Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

POLÍTICAS SOCIAIS & POLÍTICAS PESSOAIS

22 de maio de 2018


Se hoje tenho razões para estar triste, ou se a alegria chegou ao meu coração, é sempre bom lembrar que a aurora do dia termina no ocaso. E que o vento tenebroso mais tarde se aquietará. 

Nada é para sempre!
Importa o momento. O agora.
Pois enquanto passam as águas do rio, as bolhas do amanhã estão imersas em sua profundidade.
E emergirão!

Quem vive na ilusão da glória, entregando-se à sedução do poder, expandindo a sua alegria com o ter, ou com o cargo alcançado... sem se dar conta da dureza do chão que a maioria pisa, nem se interessar pela falta de oportunidades dos que vivem à margem... Num dia qualquer, a ilusão, a sedução, e a alegria do ter o surpreenderá com a sua vertiginosa queda.

Viver a cidadania, significa não ficar parado, mirando-se a si mesmo, no próprio espelho. Precisamos de outros espelhos, e de retrovisores que concorram para que eu também tenha a visão "social e política" dos que estão próximos de mim, e atrás de mim, perdidos e cambaleantes nas calçadas marginais. Infelizmente, voltamos aos tempos dos ambulantes pelas ruas, dos pedintes nos semáforos, da exploração dos empregados, e de outros deserdados de uma política seletiva que gera milhares de expurgados sociais. Cada um de nós é convocado a reagir, com gestos políticos e cidadãos, para que se promova o bem-estar de uma sociedade com a eficácia da justiça e da fraternidade. 



Para isso, talvez seja necessário iniciar optando por políticas pessoais, para a gestão da nossa própria vida. Uma dimensão que também nos prepara a entender, na democracia, sobre as minhas razões políticas para escolher os candidatos à gestão da coisa pública. 

Como sugestão, poderíamos assumir ou aprimorar atitudes que podem concorrer  à paz interior, ao nosso bem-estar pessoal e do outro:



             §  Focar a atenção no “agora”;

§  Cuidar de si com atenção;
§  Dar mais um passo para reativar o amor;
§  Encontrar tempo para curtir os filhos;
§  Exercitar a colaboração no trabalho; 
§ Evitar minhas pequenas corrupções;
§  Ser um cidadão solidário;
§  Informar-se mais, para poder fazer escolhas coerentes;
§  Não me deixar levar por minhas razões políticas, para disseminar 
  o ódio, a discriminação e a mentira.


Se fizermos uma sincera reflexão sobre esses pequenos detalhes, e outros que a inspiração poderá nos trazer, que bom! Iremos perceber que as nossas exigências em relação às políticas públicas e as atitudes corretas "dos outros", devem iluminar também as políticas das nossas atitudes pessoais. 

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Texto de: Vanise Rezende

Créditos das imagens:

1. O japonês - pintura de Anita Malfatti  - reprodução.
2. No espelho - pintura do iraniano Iman Maleki 
3. São Francisco - escultura de Corbiniano Lins - reprodução

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com



















GRACIAS A LA VIDA - SARAVÁ!

15 de maio de 2018

Há poucos dias, alguém me enviou um vídeo com a música intitulada: “Petrolina e Juazeiro”, de Jorge de Altinho. Eu estava sozinha, circulando entre a cozinha e a mesa de refeições, a preparar o meu café da manhã, num sábado sem a minha secretária doméstica. A música é de um forró animado, e tem um ritmo convidativo para quem, como eu, sempre gostou de dançar. Fiquei me remexendo, cantando e rodopiando pela sala, tão feliz que pedi bis ao meu celular.

