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AFAGOS DA TERNURA - UM ROMANCE DE VANISE REZENDE

11 junho, 2023

 


Caros amigos do ESPAÇO POESE

Estive um bom tempo distanciada deste espaço. O motivo é que precisei me dedicar com afinco à finalização do livro: AFAGOS DA TERNURAque será lançado na próxima quinta-feira 15 de junho. Publicá-lo de forma autônoma não foi moleza. Mas tive ao meu lado excelentes profissionais e o resultado atendeu ao que eu esperava. 

Os leitores que estiverem no Recife serão muito benvindos ao lançamento. Veja os dados abaixo e venha compartilhar essa alegria conosco!

Quando? 15 de junho - 2023 (quinta-feira)

Onde? Museu do Estado - Graças - Recife. Acesso pela Alberto Paiva.   

Hora? 19h00 – pontualmente

Do que trata? É um romance

Autor? Vanise Rezende

Como comprar?  Para reservar o seu exemplar, faça um pix  de R$ 45,00 para o número: 81988372213. Assim, você receberá o seu livro já autografado na recepção do evento. Feito isso, envie o comprovante para o Celular: 81-988372213.

Para os leitores que residem em outras cidades do Brasil ou no exterior, o seu exemplar poderá ser enviado, a qualquer momento, após o pagamento do valor do livro, acrescido do valor do envio. Neste caso envie-nos um e-mail para: contato.vaniserezende@gmail.com  e veremos a melhor forma de fazer.

Observação: os que desejarem, podem fazer seus comentários aqui no blog.

Saudações cordiais a todos vocês!

CRÔNICAS DO SERTÃO - SAUDADES DO TELEFONE FIXO

10 novembro, 2021





A vida dá voltas incríveis, especialmente quando se conta com uma memória afetiva que nos proporciona grandes alegrias. Uma delas foi o reencontro com Fernando Silva, não mais o garoto de 15 anos que conheci na época da fundação do Sedipo um Serviço de Documentação e Informação Popular, que oferecia informações para os movimentos populares do Nordeste (1978/1988), com sede na Regional NE-II da CNBB.

Na crônica que reproduzo abaixo, Fernando Silva me dá o título honorífico de sua “mãe do coração”. Assim, o leitor pode entender o que significa, para mim, poder contar com ele como um cronista colaborador deste blog. O seu percurso, como pessoa e profissional, faz-me lembrar uma frase do nosso querido Dom Hélder Câmara: É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas, graça das graças é não desistir nunca.”

Fernando Silva é mestrando em Educação, Culturas e Identidades, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)/Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ). Contato:  jfnando.silva@gmail.com

Vamos à crônica.

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                  Saudades do telefone fixo

 

Por: Fernando Silva*

Atualizado em 10.11.2021

Usei um telefone pela primeira vez aos 15 anos de idade. Espere, vou contextualizar. Morei até essa idade na zona rural de Agrestina, a Capital do Agreste. Lá não existia energia elétrica. Água encanada, nem pensar. Notícias das “terras civilizadas”, transmissão de jogos de futebol, escutar músicas e novela somente através do rádio de pilha. E com hora marcada. Sim, escutava rádio novela junto com mãe, irmã e irmãos. Papai ficava uma fera e dizia que novela era coisa de “muié”. Acho que era uma adaptação do latim (muliere, que origina a palavra mulher). E olhe que o cabra, papai, não sabia nem ler e nem escrever. Assinava o nome com extrema dificuldade. Brincava e dizia que sabia escrever a letra “o” porque a xícara tinha um fundo redondo. Genial! Papai, o meu melhor e maior amigo. De todos os tempos e lugares!

Época de dormir cedo e acordar com o galo cantando, ainda escuro. A alimentação saudável era produzida na roça. Ainda lembro, como se fosse agora, do cheiro e do gosto do cuscuz de milho bem maduro, feito por mamãe, ao amanhecer do dia. Pena que esse tipo de cuscuz, só era feito na época junina, quando o milho já caminhava para ficar seco. Não podia passar do ponto. Comia até lamber os beiços. E do queijo e da coalhada caseiros, feitos com leite totalmente natural. Direto do peito da vaca. De beber a água fria, quase gelada, do fundo do pote de barro. O ovo era da galinha da roça. Um dia, mamãe pediu para meu irmão Erivam, o mais novo, pegar ovos no quintal. O primeiro, quando ela partiu, tinha um pintinho em formação. Ele havia tirado debaixo de uma galinha que estava chocando para receber uma ninhada de novos pintos. Um “pintincídio”. Ainda bem que os demais ele tirou noutro lugar. Saudades de pegar, torrar e comer tanajura, uma iguaria maravilhosa.

