Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

O HAVER - VINÍCIOS DE MORAIS

11 de novembro de 2015

Às vezes me vejo assim - como na imagem ao lado...

... Sem vontade de encarar as notícias cruéis que chegam de todo o mundo, nem de conviver com pessoas que não estão nem aí, o olhar fixo num espelho de si mesmo;

... Sem paciência para acompanhar as eleições na Argentina, o acordo com as Farc na Colômbia, o descaramento da grande maioria dos políticos brasileiros;

... Sem informações mais precisas sobre o destino dos mais de dois mil refugiados sírios que chegaram ao Brasil;

... Desencorajada com os limites que percebo nesse meu escrever, que ainda carece da força profunda do sim sim, e do não não - sem concessões ao que não acredito, não abraço e não desejo para este mundo em que vivo.


Mas, de repente, surge uma reflexão profunda e sensata, uma boa conversa, e, especialmente,  os bons momentos de convivência com o meu neto. Suas visitas à minha casa me convocam a buscar a luz que de novo alumia brilhante, acariciando a Esperança, e me trazendo o desejo de viver intensamente cada momento que a vida me dá.

Talvez a longevidade tenha o mérito do aprendizado; de rejuvenescer a fé na vida, e de descobrir as excelências do mundo em que vivemos.

Imagino que isto se passou também, no dia em que o grande poeta e músico, Vinícius de Moraes, escreveu o seu magnífico poema-testamento, deixando-nos perceber melhor o profundo tesouro que carregava em si.


Nos seus versos, Vinícius reflete profundamente no que parece lhe restar da vida... E este poema de grande magnitude.

O haver1 

Resta, acima de tudo, essa                 capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio. 
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo...
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...         



                
Resta esse antigo respeito
pela noite,  esse falar baixo, 
essa mão que tateia antes de ter, esse medo de ferir tocando,  essa forte mão de homem cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, 
    Essa economia de gestos 
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito 
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível 
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.


Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa  tristeza diante do cotidiano; ou essa  súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perde sem história...


Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido, essa imensa piedade de si mesmo,  e de sua força inútil.



Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 
De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.


Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 

de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, 
e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 
De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas 
dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos, 
de refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória. 
                         Resta essa  pobreza intrínseca, essa vaidade 
                        de não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade 
pelo momento a vir, quando, apressada, ela virá 
me entreabrir a porta como uma velha amante, 
mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...


Resta esse constante esforço para caminhar 
dentro do labirinto 
Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, 

e esse medo infantil
de ter pequenas coragens.


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"O Haver" - Poema de Vinicius de Morais - In: www.letrascifras.com.br/Vinicius de Moraes.

Créditos de Imagens:


1. O desespero - Roberto Ploeg - o.s.t. - www.robertoploeg.blogspot.com.br
2. Diálogos da vida - fotografia de: www.unnamed.com.br
3. Imagem do sertão brasileiro - autor não identificado.
4. Noite - www.canstockphoto.com.br
5. Círio aceso - www.canstockphoto.com.br
6. Escalada - www.canstockphoto.com.br


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com:vrblog@hotmail.com

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