Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A DEMOCRACIA BRASILEIRA E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL

24 de abril de 2016

Proponho o artigo abaixo para leitura e para fazê-lo circular entre amigos e colegas de trabalho interessados em fontes de informação confiáveis. 
Como se sabe, a encenação do Senado será mais um capítulo da série de fatos anti-democráticos e anti-Brasil, embora todos se apresentem envoltos na sua bandeira. É mais uma tentativa de ratificar a grande farsa dos interessados no grande circo montado, o que conspurca a história da nossa democracia, conquistada e construída também com a vida de muitas vítimas dos dois longos períodos de ditadura no Brasil. 
A Sociedade Civil continuará trabalhando, com inventividade, para robustecer a presença, a consciência e a força da expressão cidadã em nosso país. 

A CRISE BRASILEIRA E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL

Leonardo Boff (i)


Seria errôneo pensar a crise do Brasil apenas a partir do Brasil. Este está inserido no equilíbrio de forças de âmbito mundial, na assim chamada nova guerra fria que envolve principalmente os EUA e a China. A espionagem norte-americana, como revelou Snowden atingiu a Petrobrás e as reservas do pré-sal e não poupou até a presidenta Dilma. Isto é parte da estratégia do Pentágono de cobrir todos os espaços sob o lema: ”Um só mundo e um só império”. Eis alguns pontos que nos fazem refletir.
No contexto global há uma ascensão visível da direita no mundo inteiro, a partir dos próprios EUA e da Europa. Na América Latina está se fechando um ciclo de governos progressistas que elevaram o nível social dos mais pobres e firmaram a democracia. Agora, (os países latino-americanos) estão sendo assolados por uma onda direitista que já triunfou na Argentina e está pressionando todos os países sul-americanos. Falam, como entre nós, de democracia mas, na verdade querem torná-la insignificante para dar lugar ao mercado e à internacionalização da economia.
O Brasil é o principal atingido e o impedimento da presidenta Dilma é apenas um capítulo de uma estratégia global, especialmente das grandes corporações e pelo sistema financeiro articulado com os governos centrais. 
Os grandes empresários nacionais querem voltar ao nível de ganho que tinham sob as políticas neo-liberais, anteriores a Lula. A oposição a Dilma e o apoio ao seu impedimento possui um viés patronal. A Fiesp com o Skaf, a Firjan, as Federações do Comércio de São Paulo, a Associação Brasileira da Indústria Eletrônica e Eletrodomésticos (Abinee), entidades empresariais do Paraná, Espírito Santo, Pará, e muitas redes empresariais, estão já em campanha aberta pelo impedimento e pelo fim do tipo de democracia social implantada por Lula e Dilma.
A estratégia ensaiada contra a “primavera árabe” e aplicada no Oriente Médio e agora no Brasil e na América Latina em geral, consiste em desestabilizar os governos progressistas e alinhá-los às estratégias globais como sócios agregados. É sintomático que em março de 2014 Emy Shayo, analista do JB Morgan, coordenou uma mesa redonda com publicitários brasileiros ligados à macroeconomia neoliberal com o tema:Como desestabilizar o governo Dilma”. Armínio Fraga, provável ministro da fazenda num eventual governo pós-Dilma, vem do JB Morgan (cf. blog de Juarez Guimarães, ”Por que os patrões querem o golpe”).
Noam Chomski, Moniz Bandeira e outros advertiram que os EUA não toleram uma potência como o Brasil, no Atlântico Sul, que tenha um projeto de autonomia, vinculado aos BRICS. Causa grande preocupação à política externa norte-americana a presença crescente da China, seu principal contendor, pelos vários países da América Latina, especialmente no Brasil. Fazer frente a outro anti-poder, que significam os BRICS, implica atacar e enfraquecer o Brasil, um de seus membros com uma riqueza ecológica sem igual.
Talvez o nosso melhor analista da política internacional, Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de “A segunda Guerra Fria – geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos” (Civilização Brasileira, 2013) e o deste ano: “A desordem internacional” (da mesma editora) nos ajude a entender os fatos. Ele trouxe detalhes de como agem os EUA: ”Não é só a CIA… Especialmente as ONGs financiadas pelo dinheiro oficial e semi-oficial, como a USAID e a National Endwoment for Democracy, atuam comprando jornalistas e treinando ativistas”. 
O “The Pentagon´s New Map for War & Peace” enuncia as formas de desestabilização econômica e social através dos meios de comunicação, jornais, redes sociais, empresários, e da infiltração de ativistas.  Moniz Bandeira chega a afirmar: “não tenho dúvida de que no Brasil os jornais estão sendo subsidiados…e que jornalistas estão na lista de pagamento dos órgãos citados acima e muitos policiais e comissários recebem dinheiro da CIA diretamente em suas contas” (cf. Jornal GGN de Luis Nassif de 09/03/2016). Podemos até imaginar quais seriam esses jornais e os nomes de alguns jornalistas, totalmente alinhados à ideologia desestabilizadora de seus patrões.
Especialmente o pré-sal, a segunda maior jazida de gás e de petróleo do mundo, está na mira dos interesses globais. O sociólogo Adalberto Cardoso da UERJ, numa entrevista à Folha de São Paulo (26/04/2015) foi explícito: “Seria ingenuidade imaginar que não há interesses internacionais e geopolíticos de norte-americanos, russos, venezuelanos, árabes. Só haveria mudança na Petrobrás se houvesse nova eleição e o PSDB ganhasse de novo. Nesse caso, se acabaria o monopólio de exploração, as regras mudariam. O empeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobrás: grandes companhias de petróleo, agentes internacionais que têm a ganhar com a saída da Petrobrás da exploração de petróleo. Parte desses agentes quer tirar Dilma“.
Não estamos diante de um pensamento conspiratório, pois já sabemos como agiram os norte-americanos no golpe militar em 1964, infiltrados nos movimentos sociais e políticos. Não é sem razão que a quarta frota norte-americana do Atlântico Sul está perto de nossas águas.
Devemos nos conscientizar de nossa importância no cenário mundial, resistir e buscar o fortalecimento de nossa democracia, que represente menos os interesses das empresas e mais as demandas tão olvidadas de nosso povo e a construção de nosso próprio caminho rumo ao futuro.
(i) Artigo publicado em 20/04/2016 no blog: 
 Leonardo Boff.wordpress.com 
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Crédito Imagens:
Vanise Rezende - arquivo Espaço Poese 
Presidente Dilma na ONU - New York, 22/4/2016
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A INFANTILIZAÇÃO DA POLÍTICA BRASILEIRA

