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PANDEMIA E PRECARIEDADE SOCIAL - UMA REALIDADE QUE SE AGRAVA COM A FOME

23 de abril de 2021




Por: Vanise Rezende

Diversos observadores sociais têm apontado que, entre as inúmeras questões trazidas pela pandemia do vírus devastador que assola o mundo, e particularmente o Brasil, há um importante aspecto que a vida apartada e o isolamento necessário nos impõem: a solidão.

Muitas crianças estão vivenciando algum tipo de medo e solidão. Algumas delas perderam pessoas queridas da sua convivência diária. Falta-lhes as aulas presenciais, os recreios, os festejos escolares, e, para algumas, a escolinha de futebol, de judô e capoeira. Para as crianças que frequentam escolas públicas, quando estão suspensas as aulas falta-lhes a refeição diária garantida, pois a maioria dos pais estão desempregados.

A solidão também me atinge, pessoalmente. Se por um lado o silêncio e as poucas visitas me favorecem para levar adiante meus projetos de escritora, por outro falta-me a presença barulhenta dos netos que me visitavam semanalmente. Juntos, líamos  histórias de seus livros preferidos, víamos na TV um programa engraçado, e ainda ajudava o maior deles nas as tarefas escolares. Gostava de esperá-los com as guloseimas que eles preferiam: creme de abacate, chocolates e potinhos de iogurt.

Sinto falta dos encontros alegres e cheios de afeto com os amigos. Neste ano de pandemia não tivemos celebrações de aniversário, como fazíamos com minhas caras amigas da época da adolescência. A maioria, garotas oitentonas, como eu. Restou-nos o conforto de poder enviar, por telefone, mensagens e áudios carinhosos. Jamais um aniversário passara em  branco, mesmo que a data fosse antecipada ou adiada. Mas, entre nós, aqui no Brasil, a solidão foi ampliada, neste momento, em todas as classes sociais.   

Desde março de 2020, muitos de nós tivemos a possibilidade de nos recolher em nossos lares, fomos ou seremos vacinados, e continuamos fazendo a nossa feira semanal que nos abastece do que precisamos. Mas há uma desoladora informação que não podemos ignorar: cresce, cada vez mais a população brasileira dos descartados e famintos, especialmente com a diminuição da prestação de serviços em domicílio, do novo contrato de empregados domésticos e da dificuldade de manter o trabalho informal com que alguns contavam, para suprir a necessidade de suas famílias. 

Recente pesquisa realizada pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) mostra que quase 116,8 milhões de brasileiros não se alimentam como deveriam, com qualidade e em quantidade suficiente. Entre esses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome. Vejamos abaixo.


Os trabalhadores da construção civil e do comércio ainda estão sobrevivendo. E especialmente os profissionais com especialização de nível universitário, como professores, educadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, médicos, psiquiatras e outros especialista que ainda podem atuar presencialmente ou de forma virtual. Quanto aos meios de informação, cresce o número de canais via YouTube e Facebook e a adesão de jornais e revistas ao formato digital. 

Embora a pandemia siga crescendo desastrosamente em número de mortos e infectados, percebe-se que as ruas estão voltando ao movimento de ônibus e automóveis, como antes, o comércio tenta reagir e as escolas retomam, razoavelmente, as suas atividades. No entanto, atingimos a cifra de 14 milhões de desempregados, - o que significa que as necessidades essenciais dos trabalhadores de baixa renda vão-se ampliando de forma assustadora. E nas periferias das capitais as famílias empobrecidas sofrem a pandemia da fome.

No meio de tantas incertezas sobre os reflexos da pandemia de coronavírus no Brasil, há pelo menos um consenso: as populações vulneráveis serão muito afetadas. Identificá-las e concentrar esforços nas áreas ocupadas por essas famílias é uma maneira de agir rápido e diminuir os estragos provocados pela propagação do vírus. Com esse objetivo, o analista Bruno Paixão criou um protótipo para identificação e focalização de municípios e famílias em situação de vulnerabilidade. Analista de desenvolvimento de sistemas com mestrado em ciência de dados pela Universidade de Brasília, ele compilou e organizou dados públicos do Cadastro Único para Programas Sociais e criou mapas que revelam a situação de vulnerabilidade em todos os municípios do Brasil.