A vida foi generosa comigo: mantive a minha fé primeira. O aprendizado - que até hoje me leva ao exercício da sobriedade e do olhar aberto para sentir a dor do outro - me chegou naturalmente, convivendo com Ester Pires, minha mãe, nascida em 1910. A sua atenção era voltada para quem lhe estava junto. Era amável, cuidadosa e inteligente. Estou sempre a lhe repetir a minha gratidão, a ela que me gerou e me cuidou, junto ao meu pai, Manoel Marinho, e com mais seis irmãos que eles geraram. Minha infância, sob os seus cuidados, cimentou a mulher que sou agora, aos 80 anos.

Tinha apenas concluído o ensino médio - já às vésperas de entrar na faculdade - quando ouvi falar de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, que disseminou e testemunhou, em todo o mundo, uma espiritualidade cristã propulsora de inovação e compromisso. Quando a conheci, e tive a possibilidade de conviver com ela  em algumas circunstâncias  me dediquei a seguir a sua mensagem. Tinha 20 anos. Daí em diante, o meu coração se abriu para o mundo: quantos homens e mulheres tocaram a minha profundez, e ainda tocam – com suas vidas exemplares de compaixão, de solidariedade, e da concretude do amor que se importa com os empobrecidos e injustiçados de todas as latitudes.

Ao repassear nas minhas memórias, me vi inspirada pelo escritor e músico Vinícius de Moraes. Nos palcos em que viveu, ele costumava reverenciar os seus companheiros de profissão, saudando-os com um memorável Saravá!

Saravá! – digo eu, agora, soltando a imaginação: Saravá a Ester Pires e a Chiara Lubich, minhas grandes mães! 


Saravá a Iemanjá – a Senhora dos Mares, e rainha da cultura afro-brasileira! Saravá a Mãe Menininha (de quem recebi a bênção um dia, sentindo-me imersa na magia do seu terreiro, em Salvador, na Bahia). Ah, quanto precisamos dessas preciosas bênçãos, hoje, para tirar de nós os graves “olhados” e resistir contra os malvados que o Brasil vive a suportar!

Saravá aos heróis Ganga Zumba, e Zumbi dos PalmaresAndré Rebouças, José do Patrocínio e à inesquecível Chiquinha Gonzaga, aqui lembrados entre os que viveram a luta da resistência dos escravos, no Brasil. Saravá aos milhares dos Sem Teto e dos Sem Terra - centenas  de crianças, mulheres, homens, e aos velhinhos também, sem teto e sem uma cadeira de balanço que lhes daria o conforto que sinto agora. 

São gente que vagueia, sofrida, feito os povos indígenas do Brasil - os poucos que sobreviveram à dizimação sofrendo a fúria dos colonizadores dos nossos dias, nesse país entregue aos exploradores da Amazônia, aos senhores de terras improdutivas, e aos endinheirados banqueiros - usurpadores das taxas sociais devidas ao país - e são perdoados, ah sim, pelos seus iguais! Falta citar os poços minerais brasileiros, presenteados recentemente, num gesto imoral e  desrespeitoso, por indevidos representantes de uma pátria que não precisaria ser tão gentil e ignara!

Saravá a Mahatma Gandhi - o elegante advogado inglês, que se uniu aos povos indianos, escolhendo o outro lado da história para ajudá-los a se libertar da colonização inglesa. Saravá!!!

Saravá ao jovem andarilho e médico Ernesto Guevara, um jovem que, na história das lutas por justiça, ficou conhecido como o comandante Che Guevara, que um dia se posicionou na luta  pelos direitos dos pobres da América Latina, e, junto a eles, foi condenado à morte! Saravá!!!

Saravá ao prisioneiro Mandela – que, depois de anos na prisão, se tornou o presidente da África do Sul, e promoveu a inclusão dos negros como ele, na história do seu país.

Saravá ao corajoso americano, Martin Luther King, um homem que, em tempos difíceis, assumiu a liderança dos que lutaram (e ainda hoje lutam) por respeito, dignidade e igualdade de direitos dos povos negros, no seu país.