18 de abril de 2016

Não sei se adormeci de cansaço ou de uma profunda tristeza, pois adormeci  abatida por ver  de um modo incisivo, espantoso, doloroso  quem são as pessoas que se apresentam, na maioria da Câmara dos Deputados, como representantes da cidadania do povo brasileiro. Excetuando-se alguns dignos cidadãos comprometidos com um ideário político de respeito à democracia do seu país, e poucas e brilhantes mulheres que, sem temor, defendiam a significância do seu "Não".

Via-se  entre os adeptos do Sim ao impedimento democrático da atual presidente eleita, sem interferências alheias ou subterfúgios    uma gente tão "religiosa", tão ciosa de sua família, de sua fé pessoal, da propriedade rural, dos seus filhos, sobrinhos e netos (como muitos aludiram) e mais, – quem sabe não lhes deram tempo para acrescentar  do seu papagaio, seu cachorro de raça, seus grandes hectares de terra deserta ou atapetados de monocultura, com o seu despudor político e seus acordos pessoais escusos, e "correligionários" que, - coisa mais delirante! - ao dar seu voto contra a democracia brasileira, pretendiam que acreditássemos que estavam defendendo o seu "amor à pátria!"... 

Alguns deles chegaram a afirmar ou faziam entender que, embora pensassem diversamente, deviam ser "fiéis" ao próprio partido! Uma "fidelidade" que significava o SIM à vergonha de um país que mantém na presidência da Câmara um réu publicamente declarado, um ícone dos grandes enroscados nos enredos da corrupção nacional, da antiética, da antidemocracia, com arranjos políticos claramente capciosos em favor de si mesmo e de sua gente.   

