Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

24 de setembro de 2019















CPMI vai revelar fábrica de fake news de Bolsonaro e Steve Bannon, diz Zarattini

Em entrevista, parlamentar explica que as mentiras não são criadas só para prejudicar pessoas políticas, mas também artistas e outras personalidades

 Diálogos do Sul
São Paulo (SP-Brasil)
20 de set de 2019 


Com o objetivo  de abordar temas como a soberania do Brasil, as reformas
trabalhistas e a importância de união dos partidos que fazem oposição ao governo atual, a TV Diálogos do Sul recebe o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), pré-candidato da esquerda à prefeitura de São Paulo, que integra a Frente Parlamentar em defesa da Soberania Nacional, para uma entrevista com o editor da revista, Paulo Cannabrava Filho.
De acordo com Zarattini, a oposição está em um momento em que começa a reorganizar suas forças, um exemplo disso é  a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das fake news, instalada no dia 4 de setembro que, de acordo com o deputado, investigará "o subterrâneo que foi montado pelos bolsonaristas com o apoio de Steve Bannon, essa fábrica de fake news e de propagação das fake news".
O economista explica que as fake news não são feitas somente para prejudicar pessoas políticas. Artistas e outras personalidades também têm sido alvo de ataques, agora os bolsonaristas usam notícias falsas contra inimigos internos, que foi o que “fizeram com Bebiano [Gustavo Bebianno, advogado brasileiro e ex-secretário-geral da Presidência da República].


"Artistas e outras personalidades também têm sido alvo de ataques", diz o deputado.

Outro exemplo, segue o deputado, é o de “Santos Cruz [Carlos Alberto dos Santos Cruz, general de divisão da reserva do Exército Brasileiro e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República], que eles praticamente enxotaram do governo. Só não estão enxotando o [ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio] Moro porque eles têm um certo receio de que isso prejudique a faixada do governo", afirma Zarattini.
O deputado denuncia que na chamada internet subterrânea, ou deep web, existem pessoas da extrema direita que possuem articulações com o objetivo de promover a violência. "Tem muita gente do governo que utiliza essa internet subterrânea e isso a nossa CPMI vai demonstrar", ressalta.
Os membros da CPMI das fake news, composta por 15 senadores e 15 deputados (e igual número de suplentes), se reuniram pela primeira vez na terça-feira (17) e terão 180 dias para investigar a criação de perfis falsos para influenciar as eleições do ano passado e ataques cibernéticos contra a democracia e o debate público.
Resistência
Além dessa conquista, o deputado explica que os parlamentares obtiveram as assinaturas necessárias para CPMI da Lava-Jato. "A gente quer, com base nos vazamentos que foram e estão sendo publicados, ter uma averiguação do que a Operação Lava-Jato fez de irregularidades e são inúmeras", diz.
Carlos Zarattini conta que também no dia 4 de setembro, em defesa da soberania nacional e dos direitos do povo, seis partidos de oposição (PT, PCdoB, PDT, PSOL, PSB e Rede) lançaram em Brasília a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional. E, a partir desse evento nacional, o objetivo é fazer os lançamentos em cada Estado do país.
Respondendo ao comentário de Paulo Cannabrava sobre por que os deputados "deixaram passar as reformas", Zarattini disse que a maioria do Congresso é composto por empresários. "Os deputados, os senadores, a grande maioria são empresários. Então eles, como deputados empresários, atuam diretamente no seu interesse de classe e com a situação que nós estamos, de desemprego, favorece muito a desmobilização sindical", explica.
"Nós fizemos uma luta de minoria e conseguimos reduzir os danos da reforma da Previdência, tivemos uma atuação e a capitalização, por exemplo, não foi consolidada e outras regras que eles queriam aprovar para tirar dos trabalhadores, nós conseguimos tirar do texto”, diz o deputado.
Já com relação à Reforma Trabalhista, Carlos Zarattini diz que “não teve uma única negociação, tudo o que eles quiseram, eles enfiaram goela abaixo”. “Nós tínhamos alguns votos, resistimos, brigamos, mas sem o povo na rua, você não consegue parar o carro desse jeito”, lamenta.
Ver: https://youtu.be/BZ0wS4WkcYU
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* Carlos Alberto Rolim Zarattini  é economista e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores e líder do partido na Câmara dos Deputados. 