Geladeira, sem energia, nem pensar. Só conhecia o caju para chupar e fazer doce (na época, sem a danada da diabetes). Quando fiquei mais velho, passou a servir como tira-gosto para tomar cachaça. Torrar as castanhas do caju era uma atividade perigosa para os pequenos. Porém, as danadas são deliciosas. Lembro da primeira vez que tomei suco de caju, batido no liquidificador, lá na casa da minha tia Lica, irmã da minha mãe. Tia morava no bairro Petrópolis, em Caruaru. Ela batia uns cajus com água, gelo, e um pouco de leite (natural, direto do peito da vaca). Uma delícia. Ainda faço o dito suco com a receita da tia Lica. Acho esquisito quando tomo o danado sem seguir a receita.

Mas, voltando ao telefone, fixo, diga-se de passagem. Fui apresentado a um aparelho por volta do final de abril de 1978, lá na casa da Madre Porto, na rua Viscondessa do Livramento, no bairro do Derby, Recife. Ela coordenava, se a memória não falha, a Pastoral da Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB – Regional NE-II). Com Madre Porto moravam as minhas tias, irmãs de papai, Irmã Maria e Irmã Dionísia, que articularam para eu iniciar a minha trajetória profissional (e militância política) na Rua do Giriquiti, onde funcionava a Regional da CNBB e as coordenações pastorais da Arquidiocese.

Só sabia conversar olho no olho, sem interferências e intermediações tecnológicas.


O telefone fixo era simples. Madre Porto fez as devidas apresentações e me disse como usá-lo. Tipo, quando tocasse, eu deveria tirar o bicho do gancho, dizer “alô”, “bom dia” ou “boa tarde”. Pronto, virei íntimo do telefone, o fixo, uma novidade e tanto, para mim que estava já na adolescência. Só sabia conversar olho no olho, sem interferências e intermediações tecnológicas.

Comecei a trabalhar na CNBB-NE-II no início de maio de 1978. A sede ficava onde, atualmente, funciona o Centro Comercial (Shopping) da Boa Vista. Conheci pessoas maravilhosas: Vanise Rezende, Ceça da Mangueira, Fátima e Tânia, e muito mais. No primeiro dia de trabalho, Vanise que também é minha mãe do coração , explicou as minhas atividades (organizar arquivo, servir cafezinho, limpeza, trabalhos na rua e atender telefone). Um multiprofissional.                   

Matuto, aliás, escutei “ordem cronológica”, pela primeira vez, aos 15 anos.

Eram várias salas no primeiro andar. Um dia o telefone tocou numa das salas. Fátima pediu para eu atender. Cheguei no bicho, tirei-o do gancho e disse “alô e “bom dia”. Ninguém respondeu. Voltei para minha sala para organizar, em ordem cronológica, boletins das arquidioceses, dioceses, sindicatos e muitos mais. Matuto, aliás, escutei “ordem cronológica” pela primeira vez aos 15 anos. Nunca esqueci. Vanise orientou: organize o boletim de notícias da Arquidiocese de Natal (RN) em ordem cronológica, deixando os números (lembro como se fosse agora) os mais antigos no fundo da pasta A-Z e os recentes na parte de cima. Tarefa cumprida, rápido e segundo a avaliação de Vanise, muito bem executada. Já ia esquecendo, o danado do telefone continuou tocando.

Voltei lá na sala e refiz o procedimento ensinado por Madre Porto e ninguém respondeu. Para encurtar a história, Fátima perguntou como eu estava atendendo a ligação e eu, prontamente, expliquei. Nova descoberta: o telefone fixo tinha quatro ramais (A, B, C e D) e recebi a transferência das chamadas atendidas na central no térreo do belo edifício na Rua do Giriquiti. Era para apertar a letra que piscava e tocava, freneticamente. Matuto sofre quando se depara com a tecnologia.

Agora já posso falar da saudade do telefone fixo. Mas, outra vez, muita hora nessa calma. Ou muita calma nessa hora! É que o telefone celular não deixa ninguém em paz. O bicho vai para tudo o que é lugar. Sala, cozinha, mesa, cama, sofá, trabalho, cinema, teatro, estádio de futebol, bar, casa de parente, amigo, vaquejada, aniversário, casamento, casa do vizinho, restaurante, praia, piscina, lanchonete, padaria, feira livre, supermercado, missa, culto, Natal, Ano Novo, festa de padroeira, São João, Carnaval e Noite dos Tambores Silenciosos. Inté no banheiro. Viaja de carro, charrete, carro de boi, barco. E inté de avião. O telefone fixo, não. Fica fixo. O celular é um tremendo intrometido e tem múltiplas funcionalidades. Utilidades. Algumas até interessantes. Deixa para lá. Não é o assunto.

