Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A CIVILIDADE SE APRENDE

3 de outubro de 2015






A cada dia é mais profunda a minha convicção de que a civilidade de um povo deve ser incentivada e cultivada com tenacidade, de forma a integrá-la na dimensão do desenvolvimento humano e, portanto, da educação de crianças e jovens para uma vida republicana.









Este meu sentimento se expressa melhor se observo a etimologia da palavra "república", de origem latina: res (coisa) + publicu (relativa a povo): que serve para todos; que é direito de todos.

Por muitos anos me ocupei de trabalhos que ofereciam subsídios e apoio a movimentos representativos do povo, no Nordeste do Brasil – comunidades de base, meninos e meninas de rua, empregados domésticos, trabalhadores rurais, operários e pescadores – na produção e na divulgação de informações sobre questões que interessavam a esses trabalhadores.

Na área de Educação trabalhei como consultora nas secretarias do município do Recife e do estado de Alagoas, e durante cinco anos fui consultora do MEC -Unesco, acompanhando projetos educativos na Região Metropolitana do Recife.

Há algum tempo tenho me perguntado sobre a função da escola pública no ensino básico, especialmente nas escolas técnicas – centenas de jovens que se preparam para sua inserção no trabalho.

E me pergunto: Por que – ao lado do aprendizado técnico e científico – a educação pública não insere programas governamentais de desenvolvimento humano para a população de jovens aprendizes, tão carentes de autoconhecimento? E sublinho: em todos os níveis sociais. Carentes de atenção e cuidado no seu núcleo familiar, e carentes, os mais pobres, por serem empurrados às margens da sociedade em que vivem.



O Brasil precisaria instituir um Programa de Atenção e Apoio ao Desenvolvimento Humano da sua população jovem. Isto exigiria que os professores mais envolvidos mantivessem um diálogo criativo sobre a temática e as orientações pedagógicas desses cursos.


Esses professores seriam orientados a criar e utilizar dinâmicas participativas de troca de informações e de conhecimentos, a serem utilizados com o objetivo de proporcionar aos alunos a aquisição de instrução e informação, em uma ambiência prazerosa.

Para que esse processo tenha bons resultados, seria importante compreender bem o significado da expressão desenvolvimento humano, que emerge do entendimento da civilização e da civilidade como chão inicial e objetivo maior.

Sobre civilização se diz nos dicionários:


Forma de aquisição de valores sociais, culturais e tecnológicos que possam contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade; Processo de desenvolvimento e de avanço cultural, tecnológico e social de uma comunidade;
Expressão cultural de uma sociedade ou um povo, que é transmitida às gerações seguintes; Ação ou resultado de civilizar (-se). Isto quer dizer que é uma atitude pessoal, a ser tomada individualmente, pois ninguém “civiliza” ninguém, da mesma forma que não está garantido que "programas de formação" possam "capacitar" alguém ou um determinado grupo de aprendizes. Serão eles, os aprendizes, que – se o quiserem, e forem motivados – poderão aderir, com interesse, a um programa para a sua própria capacitação.

O que faz a civilidade expressar-se como:

Caráter da pessoa civilizada que age com dignidade e respeito pelos outros;
Atitudes que seguem os costumes de uma determinada convivência entre os cidadãos;
Convenções que demonstram consideração e respeito mútuos;
Observância às convenções entre os membros de uma coletividade;
Do latim: civilitas, civilitatis significa cortesia, urbanidade, gentileza, polidez.


Então, fico a pensar com os meus botões... que a educação pública para o desenvolvimento humano, poderia ser iniciada com a realização de cursos que seriam pensados com, e dirigidos a rapazes e moças que vivem em favelas ou bairros da periferia urbana – pessoas pobres, vítimas do desequilíbrio social na distribuição de recursos diversos, talentos e saberes da sociedade contemporânea.

Poder-se-ia partir de um currículo básico, que seria melhor definido durante o processo da seleção inicial dos interessados, fazendo-se um levantamento não apenas de dados que a burocracia escolar exige, mas de um simplificado histórico da caminhada de cada um deles: a identidade do seu núcleo familiar e as suas experiências realizadas no mundo do trabalho.

No currículo seriam inseridas aulas práticas e dinâmicas sobre os cuidados dos jovens com a sua própria individualidade, e a experiência de sua relação com o seu núcleo familiar.

Uma primeira ideia sugere os seguintes módulos básicos e complementares:

1º módulo - Cuidados para consigo mesmo:
  • A higiene pessoal e a conservação das próprias roupas e sapatos;
  • Os cuidados com o seu quarto - quer seja pessoal ou partilhado com irmãos e outras pessoas do núcleo onde vive;
  • O aprendizado de serviços de limpeza da casa, e de pequenos consertos;

  • Orientações básicas sobre a sexualidade humana;
  • Pesquisa orientada para o conhecimento das consequências nefastas da compra, venda e uso de diferentes tipos de drogas, inclusive o cigarro e o álcool.

2º módulo: O valor da atenção e da disciplina na aprendizagem:


  • A importância da frequência escolar;
  • Métodos práticos de estudo e de como realizar tarefas em grupo;
  • O valor da pesquisa e da informação;
  • A importância de atitudes saudáveis de preservação da vida.

