Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

PAPA FRANCISCO - ENTREVISTA

29 de maio de 2017


O Espaço Poese faz uma pausa na atenção às tramas políticas e aos embrulhos críticos inerentes à grave situação do país.  

O momento é de grandes expectativas, e precisamos nos permitir quiçá uma fresta de Esperança  porque ainda amamos o povo de que fazemos parte, porque continuaremos a defender a democracia, e porque as instituições responsáveis pelo julgamento dos fatos atuais podem crescer em estatura cidadã e responsabilidade – se os seus integrantes se permitirem – surpreendendo o país com intrepidez e grandeza ética.
   
Dito isto – os graves momentos históricos demandam paciência – trago aos leitores uma entrevista com o Papa Francisco, concedida ao jesuíta Pe. Antonio Spadaro (hoje cardeal), na Casa Santa Marta (Roma). Mais que uma entrevista, tem-se a cobertura temática do que pensa o papa sobre diferentes questões.  A entrevista foi dada cinco meses após a eleição de Francisco a Bispo de Roma. A sua leitura corrobora a fé de que, mesmo em tempos de tanta hipocrisia, há magnitude na humanidade.

A conversa se desenvolve de forma espontânea: é um longo diálogo entre dois amigos da mesma congregação, na residência de Papa Francisco  Casa de Santa Marta, fora do Vaticano – onde ele se hospeda com sacerdotes e bispos, alguns permanentes, outros de passagem.

Em tempo: Do corpo da entrevista – que no texto original tem 20 páginas – deixamos de apresentar tópicos ligados a questões específicas da Congregação dos Jesuítas, ao Sínodo dos Bispos, e alguns comentários do entrevistador.  

O texto nos faz compreender melhor quem é Francisco Bergoglio, e sua visão sobre a missão da Igreja e dos cristãos no mundo contemporâneo. Hoje, seus gestos de abertura ao diálogo conquistaram o respeito de muitos, inclusive dos não crentes e de pessoas de outras religiões.

Ao longo da entrevista é possível acompanhar o que pensa Francisco sobre questões atinentes à sociedade contemporânea: ecumenismo, diálogo com as diferenças, divórcio, homossexualidade e outros. Para facilitar a leitura criamos subtítulos e dividimos a entrevista em postagens sequenciais a serem publicadas neste Espaço a partir de agora.  
Iniciamos hoje com a brilhante introdução do Pe. Antonio Spadaro (o entrevistador) e, em seguida, a fundamental questão da entrevista:  Quem é Jorge Bergoglio?
Introdução

É segunda-feira, 19 de agosto. O Papa Francisco marcou encontro para as 10:00h na Casa de Santa Marta. Eu, no entanto, herdei do meu pai a necessidade de chegar sempre mais cedo. As pessoas que me acolhem instalam-me numa pequena sala. A espera dura pouco, e, depois de uns breves minutos, acompanham-me ao elevador. Nesses dois minutos tive tempo de recordar como em Lisboa, numa reunião de diretores de algumas revistas da Companhia de Jesus, surgiu a proposta de publicar conjuntamente uma entrevista ao Papa. Tinha conversado com os outros diretores, ensaiando algumas perguntas que exprimissem os interesses de todos. Saio do elevador e vejo o Papa já à porta, à minha espera. Na verdade, tive a agradável impressão de não ter atravessado portas.

Entro no seu quarto e o Papa convida-me a sentar numa poltrona. Ele senta-se numa cadeira mais alta e rígida, por causa dos seus problemas de coluna. O ambiente é simples, austero. O espaço de trabalho da escrivaninha é pequeno. Toca-me a essencialidade não apenas dos móveis, mas também das coisas. Veem-se poucos livros, poucos papéis, poucos objetos. Entre estes, um ícone de São Francisco, uma estátua de Nossa Senhora de Luján (padroeira da Argentina), um crucifixo e uma estátua de São José adormecido, muito semelhante àquela que tinha visto no seu quarto de reitor e superior provincial, no Colégio Máximo de San Miguel. A espiritualidade de Bergoglio não é feita de «energias harmonizadas», como ele lhe chamaria, mas de rostos humanos: Cristo, São Francisco, São José, Maria.

 O Papa acolhe-me com o mesmo sorriso que já deu várias vezes a volta ao mundo e que abre os corações. Começamos a falar sobre muitas coisas, sobretudo da sua viagem ao Brasil. O Papa considera-a uma verdadeira graça. Pergunto-lhe se descansou. Ele diz-me que sim, que está bem, mas, sobretudo, que a Jornada Mundial da Juventude foi para ele um “mistério”. Diz-me que nunca foi habituado a falar para tanta gente:
 
– “Consigo olhar para as pessoas, uma de cada vez, e entrar em contato de modo pessoal com quem tenho na minha frente. Não estou habituado às massas”, comenta

Digo-lhe que é verdade e que se vê, e que isto impressiona toda a gente. Observa-se que quando está no meio das pessoas os seus olhos, de fato, pousam sobre cada um. Depois as câmaras televisivas difundem as imagens e todos podem vê-lo, mas assim ele pode sentir-se livre para ficar em contato direto, pelo menos visual, com quem tem diante de si. Parece-me contente com isso, por poder ser aquilo que é, por não ter de alterar o seu modo habitual de comunicar com as pessoas, mesmo quando tem diante de si milhões de pessoas, como aconteceu na praia de Copacabana. Antes de eu ligar o gravador, falamos de outras coisas. Comentando uma minha publicação, disse-me quais os pensadores franceses contemporâneos que lhe são prediletos: Henri de Lubac e Michel Certeau. (i)  Digo-lhe ainda algumas coisas mais pessoais.

