Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

NUNCA DESISTA!

28 de novembro de 2015


    
Hoje é sábado... Fui tomar o café da manhã numa livraria-café próxima ao grande Parque da Jaqueira, um ambiente verde muito agradável, no coração do Recife. Entre o passeio no parque, o café da manhã e a livraria, passei a manhã inteira. Alegra-me caminhar, e gosto muito de passear em livrarias, dessas modernas que você pega o livro, senta lá dentro, e fica todo o tempo que quiser catando novidades e caçando ideias interessantes...


Na livraria escolhi uns cartões para enviar mensagens de Ano Novo aos amigos, pois ainda saboreio escrevê-las à mão, para que cheguem de  surpresa, num dia qualquer, pelas mãos do carteiro. Cartões e envelopes coloridos sem nenhuma frase impressa, a mensagem de acordo com a saudade, a emoção e o bem-querer. 

Olhando aqui e ali, encontrei uma publicação com dizeres e imagens, numa edição bem cuidada e com o título em fonte minúscula: "nunca desista". Um pequeno livro de citações, selecionadas por Lidia María Riba, tão bem escolhidas que não resisto recorrer a algumas delas para alegrar os que chegam a este Espaço.

"Os tempos atuais - escreve-se na segunda capa - mais do que nunca obrigam-nos a enfrentar desafios permanentes: a competitividade no trabalho, a necessidade de treinamento, a perigosa fascinação de paraísos artificiais. Todos nós participamos de uma corrida sempre ascendente. E, de repente, nossas forças falham. Renunciar, abandonar tudo e se conformar... A tentação nos seduz como um abismo. Nesse momento, uma voz nos diz: "nunca desista"... Aconteça o que acontecer, sem importar quantas vezes fracassemos, sempre existe uma nova oportunidade". (...) 

No livro, citações de poetas, filósofos, escritores e sábios de todos os tempos, falando de "Obstáculos", "Ação", "Paciência" e "Triunfo". Registro, a seguir, apenas um aperitivo do livreto. 


OS OBSTÁCULOS

"Mergulhe fundo nas coisas, suje as mãos, caia de joelhos e, então, procure alcançar as estrelas". - Joan L. Curcio.

"O suor, para regar a história e a dor: para lavrar a vida".- Antonio Gracia.

"Pode ser que você se decepcione se falhar, mas estará perdido se não tentar". - Beverly Sills

A AÇÃO


"Você é como o profundo 
desejo que lhe impulsiona.
Tal como é o seu desejo, é a sua vontade. 
Tal como é a sua vontade, são os seus atos.
Tal como são os seus atos, é o seu destino."      
- Brihadaranyaka Upanishad

"A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos". - Marcel Proust

"A vida deseja continuar caminhando, crescendo, amadurecendo... A vida nos pede que refaçamos sendas torcidas; que abramos sulcos às possibilidades estancadas; que curemos o que está ferido; que cuidemos do que está são"...
- Juan Aguirre

A PACIÊNCIA






"Nossa maior fraqueza reside em que temos a tendência a abandonar. A maneira mais segura de conquistar os objetivos é sempre: tentar uma vez mais." - Thomas A. Edison.


"Deixem-me que lhes conte o segredo que me ajudou a atingir os meus objetivos. Minha força reside apenas na minha tenacidade". - Louis Pasteur.

"A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte se distancia dez passos mais além. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar". - Eduardo Galeano.

O TRIUNFO

"Já foram escritas todas as boas máximas. Só falta colocá-las em prática". - Blas Pascal.

"É preciso (...) dar um sentido a cada passo, 
glorificar a sigelez de cada coisa, anunciar cada dia com
um hino". - Hamlet Lima Quintana.

"Preferirei sempre aqueles que sonham... embora se enganem; aqueles que esperam... embora, às vezes, suas esperanças fracassem; aqueles que apostam na utopia... embora, em seguida, fiquem no meio do caminho. Aposto nos que confiam que o mundo pode e deve mudar... naqueles que acreditam que a felicidade virá."(...) - José Luis Martín Descalzo.

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Citações do livro Nunca desista - V&R Editoras. Seleção de Frases de Lidia María Riba /Tradução de Leila Wistak. www.livropresente.com.br

Crédito das imagens

1 - Tinha uma pedra no meio do caminho - ilustração. 
      www.canstockphoto.com.br
2 - Mulher escrevendo - pintura de Iman Malek, pintor realista indiano.
     in: imanmalek/galeria
3 - Foto de famílias sírias em retirada - de Fábio Erdos
     in: www.cartacapital.com.br/internacional
4 - Caminho de pedras - www.canstockphoto.com.br
5 - Igarapé e canoafoto divulgação de detalhe de uma das antigas pinturas          ilustrativas que se encontram no Teatro Amazonas, em Manaus (BR).
6 - Borboleta no azul infinito - ilustração. www.canstockphoto.com.br

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com:vrblog@hotmail.com





PAPA FRANCESCO - LAUDATUS Sì

19 de novembro de 2015

Costumo trazer, às páginas deste blog, preciosos textos retirados do blog do grande irmão, Leonardo Boff,[i] nas quais se encontra alimento à conversão,  habituados  que estamos   a  beber  da   sua sabedoria há várias décadas, não  só  no  Brasil, mas  em muitos países do mundo.

