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PAPA FRANCISCO EM MADAGASCAR: A POBREZA NÃO É UMA FATALIDADE

14 de setembro de 2019


O país de Madagascar é uma grande ilha, situada perto da costa sudeste da África, com florestas tropicais, lindas praias e recifes. Perto da sua capital Antananarivo, há uma encosta com um complexo de palácios reais e tumbas – “Ambohimanga”, e a belíssima  "Avenida dos Baobás"  uma estrada de terra ladeada de grandes árvores centenárias. A população fala malgaxe, sua língua nativa, e o idioma francês, uma herança do país que o colonizou.

A descrição acima podeira ser de um site de turismo. Mas, longe de viajar por interesses turísticos, Papa Francisco foi visitar dois grandes países insulares africanos, no início deste mês: Madagascar e Moçambique, pois ele bem conhece a vulnerabilidade desses povos, e talvez porque queria mostrar ao mundo a força de um projeto/cidade exemplar, mantido pelo povo da "Cidade da Amizade"/Akamasoa, na capital de Madagascar, com a presença e o apoio de um missionário argentino que fora seu aluno.  

A matéria que reproduzimos abaixo, é parte de um relato da visita de Papa Francisco a esse projeto. As palavras do papa e a força da sua presença significaram um grande alento para os participantes do projeto e, entre esses, centenas de trabalhadores e trabalhadoras de uma pedreira de pedras preciosas. No final, o papa nos presenteia com uma prece comovente, exaltando a fé, o trabalho e a garra daquele povo.



A pobreza não é uma fatalidade – diz Papa Francisco
em  Madagascar

Essa reportagem - publicada na revista “America”, dos jesuítas, por Gerard O’Connell, foi traduzida por Isaque Gomes Correa para o portal do ihu.unisinos  em 8/09/2019.

A pobreza não é uma fatalidade”, disse Papa Francisco ao visitar Akamasoa, “A Cidade da Amizade”, cuja construção foi iniciada em Madagascar em 1989, por Padre Pedro Pablo Opeka, missionário argentino, com o apoio da comunidade local. O papa saudou esse extraordinário projeto vendo-o como um “testemunho profético de esperança”.

Akamasoa “é uma expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre, não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo.” – escreveu Papa Francisco, no Twiter. Segue um texto reduzido da reportagem.

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Cerca de 8 mil crianças e jovens se fizeram presentes no local e não esconderam a alegria enquanto cantavam em uníssono à espera da chegada do papa. O presidente de Madagascar e sua esposa estavam presentes. 

A atmosfera estava eletrizante e o lugar irrompeu com uma emoção e uma alegria incontroláveis quando o Papa Francisco adentrou o amplo salão junto com Padre Opeka. Quando eles entraram, centenas de meninas enfileiradas no centro do salão, tremulavam bandeirinhas  das cores da roupa que vestiam   azul, branco, amarelo e rosa, que são as cores da "Cidade da Amizade" Akamasoa, como é chamada pela população local. Enquanto o papa entrava, elas cantavam um famoso hino espanhol  Dios està aquí. O olhar de imensa alegria no rosto de Francisco revelava a sua felicidade interior de estar aqui.

Padre Pedro Opeka deu as boas-vindas ao Papa Francisco e explicou que, em 1989, aquela “era uma região de exclusão, sofrimento, violência e morte”, mas que, nos últimos 30 anos, “a Divina Providência criara um ‘oásis de esperança’ – as crianças reconquistaram a dignidade, os jovens conseguiram trabalho e seus pais trabalhavam para preparar um futuro para seus filhos”.

“Erradicamos a pobreza extrema deste lugar graças à fé, ao trabalho, aos estudos, ao respeito recíproco e à disciplina” – disse Opeka a Francisco, agradecendo-lhe por sua vinda:  “A sua presença aqui é uma graça e uma bênção que redobra a nossa coragem de combater a pobreza”. Em seguida, uma jovem da "Cidade da Amizade" se expressou, diante do papa, relatando o que significou para a sua vida a convivência e o trabalho naquele projeto.

No início da sua fala, o Papa Francisco confidenciou aos jovens que o Padre Opeka tinha sido seu aluno de teologia em 1968, na Argentina, e acrescentou – provocando risadas dos presentes – “Ele não queria muito estudar, só queria trabalhar”. Manifestou a sua alegria de estar em "Akamasoa, dizendo que aquele projeto/cidade "é uma expressão da presença de Deus no meio do povo pobre”, não uma presença esporádica, casual: “é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo”. 

“Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia” – disse o papa, afirmando que os clamores dessas pessoas “nasceu do fato delas não poderem mais viver sem um teto, e ver os filhos crescerem desnutridos, sem trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos. Seus clamores transformaram-se em cânticos de esperança para vocês e aqueles que os contemplam”. O papa se referia às casas, escolas e dispensários do bairro, dizendo que tudo aquilo era “um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade”.