O chamado "auxílio emergencial", a ser pago pelo Governo Federal, será feito em apenas quatro parcelas cujo valor vai de R$ 150,00 (para uma só pessoa) a 350,00, a depender da composição familiar. E não será cumulativo com o valor do  Bolsa Família. Às pessoas cadastradas no programa Bolsa Família, será pago o valor considerado maior, durante as quatro parcelas. A primeira parcela do "auxílio emergencial" será iniciada no mês de aniversário de cada pessoa  inscrita no NIS - que é o registro geral dos que recebem benefícios sociais do Governo Federal. Mesmo assim, muitos não conseguiram ainda se inscrever ou tentaram se inscrever e não conseguiram por algum problema burocrático.

O valor previsto de R$ 150,00 reais, para uma pessoa, dará apenas para comprar um botijão de gás e sobrará alguns reais. Para as famílias, o máximo a  receber - e apenas por quatro meses - pode chegar a R$ 350,00. Poderão talvez cobrir o aluguel desse período e comprar o pão de cada dia por quatro meses. Como farão depois para ter à mesa o pão, o café, o feijão e, talvez, alguns ovos ou linguiças? Nesse obscuro contexto, pode-se  considerar o nível de sofrimento e a carência das famílias empobrecidas neste momento, no nosso país. E os pobres mais apartados, mais carentes e adoecidos pela fome?

Estamos fazendo fazendo um apelo aos leitores deste blog, para apoiar as organizações da "Articulação Recife de Luta", pois continua crescendo o número de pessoas que estão passando fome, e precisam da nossa solidariedade. 

Enquanto não temos garantias de  soluções políticas e ajustes sociais que levem em conta a degradada condição de vida de quase metade da população brasileira, cabe a nós descobrir os meios de nos aproximar desses  necessitados. Em cada cidade ou região há organizações comunitárias, grupos de mulheres e de jovens que atuam nas periferias, especialmente nas capitais. São essas organizações que têm realizado a distribuição de cestas básicas, doadas por uma corrente solidária. Eles também poderão distribuir jogos e brinquedos que forem doados, com as mulheres que têm filhos pequenos. Não precisamos esperar o Natal. As crianças merecem ter com que brincar e o que ler... precisam de alguma alegria no meio das dificuldades onde vivem.   

O que fazer, então?

Cada um de nós encontrará o seu modo de cooperar. As contribuições em dinheiro servirão para a compra de cestas básicas, a preços menores, porque são compradas diretamente nos pequenos negócios da periferia.

Aos leitores que vivem fora do país, e desejam cooperar, por favor entrem em contato com a organização que indicamos abaixo. 

Para os do Recife  e de outras cidades, existe a possibilidade de doar aquilo que se tem a mais (o que você tem além do que precisa) e que está esquecido nos armários, fazendo falta a quem só tem necessidades: roupas, sapatos, lençóis, toalhas de banho, brinquedos, copos, pratos, talheres e utensílios de cozinha. Assim, alguns terão a alegria de uma nova roupa, de terem como cobrir-se, vestir-se e alimentar-se, para enfrentar este momento tão difícil. 

Os leitores que vivem em cidades do interior, poderiam fazer o mesmo. No caso de não haver iniciativas neste sentido, sugerimos que procurem amigos que ajudem a promover um ponto de distribuição de doações, incentivando assim a cooperação da comunidade local. 

Espero receber notícias dos que aderiram a essa proposta ou descobrindo outros modos de colaborar. Se desejarem enviar fotos ou outros registros, por favor usem o e-mail: blogpoese@gmail.com ou o espaço de comentário no próprio blog. 

No Recife, há uma Articulação de organizações que podem levar às famílias da periferia o nosso gesto de apoio, a nossa cooperação, pois desde o início estão envolvidos nessa tarefa. Serão nossos braços, nosso olhar solidário, nossa possibilidade de sermos mais um que coopera para aliviar a fome dessas pessoas. 