Lembro que quando eu estava no Governo do Estado de Pernambuco Secretário-executivo dos Sistemas Protetivo e Socioeducativo , o celular era um tormento. Tocava a qualquer momento. Funcionava 24 horas. Estou fazendo um esforço, mas preciso melhorar para ter desapego com o danado. Agora, estou definindo o horário de olhar as mensagens e, normalmente, deixo-o no silencioso. As mensagens chegam, freneticamente, a qualquer instante.

Às vezes sou (e você também é) inserido em grupos passadores de mensagem etc. e tal (conhecido por ‘zap’ ou WhatsApp), sem autorização. Lembro de Carlinhos, colega de jogar bola lá no Clube Líbano (Recife) que falou algo do tipo: “tem gente que cria grupo só para ser administrador e pensa que é possível colocar isso no seu currículo, no lattes”, aquela plataforma do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para alimentar o currículo. No celular tem grupo para todo e qualquer assunto e muitíssimo mais. Se não tiver cuidado, é possível passar 24 horas só respondendo ou comentando assuntos que vão da catota ao foguete. Haja criatividade! Pense num bicho sem educação, o passador de mensagem! As mensagens chegam sem um “bom dia”, “boa tarde”. “Boa noite”, nem pensar.

Com a pandemia da Covid–19 não vou escrever nada sobre a Covid-17, pois ele desistiu desse número , o celular ganhou mais força. O que tem de atividades virtuais! Overdose perde feio. Deixa para lá.

Confesso que estou pensando seriamente em comprar um telefone fixo e abandonar o celular. Quem quiser falar comigo, se for coisa importante, vai ter múltiplas possibilidades: telefonar no fixo (e não quero aquele sem fio, o bicho também anda), enviar mensagem pelo correio eletrônico, ou mandar carta (sim, a famosa correspondência, pelo Correio Postal). E olhe, querem privatizar o danado, como se a privatização fosse a alternativa). Não vamos nos esquecer de Mariana e Brumadinho.

Estou esperando um novo normal que chegue logo a 3ª dose para todos! –, e vamos ampliar (ou retomar) as possibilidades: tomar cafezinho, comer torta dietética. Beber cerveja, vinho ou como diz Silvino Neto ex-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado de Pernambuco , é melhor marcar para “tomar uma cachaça”. Tem assunto que precisa de algo forte. Estou com Silvino.

Reconheço as possibilidades de comunicação que o celular oferece. Porém, o bicho se movimenta e perturba demais. Tem gente que passa mais tempo agarrado com o celular, do que lendo um bom livro, uma revista, um jornal (impressos, de preferência). Deixo duas dicas: assistam o documentário “O dilema das Redes Sociais” e o “Excêntrico”, do Portas dos Fundos, disponíveis em plataformas digitais. Ambos ajudam na reflexão.

Viva o telefone fixo! Viva o suco de caju da Tia Lica! Viva o cuscuz, de milho quase seco, feito por mamãe. Viva a vida matuta. Viva o planeta Terra e a Mãe Natureza, tão castigados.

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Texto originalmente publicado em: 

E SE VOLTÁSSEMOS À IDEIA GREGA DA FELICIDADE? Entrevista com a filósofa ILARIA GASPARI

04 junho, 2021

Entre as formas possíveis de cuidar da saúde mental, neste período doloroso para todos nós, a jovem filósofa e romancista italiana Ilaria Gaspari nos fala da ideia grega de felicidade.  A entrevista dada ao  jornal Le Monde, em 30 de maio, foi  publicada em versão portuguesa no  portal IHU-Unisinos. 

No final da entrevista estão informações sobre a autora.   

 

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“E se aproveitássemos este momento para retomar a ideia grega de felicidade?”

  • Entrevista com: Ilaria Gaspari
  • Entrevistador: Nicolas Truong
  • Versão portuguesa: Ancré Langer



A filósofa italiana, Ilaria Gaspari, explica como a sabedoria dos Antigos, sejam epicuristas, estoicos ou pitagóricos, pode nos ajudar a vivenciar tanto os colapsos do confinamento como os alívios do desconfinamento. 

A entrevistada, que é também romancista, publicou Lições de felicidade. Exercícios filosóficos para o bom uso da vida (Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2020), um conjunto de exercícios de filosofia aplicada que narra como os preceitos das escolas de sabedoria antiga podem nos ajudar a superar as rupturas e as feridas da vida. Hoje, ela explica ao Le Monde como esses pensamentos nos permitem apreender os tormentos e os impulsos de uma existência perturbada pela pandemia da Covid-19 Segue a entrevista.