Fonte do texto:

https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/brasil/60634/cpmi-vai-revelar-fabrica-de-fake-news-de-bolsonaro-e-steve-bannon-diz-zarattini

BRASIL - A BURRICE NO PODER - LADISLAU DAWBOR

21 de setembro de 2019


















Temos evitado reproduzir, neste espaço, as bombásticas “notícias de efeito” criadas pelo pretenso governo de plantão. As análises do seu desgoverno sim, para que tenhamos subsídios e críticas esclarecedores que venham corroborar a compreensão da conjuntura econômica brasileira e mundial. 

Hoje, iniciamos a publicação de três postagens subsequentes – uma importante análise do economista Ladislau Dowbor, consultor de diversas agências das Nações Unidas, professor da PUC/SP e autor de numerosos livros e estudos técnicos.                             


Publicado originalmente no livro Novos Paradigmas para Outro Mundo Possível - organizado por Ivo Lesbaupin e Mauri Cruz - Usina Editora-Abong - o título “A burrice no poder” pode parecer um pouco provocador, mas pense um pouco: a desigualdade está explodindo no mundo, e as propostas vão no sentido de austeridade não dos que esbanjam, mas dos que mal sobrevivem. O planeta está sendo destruído e o que se vislumbra não é consumo mais inteligente e sim expansão do consumismo irresponsável. A violência se espraia, e a solução seria disseminar mais armas. O homo demens transforma a burrice em bandeira. Uma visão construtiva é fácil de identificar: é só fazer o contrário.
Divirta-se.

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A burrice no poder – 1ª parte
Ladislau Dowbor  - Edição revista em 7 janeiro de 2019

The most intellectual creature ever to walk the earth, is destroying its only home.” – Jane Goodall
                                                        A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como nela se afundar.                                                            

O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso. Barbara Tuchman nos dá uma análise preciosa dos mecanismos, no que ela chama de Marcha da Insensatez: “Uma vez que uma política foi adotada e implementada, toda atividade subsequente se transforma num esforço para justificá-la.” Isso levou, por exemplo, cinco presidentes americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida e documentada, de que era uma causa perdida. A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. (263)

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás - mesmo depois de quatro anos de desastre - não é evidentemente uma coincidência, é a regra.

No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo. Apontar os absurdos não é negativo: corrigir os erros óbvios pode ser mais factível do que buscar distantes utopias. 

A burrice da austeridade

A austeridade, para quem não tenha notado, não funciona. Como diz Stiglitz, nunca funcionou. Por uma razão simples: o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Façam um cálculo simples: o Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços, o montante do nosso PIB. Isso dividido por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano, ou seja, 10 mil reais por mês por família de 4 pessoas. Isso está longe das ambições de consumo da nossa classe média alta, mas assegura, para o comum dos mortais, o suficiente para uma vida digna e confortável.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição. Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa. Portugal tem uma experiência simpática: mandou a austeridade às favas, e está indo de vento em popa. Com uma lei absurda de teto de gastos, nós institucionalizamos o aprofundamento da desigualdade. Já se notou que a austeridade recomendada é a dos pobres que têm pouco, e não a dos ricos que têm muito e ainda esbanjam?

A burrice do golpe

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilómetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante. Um processo firme dez anos seguidos é caminho, não é oportunismo nem voo de galinha. Mesmo porque, para o Brasil, os 150 milhões que precisam melhorar o seu consumo individual e coletivo constituem uma imensa oportunidade de dinamização econômica, um horizonte de expansão. O mercado externo, lembremos, representa apenas 10% da nossa economia.

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem, chamada hoje de “narrativa”, tentando convencer as pessoas que fazer política para o povo é populismo, que o populismo quebrou as contas do Estado e que o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, “a dona de casa” Dilma tem de ir para casa. Mas os números são simples e derrubam essa narrativa: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização
Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas? São adultos, acrescentem as famílias, estamos falando da massa da população.