O nosso é um chamado a sairmos de nós mesmos para levar algum alento aos nossos irmãos. Será pouco, é verdade, mas somados, podem significar uma presença de  esperança. Até que chegue o dia - e não vai demorar - que teremos a oportunidade de exigir, com o nosso voto, a elaboração de políticas públicas estruturantes, que  contribuam para diminuir a vergonhosa desigualdade entre regiões e grupos populacionais em nosso país. 

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 Acesse:  facebook.com/recifedeluta e veja como contribuir.

 Fonte das informações :

1. Dados sobre a fome - https://www.poder360.com.br/economia/quase-117-mi-de-brasileiros-nao-se-alimentam-como-deveriam-indica-pesquisa/05/04/21

2. Informações sobre o Auxílio Emergencial:  https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/04/19/auxilio-emergencial-beneficiarios-do-bolsa-familia-recebem-hoje.htm?cmpid=copiaecola

Crédito das imagens:

1.Facebook.com/Recifedeluta - foto divulgação.

2. Imagem menino na cozinha - observatorio3setor.org.br.jpg

3. Imagem solidariedade - www.YouTube.com.br

4. Mapeamento dos municípios em situação de vulnerabilidade no Brasil. https://istoe.com.br/coronavirus-plataforma-identifica-populacao-vulneravel-em-todo-o-brasil/23/03/2020


 


 





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AMÉRICA LATINA E CARIBE - POBREZA EXTREMA FREARÁ O DESENVOLVIMENTO REGIONAL

14 de abril de 2021

 

Um de cada três países da América Latina e Caribe está em situação de vulnerabilidade financeira

 

EL PAÍS/Brasil

Por: ROCÍO MONTES|IGNACIO FARIZA


A pandemia da covid-19 aprofundou as já enormes desigualdades estruturais da América Latina e do Caribe. Num momento de “elevada incerteza, em que ainda não estão delineadas nem a forma nem a velocidade de saída da crise”, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) calcula que a pobreza extrema, a forma mais intensa de escassez, na qual nem as necessidades básicas são cobertas, terá chegado ao nível mais alto desde 2000. Um em cada oito latino-americanos (12,5%) vive agora nessa situação, mais de um ponto percentual a mais que há um ano, quando a crise de saúde era uma opção remota, e quase cinco pontos a mais que em 2014, quando a cifra atingiu seu ponto histórico mais baixo (7,8% da população). Antes da covid-19, a porcentagem de pessoas nessa situação já vinha crescendo de forma contínua havia cinco anos. O vírus, no entanto, foi a gota d’água para desatar essa preocupante tendência.

As medidas de proteção social de emergência adotadas em praticamente toda a região contribuíram para aliviar o duríssimo golpe do coronavírus sobre as sempre voláteis estruturas econômicas e sociais latino-americanas. Mas não impediu um aumento igualmente notável da pobreza moderada, que no final de 2020 afetava um em cada três habitantes da região (33,7%), mais de três pontos percentuais a mais que um ano antes. É preciso voltar a 2006, auge do “superciclo” das matérias-primas, que permitiu que vários Governos latino-americanos implementassem uma inédita série de medidas sociais, possibilitando uma drástica melhora na qualidade de vida para milhões de pessoas, que ampliaram a base da classe média.

A região da América Latina e Caribe é uma das mais afetadas pelo coronavírus, tanto em número de casos como de mortes. Com pouco mais de 8% da população mundial, contabilizava até dezembro de 2020 quase 20% dos contágios e mais de 25% de mortes em escala global. Cifras “tremendas”, nas palavras da secretária-executiva do organismo, Alicia Bárcena. A tragédia levou a uma crise econômica e social sem precedentes, agravada por problemas históricos como a inequidade (a região continua sendo a mais desigual do mundo), a informalidade no trabalho (indicador em que também é líder global), a desproteção social e a vulnerabilidade. Um terreno fértil que amplifica qualquer choque e seus efeitos negativos sobre as camadas menos favorecidas da sociedade, como afirma o Panorama Social 2020, apresentado nesta quinta-feira em Santiago (Chile) pelo braço das Nações Unidas para o desenvolvimento latino-americano.

