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LITERATURA — MIA COUTO

29 de dezembro de 2015




Pensando quanto de coragem e de ousadia estamos a precisar, para sustentar a Esperança no ano que se inicia, trago o texto de uma palestra dada por Mia Couto durante um seminário em que se dialogava sobre a segurança. E Mia Couta falou do Medo





 
Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, em Moçambique e hoje reside na capital Maputo. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Recebeu diferentes prêmios literários, entre eles o mais prestigioso da língua portuguesa - Prêmio Camões de 2013. 

Em 2014 recebeu o  prêmio literário internacional, Neustadt Prize de 2014 - concedido pelo conjunto da sua obra - e é promovido a cada dois anos pela Universidade de Oklahoma e por World Literature Today, nos Estados Unidos. Mia Couto é também membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Com vocês o texto que o escritor leu para os ouvintes, na ocasião.



MURAR O MEDO


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos quando chegaram já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos.

Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano, de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.


O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a mina casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente.

E porque se tratam de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome.



Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível.




Vivemos, como cidadãos e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas como, por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? 

Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis, na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realiza mais seminários sobre segurança, do que sobre justiça? 


Se quisermos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um, em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento.


 A fome será, sem dúvida, a maior causa de  insegurança do nosso tempo.  

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana   que pode  ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. 

A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.




Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje, no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. 





Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras”. E, se calhar - acrescento agora eu - há quem tenha medo que o medo acabe! 

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A Editora Companhia das Letras, que publica os livros de Mia Couto no Brasil, escreve que o seu livro “Vozes Anoitecidas”, de 1986, projetou o escritor moçambicano para o mundo. O seu romance "Terra Sonâmbula" (2005), agora com edição de bolso no Brasil, é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Com ele,  “o autor lançou as bases daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra ficcional: a reconstrução de laços entre o registro oral e escrito”. E comenta que, nos seus artigos,  “transparece a preocupação de provocar debate, sugerindo alternativas inovadoras, questionando modelos de pensamento e interrogando os lugares-comuns que aprisionam o nosso olhar perante os desafios da atualidade. O prazer já encontrado na escrita de quem se diz estar reinventando a língua portuguesa, ressurge agora no gosto de pensar o nosso mundo e o nosso tempo”.   

Algumas obras do autor, por ordem cronológica:


A menina sem palavra (2013)  


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Texto:

Murar o Medo in: www.vermelho.org.br/noticia/2012
Conferência pronunciada em 11/2011, na Conferência de Estoril - Fundação Cascais, que ocorre anualmente em Portugal. 


Crédito Imagens:

1. Arco-íres - arquivos do blog "Espaço Poese";
2. Mia Couto - www.outraspalavras.net
3. Anjo - www.canstockphoto.com.br
4. Flor na espuma do marwww.canstockphoto.com.br
5. Família sob guarda-chuva - www.canstockphoto.com.br
6. Aviões de Guerrawww.canstockphoto.com.br
7. Fome - Escultura de Abelardo da Hora - Recife (Brasil) 
    - foto de Vanise Rezende - exposição em 2014.
8. Mulher ameaçada - www.canstockphoto.com.br
9. Grande Muralha chinesa - www.pt.wikipedia.org
10. Arranha-ceus e favelas - www.canstocphoto.com.br
      
Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com:vrblog@hotmail.com

POR QUE AS CRIANÇAS SOFREM?

23 de dezembro de 2015

Nesse tempo de Natal, trago ao Espaço Poese dois olhares – que, na verdade, se encontram – para nos falar do Natal, essa festividade que nos convida a profundas reflexões. Um deles, já é “de casa” neste espaço,  nosso irmão maior, teólogo, ecologista e escritor, Leonardo Boff
O outro é Mario Sergio Conti, jornalista, apresentador de TV e escritor. 




N A T A L

· Leonardo Boff - 23/12/2015
                                                            Sempre que nasce uma criança
                                                                       é sinal de que Deus
                                                              ainda acredita no ser  humano.                                                                                       

Estamos na época de Natal, mas a aura não é natalina, é antes de sexta-feira santa. Tantas são as crises, os atentados terroristas, as guerras que, juntas, as potências belicistas e militaristas (USA, França, Inglaterra, Russa e Alemanha) conduzem contra o Estado Islâmico, destruindo praticamente a Síria com uma espantosa mortandade de civis e  de  crianças, como a própria imprensa  tem mostrado, a atmosfera contaminada  por  rancores  e  espírito  de  vindita  na política brasileira,  sem falar dos níveis astronômicos de corrupção: tudo  isso apaga as luzes natalinas, e amortecem os pinheirinhos que deveriam criar uma atmosfera de alegria e da inocência infantil que ainda persiste em cada pessoa humana.



