Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

SOBRE A AMIZADE

15 de abril de 2014

Há momentos na vida em que não se consegue escrever ou falar – pode-se apenas viver. Grandes são aqueles que na literatura, na dança, no teatro, nas artes em geral tocam engenhosamente alguns acordes da experiência do amor e da dor. 

A música me parece ser mais fiel, delicadamente nascida para sugerir à alma acordes do sentimento de amor, ou revelar-lhe a sua face do sofrimento. A sua fidelidade será tanto mais próxima, quanto mais irmanada alguém se fizer do artista, com o seu próprio momento de vida, com a sua compreensão... O que me reporta ao grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, que inventou o verbete “sentirpensador”.

Quando escrevi o pequeno texto acima,  vivia um momento em que apenas conseguia pensar e sentir... E então podia ver, como em um filme ao revés, uma história que se eu não a tomasse nas mãos, e não lhe desse um nome e um destino, poderia se tornar mais uma estúpida novela do “plin plin” da vida, com cenas repetidas e infiéis ao que a cada um de nós é essencial: a vivência de uma relação sincera, do diálogo aberto e permanente.

Tomar a própria história nas mãos é graça, é coragem de conhecê-la até onde se viveu e talvez reconhecê-la mesquinha. É perceber que não se sabe claramente o para onde, embora o para quê reclame coragem, atitude, e também complacência e esperança.

A história nas mãos é assumir a responsabilidade de escolha do rumo do próprio caminho, que não exclui o aprendizado da compreensão do outro, do diferente de si, nem o desejo de realizar, um dia, a experiência da reciprocidade. Para isto é necessário saber que, antes de tudo, há uma certeza da realidade única que importa: a “silenciosa atenção que nutre a vida”, de onde surge “a benevolente compreensão”.

O carismático teólogo alemão Ladislaus Boros, no seu livro “Incontrare Dio nell´uomo” (*) fala de uma compreensão que significa “desenvolver a delicadeza de sentir e a capacidade de vibrar em sintonia, para superar a estranheza entre os homens. Assim nasce uma comunhão de benevolência. E esta se alcança somente através da experiência. Uma experiência em que se aprende de verdade: o olhar se torna lentamente mais límpido, a sensibilidade mais fina, a adaptação mais fácil. O que, por sua vez, só é possível se o homem se liberta das suas relações instintivas de simpatia-antipatia e busca aceitar o outro como ele é; se não divide mais o mondo em simpático e antipático, mas diz a cada pessoa: tens o direito de ser assim como és”.

A comunhão entre Agostinho e Mônica, sua mãe – continua Boros – tende a alguma coisa de eterno: 

“É a característica de toda amizade. Na amizade surge uma afirmação incondicionada do ser. Pronuncia-se a palavra que lhe dá consistência: Tu deves ser! Deves expandir tudo quanto o teu ser tem em si de possibilidade; mais ainda: deves ser ainda mais belo, mais luminoso, potente e vivo daquilo que já és; não só: para mim, és o mundo; tenho experiência do mundo só à luz da nossa amizade; um mundo sem ti não seria um mundo belo para mim.

É a autêntica palavra do amor. Gabriel Marcel faz dizer a um personagem em ‘La mort de demain’ : amar significa dizer: ‘não morrerás’. A mesma coisa se pode dizer da amizade. Em cada profunda relação humana, seja esta de amizade ou amor vem afirmada, posta e incluída a imortalidade. Não pode ser que esta existência tenha fim. Da amizade humana surge um imediata evidência da imortalidade (...).

Se alguém permanece fiel a uma amizade humana até o fim, mesmo até o desvanecimento de todos os sonhos e de todas as esperanças, experimenta em si aquele Deus que se pensava estivesse distante. Os dois discípulos não cessaram de dialogar, de estar juntos. E, assim, deram a Cristo a ocasião de introduzir-se no seu colóquio. Com este episódio Deus nos sugere: permanece fiel à tua amizade, ao teu destino de comunhão com os homens; se podes ainda pronunciar a palavra Tu, não estás perdido. É sempre possível que, pronunciando esta palavra, eu esteja com aquele com quem falas.

A grande ocasião do homem de hoje – os discípulos de Emaus são o símbolo da nossa hodierna situação no mundo – é a amizade vivida com sinceridade. Mesmo se a amizade não seja um sacramento em sentido restrito podemos, no entanto, estar convencidos de que é um sinal concreto da presença do absoluto no mundo, e pode realizar tudo o que se pode esperar de um sacramento. (...) O Céu, a quintessência do ser, no qual tudo atinge a sua autenticidade está, portanto, presente na amizade. Os amigos o experimentam continuamente, mesmo que inconscientemente. É por isso que a amizade provoca saudade.

Ora, sabemos que Deus deve ser a verdadeira plenitude, o uno, o infinito: nós o experimentamos justamente neste esforço desesperado da amizade, que não pode ser exaurido nesta terra. Se vivemos na amizade sabemos que ele existe; na limitação terrena, na nossa ilegitimidade, dispersão e insatisfação sentimos como o nosso coração descontente bate por um totalmente-outro. Não sabemos nada mais do que isso sobre Deus. Esta é, substancialmente, a estrutura da nossa experiência de Deus: intuir o absoluto no espelho ‘cego’ da nossa existência que, no entanto, tornou-se espelho para a amizade."

E conclui: "É na amizade que o homem é restituído a si mesmo.”

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(*) Boros, Ladislaus. Meditazioni Teologiche. Ed.Queriniana.Brescia.1968.pp.20,65-69,73. Tradução dos textos citados, do original italiano, por: Vanise Rezende, para o blog Espaço Poese. 


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