Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A FALTA DE VERGONHA NA CORRUPÇÃO BRASILEIRA

28 de julho de 2016

A falta de vergonha e a ausência de culpa
na corrupção brasileira

Leonardo Boff (i)

Depois que surgiu a psicanálise, a nova hermenêutica e o estruturalismo, não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há um universo pré-consciente, subconsciente,  inconsciente (pessoal e coletivo) e pressupostos subjacentes às nossas práticas, que têm que ser tomados em conta.

Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos: são os legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem no nosso inconsciente coletivo, e que são pressupostos não pensados que nos ajudam a entender fenômenos atuais como, por exemplo, a tresloucada corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: a cultura grega e a cultura judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é o do herói. Ter vergonha para os gregos consistia em se frustrar em qualquer empreendimento, como na guerra e na convivência social. Perder uma batalha constituía uma vergonha coletiva para todo um povo. Perder numa competição nas Olimpíadas provocava vergonha. Triunfar e ser bem sucedido preenchia os requisites do herói.

Hoje, esta categoria está presente em nossa sociedade. É um herói o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7×1 na Copa Mundial de futebol contra a Alemanha. Conseguir altos índices de crescimento e de lucro de uma empresa faz do empresário um herói. Perder uma eleição produz vergonha. A vergonha tem a ver com a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se sentirem envergonhadas.


A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez é por culpa de um dos parceiros. Se há uma desgraça ecológica é por culpa dos moradores que se instalaram em áreas de risco. Às vezes, colocamos a culpa em nós mesmos por um acidente de tráfico, por erros que produzem uma ruinosa administração ou porque roubamos dinheiro público e nos tornamos corruptos.

A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercussão não é tanto diante dos outros, que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência. Esta nos remete logo a Deus, pois entre a consciência e Deus não há mediação. 
Estamos direta e imediatamente diante dele.

A culpa nos causa remorsos. Com o dinheiro desviado da merenda escolar, se tiver um mínimo de consciência ética a pessoa percebe que está prejudicando crianças que começam a passar fome. O sentimento de culpa pede reparação e cobra uma punição. O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa” (santa) no sentido bíblico.


Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constituem as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros, e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta. Pode dormir tranquilo e não temer a maledicência pública.


Qual é o nosso problema concernente à escandalosa corrupção passiva e ativa no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos.


Mesmo surpreendidos no ato de corrupção ouvimos sempre o mesmo mote: “não sou culpado de nada”, “sou injustiçado”, “sou completamente inocente”. E se trata de pessoas notória e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma  importância à vergonha pública de seus atos. Seguem desfilando tranquilos pela cidade, e a frequentar os melhores restaurantes. Raramente ouve-se a indignação ética por parte de alguns com os gritos de “corrupto, ladrão”. Mas os corruptos nem se incomodam e continuam no seu desfrute.

Aristóteles, na sua Ética a Nicômano, estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciência ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente um “sem vergonha”, um mau caráter, sem o sentido dos valores.

Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós no Brasil, numa especial de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo vírus da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos.

Mas ela chegou, nos dias atuais, a níveis tão escandalosos, que não podem mais ser tolerados pela sociedade e pelos cidadãos que ainda guardam uma consciência ética do que é reto e correto, justo e bom. Cobra-se rigorosa investigação e condenação.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

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Leonardo Boff é articulista do JB on line, foi professor de ética na UERJ e em Heidelberg na Alemanha. Publicado no site Leonardo BOFF, em 22/07/2016

Créditos das Imagens:

1. Retrato de Mariana Moura - pintora - de: Roberto Ploeg - www.robertoploeg.blogspot.com /Atelier Ploeg www.facebook.com
2. Desespero, o.s.t., 40x30cm - 2013 - de: Roberto Ploeg
3. Rapaz com mão no nariz, o.s.t. - de Roberto Ploeg
4. Panelaço contra Temer-Av. Paulista - Fotógrafo: Carlos Vilela (EFE),
    in: www.brasil.elpaís.com - 16.05.2016

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LITERATURA - JOÃO GUIMARÃES ROSA

3 de julho de 2016

GRANDE SERTÃO:VEREDAS 

 - João Guimarães Rosa  


O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, 
ainda não foram terminadas
 – mas que elas vão sempre mudando
Afinam ou desafinam. Verdade maior. 
É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão". (i)



                                                                                                                                                                   
Para o grande escritor e poeta João Guimarães Rosa, a ideia das diferentes diferenças e da capacidade de mudar das pessoas, de se reorientar – de dentro para fora, – era “uma alegria de montão”.