Com uma curva demográfica que ainda esboça uma inclinação positiva, em termos absolutos as cifras são ainda mais impactantes. Segundo a CEPAL, o número total de pessoas pobres chegou a 209 milhões no final de 2020, 22 milhões a mais que no final do ano anterior. Desse total, 78 milhões estavam em situação de extrema pobreza, oito milhões a mais que em 2019.

Oito em cada 10 latino-americanos vivem hoje em situação de vulnerabilidade, com renda equivalente a três ou menos de três salários mínimos. Todas essas tendências se intensificam nas zonas rurais e nas de maior prevalência de população indígena.

Adeus à ascensão social

A maioria dos países latino-americanos enfrentará forte deterioração distributiva, um flanco sempre sensível na região: os que mais sofreram estão sofrendo ou sofrerão as devastações da pandemia serão os que partiram de uma situação pior. “Como sempre, os grandes perdedores são os pobres”, resumiu a chefa da CEPAL na coletiva em que o relatório foi apresentado.

perda de postos de trabalho e a redução de renda serão maiores nas camadas de renda baixa, assim como no setor informal e na população mais jovem. Já as camadas de renda média sofrerão o sempre temido processo de mobilidade descendente: retornar ao ponto de partida nunca é tão rápido quanto ser deslocado dele. O relatório tem uma explicação para esse fenômeno: na América Latina e no Caribe, as famílias das camadas médias e da parte superior das camadas baixas não costumam ser destinatárias das políticas e dos programas de proteção social, e a maior parte de sua renda vem do trabalho, um dos flancos mais atingidos.

A CEPAL estima que, entre 2019 e 2020, as camadas de baixa renda aumentaram 4,5 pontos percentuais (cerca de 28 milhões de pessoas a mais) e as de renda média se contraíram numa proporção similar

(-4,1 pontos percentuais, ou seja, 25 milhões de pessoas a menos).

Ao contrário de outras regiões, a porcentagem de trabalhadores latino-americanos que podem realizar trabalho remoto é muito baixa: para a maior parte dos empregados, o teletrabalho simplesmente não é uma opção.

“A região já vinha com sete anos de baixo crescimento”, afirmou Bárcena, um ano após a identificação do “paciente zero” de coronavírus nesta parte do mundo. “Precisamos de políticas públicas para enfrentar essa emergência e conectá-la com uma recuperação que seja diferente: não queremos chegar aonde estávamos, e sim transformar nossa sociedade. E isso só se faz com políticas públicas.” A urgência em avançar rumo a um verdadeiro Estado de bem-estar, disse ela, é hoje “maior do que nunca”. Segundo seus dados, um terço das famílias com crianças ou adolescentes não conta com nenhum tipo de proteção social. E quase uma em cada três mulheres —sobretudo nas camadas mais pobres da população— não participa do mercado de trabalho para sustentar sua família, ampliando e aprofundando as diferenças iniciais.

Além de prever que a desigualdade de renda total por pessoa aumentará com a pandemia, a CEPAL adverte que o vírus ameaça aprofundar o mal-estar que havia se tornado visível em diversos países da região antes da crise sanitária. “Abordar os fatores que originam o mal-estar, avançando rumo a políticas sociais centradas no gozo de direitos, na igualdade, no reconhecimento e no tratamento digno, juntamente com a construção de acordos sociais destinados à construção de sociedades mais justas, inclusivas e coesas, é fundamental para evitar níveis crescentes de conflito, expressões de violência e crises de representação e legitimidade democrática que impedem o desempenho econômico”, afirmam os técnicos da CEPAL.

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Fonte do artigo:

https://brasil.elpais.com/economia/2021-03-04/pobreza-extrema-na-america-latina-sera-a-mais-alta-em-20-anos-por-causa-do-coronavirus.html?rel=listapoyo

Imagem de abertura: https://www.brasil247.com/mundo/um-de-cada-tres-paises-da-america-latina-e-caribe-esta-em-situacao-de-vulnerabilidade-financeira

ABRIL PELA VIDA – MANIFESTO – CONTEXTO, PROPOSTAS E RESULTADOS ESPERADOS

6 de abril de 2021



Neste início de abril –- em geral celebrado com brincadeiras de pregar peças nos amigos distraídos –- fomos surpreendidos com um forte e significativo manifesto chamado “ABRIL PELA VIDA”, que escancara as incontáveis mentiras do Governo Federal em relação à descontrolada situação pandêmica no Brasil. O manifesto é  curto e preciso: apresenta-nos uma visão do contexto da pandemia no Brasil e, em seguida, aponta propostas claras, com fundamentos científicos, de como enfrentar a situação, de um modo efetivo e eficaz. Por fim, esclarece quais os resultados esperados, após as medidas adotadas.  