“Digamos com força: a pobreza não é uma fatalidade!”

papa afirmou que a cidade de Akamasoa reflete uma “longa história de coragem e ajuda mútua  o resultado de muitos anos de trabalho duro”. Aqui, ele afirmou, “encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de mover montanhas. Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição”.

Lembrou que os “alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vocês, mas entre vocês”, e que isso deu “a possibilidade de vocês serem os protagonistas e os artífices desta história”. Tudo isso - ele continuou - leva o povo a compreender que “faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário”. “Não há escravidão pior – como nos lembrou o Padre Pedro – do que viver cada um só para si”.

Dirigindo-se aos jovens de Akamasoa, Francisco incentivou-os para que “nunca desistam diante dos efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos”. Exortou-os a continuar a obra iniciada pelos mais velhos e disse que eles encontrarão a força para isso na fé e no testemunho vivo dos mais velhos. O papa também encorajou os jovens a pedirem a Deus para fazê-los “servir generosamente os irmãos e irmãs”.

Por fim, o papa rezou para que  Akamasoa  difunda, no  Madagascar inteiro e em outras partes do mundo, “o esplendor desta luz [e que] se possa alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho”. Concluiu invocando a bênção de Deus sobre o Padre Opeka e todos os habitantes de Akamasoa, pedindo também que os participantes do evento rezassem por ele.

Em seguida, dirigiu-se a pedreira Mahatazana - uma região também administrada pelo projeto Akamasoa. Lá, cerca de 700 trabalhadores são empregados para a extração de pedras preciosas. Num encontro com música e breves discursos, Papa Francisco recitou a sua prece por todos os  trabalhadores e trabalhadoras - e não só os da pedreira Mahatazana, como ele enfatizou.

Finalizando sua visita a Madagascar, o papa foi ao Collège Saint Michel, faculdade jesuíta onde se encontrou com padres, religiosos, religiosas e seminaristas. Seu compromisso final do dia foi uma reunião privada com a comunidade local dos jesuítas. 

  
    Súplica de Papa Francisco pelos Trabalhadores e 
Trabalhadoras - diante dos operários da pedreira Mahatazana. 

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra, nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui, como irmãos, em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem.

Nós Vos pedimos por todos os trabalhadores! Por aqueles que trabalham com as próprias mãos, com enorme esforço físico.

Preservai os seus corpos do desgaste excessivo! Que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e de brincar com eles.

Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo, para que não sejam esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita assegurar uma vida digna às suas famílias. E que à noite, encontrem nelas calor, conforto e encorajamento, e juntos, reunidos sob o vosso olhar, conheçam as verdadeiras alegrias.

Que as suas famílias saibam que a alegria de ganhar o pão é perfeita, quando este pão é partilhado.

Que as suas crianças não sejam forçadas a trabalhar, mas possam ir à escola e continuar os seus estudos. E que os seus professores consagrem tempo a essa tarefa, sem precisarem de outras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes: que eles provejam a tudo o que é necessário para assegurar, a quantos trabalham, um salário digno e condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai daqueles que não têm trabalho, e fazei que o desemprego, causa de tantas misérias, desapareça das nossas sociedades.

Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade: que procurem velar uns pelos outros, encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, ajudar a levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio, ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança de ver um mundo melhor e trabalhe para que isso aconteça. Juntos, e de forma construtiva, que eles saibam fazer valer os seus direitos e que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus, nosso Pai, Vós destes como protetor dos trabalhadores do mundo inteiro São José, pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria: a Ele, entrego todos que trabalham aqui, em Akamasoa, e todos os trabalhadores de Madagascar, especialmente aqueles que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho e os sustente na sua vida e na sua esperança. Amém!

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Fonte da reportagem:


Observação: Aos que desejam conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Papa Francisco, vejam a tradução de uma publicação de 25/04/2018, na revista “America” – uma revista dos jesuítas americanos, que publica a íntegra do importante pronunciamento de Robert W. McElroy,  bispo de San Diego, EUA, proferido na Loyola University de Chicago, fazendo uma análise das proposições do papa no âmbito de três pilares fundamentais: a paz, a pobreza e a Terra Mãe. Segue a url:



Créditos das imagens:

1 - Alamaeda dos Baobás - em Moçambique - reprodução.
2 - Maputo, no oeste da África, e a ilha de Moçambique - www.ajsgem.com
3 - Painel com Papa Francisco, em Moçambique - www.rappler.com
4 - Alameda dos Baobás - reprodução.

Nota: As imagens aqui postadas são dos seus respectivos autores. Se algum deles não estiver de acordo com a sua reprodução, que se comunique conosco por meio de um comentário nesta postagem. 











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