E, ao pensar nas histórias de luta, entrevi a dor profunda do povo da Síria e da população sofrida do Haiti – Saravá aos adultos e crianças que continuam açoitados pela fome e pela guerra. 
Saravá também ao povo da Palestina. E a tantos outros povos inocentes e sofredores, destinados a viver no medo, e a vaguear dispersados pelo mundo (quando conseguem escapar da perseguição), como os migrantes de Nazaré. Saravá a todos os irmãos e irmãs do universo, que vivem evadidos de sua pátria, enxotados de suas casas e terras, por inúmeras situações de violência. 

Precisamos abrir o nosso coração e os nossos olhos, e sermos mais ativos na política brasileira. Também aqui, jovens, mulheres e homens que sofrem pelo justo desejo de viver no seu chão nativo, e são discriminados por terem uma determinada cor, uma específica religião, uma diferente cultura, uma clara escolha afetiva, um ideal político solidário às ações de justiça e convivência com os diferentes!  

E, por fim, um Saravá especial à democraciaque está cada vez mais distanciada dos ideários da Carta Magna brasileira. Uma democracia violada pela farsa da política e de uma estranha (in)justiça, que bambeia na irresponsabilidade dos algozes do nosso país. 

Algozes, sim, e certamente tomados de medo, porque são muitos os que eles perseguem e poucos os que gozam das benesses de seus malfeitos. Agem enrodilhados de preconceitos, porque sabem que a maioria dos defensores da democracia é pobre, ou apoiados por nobres defensores dos pobres. Assim, esses medrosos se juntam e se emparedam, destemperados, embora as multidões mantêm firme a esperançada luta pela democracia. Saravá!

Saravá ao Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel;  Saravá ao destemido ítalo-brasileiro, o escritor e teólogo Leonardo Boff, Saravá ao notável e incansável Celso Amorim, Saravá!

E um especial Saravá ao carismático brasileiro Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, que entenderam aprisioná-lo, com medo da preferência do povo para fazê-lo voltar à presidência do Brasil. Mas o povo é destemido, e continuará lutando! 

Resta-me um sentimento de gratidão imenso pelo que vivi, aprendi e ainda aprendo na vida. Saravá, então, por essa possibilidade que me é dada de enxergar onde está o compromisso e a fraternidade, a justiça e o amor pelo bem do povo brasileiro. 

Saravá pela alegria do carinho da minha família, e, de modo especial, pelos amigos tantos, que fiz, no correr da minha história. Ainda hoje nos amamos, nos acarinhamos, nos respeitamos, e nos completamos em muitas variações! Assim é o outono, da vida: carregado das chuvas de boas lembranças, e de trovejadas tenebrosas...

Ainda não falei dos amores. Saravá pelos raros e grandes amores que tive na vida! Saravá aos homens que amei e ainda amo, cada um no seu tempo, por linhas retas e entortadas, por algum fecundo acaso ou por uma escolha fiel. Cada qual com um lugar especial nesse coração que ainda pulsa. Saravá!!! 

E, para celebrar, encerro com a canção argentina: Gracias a La Vida, de Violeta Parra. Tão nossa, e tão latino-americana! Ela nos fala de uma vida fecunda, e nos impele a amar as coisas simples do amor. 

Porque a vida é um dom único, pessoal, feita por nós, abraçada por nós, e - a depender daqueles que nos amam - será Vida para sempre. Amém!





Gracias a la Vida                    Graças à Vida


Gracias a la vida,                                    Graças a essa vida,
Que me ha dado tanto,                            Que me entregou tanto!
Me dio dos luceros                                   Me deu esses olhos
Que cuando los abro                                Que quando os abro
Así lo distingo                                         Distingo tão logo
Lo negro del blanco,                                O preto do branco                   
Y en el alto cielo                                      E no alto do céu
Su fondo estrellado,                                 Seu fundo estrelado,
Y en las multitudes                                E nas multidões
El hombre que yo amo.                         O homem que eu amo!  
    