Quando - entre 2012 e 2013 - a Dilma tenta reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. A Dilma ainda ganha a eleição de 2014, mas como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão, mas alguém tinha de levar a culpa, e buscar um bode expiatório tem sólidas tradições.
Em termos políticos tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro. 
Sim, de 2014 para cá, são muitos anos que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, o Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso. E quanto mais travam a economia, mas explicam que o sacrifício ainda é insuficiente.
No entanto, persiste a narrativa simplória: a Dilma quebrou a economia. É uma farsa. O déficit nas fases Lula e Dilma nunca foi significativo, mesmo incluídos os juros sobre a dívida pública.
Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás mulher e teimosa, vítima ideal. O poder dos bancos funciona hoje apenas para os banqueiros e para os rentistas. Na linha de uma charge americana, podemos dizer que o nosso problema é que uma minoria que ganha 500 mil por mês conseguiu convencer os grupos que ganham 50 mil por mês de que o problema do país são as pessoas que ganham mil reais por mês. Acredite quem quiser.
Os arrependidos da quebra da legalidade hoje são qualificados de viúvas do golpe. Abriram as portas para o absurdo total que hoje vivemos, prolongamento da burrice econômica por meio da burrice política.

A base evidente e o elementar bom senso indicam que o que funciona é a representatividade do poder, na linha do artigo 1º da nossa Constituição: “Todo poder emana do povo”. Neste sentido fundamental, o de representar o povo, o novo governo eleito não é legítimo. Foi eleito porque o candidato legítimo e que ia ganhar foi preso, porque a mídia comercial criou um fanatismo anti-petista, porque recorreram a uma escala industrial de fakenews, e porque uma facada criminosa lhe conferiu uma aura de vítima e lhe evitou o vexame de submeter as suas visões a debate.

Não se trata de “reconhecer” ou não o candidato eleito, mas sim de reconhecer que sua representatividade é pífia, e que pensar em desenvolver um país moderno sobre a base de um poder de extrema-direita não faz nenhum sentido. Para se sustentar, precisará se submeter ao grande vizinho do Norte, abrir ainda mais as portas aos interesses predatórios nacionais e internacionais, e mobilizar em permanência o ódio contra o que apresentará como “os inimigos”, desde já escolhidos como futuros culpados do não funcionamento do seu governo. A perseguição e a violência tendem a ser um caminho natural para a insensatez. A incompetência está sempre à procura de bodes expiatórios.
A burrice do rentismo

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. O lucro sobre aplicações financeiras constitui dividendos, assegura grandes retornos para quem não produz nada. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.
O manual britânico sobre o funcionamento da moeda explica o efeito bola de neve, financial snow-ball effect: papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. Por exemplo, um bilionário que aplica o seu dinheiro a modestos 5% ao ano ganha 137 mil dólares ao dia, sem precisar produzir nada. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. No curto e médio prazo, funciona muito para o 1%. Como institucionalização da remuneração dos improdutivos muito superior à dos que produzem, não funciona para o conjunto. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez. Não é preciso ir muito longe para aprender algo de positivo: a China controla o seu sistema financeiro para que seja utilizado produtivamente, os alemães usam a rede de caixas de poupança locais (sparrkassen) assegurando que o dinheiro seja investido no que a comunidade necessita. Sabemos o que funciona: é quando o dinheiro é investido produtivamente.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção e, portanto, emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que cobrem o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio, os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.
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Portal de Ladislau Dowbor - http://dowbor.org
Contato -  ldowbor@gmail.com




Crédito das Imagens:

1. Imagem de abertura - www.bancariosce.org.br
2. Livro: Novos Paradigmas - www.abong.org.br
3. Foto Ladislaus Dawbor - www.pt.wikpedia.org
4. Capas livros de Dawbor - www.buscape.br e Dawbor.org
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Nota: As imagens aqui postadas são dos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução, por favor comunique-se conosco, fazendo um comentário nesta postagem. Agradecemos. 





PAPA FRANCISCO EM MADAGASCAR: A POBREZA NÃO É UMA FATALIDADE

14 de setembro de 2019


O país de Madagascar é uma grande ilha, situada perto da costa sudeste da África, com florestas tropicais, lindas praias e recifes. Perto da sua capital Antananarivo, há uma encosta com um complexo de palácios reais e tumbas – “Ambohimanga”, e a belíssima  "Avenida dos Baobás"  uma estrada de terra ladeada de grandes árvores centenárias. A população fala malgaxe, sua língua nativa, e o idioma francês, uma herança do país que o colonizou.

