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PANDEMIA E PRECARIEDADE SOCIAL - UMA REALIDADE QUE SE AGRAVA COM A FOME

23 de abril de 2021




Por: Vanise Rezende

Diversos observadores sociais têm apontado que, entre as inúmeras questões trazidas pela pandemia do vírus devastador que assola o mundo, e particularmente o Brasil, há um importante aspecto que a vida apartada e o isolamento necessário nos impõem: a solidão.

Muitas crianças estão vivenciando algum tipo de medo e solidão. Algumas delas perderam pessoas queridas da sua convivência diária. Falta-lhes as aulas presenciais, os recreios, os festejos escolares, e, para algumas, a escolinha de futebol, de judô e capoeira. Para as crianças que frequentam escolas públicas, quando estão suspensas as aulas falta-lhes a refeição diária garantida, pois a maioria dos pais estão desempregados.

A solidão também me atinge, pessoalmente. Se por um lado o silêncio e as poucas visitas me favorecem para levar adiante meus projetos de escritora, por outro falta-me a presença barulhenta dos netos que me visitavam semanalmente. Juntos, líamos  histórias de seus livros preferidos, víamos na TV um programa engraçado, e ainda ajudava o maior deles nas as tarefas escolares. Gostava de esperá-los com as guloseimas que eles preferiam: creme de abacate, chocolates e potinhos de iogurt.

Sinto falta dos encontros alegres e cheios de afeto com os amigos. Neste ano de pandemia não tivemos celebrações de aniversário, como fazíamos com minhas caras amigas da época da adolescência. A maioria, garotas oitentonas, como eu. Restou-nos o conforto de poder enviar, por telefone, mensagens e áudios carinhosos. Jamais um aniversário passara em  branco, mesmo que a data fosse antecipada ou adiada. Mas, entre nós, aqui no Brasil, a solidão foi ampliada, neste momento, em todas as classes sociais.   

Desde março de 2020, muitos de nós tivemos a possibilidade de nos recolher em nossos lares, fomos ou seremos vacinados, e continuamos fazendo a nossa feira semanal que nos abastece do que precisamos. Mas há uma desoladora informação que não podemos ignorar: cresce, cada vez mais a população brasileira dos descartados e famintos, especialmente com a diminuição da prestação de serviços em domicílio, do novo contrato de empregados domésticos e da dificuldade de manter o trabalho informal com que alguns contavam, para suprir a necessidade de suas famílias. 

Recente pesquisa realizada pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) mostra que quase 116,8 milhões de brasileiros não se alimentam como deveriam, com qualidade e em quantidade suficiente. Entre esses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome. Vejamos abaixo.


Os trabalhadores da construção civil e do comércio ainda estão sobrevivendo. E especialmente os profissionais com especialização de nível universitário, como professores, educadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, médicos, psiquiatras e outros especialista que ainda podem atuar presencialmente ou de forma virtual. Quanto aos meios de informação, cresce o número de canais via YouTube e Facebook e a adesão de jornais e revistas ao formato digital. 

Embora a pandemia siga crescendo desastrosamente em número de mortos e infectados, percebe-se que as ruas estão voltando ao movimento de ônibus e automóveis, como antes, o comércio tenta reagir e as escolas retomam, razoavelmente, as suas atividades. No entanto, atingimos a cifra de 14 milhões de desempregados, - o que significa que as necessidades essenciais dos trabalhadores de baixa renda vão-se ampliando de forma assustadora. E nas periferias das capitais as famílias empobrecidas sofrem a pandemia da fome.

No meio de tantas incertezas sobre os reflexos da pandemia de coronavírus no Brasil, há pelo menos um consenso: as populações vulneráveis serão muito afetadas. Identificá-las e concentrar esforços nas áreas ocupadas por essas famílias é uma maneira de agir rápido e diminuir os estragos provocados pela propagação do vírus. Com esse objetivo, o analista Bruno Paixão criou um protótipo para identificação e focalização de municípios e famílias em situação de vulnerabilidade. Analista de desenvolvimento de sistemas com mestrado em ciência de dados pela Universidade de Brasília, ele compilou e organizou dados públicos do Cadastro Único para Programas Sociais e criou mapas que revelam a situação de vulnerabilidade em todos os municípios do Brasil.

O chamado "auxílio emergencial", a ser pago pelo Governo Federal, será feito em apenas quatro parcelas cujo valor vai de R$ 150,00 (para uma só pessoa) a 350,00, a depender da composição familiar. E não será cumulativo com o valor do  Bolsa Família. Às pessoas cadastradas no programa Bolsa Família, será pago o valor considerado maior, durante as quatro parcelas. A primeira parcela do "auxílio emergencial" será iniciada no mês de aniversário de cada pessoa  inscrita no NIS - que é o registro geral dos que recebem benefícios sociais do Governo Federal. Mesmo assim, muitos não conseguiram ainda se inscrever ou tentaram se inscrever e não conseguiram por algum problema burocrático.