Gracias a la vida,                                   Graças a essa vida,               
Que me ha dado tanto;                           Que me entregou tanto!      
Me ha dado el oído                                 Me deu os ouvidos
Que en todo su ancho                             Que em tão vasto campo
Graba, noche y día,                                Grava, noite e dia,
Grillos y canarios,                                   Grilos e canários,
Martillos, turbinas,                                  Turbinas, tormentas,
Ladridos, chubascos.                               Martelos, latidos,

Y la voz tan tierna                                A voz tão terna
De mi bien-amado.                               Do meu bem-amado!

Gracias a la vida,                                   Graças à essa vida,
Que me ha dado tanto;                          Que me entregou tanto!
Me ha dado el sonido                              A sonoridade    
Y el abecedario.                                     E o abecedario.
Con él, las palabras                                Com ele as palavras
Que pienso y declaro:                             Que penso e declaro:
"Padre", "amigo", "hermano",                  Irmão, pai e amigo
Y "luz", alumbrando                                A luz, clareando
La ruta del alma                                   E a rota da alma
Del que estoy amando.                        De quem estou amando!


Gracias a la vida,                                    Graças à essa vida,
Que me ha dado tanto;                           Que me entregou tanto!        
Me ha dado la marcha                             Me permite os passos
De mis pies cansados.                             Dos meus pés, cansados.
Con ellos anduve                                    Com eles vagueio
Ciudades y charcos,                                Cidades e campos,
Playas y desiertos,                                  Praias e desertos,  
Montañas y llanos,                                  Montanhas e planos,
Y la casa tuya,                                       E a tua rua,
Tu calle y tu patio.                                Tua casa e o terraço.

Gracias a la vida,                                    Graças à essa vida,              
Que me ha dado tanto;                           Que me entregou tanto!
Me dio el corazón,                                   Deu-me um coração,
Que agita su marco                                 Que bate e se agita,
Cuando miro el fruto                               Quando olho o fruto         
Del cerebro humano,                               Do cérebro humano,
Cuando miro al bueno                              Do mau tão distante,
Cuando miro el fondo                            E quando olho fundo
Te tus ojos claros.                                 Nos teus olhos claros.

Gracias a la vida,                                    Graças à essa  vida,               
Que me ha dado tanto,                            Que me entregou tanto!
Me ha dado la risa                                   Me deu o sorriso
Y me ha dado el llanto                             E me deu o pranto.
Así yo distingo                                        Assim eu distingo
Dicha de quebranto                                 Sorte e desventura,
Los dos materiales                                  Dois dos conteúdos
Que forman mi canto!                             Que trago em meu canto!
Y el canto de todos                               E o canto de todos
Que es mi proprio canto!                     Que é o meu próprio canto!
Y el canto de ustedes,                          E canto de todos 
Que es el mismo canto!                       Que é o mesmo canto!

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Gracias a la vida - canción-sirilla. Texto y música de Violeta Parra  
Tradução livre, adaptada à melodia, por: Vanise Rezende.

Créditos das Imagens:

1 - https://www.tourinhos.com.br/noticias/1570/inscricoes-abertas-para-oficina-de-anca...
2 - Blog Espaço Poese - Arquivo imagens
3 - Iemanjá - CEJV - www.cejv.com.br/site/endex.pjp/os-orixas/iemanja/
4 - Povos Indígenas - https://www.revistaepoca.globo.com
5 - Che Guevara - https://br.pinterest,com/pin
6 - Palestina - www.cgtp.pt
7 - Divulgação: www.terradedireito,org.br.jpg
8 - Foto divulgação/Twitter/LindenbergFarias: Leonardo Boff, Adolfo Perez Ezquivel e Celso Amorim - 2018.   

Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

BRASIL - AS ESPERANÇAS RENASCEM NO 1º DE MAIO

5 de maio de 2018

Após as celebrações do 1º de maio, realizadas pelos trabalhadores – que congregaram diferentes bandeiras sindicais, em várias capitais do país e especialmente em Curitiba – eleita, atualmente, a capital da democracia – as notícias e os registros digitais nos fazem lembrar uma outra festa unificadora de várias forças políticas, durante a campanha pelas Diretas Já, nos tempos de superação de um longa ditadura no país.