Como outros países, a França está levantando algumas das restrições ligadas à crise de saúde. Como apreender esta alegria e estas felicidades redescobertas, que apesar de tudo permanecem muito condicionadas?

Como Sócrates diz no Fédon, o prazer nasce também da cessação de uma dor. Ou seja, nada é mais agradável do que o alívio... E acredito que se tratará, justamente, de um momento de tranquilidade que tanto esperávamos. Essas coisas que antes considerávamos quase banais, como compartilhar um copo no terraço, obter um sorriso, ouvir conversas de vizinhos, sair com os amigos, ir comer no bistrô, viver um ao lado do outro... Depois dessa interminável interrupção, elas voltarão como novas. E tenho que admitir: mal posso esperar para experimentar esse momento.

Existe uma atitude filosófica que poderia nos preparar para esse súbito “excesso” de prazeres?

Certamente! Toda a filosofia antiga, em certo sentido, é uma educação para a moderação, um princípio que perdemos de vista, mas que poderia muito bem nos ajudar agora. O que tentarei fazer todas as manhãs é sondar quais são as minhas necessidades de acordo com a prescrição de Epicuro: perguntar a mim mesmo, em relação a cada um dos meus desejos despertos, a que categoria ele pertence. Se é uma necessidade, uma necessidade natural ou mesmo imperiosa ou, pelo contrário, se não corro o risco de sofrê-la – de me tornar “escravo” deste novo prazer e, assim, desenvolver uma dependência. Já sei que não será fácil, mas este momento, este acontecimento que se avizinha, parece-me uma boa oportunidade para se testar e prestar-se a um novo exercício espiritual.

Por que você procurou os pensadores gregos da Antiguidade para encontrar maneiras de sobreviver ao desespero?

Depois de uma ruptura amorosa dolorosa, decidi ir para a escola dos filósofos gregos, seguindo suas regras de conduta de vida às vezes misteriosas. Após estudar a doutrina de seis escolas antigas diferentes, bem como a vida dos mestres, tentei seguir seus preceitos durante seis semanas: fui sucessivamente pitagórica, eleata, cética, estoica, epicureia e finalmente cínica. A minha ambição era perder os automatismos e os hábitos diários para me reorientar e modificar a ideia que tinha da vida.

Por que faz bem ler Pitágoras ou Epicuro, Epicteto ou Diógenes ao passar por uma provação, como a de uma pandemia?

Durante o primeiro confinamento, fiquei impressionada com a forma como os gregos falaram conosco neste momento crítico. Porque essas escolas, em particular as escolas helenísticas, também floresceram em um período de crise, se por crise entendemos uma mudança seguida de uma perda de pontos de referência: a época das conquistas de Alexandre marcou uma passagem traumática através da qual os cidadãos da polis se tornarão sujeitos, à medida que as fronteiras do mundo se expandiam.

Os gregos têm uma palavra para falar do tempo, não num sentido cronológico, mas qualitativo: kairós. Na medicina antiga, o kairós, o momento certo para intervir, é o momento da crise. Estamos em uma crise coletiva que nos obriga a nos repensarmos. Pensar filosoficamente significa sentir a tensão do desejo de compreender, sem esperar respostas prontas, receitas a aplicar. Não se trata de desenvolvimento pessoal, mas de um ideal pedagógico de educação de si mesmo. Entre os filósofos antigos, existe a ideia de uma filosofia viva, vivida como um “exercício espiritual”, como muito bem disse o filólogo e filósofo Pierre Hadot (1922-2010).

Pode nos dar exemplos desses exercícios espirituais?

Refletir sobre os fragmentos de Pitágoras no contexto do confinamento significa concentrar-se em minúsculas mudanças de hábito, na extensão do rastro que deixamos em nossas vidas. Ler Epicuro, para refletir sobre a natureza de nossos desejos, para não nos deixarmos governar pelo medo. Fazer-se discípulo de Epicteto, lendo seu Manual, para distinguir as coisas que dependem de nós daquelas que estão além do nosso alcance, para concentrar nossos esforços naquilo que realmente podemos mudar. Sem esquecer o cinismo de Diógenes que nos estimula a questionar nossa tendência ao conformismo, e nos obriga a nos perguntar: “do que realmente temos necessidade?” É assim que a filosofia pode nos ajudar a viver os infortúnios, bem como as alegrias de nossos tempos difíceis.

Como não ceder ao medo, mas também superar o sentimento de opressão e às vezes até de colapso que estamos passando neste período?

