, neste preciso momento. Conheço meus pares.
Nós, historiadores, e colegas cientistas sociais de diversas disciplinas, no Brasil e no mundo, nos debruçaremos sobre o tema nas próximas décadas e vamos dissecar o assunto até que a nuvem espessa da incompreensão se dissipe um pouco, ou bastante. O processo é lento, já começou e não tem hora para acabar. O tempo nervoso da política não tem nada a ver com a longa duração requerida na investigação, no diálogo acadêmico e na sistematização de resultados de pesquisa.
Por aí se chega a uma primeira resposta quanto aos ataques aos historiadores. Os historiadores brasileiros estão na berlinda porque o conhecimento que produzem hoje é autônomo, crítico, baseado em pesquisas empíricas lentas e sólidas, informado por debates conceituais densos. Além disso, em várias áreas da pesquisa histórica, têm o reconhecimento da comunidade acadêmica internacional. Desde o início da década de 1980, a formação de historiadores se profissionalizou no país de maneira admirável. Há hoje dezenas de cursos de mestrado e doutorado em história espalhados por todas as regiões. São programas de pós-graduação constantemente e rigorosamente avaliados pelos pares, em processos de acompanhamento institucionalizados pelo governo federal que nada deixam a dever (de fato, superam em muitos aspectos) a procedimentos similares existentes em outros países. Vários desses programas são de excelência, muitos deles de ótima qualidade. Via de regra, os professores e professoras de história das universidades brasileiras passaram por um processo de formação exigente, demorado, a demandar doses absurdas de vocação e determinação –quatro anos de graduação, dois ou três anos de mestrado, quatro a seis anos de doutorado. Dez a treze anos de formação, quando dá tudo certo, sem intempéries. Essa qualidade concentrada nas universidades, nas públicas em especial, mas não só nelas, se espraia pelo sistema inteiro, instaura a reflexão crítica sobre a história em toda parte. Isso incomoda demais.
É fácil entender o desconforto de tanta gente. As historiadoras e historiadores brasileiros passaram as últimas décadas a escarafunchar arquivos e rever inteiramente o que antes se sabia sobre a história da escravidão e do racismo no país. A violência da escravidão, a expansão da cafeicultura baseada na invasão de terras e no tráfico africano ilegal, o estudo das formas de resistência e de enfrentamento cotidiano por mulheres e homens escravizados – tudo isso se pesquisa e aprende, chega às salas de aula e até ajudou na justificativa para a adoção de políticas públicas de ação afirmativa. 

A historiografia brasileira participou intensamente de um movimento internacional de investigação das relações de gênero e seu impacto na reprodução de desigualdades em sociedades diversas, em qualquer tempo. Aprendemos a respeito dos modos de as mulheres lidarem com as violências e as formas diversas de subordinação, sabemos melhor aquilo que têm feito ao longo da história contra aqueles que pregam a violação delas, a amputação de suas potencialidades, a interdição de seus sonhos.
Houve uma gama enorme de estudos sobre a ditadura brasileira de 1964-1985, baseados em fontes primárias que se tornaram disponíveis, produzidos em diálogo com a historiografia internacional a respeito das ditaduras latino-americanas no período da guerra fria. Os historiadores brasileiros sequer inventaram de chamar “ditadura” o que ocorreu no país naquele período, pois historiadores de outras partes do mundo já haviam adotado a bossa de chamar a coisa pelo nome que a coisa tem.
Nada disso, e muito mais, agrada a quem tem agora as rédeas do poder. Paciência. Outras eleições virão. Mas algo precisa ficar claro. Nenhum político, nenhum general, nenhum juiz, irá determinar como historiadores de ofício chamarão isso ou aquilo, ou como exercerão o seu ofício. Podemos ser calados, mas não vencidos. E estamos à disposição para ensinar, como sempre estivemos, a quem quiser aprender. As portas das universidades brasileiras estão abertas a quem se qualificar para ingressar nelas – há Enem, vestibulares, concursos de ingresso para programas de pós-graduação.
Depois muitos anos de formação, exames diante de bancas de mestrado, doutorado, tudo com os salamaleques da tradição acadêmica. Há centenas e centenas de livros e artigos científicos sobre os temas citados no parágrafo anterior, e sobre muitos mais. É longo, duro, mas fascinante. Podem crer.
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Fonte do texto:

*Publicado originalmente em conversadehistoriadoras.com


Publicado em:12/11/2018

Crédito imagens: foto integrada à publicação de "Carta Maior."



BRASIL - PRENÚNCIO DE UMA CATÁSTROFE SANITÁRIA

30 de novembro de 2018


SUPERVISOR DO MAIS MÉDICOS ALERTA: TEREMOS UMA
CATÁSTROFE SANITÁRIA no brasil

O supervisor do programa Médico de Família e Comunidade Thiago Henrique Silva concedeu entrevista à TV 247 para falar sobre o rombo na atenção básica à saúde que a saída dos médicos cubanos irá causar no Brasil.