As comemoração do povo, no 1º de maio deste ano, me alentaram e, mais uma vez, me trouxeram um grande sentimento de gratidão à Vida. Movida por minha fé, agradeci a Maria de Nazaré - uma dona de casa muito especial, que na maturidade suportou a perda do seu filho, um andarilho conhecido como Jesus, o Nazareno. Ele se fez conhecer, e foi seguido, como o filho predileto de Deus. Era tão importante e incisivo o que Ele dizia, e o que fazia, na época, que, após a sua morte, o grande imperador Constantino decidiu dividir a marcação do tempo, inscrevendo a história ocidental em “antes de Cristo” e “depois de Cristo”. Constantino havia entendido que Jesus de Nazaré, filho de Maria e do  carpinteiro José, trouxera ao mundo uma poderosa revolução.

No correr dos séculos, cristãos e não cristãos se destacaram por suas ideias – conscientes ou não de serem seguidores Jesus. Um dos primeiros, e mais autênticos, foi Francisco de Assis, um jovem herdeiro de uma rica família medieval, nos longínquos 1200. Ele não hesitou de largar a sua riqueza e a garantia de um futuro nobre, para dedicar-se aos pobres da sua época, promovendo um ousado movimento religioso. Com o seu testemunho, clamava por mudanças na Igreja Católica e na prática de vida dos que queriam seguir a ideologia do Nazareno.


Esse Jesus de Nazaré é uma figura que ainda impressiona e move corações, depois de tantos séculos da sua passagem entre nós. 

Foi um homem fiel ao seu povo, e por isso perseguido pelos poderosos do seu tempo. No final da sua vida humana, não foi morar nas estrelas, como dizemos às crianças, quando os nossos mais queridos se vão. 

O Nazareno também não ficou “lá em cima”, como se diz, apontando o céu – aquele imenso espaço, perdido no horizonte, que nos manda a chuva, as trovoadas e os raios de sol, e se enfeita de luar e de estrelas brilhantes. 

Para muitos, que buscam ser fieis à Sua mensagem - feito Francisco de Assis e Francisco, o papa, e feito muitos Franciscos e Madalenas que lhe seguem  – Jesus de Nazaré continua vivo, e presente, nas diferentes latitudes do planeta. E não só os pobres, mas muitos ricos e pecadores o seguiram e lhe foram fiéis.

O mandatário de César, o Imperador do seu tempo, após decidir por sua crucificação - o castigo que se dava aos malfeitores da época – acreditava que, com essa decisão tão autoritária e precipitada, o faria calar. E pensava que, com o julgamento tendencioso e a crucificação do Nazareno, o povo iria esquecer os seus feitos, as suas palavras, a sua mensagem. No entanto, Jesus de Nazaré  continuou vivo, de uma forma espantosa, através do testemunho pessoal e coletivo dos que abraçaram a Sua mensagem.


Nesse 1º de maio de 2018, nós brasileiros o vimos, presente, na expressão de luta e Esperança dos trabalhadores que se juntaram – unindo todas as suas diferenças – para formar uma só voz, nos quatro cantos do país, em defesa da democracia brasileira. Uma luta que clama a igualdade de direitos e de justiça para todos. Que não exclui os ricos, nem os que têm grandes empresas e bons empregos. Alguns desses também foram vistos no meio da multidão de Curitiba e de outras capitais. As bandeiras sindicais brasileiras foram levantadas, de forma solidária, em várias capitais da América Latina e da Europa. 

Pode-se dizer que os ventos sopravam o caminho que o Nazareno havia mostrado: o da conciliação e da união, cujo princípio comum é a causa dos pobres e injustiçados: “quando dois ou mais estiverem unidos, em meu nome, (não só para festejar a paz e a alegria, mas para defender a causa dos irmãos perseguidos e injustiçados) Eu estarei com eles”.