Sobre este ponto, o filósofo que mais claramente nos fala é Epicuro, um personagem revolucionário à sua maneira, que abriu sua escola não só para as mulheres, o que já era muito raro, mas também para as escravas! Por meio de seus ensinamentos, ele garantiu que ninguém fosse exposto à chantagem do que temia. Ele inventou um tetrapharmakos, uma espécie de medicina lógica, um pensamento racional para ajudar aqueles de nós que o medo aliena: o medo dos deuses, da morte, da dor, de não poder alcançar o prazer da vida, etc. Medos que persistem ainda hoje, seja você um politeísta ou não. É um patrimônio precioso, sobretudo porque testemunha um grande amor pelos outros: o amor de um filósofo generoso que, apesar das perseguições de que foi alvo, nunca desprezou a fraqueza dos homens. Epicuro também aprende a fazer um exame muito sério de seus desejos, sem, no entanto, reprimi-los.

Por que a amizade é um dos laços mais importantes em tempos de provação?

De todas as coisas boas que a sabedoria nos oferece para a felicidade de toda a nossa vida, a amizade é a maior”, diz Epicuro. Mas ele não fala apenas da amizade entre amigos, mas de uma atenção devotada aos outros, até mesmo aos desconhecidos. É um vínculo subterrâneo que permeia qualquer relação: sempre se pode adotar a postura da amizade, isto é, de uma atitude generosa, semelhante à benevolência desinteressada que constitui o segredo de toda amizade verdadeira. Essa disposição decorre do reconhecimento dos sinais universais da condição humana no outro. Penso que essa terrível pandemia, que nos obriga a admitir nossa própria vulnerabilidade, nos oferece uma oportunidade valiosa de exercer esse olhar e essa atitude.

Por que nossa relação com o tempo e inclusive com o espaço pode ser compreendida de forma diferente graças aos pensadores antigos?

Ao tentar interpretar os paradoxos de Zenão como uma chave existencial, eu refleti sobre o que a pandemia nos apresentou na sequência: que o tempo é apenas uma coleção de momentos que estão todos presentes. O esforço que os anos 2020 e 2021 nos exigiram, nomeadamente o de desistir de nos projetarmos no futuro, é difícil. A menos que você seja um sábio estoico, acho que é impossível para um ser humano viver completamente no presente; mas pensar criticamente sobre a forma que damos ao tempo em nossa própria imaginação pode ser de grande ajuda. Graças aos gregos, que eram muito apegados ao tempo livre (schole é a palavra para designá-lo, da qual deriva nossa “escola”), aprendi (um pouco) a me libertar das injunções contemporâneas para capitalizar o tempo, para investi-lo. Devo acrescentar que tive outro mestre para isso: meu cachorro, adotado após minha semana cínica. Os cães têm um sentido maravilhoso do presente: observar outras formas de vida, partilhar momentos de vida com eles, é um excelente exercício de filosofia!

Depois deste ano doloroso, a felicidade pode voltar a ser uma ideia nova na Europa?

Penso – espero, embora seja uma atitude pouco estoica – que sim. Nossa imagem muito fotogênica de felicidade, concebida como um momento de euforia, um sorriso no Instagram, mostrou seus limites. E se aproveitássemos esse momento para retomar a ideia grega de felicidade? Ou seja, a eudaimonìa, “o apaziguamento do seu daemon pessoal”. Uma jornada repleta de armadilhas, certamente, mas que leva a se conhecer, a se tornar o que se é.

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* Ilaria Gaspari, a filosofia conjugada no futuro do pretérito

Nascida em Milão em 1986, Ilaria Gaspari estudou primeiro filosofia na Escola Normal de Pisa. Neste ambiente ao mesmo tempo “gentil e competitivo”, a jovem filósofa tem a impressão de viver “como numa escola socrática”. Ela extrairá de suas memórias de impetuosa erudita, ao mesmo tempo alegre e melancólica, um romance sobre essas portas fechadas de estudante, L'Ethique de l´aquarium (Grenelle, 2017). Depois de um mestrado dedicado à teoria dos afetos de Spinoza, ela parte para Paris e obtém o doutorado na Universidade de Paris-I – Panthéon-Sorbonne, sob a supervisão de Chantal Jaquet, uma especialista do corpo e particularmente conhecida por seu estudo filosófico da passagem de uma classe social para outra (Les transclasses ou la non-reproduction, PUF, 2014).

Instalada entre 2012 e 2016 em um estúdio de 17 m2 próximo à estação de metrô Pireneus – “Um paraíso”, lembra-se ela –, Ilaria Gaspari não abre mão da literatura. Fã de Mark TwainDenis Diderot e Charles Dickens, ela agora dá cursos de redação autobiográfica em Turim e Roma, e colabora com vários jornais on-line, mas também com o jornal Corriere della Sera, no qual escreve crônicas filosóficas.