Quem pôde assistir o filme Crianças Invisíveis, em sete cenas diferentes dirigido por diretores renomados como Spike Lee, Katia Lund, John Woo entre outros, pode se dar conta da vida destruída de crianças, de várias partes do mundo, condenadas a viver do lixo e no lixo; e ainda assim há cenas comovedoras de camaradagem, de pequenas alegrias nos olhos tristes e de solidariedade entre elas.


E pensar que são milhões hoje no mundo, e que o próprio menino Jesus, segundo os textos bíblicos, nasceu fora de casa, numa mangedoura de animais, porque não havia lugar para Maria, em serviço de parto, em nenhuma estalagem de Belém. Ele se misturou com o destino de todas estas crianças maltratadas pela nossa insensibilidade.

Mais tarde, esse mesmo Jesus, já adulto, dirá: ”Quem receber esses meus irmãos e irmãs menores é a mim que recebe”. O Natal se realiza quando ocorre esse acolhimento, como aquele que o Padre Lancelotti organiza em São Paulo, para centenas de crianças de rua, sob um viaduto, e que contou, por anos, com a presença do Presidente Lula.

No meio desta desgraceira toda, no mundo e no Brasil, me vem à mente o pedaço de madeira com uma inscrição em pirografia, que um internado num hospital psiquiátrico em Minas Gerais me entregou, por ocasião de uma visita que fiz por lá para animar os atendentes. Lá estava escrito: ”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”.

Poderá haver ato de fé e de esperança maior que este?



O Natal deste ano nos remete a essa humanidade ofendida e a todas as crianças invisíveis cujos padecimentos são como os do menino Jesus que, certamente, no severo inverno dos campos de Belém, tiritava na mangedoura. Segundo lenda antiga, foi aquecido pelo bafo de dois velhos cavalos que como prêmio ganharam, depois, plena vitalidade.


Vale lembrar o significado religioso do Natal: Deus não é um velho barbudo, de olhos penetrantes e juiz implacável de todos os nossos atos. É uma criança. E como criança não julga ninguém. Quer apenas conviver e ser acarinhado. Da mengedoura nos vem esta voz: ”Oh, criatura humana, não tenhas medo de Deus. Não vês que a sua mãe enfaixou seus bracinhos? Ele não ameaça ninguém. Mais que ajudar, ele precisa ser ajudado e carregado no colo”.

Ninguém melhor que Fernando Pessoa entendeu o significado humano e verdadeiro do menino Jesus: ”Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro… Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano. E deita-me na cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.

Dá para conter a emoção diante de tanta beleza? Por causa disso, vale ainda, apesar dos pesares, celebrar discretamente o Natal.


Por fim, tem alto significado esta última mensagem singela encantadora: "Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser ‘deus’. Só Deus quis ser menino”.
Abracemo-nos mutuamente, como quem abraça a Criança divina (o puer aeternus) que se esconde em nós e que nunca nos abandonou.
E que o Natal seja ainda uma festa discretamente feliz.

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Aos que desejarem ouvir o "Canto de Natal" de Manuel Bandeira, podem acessar :


