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A DEMOCRACIA BRASILEIRA E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL

24 de abril de 2016

Proponho o artigo abaixo para leitura e para fazê-lo circular entre amigos e colegas de trabalho interessados em fontes de informação confiáveis. 
Como se sabe, a encenação do Senado será mais um capítulo da série de fatos anti-democráticos e anti-Brasil, embora todos se apresentem envoltos na sua bandeira. É mais uma tentativa de ratificar a grande farsa dos interessados no grande circo montado, o que conspurca a história da nossa democracia, conquistada e construída também com a vida de muitas vítimas dos dois longos períodos de ditadura no Brasil. 
A Sociedade Civil continuará trabalhando, com inventividade, para robustecer a presença, a consciência e a força da expressão cidadã em nosso país. 

A CRISE BRASILEIRA E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL

Leonardo Boff (i)


Seria errôneo pensar a crise do Brasil apenas a partir do Brasil. Este está inserido no equilíbrio de forças de âmbito mundial, na assim chamada nova guerra fria que envolve principalmente os EUA e a China. A espionagem norte-americana, como revelou Snowden atingiu a Petrobrás e as reservas do pré-sal e não poupou até a presidenta Dilma. Isto é parte da estratégia do Pentágono de cobrir todos os espaços sob o lema: ”Um só mundo e um só império”. Eis alguns pontos que nos fazem refletir.
No contexto global há uma ascensão visível da direita no mundo inteiro, a partir dos próprios EUA e da Europa. Na América Latina está se fechando um ciclo de governos progressistas que elevaram o nível social dos mais pobres e firmaram a democracia. Agora, (os países latino-americanos) estão sendo assolados por uma onda direitista que já triunfou na Argentina e está pressionando todos os países sul-americanos. Falam, como entre nós, de democracia mas, na verdade querem torná-la insignificante para dar lugar ao mercado e à internacionalização da economia.
O Brasil é o principal atingido e o impedimento da presidenta Dilma é apenas um capítulo de uma estratégia global, especialmente das grandes corporações e pelo sistema financeiro articulado com os governos centrais. 
Os grandes empresários nacionais querem voltar ao nível de ganho que tinham sob as políticas neo-liberais, anteriores a Lula. A oposição a Dilma e o apoio ao seu impedimento possui um viés patronal. A Fiesp com o Skaf, a Firjan, as Federações do Comércio de São Paulo, a Associação Brasileira da Indústria Eletrônica e Eletrodomésticos (Abinee), entidades empresariais do Paraná, Espírito Santo, Pará, e muitas redes empresariais, estão já em campanha aberta pelo impedimento e pelo fim do tipo de democracia social implantada por Lula e Dilma.
A estratégia ensaiada contra a “primavera árabe” e aplicada no Oriente Médio e agora no Brasil e na América Latina em geral, consiste em desestabilizar os governos progressistas e alinhá-los às estratégias globais como sócios agregados. É sintomático que em março de 2014 Emy Shayo, analista do JB Morgan, coordenou uma mesa redonda com publicitários brasileiros ligados à macroeconomia neoliberal com o tema:Como desestabilizar o governo Dilma”. Armínio Fraga, provável ministro da fazenda num eventual governo pós-Dilma, vem do JB Morgan (cf. blog de Juarez Guimarães, ”Por que os patrões querem o golpe”).
Noam Chomski, Moniz Bandeira e outros advertiram que os EUA não toleram uma potência como o Brasil, no Atlântico Sul, que tenha um projeto de autonomia, vinculado aos BRICS. Causa grande preocupação à política externa norte-americana a presença crescente da China, seu principal contendor, pelos vários países da América Latina, especialmente no Brasil. Fazer frente a outro anti-poder, que significam os BRICS, implica atacar e enfraquecer o Brasil, um de seus membros com uma riqueza ecológica sem igual.
Talvez o nosso melhor analista da política internacional, Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de “A segunda Guerra Fria – geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos” (Civilização Brasileira, 2013) e o deste ano: “A desordem internacional” (da mesma editora) nos ajude a entender os fatos. Ele trouxe detalhes de como agem os EUA: ”Não é só a CIA… Especialmente as ONGs financiadas pelo dinheiro oficial e semi-oficial, como a USAID e a National Endwoment for Democracy, atuam comprando jornalistas e treinando ativistas”. 
O “The Pentagon´s New Map for War & Peace” enuncia as formas de desestabilização econômica e social através dos meios de comunicação, jornais, redes sociais, empresários, e da infiltração de ativistas.  Moniz Bandeira chega a afirmar: “não tenho dúvida de que no Brasil os jornais estão sendo subsidiados…e que jornalistas estão na lista de pagamento dos órgãos citados acima e muitos policiais e comissários recebem dinheiro da CIA diretamente em suas contas” (cf. Jornal GGN de Luis Nassif de 09/03/2016). Podemos até imaginar quais seriam esses jornais e os nomes de alguns jornalistas, totalmente alinhados à ideologia desestabilizadora de seus patrões.
Especialmente o pré-sal, a segunda maior jazida de gás e de petróleo do mundo, está na mira dos interesses globais. O sociólogo Adalberto Cardoso da UERJ, numa entrevista à Folha de São Paulo (26/04/2015) foi explícito: “Seria ingenuidade imaginar que não há interesses internacionais e geopolíticos de norte-americanos, russos, venezuelanos, árabes. Só haveria mudança na Petrobrás se houvesse nova eleição e o PSDB ganhasse de novo. Nesse caso, se acabaria o monopólio de exploração, as regras mudariam. O empeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobrás: grandes companhias de petróleo, agentes internacionais que têm a ganhar com a saída da Petrobrás da exploração de petróleo. Parte desses agentes quer tirar Dilma“.
Não estamos diante de um pensamento conspiratório, pois já sabemos como agiram os norte-americanos no golpe militar em 1964, infiltrados nos movimentos sociais e políticos. Não é sem razão que a quarta frota norte-americana do Atlântico Sul está perto de nossas águas.
Devemos nos conscientizar de nossa importância no cenário mundial, resistir e buscar o fortalecimento de nossa democracia, que represente menos os interesses das empresas e mais as demandas tão olvidadas de nosso povo e a construção de nosso próprio caminho rumo ao futuro.
(i) Artigo publicado em 20/04/2016 no blog: 
 Leonardo Boff.wordpress.com 
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Crédito Imagens:
Vanise Rezende - arquivo Espaço Poese 
Presidente Dilma na ONU - New York, 22/4/2016
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