“Prazer perdido”

Um rompimento amoroso brutal leva-a a retornar aos filósofos antigos. E perceber que “a filósofa se tornou acadêmica demais”. Porque Epicuro ou Epicteto não são apenas teóricos, mas mestres de vida. “Desesperada, escreve, largada da noite para o dia após dez anos de amor”, ela tem que se mudar e se encontra diante de “trinta caixas de pura sabedoria humana”, que a reenviam à sua história, porque “esvaziar uma biblioteca é como se inventar arqueólogo de si mesmo”, mas também à sua relação com o saber: uma disciplina estudada no “tanatófilo” como uma “ciência morta”. Ela então decide literalmente desempacotar tudo e viver de acordo com os preceitos dessas escolas, algumas das quais, como a de Pitágoras, “não são tão diferentes de uma seita”, admite.

Seis semanas de questionamentos depois, ela volta a se encontrar com as cores, à semelhança das suas roupas e de seu interior: “Desde que perdi minhas velhas certezas e aprendi a me deixar dominar pelas regras das escolas antigas, encontrei um prazer há muito tempo perdido”, escreve esta jovem que adora os clássicos,e, ao mesmo tempo se mantém firme nas preocupações de sua geração e de seu tempo. Este desejo de lutar contra as paixões tristes continua no seu último livro, Vita segreta delle emozioni (A vida secreta das emoções), que acaba de ser publicado pelas Edições Einaudi na Itália. Não surpreende, vindo de uma autora que se arrisca a “redescobrir a juventude da filosofia”.

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Fonte do texto: 

http://www.ihu.unisinos.br/609796-e-se-aproveitassemos-este-momento-para-retomar-a-ideia-grega-de-felicidade-entrevista-com-ilaria-gaspari

Publicado em: Le Monde - 30/05/2021

Crédito Imagens:

  • 1.Imagem de abertura - arquivo pessoal
  • 2. Ilaria Gaspari - Vogue-ES
  • 3.  Capa do Livro - Lições de Felicidade - Editora Âyiné - Belo Horizonte/MG - 2020 -  www.ayine.com.br/catalogo/licoes-de-felicidade/
  • 4. Ilaria Gspari - www.popsophia.com.jpg

Nota As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.

LITERATURA - EDUARDO GALEANO - 80 ANOS - SEMPRE PRESENTE

04 setembro, 2020

No dia 2 de setembro de 2020 o reconhecido escritor uruguaio e, merecidamente, um dos maiores escritores latino-americanos, EDUARDO GALEANO estaria sendo festejando, em muitos países, por seus 80 anos. Certamente ainda o fazem -  como fez o portal Carta Maior -  publicando um texto de Aram Aharonian, jornalista uruguaio, amigo de Galeano, que nos dá uma visão da sua atividade como escritor, e do seu "aprendizado" como exilado – voluntário ou não  em outros países. Por razões de espaço, alguns trechos do artigo original foram omitidos.

Como leitora e grande admiradora de Eduardo Galeano, bem que gostaria de ver a Editora Nova Fronteira, a Saraiva ou a LP&M realizarem, neste ano, alguma campanha de divulgação de seus livros  neste momento tão necessários e atuais facilitando o acesso a tão precioso tesouro aos jovens estudantes e universitários.     


Promover o acesso aos livros de Galeano hoje, no Brasil, seria uma façanha mais eficaz e bem mais efetiva do que certas "lives" que se ocupam apenas de "pixar" o nome do inominável que preside o nosso país. Os jovens de hoje mereceriam ter acesso às curtas histórias de Galeano, para se perceberem integrantes de um povo sofrido, sim, mas lutador, cabeça erguida, pensante e operante como alguns, individualmente ou em coletivos, têm agido e procurado dialogar sobre o Brasil que queremos amanhã. Um amanhã cuja alvorada deve surgir sem mais tardar. 

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Os 80 anos de Eduardo Galeano

       A vigência de um escritor comprometido


Por: Aram Aharonian

Tradução de: Vanise Rezende


No dia 3 de setembro de 1940 nascia, em Montevideo, o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. O autor de As veias abertas da América Latina, falecido em 13 de abril de 2015, estaria completando 80 anos. Considerado um dos mais importantes escritores da literatura latino-americana, seus trabalhos transcendem gêneros ortodoxos e combinam documentário, ficção, jornalismo, análise política e história.