Os nomes das instituições signatárias e dos respeitáveis profissionais que lançaram o manifesto, levaram milhares de pessoas a também assinarem e divulgarem o mesmo, por todo o Brasil e fora dele. 

Segue a íntegra do manifesto, lançado em 01/04/2021.

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Abril pela Vida: 3 semanas para reverter a pandemia de Covid-19 no Brasil

Excelentíssimo Senhor Presidente da República,

Excelentíssimos(as) Senhores e Senhoras Governadores(as),

Excelentíssimos(as) Senhores e Senhoras Prefeitos(as),

 

Nós, organizações, pesquisadores e especialistas de Saúde Pública, Economia e Políticas Públicas, nos unimos, hoje, para recomendar a Vossas Excelências a adoção de medidas baseadas em evidências e estudos científicos que tem como objetivo reverter o cenário de calamidade que hoje acomete o país.

O referido conjunto de medidas, intitulado “Abril pela Vida”, postula a adoção imediata de 3 semanas de lockdown, que seriam responsáveis por salvar pelo menos 22 mil vidas, acompanhado de auxílio emergencial que seria capaz de neutralizar os efeitos econômicos negativos do lockdown.

1.   Contexto

A pandemia de Covid-19 tem sido responsável por retirar, diariamente, a vida de milhares de brasileiros. Na última semana, atingimos a marca de 300.000 mortos. Além disso, a pandemia tem sido responsável por sobrecarregar o sistema de saúde, hoje incapaz de atender toda a demanda de pacientes com Covid-19, bem como de tratar outras patologias. A pandemia tem sido responsável por dilapidar nossa já fragilizada economia, haja vista a longa duração da crise e a desconfiança econômica dela proveniente por parte de consumidores e investidores.

Estudos desenvolvidos pela Impulso Gov - organização brasileira de saúde pública, suprapartidária e sem fins lucrativos - apontam que o avanço da vacinação no país terá impactos positivos a partir do mês de maio, podendo reduzir à metade a média móvel de óbitos no país e aliviar a pressão sobre o sistema de saúde. Tal cenário se justifica pelas seguintes evidências:

·     Todas as vacinas testadas até agora mostraram alto potencial para prevenir hospitalização e morte.

·     Mais de 70% dos óbitos registrados no Brasil até aqui foram de pessoas acima de 60 anos.

·     O atual ritmo de produção nacional indica que teremos doses para vacinar plenamente quase todos os idosos (+60 anos) até o final de abril.

Todavia, para que esse cenário se torne realidade, é preciso reduzir a circulação do vírus de forma significativa e imediata. Caso contrário, podemos atingir a marca de 5,000 mortes diárias, conforme previsões de pesquisadores da Fiocruz; e podemos não ter leitos disponíveis, nem para pacientes com Covid-19 nem para aqueles com outras patologias, nas próximas semanas – cenário que infelizmente já é realidade em parte do país.

Nesse sentido, é fundamental que medidas de lockdown sejam adotadas, de forma coordenada pela União, Estados e Municípios brasileiros, pelas próximas 3 semanas com vistas a reduzir a circulação de pessoas e, assim, salvar vidas.

Estudos internacionais comprovam a eficácia da medida em 41 países, com efeito especialmente forte da redução de quaisquer aglomerações de mais de 10 pessoas; e recentemente observou-se a eficácia da medida também no Brasil. Após um mês de medidas restritivas, incluindo 10 dias de lockdown rígido como poucas vezes se viu no país, a cidade de Araraquara (SP) registrou, em 26 de março, o primeiro dia sem nenhuma morte causada por Covid-19, além de redução significativa no número de casos e da positividade dos testes.