Hoje vou fazer diferente: irei entrechar e comungar com vocês minha reflexão sobre as questões tratadas pelo teólogo, no intuito de oferecer algumas sugestões concretas aos primeiros passos dessa conversão a que nos convida Papa Francisco, Na sua encíclica Laudatus sì, até que cheguemos a, efetivamente, aprender a “transformar em sofrimento pessoal o que acontece no mundo”.  

O papa Francisco – comenta Leonardo, no segundo parágrafo do seu texto – “analisa com espírito científico e crítico “o que está acontecendo com a nossa Casa”, e nos chama a abrir-nos “à admiração e ao encanto… e a falar a linguagem da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo”[ii] . Isto significa que – cita LBoff – “Não nos podemos restringir à ecologia ambiental, pois ela atende apenas à relação do ser humano com a natureza, esquecendo que ele é parte dela”. Essa relação unilateral, constitui o vício do antropocentrismo criticado em seu texto. [iii]  

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O que fazer então, no cotidiano?

1.    Tentar cercar-se de plantas bonitas, algumas até com flores, que em toda parte podem estar, mesmo nas pequenas janelas de apartamentos apertados. As plantas e flores chamam os pássaros... O canto dos pássaros nos lembra o nosso dever de cuidar da Mãe Terra, que tanto nos oferece.

2.   Cuidar do seu carro - se o tiver - e andar com ele como se fossem suas pernas... que lhe fazem chegar mais cedo onde você precisa. As pernas fazem parte do corpo e não se joga o corpo aos encontrões, nem com os gritos (das buzinas), empurrando os outros para que lhe abram o caminho... O respeito pelo outro também é válido quando se está no próprio carro.

3.   O chão do ônibus, do metrô, da rua ou de seu carro faz parte do leito dos rios que vão em busca de outros rios e mares... Assim, não jogue lixo no chão, assim, você ajuda a não descarregar nos leitos dos rios as latas, os vidros, os papeis e os plásticos... misturados como se fossem lixo orgânico. Faça a sua parte, participando da reciclagem desses materiais, separando-os ainda em sua casa e no escritório. Dá um pouco de trabalho, mas é assumindo esses bons hábitos que você participa da proteção ambiental. São gestos que se transmudam em riqueza para os catadores e as indústrias que trabalham com material reciclável. A Mãe Terra agradece!

4.  Ao separar o lixo de sua casa e do seu trabalho, você também contribui para o bem-estar dos outros, pois os materiais recicláveis são motivo de alegria, de trabalho e de recursos para muitas pessoas.   

5. Procurar se informar o que fazem os gestores de sua cidade com o lixo que a sociedade produz, e quem se interessa de recolher o lixo reciclável. No seu condomínio, em sua rua, em seu trabalho, você poderá fazer um movimento neste sentido, e logo terá outras pessoas para contribuir com o seu gesto cidadão.

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Ocorre – escreve LBoff – que o ser humano possui dimensões sociais, políticas, culturais e espirituais sobre as quais há parca preocupação e insuficiente reflexão, o que dificulta encontrar uma solução consistente à grave crise que assola a nossa Casa Comum. (...) Importa “deixar-nos tocar em profundidade e dar uma base de concretude ao percurso ético e espiritual daí derivado”. Mais ainda: “Devemos transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo [iv].
Leonardo Boff continua: Isso vale também com referência às vitimas dos atos terroristas acontecidos recentemente, em Paris, sem esquecer as vítimas feitas pelos pesados bombardeios de forças militares ocidentais em países africanos (...)  e sobre um hospital de Médicos Sem Fronteiras, e uma escola cheia de crianças. A compaixão não pode ser seletiva. Ricos e pobres carregam a mesma dor que deve se transformar em nossa própria dor.
O Papa Francisco tem clara consciência de que, por detrás das estatísticas, há um mar de sofrimento humano e muitas feridas no corpo da Mãe Terra. Como somos parte da natureza e tudo está inter-relacionado (tema sempre recorrente na encíclica Laudato Sì)[v] nós nunca estamos fora da “trama das relações” que a todos envolve, e participamos das dores da crise ecológica [vi]. O papa chega a advertir que “já não se podem olhar com desprezo e ironia as previsões de catástrofes... Pois, o estilo de vida atual, por ser insustentável, só pode desembocar em catástrofes, como, aliás, estão acontecendo periodicamente em várias regiões”. [vii]
Mas, Papa Francisco não se deixa intimidar por esse cenário. Dá um voto de confiança no ser humano, em sua criatividade e em sua capacidade de regenerar-se, e de regenerar a Terra[viii] e, muito mais, confia no Deus que, segundo as palavras da tradição judeu-cristã, “é o soberano amante da vida” (Sab 11, 24 e 26) Ele não permitirá que nos afundemos totalmente, pois ainda faremos “uma conversão ecológica”, e introduziremos “a cultura do cuidado que permeará toda a sociedade” [ix].
Daí nascerá um novo estilo de vida (alternativa repetida 35 vezes na encíclica), fundado na cooperação, na solidariedade, na simplicidade voluntária e na sobriedade compartida - que implicará um novo modo de produzir e de consumir - e, por fim, nos dará “a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, e que formamos com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. [x]
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Só a você cabe refletir e decidir: Qual será o seu novo "estilo de vida", no cuidado com a Mãe Terra, e diante de tanto sofrimento ao nosso redor, no nosso país e no mundo? Como se comprometer, partilhar, e se inserir, efetivamente, nos gestos de solidariedade que se expandem em toda parte?