Apaguei a TV profundamente abatida, confundida se por acaso não tivesse visto um programa do Fantástico da Globo ou de uma exaltada aposta esportiva. O que me restou, de Esperança, é que os Senadores da República possam ter discernimento e uma clarificante visão política, para analisar a contenda jurídica que fundamenta o julgamento político do chamado "crime de responsabilidade fiscal" da presidenta, negado por respeitáveis juristas e intelectuais do país.

Bem sabemos que na história sul-americana - mais precisamente durante o período fascista da época Vargas e, mais tarde, das longas e pesadas ditaduras militares de infeliz memória - eram conhecidos os canalhas e vilões que se empoleiravam ao lado dos interesses que traíam a nossa luta democrática, e se vendiam como delatores de muitos que deram suas vidas por essa causa, especialmente no Chile, na Argentina, no Uruguai e no Brasil.  


Há um poema do argentino Mario Benedetti, que o vejo de leitura política profunda. Foi o que hoje alentou meu coração e me fez entender a razão do sentimento comum de nós brasileiros, que ontem vimos "oficialmente" desrespeitados os valores democráticos da Carta Magna do Brasil. (i)

                        
                       Se te quero é porque tu és 
                            Meu amor, meu cúmplice e tudo
                            E na rua, lado a lado,
                            Somos muito mais que dois...

                            ... Tua boca que é tua e minha
                                Tua boca não se equivoca
                                Te quero porque tua boca
                                Sabe gritar rebeldia

                                    E por teu rosto sincero
                                    E teu passo vagabundo
                                    E teu canto pelo mundo
                                    Porque és povo te quero...

                           ... Te quero no meu paraíso
                               Quer dizer que em meu país
                               A gente viva feliz,
                              Ainda que sem permissão!                 
                             
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(i) Este poema, cuja autoria da tradução não é informada, foi copiado de uma agenda de 2002, em cuja capa tem a foto de uma criança que carrega um cartaz dizendo: Mulheres são fortes. (Distribuidora Opinião - Rua Loefgreen, 909 - Vila Mariana - São Paulo).              
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Crédito das imagens

1. Imagem com frase de Mario Benedettiwww.poesiamnoalzada.com.ar 
Tradução livre da frase: 
                       "Estávamos, estamos, estaremos juntos. 
                        A intervalos, a momentos, ao piscar de olhos, a sonhos".

2. Foto de Mario Benedetti - www.taringa.net

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A CULTURA DO AMOR FRATERNO

16 de abril de 2016


Hoje, viajei a ver o que dizem os nossos clássicos poetas e pensadores da modernidade, e as páginas encardidas das Escrituras de religiões mais antigas, sobre o amor pelo outro, por aquele diferente de mim. 

Quem sabe algum trecho nos ajude a rever os nossos dizeres cotidianos, os nossos pensares recônditos e, mais que   isso,   o    julgamento que por vezes se faz de alguém com quem se divide tarefas, e daquele que de algum modo depende de mim; ou mesmo de quem compartilha os meus ideais humanitários de fraternidade, de justiça, de igualdade e de paz. Vejamos:

Clarice Lispector - Sou como você me vê. / Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania / Depende de quando e como você me vê passar.

João Guimarães Rosa - Deus nos dá pessoas e coisas, / para aprendermos a alegria... / Depois, retoma coisas e pessoas / para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... / Essa, a alegria que ele quer. (i)


Heleno Oliveira - Queres o sim que me arrancaste / As musas, meu destino de grão / Os dicionários não ensinam Teus caminhos / Resta-me  o  coração moído, a escutar Teus ais. (ii)

Sophia de Mello B. Andresen - (iii)  E de repente pareceu ao velho bispo que todo  o  abandono  do  mundo,  todo  o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente. (p.94)

(...) E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe  das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem. (p.57)

(...) Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas. (p.161)

Agora, convido  vocês  a  abrir  uma  brecha sobre as janelas de religiões e de filosofias antigas,  ainda  presentes  na  vida  de milhares  de pessoas no mundo contemporâneo:

Budismo - Não ferir os outros para que depois não venhas a reencontrar-te ferido. (iv)