A descrição acima podeira ser de um site de turismo. Mas, longe de viajar por interesses turísticos, Papa Francisco foi visitar dois grandes países insulares africanos, no início deste mês: Madagascar e Moçambique, pois ele bem conhece a vulnerabilidade desses povos, e talvez porque queria mostrar ao mundo a força de um projeto/cidade exemplar, mantido pelo povo da "Cidade da Amizade"/Akamasoa, na capital de Madagascar, com a presença e o apoio de um missionário argentino que fora seu aluno.  

A matéria que reproduzimos abaixo, é parte de um relato da visita de Papa Francisco a esse projeto. As palavras do papa e a força da sua presença significaram um grande alento para os participantes do projeto e, entre esses, centenas de trabalhadores e trabalhadoras de uma pedreira de pedras preciosas. No final, o papa nos presenteia com uma prece comovente, exaltando a fé, o trabalho e a garra daquele povo.



A pobreza não é uma fatalidade – diz Papa Francisco
em  Madagascar

Essa reportagem - publicada na revista “America”, dos jesuítas, por Gerard O’Connell, foi traduzida por Isaque Gomes Correa para o portal do ihu.unisinos  em 8/09/2019.

A pobreza não é uma fatalidade”, disse Papa Francisco ao visitar Akamasoa, “A Cidade da Amizade”, cuja construção foi iniciada em Madagascar em 1989, por Padre Pedro Pablo Opeka, missionário argentino, com o apoio da comunidade local. O papa saudou esse extraordinário projeto vendo-o como um “testemunho profético de esperança”.

Akamasoa “é uma expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre, não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo.” – escreveu Papa Francisco, no Twiter. Segue um texto reduzido da reportagem.

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Cerca de 8 mil crianças e jovens se fizeram presentes no local e não esconderam a alegria enquanto cantavam em uníssono à espera da chegada do papa. O presidente de Madagascar e sua esposa estavam presentes. 

A atmosfera estava eletrizante e o lugar irrompeu com uma emoção e uma alegria incontroláveis quando o Papa Francisco adentrou o amplo salão junto com Padre Opeka. Quando eles entraram, centenas de meninas enfileiradas no centro do salão, tremulavam bandeirinhas  das cores da roupa que vestiam   azul, branco, amarelo e rosa, que são as cores da "Cidade da Amizade" Akamasoa, como é chamada pela população local. Enquanto o papa entrava, elas cantavam um famoso hino espanhol  Dios està aquí. O olhar de imensa alegria no rosto de Francisco revelava a sua felicidade interior de estar aqui.

Padre Pedro Opeka deu as boas-vindas ao Papa Francisco e explicou que, em 1989, aquela “era uma região de exclusão, sofrimento, violência e morte”, mas que, nos últimos 30 anos, “a Divina Providência criara um ‘oásis de esperança’ – as crianças reconquistaram a dignidade, os jovens conseguiram trabalho e seus pais trabalhavam para preparar um futuro para seus filhos”.

“Erradicamos a pobreza extrema deste lugar graças à fé, ao trabalho, aos estudos, ao respeito recíproco e à disciplina” – disse Opeka a Francisco, agradecendo-lhe por sua vinda:  “A sua presença aqui é uma graça e uma bênção que redobra a nossa coragem de combater a pobreza”. Em seguida, uma jovem da "Cidade da Amizade" se expressou, diante do papa, relatando o que significou para a sua vida a convivência e o trabalho naquele projeto.

No início da sua fala, o Papa Francisco confidenciou aos jovens que o Padre Opeka tinha sido seu aluno de teologia em 1968, na Argentina, e acrescentou – provocando risadas dos presentes – “Ele não queria muito estudar, só queria trabalhar”. Manifestou a sua alegria de estar em "Akamasoa, dizendo que aquele projeto/cidade "é uma expressão da presença de Deus no meio do povo pobre”, não uma presença esporádica, casual: “é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo”. 

“Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia” – disse o papa, afirmando que os clamores dessas pessoas “nasceu do fato delas não poderem mais viver sem um teto, e ver os filhos crescerem desnutridos, sem trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos. Seus clamores transformaram-se em cânticos de esperança para vocês e aqueles que os contemplam”. O papa se referia às casas, escolas e dispensários do bairro, dizendo que tudo aquilo era “um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade”.

“Digamos com força: a pobreza não é uma fatalidade!”

papa afirmou que a cidade de Akamasoa reflete uma “longa história de coragem e ajuda mútua  o resultado de muitos anos de trabalho duro”. Aqui, ele afirmou, “encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de mover montanhas. Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição”.