Ele mesmo disse, que seriam seus seguidores aqueles que amassem o seu semelhante como a si mesmo. E frisou: Tudo o que fizeres ao menor dos irmãos, é a mim que estarás  fazendo.   

O que vimos em Curitiba, e em inúmeras cidades do Brasil e do mundo, é uma realidade palpável de luta e Esperança, nesses tempos conturbados do nosso país. O povo demonstrou que não deixará que se quebre a corrente pela luta por um Brasil democrático, justo, livre da sedução do poder.

Nesses tempos tenebrosos do Brasil, um dos representantes mais carismáticos dessa luta comum, é o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Quiseram calar a sua voz, e o aprisionaram feito um passarinho na gaiola, impedido de cantar. Mas as suas ideias e a sua mensagem se transformaram no gesto e na força da unidade dos trabalhadores brasileiros. 

Jamais esqueceremos a experiência anterior que tivemos - e que foi golpeada por um golpe anti-democrático - como um ensaio esperançoso de mudanças pacíficas, solidárias, conquistando pouco a pouco padrões de cidadania para os empobrecidos do nosso país. É por essa razão que o povo brasileiro resistirá, unido, e não silenciará. Porque já tivemos os primeiros ensaios de outro jeito novo de governar o país.

No editorial do 1º de maio, do site: www.vermelho.org.br, se afirma: 

"Foi a primeira vez, desde o fim da ditadura, em 1985, que as sete maiores centrais sindicais se uniram em torno de reivindicações específicas dos trabalhadores e de uma bandeira política de grande significado, a defesa da democracia, neste 1º de maio que foi 'fruto da maturidade política' dos trabalhadores, dos democratas e progressistas."

Cabe a nós, agora, encontrar modos de também participar dessa empreitada, com maior vigor. E buscar compreender os sinais dos tempos, no momento que vivemos. Essa não é uma causa partidária, nem de uma só bandeira sindical. Trata-se da causa da maioria dos brasileiros, cada vez mais distanciados dos direitos que haviam conquistado, e que lhes foram tirados.

Lembrei-me, agora, de um vídeo do Vaticano, registrando uma fala do papa Francisco. Perguntado por um jesuíta sobre o que ele achava da congregação assumir posições políticas públicas, o papa lhe respondeu, com firmeza, que não via como, nos dias de hoje, um cristão poder vivenciar o amor fraterno fora da política. E que era necessário sujar as mãos pela causa dos pobres. 


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Créditos das Imagens

1. A imagem de Jesus de Nazaré, é uma reprodução da figura do ator Joaquin Phoenix, no papel de Jesus, no recente filme "Madalena". 
2. A imagem de Lula após a celebração da missa, no dia da sua prisão, foi copiada do site: www.osul.com.br
2. As imagens das mobilizações do 1º de maio, no Brasil e no mundo, são reproduções dos sites www.vermelho.org.be e da revista CartaCapital. 

Nota: Todas as imagens, aqui publicadas, pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida desse espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com




MULHERES ESCRITORAS NA LITERATURA BRASILEIRA

26 de abril de 2018



"Venho de longe, conquistei o mundo de pés descalços. Quero encorajar o meu povo, as mulheres da minha terra: por muito difícil que as condições sejam, caminhem descalças e vençam".  
Paulina Chiziane, romancista moçambicana.


Aos caros leitores do Espaço Poese, trago uma boa notícia neste mês que se insere na comemoração do Dia do Livro: está sendo finalizada, em maio próximo, a produção do meu primeiro livro: Acasos e  Silêncios - Editora Mariposa Cartonera  uma proposta alternativa de editoria. O livro se apresenta com duas partes: uma, de ficção, a outra de poesias. É um sonho que estou realizando ao fazer 80 anos! 