https://www.youtube.com/watch?v=fQVSJf7WDbw



O Natal de Stedile

Mario Sergio Conte
22/12/2015

Há muitas formas de se falar do Natal. A maioria se prende ao ideário religioso e cristão. Mas há também formas seculares e poéticas como fez Manuel Bandeira em seu comovedor “Canto de Natal”, e de forma, a meu ver insuperável, por Fernando Pessoa. Agora temos a reflexão política, surpreendente do jornalista e entrevistador de televisão Mario Sergio Conti. De modo secular, ele nos comunica a mensagem de Natal que tem inspirado uma das lideranças mais combativas que é João Pedro Stédile, do MST (Movimento dos Sem Terra). Vale seguir seu raciocínio estimulante. (Lboff)
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Quando menos se espera, o Natal está aí: calorão, filas, tempestades, engarrafamentos, dinheiro curto, sofreguidão de última hora para comprar presentes. Ainda assim, o Natal é um convite à pausa, à reflexão.
Como o ano foi de tumulto, de luta acre no Parlamento e fora dele, de ações espetaculosas da Lava Jato, de xilindró cheio de nababos em Curitiba, a meditação é política.
É tempo também de reflexão religiosa, porque a fé fere cada vez mais o coração da política. As labaredas da jihad, as matanças na França, no Líbano, no Iêmen, no Egito e na Tunísia, fizeram terror e islã fermentar num mesmo caldeirão.
Distante do belicismo redivivo das Cruzadas, nem por isso o Brasil está infenso ao sagrado. Aqui, é a vaga evangélica que transtorna a política. Tanto que Eduardo Cunha, um pentecostal que exala enxofre ao ouvir falar de aborto e casamento gay, quis impor sua dúbia carolice à nação laica.
O Brasil é o país que abriga o maior rebanho católico do mundo. Entre eles está João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem Terra. Ele é primo de Dom Orlando Dotti, bispo de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e de vários frades capuchinhos. Os primos párocos marcaram a sua formação franciscana, que considera “mais atual do que nunca”.
Stedile sustenta que o líder religioso da hora, o papa Francisco, “tem um comportamento revolucionário”. O pontífice, disse ele no intervalo de uma peregrinação pelo interior paulista, “teve uma experiência política no peronismo, é um nacionalista que defende os pobres e é contra o abuso do capital”.
Para ele, a encíclica papal sobre o meio ambiente “é uma obra histórica maior do que dez COP21, a conferência da ONU sobre o clima, que não serviu para nada”.
O MST se atualizou na teoria e na prática nos últimos anos. O movimento, diz Stedile, é contra a “reforma agrária burra”, que só se preocupa com a divisão dos latifúndios. Advoga que a agricultura produza alimentos saudáveis para o povo, em vez de exportar commodities. Prega a “agroecologia”, técnicas de cultivo que não vitimem a natureza.
Ele também se insurgiu contra o machismo, disseminado no meio rural, inclusive no MST. O movimento conseguiu que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, passasse a entregar títulos de propriedade a casais de sem-terra gays.
Neste Natal, Stedile vê o Brasil numa encruzilhada política, econômica, social e ambiental. A destituição de Dilma Rousseff veio para o primeiro plano: “a pequena burguesia reacionária das grandes cidades quer o impeachment, mas ele não resolve as dificuldades nem representa uma saída para as massas”.
Economista, Stedile não acredita em Papai Noel. Vaticina que “a crise será longa porque, para sair dela, precisamos de um projeto que unifique a maioria das forças sociais. E nenhuma força está conseguindo isso”.
A sua esperança natalina é matizada: “Toda crise é positiva, por obrigar a mudanças. Elas podem demorar, mas virão, e espero que sejam a favor do povo. Serão anos de luta”.
Com prenome dos apóstolos João e Pedro, Stedile parece se nortear pelo Cristo do evangelho de Mateus, aquele que disse: “Não vim trazer paz, mas a espada” (10, 34). Ele nasceu no mesmo dia do Nazareno; fará 62 anos na sexta-feira.
Um feliz Natal a todos.
In: www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2015/12/1721915-o-natal-de-stedile.shtml
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Crédito das imagens:


1 - Criança é atingida por bombardeio na Síria. www.noticias.uol.com.br/album
2 - Menina com véu - imagem divulgação do filme: "Crianças Invisíveis".
3 - Francisco em Manila (2014), com crianças - www..ihu.usininos.br
4 - Crianças africanas casadas e com filhos - www.eltiempo.com
5 - Mangedoura do Natal do Menino Jesus - arquivo do Espaço Poese
6 - Crianças africanas que vivem a filosofia Ubuntu - divulgação
7 - João Pedro Stedile, entrevista  - www.dercio.com.br
8 - João Pedro Stedile com Papa Francisco - Osservatore Romano
9 - João Pedro Stedile conferencista -  www.consultapopular.org.br


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MÚSICA — RAPPER SUAVE

19 de dezembro de 2015


(...) “Fúrias e glórias marcam nossas vidas
O futuro a quem pertence? 
Amanhã, só mais um dia...
Diz que é da paz, mas o espírito está em guerra


Nas redes sociais em capslock você berra!