Neste módulo se insere o aprendizado de iniciação ao trabalho:
  • Exercício da escuta e da fala;
  • Uso do telefone e do computador;
  • Preenchimento dos próprios dados, em documentos oficiais;
  • Preenchimento de recibos e documentos bancários;
  • Prática de escrever notas, memorandos e avisos;
  • Redação de e-mails de trabalho, atas e ofícios;
  • Técnicas de realizar uma entrevista e de ser entrevistado;
  • Aprendizado das quatro operações, uso da porcentagem, manejo de frações numéricas, pesos e medidas, com referências a problemas diários;
  • Exercícios de como resolver problemas no trabalho;
  • Planejamento das próprias tarefas, e definição de objetivos e métodos no trabalho.


Algumas práticas, aqui sugeridas, têm inspiração em currículos escolares que conheci em países europeus. Se fossem implantadas em grande escala, no Brasil, chegariam a promover mudanças profundas na formação inicial dos jovens ao trabalho, na aquisição da sua autonomia e na melhoria da sua convivência com o seu núcleo familiar. E sustentaria o entusiasmo e a autoestima dos estudantes, enquanto se preparam para a sua profissão.


3º módulo: O desenvolvimento humano na vida das pessoas, no trabalho e na sociedade:
  • afirmação positiva das individualidades no trato social;
  • atenção e respeito pelas diferenças pessoais e sociais;
  • conhecimento crítico das normas de convivência social;
  • percepção da gravidade da mentira e do engodo nas relações com os outros;
  • reconhecimento das necessidades das crianças, dos valores das pessoas idosas e dos direitos dos cidadãos com deficiências específicas.
Outras práticas pedagógicas de educação para os direitos e deveres do cidadão aprendiz poderiam seriam:
  • Inclusão cotidiana da literatura, das artes plásticas, da música e da produção artesanal local;
  • Aprendizado da utilização crítica das informações;
  • Uso de diferentes dinâmicas de trabalho em grupo;
  • Orientações para a realização de uma reunião participativa;
  • Utilização básica do telefone celular no trabalho;
  • Uso do computador no trabalho.

4º módulo: Perfis e lutas de ícones históricos contemporâneos:

Este módulo deveria tratar o estudo de perfis históricos dos que lutaram em favor dos valores humanos universais como, por exemplo: Chiara Lubich, Hannah Arendt, Hélder Câmara, Herbert de Souza, Irmãos Villas-Bôas, Lech Walessa, Mahatma Gandhi, Malala-Yousafzay, Martin Luther King, Nelson Mandela, Olympe de Gouges (Mary Gouges), Papa Francisco, Samora Machel, Simone Well, além de escritores e poetas latino-americanos, e de outros mais conhecidos em cada região, que tenham ilustrado, com o seu testemunho pessoal e as suas ideias, esses valores.

As sugestões aqui apresentadas são apenas provocativas à capacidade criativa de educadores envolvidos nos mais diversos espaços educativos. Estou certa de que muitos deles poderiam sugerir novas ideias para a reorientação da grade curricular do ensino fundamental e médio, sem esquecer as práticas cotidianas de "civilidade" para o aprendizado da cidadania. A começar pelos espaços estruturais da escola, pela relação entre os seus professores, e desses com os estudantes.

Chegará um dia – assim desejo e acredito – que essas práticas chegarão a inspirar mudanças também nas relações entre os alunos, nas suas vivências no esporte e no lazer, nos seus trabalhos futuros. Uma mudança que, infelizmente, ainda deixa a desejar não só nas escolas – públicas e privadas – mas, também nas universidades, nos condomínios residenciais e nas vilas populares; nas residências da classe média com os seus empregados; na gestão e no respeito às normas do trânsito; nas práticas das associações de moradores e no uso dos espaços públicos de lazer, entre outros.



Assim, vejo essas ideias como um primeiro esboço de sugestões que me ocorrem, enquanto paciento a escuta de jornais televisivos, de informações na internet e das notícias e comentários nas rádios.


Um esboço ficaria incompleto se eu não o pusesse à disposição de cidadãos e cidadãs que continuam acreditando na educação para todos como uma das maiores intervenções da civilização secular.

Ao escrever "todos", não quero dizer “também para os pobres”, quero dizer que os pobres deveriam ser incluidos e, com eles, cidadãos e cidadãs que – mesmo tendo alcançado altos níveis de instrução e conhecimento – lamentavelmente ainda estão carentes do aprendizado de muitas práticas de civilidade.

Alguém desejaria mais algum exemplo convincente? Basta acompanhar as informações que circulam sobre a falta de hombridade e de responsabilidade solidária daqueles que, infelizmente, a maioria dos cidadãos delegou o poder de representá-los nas casas legislativas do país, em nossos dias.

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Crédito de Imagens:

Imagens 1,2,4,5,7 - www.canstockphoto.com.br
3 - Programa Jovem Aprendiz - Divulgação
6 - Meninos e Meninas de Rua - Divulgação

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