 Em seguida ele me fala de si e particularmente da sua eleição pontifícia. Diz-me que quando começou a dar-se conta de que corria o risco de ser eleito na quarta-feira, dia 13 de março (2013) à hora do almoço sentiu descer sobre ele uma profunda e inexplicável paz e consolação interior, e, ao mesmo tempo uma escuridão total e uma obscuridade profunda sobre tudo o mais. E que estes sentimentos o acompanharam até à eleição. Na verdade, teria continuado a falar assim, familiarmente, por mais algum tempo, mas abro as questões anotadas e ligo o gravador.

Antes de mais, agradeço-lhe em nome de todos os diretores das revistas dos jesuítas que publicarão esta entrevista. Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da Civiltà Cattolica, o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta:

"Não me reconheci a mim mesmo quando no voo de regresso do Rio de Janeiro respondi aos jornalistas que me faziam perguntas”, diz-me. 

Na verdade, nesta entrevista, várias vezes o Papa sentiu-se livre para interromper aquilo que estava a dizer, respondendo a uma pergunta, para acrescentar algo sobre a precedente. Falar com o Papa Francisco é, realmente, uma espécie de fluxo vulcânico de ideias que se atam entre si. Mesmo o tomar apontamentos traz a desagradável sensação de interromper um diálogo nascente. É claro que o Papa Francisco está mais habituado a conversas do que a lições. Tenho as questões prontas, mas decido não seguir o esquema que fixara e pergunto um pouco à queima-roupa:
    
Quem é Jorge Mario Bergoglio?
    
 O Papa fixa-me em silêncio. Pergunto se é uma questão lícita para lhe colocar… Ele faz sinal de aceitar a pergunta e me diz: 

– “Não sei qual seria a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador”.
Continua a refletir como se não esperasse aquela pergunta, como se fosse obrigado a uma reflexão ulterior.

 – “Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei me mover, mas é verdade que sou também um pouco ingênuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou”.
E repete: “Sou alguém que é olhado pelo Senhor. O meu mote: Miserando atque elegendo, sempre o senti como muito verdadeiro para mim”.
    
O mote do Papa Francisco foi tirado das Homilias de São Beda, o Venerável, o qual, comentando o episódio evangélico da vocação de São Mateus, o evangelista, escreve: Viu Jesus um publicano e o olhou com um sentimento de amorescolheu-o e disse-lhe: Segue-me».
     
Em seguida o papa acrescentou:
 
“– O gerúndio latino ‘miserando parece-me intraduzível, seja em italiano seja em espanhol. Gosto de o traduzir com um outro gerúndio que não existe: misericordiando”.
   
Papa Francisco continua a sua reflexão e diz-me, fazendo um salto cujo sentido não compreendo no momento:

– “Eu não conheço Roma. Conheço poucas coisas. Entre estas, Santa Maria Maior, São Pedro. Mas, vindo a Roma sempre vivi na Via della Scrofa (uma rua no centro de Roma). Dali visitava frequentemente a igreja de São Luís dos Franceses e ali ia contemplar o quadro da vocação de São Mateus, de Caravaggio. Aquele dedo de Jesus assim… dirigido a Mateus. Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus

Começo a intuir o que o ele quer dizer. Torna-se, então, mais decidido, como tivesse encontrado a imagem de si próprio de que estava à procura:
 
 – "É o gesto de Mateus que me toca: agarra-se ao seu dinheiro, como que a dizer: Não, não eu! Não, este dinheiro é meu! Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar. E isto é aquilo que disse quando me perguntaram se aceitava a minha eleição para Pontífice”.
   
Então sussurra:

"Peccator sum, sed super misericordia et infinita patientia Domini nostri Jesu Christi, confusus et in spiritu penitentiae, accepto”.
 "Sou pecador, mas confiando na misericórdia e paciência infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em espírito de penitência, aceito”.

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* O texto integral da entrevista ao Papa Francisco pode ser acessado - em português, italiano, francês, espanhol, alemão e inglês - no seguinte link:
w2,vatican.va/content/francesco/speeches/2013/september/documents/papa-francesco_20130921_intervista-spadaro.html
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i)  Henri-Marie de Lubac  (20 de fevereiro,1896 -Cambrai /4 de setembro.1991/Paris) foi um cardeal francês da Companhia de Jesus. Contribuiu para aprofundar o entendimento do fim sobrenatural do homem e sua relação com a graça. Participou do Concílio Vaticano II como perito. O Papa João Paulo II o fez cardeal em 1983.
Michel de Certeau (Chambéry-França), 1925 / Paris, 9 de janeiro de 1986. Foi um historiador e erudito francês que se dedicou ao estudo da psicanálise, filosofia, e ciências sociais. Intelectual jesuíta, é autor de inúmeras obras fundamentais sobre a religião, a história e o misticismo dos séculos XVI e XVII.

Crédito Imagens:

1. "A Misericordia", quadro oferecido ao Papa Francisco por ocasião de uma audiência concedida ao Movimento "Economia de Comunhão", em fevereiro de 2017.  
2. Cardeal Antonio Spadaro - publikum
3. Papa Francesco e o então Padre Antonio Spadaro, jesuíta - no dia e local da entrevista. www.ihu.usininos.br
4. Durante a entrevista: Papa Francisco e o jesuíta Antonio Spadaro - www.ihu.usininos.br.
5. Papa Francisco - www.controversia.com.br
6. Vocação de São Mateus ou Invocação de São Mateus - pintura do pintor barroco italiano Caravaggio concluída em 1599-1600 para a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, onde ainda pode ser vista, em Roma.

Nota - As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com






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