Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

DIAS DE SIM E DE NÃO

9 de outubro de 2015

Há dias que amanhecemos embutidos em sentimentos que têm raízes em tempos atrás, e se aprofundam cada vez mais na terra viva do nosso cotidiano. Chegamos até a esquecer de cuidar dos sinais profundos da alegria – ocupados com as marcas de mágoas que resistem inutilmente no coração. 

Um sentir nascido das lembranças do amor quando foi viçoso e intenso, ou da sombra de uma dor já ida, relembrada num ai trazido pela ventania...

Cada um tem seu dia de sim e de não.
O dia dos apaixonados, longe da pessoa amada... 
O dia de um pai ao lado do filho adoecido...
Dias de dor cruel para a mulher que perde um filho ainda por nascer...
Dias de expectativa do encontro que infelizmente não acontecerá... 

Há dias do escriba entorpecido diante de uma página em branco...
Dias do músico inquietado por sons difusos aos seus ouvidos...
Dia de imobilidade pesada nas mãos do pintor  a tela inteira diante de si, em sua brancura inexpressiva...
O dia-a-dia dos médicos de um sistema público de saúde  ainda incapaz de acudir os que dele dependem, com iguais oportunidades... 
Dias de crianças famintas a clamar pelo pão que não chega...
Dias de guerras insanas que desarmam a harmonia da convivência, a esperança de um futuro melhor, os projetos de vida dos cidadãos...
Dias de perceber os próprios limites diante do que ainda há que realizar...

Um dia de recomeçar mais uma vez, na tentativa de mudar o rumo da vida, em busca de um sonho. Todos esses dias – do passado e do presente  estão contidos num grito de profunda agonia – "Meu deus, meu deus, por que me abandonaste?" 

vida segue o seu curso, e nos convoca cada um a dizer o seu 'sim', feito as palavras daquele homem tão especial, que fez história e, queiramos ou não, continua inspirando a nossa vida: "Em tuas mãos entrego o meu espírito!’"


Crédulos e incrédulos, e mesmo os que se dizem indiferentes – todos são chamados a definir o sim histórico da sua própria vida, o desenho do seu destino, a sua participação pessoal e única na construção do viver civil, do viver cordial, do viver entrechado de amor. 

Pois que seja hoje, esse dia. O hoje deste ano que está por terminar. O hoje deste momento que preciso aceitar, o hoje que devo enfrentar na luta por tempos melhores, na construção de relações mais saudáveis, como brisa de alívio no cuidado de tantas preocupações. 

Que seja hoje o dia de dizer 'sim' ao recomeço, mesmo que isto signifique o momento de optar  corajosamente  pelo não diante da negligência, da exploração, do comodismo, do vício de uma lastimosa vida. 

Que seja o dia da adesão a um estilo de vida mais comprometido com os irmãos – mais tempo para estar com o filho que espera uma presença amorosa, mais coragem para perdoar o que pode parecer imperdoável, e um cuidado tenaz para largar as artimanhas de uma vida superficial e indiferente ao que acontece na cidade, no país em que se vive, no mundo ao redor.

Que seja hoje o momento do não à preguiça e ao engodo e, especialmente, aos incontáveis atos da corrupção do dia-a-dia... Que seja um sim de adesão às iniciativas de contenção nos gastos de água, do cuidado pessoal com a manipulação do lixo da própria casa e da empresa ou instituição em que se trabalha. Um não às camufladas faces do desamor e do ódio (nas relações pessoais e na participação política); um não à indiferença e à desinformação alimentada nas mesmas fontes da mídia.  

Cada um sabe qual será o seu primeiro passo, o seu gesto mobilizador e necessário para hoje mesmo retomar a vida em suas mãos, pois o tempo não espera os que dormem. É tempo de acordar e de assumir atitudes que envolvam participação, e coragem para as mudanças na vida pessoal e civil. 


Que essas atitudes signifiquem juntar-me aos que também desejam construir  no ambiente profissional e social – os pequenos e grandes sonhos dos tantos deserdados sociais que vivem em busca do seu dia de sim

Pois a indiferença, o descaso, e a comodidade são as grandes doenças de uma sociedade que não enxerga além do seu próprio quintal – um quintal em que viceja o culto à riqueza, a busca do poder, a ignorância da dor do outro e da sua necessidade de compaixão. 

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Crédito de Imagens:

As três primeiras imagens são de: www.canstockphoto.com.br

Imagem 4 - Babel - pintura de Roberto Ploeg. ost. 120x220cm. - 2012
Imagem 5 - Desenho de João LIN - Recife - PE - Brasil

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com



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