A participação com recursos financeiros e outras doações significam apenas um primeiro passo. Tentar encontrar uma forma de se envolver pessoalmente, mais diretamente, nos projetos ligados às pequenas e grandes causas ou catástrofes, nos aproxima mais do gesto cristão inspirado na fraternidades e na compaixão. 
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O texto de Leonardo Boff conclui:
Como se depreende, aqui não fala mais somente a inteligência intelectual, técnico-científica, mas a inteligência emocional e cordial. O Papa Francisco, em suas palavras de afeto e de carinho para com todos - especialmente  para  com os pobres e os mais vulneráveis, - dá claro exemplo do exercício deste tipo de inteligência tão urgente e necessária, para superarmos a profunda crise que recobre todos os âmbitos da vida.
Em razão dessa inteligência emocional, ele nos pede que escutemos “tanto o grito da Terra, como o grito dos pobres”.[xi] E afirma que as agressões sistemáticas, feitas nos últimos dois séculos, “provocam os gemidos da irmã Terra que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo”. Por isso importa “cuidar da criação… e tratar com desvelo os outros seres vivos”, pois todos possuem um valor intrínseco, independente do uso humano e, a seu modo, até as ervas silvestres louvam o Criador. O papa chega a dizer que devemos “alimentar uma paixão pelo cuidado por tudo o que existe e vive”.[xii]
Francisco ainda enfatiza o fato de que “nós, com todos os seres do universo, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde”. [xiii]
E Leonardo enfatiza: Somente quem tem desenvolvido em alto grau a inteligência sensível ou cordial poderia escrever: ”Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas, e que nos une também, com terna afeição, ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”. [xiv]
Tais sentimentos e atitudes hoje constituem uma demanda geral, para afastar as tragédias ecológico-sociais que já se anunciam no horizonte de nosso tempo, e também a violência das guerras no Norte da África e a resposta tresloucada do terrorismo islâmico.




[i]  Reprodução de trechos tirados do site de Leonardo Boff - publicação de 16/11/2015.

Leonardo Boff é colunista do JB on line, eco-teólogo e escritor. Também é autor de dois livros sobre o cuidado da Mãe Terra: “Saber Cuidar”  e  “O Cuidado Necessário” – Editora Vozes. 

As referências que estavam integradas ao texto original foram transcritas abaixo - pensando em tornar mais leve a leitura. Todas são referências feitas, pelo autor, ao texto da encíclica "Laudato Sì".

[ii]    In: 17-61, e  11 da encíclica.
[iii]    Nn 115-121
[iv]    Nn 15 e 19.
[v]    Nn 70, 91,117, 120, 138,139, etc.
[vi]   N 240
[vii]  N 161
[viii]  N 205
[ix]   Nn 163, 217 e 231.
[x]    N 220
[xi]   N 49
[xii]  Nn 53,211,12,69 e 33.
[xiii]  N 89
[xiv]  N 92

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Créditos das imagens:

1 e 2 - Duas primeiras fotos - www.notícias.uol.com.br - Visita do Papa Francisco à América Latina - 2015.
3 - Papa Francisco em Jerusalém - foto divugação.

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UN ABBRACIO UNIVERSO

16 de novembro de 2015






Il mio abbraccio distante
ai fratelli francesi 
oppure no,
vittime del’ondata 
disumana della crudeltà.