Galeano, um sedutor da palavra, é considerado o mestre dos relatos curtos. Fundador da revista Crisis, (em Montevideu) e autor de livros como Memória de fogo, ele foi preso e obrigado a abandonar o Uruguai em 1973 (período da ditadura militar), quando foi para a Argentina. Logo depois, em 1976, teve que exilar-se fugindo da ditadura. De consequência, seu livro, As veias abertas na América Latina foi proibido em boa parte da região.

A editora uruguaia Siglo XXI, que publicou todos os seus livros, anunciou que lançará em redes sociais a hashtag #Galeano, para convidar a partilhar seus textos. Estarão disponíveis os livros; Bocas del tempo, El fútbol a sol y sombra, El libro de los abrazos, Espejos, os três volumes de Memoria del fuego, Días y noches de amor y guerra, El cazador de historias e Los hijos de los días, entre otros.

Eduardo da América (Lapobre)

Eduardo Germán María assumiu - na assinatura - o sobrenome materno Galeano, para não usar o paterno Hughes, anglo-saxão, mesmo se usava o Gius para assinar seus cartuns. Frustrou-se como jogador de futebol, foi trabalhador, mensageiro, cartunista, jornalista e finalmente escritor, para “ajudar a resgatar as cores e a luz do arco-íris humano, algo mutilado por anos, séculos, milênios de racismo e machismo, guerras e muito mais. Sim, irmão, somos muito mais do que nos dizem.” (...)


Caminhante incansável pela Lapobre América, foi correspondente da Prensa Latina na Venezuela e, para não perder as praias de Montevidéu, hospedou-se no decadente Hotel La Alemania em Macuto, a cerca de 40 quilômetros de Caracas. Muitos anos depois, ao esquecer que quase morreu de malária nos trópicos (escreveu uma história sobre seu delírio), conseguira banhar-se novamente no Caribe, em frente ao mesmo hotel que resistira à ocupação de 1999.

Seu amigo Luis Britto García conta que cada vez que a polícia ou o vírus ou os infartos atacavam Galeano, ele saía mais fortalecido. Os exílios consecutivos o separam da edição de Marcha y de Época (em Montevidéu) e Crisis, uma das revistas de repercussão continental que encerrou na ditadura argentina em 1973. No exílio em Barcelona, ​​as autoridades exigiam que ele tivesse um emprego para renovar o visto, mas não o deixavam trabalhar se não tivesse o visto renovado.

Campeão em exílios, Eduardo experimentou vários gêneros literários para conseguir que a plenitude de suas mensagens chegassem a todos. Conheceu e viveu com guerrilheiros mayas, mineiros bolivianos e garimpeiros venezuelanos, consciente de que dessa fragmentação iria nascer a totalidade no seu Memória do Fogo, mural no qual as partes se olham com o todo, feito de detalhes que resultam em leis gerais e análises ágeis feito aforismos. Seu amigo Luís Britto García anima-se a dizer que ao tratar a história como uma novela emocionante e a mitologia indígena como notícia, e denunciá-la como poesia, Galeano seguia cada vez mais propenso à antologia, porque tudo nele é “antologizável”.

Em “Memórias do Fogo” Galeano escreve: “Acho admirável a capacidade dos povos indígenas das Américas de perpetuar uma memória que foi queimada, punida, enforcada e desprezada por cinco séculos. E toda a humanidade deve ser muito grata a ele, porque graças a essa memória teimosa sabemos que a terra pode ser sagrada, que fazemos parte da natureza, e que a natureza não acaba conosco.

As veias abertas da América Latina” – o livro que Hugo Chávez deu a Barack Obama para que ele pudesse entender a América Latina triturava a barbárie americana no continente, o fervor gringo para apoiar ditaduras e genocídios e poderem realizar seus negócios. "Minha intenção era escrever um livro de economia política, mas não tive treinamento ou preparação suficiente", disse ele. Chegou a reconhecer,  com humor, que não poderia lê-lo novamente porque desmaiaria: "Para mim essa prosa de esquerda tradicional é extremamente pesada e minha mente não tolera isso." Obviamente a direita tentou usá-lo contra ele, embora o que conseguiu foi atiçar o interesse de muitos que ainda não o haviam lido. Seu livro “Mulheres” nos envenena de beleza e feminismo, com a ajuda de Helena Villagra a sonhadora, sua esposa há quatro décadas.