Será que conseguimos pensar assim, quando observamos as contínuas mudanças das pessoas mais próximas: amigos e amigas, namorados e namoradas, maridos e esposas, filhos e filhas, genros e noras? 

Há sempre o que se aprender sobre as relações humanas, para que as mudanças observadas nas pessoas tragam alegria de montão à nossa vida.

Entremos num acordo de que a nós não cabe discernir que as mudanças das pessoas com quem convivemos devam ser tais ou quais, assim como concebemos nós do nosso lugar no mudo.



A grande intuição de Guimarães Rosa é que as pessoas não estão sempre iguais, pois ainda não foram terminadas – e que elas estão sempre mudando. 


Ele demonstra acreditar essas mudanças são para o melhor que cada um de nós está continuamente a estabelecer para si ou para o outro, e sabe muito bem o quanto o outro é diferente de si.

No entanto, é comum alguém se encontrar a comentar com os amigos sobre a surpreendente visão que tem das mudanças que vê acontecer naqueles com quem convive: – Ele não podia ter feito isso...; – Ela não tinha que fazer assim...; – Eu pensava que eles...

Quanto nos falta de desconfiômetro! 

 
O diálogo é a melhor forma de mostrar interesse por alguém. Estar ao seu lado, escutá-lo com serenidade  e, ao ouvi-lo, ou ouvi-la, tentar imaginar a si mesmo em seu lugar, para entender o seu ponto de vista. Com essas pequenas atenções, e sem precisar insistir dando-lhe "conselho”, o outro ainda nos pode surpreender, mais tarde, com a decisão que escolheu assumir.  

Todos sabemos que, ao final, cada um se expressa, na convivência, com o seu jeito próprio de ser. E, quando não se sente seguro de fazê-lo, é porque não encontra espaços de compreensão e liberdade para ser o que é. 

É claro que existem convivências problemáticas, pessoas que se enroscam em si mesmas e não conseguem ver nada além do seu próprio nariz, do seu próprio desejo, da sua imutável visão das coisas. Para essas pessoas, existem os profissionais da área, psicólogos e psiquiatras que as ajudam a encontrar sua forma de melhor conviver, e de entender melhor os outros.  

Sem esquecer que as pessoas ...estão sempre mudando. 
                                                 Afinam ou desafinam. Verdade maior.


Pensando bem, não é coisa tão simples de se alcançar, como sugere a sábia e profunda escrita poética de Guimarães Rosa. Conviver é coisa dura e difícil, parecida com os caminhos do cenário sertanejo das Minas Gerais que o autor descreve no seu livro “Grande Sertão: Veredas”.  


Em muitas religiões a orientação é buscar respeitar esse jeito das pessoas que ora estão agradáveis, afinadas, compreensivas, ora desafinam, e se desdobram em maus humores de muitas faces. É aí que o amor fraterno requer de cada um de nós a capacidade de acolher o outro como ele é, ou... como ele se mostra ser em suas contínuas mudanças.


Acolher as nossas recíprocas diferenças é o caminho maior, - certas vezes muito exigente - mas carregado de possibilidades de boa convivência. O importante é decidir começar primeiro. Ser o primeiro a dar o passo necessário para o recomeço.

Como fazer, então? “...Precisa ter ânimo, energia e paciência forte”. 


Mas, tomada a decisão, o escritor sugere que se deve “dar tudo a Deus, que de repente vem com novas coisas mais altas, e paga e repaga, os juros dele não obedecem medida nenhuma”. 

E conclui:

                    “ É o que a vida me ensinou.
                      Isso que me alegra montão". 


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(i) Citações retiradas do romance Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa Ed. Nova Fronteira. Biblioteca do Estudante. Rio de Janeiro, 2006.p.23/1

 Crédito Imagens : www.canstockphoto.com.br



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