Confucianismo - O máximo da amável benevolência é: não fazer aos outros aquilo que não gostarias que eles fizessem contigo. (v)

Taoismo - Respeita a vitória do teu próximo como se fosse a tua, e a desgraça do teu próximo como se fosse a tua. (vi)

Induísmo - Este é o cerne do dever: não fazer aos outros, aquilo que lhe faria mal. (vii)

Islamismo - Nenhum de vós é verdadeiro crente se não desejar para o seu irmão aquilo que deseja para si mesmo. (viii)

Provérbio Ruandês - Aquilo que deres aos outros será dado a ti. (ix)


Antigo Testamento - Aquilo que é odioso para ti, não o faças ao teu semelhante.  Esta é toda a lei. (x)


Cristianismo - Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas. (xi)

Ubuntu – “Eu sou aquilo que tu és em mim”. (xii)

Concluo com uma singela percepção de Mario Quintana, quando afirma: 
"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... simplesmente, disse eu? Mas, como é difícil!" (xiii)



(i) As frases citadas de Clarice Lispector e Guimarães Rosa foram retiradas de: www.pensador.uol.com.br/frase; 




(ii)  Heleno Oliveira, poeta brasileiro - In: Oropa, França e Bahia (bilingue) - Edidizioni della Meridiana, Firenze - 2004, p.72.

(iii) Sophia de Mello Breyner Andersen, poetisa portuguesa - In:Contos Exemplares, Ed. Figueirinhas (Lisboa (PT), 15ª edição, 1985.

(iv) The Buddha Vadanararga – 5,18 – “O Budismo é um sistema filosófico e religioso indiano fundado por Siddharta Gautama (563-483 a.C.), o Buda, que parte da constatação do sofrimento como a condição fundamental de toda existência e afirma a possibilidade de superá-lo através da obtenção de um estado de bem-aventurança integral, o nirvana O budismo é uma religião que não professa a existência de nenhum deus”.

(V) Confucio, Analects 25,23 
Confucianismo –  “Designação atribuída no Ocidente às doutrinas e ao sistema de pensamento elaborado pelo filósofo e teórico político chinês K'ung ch'iu (tb. dito Khong-Fon-Tseu, K'ung-fu-tzu, K'ung-tzu ou, no Ocidente, Confúcio [551 a.C.- 479 a.C.]) e por seus continuadores [Foi doutrina política, religião e código de ética oficial do império chinês de 136 a.C. até 1912.]”.


(vi) Loo Tzu Tai Shang Kan Ying Phen – 213-218 –  O Taoismo da cultura chinesa, é uma “doutrina mística e filosófica formulada no sVI a.C. por Lao Tse e desenvolvida a partir de então por inúmeros epígonos, que enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial, o tau, por meio de uma existência natural   espontânea e serena [Seu caráter contemplativo, na vida religiosa chinesa, é o principal rival do racionalismo pragmático que caracteriza o confucianismo.]”.




(vii) Mahabharata Islamismo (Maometanismo, Mulçumanismo) – diz-se de “religião caracterizada por monoteísmo estrito e síntese entre fé religiosa e organização sociopolítica, fundada pelo profeta árabe Maomé (570 ou 580-632), que codificou sua doutrina em um livro sagrado, o Corão, que se tornou o fundamento escrito da fé muçulmana”.



(viii) Provérbio Ruandês - Religião tradicional da República Ruandesa (Ruanda), país do Centro-Leste africano.

(ix) Ubuntu – Filosofia seguida por alguns povos africanos, prestigiada por Mandela e pelo cardeal Desmond Tutu;

(x) Maomé, 13º dos 40 Hadiths Nawawi – Ver "islamismo".
(xi) 31, Sabbat Ta Iaud Babilonese – O hebraico é a língua da família semítica falada pelos hebreus, na qual foi escrito quase todo o Velho Testamento (a Bíblia aceita pelo judaísmo); No século XIX, após transformações históricas, o hebraico ressurgiu com o movimento sionista e tornou-se língua oficial do Estado de Israel;

(xii)  Jesus Cristo, no Evangelho segundo Mateus, 7,12

(xiii)  Mário Quintana - www.pensador.uol.com.br/frase 

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Crédito Imagens:

1. Imagem expressiva do Ubuntu - divulgação.
2. Clarice Lispector - www.lounge.obviousmag.org
3. Reunião budista - www.guanhuanmizong.info/esoteric-                                     cultuivation/guan_mizong_health_Sharma
4. Insígnia taoista - www.radionovaera.brasilia.wordpress.com/2015
5. Candelabro de outro hebraico.
6. Imagem bíblica cristã: o filho pródigo - www.imagens.bíblicas.com.br
7. Buda Vajradhara - fundador e principalBuda dos encinamentos tântricos. 
    In: www.santosmedita.org.br
8. Imagem Confucio - www.viatucuju.com

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VELHICE - A ALEGRIA DE COMEMORAR A VIDA

13 de abril de 2016


Há diferentes momentos de se comemorar o aniversário dos quinze anos, que quase todos não esquecem. Refiro-me, por exemplo, aos aniversários de 69 ou de 78 anos, cuja soma de seus algarismos resulta em 15. Um bom motivo para celebrar, de forma brincante, a chamada "boa idade".

É assim que hoje – 13 de abril de 2016 – estou completando mais uma vez meus quinze anos! Há quem não goste da expressão “boa idade” para esse momento da vida... Mas, acredito que há muito que se comemorar. De minha parte, tenho razões para pensar assim.

No percurso da maturidade – que maduro você só está quando é naturalmente chamado ao seio da terra ou, como gosto de pensar, ao coração de Deus  a gente percebe que as lembranças do passado são vivas, intensas, cada vez mais presentes; e que as emoções afetivas não desaparecem (como tanta gente insiste em pensar), mas se apresentam de outro modo no seu coração e no corpo, às vezes até com alguns sintomas da euforia, da ousadia e do romantismo dos tempos adolescentes. 

Outro grande dom no processo do envelhecimento, é quando a pessoa se sente na liberdade de ainda ser aprendiz, aprendendo a aprender no exercício do diálogo com os talentos do outro, o diferente de si, buscando interagir com outras visões de mundo, de saberes, e de jeitos de bem-querer.

Yung, em suas Memórias, afirma: ”Há tantas coisas que me preenchem: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”. (i)



Assim me vejo hoje. Uma pessoa integrada com o mundo que me cerca, preenchida dos presentes da natureza, ao contemplar as diferentes belezas do alvorecer e do anoitecer, da chuva e dos trovões, dos pássaros que ainda cantam à minha janela – embora assombrados entre um arranha-céu e outro  e do dom das filhas, do genro, da nora, e de um neto vivaz de cinco anos, a me alegrar o viver.  

Ainda sou uma pessoa aprendiz do diálogo, na contradição exuberante das ideias que carecem de ser ajuntadas, iluminadas e abraçadas, a nos convidar ao recomeço sempre.

Cultivo a alegria de manter aberta uma janela para o mundo  com este blog, por exemplo  embora seja um sentimento abastecido de teimosia, na vida que nos surpreende a cada momento.  

Como Guimarães Rosa, estou cada vez mais convicta que: 

"O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão". (ii)
  




(i)  Yung, Carlos Gustavo - Memórias, Sonhos e Reflexões, p. 233
(ii) Guimarães Rosa, João  – Grande Sertão Veredas, Ed. Nova Fronteira - Biblioteca do Estudante, p. 23.


Crédito Imagens : 

1. Foto de Vanise Rezende, realizada no Museu Picasso, em Barcelona (ES), em fevereiro de 2016. Ao visitar o museu, em 2016, fui convidada a participar da homenagem do museu a Pablo Picasso. O visitante era fotografado em pose de imitação, na liberdade, da pose de "Margot" no quadro "L' espera", de Picasso. 

2. Foto de Vanise Rezende em Lisboa - fevereiro de 2016.

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UM CONVITE AO DIÁLOGO

10 de abril de 2016

Apresentamos,  neste  espaço,  uma versão - em  português - da conferência de Jesús Morán -  co-presidente  do Movimento  dos Focolares - realizada   na Universidade de  Mumbai,  durante recente viagem, com Emaus, presidente dos Focolares,  ao  subcontinente indiano.  