Eduardo era um grande ouvinte, o cacique Oreja Abierta, como ele próprio se definia. Sempre falou sobre e pela juventude, sobre e para os indígenas, contra os narcoestados e o neoliberalismo, a favor da ecologia e da legalização das drogas. Eduardo falava contra o esquecimento e o resgate da memória para encontrar os caminhos do futuro comum. Mas ele também era um exilado político, do qual se absteve de fazer uma profissão. Saiu do Uruguai depois de ser preso pela ditadura, cruzou o Río de la Plata para morar na Argentina, mas – ameaçado de morte – teve que voltar novamente para a Espanha. Na Catalunha.

Em 1985 regressou a Montevideo, onde foi cofundador do semanário Brecha. Nesse mesmo ano obteve o Prêmio Stig Dagerman. Ao longo de sua vida recebeu diversos doutorados Honoris Causa de universidades de Cuba, El Salvador, México e Argentina. Em 2010 recebeu o Prêmio Manuel Vázquez Montalbán, na categoria Jornalismo Esportivo e em 2013 a Ordem Simón Rodríguez das mãos de Nicolás Maduro – Chávez não sobreviveu para entregá-la a ele, depois que ele recusara uma condecoração com o nome de Francisco de Miranda, “agente inglês”. (...)

Sempre do lado dos pobres, dos indignados, do seu ativismo social e do compromisso com os desprotegidos, levaram-no a Chiapas para conhecer de perto o Exército Zapatista de Libertação Nacional, experiência que acumulou ao longo de vários anos em diversos artigos, por exemplo, em A Marcha Universal (2001). 

“Quem fala do problema indígena terá que começar a reconhecer a solução indígena. Afinal, a resposta zapatista a cinco séculos de mascaramento, o desafio dessas máscaras que desmascaram, é tirar o esplêndido arco-íris que contém o México e dar esperança aos condenados à espera perpétua”. “Os indígenas, ao que parece, são apenas um problema para aqueles que lhes negam o direito de ser o que são e, portanto, negam a pluralidade nacional e negam o direito dos mexicanos de serem totalmente mexicanos sem as mutilações impostas pela tradição racista, que torna a alma anã e amputa as pernas”.

Em 2008, Galeano recebeu a distinção do Mercosul  o primeiro ilustre cidadão da sub-região  e fez um discurso inesquecível, no qual se disse um “patriota de vários países”. “Só estando juntos poderemos descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos treinou para o medo, a resignação e a solidão, e que a cada dia nos ensina o desamor”, disse. (...)

Foi solidário com os palestinos ("Desde 1948 eles estão condenados à humilhação perpétua. Eles não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Eles nem mesmo têm o direito de eleger seus governantes."), com os povos indígenas, os haitianos, os povos subjugados que lutam por seu futuro. Também foi solidário com seus amigos, que soube espalhar pelas Américas e pelo mundo. Indignados, os lutadores da América Lapobre e do mundo perderam um de seus guias, uma de suas poucas referências intelectuais e políticas das últimas cinco décadas. E um amigo.

Dizia: “A identidade não é uma peça de museu ainda na janela, mas a síntese sempre surpreendente das nossas contradições quotidianas. Nessa fé, fugitivo, eu creio. Acho que é a única fé confiável, pelo quanto se parece com o inseto humano, ferrado mas sagrado, e a louca aventura de viver no mundo (...) Afinal, somos o que fazemos para mudar quem somos dos medos nasce a coragem, e das dúvidas as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão”.

Eduardo Edu, Gius, Dudi, Abu é hoje um legado de milhões de palavras escritas em inúmeros livros, ditas em múltiplas falas, convertidas em texto, som e imagem, arrebatadas por milhares e milhares de jovens e adultos, homens e mulheres. Insatisfeito com todo o planeta, nas entrevistas concedidas, em todas aquelas frases que assombram a Internet ... e que hoje, felizmente, as novas gerações procuram.

  “Este é um mundo violento e mentiroso, mas não podemos perder a esperança e o entusiasmo para mudá-lo ... a grandeza humana está nas pequenas coisas que se fazem diariamente, no dia-a-dia que os anônimos fazem sem saber o que fazem.” – É assim que ainda o vemos.

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(*) Aram Aharonian é jornalista uruguaio, cientista da comunicação e Mestre em Integração. Fundador da Telesur, hoje preside a Fundação para a Integração da América Latina (FILA) e dirige o Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la) e Susrysurtv.

 

Crédito das imagens:

1. Galeano - www.arte.culturaculturaeatualidades.com.br.jpg

2. Velório de Galeano - Mujico visita Helena - divulgação

3. Joven leitor no YouTube - www.aviagendosargonautas.net.jpg

4. Galeano na Flip - 2009. Divulgação.

5. Galeano - www.escritores.org.index.jpg

6. Galeano  - www.brasil.espaís.com.jpg

 * As capas dos livos são reprodução de divulgação das respetivas editoras.


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