TV 247 - Na última semana, o Brasil viu milhares de médicos cubanos serem chamados a sair de seus postos de trabalho, rumo à sua pátria natal, após o governo de Cuba rechaçar as alterações que o presidente recém-eleito, Jair Bolsonaro, divulgou que pretendia realizar, no seu governo, em relação ao programa Mais Médicos.

Para falar sobre o rombo na atenção primária que a saída dos profissionais cubanos irá causar, no Brasil, o supervisor do programa e médico de família, Thiago Henrique Silva, concedeu entrevista à TV 247 alertando que, com a falta de médicos nos rincões do Brasil ou em regiões periféricas, "uma catástrofe sanitária poderá ocorrer no País".

"Temos 1.500 municípios que dependem do atendimento dos médicos cubanos. Mesmo contando com a presença desses profissionais, ainda há um déficit de dois mil médicos. O fim do programa Mais Médicos promoverá uma catástrofe sanitária no Brasil", afirmou o supervisor.

Em relação aos distritos do recorte indígena, o impacto será ainda maior. Dos 372 médicos que os atendiam, 301 médicos retornarão à Cuba. Silva afirma que "nos distritos habitados por índios, o atendimento dos médicos cubanos é praticamente exclusivo" expondo que "nessas regiões, é quase impossível fixar médicos brasileiros".
O Dr. Thiago Henrique problematiza: "Com a redução dos profissionais, diversos indicadores serão afetados. A atenção primária deve ser responsável por resolver até 80% dos problemas de saúde. Em caso da retirada dos médicos da área,  os índices de mortalidade irão aumentar".
A polêmica dos salários 
Um dos argumentos utilizados pelo governo eleito, no intuito de esvaziar o programa, é de que "parte dos salários dos médicos cubanos seriam destinados para sustentar a ditadura cubana". 
O Dr. Thiago Henrique Silva esclarece que o governo cubano não coage nenhum médico a participar do programa e que "eles aceitam por vontade própria os editais que são abertos para os candidatos que desejam exercer a profissão em outros países". 
Esclarece, ainda, que muitos dos serviços que os médicos cubanos prestam em outros países “não são remunerados”, como no caso da ajuda humanitária no Haiti e em regiões da África. "Enquanto Cuba envia médicos para o mundo, os EUA envia armas", lamenta o supervisor. 
"O salário que um médico cubano recebe, através do programa de exportação dos profissionais para outros países, sustenta os direitos sociais de todos na ilha. Os valores lá são outros, ninguém morre de fome em Cuba", aponta.
O supervisor considera que Cuba é muito íntegra no recorte da saúde pública. "Mesmo sabendo que o País irá perder bilhões com a saída dos médicos cubanos do Brasil, o País não aceitou o discurso de Bolsonaro", conclui. 
"Temos 1.500 municípios que dependem do atendimento dos médicos cubanos, sendo que, mesmo com a presença desses profissionais, há um déficit de dois mil profissionais", afirma.

No recorte do atendimento aos povos indígenas, o impacto será ainda maior. 301 dos 372 médicos retornaram à Cuba. Silva afirma que "nos distritos habitados por índios, o atendimento dos médicos cubanos é praticamente exclusivo" expondo que "nessas regiões, é quase impossível fixar médicos brasileiros".
O médico problematiza: "Com a redução dos profissionais, diversos indicadores serão afetados. A atenção primária deve ser responsável por resolver até 80% dos problemas de saúde, se o profissional é retirado, os índices de mortalidade irão aumentar".
A polêmica dos salários 

Um dos argumentos utilizados por Bolsonaro para esvaziar o programa, é que "parte dos salários dos médicos cubanos eram destinados para sustentar a ditadura cubana". 
Silva esclarece que o governo cubano não coage nenhum médico a participar do programa e "que eles aceitam por vontade própria os editais que são abertos para exercer a profissão em outros países". 
Ainda informa que muitos dos serviços que os médicos cubanos prestam não são remunerados, como no caso da ajuda humanitária no Haiti e em regiões da África. "Enquanto Cuba envia médicos para o mundo, EUA envia armas", lamenta. 
"O salário que um médico cubano recebe, através do programa de exportação dos profissionais para outros países, sustenta os direitos sociais de todos na ilha. Os valores lá são outros, ninguém morre de fome em Cuba", aponta.
O supervisor considera que Cuba é muito íntegra no recorte da saúde pública. "Mesmo sabendo que o País irá perder bilhões com a saída dos médicos cubanos do Brasil, o País não aceitou o discurso de Bolsonaro". 
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Fonte do texto, publicado em 23/11/2018:


As imagens vieram integradas ao texto.

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Inscreva-se na TV 247 e confira a íntegra da entrevista com o supervisor do programa Mais Médicos, Dr. Thiago Henrique Silva.                                                                                               






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