Não se volta atrás quando a vida ferra

Tem que ser sagaz onde o mundo erra!
Quanto tempo és capaz de andar sobre a terra?
Deus ou Satanás, pra quem é que você reza?”


Esta é a voz-mensagem do rapper Flávio Renegado, que  constrói suas letras a partir da
observação  do  mundo ao  redor, puxando, do coração, mensagens suaves de sensatez e amor à vida. 

convivência com gente jovem nos faz ficar mais antenados com as coisas bonitas do mundo em que vivemos, pra descansar das notícias dos malfeitos do Congresso Nacional, das frouxas decisões da Cúpula do Clima, dos rios amados que morrem diante do seu povo, e dos mares poluídos de irresponsabilidades e descuidos sociais.

Há muita coisa bonita no mundo, e entre elas está a arte da música e suas letras surpreendentemente coladas com a vida. Para falar melhor sobre Flávio Renegado, peço emprestado trechos de um texto do jornalista Lauro Lisboa Garcia (*) escrito na página do rapper, que usa o seu talento e a sua voz à denúncia e ao manifesto da suave bem-aventurança das boas relações entre as pessoas. Segue o texto.
   
Flávio Renegado é um vencedor, como ele mesmo afirma na letra de uma de suas composições, “Zica”. E para quem o conhece – mesmo que apenas da atuação nos palcos ou em cenas nos bastidores dos shows que ele frequenta (...) – fica evidente a humildade e a simpatia como componentes naturais que cativam fãs e profissionais que - pra usar uma expressão do produtor Liminha - “conspiram muito” a favor dele. Não é por acaso que todo mundo ao seu redor tem “disposição de construir juntos”.

O espírito batalhador de Renegado, associado a um jeito de ver o mundo de maneira positiva, compensou as muitas privações por que passou, levando-o a conquistar grandes aliados, como o elenco que comanda o seu DVD: os produtores musicais Liminha e Kassin e o cenógrafo e artista múltiplo Gringo Cardia, responsável pela direção artística do projeto. (...) As suas letras – em parte autobiográficas – exalam sinceridade e respondem a quem quer que esteja interessado em saber de sua personalidade.


Nascido e criado na favela – e Filho de Oxossi no Candomblé – Renegado chegou na contracorrente das convenções do hip-hop. A dureza da vida de preto pobre não o fez perder a ternura, e é notório que a leveza do seu discurso – associada à versatilidade sonora e à desenvoltura com que canta e faz rap – o tenha levado a ampliar seu público para além dos guetos. Enfim, como diz Joana Mazzucheli, responsável pela direção de vídeo, ele tem um “jeito doce de malandro suave”. (...)

De boné ou de terno, ele entrou no jogo pra ganhar, ainda e sempre aprendendo e indo como já foi, muito acima do Oiapoque. Com ele a coisa é séria – mas, sorridente. 

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Até aqui o texto da página de Flávio Renegado, que me deixou muito curiosa. Saí em busca da letra de uma qualquer música do seu último DVD, e me deparei com o vídeo de uma sua apresentação, em que ele traz ao palco a sua mãe, com uma atenção e uma suavidade carregadas de ternura, por aquela mulher que lhe fora "mãe e pai", que lhe ensinara a viver, que lhe estendera a mão... "A mulher que me fez homem de verdade", como ele canta. 




Minha primeira impressão é que Flávio Renegado é um rapper que assumiu a missão de falar aos jovens que hoje se encontram na realidade que ele vivenciou. Sua música, sua história, suas letras tiradas de um cotidiano pobre que ele conheceu tão bem – dialogam com um público que se identifica com a sua mensagem e sua experiência de vida. 





Sua história pessoal é engendrada nas redes e matizes de outras histórias comuns às pessoas simples e pobres, que mesmo não tendo a possibilidade de realizar um curso na universidade, trazem em si a marca da cidadania consciente e consequente, a clareza do seu lugar único no mundo e da importância da educação cidadã para a convivência social.  


A  música  de  Flávio Renegado  não  comove   nem   envolve   o público porque ele, apesar de ter nascido pobre e negro, venceu, neste país. Sua música é curtida pelo grande público e faz sucesso, porque sua postura artística testemunha a educação que recebeu de uma mulher corajosa, otimista, confiante na vida, e distanciada do vício de querer "subir" a qualquer preço. 