Em comemoração, irei apresentá-lo, na segunda quinzena de julho que vem, aos familiares, amigos, e amigos dos meus amigos. Para os leitores do Espaço Poese, estou em busca de uma forma de oferecê-lo à venda, através de um site confiável. Voltaremos a falar sobre o assunto mais adiante.

Há um mês atrás fui selecionada em primeiro lugar no concurso: I Prêmio de Literatura da Mulher  Idosa  do Estado de Pernambuco, na  modalidade conto, com o título: "A surpreendente Clarice". Diz-se que virá publicado, pela CEPE, junto a mais nove obras premiadas, em prosa e poesia.   Entre as mulheres que concorreram com poesias, o primeiro lugar coube a Marli Marques Pereira Marques, também residente no Recife.

Percebendo como as escritoras do nosso país têm sido “esquecidas” nas antologias brasileiras de literatura, venho pensando como mobilizar nosso interesse pela literatura escrita por mulheres. Nesse meu intento, e na condição de leitora, me ponho as seguintes questões:

— Será que existe apenas o ponto de vista feminino, quando uma autora imagina situações que enredam as relações humanas?

 Além das características pessoais de cada autor, no ofício da escrita, se percebe a presença de uma sensibilidade mulher, no seu modo de engendrar suas histórias e de versejar?  

Sabe-se que a mulher brasileira marcou sua presença bem mais tarde, na história da literatura do país — somando a sua substantiva presença junto aos seus parceiros homens. Embora tenham-se afirmado com excelentes obras — inclusive no exterior  o registro da  presença da mulher, quando se folheia as antologias de literatura brasileira, apresenta um grande descompasso. 

Seguem algumas observações iniciais:

No livro da série Folha Explica  Literatura Brasileira Hojecom 164 páginas, Publifolha, 2004  o professor Manuel da Costa Pinto (mestre em literatura comparada pela USP), apresenta um panorama da literatura brasileira contemporânea. Foi selecionado um total de 60 escritores, entre os quais apenas 6 mulheres (citadas, aqui, em ordem alfabética): Adélia Prado, Ana Miranda, Claudia Roquete Pinto, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Zulmira Ribeiro Tavares. Nessa obra, a relação é de uma escritora para cada dez escritores homens.

Oito anos depois (2012), na importante antologia: A Literatura Brasileira Através dos Textos  29ª edição "revista e ampliada", do professor titular da USP, Massaud Moisés (Ed. Cultrix, 2012), não aparece um só poema da insigne Adélia Prado, e  como no Folha Explica de 2004 não são registrados os significativos contos de Nélida Piñon, nem a escrita surpreendente de Cora Coralina, entre outras graves ausências.

O livro,citado apresenta textos de 90 escritores, em 660 páginas. Um registro  significativo, que inicia com a histórica carta de Pero Vaz de Caminha. E tão minguado é o número das mulheres  honradas com a publicação de trechos de suas obras que podem ser nomeadas aqui: Cecília Meireles, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Raquel de Queiroz. 

Na minha observação de leitora  muito longe do acesso à informação que terá o reconhecido professor da USP, nessa área  a sua edição “revista e ampliada”, do ano de 2012, deixa de registrar significativas obras de reconhecidas escritoras brasileiras. 

Tendo presente a data da edição revista da antologia (2012), vê-se que são anteriores as datas de obras das escritoras "esquecidas".   

— A Global Editora já havia lançado a 2ª. edição (1986) do livro: Estórias da Casa Velha da Ponte, de Cora Coralina;
— A Siciliano já havia lançado Poesia Reunida (1991), da insigne poetisa Adélia Prado;
— A Ática já havia lançado Quarto de Despejo (1992) de Carolina Maria de Jesus;
— A LP&M já havia lançado, em 2000: Cortejo do Divino e Outros Contos Escolhidos, de Nélida Piñon;
— A Record, já estava na 3ª. edição do livro: Pensar é transgredir (2004) de Lya Luft.
— Toda a bibliografia de Clarice Lispector já estava disponível.