Un abbraccio universo


Di tanto dolore nel mondo diffuso
Del terrore infindo, duro, scellerato
Delle morti aleatorie provvocate
Burrasche d´odio in un mondo offuscato

Della mancanza di serenità....
Nel darsi esca all´odio, fomentarlo
In ciechi gesti di maglinità
Che nel mondo alla violenza fa chiamarlo  

Di questa voglia di abbracciare i tristi
Della guerra, del terror, dei gesti insani
Del dolore che si sparge senza limiti...

E sulle lacrime che a tutti chiamano 
Il desio di a tutti invitare
 Ad un gesto universo e più umano!

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Crédito imagem: www.canstockphoto.com.br 



O MAR QUE NOS SEPARA - POESIA

14 de novembro de 2015


Dedico este soneto aos povos migrantes que hoje sofrem  em conflitos locais ou afastados de sua terra natal  vivendo a dor indizível de se desagregarem dos seus mais queridos.
                                  
                                         

 O MAR QUE NOS SEPARA                                                         
De tão distante eu te penso, amor,
E tão distante sinto o teu frescor  
O mar que nos separa em seu tremor    
No seu cantar é grávido de dor!
           
Te trago dentro e em vão te encontro em mim
Recordações me acendem o desejo
E se arde aqui o sol que brilha enfim
O céu que vês não é este que vejo!





Que fazes, pensas, que lembranças hás? 
O teu silêncio é tão grande e prenhe
Do doce afeto que de ti me traz...


  Tu que do pranto meu sabes a dor
Faz-me saber que um dia haverá
Um novo dia e outra vez o amor!



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Crédito Imagens

Pinturas - Iman Maleki - pintor realista iraniano 
in: www.imanmalek.com/en/galery/fisherman.htm


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O HAVER - VINÍCIOS DE MORAIS

11 de novembro de 2015

Às vezes me vejo assim - como na imagem ao lado...

... Sem vontade de encarar as notícias cruéis que chegam de todo o mundo, nem de conviver com pessoas que não estão nem aí, o olhar fixo num espelho de si mesmo;

... Sem paciência para acompanhar as eleições na Argentina, o acordo com as Farc na Colômbia, o descaramento da grande maioria dos políticos brasileiros;

... Sem informações mais precisas sobre o destino dos mais de dois mil refugiados sírios que chegaram ao Brasil;

... Desencorajada com os limites que percebo nesse meu escrever, que ainda carece da força profunda do sim sim, e do não não - sem concessões ao que não acredito, não abraço e não desejo para este mundo em que vivo.


Mas, de repente, surge uma reflexão profunda e sensata, uma boa conversa, e, especialmente,  os bons momentos de convivência com o meu neto. Suas visitas à minha casa me convocam a buscar a luz que de novo alumia brilhante, acariciando a Esperança, e me trazendo o desejo de viver intensamente cada momento que a vida me dá.

Talvez a longevidade tenha o mérito do aprendizado; de rejuvenescer a fé na vida, e de descobrir as excelências do mundo em que vivemos.

Imagino que isto se passou também, no dia em que o grande poeta e músico, Vinícius de Moraes, escreveu o seu magnífico poema-testamento, deixando-nos perceber melhor o profundo tesouro que carregava em si.


Nos seus versos, Vinícius reflete profundamente no que parece lhe restar da vida... E este poema de grande magnitude.

O haver1 

Resta, acima de tudo, essa                 capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio. 
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo...
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...   


           

  
Resta esse antigo respeito
pela noite,  esse falar baixo, 
essa mão que tateia antes de ter, esse medo de ferir tocando,  essa forte mão de homem cheia de mansidão para com tudo quanto existe.


Resta essa imobilidade, 
  Essa economia de gestos 
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito 
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível 
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.



Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa  tristeza diante do cotidiano; ou essa  súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perde sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido, essa imensa piedade de si mesmo,  e de sua força inútil.



Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 
De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.


Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 

de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, 
e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 
De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas 
dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos, 
de refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória. 
                         Resta essa  pobreza intrínseca, essa vaidade 
                        de não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade 
pelo momento a vir, quando, apressada, ela virá 
me entreabrir a porta como uma velha amante, 
mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...


Resta esse constante esforço para caminhar 
dentro do labirinto 
Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, 

e esse medo infantil
de ter pequenas coragens.


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"O Haver" - Poema de Vinicius de Morais - In: www.letrascifras.com.br/Vinicius de Moraes.

Créditos de Imagens:


1. O desespero - Roberto Ploeg - o.s.t. - www.robertoploeg.blogspot.com.br
2. Diálogos da vida - fotografia de: www.unnamed.com.br
3. Imagem do sertão brasileiro - autor não identificado.
4. Noite - www.canstockphoto.com.br
5. Círio aceso - www.canstockphoto.com.br
6. Escalada - www.canstockphoto.com.br


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