Uma mulher, como ainda se pode encontrar nas empregadas domésticas de hoje e manicures pessoais, naquelas que empurram carroças de pipoca ou de milho verde, nas balcanistas do comércio que ainda subsiste nos bairros distantes, nas catadoras de papel e latas, e outros tantos dígnos ofícios de sobrevivência.  

Às vésperas da celebração do Natal  e lembrando Maria de Nazaré, casada com José, o carpinteiro  dedico a letra que Flávio Renegado fez, inspirado em sua mãe, a todas as mulheres e mães das favelas e morros, de meninas e meninos que ainda crescem despreparados para o seu primeiro emprego, e aquelas que tentam "recuperar" suas filhas e filhos dos embustes de uma sociedade doente, entediada, confundida pela moda das aparências, e corroída pela caça ao dinheiro e ao poder, custe o que custar. 


Segue a letra/história de "Bênção, Mãe":


























Benção, mãe, obrigado por ter
me ensinado de fato o que é viver.
Eu sei, cheguei em uma hora conturbada
Apesar de me amar, você não me esperava...

Sei comé que é, como a vida é dura
Aos 21 mãe solteira, dois filhos, loucura.
                            Mesmo assim não teve medo da  situação                               
                  Sempre foi determinada e de opinião.                     
                                               
Mesmo quando ele te abandonou
Eu já tinha três de idade quando ele nos deixou
Sem atitude, não fez papel de homem
Sem carinho, sem amor, do que vale o sobrenome?

Dele não tenho raiva ou ressentimento
Também não tenho afeto ou qualquer outro sentimento.
Não moveu um só dedo para ajudar,
E você limpando o chão de playboy pra poder me criar.

Se desgastando em várias jornadas de trabalho
Pra não deixar faltar o feijão no nosso prato
Do céu, às vezes, nem chuva cai
E pra mim você foi sempre mãe e pai.

Final dos anos 90 parte dois do dilema:
Eu entro na adolescência...
Benção, mãe, obrigado por ter
me ensinado de fato o que é viver!

Quando criança eu prometi não te fazer sofrer,
Mas comecei a desejar o que não podia ter...
De gênio forte incontrolável, tá bom eu sei,
Que eu sempre fui o mais rebelde de nós três.

Mas a senhora, mãe, sabe muito bem,
Que eu nunca gostei de depender de ninguém
Dinheiro fácil, mulher, moral e respeito
A vida do crime é ilusória nego.

Sempre me falando o que era certo e errado
Apesar do meu descaso nunca saiu do meu lado.
Quando eu me perdi em meio à escuridão,
Você foi a única que me estendeu a mão.

Peço perdão! Pelos desgostos que já te fiz passar
Peço perdão! Pelas lágrimas que já te fiz chorar
Peço perdão! Pela falta de atenção e de juízo
Que várias vezes nos levaram ao litígio.

Hoje agradeço cada tapa, cada puxão de orelhas,
Pois eles me impediram de fazer várias besteiras.
Obrigado por não desistir de mim em meio às dificuldades,
Dona Regina, a mulher que me fez homem de verdade!

Benção, mãe, obrigado por ter
me ensinado de fato o que é viver!

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(*) Lauro Lisboa Garcia é também fotógrafo de recitais e shows musicais.                    
# Os vídeos e outras informações de Flávio Renegado são encontrados com facilidade no Youtube e no seu Site: www.flaviorenegado.com.br 
# "suaveaovivo 2013, foi o primeiro DVD do compositor, cantor e rapper mineiro – e é uma representativa síntese de seu trabalho anterior. 
# O dvd “Relatos de um Conflito Particular” - foi lançado em outubro de 2015. O projeto transita entre os sete pecados capitais, e joga na roda a seguinte discussão: o dia a dia é feito de más condutas ou é permeado por instintos básicos do ser humano?


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Créditos Imagens:

1ª foto: www.almanaque.portalvox.com
2ª foto: www.rapnacional.vírgula.uol.com.br
3ª foto: www.glamurama.uol.com.br
4ª foto: www.itaucultural.org.br
5ª foto: Brinquedos de crianças - Pintura de Abelardo da Hora - 2004
6ª foto: Show de Flávio Renegado - divulgação.
7ª foto: www.portelaonline.com.brpensamentoverde.com.br/reciclagem.
8ª foto: imagem/vídeo do show de Renegado, quando apresentou sua mãe -                               www.yutube.com


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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