2.   Propostas

Apresentamos abaixo duas medidas emergenciais, parte da estratégia “Abril pela Vida”, com vistas a reverter o cenário atual de calamidade no país e salvar vidas.

Cientes de que as medidas de lockdown podem expor indivíduos em situação de vulnerabilidade ao risco econômico e reduzir a sua adesão às medidas, propomos soluções econômicas emergenciais que podem ser adotadas pelos três níveis de governo, com vistas a reduzir os impactos negativos que a menor circulação de pessoas pode ter sobre populações vulneráveis e, igualmente, sobre as economias locais.

·     Lockdown rígido em abril

·     Proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas, bem como quaisquer aglomerações de indivíduos que não residem juntos.

·     Toque de recolher das 20h às 6h.

·     Fechamento de bares, restaurantes e praias.

·     Medidas de redução da superlotação nos transportes coletivos urbanos; transportes de trabalhadores dos serviços essenciais devem ser organizados pelas empresas, inclusive supermercados, farmácias e postos de gasolina.

·     Suspensão do funcionamento dos seguintes estabelecimentos: comércio atacadista, lojas de material de construção civil, casas de peças e oficinas de reparação de veículos automotores, comercialização de produtos e serviços de cuidados animais (permitido o funcionamento de clínicas médicas veterinárias e comercialização de alimentos), agências bancárias (permitindo o atendimento presencial para recebimento de benefícios) e instituições financeiras de fomento econômico, casas lotéricas; e atividade de pesca de lazer no mar (permitida a pesca comercial).

·     Adoção de trabalho remoto sempre que possível.

·     Instituição de barreiras sanitárias nacionais e internacionais, inclusive considerando fechamento de aeroportos e transporte interestadual.

·     Os hotéis e pousadas com capacidade de ocupação limitada a 30% dos quartos.

·     Ampliação de testagem e acompanhamento dos testados, com isolamento de casos suspeitos e monitoramento dos contatos.

·     Auxílio emergencial de parcela única

·     Concessão de parcela única de auxílio emergencial, para indivíduos e micro e pequenas empresas.

O valor do benefício seria:

·     Para indivíduos, equivalente ao valor médio de uma cesta básica em cada estado.

·     Para micro e pequenas empresas, no valor de mil reais.

·     Critérios de elegibilidade:

·     Indivíduos: maiores de idade, desempregados ou informais, que não recebem aposentadoria, Benefício de Prestação Continuada, Seguro Desemprego ou qualquer outro programa social (exceto Bolsa Família) e tem rendimento domiciliar per capita abaixo de meio salário mínimo.

·     Micro e pequenas empresas: para setores mais afetados pela pandemia (Alojamento, Alimentação e Atividades Artísticas, Criativas e de Espetáculos) para empresas do Simples Nacional e MEIs.

·     Estima-se que, considerando todos os estados brasileiros, seriam 67 milhões indivíduos elegíveis e 3,3 milhões de estabelecimentos beneficiados; os números exatos por estado estão disponíveis sob demanda.

·     Seriam necessários cerca de R$ 36 bilhões para financiar o auxílio para indivíduos e R$ 3,3 bilhões para as pequenas e microempresas. Este programa, que, além de permitir a adoção das medidas restritivas, teria o efeito de neutralizar as perdas geradas pelo lockdown; números por estado estão disponíveis sob demanda.

3.   Resultados esperados

A adoção da estratégia “Abril pela Vida” permitirá aos Governos e Municípios observar os seguintes resultados:

·     Reduzir a média móvel de mortos pela metade, o que pode significar pelo menos 22 mil vidas salvas;

·     Dispor de leitos para tratamento de Covid-19 e de outras patologias;

·     Reduzir a probabilidade de surgimento de novas variantes, capazes de superar a imunidade gerada pelas vacinas já desenvolvidas, com consequências globais desastrosas;

·     Neutralização de perdas econômicas, em razão do auxílio emergencial.