Lembrou que os “alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vocês, mas entre vocês”, e que isso deu “a possibilidade de vocês serem os protagonistas e os artífices desta história”. Tudo isso - ele continuou - leva o povo a compreender que “faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário”. “Não há escravidão pior – como nos lembrou o Padre Pedro – do que viver cada um só para si”.

Dirigindo-se aos jovens de Akamasoa, Francisco incentivou-os para que “nunca desistam diante dos efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos”. Exortou-os a continuar a obra iniciada pelos mais velhos e disse que eles encontrarão a força para isso na fé e no testemunho vivo dos mais velhos. O papa também encorajou os jovens a pedirem a Deus para fazê-los “servir generosamente os irmãos e irmãs”.

Por fim, o papa rezou para que  Akamasoa  difunda, no  Madagascar inteiro e em outras partes do mundo, “o esplendor desta luz [e que] se possa alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho”. Concluiu invocando a bênção de Deus sobre o Padre Opeka e todos os habitantes de Akamasoa, pedindo também que os participantes do evento rezassem por ele.

Em seguida, dirigiu-se a pedreira Mahatazana - uma região também administrada pelo projeto Akamasoa. Lá, cerca de 700 trabalhadores são empregados para a extração de pedras preciosas. Num encontro com música e breves discursos, Papa Francisco recitou a sua prece por todos os  trabalhadores e trabalhadoras - e não só os da pedreira Mahatazana, como ele enfatizou.

Finalizando sua visita a Madagascar, o papa foi ao Collège Saint Michel, faculdade jesuíta onde se encontrou com padres, religiosos, religiosas e seminaristas. Seu compromisso final do dia foi uma reunião privada com a comunidade local dos jesuítas. 

  
    Súplica de Papa Francisco pelos Trabalhadores e 
Trabalhadoras - diante dos operários da pedreira Mahatazana. 

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra, nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui, como irmãos, em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem.

Nós Vos pedimos por todos os trabalhadores! Por aqueles que trabalham com as próprias mãos, com enorme esforço físico.

Preservai os seus corpos do desgaste excessivo! Que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e de brincar com eles.

Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo, para que não sejam esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita assegurar uma vida digna às suas famílias. E que à noite, encontrem nelas calor, conforto e encorajamento, e juntos, reunidos sob o vosso olhar, conheçam as verdadeiras alegrias.

Que as suas famílias saibam que a alegria de ganhar o pão é perfeita, quando este pão é partilhado.

Que as suas crianças não sejam forçadas a trabalhar, mas possam ir à escola e continuar os seus estudos. E que os seus professores consagrem tempo a essa tarefa, sem precisarem de outras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes: que eles provejam a tudo o que é necessário para assegurar, a quantos trabalham, um salário digno e condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai daqueles que não têm trabalho, e fazei que o desemprego, causa de tantas misérias, desapareça das nossas sociedades.

Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade: que procurem velar uns pelos outros, encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, ajudar a levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio, ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança de ver um mundo melhor e trabalhe para que isso aconteça. Juntos, e de forma construtiva, que eles saibam fazer valer os seus direitos e que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus, nosso Pai, Vós destes como protetor dos trabalhadores do mundo inteiro São José, pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria: a Ele, entrego todos que trabalham aqui, em Akamasoa, e todos os trabalhadores de Madagascar, especialmente aqueles que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho e os sustente na sua vida e na sua esperança. Amém!

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Fonte da reportagem:


Observação: Aos que desejam conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Papa Francisco, vejam a tradução de uma publicação de 25/04/2018, na revista “America” – uma revista dos jesuítas americanos, que publica a íntegra do importante pronunciamento de Robert W. McElroy,  bispo de San Diego, EUA, proferido na Loyola University de Chicago, fazendo uma análise das proposições do papa no âmbito de três pilares fundamentais: a paz, a pobreza e a Terra Mãe. Segue a url:



Créditos das imagens:

1 - Alamaeda dos Baobás - em Moçambique - reprodução.
2 - Maputo, no oeste da África, e a ilha de Moçambique - www.ajsgem.com
3 - Painel com Papa Francisco, em Moçambique - www.rappler.com
4 - Alameda dos Baobás - reprodução.

Nota: As imagens aqui postadas são dos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução, que se comunique conosco por meio de um comentário nesta postagem. 











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