O valor previsto de R$ 150,00 reais, para uma pessoa, dará apenas para comprar um botijão de gás e sobrará alguns reais. Para as famílias, o máximo a  receber - e apenas por quatro meses - pode chegar a R$ 350,00. Poderão talvez cobrir o aluguel desse período e comprar o pão de cada dia por quatro meses. Como farão depois para ter à mesa o pão, o café, o feijão e, talvez, alguns ovos ou linguiças? Nesse obscuro contexto, pode-se  considerar o nível de sofrimento e a carência das famílias empobrecidas neste momento, no nosso país. E os pobres mais apartados, mais carentes e adoecidos pela fome?

Estamos fazendo fazendo um apelo aos leitores deste blog, para apoiar as organizações da "Articulação Recife de Luta", pois continua crescendo o número de pessoas que estão passando fome, e precisam da nossa solidariedade. 

Enquanto não temos garantias de  soluções políticas e ajustes sociais que levem em conta a degradada condição de vida de quase metade da população brasileira, cabe a nós descobrir os meios de nos aproximar desses  necessitados. Em cada cidade ou região há organizações comunitárias, grupos de mulheres e de jovens que atuam nas periferias, especialmente nas capitais. São essas organizações que têm realizado a distribuição de cestas básicas, doadas por uma corrente solidária. Eles também poderão distribuir jogos e brinquedos que forem doados, com as mulheres que têm filhos pequenos. Não precisamos esperar o Natal. As crianças merecem ter com que brincar e o que ler... precisam de alguma alegria no meio das dificuldades onde vivem.   

O que fazer, então?

Cada um de nós encontrará o seu modo de cooperar. As contribuições em dinheiro servirão para a compra de cestas básicas, a preços menores, porque são compradas diretamente nos pequenos negócios da periferia.

Aos leitores que vivem fora do país, e desejam cooperar, por favor entrem em contato com a organização que indicamos abaixo. 

Para os do Recife  e de outras cidades, existe a possibilidade de doar aquilo que se tem a mais (o que você tem além do que precisa) e que está esquecido nos armários, fazendo falta a quem só tem necessidades: roupas, sapatos, lençóis, toalhas de banho, brinquedos, copos, pratos, talheres e utensílios de cozinha. Assim, alguns terão a alegria de uma nova roupa, de terem como cobrir-se, vestir-se e alimentar-se, para enfrentar este momento tão difícil. 

Os leitores que vivem em cidades do interior, poderiam fazer o mesmo. No caso de não haver iniciativas neste sentido, sugerimos que procurem amigos que ajudem a promover um ponto de distribuição de doações, incentivando assim a cooperação da comunidade local. 

Espero receber notícias dos que aderiram a essa proposta ou descobrindo outros modos de colaborar. Se desejarem enviar fotos ou outros registros, por favor usem o e-mail: blogpoese@gmail.com ou o espaço de comentário no próprio blog. 

No Recife, há uma Articulação de organizações que podem levar às famílias da periferia o nosso gesto de apoio, a nossa cooperação, pois desde o início estão envolvidos nessa tarefa. Serão nossos braços, nosso olhar solidário, nossa possibilidade de sermos mais um que coopera para aliviar a fome dessas pessoas. 

O nosso é um chamado a sairmos de nós mesmos para levar algum alento aos nossos irmãos. Será pouco, é verdade, mas somados, podem significar uma presença de  esperança. Até que chegue o dia - e não vai demorar - que teremos a oportunidade de exigir, com o nosso voto, a elaboração de políticas públicas estruturantes, que  contribuam para diminuir a vergonhosa desigualdade entre regiões e grupos populacionais em nosso país. 

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 Acesse:  facebook.com/recifedeluta e veja como contribuir.

 Fonte das informações :

1. Dados sobre a fome - https://www.poder360.com.br/economia/quase-117-mi-de-brasileiros-nao-se-alimentam-como-deveriam-indica-pesquisa/05/04/21

2. Informações sobre o Auxílio Emergencial:  https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/04/19/auxilio-emergencial-beneficiarios-do-bolsa-familia-recebem-hoje.htm?cmpid=copiaecola

Crédito das imagens:

1.Facebook.com/Recifedeluta - foto divulgação.

2. Imagem menino na cozinha - observatorio3setor.org.br.jpg

3. Imagem solidariedade - www.YouTube.com.br

4. Mapeamento dos municípios em situação de vulnerabilidade no Brasil. https://istoe.com.br/coronavirus-plataforma-identifica-populacao-vulneravel-em-todo-o-brasil/23/03/2020


 


 





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