Sem a adoção das medidas supracitadas, teremos pelo menos 22 mil mortes adicionais, e podemos nos deparar com o surgimento de novas variantes, além de acentuarmos a crise de saúde pública e falta de leitos de UTI. A inação, além de causar impactos severos sobre o nosso sistema de saúde, exigirá medidas restritivas por mais tempo, e trará impactos econômicos ainda mais severos. A redução prolongada da atividade econômica por mais de quatro meses poderá anular completamente as possibilidades de crescimento econômico previstas para 2021.

À luz do exposto, e haja vista a competência dos Governos Federal, Estadual e Municipal para adotarem medidas eficazes no combate à pandemia, recomendamos aos Municípios, Estados e à União que adotem as medidas supracitadas, em esforço coletivo e coordenado para reverter o avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil, salvando milhares de vidas e socorrendo a economia brasileira.

Caso se faça necessário, estamos à disposição para esclarecer eventuais questionamentos de Vossas Excelências, compartilhar estudos técnicos e simulações que embasaram as propostas aqui presentes e apresentar possibilidades de financiamento do auxílio, além de apoiar, individualmente, os Estados e Municípios na adequação e implementação imediata das medidas propostas ao contexto local.

Respeitosamente,

Impulso Gov

Vital Strategies Brasil

Acacio Sousa LimaPresidente da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil

Adriano Massuda, Médico Sanitarista, Professor e Pesquisador da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) e da Universidade Federal do Paraná

Ana Luiza Bierrenbach, Professora da Pós-Graduação do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital Sírio-Libanês e da Universidade Federal de Goiás

Ana Maria Malik, Professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenadora do GVSaúde e membro do conselho da Associação Latina Para Análise dos Sistemas de Saúde (ALASS)

André Lara Resende, Ex-diretor do Banco Central do Brasil (BACEN) e Ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)

Andre Portela Souza, Professor de Economia da EESP-FGV

Fátima Marinho, Professora da Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Gabriela Spanghero LottaProfessora e Pesquisadora de Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Guilherme Werneck, Pesquisador e Professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Hannah Arcuschin Machado, Gerente de Projetos da Vital Strategies

João Moraes AbreuDiretor Executivo da Impulso Gov

Ligia Bahia, Professora Associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Luciano CoutinhoProfessor titular no Instituto de Economia da UNICAMP e Ex-Presidente do BNDES

Luis Eugenio de Souza, Professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Vice-presidente da Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA)

Luiz Carlos Bresser-Pereira, Professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas

Luiz Gonzaga Belluzzo, Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp (Aposentado)

Luiza Dickie AmorimConsultora da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health

Manoel Pires, Pesquisador do IBRE/FGV e da UnB. Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda

Marcelo MedeirosProfessor da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)

Márcia Castro, Doutora em Demografia e Professora Associada da Harvard School of Public Health

Marco BrancherCoordenador de Dados da Impulso Gov e Pesquisador da FGV

Maria Amelia de Sousa Mascena Veras, Professora Adjunta do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Monica de BolleProfessora da Johns Hopkins University

Nelson GouveiaProfessor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

Nelson Marconi, Professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV)

Naomar de Almeida Filho, Professor de Epidemiologia e ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Paulo José da Silva e Silva, Professor de Matemática Aplicada da Universidade Estadual de Campinas e Pesquisador do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria.

Paulo SchorMédico, Professor e Diretor de Inovação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Paulo Saldiva, Professor Titular de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

Pedro do Carmo Baumgratz de Paula, Professor da FGV Direito SP (FGVLaw) e Diretor-Executivo da Vital Strategies Brasil

Pedro Hallal, Epidemiologista, Professor da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do Epicovid-19

Rubens Belfort Jr., Presidente da Academia Nacional de Medicina

Rubens RicuperoEx-Ministro do Meio Ambiente, da Amazônia e Ex-Ministro da Fazenda.

Soraya Smaili, Reitora da Universidade Federal de São Paulo

Vanessa Elias de Oliveira, Professora de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC)

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 Fonte do documento:

https://portalhospitaisbrasil.com.br/abril-pela-vida-3-semanas-para-reverter-a-pandemia-de-covid-19-no-brasil/

Imagem de abertura: Mafalda - desenho realizado por QUINO para uma exposição no Instituto Di Tella de Buenos Aires. Em: Toda Mafalda, Ediciones de la Flor p.639

Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.

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