Fiquei a pensar numa situação hipotética: alguém decide escrever sobre  obras musicais brasileiras e vem a citar Carlos Gomes e Villa Lobos, mas, no entremeio, deixa de nomear Chiquinha Gonzaga e outros, da época. 

Então, me pergunto: a que serviria as antologias, se os autores decidissem apresentar apenas as obras de sua preferência, deixando de lado a justeza e a abrangência do registro?

No caso da literatura brasileira, se respeitáveis professores não reconhecem obras de prosa e poesia — que efetivamente enriquecem e qualificam a literatura brasileira  imagine se haverá lugar para que as novas gerações de  escritoras seja lembrada, nas antologias que virão.

Pego outro livro, com um referencial histórico específico: Presença da Literatura Brasileira: Modernismo — História e Antologia, dos conhecidos professores Antônio Cândido e José Aderaldo Castello (Ed. Bertrand Brasil, 2015, 15ª edição). São apresentados 20 escritores. Entre esses, estão duas vanguardistas do modernismo no Brasil: Cecília Meirelles Raquel de Queiroz. Os números referenciais são: uma escritora para cada dez escritores homens. A história confirma como as mulheres chegaram devagar, na trilha da literatura do país. Curiosamente, a bibliografia dessa obra inscreve, entre os livros consultados — dos longínquos 1952  o da crítica literária Lúcia Miguel Pereira.
    
Recentemente, encontrei um artigo no acervo da Revista Carta Capital (2016), da jovem escritora Aline Valek. Ela fala de forma contundente sobre a questão que levantamos aqui:

 "(...) é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência de oportunidades”, sustenta. "E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas não recebem tanta projeção". E conclui: "Então, é sobretudo para as ausências que precisamos prestar atenção". 

O que queremos sublinhar, aqui, não parte da ingênua pretensão de se insurgir contra a grande contribuição e o valor alcançado pelos escritores, homens, na história da literatura do país. Não é disso que estamos falando. Estamos falando de uma necessária tomada de atitude, para  no dizer da escritora Aline Valek   prestar mais atenção nas ausências. Prestar mais atenção, e tentar incentivar as preciosas escritas femininas da língua portuguesa, onde quer que apareçam. 

Cada um de nós — mulheres e homens — pode fazer a sua parte para divulgar  a literatura brasileira de uma forma mais justa e inclusiva. Homens e mulheres podem fazer isso, colaborando com as bibliotecas populares de sua cidade, participando das rodas de leitura, pesquisando a produção das editoras e das revistas especializadas, e incentivando atividades nas bibliotecas públicas e nas Academias de Literatura estaduais e interioranas. Essas, surgem e ressurgem, muita vez com o impulso criativo de mulheres, a promover grandes esperanças. 

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Texto citado, de Aline Valeck – publicado em Carta Capital, 27/07/2016.


Créditos das Imagens:

1. Pauline Chiziane - escritora moçambicana, membro do CSCS 
www.folhademaputo.co.mz/pt/noticia/nacional/
2. Vanise Rezende - participando de evento da EdC-Economia de Comunhão: uma audiência com o Papa Francisco - Vaticano-2017.
3. Vanise Rezende - durante evento do Governo do estado de Pernambuco, no momento de receber o I Prêmio Literatura da Mulhe Idosa - 1º lugar/conto.
4. Adelia Prado - escritora brasileira - www.essaseoutras.com.br/adelia-prado-biografia-da-escritora-poemas-melhores-obras-e-fotos.
5.  Clarice Lispector - escritora brasileira - foto da Editora Rocco, no livro: Clarice Lispector - Todos os Contos - 2016.
6.  Lya Luft - escritora brasileira - http://www1.folha.uol.commbr/ilustrada/2017/
7.  Chiquinha Gonzaga - musicista brasileira - http://youtube.com
8.  Aline Valeck - escritora brasileira - www.camillices.com.br


Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


















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