Aspectos antropológicos do diálogo

* Jesús Morán


Inspirada em João Paulo II e outros pensadores contemporâneos, Chiara Lubich descreveu a nossa época, pelo menos no Ocidente,  com  a  categoria de “noite cultural”, não uma noite definitiva, mas uma noite que, segundo Lubich, esconde uma luz, uma esperança.


Poderíamos dizer então que na noite cultural – que é também uma “noite do diálogo” – está oculta uma luz, ou seja, a possibilidade de elaborar, juntos, uma nova cultura do diálogo. Para fazer isto, a meu ver a primeira coisa é redescobrir que o diálogo está tão enraizado na natureza humana, que em todas as culturas podemos encontrar o que eu chamaria “as fontes do diálogo”. 


Essas fontes estão reunidas nas grandes Escrituras, e são fundamentalmente duas: a fonte que brota da experiência religiosa e a que nasce da busca filosófica da humanidade. Assim, deveríamos falar de fonte bíblica, corânica, védica, etc.[i] Significa que, em todas as Escrituras das (diferentes) tradições religiosas encontramos fortemente o acento no diálogo. Deveríamos nos embeber inclusive na filosofia grega, na metafísica islâmica, nos Upanishad,[ii] no pensamento budista, e outros.[iii]

No Ocidente foi desenvolvida, no século passado, uma verdadeira escola do pensamento dialógico, de raiz judaico-cristã. Sirvo-me de modo particular desta última fonte para identificar alguns princípios de uma antropologia do diálogo.


Primeiro, eu diria que diálogo “está inscrito na natureza do homem” a tal ponto que se pode dizer que é a própria definição do homem.
Segundo: no diálogo “cada homem é completado pelo dom do outro”, isto é, precisamos uns dos outros para ser nós mesmos. No diálogo eu presenteio ao outro a minha alteridade, a minha diversidade.


Terceiro: cada diálogo “é sempre um encontro pessoal”. Portanto, não se trata tanto de palavras ou de pensamentos, mas de doar o nosso ser. O diálogo não é simplesmente uma conversa, nem discussão, mas é algo que toca na profundeza dos interlocutores.


Quarto: o diálogo “exige silêncio e escuta”. Isto é decisivo, porque o silêncio é importante não só para o falar honesto, mas também para o pensar de forma honesta. Como diz um provérbio: “Quando falares, faz com que as tuas palavras sejam melhores do que o teu silêncio”. (Dionísio, o Velho).

Quinto: o verdadeiro diálogo “constitui algo existencial” porque arriscamos a nós mesmos, a nossa visão das coisas, a nossa identidade. Às vezes sentimos que perdemos a nossa identidade cultural, mas é só uma passagem porque, na realidade, a identidade é enriquecida imensamente com a nossa abertura (para o diferente de nós). Deveríamos ter uma “identidade aberta”. Isto quer dizer saber quem somos; mas também estar convictos de que “quando me percebo a mim mesmo - ao falar com alguém - sei melhor, eu também, quem sou eu.” (Fabris).
Outros princípios sobre o diálogo são: o diálogo autêntico “tem a ver com a verdade”, é um aprofundamento da verdade. Para os gregos antigos, o diálogo era o método para chegar à verdade. Isto significa que a verdade precisa sempre ser completada, ninguém possui a verdade, é ela que nos possui. Portanto, não se trata da relatividade da verdade, mas da “relacionalidade da verdade” (Baccarini).
A “verdade relativa” significa que cada um tem a sua verdade, que é válida somente para si mesmo. Já a “verdade relacional” significa que cada um partilha com os outros a sua participação na verdade, que é uma para todos. 

É diferente o modo como cada um de nós chega à verdade, e como participamos dela. Por isso é importante dialogar: para nos enriquecer das várias perspectivas da verdade. Na relação com o outro, cada um descobre aspectos novos da verdade como se fossem próprios. Como diz Raimond Panikkar:De uma janela se vê toda a paisagem, mas não totalmente”.
É aquilo que dizíamos antes: devemos conceber a diferença como um dom e não como um perigo. Um dos grandes paradoxos de hoje é que neste mundo globalizado temos medo da diferença, medo do outro. Mas, o diálogo nos convida a ir além: “exige uma forte vontade”. O amor à verdade me leva a buscá-la e a desejá-la, e por isso me coloco em diálogo.

Dois últimos princípios: o diálogo “é possível somente entre pessoas verdadeiras”, mas só o amor nos torna verdadeiros. Em outras palavras, o amor prepara as pessoas para o diálogo tornando-as verdadeiras. O que torna fecundo o falar é a santidade de quem fala e a santidade de quem escuta. Eis a responsabilidade do diálogo em toda a sua dimensão: exige pessoas verdadeiras e torna as pessoas mais verdadeiras.
Por fim: a cultura do diálogo “conhece apenas uma lei que é a da reciprocidade”. É preciso fazer esse percurso de ida e volta para que exista verdadeiro diálogo. Em última análise, hoje se fala muito de inter-culturalidade. Parece-me que uma verdadeira inter-culturalidade é possível se começarmos a viver essa cultura do diálogo. Nunca ninguém disse que dialogar seja fácil. O diálogo exige de nós aquilo que hoje é difícil pronunciar: sacrifício. Exige homens e mulheres “maduros para a morte (Maria Zambrano), isto é, maduros para morrer a si mesmos e viver no outro.
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(*) Conferência do co-presidente do Movimento dos Focolares,  Jesús Morán, na Universidade de Mumbai, em 5 de fevereiro de 2016, durante recente viagem realizada com uma forte característica inter-religiosa no subcontinente indiano.
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Notas explicativas ao presente texto 
exclusivamente para este blog:

[i] Fonte corânica - relativa ou pertencente ao Alcorão - livro sagrado do islamismo.  

Fonte védica - “O primeiro dos três períodos da religião indiana, baseado na mitologia e no ritualismo dos vedas, os textos sagrados que fundamentam toda a tradição cultural hinduísta [O vedismo inicia-se entre os Séculos XX a.C. e XV a.C., com a conquista ariana do norte da Índia, o sincretismo subsequente entre a religião dos invasores (ários) e a dos povos dominados (drávidas); embora politeísta, guarda traços de monoteísmo (através do henoteísmo) e panteísmo; estende-se até aproximadamente o Século XI a.C., com o advento do período seguinte, o bramanismo]” - Cf. Dicionário Houaiss.

[ii] Upanishads – Uma explicação dos Upanischads se encontra na revista Superinteressante, (abril, 2005), que apresenta um livro sobre este assunto. Cf. ww.super.abril.com.br/comportamento/upanishads

[iii] Outro exemplo que poderia ser acrescentado, é o da filosofia africanaUbuntu”, sobre a qual Nelson Mandela disse:  "A tradição africana Ubuntu é uma verdade universal, é um modo de vida. É um termo que exprime vários significados: respeito, serviço, cuidado, confiança, desapego, reciprocidade... O que não significa que essa gente não deva olhar para si mesma. A pergunta para isto é: Desejas fazer algo para tomar parte de tua comunidade e, assim, melhorá-la? Entrar em contato com outra pessoa ou com uma comunidade, de um modo autêntico, libera a mais poderosa energia no planeta. Essas são as coisas importantes da vida".


O bispo africano Desmond Tutu, afirma: “uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, sem se preocupar em julgar os outros como bons ou maus, consciente de que ela faz parte de algo maior e é tão pequena quanto os seus semelhantes que são humilhados, torturados e oprimidos”. 


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(Os textos aqui citados, sobre Ubuntu, foram tirados de uma postagem do blog: www.vaniserezende.com.br  - 
Ubuntu – Sou porque vocês são – 14/02/2014).
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Crédito Imagens:



1. Josè Morán e Emmaus na India - www.movimentodosfocolares.org

    Fevereiro, 2016.
2. Antigas Escrituras - www.pesquisamundi.org 
3. Papa Francisco em visita ao povo africano de Banghì - dezembro, 2015.
    www.focolare.org/pt/news
4. Papa Francisco e o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, em Havana         (Cuba) - fevereiro, 2016.  www.exame.abril.com.br/mundo
5. Foto do bispo africano Desmond Tutu -  www.bodive.co.za


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